quarta-feira, 1 de abril de 2026

Eu abri o app seis vezes. Prometo que esta sétima será a última

Tudo começou quando baixei um novo app no meu celular. Não, não vou dizer o nome dele, não sou idiota o suficiente pra deixar outras pessoas se machucarem também. Fico um pouco envergonhado de admitir exatamente pra quê o app supostamente servia, mas, sem entrar em detalhes, ele despertou meu interesse.

Quando o abri, fiquei decepcionado ao ver apenas uma tela preta. Tentei reiniciá-lo. Mesma coisa. Apenas o meu reflexo fraco me encarando de volta. Olhei pra mim mesmo e dei um sorriso. Quando finalmente desisti e fechei o app, uns 20 minutos haviam se passado.

Não voltei pro app por alguns dias depois disso.

Numa noite, porém, deitado na cama pra dormir, tentei abri-lo de novo, torcendo pra funcionar dessa vez. De novo, tela preta.

Fiquei encarando.

Alguma coisa nela prendia meus olhos na tela – talvez o tom de preto, ou o reflexo de mim mesmo, talvez só o mistério de por que não mostrava mais nada. Fosse qual fosse o motivo, devo ter ficado olhando por bons segundos.

Quando finalmente fechei o app e pus o alarme pra dormir, percebi que 40 minutos haviam se passado. Fiquei surpreso. Por que eu ainda estava acordado? Caí num sono agitado.

No dia seguinte, na primeira aula, cansei de ficar mexendo nos dedos e me entediando. Às 10:40 da manhã, peguei o celular e abri o app. De novo, preto. Antes que eu pudesse dar mais que uma olhada, fui interrompido.

“Com licença, você está na minha aula?” O professor gritou pra mim.

Levantando os olhos, percebi que não era o meu professor. O slide no quadro não era da minha aula. Verifiquei o celular, marcando 1:20 da tarde. Fiquei surpreso e confuso com como aquilo tinha acontecido.

Envergonhado, saí da sala e tentei alcançar a aula do outro lado do campus em que eu devia estar.

Mais tarde naquela noite, pensei no que tinha rolado. Não conseguia acreditar que tinha ficado olhando pro app por tanto tempo. Não pareceu tanto assim, nem de longe. O mistério me atraía. Queria descobrir qual era a dele. Contra meu bom senso, e junto com um hábito que crescia, cliquei no ícone na tela inicial.

O preto parecia quente. Observei de perto, procurando um sentido nele. Não tinha certeza se encontrei ou não. Fechei quando comecei a me sentir entediado.

Foi aí que notei o sol lá fora. Estava mais claro. Verifiquei a hora. Era… 3 horas antes do que era antes? Não fazia sentido. Levantei e senti dois estalos fortes nos joelhos, e o sangue subiu pra cabeça.

Tonto, fui até a porta da frente e saí pra ver a luz e pegar um ar fresco. Vi que tinha correspondência nova pra mim. Peguei e folheei. Spam. Espera. O quê?

A data estava marcada pra amanhã.

Ou, suponho, pra hoje. Conferi o celular pra ter certeza, e realmente era. Quase um dia inteiro havia passado. 21 horas? Isso é possível mesmo?

A partir dali, jurei largar o app. Até deletei ele.

Por aquele tempo todo, ele ficou no fundo da minha mente. Toda vez que fechava os olhos e via preto. Não vou mentir, eu ansiava por ele. Queria o conforto dele. Mas não podia arriscar. Então não arrisquei. Por umas 3 semanas.

Aí, num dia particularmente ruim, quando desabei na cama à noite, exausto e puto, precisei de alívio. Honestamente, nem ligava se perdesse mais um dia de tempo. Além do mais, talvez dessa vez, depois de reinstalar, ele funcionasse direito.

Quando terminou de baixar, com um frio na barriga nervoso, abri o app.

Estava preto. Mas… talvez tivesse algo mais? Achei que via um contorno fraco de alguma coisa. Era difícil dizer. Me inclinei e encarei bem de perto, até meus olhos começarem a arder. Quando desisti, fechei o app. Verifiquei a barra de notificações.

Uma enxurrada de chamadas perdidas, mensagens, e-mails, tudo quanto é coisa, lotado de notificações não lidas.

Agora era dezembro. Pra ser exato, 14 dias haviam se passado.

Perdi uma prova. Vários eventos extracurriculares. As pessoas estavam me procurando. Professores diziam que eu ia ser reprovado. Meu coração afundou. Era um pesadelo.

Levou boas horas pra acalmar o fogo das obrigações que eu tinha deixado pra trás. Fiquei tão envergonhado. Como explicar o que tinha acontecido?

Esses pensamentos sumiram da minha cabeça quando tentei levantar e sair da cama. Desabei no chão na hora, as pernas doendo e fracas. Minha visão estava embaçada. Fiquei ali no chão, lutando pra me levantar por vários minutos. Quando finalmente consegui, fiz uma refeição. Estava morrendo de fome.

Enquanto comia meu ramen sentado, peguei o celular pra checar o Instagram. Ele escorregou da mão e os dedos apertaram a tela enquanto tentava impedir que caísse na tigela, falhando.

Frustrado, olhei pra tigela cheia de ramen com o celular saindo dela.

A tela estava preta.

Tinha desligado? Ou…? Meus olhos se arregalaram e encarei fundo na escuridão tinta. Provavelmente tinha só desligado.

Tirei o celular da tigela de ramen seco e encrostado. Seco? Mas eu tinha acabado de fazer. Tentei ligar, sem sucesso. Tinha quebrado? Pensei em colocar no carregador pra ver se voltava.

Na tentativa de levantar, desabei direto no chão duro, o sangue inundou meu corpo, e apaguei rápido.

Quando acordei, levantei grogue e levei o celular pro carregador no quarto. Meu corpo doía horrivelmente por todo lado.

Tinha pavor de ver quanto tempo havia passado.

Março. 2026. Em outras palavras, 1,25 ano se foram.

Nem conseguia acreditar na hora. Pensei que devia ser só um sonho. Não dava pra explicar. O que esse app estava fazendo comigo?

Tenho escrito isso aqui pra registrar todas as vezes anteriores que lembro de ter usado o app. 20 minutos, 40 minutos, 2,5 horas, 21 horas, 14 dias, depois 1,25 ano. Pelo que vejo, cada vez seguinte multiplica por um grau maior. Primeiro 2x, depois 4x, 8x, e assim por diante.

Se for verdade, da próxima vez que abrir o app… 80 anos vão passar.

Durante esse ano, fui expulso da faculdade. Perdi meus amigos. Perdi praticamente tudo, pelo que vejo. Mas… não sinto nada. Talvez ainda não tenha batido. Mas não paro de pensar no que pode ter visto na escuridão. Juro que tinha algo lá. Se eu abrir só mais uma vez, vou descobrir. E se descobrir, talvez o tempo nem passe.

Decidi agora. Vou dar uma olhada, só um vislumbre, logo depois de postar isso. Atualizo depois. Voltem em breve.

Minha Porta Não Ficava Trancada

Fazem algumas semanas, mas eu me lembro de chegar em casa tarde do trabalho naquela noite. Estava chovendo forte. Eu tinha ido fazer compras no caminho de volta e carregava sacolas encharcadas nas duas mãos. Eu tropecei pela porta da frente, cansado, buscando imediatamente o conforto do interior quente e seco. Embora meu corpo protestasse, guardei as compras e fui direto para a cama. Quando acordei na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, descobri que a porta da frente já estava destrancada. Devia estar tão desesperado para deitar a cabeça no travesseiro que esqueci completamente de trancá-la. Não vou cometer esse erro de novo.

Alguns dias depois, a mesma coisa aconteceu, embora eu me lembre distintamente de ter trancado desta vez. Testei o mecanismo algumas vezes e sacudi a maçaneta. A porta ficou firmemente no lugar. Devo estar perdendo a cabeça.

Quando aconteceu pela terceira vez, comecei a ficar preocupado. Qualquer um poderia entrar da rua. Entrei em contato com meu proprietário. Eles precisaram passar em algum horário absurdo? O inquilino anterior ainda tinha a chave? Ele pausou e insistiu que não tinha ido lá, e deu uma resposta vaga sobre o inquilino anterior, sem se lembrar completamente se devolveu todas as chaves. Insisti por uma fechadura nova na porta. Ele só concordou se eu pagasse metade.

A nova fechadura foi finalmente instalada, e eu dormi muito mais tranquilamente aquela noite. Especialmente quando vi que havia só duas chaves: uma para mim e uma para o proprietário. Eu até comemorei um pouco, pedindo minha comida para viagem favorita. Isso só tornou tudo muito pior quando descobri que a porta estava destrancada de novo. Por que ele estava fazendo isso comigo? Confront ei o proprietário desta vez, acusando-o abertamente de entrar na minha casa enquanto eu dormia! Claro que ele negou, então chamei a polícia, mas eles não ajudaram. Sem sinais de arrombamento, e nada tinha sido levado. Nenhum crime cometido, pelo que lhes dizia respeito. É seguro dizer que ele e eu não estamos mais nos melhores termos. Decidi que não ia me deixar sofrer essa invasão de privacidade por mais tempo e entreguei meu aviso de desocupação. Ele aceitou ansiosamente, até dispensando o período usual de 4 semanas de aviso prévio. Guardei minhas coisas num depósito e fiquei pulando de sofá em sofá na casa de alguns amigos por um tempo.

Nem lá eu estava seguro, e as portas da frente deles também ficavam destrancadas pela manhã. Foi quando comecei a sentir que estava enlouquecendo de verdade. Pior ainda, agora eu estava sendo acusado de deixar as portas destrancadas, a ponto de a maioria parar de me oferecer o sofá para dormir. Naquele ponto, eu já tinha um novo lugar garantido e podia quase me mudar, então só precisei ficar num hotel por algumas noites. Consegui um quarto decente, individual, com acesso por cartão-chave, câmeras no corredor e segurança na entrada principal. Senti-me mais seguro do que em muito tempo.

E eu estive seguro por um tempo. Verificava a porta toda noite. Sempre estava segura. Eu tinha certeza. Mas claro, na manhã em que fiz o check-out, minha porta estava livre para abrir. As fechaduras magnéticas controladas por cartão-chave, nada mais que pedaços inúteis de metal. Perguntei à recepção por que minha fechadura não funcionava, mas eles me deram o melhor sorriso de atendimento ao cliente e ofereceram platitudes para me tirar pela porta sem fazer uma reclamação oficial. Eu estava prestes a pedir para ver as imagens das câmeras da noite anterior, mas notei que a segurança estava me observando, pronta para intervir, então fui embora. Eu tinha que levar minhas coisas para o novo lugar de qualquer jeito, e as câmeras do hotel me deram a ideia de instalar uma própria. Eu a apontaria para a porta do meu novo lugar e pegaria quem quer que estivesse pregando essa peça cruel em mim.

No primeiro dia, mudei só os essenciais imediatos. Estava ficando tarde, e eu estava cansado, então, como planejado, configurei meu celular para gravar a porta da frente. Comecei a gravar logo antes de ir para a cama, garantindo capturar eu trancando e testando a porta. Caí num sono inquieto aquela noite, ansiosamente esperando ver o que meu celular capturou. Acordei grogue, por volta das 5h, mas saí da cama e fui verificar a porta. Está destrancada. Dessa vez eu os peguei! Segurando o celular com a mão trêmula, criei coragem para parar a gravação e reproduzi-la. Foi um monte de nada. Eu, trancando e testando a porta, depois nada. Só uma porta trancada e inofensiva. Alguns motes de poeira passavam de vez em quando, refletindo a luz de volta para a lente. Aumentei a velocidade para x2, depois x3, quando notei algo entrar no quadro e sair de novo. Bati no botão de pausa. Senti minha batida cardíaca no peito e na garganta. Uma percepção repentina me atingiu. Isso estava dentro. Capturou algo dentro da minha casa. Sentindo-me muito exposto, recuei para a segurança do banheiro. Trancando a porta, verifiquei se estava sozinho antes de me esgueirar para o chão frio de azulejo. Reproduzi de novo, esperando ver a figura e então pausar. Entrei os olhos, como se isso fosse afiar os pixels na tela, e tentei ver quem tinha invadido minha casa. Essa pessoa tinha minha altura e constituição. Até o jeito de andar era similar, só que mais lento. Estranhamente, não usava sapatos e vestia roupas muito leves, dado o tempo atual. Os poucos frames finais conseguiram capturar o rosto, e minha mente nadou em pensamentos incoerentes. Era eu na câmera. Meus olhos bem fechados no sono, mas caminhando em direção à porta, destrancando-a e saindo do quadro. Isso não parecia certo. Eu não parecia certo. Eu não ando dormindo.

Repeti meu experimento mais algumas vezes. Era sempre o mesmo. Até o horário era consistente. Toda noite às 2:48 da manhã, eu aparecia, destrancava a porta e voltava para a cama. Foi quando decidi ver o que aconteceria se eu ficasse acordado. Voltei para casa depois de um dia desfocado no trabalho, armado com cafeína e determinação. Configurei o celular de novo, iluminando bem o espaço. Tinha café, filmes, jogos, alarmes, qualquer coisa para entreter e distrair. Logo eram 2:30 da manhã. Meus olhos lutavam, mas eu aguentava. Ia me arrepender depois. O visor do relógio piscou 2:45 da manhã, e eu já tinha largado qualquer pretensão de me distrair. Estava sentado no sofá, encarando… 2:46… 2:47… 2:57… Isso não era possível. Agora eu estava deitado na cama. Puxei as cobertas e corri para checar a gravação do celular. Lá estava eu, de novo. As luzes fortes facilitavam ver. Dessa vez eu estava mais animado. Corri para a porta. Procurei freneticamente as chaves no gancho usual, as deixei cair, então as enfiei com urgência na fechadura. Depois de destrancar a porta, recuei rapidamente e me preparei, como se esperando algo acontecer. Mas nada aconteceu. Minha cabeça inclinou para o lado como se escutando e, após uma pausa, me virei, olhos ainda bem fechados, e saí do quadro arrastando os pés.

Depois disso, as coisas começaram a ficar mais erráticas. Meu dia estava normal, mas eu nunca consigo ficar acordado até as 2:48 da manhã. Continuava configurando o celular à noite. Já não caminhava calmamente para a porta, mas corria. Destrancava a porta com um senso maior de urgência, recuava, se preparava, esperava, escutava, antes de finalmente se virar e voltar para a cama.

É por isso que estou escrevendo para vocês. Na noite passada, segui a mesma configuração e gravei meus minutos de caos noturno, mas as coisas não saíram exatamente como antes. Acordei de manhã e encontrei o celular no chão, derrubado do tripé. Quando assisti à gravação, eu não estava mais de pé, mas curvado, agachado mesmo. Aproximei-me da porta como se fosse um animal selvagem ferido, com movimentos firmes, oferecendo uma mão estendida e tranquilizadora, mas recuando a qualquer sinal de movimento. Só que a porta não se movia. Depois de finalmente destrancá-la, sentei nos calcanhares e esperei. De vez em quando, minha cabeça virava bruscamente para um ponto no quarto fora do quadro, antes de voltar para a porta. O que eu fiz em seguida, só de imaginar, ainda envia um arrepio rastejante pelos meus ossos. Minha versão noturna, ainda sentada nos calcanhares, ficou completamente rígida e imóvel. Com movimentos tensos e trêmulos, minha cabeça começou a virar em direção ao celular, eu estava sorrindo, parecia antinatural, e, pela primeira vez, meus olhos estavam bem abertos, encarando diretamente a câmera. Um braço atirou em direção ao celular, derrubando as imagens. Fiquei tão pego de surpresa que quase perdi. Foram só alguns frames antes de o celular ser derrubado. A maçaneta da porta tinha começado a girar.

Estou atualmente sentado numa cafeteria com meu laptop, digitando isso para vocês, tentando afastar o sono. Não sei o que está acontecendo comigo, ou o que está do outro lado da minha porta. Só sinto que o que quer que aconteça esta noite, talvez eu não esteja por aqui para contar a vocês pela manhã. Não devia ter tentado ficar acordado aquela noite. Talvez um de vocês aprenda com meu erro. Até a manhã, fiquem seguros e boa noite.

sábado, 28 de março de 2026

Menina Morta na Parede

A primeira vez que senti aquilo eu tinha seis anos. Minha mãe me levou a um museu para me mostrar retratos de figuras históricas: George Washington, Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt. Eu me divertia passeando pelas salas, olhando os trajes coloridos e os armamentos do fim de século.

Lembro que descia uma das exposições apontando para os homens nos quadros. Passei por cada um e senti algo estranho: um buraco no estômago, uma fome dolorosa — mas não de comida. Era inquietante. Só acontecia quando eu olhava para certos retratos: especificamente fotos de pessoas mortas.

Corri pelo corredor, olhando um a um: morto, morto, morto. No fim, havia um retrato mais moderno — “funcionário do mês”.

Mesmo assim, aquela sensação não passava. Quando minha mãe me pegou, abracei sua perna, apontei para a foto e comecei a chorar, tentando entender.

— Mãe, mãe — disse, apontando. — Tem um homem morto na parede!

— Isso não é um homem morto — respondeu ela. — Ele trabalha aqui.

— Não, ele está morto! Ele está morto, mãe!

Aconteceu que eu estava certo: ele havia morrido num acidente dias antes.

Meus pais me avisaram para não falar sobre aquilo. Acho que nunca acreditaram totalmente que era algo real. Descartavam minhas preocupações e reviravam os olhos quando eu contava. Com o tempo, passei a ver aquilo como algo “feio”, como algo de que não se fala em boa companhia. Até hoje, quando vejo fotos de crianças desaparecidas na parte de trás de caixas de leite e sinto aquele afundamento no estômago, sei com certeza que a história não será boa.

Só quando olhamos para trás é que percebemos quanto algo nos marcou. Por exemplo: nunca moldurei nenhuma foto. Minhas paredes só têm pinturas abstratas ou pôsteres de jogos. Nada com rostos reais. Não quero olhar para fotos e sentir aquele buraco voltar. É desagradável, mesmo quando espero. Mesmo figuras históricas ou celebridades provocam o mesmo sentimento. A morte é a morte. Quanto mais tempo essa sensação persiste, mais demora para eu me recompor.

Pensei em entrar para a polícia, mas nunca acreditei que minha habilidade fosse real. Não parece “real”, sabe? As únicas pessoas que sabiam tentaram esconder isso, e depois de um tempo você para de brigar contra elas. Cheguei a acreditar que era tudo ilusão, que eu estava quebrado por sequer considerar que era verdade.

Mas, no fundo, eu sabia.

Acabei virando ilustrador. Na adolescência descobri que meu “sentimento” não funciona com retratos estilizados ou caricaturas; só com retratos realistas. Então tento evitá-los. Desenvolvi um estilo meio quadrinhos ocidentais, meio realista, e tive uma webcomic bem popular no final dos anos 2010, com cerca de 35 mil leitores regulares. Parei de atualizar quando consegui um emprego em tempo integral numa editora: somos uma equipe de ilustradores que faz uma revista mensal há quase 40 anos.

Tenho muitas bênçãos: moro numa bela casa, conheço gente interessante, vou a convenções pelo país, sou convidado para painéis e não preciso me preocupar todo mês com o salário. Amo meu trabalho e as pessoas com quem trabalho, e não vejo isso mudando tão cedo.

Mas, no fundo da minha mente, aquela coisa continuava me incomodando. Aquilo que me impede de olhar muito para fotos nas paredes ou programas antigos na TV. Sempre que sintonizo uma reprise de game show ou uma sitcom dos anos 90, minhas entranhas gritam algo: morto, morto, morto.

Dois anos atrás eu morava sozinho. Voltando do trabalho, notei alguém se mudando do outro lado da rua: um homem, duas crianças e um caminhão cheio de coisas. Ele lutava para sustentar uma caixa. Vi a etiqueta “frágil” e decidi oferecer ajuda. Ser um bom vizinho faz parte do que se espera por aqui.

— Precisa de ajuda, vizinho? — chamei.

— Acho que sim — respondeu ele.

Peguei o fim da caixa quando ele relaxou os ombros. Ajudei a levá-la e ele me ofereceu a mão para cumprimentar. Os dois filhos, de uns oito a dez anos, corriam subindo e descendo as escadas para buscar coisas. O homem se apresentou como Carl. Ele estava a desfazer caixas o dia todo, mas ainda longe de terminar. Eu tinha uma hora antes de sair, então me ofereci para ajudar com as coisas mais pesadas.

Movemos um sofá, uma mesa, uma estrutura de cama e a mesa da cozinha antes de eu ir embora. Carl me convidou para tomar uma cerveja na cozinha. Não sou fã de cerveja, mas quando oferecem, não se recusa.

— Aproveite — disse ele. — Sério.

— Obrigado, prazer em ajudar — respondi.

— Vou ter que dizer à vizinha do outro lado que ela tem gente boa por aqui — sorriu ele. — Ela deve passar amanhã, dá uma passada lá.

— Não foi nada — disse. — Não se preocupe.

— Não, insisto. O jantar é por nossa conta.

Tomei um gole enquanto ele pendurava uma foto da família na parede: os quatro sorrindo, provavelmente no Grand Canyon.

Mas havia algo na mulher da foto.

À primeira vista, nada fora do comum: cabelos castanhos longos, olhos avelã, bochechas prontas para sorrir. Mas tudo o que senti foi escuridão. Um poço no meu estômago. Sem dúvida: aquela mulher estava morta. Uma menina morta na parede.

Fiquei sem saber o que dizer. Acho que Carl percebeu algo no meu comportamento, mas não comentou. Terminamos as cervejas e seguimos caminhos diferentes enquanto ele pegava outra caixa rotulada “escritório”.

Voltando para casa, não sabia mais no que acreditar. Talvez algo tivesse acontecido com ela e ele não soubesse. Se fosse isso, eu deveria falar ou esperar que ele descobrisse sozinho?

No fim, nada fiz.

No dia seguinte bateram à minha porta por volta das 17h. Abri e vi Carl e a mulher dele. Ela tinha o mesmo sorriso da foto — o mesmo cabelo, só um pouco mais longo.

— Ei, vizinho! — disse Carl. — Obrigado pela ajuda o outro dia.

A esposa apertou minha mão e se apresentou: Allie. Fiquei confuso. Eu tinha certeza de que ela estava morta. Seria a primeira vez que minha intuição falhava. Foi perturbador.

— Pensamos em fazer um jantar — disse Allie. — Que tal?

— Não preparei nada — respondi, gesticulando para a minha cozinha.

— Você é nossa convidada, não se preocupe — disse Carl, dando um tapinha no meu ombro.

Eles eram extrovertidos. Coloquei os sapatos e fui com eles até a casa.

Allie e Carl foram ótimos anfitriões. Os filhos eram barulhentos, mas ficaram nos quartos. Serviram rigatoni ao molho caseiro com bastante parmesão; Carl ralou o queijo à mesa. Elegante.

Sentei na ponta da mesa, com as fotos de família na parede bem à minha frente. Havia uma dúzia delas: Carl e Allie bolando, acampando, casando. Allie havia escrito pequenas anotações com uma caneta azul: “O melhor dia de todos”, “Memórias para a vida”.

Morto, morto, morto. Menina morta na parede.

A sensação voltou em cada imagem. Sentir aquilo no meio do jantar me deixava estranho; eu até disfarçava um pouco. Allie comentou de leve que era bom ver alguém com apetite.

Foi um bom jantar. Conversamos por horas. Carl trabalhava no mercado imobiliário; Allie cuidava de aluguel de carros e organização de eventos. Tinham empregos sazonais, então podiam se mudar e viajar entre as temporadas.

Quando Allie foi verificar as crianças, notei algo no olhar de Carl: um olhar demorado, um sorriso que não chegava. Ele balançou a cabeça e baixou a voz.

— Estou feliz que ela esteja inteira — disse. — Ela sofreu um acidente no ano passado; as coisas têm sido meio... você sabe.

Assenti. Ouvi risos e passos lá em cima.

— O que aconteceu?

— Estourou um pneu entrando numa curva a 120 km/h. Ela foi para fora da estrada. Por sorte, sobreviveu com alguns ossos quebrados. O carro foi destruído, caiu num rio.

Senti um frio. Balancei a cabeça, tentando disfarçar.

— Sinto muito — disse. — Não consigo imaginar.

— Ninguém consegue, até estar ali — respondeu ele.

Eu não conseguia explicar o que via. Allie estava ali em cima, viva, mas tudo gritava que ela estava morta e desaparecida.

Ela voltou para a sala e tomamos vinho, falamos sobre trabalho e a noite acabou. Troquei redes sociais com eles e, antes de sair, pedi para tirar uma foto.

Eles não se importaram. Allie sorriu abraçando o marido; tirei a foto tentando não parecer desconfortável. Sorri o caminho todo para casa, mas assim que fechei a porta, abri a foto. Olhei e olhei até ter certeza: ambos estavam muito vivos.

Tentei cobrir Carl com o polegar, nada mudava. Naquela foto, Allie estava viva. Mas durante o jantar eu havia visto fotos de uma mulher morta. Tinha certeza disso.

Aquela contradição trouxe perguntas que eu não me lembrava de ter feito antes. Tentei me lembrar de uma vez em que eu havia errado, mas faltava-me exemplo. Desde o primeiro homem no museu, eu vinha acertando quem estava morto só olhando fotos. Às vezes duvidei, mas no fim eu estava certo.

Pela primeira vez em anos sentei e pensei no que tudo aquilo significava. Testei algumas fotos online para ver se ainda distinguia vivo de morto: verifiquei notícias e artigos na Wikipédia. Vivo, morto, morto, vivo, morto. Nada me confundiu.

Quando faço esses testes, tenho que me levantar e sacudir o desconforto. É como uma cãibra chegando. Na pior fase, isso já me deixou fisicamente doente: no ensino médio, vi um documentário sobre a Segunda Guerra e fiquei tão mal que tive uma convulsão. Os paramédicos tiveram que me sedar.

Achei que não era grande coisa; que eu estava interpretando errado. Devia haver uma nuance com Allie. Sentei e listei explicações possíveis.

E se ela tivesse uma doença que o acidente aparentemente “corrigiu”? Minha sensibilidade sempre foi binária: vivo ou morto. Não detecta nuances como morrer lentamente. Não podia ser isso.

E se ela tivesse recebido um transplante? O órgão doado estaria morto, o corpo vivo. Pesquisei fotos de receptores de transplante de coração: eles apareciam “vivos”; fotos dos doadores apareciam “mortos”. Eu sentia o estado atual, não o passado.

Fiquei até as duas da manhã bebendo chá gelado na mesa da cozinha, olhando a casa escura do outro lado da rua. Cheguei a uma conclusão:

Estava vendo duas mulheres diferentes. Uma viva, outra morta.

Tentei não pensar muito. Eram quase estranhos para mim; devia haver um mal-entendido. Mas, aos poucos, conheci Carl melhor. Trocávamos cumprimentos e conversas leves sobre trabalho e filhos. De vez em quando seu olhar mudava.

Numa vez, o encontrei no estacionamento do mercado. Parei para dizer oi. Carl estava encostado no carro, parecendo cansado. Quando perguntei como iam as coisas, ele demorou a responder e olhou para o céu.

— Às vezes é difícil — murmurou. — Tem que fazer o melhor que dá.

— Focar nas pequenas coisas — tentei.

Ele sorriu, mas manteve o olhar no ar.

— Desde o acidente tivemos que nos ajustar. Às vezes é cansativo. Coisas com dieta, por exemplo. Allie teve que comer mais proteína. Antes éramos vegetarianos, mas agora virou tudo carne, carne, carne. Às vezes jantamos separados. É muito.

— Vocês eram vegetarianos? — perguntei.

— Éramos — disse ele. — Você não sabe metade.

Com o tempo nos aproximamos. Ele não conhecia muita gente na cidade; eu não tinha muitos amigos por perto. Foi bom ter alguém para tomar uma cerveja.

Nas conversas seguintes ouvi mais coisas: Allie levantava à noite sem voltar para a cama; às vezes ele a encontrava no corredor olhando para o nada. Coisas aparentemente sem importância o incomodavam.

— Ela não soa bem quando canta no chuveiro — disse ele. — É bobo, mas está lá.

Ele não tinha explicação além das mudanças pós-acidente. Agradecia por ela estar com ele, mas admitia que não era fácil.

Notei também comportamentos estranhos. Sempre que via Allie pessoalmente, ela era sol e sorriso, mas às vezes fazia coisas estranhas: parava na garagem sem olhar para nada; atravessava frases no meio e fingia que nada aconteceu. Numa noite, trabalhando até tarde, vi a luz da cozinha deles acesa e Allie de robe: ela abriu a geladeira, pegou comida e comeu direto da embalagem de um jeito feroz, quase animal, mordidas desesperadas. Por um momento ela parou, olhou na minha direção — e acenou, lentamente, dedo por dedo.

Algumas noites depois, fui ao jantar deles de novo. Íamos ver um projeto de animação que eu tinha feito anos antes; acho que Carl só queria companhia “normal”. As crianças ficaram nos quartos; Allie estava contida. Quando Carl foi ao banheiro, fiquei sozinho com ela. Ela segurou a bebida, parou de repente, imóvel, e então virou os olhos para mim.

— Não me olhe assim — disse num tom mais baixo.

— Desculpe — respondi. — Está tudo bem?

— Como você pode olhar para mim assim? — continuou. — O que você vê?

Sua mão tremia. Sem pensar, olhei para um retrato na parede e de volta para ela. Ela ligou os pontos e o sorriso foi embora. Não falou mais; deixou a pergunta no ar enquanto me encarava.

Quando Carl voltou, ela retomou a máscara sorridente.

Depois daquela noite, Allie me olhava diferente. Quando ninguém via, ela deixava cair a fachada: um sorriso frouxo, ombros relaxando, movimentos de pescoço estranhos, quase como um cachorro que tenta entender o ambiente. Ficou quase como um jogo. Chegou a uma noite em que eu estava quase indo dormir: fui apagando as luzes quando senti um arrepio. Eu estava só de cueca e camiseta, virei e vi Allie do lado de fora da janela da cozinha, o rosto pressionado contra o vidro num sorriso enorme.

Caí para trás, derrubando pratos no balcão. Ela bateu levemente na janela e soltou um ruído estridente antes de desaparecer na esquina.

Fiquei sentado no chão da cozinha tentando me acalmar. Fechei todas as cortinas e verifiquei as portas.

Tentei evitar a família depois disso. Não queria ficar sozinho com Allie. Quase contei a Carl, mas não queria me envolver. Havia uma chance de piorar. Então me distanciei e passei a focar na minha vida e no trabalho.

Mesmo assim, sinais começaram a aparecer na cidade: avisos sobre alguém mexendo em armários de armazenamento e lixeiras; pets desaparecidos; pássaros meio comidos no quintal de alguém. Notei que em algumas notas deixadas por aí alguém desenhava rostinhos sorridentes com uma caneta azul.

Eu não sabia o que pensar sobre Allie. Havia algo anormal, mas esperava que me deixassem em paz. Por um tempo achei que tinham ido embora. Então acordei com um pássaro meio comido na minha porta.

Decidi confrontá-los. Fui até a casa e bati. Um dos filhos abriu, o que me fez hesitar.

— Sim? — perguntou o garoto.

— Sua mãe ou seu pai estão? — perguntei.

— Mãe tá lá atrás; pai está na loja.

— Vou esperar pelo pai — disse. — Volto já.

— Espera — pediu o menino, segurando meu braço. — Você pode ver uma coisa? Por favor?

Como dizer não?

Ele me levou até a cozinha e apontou para a porta de vidro da sala. Lá fora, Allie estava de quatro, fazendo um som estranho de engasgo, repetido vezes sem conta.

— Ela faz isso faz tempo — disse o menino. — É estranho.

— Você devia contar ao seu pai — respondi.

— Ele sabe — disse o garoto.

Aquela resposta ficou na minha cabeça. O menino saiu correndo quando a porta de vidro se abriu. Ouvi um murmúrio de discussão. Voltei para casa sem pensar duas vezes.

Minha sensação de segurança acabou. Havia farfalhar nos arbustos; tentaram abrir minha porta. Às vezes encontrava pequenas marcações azuis no canto das correspondências: rostinhos desenhados. Sempre que via Allie, ela me encarava como se soubesse exatamente onde eu estava. Às vezes parava no meio do caminho, e Carl tinha que puxá-la. Numa ocasião deixou cair um saco de compras; limões rolaram até a sarjeta. Ela parecia não se importar.

Pensei em chamar a polícia, mas o que eu diria? Eles não tinham feito nada de ilegal óbvio — e eu não podia provar que ela estava “morta”. Afinal, ela estava viva. Ou estava?

Numa noite, alguém bateu à minha porta. Era Carl.

— Queria pedir desculpas — disse ele. — Posso entrar?

Algo em mim disse “não”. O menino tinha dito “ele sabe”. Quanto Carl sabia, afinal? Tirei a mão da fechadura.

— Queria me desculpar por Allie — continuou ele. — Ela não está bem.

— O que quer dizer com isso? — perguntei.

Ouvi um clang metálico na casa deles. Carl fez uma pausa.

— Temos que fazer ajustes — disse. — Ela está te olhando. É algo que temos que considerar.

— Não quero nada com isso — respondi.

— Então abre a porta — insistiu. — Vamos conversar.

— Não vai acontecer.

Carl foi embora; eu o vi atravessar a rua segurando algo afiado na mão direita. Havia um saco de lixo saindo do bolso dele. Allie olhou na minha direção quando ele saiu.

Decidi que era hora de distância: ia para a cabana do meu pai perto do rio, a oeste. Trabalharia remotamente, tinha Wi‑Fi. Carreguei o carro de suprimentos, olhei para trás para ver se alguém me seguia e entrei em casa só para pegar algumas roupas.

Abri o guarda-roupa e, de repente, uma mão agarrou meu pulso.

Meu coração disparou. Tudo em mim gritou pra correr, mas eu estava preso num aperto de ferro. Era Allie, olhos escuros que não piscavam, com um tom amarelado que eu nunca tinha visto. Ela ofegava como um cão; estava visivelmente agitada e mais forte do que parecia. Quando eu ia gritar, a outra mão dela agarrou meu pescoço e me empurrou contra a parede. Carl entrou na sala.

— Ele me vê — sibilou Allie. — Você prometeu.

— Não temos certeza se ele vê — respondeu Carl, com um sorriso tenso. — Temos que saber, parte da promessa.

Allie revirou os olhos, mas acalmou a mão na minha garganta, pousando um dedo nos lábios. Tinha que ter cuidado.

— O que você sabe? — sussurrou ela.

Pensei rápido. Poderia contar sobre as marcações azuis, os pássaros, as visitas à geladeira, mas olhei para Carl em vez disso.

— Eu sei que ela está morta — disse, com raiva contida. — Isso não é mais Allie.

Ele ergueu uma sobrancelha e olhou para ela, depois para mim.

— O que você quer dizer? — perguntou.

Allie estalou, a mão de volta ao meu pescoço. Ela pediu algo a Carl com um gesto. Ele hesitou, frustrando‑a. Ela bateu minha cabeça na parede; sangue escorreu. Cai no chão, com a visão turva.

Allie agarrou uma faca quando Carl finalmente recuou. Eles discutiam entre si: ele tentava uma explicação, ela buscava a lâmina. Pareceu que tinham um acordo: se alguém descobrisse o que era ela, lidariam com isso. Em meio à briga, consegui balbuciar:

— Allie está morta. Essa não é ela. Não é humana.

— Por que ele está dizendo isso? — perguntou Carl, apontando para mim. — Por que diz que você está morto?

Allie começou a rosnar, como um animal encurralado. Atacou Carl; ele deixou cair a faca. Ela o mordeu na perna, conseguiu a lâmina, ajoelhou-se e colocou-a no meu pescoço.

Carl a empurrou. Algo queimou meu queixo e senti sangue mais uma vez. Allie bateu na parede, seu rosnado ficando mais profundo e estranho.

— Isso é mesmo você? — perguntou Carl. — Ainda há algo aí dentro?

Não houve resposta. Parecia que aquela conversa já tinha acontecido antes, e havia chegado a um ponto de ruptura. A mandíbula de Allie se abriu de um jeito errado, como se esticasse além do humano. Suas articulações se moviam para o lado errado; ela parecia uma coisa com boca desproporcional.

Eles lutaram; ela tentou pegar a faca e morder Carl de novo. Em algum momento ele conseguiu empurrá‑la para longe, pegou o telefone e chamou socorro. Ouvi um operador responder enquanto a cozinha virava um caos: pratos quebrados, talheres espalhados. Allie já não fazia sons humanos, só rosnados.

Fiquei ali, murmurando por ajuda, respondendo o que podia ao operador entre desmaios. Quando recobrei parcial consciência, vi Allie na cozinha rasgando plástico e comendo carne crua da geladeira: um maço de bacon, pedaços de carne. Carl voltou com a faca na mão, tinha marcas de mordida no braço. Ele caiu numa mistura de desculpas e cansaço.

— Como assim ela está morta? — perguntou ele.

— O acidente — respondi. — As fotos.

Ele viu a foto no meu celular e caiu em silêncio. Havia cansaço no rosto dele, algo profundo. Ele teve que puxar Allie da geladeira, segurando‑a como um cachorro solto. Jogado para fora, ela correu atrás de algo e fez aquele som estranho, rindo e cacarejando. Vi Carl fechar minha porta com cuidado e dizer algo no limiar — talvez um pedido de desculpas.

Quando a polícia chegou, a família já tinha ido. Tinham saído de carro e deixado uma placa falsa. Quando perceberam que o alarme havia disparado, haviam incendiado a casa para não deixar rastros; o fogo alcançou parte da rua. Tive de trocar tapetes.

Tive pontos na cabeça e um mês de licença do trabalho. A ocorrência foi registrada como invasão de domicílio. Na investigação, muitas coisas sobre Carl e Allie não batiam: documentos assinados com nomes falsos, cortes de cantos. Um dos nomes que usaram era de alguém que morreu num incêndio meses antes.

Tudo começou porque vi a “garota morta” na parede. Desde então vi muita coisa — e suspeito que verei mais. Não sei se minha intervenção me salvou ou me colocou em perigo, mas ainda respiro, então considero vitória.

Não sei exatamente o que Allie era. Pelo que consegui apurar, ela vinha de uma cidade pequena na Dakota do Sul. Mencionava uma “Jéssica”, irmã ou amiga. O acidente foi perto de um rio. Não sei como tudo se conecta. Não sou detetive nem policial; só um sujeito estranho com uma sensação estranha ao olhar fotos.

Escrevo isso para me convencer de que tudo foi real — que o que sinto é real. Posso olhar uma foto agora e sentir a mesma coisa. E sei, com certeza, que Carl e Allie ainda estão por aí — talvez com outros nomes.

Como sei? 

Tenho a foto deles no meu celular.

E sinto que eles estão vivos.

Espelho, espelho, ajude-me a ver mais claro

Se você olhar tempo suficiente para os seus próprios olhos no espelho, algo estranho acontece. Um zumbido fraco enche o estômago. Perguntas sobre quem você é se infiltram na mente e, aos poucos, o rosto no espelho deixa de parecer você.

Não use o espelho. Se você fizer isso, vai acabar na minha posição: trancado numa cela acolchoada branca, obrigado a tomar remédios até que a verdade vire mentira — mentiras cujo único propósito é satisfazer os médicos. Uma coisa boa sobre as mentiras é que, depois de dez anos, eles finalmente me deram acesso aos computadores, para que eu pudesse avisar você. Não use o espelho!

Há mais de dez anos fiquei em frente ao espelho do banheiro da casa dos meus pais, olhando para mim de novo, olhando profundamente nos meus próprios olhos, como minha avó descrevera no diário. Desta vez, porém, o zumbido no estômago se espalhou pelo corpo. Algo estava diferente.

— Espelho, espelho, ajude-me a ver mais claro — disse.

Os olhos no espelho zombavam de mim, fazendo-me sentir tola. Claro que nada aconteceria — uma piada que a vovó deixara no diário antes de morrer. Ela sabia que eu gostava dessas coisas.

“Espelho, espelho, ajude-me a ver mais claro,” repeti mais três vezes. O peito pesava. Cinco vezes. A frase precisava ser repetida cinco vezes. Por que hesitei? Nada aconteceria. Não podia ser tão simples. Nada poderia ser tão simples.

Meus olhos sorriram de volta. Provocavam-me a dizer outra vez. Senti como se estivesse prestes a pular de um penhasco, fazendo algo extremamente perigoso. Cerrei os olhos.

“Espelho, espelho, ajude-me a ver mais claro.”

Meu nariz se mexeu quando o ar ficou subitamente frio. Parecia respirar numa manhã de inverno, mas o ar não estava frio — apenas nítido e limpo. O espelho parecia diferente; ou seria a luz? Algo mudara. Olhei para mim. O sangue gelou. Era meu reflexo, mas outra coisa me fitava.

O canto dos pássaros lá fora parecia abafado, como se eu usasse protetores de ouvido. Todo som sumiu; só a minha respiração ruidosa permanecia. Minha reflexão me olhava. Os olhos sorriam satisfeitos.

“Pergunte”, sussurrou uma voz.

Meus braços ficaram moles, como os do espelho. “O quê?” murmurei.

“Faça uma pergunta.”

Quis desviar o olhar, sair do banheiro, mas o pavor travou minha mandíbula quando tentei virar a cabeça. Minhas pernas não obedeceram. Os olhos no espelho me prenderam.

“O que você é?” consegui perguntar.

“Sou você, só que não sou. Pergunte.”

Esfreguei os olhos. O reflexo fez o mesmo. Era eu, mas não era. A voz soava diferente. Os olhos... não eram outros, mas o que havia por trás deles era. Eles falaram comigo. Conjuraram a voz.

“Ok... eh... por que não funcionou antes?”

“Você esqueceu. Sempre aos domingos. Pergunte.”

“Certo. O que eu esqueci?”

“Você sabe. Pergunte.”

“Ok, bem, terei umas férias agradáveis na próxima semana?”

“Você vai se arrepender”, disse a voz.

De repente, os pássaros voltaram a cantar. Só os meus pés doíam. A luz do lado de fora havia diminuído drasticamente. Minha reflexão sumira. Saí do banheiro e fui para o quarto.

Sei o que você pensa. Eu também pensei: imaginação. Nada além do desejo de ter ouvido aquela voz, uma brincadeira com o reflexo. O que mais poderia ser? Pois aconteceu algo dias depois que me salvou a vida.

No controle de segurança do aeroporto fui detido por contrabando por causa de uma confusão com papelada. Resolvido o mal-entendido, perdi o voo. O voo MH17. Sim, aquele voo abatido sobre a Ucrânia. Fiquei impressionado. A voz previra minha morte. Quase não voltei para casa antes de ficar novamente no pequeno banheiro.

“Espelho, espelho, ajude-me a ver mais claro”, disse, repetindo a frase mais quatro vezes. Não aconteceu nada — até o domingo seguinte, depois de outra noite inteira jogando videogame, quando o reflexo encheu meu corpo com aquele zumbido estranho novamente.

“Eu te disse”, disse a voz.

“Graças a Deus que voltou!” respondi.

“Você esqueceu de novo. Pergunte.”

“Preciso que você apareça quando eu pedir.” O sorriso por trás dos olhos do meu reflexo cresceu. Mordi o lábio.

“Então jogue-os fora.”

Acertei os olhos. “Jogue o quê... fora?”

A voz baixou. “Você sabe.”

O sorriso do reflexo me percorreu a espinha; o estômago revirou. Engoli. “Sim... eu vou jogá-los fora...”

“Bom.”

Como antes, meus pés doeram. A luz lá fora diminuiu. Minha irmã bateu na porta do banheiro, perguntando se eu estava bem. Ela pareceu intrigada quando disse que só ensaiava uma apresentação da escola. Talvez ela soubesse algo? Talvez eu devesse perguntar à voz sobre ela. Primeiro, eu precisava jogar minha caixa fora.

Na calada da noite, esgueirei-me até o lixo. Minha mão resistiu por um instante. Aquela caixa de plástico me ajudava — talvez a vovó estivesse certa. Suspirei e, finalmente, soltei a mão.

Respirei mais forte no dia seguinte quando fui ao banheiro. Será que apareceria? Poderia prever algo? Quando notei o ar gelado, um sorriso enorme me devolveu o olhar.

“O que você pode fazer por mim?” perguntei, hesitante.

“Tudo. Nada. Pergunte.”

“Ok... como você soube do acidente de avião?”

“Você foi notado. Tome cuidado.”

A voz sumiu, assim como a dor nos pés. A luz do dia havia diminuído mais do que antes. Quem estava lá fora para me pegar? Ninguém nunca reparara em mim? Eu era como um fantasma. Só meus amigos online me notavam. Alguns dias depois fui parado pela polícia: a luz traseira da minha bicicleta não funcionava — trocara as pilhas na semana anterior. “Eles estão de olho em você”, disse a voz. Estariam mesmo?

Você pensaria que eram coincidências: pilhas gastas, um lapso. Eu também pensaria assim, se não fosse o que o espelho me ajudou a ver em seguida.

“Não responda.”

“Responder a quem?”

“Aqueles lá fora.”

Naquela noite, três caras num estande em frente ao shopping me perguntaram algo. Eu estava perdido em pensamentos e respondi — e, sem perceber, acabei assinando uma revista. Eu devia saber. Devia ter ouvido.

Nas semanas seguintes, o espelho continuou a me ajudar a ver. A voz me contou coisas sobre o mundo: tramas, manobras, guerras ainda não travadas, acidentes prestes a acontecer, segredos de pessoas e do governo. Sempre que a voz vinha, meus pés doíam mais e tudo parecia mais escuro lá fora. Isso se espalhava por todos os espelhos, mesmo quando eu não o conjurava. Um dia, disse algo sobre minha irmã.

“Ela sabe”, disse a voz, enquanto eu estava sentado na sala de aula, olhando meu espelho de bolso.

“Não, ela não sabe?”

“Você mente. Para mim. Para si mesmo.”

“O que você quer? Por que se importa?”

O sorriso satisfeito no espelho virou carranca. “Se eu sair de novo, outro virá. Eu preciso de você. Você precisa de mim.”

“Eu... eu falo com ela. Nada vai acontecer. Preciso que confie em mim.”

Mais tarde, confrontei minha irmã na cozinha. Ela disse o quanto me amava, como queria que eu melhorasse.

“Não acabe como a vovó”, disse ela. “Você lembra como ela era, não lembra?”

— Mas... — eu disse — o diário dela, as coisas que ela escreveu... funciona. Isso realmente acontece, por que—

Ela me interrompeu, colocando a mão no meu ombro. “Olha, você passa horas em pé diante do espelho do banheiro. Precisa de ajuda. Preciso ajudá-lo.”

Ela puxou-me e me abraçou. Minha mão, como se tivesse vontade própria, tirou o espelho do bolso.

“Salve-me”, sussurrou a voz.

Olhei para o rosto carinhoso da minha irmã, depois para o reflexo no espelho. O coração batia na garganta.

“Deixe-nos ajudá-lo”, disse ela. “Não sou a única que notou.”

Meus olhos encontraram o dela. Ela tivera percebido. Tinham-me notado, como o espelho dissera. Olhei para o meu reflexo.

“Salve-me”, sussurrou a voz de novo.

“Como?” murmurei.

“Deixe comigo.”

Dizem que eu a matei. Não entendo como isso pode ser verdade. Sei, porém, que quando digo mentiras suficientes e eles reduzem minha medicação, eu consigo vê-lo de novo: o sorriso no reflexo, chamando por mim, dizendo que eu não fiz nada de mal.

Por favor: se sentir o zumbido olhando um espelho, nunca peça para ele ajudá-lo a ver mais claro.
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