domingo, 2 de agosto de 2026

Mantenha-se afastado da cabana na floresta

Acho que nunca vou saber por que Jim sugeriu essa viagem de acampamento para mim.

Ele era apaixonado por acampar no meio do mato; eu, que nunca tinha dormido em nada além de um colchão grosso, aceitei a ideia por pura gentileza, sem perceber o alcance e a intensidade da viagem que ele planejara. Ele imaginava algo simples: nada além dos sacos de dormir, uma barraca e ração limitada de carne seca — mais o que conseguíssemos caçar ou pescar na floresta —, tudo instalado a vários quilômetros de qualquer sinal de civilização. Como se isso não bastasse, ele marcou a viagem para o fim de novembro e começo de dezembro, garantindo assim mais um obstáculo: o clima severo.

Toda manhã acordávamos, arrumávamos nossas coisas e nos aprofundávamos ainda mais na floresta, onde Jim montava o acampamento de novo. Eu passava a maior parte do dia encolhido no saco de dormir, lendo meu livro, enquanto Jim explorava a mata ou pescava e preparava o jantar.

Os problemas começaram no fim da viagem, quando estávamos a caminho de sair da floresta. Fomos surpreendidos por uma tempestade de neve súbita e inesperada — daquelas em que a gente protege o rosto e semicerram os olhos por causa do vento cortante. Nevascas são raras nessa região dos Estados Unidos, especialmente com essa intensidade. Por isso, Jim provavelmente não estava preparado. Mesmo assim, ele seguia na frente, embora — e ele não queria admitir — ficasse claro que a tempestade tinha desorientado ele por completo.

— Não consigo continuar, cara — falei, perguntando a mim mesmo como deixei Jim me convencer a fazer aquela viagem. — Preciso sentar, ou algo assim.

— Precisamos manter o ritmo — Jim respondeu com um sorriso otimista. — Hipotermia e geladura acontecem rápido com essa temperatura! Tenho certeza de que vamos sair da floresta a qualquer momento.

Depois de mais meia hora caminhando pela neve que não parava de subir, Jim ainda se recusava a admitir que estávamos perdidos. Ele continuava andando, confiante como nunca. Foi durante essa marcha terrível que encontramos uma clareira. Não era uma clareira que tivéssemos atravessado antes; senão, teríamos notado a velha cabana de madeira no meio dela.

Era o que restava de uma casa antiga. A madeira estava escura de tantos anos de decomposição. Todas as janelas estavam quebradas. Nem sequer havia uma porta. Parecia abandonada. Olhei para Jim. Ele sabia exatamente no que eu estava pensando. Olhou para a cabana, depois virou a cabeça para a floresta atrás de nós, ponderando as opções. Não esperei a resposta dele. Comecei a andar em direção à cabana, ouvindo o estalar da neve até os tornozelos a cada passo. No momento em que cruzei a soleira, senti a mão de Jim apertar com força a minha.

— Espera! — ele disse em voz baixa. — E se for propriedade de alguém?

Puxei minha mão livre do aperto dele.

— TEM ALGUÉM AÍ? — gritei da entrada.

A única resposta foi meu eco batendo nas paredes cobertas de mofo.

— Parece vazio pra mim — falei.

Jim soltou um suspiro resignado e olhou de novo para a floresta. Ele tinha sido humilhado; eu sabia disso muito bem. Ao entrar na cabana, ele admitiu que a natureza o tinha vencido, e não o contrário. Não consegui encontrar palavras de consolo; simplesmente não sabia o que dizer.

Atravessamos a entrada e entramos no que parecia ser uma antiga sala de estar. A cada passo, as tábuas do chão rangiam, como se o próprio piso reclamasse de ser pisado. Fomos mais adiante e encontramos uma cozinha, um banheiro e um quarto com uma cama king-size.

— Sei onde vamos passar a noite, acho — falei, olhando para a cama.

Olhei para Jim. Sua expressão era fria. Mais fria que a tempestade.

— Não vamos dormir nessa coisa hoje à noite — ele disse. — Vamos dormir no chão.

— Por quê?

— Estamos acampando! — A irritação e a frustração eram claras na voz dele. — Não podemos simplesmente dormir numa cama. Isso não é coisa de acampador.

Entendi. Era a tentativa dele de se agarrar à ideia de que ainda estávamos acampando. Uma tentativa de convencer a si mesmo de que não tinha desistido, negando a nós dois uma noite confortável na cama.

— Você precisa relaxar, cara.

— Relaxar?! — As rugas na testa de Jim se aprofundaram. — Trabalhei duro pra caramba pra você ter uma boa experiência nessa viagem… e é assim que você me recompensa? Jogando todo meu esforço fora?

— Cara, vamos lá — suspirei. — Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Só estou exausto depois desses dias todos.

— Pffft. Exausto? — Jim resmungou. — Exausto de quê, exatamente? — Ele suspirou. — Quer saber? Dorme aqui. Eu durmo na sala, no chão.

— Tem certeza? — perguntei, sentindo um peso na consciência.

— Sim, está tudo bem! — afirmou, embora o tom dissesse o contrário. — Por que não estaria?

Ele se virou e saiu do quarto, resmungando sozinho enquanto pisava nas tábuas que rangiam.

Pela porta aberta, eu o via estender o saco de dormir no chão da sala. Não gostei de vê-lo chateado.

Talvez eu devesse ter conversado com ele. Talvez devesse ter dormido ao lado dele no chão naquela noite. Talvez as coisas tivessem terminado diferente. Às vezes penso nisso. Mas qual é o sentido de lamentar uma oportunidade que nunca aproveitei?

Estendi meu próprio saco de dormir no lado direito da cama e me enfiei dentro, deixando o braço direito pra fora por conforto. Olhei pela janela quebrada. A tempestade ainda rugia lá fora. O vento uivava como um lobo entre os troncos nus da floresta, e a neve caía como açúcar de confeiteiro.

Apoiei a cabeça no colchão. Imediatamente, minhas pálpebras pesaram como chumbo. Embora ainda houvesse algumas horas de luz do dia, caí num sono profundo.

Lembro de ter acordado em algum momento com o rangido das tábuas. Abri os olhos. A visão estava turva e as pálpebras ardiam de cansaço. Era noite alta, e a tempestade continuava lá fora. A única luz no escuro do quarto vinha dos raios de lua que entravam pela janela quebrada. Vi uma silhueta parada na porta.

— Ei, Jim… — murmurei, lutando contra o sono para manter os olhos abertos.

Não houve movimento na porta. Só ouvi uma respiração pesada.

— Escuta, cara… — continuei, quase dormindo no meio da frase. — Desculpa por ter sido tão inútil essa semana… Acho que essa viagem não é pra mim.

Ainda assim, nada.

— Por favor, só vem deitar, cara. — Baixei a cabeça de volta no colchão e fechei os olhos. — Acho que você merece.

Ouvi as tábuas rangerem e senti a cama se mexer do lado esquerdo. Fiquei surpreso por ele ter aceitado a oferta depois de tanto alarde. Senti um aperto firme na minha mão direita. A mão dele estava tão gelada que quase a retirei no susto.

— Droga, cara! — murmurei. — Você deve estar congelando, hein?

Nenhuma resposta. Não me importei. Estava cansado demais. Só continuei segurando a mão dele.

Quando acordei de novo, foi mais uma vez por causa do rangido das tábuas. Abri os olhos, finalmente descansado. O sol brilhava pela janela quebrada. Olhei para o lado esquerdo: a cama estava vazia. Olhei o relógio; tinha dormido mais de dezesseis horas. Comecei a me perguntar por que Jim não tinha me acordado. Então senti uma ardência na palma da mão. Olhei e vi uma marca de queimadura — uma geladura, exatamente.

— JIM?! — gritei. — PODE VIR AQUI?

Só ouvi meu eco. Comecei a ficar nervoso. Algo estava muito errado.

Saí do saco de dormir e fui até a sala de estar. Jim estava deitado de bruços, com o rosto no chão. O saco de dormir dele estava jogado ao lado.

— Jim, por que você não me acordou? — falei, olhando para ele.

Ele não respondeu. Aproximei-me, cada vez mais tenso. O pescoço dele estava torcido num ângulo estranho — certamente não era um ângulo normal para um pescoço. Os dedos estavam pretos como ébano. Segurei-o pelos ombros.

— Jim, o que aconteceu? Você caiu?

Ele estava gelado e duro como uma tábua. Em pânico, tentei virá-lo para ver o que havia de errado. Então veio o som horrível — exatamente como abrir o zíper de uma mala velha. Consegui virá-lo de costas, só para descobrir que toda a pele do rosto ainda estava congelada, colada no chão onde ele havia deitado.

Recuei, horrorizado, diante dos músculos e tendões expostos. Os olhos dele estavam vazios. Mesmo com os danos no rosto, dava para ver que a mandíbula estava completamente quebrada. A combinação do frio extremo com o rigor mortis tinha distorcido a expressão dele num grito agonizante. Ele estava morto, duro como uma tábua.

Me levantei, dei alguns passos para trás, sem tirar os olhos do rosto dele. Não entendia. O que tinha acontecido? Eu não tinha ouvido ele andar há pouco? Senti tontura. Podia sentir fisicamente o grito preso na garganta. Então veio um embrulho no estômago, e caí de joelhos, vomitando no chão. Rastejei até a entrada da cabana, desesperado por ar fresco.

Foi quando percebi, já na soleira da porta.

Durante a noite, nossas próprias pegadas tinham sido cobertas pela nevasca — não deveriam mais ser visíveis.

Então por que ainda dava para distinguir uma única pegada nova de sapato na neve? E por que ela se afastava da cabana em direção à floresta?

Toda Noite Volto para o Mesmo Hospital, e Ele Nunca é Reiniciado

Tenho 28 anos. Tenho uma esposa, uma filha que acabou de completar 3 anos, e um emprego na logística que paga o suficiente para nós vivermos com conforto. Estou dizendo isso primeiro porque preciso que você entenda que nada sobre a minha vida parece ser do tipo de vida em que isso acontece. Não estou dizendo isso para convencê-lo de que sou estável. Estou dizendo porque há um ano eu concordaria com você de que isso não poderia acontecer com alguém como eu.

Há um ano tive um sonho. Nele, eu era um paciente em algum tipo de hospital psiquiátrico, prédio mais velho, daqueles com longos corredores de azulejos e luzes fluorescentes que zumbem. Não sabia por que estava lá. Ninguém no sonho me explicou, da maneira como os sonhos geralmente não se preocupam em explicar nada. Acordei e esqueci dentro de uma hora, como se faz com sonhos.

Na noite seguinte, tive o mesmo sonho. Não um sonho semelhante. O mesmo, continuando. Eu estava parado no mesmo corredor em que havia estado quando acordei na noite anterior, mesma luz fluorescente piscando acima de mim, e uma enfermeira que de alguma forma reconheci passou por mim e disse algo como "você está acordado cedo de novo" como se tivéssemos esse exato ritual há algum tempo.

Foi então que entendi que algo estava errado. Sonhos não fazem isso. Sonhos não se lembram de onde pararam.

Já faz um ano agora. Toda noite, sem exceção, volto para aquele hospital, e ele continua exatamente onde parou. Já tive conversas completas com outros pacientes ali que se estendem por uma dúzia de noites diferentes. Sei os nomes de duas enfermeiras. Sei qual é o meu quarto, segunda porta à esquerda, cama ao lado da janela, embora a janela mostre apenas um campo cinza e sem características, nunca nada além disso.

Aqui está a parte que me fez parar de contar para minha esposa. No sonho, há uma mulher que visita-me às vezes durante o horário de visitas. Ela tem a risada da minha esposa. Não uma risada semelhante. A mesma, aquela inflexão específica na garganta quando algo realmente a surpreende, em vez de apenas ser engraçado por cortesia. Ela não tem o nome da minha esposa. No sonho, eu a chamo por um nome que não reconheço quando estou acordado, mas sempre sei, no sonho, que ela é minha esposa. E há alguns meses, ela começou a trazer uma menina com ela. A menina tem a mesma andadura da minha filha, aquele pequeno tropeço com as pernas levemente tortas que ela ainda não cresceu.

No sonho, eles a chamam por outro nome também.

Pensei por meses que era só meu cérebro reciclando rostos que amo e colocando-os em um lugar desconfortável. Então, três semanas atrás, algo aconteceu que já não consigo explicar assim mais.

Minha esposa real, minha esposa de verdade, perguntou-me no café da manhã por que eu nunca lembrava da nossa viagem à costa na primavera passada. Fiquei olhando para ela. Nós não fomos à costa na primavera passada. Eu lembraria disso. Ela ficou quieta e depois quase riu, disse okay, piada estranha, e mudou de assunto. Deixei passar porque não queria assustá-la.

Dois dias depois, não consegui lembrar o nome do restaurante onde propus a ela. Já contei essa história para amigos uma dúzia de vezes. Fiquei na cozinha tentando visualizá-lo e havia apenas estática onde deveria estar o nome, um espaço vazio com exatamente a forma de uma memória, mas vazia por dentro.

Naquela mesma noite, no sonho, a enfermeira perguntou-me se eu lembrava do nome do lugar onde propus a "ela", significando a mulher com a risada da minha esposa, e respondi imediatamente, corretamente, em detalhes, um nome de restaurante que nunca ouvi na minha vida acordada, um restaurante que não existe em lugar algum que eu possa encontrar quando busco durante o dia.

Estou perdendo pedaços da minha vida real na mesma taxa exata em que ganho detalhes daquele hospital. Conheço melhor o sonho do que meu próprio casamento agora. Posso descrever a cor exata do linóleo daquele corredor, mas fiquei no meu banheiro hoje de manhã e não consegui lembrar, por quase um minuto inteiro, de qual lado da pia minha escova de dentes fica.

Minha esposa acha que preciso ver alguém, e talvez esteja certa, mas isso já não é o que me assusta mais. O que me assusta é que ontem à noite, pela primeira vez, a enfermeira no sonho me chamou pelo meu nome real. Meu nome verdadeiro, o único que minha esposa e minha mãe usam, o que não está em nenhum dos meus documentos naquele hospital.

Ela disse como se sempre tivesse me chamado assim. Como se algo do outro lado finalmente tivesse percebido qual versão de mim deveria ser real.

Não tenho dormido desde então. Estou digitando isto às 4 da manhã com a luz noturna da minha filha brilhando pelo corredor, tentando lembrar como soa a sua risada de verdade, e pela primeira vez desde que isso começou, não posso ter certeza absoluta de que ainda não estou lá, descrevendo este corredor para uma enfermeira que já sabe como termina.

Acordar com uma palavra estranha

Na época em que estava na faculdade, a vida parecia fácil. É claro que você precisa trabalhar duro, mas é previsível. Até o trabalho duro não parece tão difícil quando você sabe que vai acontecer. Você pode se preparar. Pode mentalmente colocar-se em um lugar e dizer: "essa é a vida que vai ser, em certa medida".

O que torna a vida difícil é quando essa expectativa é quebrada. Quando você é lançado em algo que não só não consegue se preparar, como nem sabia que existia desde o início.

Foi isso que aconteceu comigo no meu último ano da faculdade.

Quero antecipar o fato de que não éramos animais de festa. Iríamos nos tornar engenheiros. De alguma forma, éramos nerds. Mas quando tínhamos uma boa razão para soltar o freio e testar nossos limites, aproveitávamos essa oportunidade com afinco. Eu incluído.

Acabamos de terminar as provas intermediárias. Alguns de nós haviam passado a tarde preparando anotações e tentando descobrir como tinham feito, enquanto outros ficaram em casa tentando lidar com a ansiedade. Nem todos eram tão emocionalmente estáveis quanto eu e minha turma. E sim, digo turma, mas éramos pouco mais do que conhecidos. Nos davamos apelidos e tínhamos um grupo de chat, sim, mas podíamos perceber que depois da faculdade nunca mais nos veríamos novamente. Exceto por Samson, ele era legal.

Naquela noite específica, eu tinha saído um pouco demais e tinha bebido algumas bebidas demais. Estava subindo as escadas e meu apartamento minúsculo (que meus pais pagavam) estava começando a me sentir claustrofóbico. Abri uma janela e liguei o ventilador do chão. Não posso enfatizar o quão grande aquilo era. Usavam-no em uma loja de departamentos quando o ar-condicionado não funcionava direito, mas o venderam barato no final do verão para trazer novos modelos. Aquilo era metade da minha altura e fazia barulho como um motor de avião.

Quando finalmente fui dormir, fiz isso com o ruído branco de uma janela aberta e um ventilador gritando na cabeça, e estava tão bêbado que não me importava.

Foi a noite mais estranha de sono que já tive. O barulho do ventilador e da rua ao lado desapareceram na minha cabeça, e depois de um tempo nem sequer os ouvi. Lembro-me de me virar e mexer, me perguntando por que de repente estava tão frio. Puxei as cobertas sobre a cabeça, e pude ouvir o vento passando por cima de mim.

Imaginei uma imagem estranha. Por um momento, as cobertas não sentiam macias e quentes. Sentiam-se como gelo. Como camadas espessas, inquebráveis de frio. Podia imaginar a mim mesmo sob a superfície enquanto o vento uivava ao redor, tentando me atingir. Durante algumas horas, não senti que era eu. Não havia ventilador, e não havia rua movimentada.

Era camadas de escuridão, pressionando sobre mim, sufocando-me no frio cristalino. Segurando meus ossos com um aperto geracional enquanto o mundo lutava com a minha presença. Geada grudando na pele e cortando minha carne em ritmo glacial.

Então acordei.

A primeira coisa que fiz foi sentar-me direto, olhar à frente e falar.

“Tra.”

Era uma palavra de duas sílabas. O “T” soava como o som “Thu” em “Thus”. O som “r” em “row”. O “a” soava como o “a” em “act”. Em combinação, era como “Thu-ra”. Com ênfase no “A”.

Disse-o várias vezes. Era apenas preso na minha mente, e não conseguia entender onde o tinha ouvido antes. Levou alguns minutos até perceber que estava com ressaca. Mais alguns minutos para fechar aquela maldita janela e desligar o ventilador. Estava ouvindo o barulho há tanto tempo que quando finalmente ficou silencioso, podia sentir minha própria pulsação empurrando através das orelhas.

Escovei os dentes, barbeei e olhei no espelho do banheiro.

Tra.

Por que estava pensando nisso? Onde tinha ouvido isso? E por que sentia tanto frio dizendo isso?

Continuei murmurando isso durante todo o dia. Não porque tinha medo de esquecê-lo, mas porque sentia diferente cada vez que o dizia. Parecia sintonizar uma rádio, dizendo-o um pouco mais certo a cada vez. Um pouco mais ênfase no “A”. Um pouco mais rolamento da língua no “r”. Tra. Thu-ra. Como eu sabia a grafia?

Lembro-me de receber olhares estranhos na cafeteria. Tinha vontade de um Americano e havia um lugar logo fora do campus com um grande desconto para estudantes, então gostava de parar por lá pelo menos uma vez a cada dois dias ou assim. Entrei logo após o horário do almoço para pegar um café e um croissant.

Enquanto andava procurando um lugar para sentar, ainda dizia a palavra. Não percebia que estava fazendo isso, mas estava. Era como um estímulo auditivo, como um velho que murmura “tut-tut-tut” e bate as meias suspensoras. Não significava nada, só sentia bem dizê-lo. Em um dado momento, havia um cara com aqueles grandes fones que me tocou no ombro.

“Desculpe,” disse ele. “Você disse alguma coisa?”

“O quê?”

“Desculpe, achei que tinha dito meu nome.”

“Não, eu disse…”

Parei de falar. Ele me olhou, confuso. Parte de mim sentia que tinha obrigação de simplesmente calar a boca. Uma parte de mim se dividiu diretamente ao meio; um pensamento consciente dizendo para me desculpar, e um pensamento inconsciente dizendo para continuar dizendo. E por que não deveria? Era só barulho.

“Tra,” disse, olhando-o nos olhos. “É só isso—”

Ele arregalou os olhos.

Quando digo arregalou os olhos, não quero dizer reconhecimento, nem medo. Já tinha visto esse arquejo antes. Era o mesmo tipo de arquejo que meu pai fazia ao sair para o frio. O mesmo arquejo que minha ex-namorada fazia ao sair de um chuveiro quente para um piso frio. Não era um arquejo dramático, mas um muito distinto.

Exceto que o cara dos fones não apenas arregalou os olhos; continuou inspirando. Continuou puxando ar, indo, indo, indo. Depois parou. Apenas ficou ali, recostado, a boca tremendo. Pude ver seus olhos tremerem enquanto me olhava, depois olhava pela sala.

“Você está bem?” perguntei.

Ele não respondeu. Apontou para o peito. Tentou fechar a boca, mas era como se os músculos da mandíbula tivessem entorpecido. Seus olhos se levantaram, e pude ver algo mudar. Todo mundo olhou para nós enquanto seus grandes fones caíram da cabeça, pendurados por um fio. Seu macchiato caiu das mãos, batendo no chão com um splash.

Perguntei de novo se ele estava bem, mas alguém já estava gritando que ele estava tendo uma convulsão. Recuei para dar espaço. Alguém tentou sentá-lo, mas ele não conseguia dobrar as pernas. Não conseguia respirar. Seus dedos tremiam enquanto as mãos se contraiam em punhos cerrados. Alguém estava chamando ajuda. Jogaram uma toalha no chão para evitar que as pessoas escorregassem. Alguns estavam se aglomerando na porta para sair; outros estavam se levantando para gravar um vídeo.

E eu só estava ali, tentando entender o que tinha testemunhado. Levaram-no de ambulância. Achei que ouvi um tossir quando os paramédicos colocaram aquelas máscaras de válvula de bombeamento nele. Não terminei meu Americano. Acho que deixei na bancada.

Passei a maior parte do dia pensando nessa palavra. Me perdi em meus pensamentos no supermercado, murmurando a mim mesmo enquanto esquecia de colocar as compras na sacola. Disse-a quando diminui a velocidade para procurar um lugar para estacionar fora da lavanderia. Disse-a mais algumas vezes enquanto andava pela cidade. Ninguém reagiu da mesma forma que aquele cara na cafeteria. E ainda assim, quando olhei meu reflexo em uma janela de loja passando, não queria dizê-la de novo. Seu reflexo parece diferente no vidro. Parece mais escuro, e seus olhos assumem uma forma diferente. Os cantos afiados do seu rosto ganham contraste. Se você simplesmente piscar um pouco, mal parece humano.

Não queria dizê-la a ele. A mim. Talvez eu arregalasse os olhos. E ainda assim, não conseguia me impedir. Virei-me para meu reflexo, desafiando um sentimento que tinha inventado na minha mente e disse em voz alta com a mesma intensidade de um homem gritando do alto de um morro.

“Tra.”

Um calafrio de antecipação passou por mim, mas nada aconteceu.

Quando cheguei em casa e coloquei as compras no armário, liguei para Samson. Tinha o fone no ouvido enquanto me enrolava na cozinha, levando algum tempo para guardar uma das minhas quatro prateleiras e dois conjuntos de talheres.

“Eu não consigo explicar,” disse enquanto abria uma raíz de cerveja. “Acordo e ela está no fim da minha língua.”

“Tem certeza de que não é um nome?” perguntou ele. “Vi você conversando com aquela garota coreana ontem. Vi você conversando por um tempo *muito* longo.”

“Você quer dizer Sue?” zombei. “Ela é de Wisconsin, seu panqueca de merda.”

“Tenho a sensação de que há uma história aí que é *muito* mais interessante do que pesadelos de febre.”

“Meu camarada, ela acredita em cristais. Não quero que meus filhos recebam boas vibrações e leitura de tarô em vez de vacinas.”

“Vocês já têm filhos?”

Samson tinha essa habilidade de tirar-me do fundo. Não importa se era ansiedade de prova ou falta de prazo, ele conseguia me manter de pé. Mas pela primeira vez, uma única palavra persistiu apesar de seus melhores esforços. E não era como se eu estivesse triste ou qualquer coisa assim. Estava indo bem. Mas continuava ouvindo aquela inspiração daquele cara na cafeteria. Podia ouvi-la atrás das minhas orelhas.

E isso me fez tremer. 

Esperei que fosse passar, mas estava na minha mente no dia seguinte, e no dia seguinte. Percebi-me dizendo-a de vez em quando, até mesmo por acidente. Às vezes nem parecia eu dizendo, era uma palavra que saía de mim como um tic verbal. Algumas pessoas podem ter me ouvido dizendo enquanto passavam por mim na rua, mas ninguém reagiu como aquele cara. Ninguém fez o arquejo.

Ainda tinha aquela bola no estômago sobre isso. Como se estivesse faltando algo. Se pudesse descobrir por que estava pensando naquela maldita palavra, talvez não precisasse me preocupar tanto. E se pudesse dizer diretamente a alguém sem que reagisse, poderia excluir a ideia de que, de alguma forma, tinha sido responsável pela reação daquele homem.

Tra.

Não era realmente uma coisa consciente. Era uma espécie de experimentação. Como engenheiro, você precisa conhecer as propriedades estruturais dos materiais com os quais está trabalhando. Precisa mapear e fazer previsões baseadas em pontos de dados observáveis. Podia dizer a palavra em uma multidão sem que ninguém se importasse. Podia dizer em passagem. Podia gravar e reproduzir para mim mesmo. Sem reação, exceto por um pulso elevado, mas isso provavelmente era apenas antecipação.

Tudo se resumia a uma propriedade. Olhar alguém nos olhos e dizer diretamente. Foi o que fiz. Precisava descobrir se era um gatilho. Então liguei para alguém em quem confiava. Liguei para Samson. 

Ele veio até minha casa. Samson tem pouco menos de 1,83 metros, mas usa sapatos que lhe dão aquela vantagem extra. Tinha cabelo castanho avermelhado curto, com um bigode crescido demais, dando-lhe o perfil lateral de um macaco. O cara era magro como um graveto, mas feito de material mais resistente que a maioria dos atletas profissionais. Trouxe uma caixa de seis cervejas, achando que íamos fazer uma noite de diversão. Pedi que se sentasse enquanto explicava.

“Houve um cara na cafeteria outro dia,” disse. “Ele teve uma espécie de convulsão.”

“Merda, tipo epilepsia?”

“Tipo, sim. Ali ao lado de mim.”

“Quão ruim foi?”

“Muito ruim.”

Ele abriu uma cerveja e me passou. Abri a minha, mas só dei um gole. Ele notou, mas ficou quieto.

“Teve logo quando eu disse aquilo... aquela coisa. Aquela palavra. Eu disse, e ele ficou louco.”

Samson balançou a cabeça, fazendo um barulho desconfortável. Como um garoto de 12 anos se contorcendo em uma história assustadora ao redor da fogueira. Continuei.

“Não estou dizendo que causei isso. Não estou dizendo isso. Mas tenho a sensação de que fiz algo errado.”

“Isso realmente te incomoda, hein?”

Olhei minha cerveja aberta, assentindo.

“Sim. Incomoda.”

Falamos sobre isso por um tempo. Escrevi, expliquei a grafia e falei sobre as várias coisas que fiz em torno da cidade. Não tanto para explicar, mas para ilustrar o quanto aquilo me incomodava. Pude perceber que Samson estava um pouco abalado, mas no fim, conseguiu se livrar disso. Terminou sua cerveja.

“Diga para mim.”

“Não, estou bem.”

“Olha, isso te incomoda. Só diga para mim, você vai ver que está tudo bem.”

“Realmente não deveria.”

“Veja, é por isso que você está sentindo isso. Você tem a sensação de que é ruim. Você precisa testar isso. Desafiar isso. Então me olhe nos olhos e diga aquela maldita coisa. Termine logo com isso. Veja que é falso.”

“Tem certeza?”

“Uma palavra, depois as bebidas são por sua conta.”

Olhei nos olhos dele. Pensei naquela palavra. Realmente pensei nela. Pensei naquela noite sob as cobertas, o ventilador rugindo pelo meu quarto. Mas não era meu ventilador. Era o vento ártico, arranhando o gelo que me pressionava em uma forma quebrada. Ventos uivantes exigindo que o solo cedesse. Frio expansivo me sugando para dentro das trevas, como sendo lentamente desembrazado. Um útero morto, usando uma palavra.

Abri a boca e disse.

Tra.

Samson piscou. Olhou para mim e assentiu. Suspirou, me dando de ombros. Depois suspirou de novo. Seus olhos se desviaram um pouco. Suspirou pela terceira vez, tragando uma respiração profunda.

E não parou.

“Não,” disse eu. “Não, não, não…”

Ele puxou ar e recostou-se na cadeira. Recostou-se demais e derrubou uma de nossas cervejas meio bebida da mesa. Sua boca se abriu cada vez mais, puxando mais ar, e não conseguia fechá-la. Seus olhos se agitavam enquanto batia no chão com a palma da mão como um boxeador batendo o tapete.

Já estava chamando ajuda. Gritava com o operador. Para qualquer um. Seus olhos se reviraram, e vi seus lábios ficarem azuis. Mas será que era falta de oxigênio, ou o frio?

Foi uma confusão depois disso. Uma senhora gentil no telefone. Alguém correndo do corredor. Massagens cardíacas. Apertando o nariz e soprando em sua boca. Alguém disse “convulsão”. Alguém me fez perguntas com palavras que não entendia. Quando os paramédicos chegaram, eu estava implorando para que colocassem uma máscara em seu rosto. Disse que ele não conseguia respirar.

Quando eles o levaram, algo se desobstruiu em seu peito, fazendo-o cuspir sobre o carpete do meu corredor.

Segui Samson até o hospital. Não levou muito tempo até conseguir vê-lo. Tinha tido algum tipo de ataque, mas estava se recuperando rápido. Provavelmente voltaria para casa após algumas horas de observação. Eles tinham ligado para sua mãe e pai. Seu pai era apenas uma versão maior e mais gorda dele. Mesmo bigode.

Quando finalmente pude vê-lo, Samson já estava sentado na cama do hospital. Os outros estavam esperando lá fora para que ele se vestisse. Enquanto saíam, vi algo mudar em seus olhos. Suas mãos tremiam enquanto eu me sentava ao lado dele, ombro contra ombro.

Por um momento, só ficamos sentados ali. Sabíamos que aquela palavra tinha alguma propriedade, e causava danos reais, físicos. Nunca tínhamos visto nada assim antes. Ninguém tinha. Essa realização nos deixou aturdidos, fazendo nossas mentes correrem para encontrar algo para dizer.

“É real,” concluiu Samson.

“Sim. É.”

“É fodidamente real.”

Coloquei minha mão em seu ombro enquanto ele chorava. Suas mãos não paravam de tremer.

Samson me contou o que havia experimentado. No começo, nada. Apenas um sopro frio, no máximo. Depois houve essa tensão no peito, como se estivesse afundando debaixo d’água. Uma pressão crescendo, forçando-o a se opor puxando ar. Então atingiu-o; um frio imenso, abrangente, inimaginável.

“Como se tivessem mergulhado minha coluna em um balde de gelo,” murmurou. “Mas não como… gelo, gelo. Era mais frio. Impossivelmente fodidamente frio.”

Estava esperando que passasse. Quando nunca passou, sua mente ficou travada e a chave foi jogada fora.

“É como se você fosse congelado,” explicou. “Mas não só seu corpo, é como… tudo. Até mesmo seus pensamentos.”

Foi liberado do hospital logo depois disso. Graças a Deus tinha seguro.

As coisas foram um pouco estranhas depois disso. Ainda tínhamos obrigações. Tinhamos novas aulas para cursar, amigos que nos convidavam para eventos, e muita diversão para se ter. Poucas pessoas sabiam que Samson tinha estado no hospital. Como ele explicou, parecia nada mais do que uma reação alérgica. Mas sempre que falava sobre isso, me dava aquele olhar, como se houvesse algo mais para ser dito.

Tentamos esquecer. É uma coisa para um acidente acontecer, você ainda pode fingir que é coincidência. Mas mesmo assim, eu acabava me sussurrando aquela mesma palavra. Dizia enquanto escovava os dentes, o som “th” me fazendo cuspir pasta de dente no espelho do banheiro.

Mas Samson e eu não falávamos sobre isso. Não queríamos pensar nas implicações. Se aquela única palavra pudesse ter um efeito real sobre as pessoas, não seria apenas um desafio à minha visão convencional da linguagem.

Mudaria minha visão do mundo em geral.

Lembro-me de ir a uma festa em casa cerca de uma semana após a hospitalização de Samson. Ele estava lá também. Eu estava tentando sobreviver a um encontro com a menina dos cristais Sue, enquanto Samson estava no canto com o celular. Exceto que notei que ele não estava realmente no celular. Não havia luz brilhando nele; a tela estava apagada. Queria que parecesse assim para ter um pouco de espaço. Tinha um olhar perdido, e vermelhidão ao redor dos olhos me dizia que esquecia de piscar.

Afastei-me de Sue e me dirigi a Samson. Agachei-me ao lado dele, dando uma palmada no ombro. No começo, ele colocou a máscara de volta, sorrindo para mim e fazendo um gesto ceremonial de cumprimento entre homens. Mas seu sorriso ficou preso ali, pendurado por um fio. Quando perguntei se ele estava bem, balançou a cabeça.

“Não consigo fazer isso,” disse, ainda sorrindo. “Não consigo foder essa merda.”

Saímos para fora e encontramos um lugar tranquilo no canto da casa. Certifiquei-me de que ninguém estivesse por perto quando Samson finalmente baixou a guarda e as palavras jorraram.

“Não consigo parar de dizer. Não consigo parar de pensar. Escrevo em dezenas de fontes diferentes, e é como se tivesse um aspecto. Sente-se como se fosse suposto não apenas soar de uma certa maneira, mas *parecer* de uma certa maneira. Que palavra tem um aspecto?”

“Então não conseguimos parar de dizer,” concordei. 

“O que fazemos? Ficamos aqui dizendo até morrermos?”

“E se eu disser para você?” perguntou ele. “Você acha que vai funcionar?”

“Funcionar como, matando-me?”

“Não sei foder!”

Andamos de um lado para o outro. Ele jogou a garrafa vazia por cima de uma cerca e enterrou os dedos no cabelo. Estava tão frustrado que podia chorar. Havia um soluço sob cada palavra que falava.

“Quero tirar isso da minha cabeça. Não quero mais dizer isso.”

“Então vamos descobrir. Podemos fazer isso. Podemos descobrir. Merda. Fora.”

“Descobrimos merda,” concordou ele. “Sim. Vamos descobrir merda.”

Tentamos várias coisas. Gravamos e reproduzimos para nós mesmos e para outros. Tentamos sussurrar. Samson tentou gritar à noite. Tentamos fazer as pessoas lerem. Depois tentamos fazer as pessoas lerem enquanto olhavam para nós. Até tentamos foneticamente. Nada parecia funcionar. Fazemos listas de possíveis fatores e tudo se reduziu a duas coisas; intenção e conhecimento. Você precisava intencionar a palavra que estava dizendo, e precisava ter o conhecimento por trás dessa intenção.

Precisávamos testar nossa hipótese. A única maneira de fazer isso era Samson dizer de volta para mim. Ele tinha o conhecimento agora, tendo aprendido a palavra através de mim. Podia reunir a intenção.

Desta vez, nos preparamos adequadamente. Sue era estudante de medicina, e nos permitiu usar uma sala de diagnóstico enquanto prometíamos não tocar nada caro. Insisti em manter uma máscara de válvula por perto. É uma dessas máscaras com uma bomba que você pode usar para empurrar ar; é a única coisa que vi ajudar tanto Samson quanto o cara da cafeteria.

Chegamos lá e eu me sentei em uma das cadeiras. Samson tinha a máscara pronta e um telefone para emergências. Esperamos até que ninguém estivesse por perto e revisamos.

“Intenção e conhecimento,” disse. “Você intenciona dizer, comigo como destinatário. Você tem conhecimento da palavra. Sabe como dizer da maneira que deve ser dita.”

“Confirmamos duas coisas,” acrescentou Samson. “Provamos os componentes necessários, e que saber a palavra não oferece imunidade.”

“Talvez ofereça?”

“Talvez.”

Inclinou-se na frente de mim, alcançando meu nível de olhar.

“Pronto?”

Assenti.

Quando ele disse a palavra, mal registrei. Não era tanto a palavra em si, mas a reverberação dela. Era como se a visse antes de ouvi-la, atravessando meus olhos e sustentando minhas pálpebras de dentro. Quando entendi que a tinha ouvido, já estava meio caminho em uma inspiração, tentando pegar ar suficiente para dizer algo.

Mas não conseguia falar. Tudo o que podia fazer era continuar puxando ar, esperando que fosse suficiente para algo que queria dizer. Continuei puxando mais, e mais, e mais, e mesmo que meus pulmões doíam no limite da capacidade, tentei pegar mais.

Queria gritar e berre, mas não havia oxigênio na palavra para tirar a sensação de mim.

À medida que minha visão ficava borrada com manchas pretas, ouvi aquele vento gelado na parte de trás da minha mente. Aquele uivo de ar passando acima. O peso do mundo me empurrando para o chão, e se desse um centímetro, me esmagaria como um inseto.

Em algum momento, voltei a respirar. Estava deitado no chão da sala de diagnóstico, olhando para Samson. Sentia o silicone ao redor do rosto. Ele me trouxe de volta com aquela bomba de ar. Talvez a sensação de ar movendo-se tenha me despertado de algo, trazendo-me de volta ao momento. Meu estômago embrulhou enquanto me inclinava e vomitava em uma lixeira.

“Você está bem?!”

“…Estou bem.”

“Jesus Cristo, que diabo foi aquilo?!”

“…Não sei. Mas estou bem.”

Vomitei mais duas vezes antes de conseguir dizer que estava realmente bem. Joguei água no rosto e fiquei no chão por um tempo, esperando meu corpo se acalmar. Levou cerca de quinze minutos até as manchas desaparecerem da minha visão e meu pulso voltar a um ritmo constante. Coughi um pouco e olhei para Samson.

“Intenção,” disse, assentindo para seu caderno. “E conhecimento. E não somos imunes.”

Não importa o que quiséssemos, não conseguíamos deixar isso para trás. Não podíamos fugir dessa coisa que continuava aparecendo em nossas mentes. Eu sussurrava para mim mesmo no chuveiro. Samson me disse que quase atravessou um sinal vermelho. Naquela vez em que estava experimentando uma camisa, acabei ficando na cabine de troca por vinte minutos, encarando meu reflexo e dizendo aquela maldita palavra repetidamente.

Samson e eu tivemos dezenas de conversas. Conversas que duravam até altas horas da noite, onde cobrimos a mesa da cozinha com anotações e especulações.

“Não é uma palavra inglesa.”

“Não é uma palavra de jeito nenhum,” acrescentei. “Existem coisas que soam semelhantes, mas… sim. Não é uma palavra.”

“Não é uma palavra,” concordou Samson, sublinhando uma linha em um papel com um marcador. “Não é uma doença. Não é um transtorno. Não é um—”

“Nós não podemos só continuar fazendo listas do que não é,” disse eu. “Precisamos… você sabe. Virar isso de ponta-cabeça. Como…”

Peguei um pedaço de papel e escrevi ‘frio’. Samson pegou e olhou. Franzindo a testa, mas concordou. A palavra era fria. Ambos sabíamos disso. Sentimos isso.

Viramos e viramos a palavra algumas vezes, mas não nos levou a lugar algum. Acabamos no sofá, terminando a cerveja que restava na geladeira. Descobriu-se que era mais do que o suficiente para nos deixar embriagados. Por um breve momento, aquela palavra ocupou o segundo plano do que as coisas deveriam ser. Amigos dizendo coisas bobas, fazendo um ao outro rir.

Estava sentado com meu caderno, escrevendo a palavra repetidamente de formas cada vez mais absurdas. Depois de um tempo, só estava desenhando. A palavra como uma espiral. A palavra como uma caixa. A palavra como uma flor-de-sol, embora azul devido à caneta de tinta que estava usando. Nada parecia certo, apesar de todos serem a mesma palavra.

“Não acredito que Sue seja estudante de medicina,” zombou Samson. “Como uma estudante de medicina acredita em cura?”

“Como um estudante de engenharia acredita em palavras mágicas?”

“Isso é diferente,” disse ele, balançando a cabeça. “Isso é real. E por que você está defendendo ela afinal?”

“Não sei, ela é meio bonita.”

“Você foda…”

Ele colocou outra cerveja na minha frente. Não estava totalmente mentindo, Sue e eu tínhamos trocado muitas mensagens. Estranho ou não, era surpreendentemente divertido estar com ela. Enquanto pegava meu telefone para enviar outra mensagem, percebi Samson se distrair um pouco. Enviei minha mensagem e olhei para ele enquanto seus olhos se desviavam.

“E se não for uma palavra?”

Ele se virou para mim, olhando-me nos olhos.

“E se for um nome?”

Foi um pensamento interessante. Havia muitas referências a coisas e deuses presos no gelo. Olhamos nomes diferentes ao longo da história e mitologia para ver se podíamos encontrar algo que se assemelhasse ao que tínhamos experimentado. Horas de rolagem e comparação de anotações. Tudo desde histórias sobre o Ginnungagap da mitologia nórdica, até o espírito de gelo Agloolik do povo inuit. Lembro-me de estarmos sentados no meio da noite, trocando nossas cervejas por cafeína.

“Existe uma palavra em inuktitut que é escrita aproximadamente como ‘Tra’. Significa ‘entre’.”

Sacudi a cabeça.

“Estamos trabalhando com a premissa de que é um nome.”

“E se a palavra *vem* de um nome?”

“Essa é uma premissa separada. Como pretendemos provar isso?”

“Só estou dizendo, é o mesmo.”

“Parece certo?”

Samson olhou para a palavra na tela, virando-a, zoomando. Após alguns segundos, balançou a cabeça.

“Não.”

“Então não é isso.”

“Como sabemos disso? Como podemos sentir que está errado?”

Não tinha resposta. Resolvi cair em um buraco diferente em outro site.

Era cerca de uma hora antes do amanhecer quando acabamos na mesa da cozinha, nossas opções esgotadas. Estivemos acordados a noite toda. Samson estava cochilando. Queríamos descobrir isso tão mal, mas tudo o que fizemos foi escrever mais perguntas. Você não pode descobrir algo desse tamanho em uma noite. Era tudo especulação e pressuposição. Samson falou, a cabeça apoiada na mesa.

“E se simplesmente continuarmos dizendo? Como uma espécie de imunização.”

“É como... atirar em si mesmo para desenvolver imunidade a balas maiores.”

“Não, é como receber picadas de serpente,” insistiu ele. “É assim que se constrói imunidade. A picadas de serpente.”

“Mas e se não funcionar assim? Vamos apenas nos matar.”

“Mas e se funcionar? Você vai refutar minha hipótese, ou vai deixar uma opção pairando no ar?”

Estava cansado, frustrado e entediado. Peguei minha própria máscara de válvula alguns dias antes. Fui para meu quarto, peguei-a e bati na mesa. Samson quase tinha adormecido.

“Tudo bem,” disse. “Vamos refutar. Vamos ir.”

Naquele momento, ambos fizemos uma suposição. Eu supus que, como Samson sugeriu, ele estava disposto a ser o sujeito de teste. Ele supôs, como eu concordei e tinha o equipamento, que eu era o sujeito de teste disposto. Fizemos a mesma suposição, e antes que soubéssemos, olhamos um para o outro e dissemos ao mesmo tempo.

Tra.

O tempo parou por um segundo quando percebemos o que tínhamos feito. Se ambos fôssemos afetados, nenhum poderia ajudar o outro. Iriamos arquejar por ar até sufocarmos no chão. Nossos olhos se encontraram, e senti aquela familiar sensação no olho. A palavra entrando, sustentando minhas pálpebras de dentro. Meu pulso martelava na cabeça. Os olhos de Samson se dilataram.

Sentia algo me olhando. Prestando atenção. Como se tivesse gritado, e ele me notou em retorno. Isso não era apenas frio que eu estava sentindo; era aquela sensação de ser *observado*.

Houve uma pausa. A atenção não era absoluta; estava dividida entre nós, permitindo-me forçar um pouco de ar para fora dos pulmões. Samson e eu ambos expiramos um pouco, tomando pequenas doses de ar.

“…*de novo*,” arfei. “…*nós fazemos de novo*.”

Ele assentiu e usou os dedos para contar de três. Depois, dissemos novamente.

Dizer a palavra era a única maneira de respirar com segurança. Permitia-nos esse estranho ritmo de expirar e inspirar, em um padrão quase ritualístico. Sentamos ali congelados em nossas cadeiras em torno da mesa da cozinha, uma hora antes do amanhecer, entoando a mesma palavra repetidamente.

Não, não era uma palavra. Era um nome.

E aos poucos, comecei a ver coisas.

Minha mente parecia estar enchendo com cada respiração da palavra, expandindo como um balão. Uma imagem ficou mais clara. O gelo inquebrável, me encapsulando em estruturas de cristal afiadas. Meus olhos se movendo, mas sem luz para capturar. Os ventos árticos rasgando a superfície. Mas agora, me viro. Olho em outra direção.

Há um vislumbre. Não apenas pelos olhos, mas por um sentido que não sabia que tinha. Há uma membrana se inflamando, aceitando minha intrusão. Me vê, e vê que estou vendo. Vira a cabeça em um ângulo impossível, empurrando carne viscosa por um corredor, como pressionar manteiga de amendoim por uma mangueira.

Um vislumbre de luz me atinge, e vejo um reflexo, como se tivesse visto meu reflexo mil vezes antes. Vejo os cantos afiados, a contorno, os olhos escuros.

E não é humano.

Não é humano.

Estou olhando para Samson do outro lado da mesa. Mal estamos respirando. Baforadas de fumaça escapam de nossas respirações, e nossos lábios estão ficando azuis. Não conseguimos continuar dizendo a palavra enquanto nossas línguas congelam em nossos crânios. As sílabas ficam lentas e secas. Então simplesmente… paramos.

Meus dentes estalam, fazendo meu crânio vibrar. O olho esquerdo de Samson ficou congelado fechado. Sentamos ali, esperando que o mundo fizesse sentido.

“Você viu?” Samson gaguejou.

Não consegui formar as palavras, então assenti para ele.

“Está nos matando,” disse ele. “Está nos matando.”

Assenti. Tentei mover meu braço, mas não sentia. Consegui balançar a perna o suficiente para me desequilibrar, forçando meu corpo a cair. Caí no chão, sentindo nada enquanto machucava meu ombro. Samson olhou para mim com seu único olho saudável.

“Não dá pra lutar,” disse ele. “Não dá pra lutar.”

Não quero, mas não consigo evitar assentir. Ele está certo. Não conseguimos lutar. Estamos muito danificados para pedir ajuda, e estamos congelando até a morte em um apartamento com ar-condicionado. Temos que fazer algo. Nossos olhos se encontraram enquanto forçávamos o cântico de novo.

Tra. Tra. Tra.

Em algum momento no meio de uma respiração, esqueci o que estava fazendo e dizendo. Tornou-se algo que meu corpo faz por si só, como meu coração batendo. Uma função automática da necessidade. A palavra, o nome, tornando-se um pulso de fundo enquanto meu mundo desaparecia. Levou-me longe da mesa da cozinha, e profundamente no gelo.

Colocou minha mente em repouso na escuridão de sua construção. Enquanto me afastava, ele avançava, suas múltiplas reflexões brilhando em sua glória.

E dormi. Dormi de uma maneira que só dormi uma vez antes. Muito abaixo do gelo, enquanto os ventos uivantes gritavam.

Acordar no chão do banheiro, minhas pernas no chuveiro. Estava ligado. Temperatura média. Metade do meu rosto coberta por um líquido negro e fedorento. Podia sentir o gosto na parte de trás dos dentes. A parede estava coberta de manchas, como se tivesse escrito algo em preto e esfregado. Minhas mãos estavam uma bagunça.

Tentei gritar por Samson, mas minha voz estava muito rouca. Levantei-me de joelhos e olhei para fora, só para vê-lo na cozinha. Ele havia jogado fora tudo da minha geladeira e se arrastou para dentro, deixando a porta meio aberta. O alarme de advertência estava disparando. Forçando-me a ficar de pé, apoiei-me na moldura da porta e forcei um som pela língua.

“Samson.”

Não houve movimento. Dei um passo para fora, inclinei-me demais para a esquerda e caí sobre uma mesa decorativa. Batendo no chão, tive uma melhor visão. Ele estava sentado na geladeira, joelhos dobrados até o queixo, abraçando a si mesmo.

“Samson!”

Ele piscou. Um líquido preto escorreu entre os dentes enquanto abria a boca, tentando dizer a única palavra que vinha à mente presa. As sílabas o traíram enquanto engasgava repetidamente. Não conseguia dizer *direito*. Graças a Deus, não conseguia dizer direito.

Finalmente descobrimos que tínhamos estado fora por 16 horas seguidas. Não tínhamos lembrança do que tínhamos feito nesse tempo. Houve reclamações de barulho sobre alguém gritando no chuveiro e enchendo o vaso repetidamente. Alguém quebrou a janela da sala de estar, e o apartamento parecia ter sido atingido por uma bomba. Tive que limpar à mão as manchas pretas com suco de limão e cloro, e mesmo assim, não consegui tirar da textura. Samson tentou me ajudar.

De algum modo absurdo, aquela noite nos ajudou a lidar com a palavra. Embora ainda pensasse nela, já não *obsessionei* com ela. Não era mais algo que precisava murmurar na fila do supermercado, ou enquanto olhava no espelho do banheiro. O mistério foi relegado a uma coceira na parte de trás da memória. Algo que podia cutucar sem sentir a necessidade de rasgar a crosta larga. Talvez haja algo a ser dito sobre a teoria de imunização de Samson afinal.

Samson e eu concordamos, unânimes, não falar sobre isso novamente. Era algo que não devíamos olhar mais de perto. Podíamos matar alguém, menos ainda a nós mesmos.

Meus anos universitários já estão para trás. Foi um tempo louco, mas não pelas razões que meus colegas falam. Enquanto me lembro das festas e das noites tardias, é aquele primeiro arquejo de um homem na cafeteria que me mantém acordado à noite. Alguém sentindo um frio que não deveria ser sentido.

Ainda mantenho contato com Samson, mas falamos sobre outras coisas. Mas falamos a partir de um lugar de entendimento. Reconhecemos que qualquer visão de mundo que tínhamos definido anteriormente, tivemos que reconsiderar. Mesmo que não falemos abertamente sobre isso, é confortante saber que há alguém lá fora que realmente sabe.

Não gosto de pensar nessas épocas, mas é pior ainda esquecê-las. Se eu nunca escrever isso, sempre duvidarei de mim mesmo. Tenho que colocar em palavras, porque palavras têm significado. Elas têm intenção, e conhecimento.

Mas há momentos em que olho para mim mesmo no espelho do banheiro, e penso naquele momento. Naquele momento, muito abaixo do gelo, onde algo impossível se torna um vislumbre de luz. E enquanto vejo meu espelho, imagino outro reflexo. Um que eu não deveria ter visto. Um que deveria ser impossível ver.

Naquele momento, quero olhar um pouco mais. Um pouco mais perto. E quando sinto essa necessidade intensa de saber, sussurro duas sílabas, esperando obter um vislumbre de algo que não deveria.

Não é humano.

Tra.

sábado, 1 de agosto de 2026

Um Hábito Que Ele Nunca Tinha Tido

Nunca tinha visto meu filho roer as unhas.

Esse era o ponto que ninguém parecia entender. Quando Daniel tinha nove anos, suas unhas estavam permanentemente mastigadas. A pele ao redor delas permanecia vermelha e inchada, e a cada poucos dias um dos dedos começava a sangrar novamente. Seus professores notaram. Seu médico notou. Todos diziam a mesma coisa. Ansiedade. Hábito. Algumas crianças faziam isso sem perceber.

Talvez fosse verdade, mas convivi com Daniel durante seis anos e nunca o vi, de fato, colocar os dedos perto da boca. Vi filmes ao lado dele, sentei em longas viagens de carro com ele e ajudei-o com lição de casa na mesa da cozinha. Li para ele até ele cair no sono e o levei para a cama com os braços pendurados sobre meus ombros.

Nada.

Se alguma coisa, ele parecia estranhamente protetor de suas mãos. Sempre que alguém mencionava os danos, dobrava os dedos para dentro da palma ou puxava as mangas sobre eles. As primeiras vezes que perguntei se ele estava roendo-as, negou. Depois disso, parou de responder completamente.

Tentei tudo o que o médico sugeriu. Verniz amargo nas unhas, bandagens, luvas à noite. Ofereci recompensas se conseguisse deixá-las crescer por uma semana e mostrei fotos de dedos infectados que provavelmente eram muito gráficas para uma criança da idade dele.

Nada funcionou.

Enfiava-o na cama com luvas presas nos pulsos, e pela manhã as encontrava dobradas com cuidado sobre a mesinha de cabeceira. Uma vez, envolvi cada ponta do dedo com fita médica. Pela manhã, cada faixa havia sido removida e colocada em uma linha precisa ao longo da janela.

Havia um pequeno buraco úmido no centro de cada uma.

Daniel insistiu que dormira a noite toda.

Supus que mentia, embora nunca compreendesse por quê. Ele não era usualmente reservado. Admitia quando quebrava coisas. Uma vez, depois de pegar dinheiro da minha carteira para comprar doces, confessou antes mesmo eu perceber que estava faltando. Contudo, sempre que perguntava sobre suas unhas, olhava genuinamente assustado.

“Eu não roo-as,” disse ele.

“Então o que acontece com elas?”

Olhou para baixo, para as mãos.

“Não sei.”

Por um tempo, questionei se outra criança o estava machucando. Falei com sua professora e perguntei se alguém havia agarrado suas mãos ou mexido em seus dedos. Ela disse que Daniel era bem querido e raramente se metia em problemas. Nunca vira ninguém tocá-lo.

Nunca vira ele roer as unhas também.

Isso me incomodou mais do que deveria.

Comecei a verificar suas mãos todas as manhãs e noites. Às vezes, nada mudava por vários dias. Então acordava-o para descobrir que todas as unhas tinham sido mastigadas novamente de uma vez.

Sempre acontecia durante a noite. Deveria ter percebido isso antes.

A primeira vez que ouvi, estava dormindo no quarto dele. Daniel desenvolveu febre, e arrastei um colchão velho para o chão ao lado da cama para poder vigiá-lo. Ele adormeceu rapidamente. Fiquei acordado lendo até cerca da meia-noite, depois desliguei a luz.

Mais tarde, acordei com a voz dele.

“Por favor, seja gentil.”

Era suave e abafada pelo sono.

Levantei a cabeça. O quarto estava escuro, exceto pelo brilho das luzes da rua lá fora, espiando pelas frestas das cortinas. Daniel estava deitado de lado, voltado para a parede, com um braço pendurado sobre a beira da cama.

“Daniel?”

Ele não respondeu.

Estava prestes a alcançá-lo quando ouvi um pequeno estalido sob a cama.

Não foi alto. Parecia quase como alguém mordendo espaguete seco.

Congelei.

Outro estalido seguiu. Depois outro.

O braço de Daniel moveu-se levemente, não recuando, mas deslizando para baixo.

Liguei a lampada de cabeceira.

Seu braço saltou para cima tão rápido que seu cotovelo bateu na estrutura da cama. Algo raspou no chão sob ele.

Deitei-me de joelhos e olhei debaixo da cama. O espaço estava vazio. Mas notei que o tapete perto da cabeceira estava achatado, como se algo tivesse estado ali por muito tempo.

Daniel dormiu durante toda a cena.

Na manhã seguinte, três das unhas dele estavam sangrando.

Quando perguntei se lembrava de ter falado durante a noite, sacudiu a cabeça. Descrevi o som que ouvira, e a cor desapareceu do rosto dele.

Foi nesse momento que deveria ter parado de tratar aquilo como um hábito. Em vez disso, convenci a mim mesmo de que tinha que haver uma explicação. Ratos nas paredes. Daniel roendo as unhas enquanto eu dormia e sonhando que fazia outra coisa.

Comprei uma câmera.

Foi uma dessas câmeras de segurança internas baratas que as pessoas usam para observar seus animais enquanto estão no trabalho. Coloquei-a em cima do armário de Daniel e direcionei-a para a cama. Não contei a ele. Senti culpa, mas, naquele momento, a pele ao redor das unhas dele estava dolorosamente crua e eu estava desesperado.

A primeira noite mostrou nada de incomum. Daniel se mexeu no sono, tirou os cobertores e ficou sentado por quase um minuto sem abrir os olhos. Suas mãos permaneceram acima do cobertor.

A segunda noite foi a mesma.

Na terceira noite, a gravação travou às 2h13.

A imagem não cortou. Simplesmente parou de se mover. Daniel estava deitado de costas, com ambos os braços ao lado. O relógio digital na sua escrivaninha marcava 2h13. Durante os próximos 47 minutos, a sala permaneceu completamente imóvel.

Exatamente às 3h00, o vídeo retomou.

Daniel estava na mesma posição, mas sua mão direita estava sangrando.

Verifiquei as configurações da câmera e não encontrei falha alguma. Não houve queda de energia, e a câmera na porta da frente gravou continuamente. Carros ainda passavam lá fora. Minha própria porta do quarto abriu quando me levantei para usar o banheiro.

Tudo mais na casa continuou.

Só o quarto de Daniel parou.

No dia seguinte, comprei outra câmera e a coloquei no chão. Escondi-a atrás de uma pilha de livros e direcionei-a para debaixo da cama.

Durante as primeiras horas, nada se moveu.

Às 2h13, algo entrou no quadro.

Num instante, o espaço sob a cama estava vazio. No seguinte, uma mão pálida repousava no tapete.

Era fina, com dedos longos e esguios. As unhas eram pretas e lisas, clicando suavemente contra o chão enquanto a mão se movia em direção à borda da cama.

Uma segunda mão apareceu ao lado dela.

Nada mais entrou no campo de visão. Quer quer que possuísse aquelas mãos permanecia oculto na escuridão além do alcance da câmera, embora, realisticamente, não houvesse espaço suficiente para um corpo se esconder.

As mãos esperaram.

Após alguns segundos, o braço de Daniel desceu no quadro.

Ele estava dormindo. Eu podia ver claramente pelo outro vídeo. Sua mão deslizou casualmente pela borda da cama, como se tivesse feito isso mil vezes antes.

Uma das mãos pálidas envolveu seu pulso.

Não puxou.

Segurou-o com surpreendente cuidado e ergueu seu dedo mínimo em direção à escuridão.

Houve um silencioso estalido.

Depois outro.

A mão moveu-se para o próximo dedo.

Observei enquanto trabalhava em sua mão, mastigando cada unha exatamente até o mesmo comprimento. Quando Daniel gemeu, ela parou e tocou o lado de seu pulso com uma unha preta.

Depois continuou.

Não consegui assistir até o fim.

Corri para o quarto, ligando todas as luzes pelo caminho. As mãos pálidas ainda seguravam seu braço.

Por um segundo, vi algo agachado sob a cama. Seus membros estavam dobrados contra o corpo, os ombros pressionados contra a parte inferior da cama. A pele cinza esticava-se sobre uma forma que parecia muito grande para o espaço onde estava.

Libertou Daniel assim que entrei.

Não atacou nem tentou puxar Daniel para baixo. Recuou. Uma mão subiu, protegendo o rosto da luz, e depois se moveu para trás na escuridão.

Peguei Daniel e o arrastei para o corredor. Quando voltei com uma faca da cozinha, o espaço sob a cama estava vazio.

Naquela noite, retirei a estrutura da cama.

Daniel dormiu em um colchão no meu quarto. Empurrei-o contra a parede, deixei todas as luzes acesas e fiquei acordado com a faca no colo.

Nada veio.

No dia seguinte, levei-o a um hotel.

Disse à recepcionista que havia vazamento em nossa casa e reservei um quarto para uma semana. Daniel mal falou durante a viagem. Quando chegamos, sentou-se na beira da cama do hotel e encarou o espaço sob ela.

“Ele pode alcançar essa também,” disse ele.

Perguntei o que queria dizer.

Olhou para baixo, para as mãos.

“Ele não vive apenas em casa.”

Foi a primeira vez que reconheceu.

Ajoelhei diante dele e perguntei há quanto tempo aquilo vinha acontecendo.

Encolheu os ombros.

“Antes de você vir morar comigo?”

Outro ombro encolhido.

“Ele te machucou?”

Sacudiu a cabeça.

“Então por que deixou ele roer suas unhas?”

O rosto de Daniel se contorceu.

“Achei que eu devia.”

Prometi que ele estava seguro. Disse que nada mais o tocaria.

Eu quis dizer isso.

Nos primeiros dias, seus dedos começaram a sarar. O inchaço diminuiu, e linhas brancas finas apareceram na base de cada unha. Senti alívio suficiente para acreditar que o pior já tinha passado.

No quinto dia, as unhas tinham crescido além das pontas dos dedos.

As unhas de Daniel nunca tinham sido tão longas antes. Comprei tesouras de unha numa farmácia e tentei cortá-las, mas as lâminas não cortavam. As unhas eram muito grossas. Tentei um par maior, e o metal dobrou entre minhas mãos.

Elas já não eram translúcidas também. Estavam turvas e pálidas, quase da cor de osso.

Levei-o ao hospital.

O médico examinou seus dedos, perguntou sobre medicamentos e tirou amostras de sangue. Disse que o crescimento era incomum, mas não parecia imediatamente perigoso. Queria manter Daniel durante a noite para observação.

Daniel entrou em pânico quando uma enfermeira tentou levá-lo de mim. Apegou-se ao meu casaco, gritando tão alto que as pessoas olharam. Suas unhas entraram na roupa e rasgaram-na sem se quebrar.

Levei-o de volta ao hotel.

Naquela noite, ele desenvolveu outra febre. Enquanto dormia, pesquisei os papéis que trouxera conosco.

Daniel veio morar comigo quando tinha três anos. O processo foi incomumente rápido, e na época não questionei. Esperei tanto para ser pai que cada atraso encurtado parecia uma bênção.

A organização chamava-se Willow House Family Services. Seu escritório estava em uma casa antiga fora da cidade, e uma mulher chamada Miriam havia lidado quase com tudo.

Lembro-me das salas sendo quentes e muito iluminadas. Lembro-me de que não havia fotografias de crianças nas paredes.

Lembro-me de Miriam dizendo que Daniel tinha sido encontrado sozinho.

Não consigo lembrar onde.

Os papéis deveriam ter dito, mas não diziam.

Não havia certidão de nascimento original, nenhum registro hospitalar, e nenhuma informação sobre seus pais biológicos. Sua história médica consistia em uma página cheia da palavra DESCONHECIDO.

Na parte de baixo de um relatório de colocação, abaixo da minha própria assinatura, alguém havia escrito, com tinta azul fraca:

**Mantenha o cuidado regular das mãos.**

Nunca tinha notado antes.

O site da Willow House havia sumido. O número de telefone estava desconectado. Quando pesquisei o endereço, encontrei um escritório de advogados que afirmava ocupar o prédio há doze anos.

Adotei Daniel seis anos antes.

O nome de Miriam não aparecia em nenhum documento oficial. Todos os e-mails que ela enviara vinham de uma conta que já não existia. Suas assinaturas eram pouco mais que rabiscos.

Liguei para a autoridade local listada nos papéis. Eles não tinham registro da Willow House Family Services. Não tinham registro de Daniel. A mulher no telefone perguntou se eu tinha certeza de que a adoção havia sido legal.

Desliguei.

Atrás de mim, Daniel disse: “Ele voltou.”

Estava sentado ereto na cama, o rosto brilhando com suor. O quarto estava escuro, exceto pela luz do banheiro.

Algo raspou na cama. Puxei Daniel em direção à porta. A raspagem parou quase imediatamente. Uma mão cinza emergiu debaixo da cama. Daniel fez um pequeno som, mas não parecia medo. Estendeu a mão para ela. Peguei seu pulso.

A mão permaneceu imóvel. Dedos longos espalhados no tapete, unhas pretas repousando planas. Quer quer que estivesse lá dentro não tentou se aproximar.

Em vez disso, bateu um dedo contra o chão.

Uma vez.

Duas vezes.

Depois apontou para as mãos de Daniel. Suas unhas tinham crescido ainda mais desde aquela manhã. A criatura bateu novamente, mais rápido agora.

“Afaste-se dele,” disse eu.

Um olho apareceu na escuridão sob a cama.

Olhou para mim, depois para Daniel. Sua boca abriu ligeiramente, e um ruído úmido e cliqueiro saiu da garganta. O som repetiu várias vezes, quase como se estivesse tentando dizer algo.

A mão estendeu-se para Daniel. Pisoteei-a. O som que fez não foi um rugido ou um grito. Parecia chorar. A mão desapareceu sob a cama, deixando para trás uma unha preta no tapete.

Puxei Daniel da cama e me ajoelhei para olhar debaixo dela. O espaço estava vazio.

Daniel pegou a unha antes que eu pudesse impedi-lo. Segurou-a ao lado do polegar. Eram quase da mesma forma.

“Coloque isso para baixo.”

Olhou para ela com uma expressão que nunca vira antes.

Não medo.

Reconhecimento.

Tirei-a dele e a joguei no vaso sanitário.

Saímos do hotel naquela noite e dirigimos para casa da minha irmã. Disse a ela que Daniel tinha uma infecção e precisava de algum lugar tranquilo para descansar. Ela preparou o quarto de hóspedes e me ajudou a instalá-lo em um colchão colocado diretamente no chão.

Não havia lugar para nada se esconder.

Sentei ao lado dele até ele adormecer. Em algum momento, deve ter cochilado também.

Quando acordei, Daniel tinha sumido.

A porta do quarto estava aberta. O encontrei sentado à mesa da cozinha com ambas as mãos repousando à frente dele. Minha irmã estava ao lado dele, olhando.

Cada unha havia se partido ao meio.

Não havia sangue. As duas metades de cada unha se levantaram ligeiramente uma da outra, como conchas começando a abrir.

Algo pálido moveu-se na fresta estreita entre elas.

Minha irmã perguntou o que havia de errado com ele.

Envolvi suas mãos em toalhas de chá e dirigi para casa.

Não sei por quê. Talvez porque a criatura nos encontrara no hotel e pensei que pudesse retornar para a casa. Talvez porque, naquela altura, já não acreditava mais que ela tentasse machucá-lo.

Daniel foi silencioso durante a viagem.

Quando chegamos, a porta do quarto dele estava aberta.

Eu a tinha deixado fechada.

O colchão ainda estava no chão onde o joguei, e a estrutura da cama estava encostada na parede. Profundas riscas cobriam as tábuas do chão.

Elas não formavam palavras ou símbolos, mas cada uma apontava para o centro da sala.

Daniel entrou antes que eu pudesse impedi-lo. Ajoelhou-se ao lado de uma riscada profunda e pressionou os dedos nela.

“Ele tentou,” disse ele.

“Tentou fazer o quê?”

Olhou para mim.

“Manter-me pequeno.”

Um dos seus polegares fez um som fraco de estalo. A fissura se ampliou. Algo sobressaía contra a abertura. Por um segundo terrível, pareceu o topo de outro dedo. Alcancei sua mão, mas Daniel puxou-a contra o peito.

“Não.”

O quarto ficou completamente silencioso. Então, de algum lugar sob as tábuas do chão, veio um suave estalido.

Daniel fechou os olhos. Parecia aliviado. O som parou quase imediatamente. Olhou para baixo, para as mãos.

“Ele não pode mais alcançar,” sussurrou.

Tranquei-nos dentro da casa.

Sei como isso soa, mas não sei mais para onde levá-lo. O hospital nos separaria. A polícia pode decidir que ele nunca foi legalmente meu. Não consigo explicar o que vi debaixo de sua cama sem soar perigoso.

Daniel está dormindo agora. Suas mãos estão escondidas sob o cobertor.

A cada alguns minutos, algo bate contra o colchão de baixo, mas não há espaço. O colchão está plano no chão.

Já verifiquei três vezes.

O batido não vem debaixo do colchão.

Vem de dentro de suas mãos.
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