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sexta-feira, 20 de março de 2026

Eu estava cuidando de algo que não era humano...

Sou uma garota de 21 anos e recentemente terminei com meu namorado rico. Desde então, o dinheiro tá curto pra caralho, e eu tava desesperada por um trampo. Rolei o feed do Facebook um tempo, até ver uma família procurando babá. O pagamento era 560 dólares por hora — uma grana preta mesmo! Eu tava faminta por dinheiro! Mandei mensagem pra eles dizendo que queria cuidar do filho deles. Responderam: “Olá! Muito obrigado por entrar em contato. Nossa última babá sumiu do nada depois de cuidar do nosso filho. Vamos escolher um dia aleatório e te perguntamos se você tá livre nessa noite! Atenciosamente, Peter & Carlie!”

Li aquela mensagem com um sorriso no rosto, mas a página inteira deles era esquisita. O filho era loiro com olhos verdes, enquanto o pai e a mãe eram morenos com olhos castanhos. Era meio estranho, mas ignorei. 560 por hora era um baita negócio! Olhei pro relógio e vi que era meia-noite. Larguei o celular na mesa, peguei um travesseiro e apaguei no sofá. De repente, o telefone tocou alto pra cacete, com um monte de notificações spam me tirando do sono pesado.

Minha visão tava embaçada, então estiquei a mão e tateei pra pegar o celular. Era Carlie e Peter me ligando. Mandaram mensagem dizendo que tavam saindo pro restaurante e perguntaram se eu tava livre. Respondi na hora que tava em casa e podia cuidar do filho deles. Bocejei, levantei do sofá, liguei a TV — que iluminou tudo forte o suficiente pra eu ver o quarto inteiro —, peguei meu casaco e fui na geladeira. Era tarde pra caralho e eu tava com sono, mas faria qualquer coisa por grana, então peguei um energético e entornei goela abaixo.

Joguei a lata no sofá, abri a porta, virei o tapete e peguei as chaves do carro do chão. Minhas botas batiam forte nas pedras do caminho, e uma sensação esquisita mandava eu dar o fora dali na hora, mas claro que ignorei. Quem ia recusar uma grana de mais de 400 dólares por hora? Ninguém.

Dirigi até o lugar, que ficava uns 20 minutos da minha casa. Cheguei lá, bati na porta. Eles me receberam com um sorriso largo e um olhar sinistro nos olhos. Pegaram um papel da mesa e me mostraram a lista de regras — algumas eram sinistras pra caralho. Quando perguntei sobre isso, os ossos deles estalaram enquanto inclinavam a cabeça. “Não respondemos perguntas, querida.” “Tá bom... divirtam-se.” “Você também, querida. Vamos ver se você aguenta uma hora.”

Disseram isso batendo a porta na minha cara. “Meu Deus, gente esquisita sem manners nenhuma existe mesmo hoje em dia.” Virei pro moleque e vi que as pupilas dele tavam tortas, nada como na foto. Arrepios desceram pela minha espinha, e meus ouvidos zumbiam enquanto eu olhava praquela coisa. Recusei me aproximar; andei pra trás procurando algo afiado. Aquilo com certeza não era um bebê, provavelmente nem humano. Olhei pros pés e braços dele: cobertos por um tom azul fraco, como se tivesse congelamento.

Recuei e abri três gavetas até achar um caco de vidro. Trinta segundos se passaram... ATÉ AQUELA COISA PARTIR PRA CIMA DE MIM!

Tinha presas afiadas e mordeu minha perna. Gritei por socorro, torcendo pra vizinhança ouvir. Aquilo não desgrudava de mim. Finalmente o dominei com um soco, e ele rolou escada abaixo. Um suspiro de alívio enorme me invadiu, mas minha perna toda tava ensanguentada. A criatura me olhou com raiva e veio pra cima de novo. Dei um soco na cara dele até meus nós dos dedos sangrarem — a cara era dura que nem pedra. Peguei um caco de vidro pra esfaquear a barriga, mas ele agarrou minha mão e comeu o vidro! Percebi que minha única chance de vencer tinha ido pro brejo; agora só restavam os punhos.

Peguei uma garrafa de vinho e esmaguei na cabeça dele. O bebê rolou pra trás no tapete, gritando e chorando pelos pais. Fui devagar até a maçaneta, girei e abri a porta. Respirei fundo e saí correndo, deixando aquela merda pra trás. Corri até a casa mais próxima e bati na porta como uma louca. Uma velhinha aleatória abriu e disse: “Precisa de ajuda? Meu Deus, por que você tá coberta de sangue?”

Minha visão começou a embaçar. Apaguei na grama... Uma ou duas horas depois, acordei num hospital, e a polícia me acusou de homicídio em primeiro grau. Fiquei ali confusa e falei pro policial que tava me defendendo, que o bebê não era humano. O que ele disse me fez me arrepender de tudo: a polícia achou o corpo de um bebê de verdade. Me diagnosticaram com esquizofrenia e disseram que eu tava em crise. Minha boca caiu, lágrimas escorreram pela minha espinha. O que eu fiz.

Uma Conversa no Silêncio

Desde que eu consigo me lembrar, sempre tive aversão a ficar sozinho. Pra ser mais preciso, eu odiava pra caralho ser deixado sozinho com os meus próprios pensamentos.

Quando eu era bebê, meus pais contavam que eu chorava mais alto do mundo no segundo em que eles saíam do quarto. Mas quando a gente se mudou pra cidade, eles notaram que eu fiquei bem mais calmo. Mesmo quando me deixavam por conta própria, eu não berrava mais como antes. Eu sempre me perguntei o motivo, até chegar no ensino médio. Foi aí que eu entendi: não era a solidão que me apavorava; era o silêncio que vinha junto com ela.

O incidente rolou no meu último ano. A escola nos deu a chance de ir acampar num terreno remoto e bem conhecido lá no sul. Era uma reuniãozinha antes da formatura. Como era atividade escolar, não dava pra pirar muito.

Quando chegamos, já era meio-dia. Enquanto montávamos as barracas e o equipamento todo, me deram a tarefa mais simples: juntar galhos. Era a primeira vez na vida que eu me via cercado por mata fechada. Até então, tudo que eu conhecia era a cidade, com aquele barulho constante ecoando por todo lado e o fluxo interminável de gente. Por um momento, senti uma coisa que não conseguia explicar: uma empolgação louca de descobrir algo estranho e novo.

Fui avisado pra não passar das cordas que cercavam o acampamento. Os professores disseram que não era necessariamente “perigoso”, só que eu podia me machucar com as raízes grossas e a folhagem densa, ou talvez trombar com algum animal que aparecesse por ali. Eu obedeci as palavras deles, mas a curiosidade me empurrou direto até a beirada.

Eu disparei por entre as árvores. Quanto mais eu avançava, mais fracos ficavam os sons do acampamento. Viraram um sussurro quase inaudível até eu chegar na corda que separava o terreno da floresta selvagem e crescida.

Parecia surreal pra caralho, mas eu tinha um trabalho pra fazer. Comecei a catar galhos quando vi algo pelo canto do olho. Achei que era algum colega que tinha me seguido até o limite. Dei um “e aí” casual e continuei juntando a madeira caída.

Quando ninguém respondeu, um arrepio gelado subiu pela minha espinha. Juntei os galhos e olhei em volta. Um suor frio escorreu pelas minhas costas. Não tinha ninguém. Eu tinha certeza absoluta de que tinha visto alguém, e a pessoa não podia ter sumido sem eu ouvir os passos nas folhas secas.

Então, bem atrás de mim, ouvi um farfalhar suave.

Eu me virei rápido e vi… cinza.

Um vazio sem cor cobria tudo. Minhas pernas viraram gelatina na hora e eu desabei. Tentei gritar, mas nada saiu. Sentia o ar saindo da garganta, mas nenhum som chegava aos meus ouvidos.

Aí caiu a ficha: eu não conseguia ouvir porra nenhuma. Nem o vento nas folhas, nem o barulho das minhas próprias botas quando tentei me levantar. Eu queria ficar maravilhado com aquela impossibilidade toda, e foi nesse momento que eu ouvi.

“Só um pouquinho mais…”

Um sussurro rasgou o vácuo. Eu me virei e vi uma forma humanoide, mas completamente errada, encurvada sobre uma árvore e me encarando. Era do mesmo cinza sem vida que o mundo inteiro ao redor. Ele se levantou e começou a deslizar na minha direção.

Conforme chegava mais perto, os detalhes ficavam nítidos. Tinha uma boca em forma de buraco, sem lábios. Os olhos eram só fendas rasgadas, revelando dois pontinhos brancos finos como agulhas. O corpo era nu e liso como um manequim sem detalhes, e quando levantou as mãos, vi um brilho de lâminas afiadas no lugar dos dedos.

Ele deu um passo e parou. Um som alto e esmagador de folhas ecoou — mas não vinha dos pés dele. Vinha do ar em volta. Eu sentia uma alegria doentia pulsando da coisa.

“Só um pouquinho mais”, repetiu. A voz congelou meu sangue. Era a minha própria voz. Soava exatamente como uma gravação minha tocando num alto-falante quebrado e distorcido.

Ele congelou, parecendo um predador selvagem prestes a dar o bote. Abriu a boca num rugido silencioso, depois sussurrou de novo: “Só um pouquinho mais…”

Ele saltou. Eu nem pensei: corri. Disparei cegamente na direção onde achava que ficava o acampamento. De repente, o barulho abafado de gente conversando começou a voltar. Aos poucos o volume subiu. Pisquei os olhos e as cores do mundo voltaram com tudo, batendo forte.

Eu desabei na frente dos outros, soluçando de alívio. Meus colegas me olharam confusos e preocupados até um professor vir correndo. Eu estava hiperventilando tanto que desmaiei.

Acordei dentro do ônibus. A viagem tinha sido cancelada. Depois fiquei sabendo que, quando os professores foram investigar o lugar onde eu tinha caído, encontraram um pesadelo. Os galhos que eu tinha juntado estavam destruídos em pedaços. O chão e as árvores estavam cheios de marcas profundas e irregulares de garras.

Eles me perguntaram o que eu tinha visto. Tentei contar a verdade, mas eles descartaram como alucinação causada pelo choque. Não diminuíram o perigo, porém. Eles sabiam que alguma coisa tinha estado lá.

Isso foi há cinco anos. Desde então eu nunca mais saí da cidade. Pode me chamar de covarde, mas eu me recuso a voltar.

Estranhamente, eu saí dessa com o que meus amigos chamam de superpoder. Eu consigo chegar de fininho em qualquer pessoa. A verdade é que eu não produzo som nenhum de passo, a menos que esteja usando sapatos pesados ou andando numa superfície barulhenta. Meu jeito natural de andar é perfeitamente, anormalmente silencioso. Por outro lado, sou péssimo com segredos. Não importa o quanto eu tente, não consigo mais sussurrar.

Às vezes me pergunto se deveria voltar pra tentar recuperar o que perdi. Mas aí o quê? Não sei nem se conseguiria tirar aquelas coisas de volta da criatura. Então eu fico aqui, no meio do agito e do burburinho da cidade, onde nunca fica quieto.

A criatura pode ficar com os meus passos e com os meus sussurros. Eu fico com o que sobrou de mim.

O motel mais estranho em que já estive

Eu achei que ia ser um dia comum, mas não foi. Peguei um ônibus de linha pra cidade onde minha família mora, porque o casamento da minha irmã é amanhã. Desde o começo reparei que não tinha muita gente: uns doze passageiros, contando comigo. Tudo estava indo de boa… até o ônibus parar de repente no meio de uma estrada no meio do mato.

O motorista tentou ligar de novo, mas o motor não respondia. Ele desceu, tentou outra vez e ficou repetindo isso sem parar. Um dos passageiros perguntou o que estava acontecendo. “Acabou a gasolina”, ele disse, “mas vou chamar ajuda agora mesmo.”

Esperamos mais ou menos uma hora e os passageiros começaram a ficar putos. Um gritou nervoso: “Quanto tempo a gente vai ficar esperando? Quando é que essa ajuda vai chegar?” Outro completou: “Isso é responsabilidade sua como motorista! Como você deixa a gasolina acabar no meio da viagem, caralho?” A discussão continuou enquanto o motorista tentava acalmar todo mundo e pedia desculpas sem parar.

No fim, ele falou que tinha um motel ali perto. “Vocês podem ir descansar lá até a ajuda chegar”, disse ele, “pode demorar um pouco.” E pediu desculpa de novo.

Todo mundo desceu do ônibus e ele nos levou até o motel. O lugar ficava no meio da floresta. Fiquei surpresa, mas não pensei muito nisso. Eu estava morta de cansaço e só queria dormir.

Entramos no motel e na recepção tinha uma velhinha. Ela nos entregou as chaves dos quartos. Meu quarto era no andar de cima, os dos outros eram embaixo. Entrei no meu, me joguei na cama e apaguei na hora.

Acordei com risada vindo lá de baixo. Desci e vi que todo mundo estava reunido num dos quartos, jogando cartas e rindo pra caralho. Cumprimentei eles e perguntei sobre a ajuda, mas disseram que não sabiam de nada.

Fui até o ônibus. Ele ainda estava lá, mas o motorista tinha sumido. Imaginei que ele tinha ido buscar ajuda de algum jeito, então voltei pro meu quarto. Tentei matar o tempo de qualquer forma: peguei o celular, mas não tinha sinal nenhum. Acabei lendo um livro até pegar no sono de novo.

Acordei na manhã seguinte e percebi que já tinha passado um dia inteiro. Corri até os outros e falei: “Já é o dia seguinte e a ajuda ainda não chegou! Como isso é possível?” Um deles respondeu bem tranquilo: “Relaxa, não vale a pena se estressar tanto.” Aí todo mundo começou a rir. Outro falou: “Sinceramente, eu nem quero sair daqui. Eu gosto pra caralho deste lugar. E vocês, galera?” E riram de novo.

Aquela cara de não tô nem aí me deixou puta da vida. Fui checar o ônibus outra vez. Ele continuava no mesmo lugar, mas o motorista não apareceu. Fiquei lá um tempão esperando ele voltar com ajuda, mas nada aconteceu. Decidi voltar pro motel. Quando entrei, a velhinha me cumprimentou: “Não se preocupe, meu querido. Deixa nas mãos do destino.” Eu forcei um sorriso e fui pro meu quarto.

Antes de entrar, ouvi choro vindo do quarto ao lado. A porta estava entreaberta, então espiei. Tinha uma menininha encolhida na cama, chorando. Cumprimentei ela e perguntei o nome e por que estava chorando. Ela disse que se chamava Amy e que estava dormindo no carro. Quando acordou, os pais tinham sumido. Achou que eles tinham ido buscar alguma coisa e esperou um tempão dentro do carro antes de conseguir chegar até o motel. Agora ela estava apavorada porque não fazia ideia de onde os pais estavam.

Senti pena dela e fiquei do lado dela pra consolar. O sol começou a se pôr e eu percebi que ia passar mais um dia ali. Fiquei pensando na minha irmã… o casamento dela era pra ser hoje. Tentei ligar pra ela e pra minha família, mas não tinha sinal. Só esperava não ter estragado o dia especial dela.

Quando escureceu, voltei pro meu quarto e dormi. Na manhã seguinte acordei com o barulho de sempre dos outros. Como antes, estavam todos reunidos num quarto jogando cartas e rindo. Fui até o ônibus ver se tinha mudado alguma coisa. O que eu não sabia era que o que ia acontecer em seguida seria a experiência mais estranha da minha vida.

Antes mesmo de sair do motel, ouvi uma TV ligando. Era uma televisãozinha pequena, da velhinha.

“O ônibus 471 se envolveu num acidente na Rodovia 40, resultando na morte de vários passageiros, enquanto alguns permanecem em coma.”

A TV apagou. A reportagem tinha mostrado fotos das vítimas… e eu estava entre elas. Fiquei paralisada, sem conseguir entender o que estava acontecendo. “Isso é pegadinha?” Peguei o controle remoto e tentei ligar a TV de novo, mas não funcionou. Joguei o controle longe e corri pro ônibus, histérica. Tentei até ligar o ônibus eu mesma, mas óbvio que não mexeu.

Corri tentando escapar daquele lugar, mas sempre voltava pro mesmo ponto. Resignada, voltei pro motel e ouvi os outros rindo como sempre. Eles pareciam viver num mundo só deles, completamente indiferentes. Eu sentia que eu e a Amy éramos as únicas pessoas sãs ali.

Fui pro meu quarto, sentei na beira da cama e mergulhei em pensamentos profundos. A Amy interrompeu meus pensamentos e perguntou como eu estava. Eu a tranquilizei, sem querer contar coisas que eu mesma ainda não entendia direito. Ela saiu e eu finalmente me entreguei pro sono.

Acordei de novo, mas dessa vez não tinha nenhum barulho dos outros… só silêncio absoluto. Desci e procurei em todos os quartos, mas não tinha ninguém. Pra onde todo mundo tinha ido? Até a velhinha tinha desaparecido. Só a Amy continuava do meu lado, me seguindo desde que saí do quarto.

Fui até o ônibus, achando que talvez a ajuda tivesse chegado e todo mundo estivesse lá. Mas quando cheguei perto, o ônibus estava vazio, ainda no mesmo lugar, completamente deserto.

Fiquei ali esperando com a Amy. O medo e a tensão tomaram conta de cada pedacinho do meu corpo. Mas aí, de longe, do outro lado da estrada, eu vi a velhinha. Ela estava indo em direção à floresta. Eu e a Amy fomos atrás dela e eu gritei: “Para! Para!” Mas ela andava de um jeito estranhamente rápido, mesmo sem correr.

De repente ela parou no lugar e virou pra mim. Sorriu… e então tudo mergulhou num breu total. O motel, as árvores, o ônibus, a estrada… tudo desapareceu.

Quando abri os olhos, minha família estava em volta de mim. Eles estavam chorando, depois se abraçaram entre si e em seguida me abraçaram. Eu ainda não conseguia entender o que tinha acontecido.

Um homem entrou. Pelo uniforme, parecia ser um médico. “Graças a Deus você está salva, senhorita Elizabeth”, ele disse. Eu perguntei onde eu estava e o que tinha acontecido. Ele me contou que eu tinha ficado em coma por três dias depois do acidente. Infelizmente, todos os outros passageiros tinham morrido, exceto eu e o motorista, que só teve ferimentos leves. Depois ele saiu.

Fiquei imóvel. Minha família saiu do quarto pra me deixar descansar, mas eu estava perdida em pensamentos, lembrando das risadas dos passageiros, da velhinha, do motel e da Amy.

Será que tudo aquilo tinha sido só na minha cabeça? Um sonho, talvez? Não podia ser. Tinha parecido tão real… tão real pra caralho. Fiquei me perguntando que lugar era aquele. Se os passageiros tinham morrido no acidente, quem eram aquelas pessoas que eu vi no motel o tempo todo? Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.

Minha estadia no hospital acabou e era hora de voltar pra casa. Na saída, passei por um quarto no corredor. Congelei quando vi o que tinha lá dentro. “Amy?” Era ela, a mesma menininha daquele lugar misterioso.

Ela me viu e ficamos nos encarando por um longo tempo, como se estivéssemos analisando uma à outra. Eu sentia que nós duas sabíamos exatamente o que a outra estava pensando, mas nenhuma de nós tinha respostas pras perguntas que giravam na nossa cabeça.

Ela sorriu pra mim e eu sorri de volta. Depois saí do hospital.

Fim

Um Trem Tarde da Noite

“2:03 da manhã.”

Eu sempre gostei do trem nesse horário. Meus amigos acham que dá um medo danado ficar aqui tão tarde, alguns até se ofereceram pra me dar carona pra casa, mas eu curto pra caralho. Meu celular iluminava meu rosto com um monte de notificações, e no topo de todas tinha uma mensagem do Mark: “Se cuida, cara, não esquece de me responder quando chegar.”

Eu fiquei pensando no que ia responder, ou se ia responder na hora, talvez uma figurinha? Ele já tem minha localização mesmo, talvez nem precise mandar nada. Antes de tudo isso eu me encontrava com ele e o Scott toda quinta, era tipo um acordo silencioso. Bebidas baratas, comida boa e a gente reclamando das mesmas merdas do trabalho até um de nós ser expulso por fazer muito barulho — a gente reclamava pra valer, esquentado pra caralho. Mas depois que eu faltei uma vez, parei de ir. Ninguém perguntou por quê, só mandavam aquelas garantias pequenas tipo “Tô aqui pra você” ou “Você pode falar com a gente quando quiser”. Facilitou pra eu faltar na próxima.

Com a visão meio embaçada, fiquei olhando em volta. O cheiro de bolo e mijo tomava conta da estação inteira — a padaria devia ter passado do horário de fechar hoje. O ar estava carregado com aquele fedor grosso de produto de limpeza barato que cobria as paredes rachadas pelo tempo. Eu me sentia calmo. Em todo lugar que eu ia, esperavam alguma coisa de mim, mas aqui ninguém podia falar nada além de mim mesmo. Aqui eu podia simplesmente estar, afundar nos meus próprios pensamentos e sentimentos. Aqui era pacífico.

Um barulho ecoou pelo túnel. Alguns minutos depois, o ronco profundo de um trem sacudiu a estação toda. Meu corpo acompanhou as vibrações no chão. Eu deixei ele me levar.

Tropeçando pra dentro do vagão, desabei num banco. Uma sensação de afundamento tomou minha barriga e ecoou pelo trem vazio. Olhando em volta, o vagão era todo misturado num cinza monocromático. Um anúncio de água com gás brilhava numa tela, e aquela iluminação triste pra caralho me lembrava de uma sala de cirurgia. Era tudo familiar demais. Na minha frente tinha uma janela. A única coisa que me cumprimentava de volta era meu próprio reflexo.

Eu estava sozinho.

Quando as portas fecharam, me peguei olhando pra fora delas, quase esperando que alguém viesse correndo pro vagão no último segundo, pedindo desculpa por estar tão atrasado. Não sei quando peguei esse hábito, essa mania de ficar esperando. Ultimamente, isso tem sido minha única habilidade real — esperar qualquer coisa acontecer: meu turno acabar, o barulho baixar o suficiente pra eu ouvir alguma coisa por baixo dele. Não sei quando aconteceu. Eu ainda gostava de conversar com o Mark e o Scott, e agradecia quando eles me chamavam, mas acho que apreciava mais na teoria do que na prática.

Eu afundei mais ainda no banco. Alguns lenços de papel caíram no chão. Fiquei olhando pra eles um tempo. Posso pegar depois. Fiquei mexendo nas coisas dos bolsos pra me distrair: um isqueiro que esqueci de jogar fora, mais uns lenços. Comecei a carregar isso sem nem perceber. Apareciam em todo casaco, bolsa, calça, tipo trocado solto. Eu dizia pra mim mesmo que era alergia.

O trem andou. Eu andei com ele. As luzes passavam deslizando. O vidro encostado na minha cara. Eu não pensava em nada. Pensava na próxima estação. Pensava na estação depois. Pensava na caminhada pra casa. Nada de novo. Meu corpo ficou parado. Nada mudava. Nada vai mudar. Vai ficar assim.

“Pra onde você tá indo, filho?”

A voz não veio de lugar nenhum. Não ecoou, não se espalhou. Eu não me mexi na hora. O trem não parou. As portas nunca abriram. Eu não tinha ouvido nenhum passo nem movimento de banco. O lugar ao meu lado ainda estava vazio. Tinha que estar.

Eu virei. Alguém estava sentado do meu lado. Quando caralho ele apareceu? Ele estava completamente coberto, quase nada visível: casaco longo, luvas e um chapéu. A luz parecia deslizar direto por ele, como se o rosto dele nem tivesse terminado de ser feito.

“Então, pra onde você tá indo?”

Eu engoli seco. Minha garganta precisou lembrar como funcionava. Eu desviei o olhar dele. Conseguia sentir o banco embaixo de mim, a vibração dos trilhos. Minha boca abriu pra falar, mas o queixo travou no lugar, os músculos se recusando a cooperar. Eu só fiquei em silêncio, olhando pra frente.

Ele esperou. Não piscou. Não se mexeu. Mantinha o olhar cravado em mim enquanto os trilhos sacudiam lá embaixo. Ele falou de novo, num tom quase entediado.

“Você tá indo pro seu apartamento na Seventh Avenue. Vai entrar pela porta da frente e soltar uma saudação brega como se tivesse alguém morando lá, e vai desmaiar no sofá.”

Alguma coisa apertou no meu peito. Não era medo, era pressão. Tipo uma mão me fechando.

“Como você sa—”

“Não é, Isaiah?”

Eu me levantei rápido demais. Meu corpo nem checou comigo se minha cabeça tava de boa com isso antes.

“Ok, quem caralho é você!” Minha voz saiu mais alta do que eu esperava. “Você tá me perseguindo? Me fala agora ou eu chamo a polícia!” As palavras tropeçavam umas nas outras. Eu me preparei pra alguma coisa. Uma gota de suor escorreu pelo meu pescoço.

“Senta.” O tom dele era calmo, mas dava pra sentir o amargor por trás. “Você não vai me bater”, ele olhou pro banco vazio do outro lado, “você não é do tipo que dá o primeiro soco. E não vai chamar a polícia, porque aí ia ter que admitir de onde tá vindo.” Ele parou e ficou me encarando. “Você tá tremendo.”

Eu olhei pra baixo e vi minha mão apontada pra ele. O tremor subia até os ombros. Isso é normal, eu disse pra mim mesmo. Eu não tô agindo estranho aqui, esse estranho é que tá me encurralando!

Eu olhei de novo pra ele. Alguma coisa nele não parava quieta. Além dos olhos frios, o resto parecia amolecer e mudar, tipo óleo tentando escorregar na água. As bordas em volta dele borravam. Eu não conseguia distinguir o contorno. Todo ele parecia o contorno.

Eu apertei os olhos. Talvez seja só a escuridão. É tarde. Eu tinha bebido antes. Não… eu tô sóbrio. Faz tempo que tô sóbrio.

“Não tô tentando te ameaçar”, ele disse de um jeito bem ameaçador. “Me fala, se você fosse chamar a polícia, o que você ia dizer pra eles?”

Eu abri a boca. Nada saiu. Um cara sombra que apareceu do nada na minha frente e sabe meu nome?

“Não sei”, eu finalmente resmunguei.

“Exatamente. E é por isso que você vai sentar de novo.”

Eu sentei. Que porra eu tô fazendo? Ele sorriu pra mim. O sorriso era frio. Sem compaixão. Sem maldade. Era uma tentativa falsa de me acalmar. Dava pra perceber.

“Novo assunto. De onde você tá vindo?” Ele continuava imóvel, o olhar atravessando direto por mim enquanto esperava quietinho a resposta. “Não me deixa esperando pra sempre.”

Meus olhos fugiram dele. Minha cabeça acompanhou. “Você já não sabe? Do bar.”

Ele se levantou. Eu nem vi ele se mexer — o corpo só mudou de um lugar pro outro. “Não, não é isso”, o tom dele ficou mais impaciente comigo. Foi aí que eu percebi: partes dele derretiam e se reformavam. “Você e eu sabemos que não é disso que se trata.” Ele começou a mudar.

Quase por instinto primitivo eu caí pra trás no chão tentando fugir — as luvas e o casaco dele pareciam derreter dentro de si mesmos. Eu quase conseguia sentir o estalo de ossos quebrando e se reconstruindo enquanto ele crescia bem na minha frente. O vagão gemeu sob o peso dele. O chão embaixo dele se curvou pra dentro em protesto, mas não quebrou. Devia ter quebrado. O metal se enrolou e se encaixou na nova forma dele, como se o próprio trem tivesse permitido aquilo acontecer.

Eu me arrastei pra trás, as palmas das mãos escorregando no chão molhado. Fui atingido pelo cheiro de formol e ferrugem, podridão e alguma coisa doce por baixo, tipo flores deixadas tempo demais na água. As luzes de cima piscaram, apagaram um pouco, estabilizaram, desenhando a forma dele em pedaços.

Ele era outra coisa completamente. Ângulos demais empilhados onde devia ter só um. Os braços dobravam pra trás, um deles bem maior e mais cheio que o outro. Articulações giravam onde nunca tinha existido articulação. Ele estava rastejando de quatro, não, de cinco, não — os membros torciam e se costuravam de volta, como se não tivessem decidido quantos deviam ter. Não parecia uma transformação sem dor pra ele.

Eu conseguia ouvir cada vértebra estalar e voltar pro lugar enquanto o rosto dele pairava na minha direção e acima de mim, sustentando um ângulo que traía a anatomia dele. Tudo mudava, menos os olhos. Esses permaneciam os mesmos. Sempre familiares.

“Fica longe de mim”, minha voz saiu pequena, só chegou uns metros na frente. “Some da porra da minha frente!”

Ele não reagiu. Nenhum sobressalto. Nem um inclinar do que eu achava que era a cabeça dele. Nada. O trem continuava andando. Alguma coisa tava errada. Eu não sabia o que ia acontecer, nem o que ele ia fazer comigo — quando a força de vontade saiu da minha alma, eu decidi simplesmente aceitar qualquer coisa que viesse.

Ele baixou o corpo. O pescoço se alongou de um jeito nojento enquanto ele encontrava meu olhar. Pela primeira vez os olhos dele pareceram outra coisa. Estavam cansados.

“Você fugiu dela. Do velório dela.”

Fisicamente as palavras saíram quase sem sentido, mas eu entendia tudo com clareza. A voz dele vinha de todo lugar — das paredes, de dentro da minha cabeça, dos trilhos em movimento — em sotaques que não eram desse mundo, em línguas que ainda não foram inventadas. O trem continuava andando. As palavras dele não ecoavam. Elas só ficavam ali entre nós, obsoletas.

Palavras não saíam da minha boca. Elas se recusavam a serem ditas. Eu via o pescoço deformado dele inclinando, esperando alguma coisa, qualquer coisa de mim. A única coisa que consegui soltar foram uns pedaços de palavra — eu tava confuso, com medo e só esperando minha estação chegar pra eu dar o fora daqui.

“Você não precisa se preocupar com isso”, ele arrastou as palavras enquanto olhava pras janelas. “Vai demorar um tempo até sua parada.”

O trem finalmente saiu do túnel. Lá fora não tinha estação me esperando, nem cidade, nem a noite escura. Lá fora tinha o infinito — sem horizonte pra olhar, nem céu. Nada além de um trilho impossível correndo por um espaço branco sem textura, infinito, sem destino à vista. Um entorpecimento se espalhou pelo meu corpo — começando nos dedos, subindo pras pernas e chegando atrás dos meus olhos. Eu devia sair daqui, mas meu corpo não obedecia. Eu olhei pro ser. O foco dele voltou pra mim, ainda esperando uma resposta. Finalmente comecei a falar.

“Ela não ia querer isso”, minha voz quase sumia no ronco lá embaixo. “Ela não ia querer que a última memória dela fosse um cadáver podre.” As palavras ecoaram entre nós. Eu me senti mal. Ele ficou em silêncio, ainda esperando. “Ela me disse uma vez, anos atrás, se ela morresse — não queria gente em volta do corpo sem vida dela, fingindo que sabia o que ele tava pensando.” Eu falei com mais confiança, o som ecoando mais alto que antes.

“Então é, eu não fiquei”, terminei. “Foi uma forma de respeitar ela.” Minha voz começou a ficar plana. Ele só me olhava. Sem resposta.

Os olhos dele continuavam focados em mim — não mais cansados, mas substituídos por outra coisa. Raiva? O silêncio ficou desconfortavelmente óbvio, grosso e sufocante. O vagão parecia menor, como se o trem agora estivesse escutando a gente. Eu engoli seco. O silêncio ficou alto demais. “Eu saí, entrei no carro, esperei acabar e fui embora. Ela ia querer…” Minha voz foi sumindo. Eu desviei o olhar dele.

“Você esperou.” Ele enfatizou, as palavras deslizando pelo chão, pelas paredes, embaixo dos bancos. “Suas falas estão bem ensaiadas.”

Ele começou a ter espasmos. Os movimentos ficaram aleatórios. Tendões pulavam debaixo da pele. Ligamentos se mexiam sozinhos, sem permissão da física. A forma dele tremia quadro a quadro, apertando. Afrouxando. Apertando de novo, tipo animação quadro a quadro travada.

Uma dor aguda veio correndo da minha barriga. Olhando pra baixo, vi uma das mãos dele atravessando meu corpo. Eu tava sangrando pra caralho. As luzes apagaram. O vagão apertou de todos os lados. Meu peito queimava. Mãos no rosto. Eu gritei. Não de dor, mas de outra coisa. Tudo veio de uma vez: ouvi uma voz chamando de um corredor longo — máquinas fazendo promessas que nunca cumpriam — cheiro de amônia e flores — um quarto preservado de um tempo melhor — e o peso da terra batendo num caixão. Minhas mãos saíram do rosto molhadas. Com a visão embaçada eu olhei pra cima pra ele de novo. O corpo dele parecia mais normal que antes. Quase humano.

“Você evita o quarto”, as palavras dele tropeçavam nele mesmo. “Você dorme no sofá. A cama ainda guarda um cheiro que você não aguenta.”

Minha respiração ficou pesada.

“Você não abriu a última gaveta da cozinha”, ele continuou. “Você se recusa a falar o nome dela, mesmo quando tá sozinho.”

O chão embaixo de mim parecia tão longe. Só consegui sussurrar: “Para.”

“Você deixa a correspondência dela se acumular, mas não serve mais pra nada. Ela se foi.” Os trilhos diminuíram a velocidade. O ronco ficou suave, depois desapareceu completamente. Ele virou pra janela. “Essa é sua parada.”

Eu ouvi as portas começando a abrir. A gente não tava mais no vazio. O corredor na minha frente se transformou num estacionamento de igreja. Luzes fluorescentes iluminavam o prédio. Tinha cadeiras dobráveis, casacos escuros. No canto do meu olho tinha um caixão. Era um velório. O velório dela.

“Não, eu não consigo”, meus olhos queimavam. “Eu não consigo descer aqui.” Ele virou pra mim de novo.

Pela primeira vez a forma dele se estabilizou. Humana. “Você precisa aceitar”, a voz dele estava suave. As portas abriram mais. A mão dele gesticulou pro lado de fora.

Eu engoli seco. Tentei me levantar. Meu corpo não obedeceu. Ficou parado. Em desespero eu perguntei: “O que acontece se eu não descer aqui?”

Os olhos dele travaram em mim, cansados, depois desviaram. “Aí você continua andando. Desmaia no sofá. Amanhã você volta pra cá, e a gente tem essa conversa de novo. E de novo. Até esse trem ir pra algum lugar que você não consegue descer.” As palavras dele soaram derrotadas.

Eu olhei lá fora. Olhei pra trás. Virei pro banco vazio. Senti cheiro de podridão. Senti cheiro de flores. Pensei no apartamento. Pensei nela. Virei pro caixão. Tentei me levantar. Meu corpo, no entanto, continuou parado, lutando contra o pouco de força de vontade que ainda me restava.

Eu fiquei sentado, imóvel, enquanto o ronco dos trilhos em movimento voltava a ser ouvido lá embaixo. Quando as portas fecharam, meu corpo se moveu junto com o trem. Ele era bom nisso.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Eles Respiram à Noite

Quando eu era criança, eu passava muito tempo na casa dos meus avós.

Era tão segura, tão quentinha e, sinceramente, não tinha lugar no mundo onde eu preferisse estar. Eles me davam leite à noite, eu podia dormir na cama grande.

Mas conforme fui crescendo, passei a dormir no meu próprio quarto, e aquele quarto… Ele ainda me assombra até hoje.

Uma cama de solteiro no canto do quarto, encostada bem juntinho em armários que iam do chão até o teto e que te obrigavam a arrastar a cama se quisesse abrir algum. O armário do pé da cama era onde eu guardava minhas coisas boas: lanches, salgadinhos e meus brinquedos favoritos. A janela ficava bem na cabeceira da cama, com um espacinho certinho pra encaixar.

Mas tinha uma coisa em um daqueles armários, o terceiro a partir do final, bem onde minha cabeça ficava quando eu dormia. Eu nunca contei pra ninguém. Achava que estava errado pelo que eu sentia à noite.

De dia era liberdade total e hora de brincar. Eu podia passar o dia inteiro vendo TV ou andando no meu triciclo. Minha avó cozinhava as melhores refeições do mundo e, no meu tempo livre, eu montava meus kits Airfix. Meu avô passava a maior parte do ano fora do país trabalhando. Doía nele deixar a gente tanto tempo assim, mas o comércio naval de petróleo pagava as contas.

Ele sempre trazia todo tipo de lembrança de uma quantidade enorme de países. Areia numa garrafinha da Arábia Saudita, tartarugas de cristal, uma vez até trouxe óleo cru de um vazamento no México. Mas a coisa que ele nunca deixava de trazer eram estátuas de madeira de todos os tipos. Tínhamos bustos esculpidos, manchados de anos tomando sol. Havia estátuas de corpos sem braços nem pernas, sem cabeça, só os corpos, sem nenhuma maneira de se mexerem.

Como era o quarto de hóspedes, eles insistiam em guardar aquelas estátuas ali. Os poucos bustos que ficavam na minha prateleira de cima eu virava de costas antes de dormir. Não conseguia tirar da cabeça a sensação de que eles estavam me olhando. Assim, minha escuridão ficava segura.


Eu ia pra cama como sempre naquela noite, com um copo d’água e leite quente que subiam comigo, rotina padrão. Me deitei pra ler e os barulhos começaram. Um gemido grave e baixo, com clique, claque, clique. Quase como o sobe e desce de uma respiração. Apaguei a luz. Eu já estava acostumado com aqueles sons. Se eu apagar a luz, eles não me pegam, não tem como me verem no escuro. Isso significava que a escuridão tinha que ser minha amiga.

O sono me pegava mais rápido do que eu queria todas as vezes. Eu acordava encharcado de suor e paralisado, preso olhando fixo pro meu baú de brinquedos no canto mais distante. Toda. Maldita. Vez. Os barulhos continuavam e o leve brilho no canto, perto do pé da cama, dava a luz que eles precisavam pra se fortalecer. Ficavam cada vez mais altos, o baú de brinquedos parecia cada vez mais longe, mas eu continuava imóvel. Quente, fervendo até os ossos, mas sem conseguir nem levantar a cabeça.

Os rangidos e cliques ficavam mais altos, aquela respiração ralhada de morte me mantinha acordado. Eles estavam ali e eu conseguia senti-los atrás de mim. Estavam dentro dos armários, eu sabia, mas não conseguia olhar. Eles não me deixavam virar, não me deixavam nem fechar os olhos.

O brilho no canto ficava cada vez mais forte, pareciam passar horas com meus olhos grudados abertos. Injetados de sangue, vermelhos e rosados naquela luz escaldante. Eles me forçavam a olhar, mas não me mostravam suas formas verdadeiras. Então eu ficava ali, petrificado com a presença deles, até o cansaço tomar meu corpo à força e me jogar de novo na escuridão.

Às vezes, por algumas noites seguidas, ficava tranquilo. Eu acordava de manhã sem nenhuma memória, com a esperança de que nada tivesse acontecido à noite. Nunca tinha certeza, mas havia sinais.

Eu entrava no quarto durante o dia pra pegar algum lanche secreto. Parecia bobagem ter medo do armário de dia, nenhum barulho, ele estava sempre um pouquinho entreaberto — provavelmente roupa de cama, eu pensava. Mas as estátuas… elas nunca estavam *exatamente* do jeito que eu tinha deixado.

Uma noite, meus olhos abriram de repente. Eu mal conseguia respirar com o calor que estava no quarto. Meu edredom me prendia sem espaço pro ar, eu estava sufocando devagar. Meu suor infiltrava no colchão.

Todo pensamento sobre isso sumiu quando eu notei. Nessa noite eu estava de barriga pra cima, minha visão periférica estava turva, mas eu tinha visão em túnel… Eu conseguia ver a prateleira naquela noite, e o busto que eu tinha virado de costas poucas horas antes tinha tombado de lado e… Ela? Estava me olhando com olhos fundos e vazios, poços negros sem saída. Eles me puxavam pra dentro, mas meu corpo continuava como um cadáver, encharcado até os ossos.

Na lateral da minha visão, um movimento leve. Aquilo, os cliques, a respiração… era demais. Tentei gritar, tentei com todas as forças, mas o grito travou na garganta. Engasguei, entrei em espiral, tossindo e engasgando. A estátua caiu da prateleira e eu caí junto, desabando no chão numa pilha imóvel e quebrada. Soluçando, a escuridão finalmente me consumiu. Não tinha mais luz pra me acordar pros terrores daquele quarto.

Eles me encontraram ali de manhã, imóvel, mas respirando. Eu não conseguia explicar o que tinha acontecido comigo, mas eles me abraçaram forte.

Anos depois, eu perguntei pro meu avô sobre os barulhos. Lembrei de repente numa noite, durante o jantar em família. Ele riu e me contou que a caldeira antiga fazia todo tipo de som: batidas e gemidos enquanto os canos se expandiam. De repente tudo fez sentido. Eu me senti ridículo por ter medo de uma coisa tão boba. Ele continuou dizendo que a caldeira tinha sido removida em 1978. Eu ri e falei que não podia ser, eu nasci no começo dos anos 2000.

Ele sorriu e deu de ombros, devia estar me confundindo com o meu pai.

Eu dei sementes pra uma coruja e ela mordeu minha mão

Quando eu era uma menininha, ouvi o piado suave de uma coruja bem pertinho. Saí da cama correndo e fui direto pra janela da sala, porque era o lugar onde eu achava que tinha mais chance de ver a coruja. Agarrei a cortina, mas antes de conseguir abrir, minha mãe me parou, acordada pelos meus passos barulhentos.

“Você não pode fazer isso”, disse minha mãe com uma voz suave, mas firme.

“Desculpa”, respondi, desviando o olhar dela.

“Tudo bem. Mas só lembra que você não pode abrir as cortinas à noite porque pode chamar a atenção das bruxas”, ela me lembrou enquanto me levava de volta pro quarto e me cobria direitinho.

Não lembro se respondi alguma coisa, mas lembro dela me abraçando bem forte e, em algum momento, eu peguei no sono.

Tem uma história bem conhecida na minha cidade. As corujas são bruxas disfarçadas. Elas se transformam à noite e voam pelo bairro procurando a próxima vítima. Quando escolhem alguém, elas pousam no telhado da casa e avisam o morador que a morte está chegando.

Às vezes a morte não é imediata, mas nessa ocasião foi. Duas casas depois da minha, o bebê recém-nascido de um casal morreu dormindo. A notícia se espalhou rapidinho. Do ponto de vista médico, o menino morreu de SIDS, síndrome da morte súbita infantil, mas todo mundo sabia o que tinha acontecido de verdade: uma bruxa roubou a alma dele.

Alguns meses depois, tudo tinha se acalmado de novo. O casal que perdeu o bebê mudou de casa e um casal novo se mudou pra lá. Ninguém tinha ouvido coruja nesses mesmos meses e, finalmente, todo mundo dormia em paz.

Uma manhã, eu saí pro quintal dos fundos pra procurar joaninhas. Encontrar elas significava que eu ia ter sorte.

“Bom dia, passarinhos!”, acenei pros periquitos dentro da gaiola.

Eu adorava ver eles voando pela gaiola grande que meu pai tinha construído pra eles. Mas naquele dia eu estava numa missão e corri direto pro jardim pra achar o máximo de joaninhas possível.

Toda vez que eu achava uma joaninha, contava quantos pintinhos ela tinha e depois colocava na minha mão na esperança de que virasse minha amiga. Eu ria quando elas faziam cócegas com as patinhas minúsculas. Toda vez que uma voava embora, eu ficava um pouquinho triste, mas logo me recuperava e voltava pra busca.

O canto dos periquitos tinha virado minha trilha sonora de fundo. Passou uma hora, ou talvez duas, ou talvez só dez minutos quando o papo normal dos periquitos virou gritos de terror.

Eu me virei rapidinho e vi uma coruja tentando alcançar a gaiola. Esqueci completamente da minha tarefa e corri pra gaiola e pra coruja.

Quando cheguei mais perto, percebi que a coruja estava machucada. Tinha sangue na asa esquerda dela. Demorei um segundo pra notar que os periquitos tinham se calado e que a coruja estava me olhando direto nos olhos.

“Tá tudo bem. Eu não vou te machucar”, tentei tranquilizar a coruja.

A coruja continuou me encarando, dando olhadas rápidas pra gaiola de vez em quando.

“Deixa eu pegar uns curativos adesivos e aí eu te dou comida! Por favor, fica aí!”, gritei pra coruja enquanto corria de volta pra dentro de casa.

Corri pro meu quarto e peguei vários curativos, caso a coruja tivesse um corte grande. Eu sempre me sentia melhor quando minha mãe colocava um curativo em mim. Torci pra conseguir fazer o mesmo pela coruja.

Ela ainda estava parada perto da gaiola quando eu voltei. Me aproximei devagar, tentando não assustar ela. Toquei na cabeça dela e fiquei maravilhada com a maciez das penas.

“Isso vai doer um pouquinho, mas prometo que você vai se sentir melhor logo”, falei pra coruja enquanto levantava a asa dela e colocava dois curativos rosa. A coruja não se mexeu, ficou me olhando o tempo todo, mas nunca tentou morder.

Aí me veio outro pensamento. Ela devia estar com fome e por isso estava parada perto da gaiola — queria sementes! Na época eu não sabia que corujas eram carnívoras, achava que todos os pássaros comiam sementes.

Peguei o saco de sementes que ficava embaixo da gaiola e coloquei um punhado na minha mão. Ofereci pra ela, torcendo pra que, se comesse, se sentisse melhor.

A coruja me olhou por um tempão. Não dava pra saber o que ela estava pensando, mas eu mantive a mão estendida na esperança de que ela comesse e melhorasse.

Como se tivesse decidido, a coruja deu uma mordida nas sementes — e junto com elas, mordeu minha mão.

“Ai!”, gritei enquanto puxava a mão pra longe.

A coruja ficou ali parada, me observando.

Senti as lágrimas enchendo meus olhos. Já tinha sido mordida pelos periquitos antes, mas nunca tinha sangrado. Falei pra mim mesma que provavelmente foi um acidente e, mesmo sem querer levar outra mordida, estendi a mão de novo pra coruja na esperança de que ela comesse mais.

A coruja me deu mais uma olhada e resolveu terminar as sementes que sobraram na minha mão. Depois que comeu todas, inclusive as sujas de sangue, ela foi embora sem avisar.

Não sei por que menti pros meus pais sobre como cortei a mão. Falei que tinha tropeçado e que minha mão tinha batido numa pedra afiada. Depois que eles viram que eu não precisava de pontos, colocaram uns curativos e só me mandaram tomar mais cuidado.

Algumas noites depois, ouvi o piado de aviso da coruja sobre a morte que estava chegando. Lembrando do aviso da minha mãe, não fui olhar pela janela. Em vez disso, rezei pra coruja não estar na casa do vizinho, porque o Don Cristobal fazia as melhores tortilhas do mundo e eu queria pedir umas de manhã.

Naquela noite, a coruja estava particularmente agitada. Normalmente a gente ouvia uns piados por alguns minutos e depois ela sumia. Dessa vez, os avisos dela continuaram a noite inteira, até o sol raiar e quebrar a escuridão.

Na manhã seguinte, não aconteceu nada. Com permissão dos meus pais, fui pra casa do lado e comi umas das melhores tortilhas da minha vida. Os vizinhos cochichavam sobre o que tinha rolado na noite anterior, se perguntando quem seria o próximo a morrer.

O medo da morte foi diminuindo nos dias seguintes porque nada aconteceu. Talvez dessa vez a coruja tivesse se enganado. Talvez essa coruja específica não fosse uma bruxa. Talvez…

E aí aconteceu. Eu estava sentada lá fora com meus pais comendo sanduíches quando vi a coruja que eu tinha alimentado. Os curativos ainda estavam grudados na asa dela. Quando eu ia apontar ela pros meus pais, o chão começou a tremer.

Meus pais tentaram me alcançar. Eu tentei levantar e correr pra eles, mas era impossível. Na minha tentativa desesperada de chegar neles, nem percebi que a coruja estava vindo na minha direção.

Quando eu a vi, fiquei confusa. Vi ela crescer, ficar enorme, quase do tamanho dos meus pais. Ela mergulhou, abriu as asas por cima de mim e me cobriu. Eu conseguia ouvir os gritos dos meus pais, as casas ao redor caindo e o chão rachando.

Quando finalmente parou, tudo ficou em silêncio.

A coruja tirou as asas protetoras de cima de mim e, sem avisar, voou embora. Tudo ao meu redor estava destruído. O bairro inteiro tinha sumido. Depois me contaram que eu fui a única sobrevivente.

Minha história de ter sido salva pela coruja-bruxa foi descartada como coisa de criança tentando lidar com o inimaginável. Eu sei o que vi, e ainda vejo ela voando perto da minha casa de vez em quando. Carrego a cicatriz que ela deixou na minha mão esquerda daquele dia que eu alimentei ela.

E eu sei que um dia ela vai pousar no meu telhado pra anunciar a minha morte.

Ele Olha de Volta na Escuridão

Ultimamente, toda vez que eu desço pro nosso porão pra pegar alguma coisa — seja qualquer equipamento de pesca que eu guardo lá embaixo ou algo do congelador fundo —, eu olho pra cima da escada quando chego lá embaixo, ligo a luz e, só por uma fração de segundo, vejo alguma coisa no topo da escada.

A gente mora nessa casa há um bom tempo, eu e minha esposa, então a maioria dos barulhos e coisas que batem à noite dá pra explicar fácil: tábuas rangendo ou vento assobiando contra as vidraças. Mas isso aqui é diferente. Isso me mantém acordado à noite, pensando no que diabos é, se são meus olhos pregando peça ou até um tumor pressionando meu crânio (foi o que Diane, minha esposa, sugeriu). Eu tentei ficar lá embaixo e apertar os olhos na escuridão, tentando distinguir onde a figura estaria — até ligando e desligando as luzes várias vezes seguidas, ligando e desligando, ligando e desligando. Por horas. Só tentando ver o contorno da figura por um mísero segundo que fosse.

Diane acha que eu tive um colapso nervoso. Ela pediu licença médica de emergência no meu trabalho pro futuro previsível e me sentou com todos os médicos e terapeutas que conseguiu encontrar pra tentar me diagnosticar e me encher de remédios pra eu não sentir mais nada. Me encher de remédios não vai fazer o medo ir embora. Pode acreditar — eu bebi o suficiente ao longo dos anos pra saber como é se sentir completamente anestesiado pro mundo, mas isso aqui é outro nível. Eu sinto no fundo mais profundo do meu estômago que o que quer que eu veja naquela fração de segundo é real.

Eu estava sentado todo encolhido no chão do porão, minha mão esticada pra cima clicando sem parar o cordão da luz e virando a cabeça fracamente pro topo da escada. Eu já não fazia ideia de que hora ou que dia era, nem de quanto tempo eu estava lá embaixo — meus olhos ardiam de tanto encarar e meu braço latejava, mas nada mais importava.

Em meio ao meu transe, ouvi o passo firme e acolchoado de Diane se aproximando da porta do porão. Ela suspirou e passou a mão pelo cabelo. Eu a escuto começar a descer, mas no meu foco eu a perco completamente. É como se ela nem existisse. Tudo que eu consigo focar é o clique da luz e meu coração vacilante. Ligado, desligado, ligado, desligado, ligado. Talvez se eu apertar mais os olhos eu consiga ver melhor. Ligado, desligado, ligado, desligado. Tenho certeza de que se eu continuar tentando, o que quer que eu venha vendo vai finalmente ficar ali e me deixar ver o que é e finalmente me deixar descansar. Ligado, desligado, ligado, desligado, ligado...

— Por favor, você não quer vir pra cama? Eu fico te dizendo que não tem nada ali, querido. Deve ser estresse do trabalho.

Diane aperta os olhos contra o piscar alucinante da luz que eu faço puxando o cordão sem parar, estendendo a mão pra acariciar meu rosto. Eu quero me afastar do toque. Ela estava destruindo meu foco.

— Você está aqui embaixo há horas, isso tá começando a me preocupar de verdade.

Eu paro de clicar pra olhar pra ela. Olhar de verdade. Uma expressão preocupada puxa os cantos da boca dela numa linha apertada. Ela não acredita em mim nem um pouco.

— Você não entende… Eu… eu sei que tem alguma coisa ali, toda vez que eu ligo a luz. Eu juro que consigo ver. Por que você não acredita em mim? — sinto o desespero subindo pelo peito.

Ela suspira de novo e me aperta num abraço forte.

— Por que amanhã de manhã a gente não marca outra consulta com os médicos e vê o que dá pra fazer com essa insônia sua? Sabe, eu estava lendo que ficar acordado tempo demais pode causar alucinações e…

A voz dela some, as palavras viram estática nos meus ouvidos. Eu sinto todos os pelos do corpo se arrepiarem ao mesmo tempo. Na luz do porão, numa forma borrada, alguma coisa estava parada no topo da escada. Parecia alto e quase disforme, mas tão borrado e fraco que eu não conseguia distinguir quase nada além de uma expressão triste no “rosto” dele. Uma cara quase cômica de tristeza exagerada que me olhava vazia. Eu me arranquei dos braços de Diane e gritei o mais alto que consegui, lágrimas escorrendo pelo rosto. Meu corpo tremeu violentamente enquanto eu me arrastava pro canto da sala, tentando me proteger do que quer que estivesse ali. Diane ficou horrorizada, tentando me calar como se eu fosse criança e exigindo saber o que tinha acontecido.

— EU VI! POR QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE VER! EU VI A EXPRESSÃO NO ROSTO DELE! — eu respiro fundo, tremendo —, POR FAVOR ME DIZ QUE VOCÊ CONSEGUE VER!

Eu cubro os olhos com as mãos e soluço pateticamente feito criança.

Ela suspira, exasperada, olhando rápido da minha forma aterrorizada pro topo da escada —

— Querido, eu fico te dizendo, não tem nada ali! Agora para de ser bobo e vem pra cama comigo.

Ela me arranca do chão e me arrasta escada acima direto pro nosso quarto. Eu não lembro muito dos dias seguintes — foi tudo um borrão de Diane basicamente me forçando a comer e me obrigando a levantar e andar, mas por mais que ela insistisse, eu não chegava nem perto do porão. Ela me fez prometer que eu não ia mais descer lá ou então a gente ia pros médicos e finalmente tomaria algum remédio.

Teve uma noite, porém, em que eu de repente me sentei ereto na cama e senti uma vontade esmagadora de ir pro porão. Pra não acordar Diane, eu andei pela casa o mais silencioso possível. Finalmente cheguei na porta do porão.

Meu coração batendo fora do peito, eu estendo a mão trêmula pra maçaneta e…

A luz se acende.

— Querido. Você me prometeu que não ia mais descer lá! Eu tentei ser o mais tolerante possível com esse comportamento, porque eu te amo e sempre tô do seu lado, mas agora você tá levando isso longe demais. Você tá doente mentalmente e a gente precisa fazer alguma coisa a respeito.

Ela me repreende como se eu fosse sujeira debaixo da bota dela. Ela nunca me entendeu. Sempre a mesma Diane cheia de condescendência.

— Diane, eu tô te dizendo do fundo do meu coração que tem alguma coisa ali. Eu vi da última vez que desci. Tá me deixando louco e a única forma de resolver isso é tentar ver por tempo suficiente, eu sei que—

— Sentir louco? VOCÊ É LOUCO! Você faz ideia do que eu tive que dizer pras pessoas? Pros nossos amigos? Eu tive que inventar histórias de que você tá tão ocupado com o trabalho que nem consegue mais sair de casa pra ver eles. Você não vai trabalhar há MESES!

A raiva sobe pelo meu peito e eu sinto os punhos se cerrarem. Diane dá um passo na minha direção, na direção da porta.

— E sabe de uma coisa? Eu vou abrir a porta e te mostrar que não tem nada ali, e essa sua fantasia finalmente vai acabar!

Ela puxa a porta com força, revelando a escuridão do porão lá embaixo.

— Viu? Eu te disse que—

Meu corpo age sozinho. Eu empurro Diane com toda a força escada abaixo. Ela olha pra mim em puro horror por uma fração de segundo antes de eu ver o corpo dela cair degrau por degrau e bater no concreto frio com um baque alto.

Meu peito sobe e desce. Tudo que eu escuto é um zumbido nos ouvidos.

Demora um tempo eu parado ali congelado antes de conseguir perceber o que fiz. A sensação volta pro meu corpo enquanto minhas pernas me carregam escada abaixo e eu embalo Diane nos braços, chorando pateticamente em cima dela.

Eu arrisco um último olhar pro topo da escada.

Ele está lá. Olhando pra mim. Dessa vez, com um sorriso cartunesco no rosto.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A Porta do Elevador Abriu em um Andar que Não Existe e Algo Nela Sabe que Eu Estou Aqui

Estou postando isso do meu celular enquanto me escondo dentro de um armário de suprimentos em um andar do meu prédio de escritórios que não deveria existir, e preciso que alguém saiba onde eu estou porque minha namorada está no telefone comigo e ela tá tentando ajudar, mas não consegue ajudar, e eu preciso que mais de uma pessoa saiba.

Meu nome é Shane Gallagher. Eu trabalho no décimo quarto andar do Calloway Building no centro de Pittsburgh. Trabalho aqui há três anos. Conheço esse prédio do jeito que você conhece qualquer lugar onde passa quarenta horas por semana — não íntimo, não cada cantinho, mas bem o suficiente pra qualquer coisa errada bater na cara imediatamente. Bem o suficiente pra, quando o elevador abriu hoje à noite em um andar que não tá nesse prédio, eu souber que não tava nesse prédio antes mesmo de processar conscientemente o que eu tava vendo.

Eu saí mesmo assim porque as portas tavam fechando e eu entrei em pânico e dei um passo pra frente em vez de pra trás, e essa é a decisão que eu tenho revivido nos últimos quarenta minutos.

Preciso descrever o andar porque a descrição importa.

Parece o décimo quarto andar. Essa é a primeira e mais importante coisa — não é um inferno alienígena, não tá obviamente errado do jeito de pesadelos, não é escuridão e dentes e geometria impossível. Parece um andar de escritório corporativo em um prédio médio de Pittsburgh às onze da noite. Forro de gesso com painéis fluorescentes, a maioria apagada, dois ou três piscando. Carpete industrial num tom de cinza-azulado que combina exatamente com o carpete do décimo quarto. Divisórias de cubículos arrumadas no layout aberto que eu atravesso toda manhã. Uma fileira de escritórios com paredes de vidro na parede do fundo que parecem exatamente os escritórios com paredes de vidro do décimo quarto.

O erro tá nos detalhes. As divisórias de cubículos são um pouco altas demais — uns centímetros acima do padrão, o suficiente pra ser inquietante sem ser imediatamente identificável como errado. O carpete tem um cheiro que o do décimo quarto não tem: algo por baixo do cheiro padrão de escritório de ar reciclado e café velho, algo orgânico e levemente doce que eu notei no momento em que as portas do elevador abriram e que eu tenho tentado não pensar desde então. Os painéis fluorescentes que ainda tão acesos emitem uma luz da cor certa, mas da qualidade errada — plana demais, sem gradação, o tipo de luz que enche um espaço sem iluminá-lo, se isso faz sentido. Tudo tá visível e nada projeta sombra.

E o número do andar acima das portas do elevador, que deveria dizer 14, diz 13. Ao contrário. Os dígitos invertidos, como se o letreiro tivesse sido instalado por alguém que soubesse como os números pareciam, mas nunca tivesse visto eles na orientação certa.

Eu vi tudo isso nos dois segundos antes das portas do elevador se fecharem atrás de mim, e eu me virei e apertei o botão de chamada e fiquei na frente das portas por seis minutos apertando o botão a cada trinta segundos, e o elevador não voltou.

Eu liguei pra minha namorada Aleeza Rees aos nove minutos. Quero explicar por que tô contando isso em parte pelo que rolou nessa ligação porque Aleeza é com quem eu tava falando quando as coisas importantes aconteceram, e as reações dela fazem parte do registro disso, e eu quero que o registro seja completo.

Ela atendeu no segundo toque, o que é normal pras onze da noite numa noite de semana — ela fica acordada até tarde, lê na cama, é o tipo de pessoa que atende o telefone. Eu contei pra ela onde eu tava e o que tinha acontecido, e houve um silêncio de uns quatro segundos, e aí ela disse, bem devagar, na voz que ela usa quando tá com medo mas não quer passar o medo: "Tá bom. Não sai do elevador. Continua apertando o botão. Vou ligar pro número de emergência do prédio e vou te manter no telefone."

Eu disse pra ela que o elevador não tava voltando. Ela disse pra continuar apertando mesmo assim. Apertei por mais três minutos enquanto ela me colocou em espera e ligou pra alguém e voltou e disse que o número de emergência tinha tocado sem resposta, e ela tava tentando a empresa de gerenciamento. Apertei o botão e ouvi o zumbido da luz errada e plana acima de mim, e olhei pras divisórias de cubículos altas demais, e respirei o cheiro orgânico doce, e tentei não pensar no que tava causando aquilo.

Aí eu ouvi o som e parei de pensar em qualquer outra coisa.

Veio de algum lugar mais fundo no andar — passando a fazenda de cubículos, da direção dos escritórios com paredes de vidro na parede do fundo. Um som que eu vou descrever o mais preciso possível porque a precisão parece importante agora. Era rítmico. Era molhado. Tinha o ritmo de algo sendo repetido com paciência e propósito, um som que sugeria processo em vez de acidente, e tava se movendo. Não estacionário. O que quer que tava fazendo aquilo tava se movendo pelo espaço num padrão que eu não conseguia mapear do elevador porque as divisórias de cubículos bloqueavam minha visão além das primeiras fileiras.

Eu disse pra Aleeza que ouvia algo. Ela me disse pra ficar completamente parado e não fazer barulho nenhum. Fiquei parado. Não fiz barulho. O som continuou por uns dois minutos e aí parou, e o silêncio depois dele tinha aquela qualidade específica de silêncio que vem quando algo para de se mover em vez de quando algo para de existir. Ainda tava lá. Só tinha ficado quieto.

Aleeza voltou na chamada principal. Ela disse que tinha falado com alguém da empresa de gerenciamento que ia ligar pro segurança noturno do prédio e mandar ele subir. Disse que o nome dele era Zac Graham e ele trabalhava no prédio há onze anos e conhecia melhor que ninguém, e ele ia chegar logo. Eu contei pra ela sobre o som. Outro silêncio de quatro segundos. Aí: "Zac tá vindo. Fica perto do elevador. Não vai mais fundo no andar."

Eu disse pra ela que não tinha a menor intenção de ir mais fundo no andar.

Isso foi antes do botão de chamada do elevador apagar.

O botão não quebrou — ou não pareceu quebrar, que tem uma sensação particular, uma ausência súbita. Apagou do jeito que uma luz apaga quando algo corta a energia na fonte: o painel inteiro perdendo a iluminação de uma vez, os números acima da porta apagando, as portas em si virando só portas sem mecanismo atrás. Apertei o botão doze vezes em sequência rápida e nada aconteceu, e eu contei pra Aleeza, e ela disse "Zac tá a caminho, Shane, Zac tá vindo" numa voz que tava se esforçando muito pra ficar firme, e eu agradeci o esforço, e não disse pra ela que Zac a caminho parecia bem menos reconfortante agora que o elevador tava morto.

Quero te dizer que eu fiquei perto do elevador. Quero te dizer que fiquei na frente daquelas portas mortas pelos próximos vinte minutos apertando um botão que não funcionava e esperei calmamente pelo resgate. Não fiz isso. Fiz isso por uns quatro minutos, e aí o som começou de novo — mais perto dessa vez, a duas ou três fileiras de cubículos de distância em vez da parede do fundo — e eu tomei uma decisão que defendo até agora, que é ficar completamente parado do lado de um elevador sem funcionar enquanto algo molhado e rítmico se move na sua direção pelas fileiras de cubículos não é na verdade a opção segura só porque parece espera.

Eu me mexi. Fui pra esquerda pela parede do elevador, longe do som, ficando baixo abaixo do topo das divisórias de cubículos, me movendo o mais quieto que o carpete industrial permitia. Contei pra Aleeza que tava me mexendo. Ela disse "Shane" de um jeito que significava tanto "tá bom" quanto "por favor não" ao mesmo tempo, que é uma coisa que ela faz e que, em qualquer outra circunstância, eu acho fofo.

Encontrei o armário de suprimentos no fim da parede esquerda, uma porta padrão trancada que não tava trancada, e entrei e fechei atrás de mim, e tô aqui desde então.

O armário tem mais ou menos o tamanho de um banheiro grande. Prateleiras nas três paredes, as prateleiras cheias do estoque padrão de um armário de suprimentos corporativo — papel pra impressora, cartuchos de toner, produtos de limpeza, a infraestrutura física miscelânea da vida de escritório. Não tem fonte de luz, e tô usando a lanterna do celular, que tô tentando usar com parcimônia pra economizar bateria. A porta não tem tranca por dentro. Tô segurando ela fechada com minhas costas contra ela e os pés apoiados na base da prateleira oposta, e quero ser honesto que essa não é uma posição que eu consigo manter pra sempre.

Aleeza tem falado comigo sem parar. Ela não tem informação útil — Zac não chegou, a empresa de gerenciamento não atende retornos, ela ligou pro 911 e eles pegaram o endereço e disseram que tão mandando alguém, e ela não sabe quando. Ela tá falando porque o silêncio é pior, e ela sabe disso, e eu sei disso, e a gente tá junto há quatro anos, e ela sabe exatamente o que eu preciso agora, que é o som da voz dela me contando coisas normais. Então ela tem me contado sobre o dia dela, sobre o livro que tava lendo quando eu liguei, sobre o restaurante que ela quer tentar no sábado, e eu tenho escutado, e o normal disso tem sido a única coisa mantendo minha respiração regular.

Quinze minutos atrás, o som passou bem do lado de fora da porta do armário.

Senti mais do que ouvi — uma vibração na porta contra minhas costas, uma mudança na pressão do ar no quartinho pequeno, o cheiro orgânico doce intensificando até ser tudo que eu conseguia cheirar, e tive que respirar pela boca pra não engasgar. Parou do lado de fora da porta. Sei que parou porque a vibração ficou estacionária, uma presença constante do outro lado de uma porta que eu tava segurando fechada com o peso do meu corpo e pés apoiados e mais nada. Aleeza tinha ficado quieta. Não sei se eu parei de responder pra ela ou se ela ouviu algo na minha respiração que disse pra parar de falar. A gente ficou os dois em silêncio. A coisa do outro lado da porta ficou em silêncio. A luz errada e plana zumbia.

Ficou do lado de fora da porta pelo que meu celular diz que foram quatro minutos e nove segundos. Pareceu bem mais. Aí a presença se mexeu, e o cheiro começou a diminuir, e a vibração se afastou pela parede, e eu respirei pelo nariz de novo, e Aleeza disse "Shane" bem baixinho, e eu disse "ainda aqui", e ela fez um som que não era palavra.

Isso foi há onze minutos. Não ouvi desde então, mas o cheiro não voltou ao normal, e eu não acho que foi longe.

Meu celular tá com vinte e dois por cento. Desliguei a lanterna pra economizar bateria, e tô digitando no escuro com o celular virado pra baixo contra minha perna entre as frases pra a luz da tela não vazar por baixo da porta.

Quero dizer umas coisas enquanto ainda tenho bateria.

Aleeza — sei que você vai ler isso. Sei porque você vai querer saber tudo, e isso é tudo. Preciso que você saiba que os quatro anos foram os melhores quatro anos, e o restaurante no sábado parece ótimo de verdade, e eu quero ir, e pretendo ir, e Zac ou a polícia ou alguém tá vindo, e isso vai virar uma história que a gente conta em jantares pra sempre do jeito que coisas terríveis viram engraçadas com distância suficiente, e eu vou ficar bem.

Tô te dizendo isso porque preciso te dizer isso. Tô te dizendo isso porque a alternativa não é algo que eu tô disposto a digitar.

Pra quem mais tá lendo isso — Calloway Building, centro de Pittsburgh, décimo quarto andar, tem um andar entre o doze e o quatorze que não aparece em nenhum diagrama do prédio, e eu tô nele, e algo tá nele comigo, e eu não sei o que é, e não sei o que quer, mas sei que tá aqui há mais tempo que o prédio, e sei que o prédio foi construído em volta dele em vez do contrário. E sei isso por causa do que encontrei nas prateleiras desse armário de suprimentos quando liguei a lanterna pela primeira vez, e que não contei pra Aleeza porque não tem nada útil que ela possa fazer com a informação.

Na prateleira do meio, entre os cartuchos de toner e as resmas de papel pra impressora, tem fotografias. Dezenas delas. Polaroids na maioria, alguns formatos de impressão mais antigos, abrangendo o que parece décadas de tecnologia fotográfica. Todas do mesmo assunto — esse andar, esses cubículos, esse carpete, essa luz errada e plana — e em cada uma tem uma pessoa. Pessoas diferentes, eras diferentes, roupas diferentes. Todas elas na mesma posição. Todas contra a parede do lado do elevador com as costas pressionadas nas portas e os rostos virados pra câmera com a mesma expressão, que é a expressão de alguém que olhou pra mesma coisa tempo o suficiente pra olhar parar de ser escolha.

Nenhuma das fotos tem data. Nenhuma tem nome no verso. São quarenta e uma, e contei duas vezes, e coloquei de volta na prateleira exatamente onde encontrei porque mexer na arrumação delas pareceu um erro que eu não podia me dar ao luxo.

Quatorze por cento.

O cheiro tá ficando mais forte de novo.

Aleeza, eu te amo. O restaurante no sábado. Tô falando sério.

Vou parar de digitar agora e segurar a porta.

Eu continuo perdendo coisas no meu quarto, mas elas sempre voltam...

Quando eu era criança, não era nada fora do comum meus pais me repreenderem por causa do meu quarto bagunçado. Eu não sou porco, nem sou particularmente suja. Confia em mim, não sou do tipo que deixa restos de comida delivery ou roupa suja espalhados por aí. A maior parte da "bagunça" no meu quarto é inofensiva. Livros encostados uns nos outros nas prateleiras, canetas e folhas soltas espalhadas pela mesa, gavetas entreabertas, coisas pequenas e esquecíveis no chão. Mesmo quando tem roupa jogada, geralmente é só umas poucas peças que eu experimentei e abandonei enquanto montava um look.

Como o título diz, eu sou desastrada. Eu perco coisas. Derrubo coisas sem querer, e na maioria das vezes, nem me dou o trabalho de guardar de volta. Ainda assim, eu arrumo a cama todo dia, e varro quando percebo que demorei demais sem fazer isso. Eu gosto de pensar que mantenho as coisas no controle, no mínimo.

Mas quando a bagunça acumula — na mesa de cabeceira, pela mesa toda —, fica mais difícil achar as coisas. E de alguma forma, isso sempre acontece justamente quando eu mais preciso delas. Já perdi a conta de quantas vezes jurei que algo tinha sumido de vez.

“Estava bem aqui. Na mesa. Eu juro.”

Minha mãe clicava a língua, mal me dando uma olhada, e seguia em frente. Eu também, ainda irritada, ainda convencida de que tinha procurado direito.

Aí, mais tarde, ela aparecia na porta do meu quarto com aquela mesma cara de quem sabe de tudo, apontando pro item perdido sentado ali direitinho à vista, como se nunca tivesse saído do lugar. Eu pegava da mão dela com um suspiro, envergonhada. Desastrada, descuidada e, aparentemente, cega.

Eu sei como isso soa. Eu perco merdas aleatórias, aí acho de novo. É só isso.

Mas ultimamente, não parece mais só isso.

Algumas semanas atrás, eu tava putassa porque, depois de quase trinta minutos procurando, ainda não achava meus fones de ouvido. Eu tenho um apego esquisito por eles. Não saio de casa sem. Parece dramático, mas me acostumei a ouvir música quando tô sozinha. Indo pro ponto de ônibus, no busão, em qualquer lugar. Me ajuda a me sentir estável, especialmente com minha ansiedade social.

Procurei em tudo. Debaixo da mesa, entre as almofadas do sofá, dentro da bolsa, até na cesta de roupa suja. Revirei a cama duas vezes, apertando o colchão como se eles pudessem ter afundado nele.

Nada.

Contei pra minha mãe antes de sair pro campus, pedi pra ela me avisar se visse.

Quando cheguei em casa aquela noite, ainda tavam sumidos. Eu tava cansada demais pra continuar procurando. Me deitei e apaguei quase na hora.

Acordei com minha mãe sacudindo de leve meu ombro, dizendo que o jantar tava pronto. Ainda meio dormindo, perguntei se ela tinha achado meus fones.

Ela bufou baixinho. “Não, não achei —” Parou e revirou os olhos quase sem perceber, “Claramente, você não procurou direito. Tá bem aí. Do teu lado.”

Eu franzi a testa, mas virei a cabeça mesmo assim.

Tavam no meu travesseiro. Enroladinhos direitinho, colocados bem do lado da minha cara.

Por um momento, só fiquei olhando pra eles. Não lembro de ter pego, só que eventualmente peguei. Assumi que ela tinha achado mais cedo e não mencionado.

Aí aconteceu de novo. E de novo.

Lembro que não contei pra minha mãe nas próximas vezes. Primeiro foi minha caneta azul favorita, de repente de volta na gaveta. Talvez eu não tivesse olhado direito, então fiz uma nota mental pra procurar mais a fundo da próxima. Depois foi meu livro de texto. É do tamanho de uma folha grande, grosso o suficiente pra fazer um baque surdo quando bate no chão. O tipo de coisa que você nota quando some.

Eu tinha lido na noite anterior, lembro disso claramente. Deixei aberto na mesa, com uma página dobrada na ponta porque tava com preguiça de pegar um marca-texto. Na manhã seguinte, não tava lá.

Procurei nos lugares de sempre, debaixo da mesa, do lado da cama, até na prateleira onde eu sabia que não tinha colocado. Só quando comecei a levantar as coisas e procurar de verdade é que a irritação veio. Me disse que era só descuido de novo.

Quando voltei pra casa e fui direto pro quarto, tava bem ali.

Fechado dessa vez. Colocado exatamente no centro da mesa, alinhadinho com as bordas. A página dobrada tinha sumido, alisada como se nunca tivesse sido amassada.

Tentei dar de ombros, talvez eu tivesse mexido sem pensar. Talvez minha mãe tivesse arrumado.

Comecei a prestar atenção em onde deixava as coisas. Coisas pequenas no começo. Como minha caneta tava inclinada um pouco pro lado esquerdo, uma moeda perto da borda da mesa, meu carregador enrolado frouxo em vez de bem amarrado.

E aí eu saía e voltava.

Às vezes, nada mudava. Mas outras, a caneta tava endireitada. Perfeitamente paralela à borda da mesa.

Tem vezes que até a moeda sumia. Ou pior, ainda tava lá, só num lugar um pouco diferente. Tipo, de repente na minha gaveta.

Isso era estranho porque eu conheço minha mãe. Ela ou deixa as coisas como estão ou reclama delas. Não ajusta por centímetros. Além do mais, ela não entra no meu quarto só pra arrumar. Eu tenho vinte e um anos, pelo amor de Deus.

Uma noite, decidi testar direito.

Antes de sair pro campus, tirei um dos meus brincos e coloquei bem no meio do travesseiro. Um ponto de prata. Não é algo que você perde de vista, ainda mais se vai deitar.

Lembro claramente que nem mencionei pra minha mãe.

Quando cheguei em casa, nem tirei os sapatos. Fui direto pro quarto e empurrei a porta.

Olhando pra cama, vi que meu brinco tinha sumido.

Só pra ter certeza, comecei a revistar a cama, depois o chão, depois a mesa. Mexi nas coisas mesmo sabendo que não ia achar.

Nada.

Aí ouvi uma voz, bem atrás de mim.

“Perdendo suas coisas de novo?”

Eu congelei.

Não tinha ouvido minha mãe se aproximar.

Virei, tentando manter a voz firme. “Você pegou meu brinco?”

Ela franziu a testa um pouco, parecendo confusa. “Que brinco?”

“Aquele na cama. Deixei lá essa manhã.”

Ela balançou a cabeça. “Por que eu entraria no teu quarto só pra pegar um brinco?”

Hesitei. “Então... você tem mexido nas minhas coisas ultimamente?”

Ela me deu aquela olhada e suspirou, a mesma de sempre quando eu começo a viajar na maionese.

“Não tenho tempo de ficar de olho nas tuas coisas, Megan”, disse ela, já indo embora.

Tudo parecia igual. A mesma bagunça, as mesmas gavetas meio abertas, as mesmas coisas espalhadas nos lugares que eu vivo me prometendo arrumar.

Quase parecia normal. Talvez eu esteja sendo dramática, mas tinha essa sensação persistente de que algo tava errado.

Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei pensando nisso. Todas as vezes que coisas sumiram, depois voltaram como se nada tivesse acontecido.

Não lembro de ter pegado no sono. Só que acordei e meu corpo tava pesado. Ouvi um som suave, tipo algo roçando de leve no travesseiro. Senti o espaço do meu lado na cama afundar um pouquinho.

Pensei por que minha mãe entrou no quarto sem dizer nada, parecia tão fora do personagem dela. Mais importante, por que ela tava sentada tão perto?

Fechei os olhos o mais forte que pude, depois tentei não respirar alto demais. Não sei por quê, mas parecia que eu tinha que fazer isso.

Alguns segundos se passaram, aí algo tocou meu cabelo.

Uma mecha perto da cara foi afastada, colocada pra trás do jeito que alguém faz sem pensar. O dedo que roçou a pele da minha cara era áspero, calejado. Não parecia nada familiar.

Fiquei parada, olhos fechados. Não sei quanto tempo durou. Podiam ser segundos. Podia ser mais.

Quando finalmente abri os olhos, esperando ver minha mãe, o quarto tava exatamente igual. Nada mexido, ninguém lá.

Tudo era um borrão, aí finalmente acordei de verdade com a luz da manhã entrando pela janela e, por um momento, pensei que talvez tivesse sido um sonho, e resolvi acreditar nisso.

Aí virei a cabeça e vi meu brinco ali, descansando no travesseiro do meu lado.

Se o que rolou aquela noite foi real ou não, não sei. Tentei não pensar mais depois. Era mais fácil me dizer que tava só cansada, que tinha estressado à toa e meu cérebro preencheu as lacunas. Então deixei pra lá, ou pelo menos tentei.

Voltei pra rotina. Leituras se acumulando, aulas, saindo com amigos mais do que devia. Me mantive ocupada o suficiente pra não ter tempo de ficar sozinha pensando nisso por muito tempo. Por um tempo, funcionou. Nada sumia, nada aparecia onde não devia. Meu quarto continuou da mesma bagunça de sempre. Parecia normal de novo, quase me fez esquecer por que eu tava tão incomodada em primeiro lugar. Finalmente dava pra respirar.

Mas, faz poucos dias, aconteceu de novo. Eu nem tava mais pensando em nada disso, o que piorou tudo de alguma forma.

Eu só tava procurando meus cigarros, um maço mentolado que sempre guardo enfiado atrás de uma fileira de livros na prateleira. Minha mãe odeia, então me acostumei a esconder. Sempre coloco de volta no mesmo lugar. Não esqueço. Mas naquele dia, não tava lá. Fiquei na frente da prateleira mais tempo do que precisava, deslizando os livros um por um, checando o espaço atrás como se talvez tivesse empurrado longe demais.

Revirei a mesa, a bolsa, até o chão. Nada. Senti aquele mesmo aperto no peito de novo, o que não sentia há semanas, e voltou tão rápido que me irritou. Me disse pra parar. Não ia surtar por uma bobagem de novo. Então larguei mão. Tinha planos mesmo, e era a única chance de fumar à vontade. Não queria estragar ficando presa na minha própria cabeça.

Saí de casa por volta das oito. Já tava escuro, e as luzes da rua não ajudavam muito. Algumas piscavam, outras mal iluminavam porra nenhuma. O resto só ficava lá, opacas e fracas. Puxei o casaco mais pra perto do corpo. O ar tava mais frio do que devia.

Fiquei pensando como seria bem melhor se tivesse meus cigarros comigo. Coloquei os fones e aumentei o volume, deixando a música preencher o espaço enquanto andava.

Foi aí que ouvi. Um farfalhar fraco dos arbustos na rua. Desacelerei, depois parei. O som parou também. Fiquei ali um momento, escutando, mas não tinha nada. Só a música, fraca agora num ouvido. Soltei o ar e continuei andando. Uns passos depois, voltou, mais suave dessa vez, tipo algo se mexendo nas folhas. Não virei a cabeça. Só andei mais rápido, tentando ignorar.

Aí, de lado, algo saiu.

Nem foi jogado de verdade, pareceu e soou como um arremesso cuidadoso por baixo, controlado o suficiente pra não ir longe. Ouvi antes de ver direito, um baque suave, de papel, quando bateu no asfalto. Caiu de uma aresta, tombou, depois fez esse som fraco de arrastar no chão áspero. Um rolamento curto e irregular veio depois, rolando desajeitado uma, talvez duas vezes, antes de perder o embalo.

Parou bem na frente do meu sapato.

Me peguei só olhando praquilo, parece que meu cérebro precisava de tempo pra processar o que eu tava vendo.

Era meu maço de cigarro, com uma amassadinha na ponta, o plástico ainda meio descascado do jeito que eu sempre deixo.

E por um momento, tive a sensação clara de que, se ficasse ali mais tempo, mais alguma coisa ia sair atrás.

Os patos que eu alimentei não me deixam em paz

Sabe como é tranquilo ir até um lago? Tem um parque perto dali pra famílias brincarem, bancos pra descansar quando o povo precisa, e quem pode esquecer da vida selvagem? A atmosfera lá é sempre tão calma. Tem esquilos que deixam as pessoas passarem a centímetros deles e nem saem correndo. Minha coisa favorita que eu faço sempre que tenho um dia de folga é ir na loja, comprar um pão e alimentar os patos. Nada me relaxava mais do que arrancar um pedaço de pão e jogar no lago pra eles correrem atrás e mergulharem pegando na água. Bom, pelo menos era assim...

Nos últimos dias, eu me tranquei em casa como prisioneiro. Tô com medo de sair porque eles estão me esperando. Não pelo pão, por mim.

Isso pode soar delirante pra quem tá de fora, mas tá virando devagar o meu dia a dia. Eu devia começar do início pra você entender melhor minha situação. Na terça de manhã, eu acordei cedo — tinha terminado um projeto pro trampo na noite anterior e entreguei na mesma hora. Pra quem tá curioso, eu sou fotógrafo. Especificamente, fotógrafo de natureza. Ainda sou verde na profissão, mas tirei umas fotos decentes no passado. Meu clique mais orgulhoso foi de um par de raposas brincando com uma borboleta só: peguei o momento perfeito quando a borboleta voou no ar bem na hora que uma das raposas pulou pra tentar pegar ela, enquanto a outra dobrou as patas da frente pra dar um pulinho também. Desculpa, me empolguei e saí do trilho.

Era meu dia de folga, então não pensei em nada melhor que ir pro lago local e curtir o mimo de um novo dia começando. Saí de casa às 5:45 da manhã pro supermercado. Comprei uma garrafa de suco de laranja sem polpa e um pão branco. Caminhei pro lago uns minutos depois de sair da loja. Não vou dar a localização por razões óbvias, mas se você mora na área, pode saber de qual lago tô falando. O som já tava começando a subir através da mata de árvores, o tom alaranjado de clementina do céu se estendendo pra dizer oi enquanto o reflexo brilhava no lago cristalino. Enquanto eu admirava a beleza do nascer do sol, fui pego de surpresa. Ouvi o som bem familiar de grasnados e respingos vindo do lago. Era o bando de patos que chamava aquele lago de casa.

“Ah, perfeito!”, pensei enquanto pegava o celular.

Ajoelhei na lama e enquadrei tudo.

“Clic.” Foi um clique perfeito, não podia pedir nada melhor.

O barulho do celular tirando a foto alertou os patos. Eles começaram a nadar na minha direção e depois balançaram pra terra firme. Grasnavam enquanto formavam uma fila bagunçada pra chamar minha atenção. Entende, esses patos sabiam que eu sempre tinha pão comigo. Pra eles, eu era tipo o Papai Noel no Natal.

“Tá bom, tá bom. Tenho pão pra todo mundo.”, eu disse enquanto desamarrava o nó e abria o pacote de pão. Comecei rasgando pedaços do calcanhar e dando pros dois patos na frente, depois peguei três fatias inteiras e joguei no lago. Achei que podia dar um exercizinho pra eles antes do mimo. Rasguei mais uns pedaços antes de parar pra sentar num banco ali perto. Enquanto sentava, dei uma inalada funda no ar fresco.

“Não tem sensação melhor.”, pensei comigo mesmo.

Depois de ficar olhando pro céu agora azul, coberto de nuvens fofas, por um tempo, saí do parque. O resto do dia foi sem graça, só fiz umas tarefas em casa.

Na manhã seguinte, repeti a rotina do dia anterior. Acordei por volta das 5:30 pra ir na loja e depois pro lago, só que a loja de sempre tava fechada porque o dono foi de férias por duas semanas. Não foi grande coisa, só significava que eu precisava achar outra loja aberta antes do sol nascer. Como não tinha nenhuma pra caminhar, tive que dirigir até uma.

Passei uns bons vinte minutos procurando uma loja aberta — e eu sei que parece perda de tempo, mas se você tivesse algo que te ajudasse a relaxar com o mundo de merda que é, não faria o mesmo que eu? Por sorte, achei essa padaria velha de família, mas não lembro o nome. Estacionei o carro bem na frente e entrei. Era um lugar bem pequeno, não tinha pão exposto, só um cheiro que lembrava leite de filhote de cachorro misturado com chulé. Parecia que eu tinha entrado no banheiro de um posto de gasolina, mas era o único lugar aberto, então não dava pra reclamar.

Toquei a campainha no balcão e esperei uns segundos até uma velhinha sair dos fundos. Ela usava um avental coberto de pedaços vermelhos de carne e sangue fresco. Devo ter ficado com cara de choque porque a velhinha me olhou confusa.

“Tudo bem, menino?”, ela perguntou.

A doçura na voz dela me surpreendeu — parecia que ela tinha levado um balde de sangue e tripas na cara, mas falava como uma mãe que te acalma no meio de uma tempestade.

“Sim, tô bem, valeu.”, respondi.

“O que posso pegar pra você?”, a velhinha perguntou enquanto pegava uma toalha limpa pra tirar o sangue das mãos.

“Bom, tava procurando comprar um pão, mas acho que confundi a loja com uma padaria.”, respondi.

A velhinha olhou em volta e viu que não tinha pão exposto.

“Nossa, que coisa! Achei que tinha arrumado a loja! Desculpa, viu, sabe como é a velhice.”, ela tentou rir pra disfarçar. “Meu nome é Gretchen, acabei de abrir a loja hoje de manhã e tava assando uns pães fresquinhos. Quer um?”

A loja ainda cheirava mal, mas ela tinha aberto hoje, então pensei em dar uma chance.

“Sim, quero um pão, por favor.”

Gretchen sorriu e voltou pra cozinha, saindo dez minutos depois com uma forma de pão assado na hora. Parecia um pouco estranho, tipo queimado em umas partes e cru em outras, e o negócio todo era rosado avermelhado, como se ela tivesse esculpido um pão de carne crua.

“Er... que tipo de pão é esse?”, perguntei. Ela deve ter captado meu desconforto porque me deu um olhar tranquilizador.

“É uma receita de família antiga. Minha avó fazia o pão mais gostoso do mundo. Peguei do livro dela, mas adicionei minha ideia!”, ela explicou.

“O que tem dentro?”, perguntei.

“Carne!”, ela respondeu. “Hambúrguer especificamente.”

Tenho que admitir, soou interessante o suficiente, mas não tinha certeza se patos podiam comer carne de hambúrguer. Mesmo assim, comprei pra mim e saí da loja. Gretchen acenou tchau com um sorriso dentuço.

Dirigi pro lago e vi que o bando de patos já tava lá, chapinhando e mergulhando atrás de peixes.

Sentei num banco pra olhar eles. Me senti mal por não ter pão normal pra dar, então pensei que não ia fazer mal dar um pouco do pão de carne que comprei. Foi esquisito rasgar pedaços, tipo destrinchar um coelho depois de caçar. Rasguei uns pedaços do pão e joguei no lago. No começo, os patos só olharam, inclinando a cabeça pro pedaço de comida jogado na frente deles. Um pato bicou curioso até dar uma mordida. Deve ter gostado porque logo correu pros outros pedaços antes que o resto do bando pegasse.

Tipo um valentão roubando o dinheiro do lanche de uma criança pequena, esse pato levou os pedaços de pão de carne que eram pros outros. Rasguei mais uns pedaços e tentei jogar mais perto pro resto do bando, mas esse pato pegou no ar antes de cair na água.

“Ei!”, gritei, assustando os outros patos que nadaram pra longe — mas esse não ligou.

Ele tentou arrancar o pão da minha mão. Eu afastei com a mão o melhor que pude — acredite, o bicho era implacável —, mas em vez disso ele me mordeu, travando na minha mão. Você já levou mordida de pato? É tipo uma alicate grande e afiada te apertando que não solta. Larguei o pão no chão enquanto tentava tirar esse pato psicopata da minha mão, mas ele não arredava. Senti as lamelas afiadas dele cravando na minha pele, tirando sangue do dedo e apertando o bico forte até arrancar meu mindinho inteiro.

Eu chorei de dor enquanto o pato batia as asas e transformava meu dedo numa pasta de carne. Caí de joelhos, apertando a mão pra estancar o sangue. Através das lágrimas, vi o resto do bando devorando o pão. Brigavam por ele como um cardume de piranhas. Quando acabaram com o pão — nem migalha sobrou —, todos olharam pra mim.

Levantei e corri pro carro; os patos voaram atrás de mim. Parecia uma esquadrilha de caças me perseguindo, tentando me derrubar como se eu fosse o alvo. Dirigi embora, ignorando o limite de velocidade, e olhei pelo retrovisor pra ver se ainda tavam me seguindo. Alguns sim. Outros atacaram gente passeando com cachorro ou correndo. Era tipo moscas num monte fresco de merda — ninguém conseguia se livrar enquanto os patos arrancavam a carne deles, pedaço por pedaço.

Cheguei em casa, saí correndo do carro, abri a porta da frente e bati antes que algum pato entrasse. Só ouvia os gritos dos inocentes do lado de fora enquanto corria pro banheiro pra cuidar do ferimento. Uma hora depois ficou tudo em silêncio. Arriscar abrir a cortina e olhar pra fora. Bile subiu pela garganta. Tinha corpos cobrindo a rua e as calçadas. Patos devorando carne como as migalhas que um dia amavam. Vomitei com a cena antes de notar que tavam me vigiando. Tinha patos por todo lado fora de casa, mais que só o bando do lago.

Não saio de casa desde então — faz quase uma semana. Tenho comida pra durar um mês se racionar direito, mas mais dia menos dia vou ter que sair pra comprar mantimento. Os patos sabiam disso. Eles eram pacientes. Antes eu achava patos uns bichos inofensivos, coisinhas fofas que curtiam lagos e represas. Agora, vejo eles como abutres que não ligam se você tá vivo ou morto; só querem carne.

terça-feira, 17 de março de 2026

Minha esposa sabia que não era eu antes de eu saber

Reescrevi isso várias vezes porque cada versão soa falsa pra mim quando leio de novo, e eu sei como esse tipo de coisa parece na internet. Não estou postando isso da minha conta principal por motivos óbvios. Tenho 34 anos, sou casado, trabalho num escritório normal, não tenho histórico de problemas psiquiátricos além da ansiedade padrão, e não estou tentando vender isso como "paranormal" ou algo assim. Nem sei o que acho que aconteceu. Só sei que teve mais ou menos um mês no ano passado em que minha vida começou a parecer muito levemente errada de um jeito que ainda não consigo explicar, e terminou com algo que honestamente me fodeu mais do que consigo admitir para as pessoas na vida real.

Isso começou de um jeito tão idiota e pequeno que eu quase nem incluiria, mas acho que importa porque foi a primeira coisa que me deu aquela sensação física de "tem algo errado" antes de eu ter qualquer motivo para estar assustado.

Então... é. Como de costume, eu estava fazendo a barba uma manhã antes do trabalho e percebi que meu rosto parecia bem estranho no espelho — não estava deformado nem nada dramático. Só parecia desconhecido. Tipo, as proporções pareciam meio fora do lugar de um jeito que eu não conseguia definir. Tipo minha boca estava um pouco larga demais, ou meus olhos estavam fundos demais, ou minha pele parecia mais esticada que o normal. Eu até me inclinei e verifiquei se o espelho estava empenado. Depois ri de mim mesmo, só porque obviamente era sono ruim ou iluminação esquisita do banheiro. Mas pelo resto daquele dia eu ficava vendo reflexos de mim mesmo em monitores de computador escuros, janelas, o micro-ondas da copa, e toda vez tinha aquela fração de segundo em que eu não reconhecia meu próprio rosto. Não era como ver um estranho. Era levemente pior que isso. Era como ver uma versão de mim que alguém tinha recriado de memória.

Isso aconteceu de vez em quando por uns quatro dias. Não constante. O que quase tornava pior, porque se fosse constante eu teria ido no médico imediatamente. Mas acontecia uma vez de manhã, depois não acontecia de novo até tarde da noite, e aí eu já estava meio convencido de que tinha imaginado tudo aquilo. Minha esposa, Dixie, disse que eu parecia cansado e precisava parar de ficar rolando feed de desgraça antes de dormir; o que é justo. Ela não foi desdenhosa exatamente, só prática. Essa é a personalidade dela. Ela é o tipo de pessoa que tem uma gaveta específica pra pilhas e carregadores e sempre consegue achar as coisas lá de algum jeito. Muito pé no chão, muito baseada em rotina. Eu sou o oposto. Perco minha carteira dentro da minha própria casa duas vezes por semana, haha. Então quando ela me disse que eu provavelmente estava me encarando demais, acreditei nela.

Mas aí, o apartamento começou com aquelas "coisinhas."

Não do tipo de coisa de filme de assombração. Só erros minúsculos. Tipo, por exemplo, uma noite eu cheguei em casa e a luz do corredor fora da nossa unidade estava apagada, o que não era incomum porque o zelador demorava uma eternidade pra trocar lâmpadas, mas quando destravei a porta ouvi a TV do nosso quarto ligada. Dixie estava na cozinha fazendo macarrão. Lembro disso muito claramente porque o cheiro me atingiu primeiro. Perguntei por que a TV estava ligada no quarto, e ela me deu aquele olhar vazio e disse que não estava. Entrei lá e não estava mesmo. Silêncio total. Eu sei o que ouvi. Até sabia que tipo de som era, tipo falas baixas de um documentário ou âncora de noticiário. Mas quando entrei, nada.

Outra vez acordei por volta das 3 da manhã porque ouvi alguém tossir na nossa sala. Uma tosse seca, única, tipo alguém tentando não acordar ninguém. Não temos filhos. Ninguém estava hospedado. Fiquei deitado esperando Dixie reagir, mas ela estava dormindo. Levantei e verifiquei o apartamento com a lanterna do celular feito um idiota. Ninguém lá. Até abri o armário de casacos porque aparentemente eu já tinha chegado naquele estágio mentalmente.

Por volta da segunda semana comecei a notar conversas que não batiam com minha memória. Essa é a parte que realmente me incomodou, porque me fez sentir louco de um jeito aparentemente razoável. Tipo, Dixie se referia a algo que ela tinha me contado, e eu tinha ZERO memória disso. Uma vez ela perguntou se eu tinha ligado de volta pra minha irmã "sobre o que aconteceu com o Harold." Harold é meu cunhado. Frase normal o suficiente. O problema era que aparentemente ela já tinha me contado duas noites antes que Harold tinha perdido o emprego. Eu não lembrava daquela conversa de jeito nenhum. Nem vagamente. Nem "ah é, agora que você fala." Completamente apagado. Ela até lembrava onde estávamos quando ela falou, eu enxaguando um prato e meio escutando. Isso parecia plausível porque é exatamente o tipo de coisa que eu faço. Mas ainda assim não tinha memória disso, e comecei a manter notas no celular depois disso porque estava constrangido.

As notas são estranhas de ver agora porque começam normais e depois ficam paranóicas rápido. Coisas tipo "Dixie diz que eu já sabia sobre o Harold." "Ouvi TV de novo?" "Espelho do banheiro ok hoje à noite." Depois coisas com som mais desesperado. "Por que a cozinha parece mais comprida às vezes." "Verificar fechadura da porta da frente antes de dormir." "Não mencionar a coisa do rosto no trabalho."

Acabei mencionando um pouco no trabalho, mas não a coisa toda. Contei pra um cara com quem sou amigável, Roel, que eu estava dormindo mal e tendo problemas de concentração. Ele é mais velho que eu, início dos 50 talvez, divorciado, um daqueles caras que sempre tem balas de menta e fala coisas tipo "seu sistema nervoso central não é seu amigo." Ele me disse que estresse pode fazer coisas insanas com a percepção e que depois do divórcio dele ele uma vez dirigiu até a casa antiga dele por acidente três dias seguidos. Ele quis me tranquilizar, acho, mas aí ele disse, "Fica assustador quando seu cérebro começa a suavizar as coisas pra você," e algo sobre essa formulação grudou em mim. Suavizar as coisas. Tipo a realidade estava sendo editada de um jeito que era pra ser útil mas não era.

Teve um dia, umas três semanas depois, em que eu quase senti alívio porque algo aconteceu na frente de outra pessoa. Dixie e eu estávamos num mercado. Estávamos no corredor de cereais, tendo a discussão mais entediante do mundo sobre se já tínhamos café em casa, e uma mulher passou por nós com uma menininha no assento do carrinho. Quando passaram, a menininha virou e olhou diretamente pra mim e sorriu, o que não teria sido memorável exceto que a mãe dela disse, sem nem olhar pra mim, "Não fica encarando, ele ainda não sabe."

Eu sei como isso parece. Eu ouvi. Dixie ouviu algo também porque ela foi tipo, "O quê?" e olhou pra trás delas. Mas a mulher não reagiu, só continuou andando. Perguntei pra Dixie exatamente o que ela tinha ouvido, e ela disse, "Não sei. Achei que ela disse 'Não começa' ou algo assim." Ela parecia irritada com minha reação mais do que qualquer coisa, tipo eu estava tentando transformar um momento aleatório de mercado em mais uma coisa. Eu realmente deixei pra lá porque estava tão aliviado que outra pessoa pelo menos tinha notado que tinha havido palavras ditas. Mesmo se ouvimos palavras diferentes, significava que eu não estava inventando totalmente a interação.

Depois disso, porém, comecei a prestar mais atenção nos rostos das pessoas de um jeito que queria não ter feito. Não porque pareciam monstruosos. Pareciam normais. Normais demais. Sorrindo nas horas certas, piscando, fazendo contato visual, tudo certo. Mas de vez em quando alguém segurava uma expressão por talvez meio segundo a mais depois que o momento tinha passado. Tipo uma caixa terminando uma risada mas mantendo o sorriso ali enquanto os olhos ficavam sem vida. Ou meu vizinho de baixo pausando no meio de dar um oi e olhando pra minha testa em vez dos meus olhos, tipo ele estava lendo algo escrito ali ou vendo coisas que eu não via. É difícil de explicar sem soar como se eu estivesse só descrevendo estranheza social. Eu sei que as pessoas são estranhas. Eu sou estranho. Isso parecia diferente. Parecia muito mais coordenado, ou ensaiado, ou tipo eu estava notando as costuras em coisas que eu não deveria notar.

A última semana foi a pior. Parei de dormir direito. Comecei a verificar minhas notas do celular logo de cara toda manhã porque estava com medo de esquecer conversas inteiras de novo. Uma nota que encontrei dizia: "Se Dixie perguntar sobre o homem no corredor, diz que você não viu ele." Eu não lembro de escrever isso. Preciso deixar claro sobre isso. Sei que as pessoas dizem isso online por efeito. Estou dizendo porque me assustou pra caralho. A nota tinha registro de horário 1:14 da manhã de uma terça. Eu estava dormindo do lado da minha esposa naquele horário até onde eu sabia. Perguntei pra ela depois se eu tinha levantado de noite e ela disse que sim, na verdade, eu tinha ficado parado na porta do quarto por um tempo. Ela achou que eu estava indo no banheiro. Perguntei por que ela não tinha mencionado isso antes e ela disse porque não era grande coisa.

Aí teve a foto.

Nada de mais. Eu não estava tirando fotos sinistras pelo apartamento nem nada. É só que minha irmã tinha mandado mensagem perguntando se ainda tínhamos a caixa de ferramentas velha do nosso pai já que ela precisava de uma chave inglesa específica, então fui no armário do corredor verificar. Tirei uma foto das prateleiras. Flash ligado, de perto, armário bagunçado. Mandei, ela disse não, não está aí, fim da conversa.

Três noites depois eu estava deletando duplicatas do rolo da câmera e abri a mesma foto de novo. No começo achei que era só coisa de compressão ou meus olhos estarem cansados, mas tinha um rosto atrás dos casacos pendurados.

Não um rosto de intruso escondido. Não um rosto de fantasma. Um rosto exatamente na altura que o meu estaria se eu tivesse estado dentro do armário olhando de volta pra mim mesmo. Pálido por causa do flash, feições achatadas pela sombra, olhos abertos um pouco demais. O tipo de coisa que seu cérebro diz dobras de casaco, pareidolia, obviamente. Eu fiz tudo isso. Dei zoom, tirei zoom, mandei pra mim mesmo, mudei o brilho, tudo que eu podia fazer. Quanto mais eu olhava, menos parecia acidental de qualquer jeito possível e impossível. O que me pegou foi a expressão naquilo. Nem era assustadora. Parecia constrangida. Tipo foi pego no flagra.

Não mostrei pra Dixie logo de cara porque precisava ter certeza de que não estava influenciando ela, mas na manhã seguinte entreguei meu celular pra ela e perguntei o que ela via no fundo do armário. Ela encarou por uns dois segundos e disse, "Você."

Lembro do meu estômago caindo tão forte que realmente doeu por dentro. Perguntei o que ela quis dizer com isso. Ela olhou pra mim como se eu estivesse sendo burro e disse, "É você tirando a foto no espelho." Não tem espelho no armário. Nunca teve espelho naquele armário. Eu tinha 100% de certeza. Mas ainda assim fui e abri ele imediatamente tipo esperava que tivesse um lá de algum jeito. Prateleiras, casacos, aspirador, jogos de tabuleiro, nenhum espelho. Quando a trouxe ali, ela ficou irritada, depois confusa, depois quieta. Ela disse que deve ter respondido rápido demais. Ela disse que provavelmente era só jaquetas fazendo uma forma. Mas, Cristo... dava pra ver pela cara dela que naquele primeiro segundo, ela tinha reconhecido "aquilo" como "eu."

Mal dormi naquela noite. Por volta das 4 da manhã levantei da cama pra beber água e percebi que a porta do armário do corredor estava aberta uns quinze centímetros. Mas eu sei que tinha fechado. Dixie estava dormindo no sofá porque tínhamos meio que brigado e ela tinha dito que eu estava surtando e arrastando ela pra isso. O apartamento estava completamente parado. Sem TV, sem vizinhos, sem canos batendo, nada. Fiquei ali olhando pra aquela fresta escura na porta e tive essa sensação realmente avassaladora de que se eu abrisse completamente, não teria nada dramático lá dentro. Só o armário. Casacos normais, aspirador, jogos de tabuleiro. E de algum jeito isso seria pior.

Então voltei pro quarto e fechei a porta e fiquei sentado ali até de manhã feito uma criança.

O motivo de estar postando agora é que achei um dos meus backups antigos do celular no fim de semana passado e passei pelas notas daquele mês. A maioria eu lembrava. Uma eu não lembrava. Era a última nota na pasta, escrita na manhã depois da coisa da porta do armário. Diz: "Dá pra saber quando teve que usar você recentemente porque seu rosto fica estranho por um tempo depois."

Isso já seria o suficiente pra me incomodar. O problema é que embaixo tem uma segunda linha, adicionada uns vinte minutos depois.

"Dixie percebeu antes de você."

Nunca contei pra Dixie essa parte. Nem pensei nisso claramente até ler de volta. Mas desde então venho lembrando de pequenos momentos daquele mês de forma diferente. Não melhor, exatamente. Mais como se o ângulo tivesse mudado. Ela encarando um pouco demais quando eu saí do banheiro. O jeito que ela disse "você tá parado estranho de novo" uma vez e depois imediatamente agiu como se estivesse brincando. A resposta que ela deu quando mostrei a foto do armário pra ela.

"É você."

Não "parece você." Não "meio que parece seu rosto." Só reconhecimento imediato.

Não perguntei nada disso pra ela porque genuinamente não quero ouvir a resposta dela agora. E antes que alguém diga põe câmeras, se muda, vai no médico, sim, eu sei. Fui no médico. Exames de sangue estavam normais. Estudo do sono não mostrou basicamente nada exceto estresse. Nos mudamos de apartamento em janeiro por motivos não relacionados, oficialmente. As coisas têm estado normais há meses.

Na maior parte normais.

De vez em quando, geralmente quando me vejo no espelho rápido demais, tenho aquela mesma sensação de fração de segundo de que estou olhando pra uma versão de mim que alguém montou de memória. E duas vezes agora acordei e Dixie já estava acordada, só me olhando com essa expressão cansada e investigativa tipo ela está tentando descobrir se sou eu quem levantou.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon