Não é tão macabro quanto você pode imaginar, pelo menos para mim. Veja bem, eu trabalhava num necrotério antes de ser demitido por certas "indiscrições". Encontrar um emprego novo com a minha falta de experiência em qualquer outra coisa — sem falar na mancha enorme no meu currículo — se mostrou praticamente impossível. Com o fantasma de morar na rua batendo à porta, acabei indo parar nesse meu ramo atual, e fiquei surpreso com o quão fácil a coisa fluiu. Não tem tanto assassino psicopata por aí quanto se pensa, então a maioria dos meus bicos era com o pessoal do crime organizado; execuções, tiroteios e tudo mais.
Infelizmente, nenhum trabalho é perfeito. Noites em claro, queimaduras químicas, doenças transmissíveis pelo sangue e a desaprovação do governo estão entre os pontos negativos; mas o pior de tudo, com certeza, são os "esquisitos".
"Esquisitos" é a gíria para o pessoal que deixa cenas bizarras para trás e depois chama alguém para limpar a sujeira, pelo menos aqui na minha área. Veja, os tais psicopatas que mencionei não entram em contato com gente como eu porque eles querem que o trabalho deles seja encontrado. A menos que algo dê errado, eles não querem saber de nós. Quando o pessoal percebeu a natureza estranha desses serviços, cunharam o termo "esquisito".
Eu não socializo muito com meus "colegas de trabalho", mas ouvi pela rádio peão que esses serviços de "esquisitos" têm aparecido na região desde que o mundo é mundo, e tem gente que até pediu as contas e sumiu da área por causa deles. No começo eu fui cético, mas depois que senti o gostinho do meu primeiro serviço desse tipo, eu mesmo considerei mudar de ares.
Não posso te dar uma data exata por razões óbvias, mas era um dia frio de inverno quando recebi a ligação. A voz do outro lado era o equivalente em áudio daquelas cartas de resgate feitas com recortes de letras de revista e coisas do tipo. Não era exatamente uma prática comum, mas eu não tinha experiência suficiente para saber disso na época. A voz recortada me deu uma hora, um local e avisou que eu receberia uma bolada no ato. Eu estava precisando muito da grana, então, quando chegou a hora, peguei minhas ferramentas e dirigi meu calhambeque por mais de uma hora até um prédio coberto de ferrugem e com as janelas estouradas. Já era tarde da noite quando cheguei lá.
Minhas primeiras impressões da cena foram tranquilas. O prédio era uma antiga fábrica de brinquedos que produzia todo tipo de boneca. A falta de janelas deixava o interior frio e úmido. O lugar cheirava a ferrugem e concreto, com aquele toque familiar de moedas de cobre que eu já tinha aprendido a ignorar. Caminhei entre fileiras de peças de bonecas velhas, abandonadas desde quando a fábrica fechou.
Havia uma ausência estranha de qualquer coisa incomum e, em pouco tempo, fiquei inquieto. Eu conseguia sentir o cheiro de um corpo, mas não conseguia vê-lo. Nada naquele lugar parecia certo. Era discreto demais para ser uma cena de crime; parecia mais um lugar para desovar um corpo. Procurei pelo cadáver por um tempão, e o pânico foi batendo quanto mais eu procurava. Seria uma armadilha? A polícia ia arrombar a porta e me prender? Eu estava participando de algum jogo doentio?
Ainda estava um breu total lá fora quando eu o encontrei. Escondido sob uma das prateleiras, um alçapão quase travado pela ferrugem, com o cheiro de podridão saindo de dentro. O alçapão tinha um pedaço de papel rasgado colado com firmeza. No papel, escrito com uma letra delicada, estava a palavra "olá", junto com um rostinho sorridente.
Embora perturbado pelo bilhete, relaxei um pouco, pensando que o corpo estaria ali embaixo e eu finalmente estaria livre daquele lugar. Erguendo o pesado alçapão de ferro, apontei minha lanterna de dinamo para um porão de madeira. Sem pensar, escorreguei pelo alçapão, mas o chão de madeira apodrecido cedeu.
Caí com um baque úmido. O chão abaixo de mim estava frio, molhado e fedendo a algo que eu nunca tinha sentido antes. Liguei a lanterna e vi onde estava pisando. O chão estava completamente coberto por carne podre, oxidada e marrom; tudo passado num moedor de carne. Eu estava quase com as pernas enterradas até o quadril naquela imundície, e percebi, num terror súbito, que não estava sozinho ali. Algo estava rastejando na minha direção, como um tubarão sob ondas turvas.
Comecei a me debater para achar uma saída, agarrando desesperadamente as tábuas podres acima de mim. Conforme a coisa se aproximava, ela sugava os resíduos acumulados no chão, espirrando um purê terrível e pastoso. Eu me puxei para fora daquele fosso podre, rezando desesperadamente para que as tábuas não me deixassem morrer.
Me joguei pelo alçapão, rolando no chão frio da fábrica, metade tentando recuperar o fôlego e metade tentando não vomitar. Coberto de carne podre quase liquefeita e tremendo, vi através dos olhos marejados um braço esguio e decomposto, feito da mesma matéria do poço de carne do qual eu acabara de escapar, estendendo-se pelo porão horrendo. Ele tateou o chão por um tempo, apenas para agarrar o alçapão com seus dedos longos e finos e puxá-lo suavemente para fechar.
De boca aberta, devo ter ficado sentado naquele chão frio por pelo menos meia hora antes de conseguir me mexer de novo.
Cerca de um mês depois, recebi uma carta pelo correio. O envelope estava úmido, estufado e fedia a carne podre, trazendo de volta memórias terríveis. Escrito no envelope, com a mesma letra delicada, estavam as palavras "Até breve". Um rostinho sorridente estava desenhado ao lado. Rasguei o envelope gordo com a unha, apenas para encontrar vinte mil dólares em dinheiro vivo.
Não recebi nenhum serviço parecido desde então, mas acho que ainda não estou rico o suficiente para sair recusando trabalho.


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