domingo, 15 de março de 2026

Eu Morri Ontem, e Joguei um Jogo com o Diabo pela Minha Alma

Acho que morri ontem.

Foi um acidente de carro. Eu estava a duzentos e dezessete quilômetros por hora na rodovia, na chuva, e… bom, não me lembro muito sobre o acidente. M-me lembro de fazer uma curva rápido demais, me lembro de capotar, e… me lembro de uma praia. Foi praticamente indolor. Não tive nem tempo de sentir medo. Sei que tudo ficou negro, e bom, suponho que é aí que a história começa.

Você já foi à praia quando era criança? Tem alguma lembrança turva de uma orla lotada com sua família? Condomínios enfileirados na areia, e o oceano até onde os olhos alcançavam? Não? Bom, eu tenho. Era o lugar favorito da minha família. Todo verão, a gente descia de carro e passava uma semana na praia com primos e avós, brincando na areia e nadando no oceano. A maioria das minhas melhores memórias aconteceu num calçadão ou do lado de um castelo de areia.

Quando morri, acordei numa praia. Uma praia vagamente familiar, um lugar tão perto de ser uma memória, mas não exatamente. Estava vazia, completamente vazia, nem uma alma por quilômetros. Gritei em vão, berrei até sentir meus pulmões como se tivessem pegado fogo. Ninguém nunca respondeu.

Havia uma névoa estranha pairando ao meu redor; mal conseguia enxergar até a beira d'água. Eu deveria ter desistido antes, mas continuei gritando na esperança de que alguém eventualmente respondesse. Condomínios enfileiravam a borda do meu campo de visão numa direção, e um oceano na outra; porém, os dois estavam a uma distância impossível — não importava o quanto ou quão rápido eu corresse em qualquer direção, parecia que eu não conseguia chegar mais perto. Eu estava me movendo, porém — testei esse pensamento cavando um buraquinho na areia e correndo o mais rápido que pude em direção ao oceano — e de fato, ele ficou bem para trás de mim.

Apesar de toda a falta de esperança, continuei caminhando pela praia, gritando e chorando até minha garganta doer tanto que mal conseguia respirar. Acho que estava chorando também, não tenho tanta certeza — as emoções se comportavam de forma estranha ali. Eu não estava exatamente entorpecido para tudo, mas também não estava em pânico, estava com medo, não estava com raiva… apenas sem esperança. Era quase como se essa fosse a única emoção que me era permitido sentir naquele instante, e qualquer outra coisa fosse só uma falha de julgamento.

Eu sentia fadiga, dor também, e no fim ficou insuportável demais. Estava cansado de gritar, cansado de correr, cansado de… bom, honestamente, estava cansado de estar vivo. Era para isso que esse lugar parecia me empurrar — desistir, deitar e virar parte da praia para a próxima alma infeliz que viesse vagar por ali. A falta de esperança era como um fardo nos meus ombros, quase impossível de carregar, mas eu carregava… pelo maior tempo que conseguia.

Caí de joelhos, derrotado. Finalmente desistindo depois do que eu havia concluído ser um dia inteiro, já que o sol havia voltado mais uma vez ao seu lugar diretamente acima de mim. Fitei a distância, saboreando o alívio que vinha das minhas panturrilhas, antes que o peso esmagador caísse sobre meus ombros mais uma vez.

"Eu desisto," murmurei, fitando a distância, imaginando que estava falando com a própria praia. "Você venceu."

A princípio, achei que estava tendo alucinações, depois estava quase certo de que havia enlouquecido, até que finalmente aceitei que conseguia ver o contorno tênue de alguém emergindo da névoa.

"Vamos jogar um jogo," uma voz demoníaca ecoou do próprio universo, fazendo o chão tremer e o oceano ondular.

Saltei de pé, sentindo medo pela primeira vez desde que havia chegado a esse lugar, e gritei de volta: "Quem porra é você?!"

"A Morte."

Me virei para correr, mas me vi cara a cara com a figura, antes que ele levantasse o dorso da mão e me derrubasse no chão. Me lembro de uma dor intensa, uma agonia que nunca havia sentido antes. Achei que ele havia quebrado tudo no meu corpo; doía demais.

Deitado de costas na frente do homem, apertei meu rosto com as mãos e o enxerguei com clareza pela primeira vez. Era eu. Ele era idêntico a mim, cada mínimo detalhe, até o pelo encravado embaixo do meu nariz.

"Quem é você–" tentei falar, mas o homem rapidamente acenou a mão na minha frente, e meus pulmões pareceram ficar sem ar.

Engasgei e tossi, agarrei minha garganta e tentei gritar, mas nada saía, e meus pulmões começaram a queimar.

"Vamos jogar um jogo, pela sua alma," o homem continuou falando, completamente indiferente à minha luta diante dele. "Se você vencer, poderá entrar pelos portões do paraíso lá em cima," o homem me chutou de volta para os joelhos enquanto eu tentava me levantar, sufocando. "Porém, se você perder, sua alma é minha, e você ficará comigo em tormento pela eternidade."

Me contorci na areia; a dor nos meus pulmões era insuportável, e minha cabeça parecia que ia explodir sob a pressão se eu não respirasse.

O homem acenou a mão na minha frente, e eu engoli ar, recebendo de repente a permissão de respirar novamente. Arfei e chorei enquanto ofegava até a dor lentamente se dissipar, e as lágrimas começaram a secar.

"Você entende as apostas do nosso jogo?" o homem perguntou.

"Por que… por que você está fazendo isso–" gemi.

"SILÊNCIO!" A voz do homem troou de todo o universo, de todos os cantos do meu corpo. Ondas de dor ecoaram de cada átomo da minha existência, e eu caí de costas gritando em agonia. Ondas mais altas do que eu se chocaram contra a orla, e os prédios enfileirados na areia começaram a desmoronar sob o peso do poder desse homem.

"Você entende?" Ele falou novamente em um sussurro quase imperceptível.

Me recompus rapidamente, caindo de joelhos diante do homem, recusando-me a ficar naquele sofrimento por mais um instante sequer, e petrificado de que ele ficasse impaciente de novo.

"Sim, eu entendo, eu–" respondi.

O homem me roubou o fôlego mais uma vez.

"Esta praia contém centenas de milhares de milhões de toneladas de areia só dentro do campo de visão." O homem começou a caminhar ao meu redor. "Quero que você conte cada único grão de areia que existe nesta praia."

Olhei para ele com nojo através do meu sofrimento. Como diabos ele esperava que eu fizesse isso? Era impossível!

"Claro, você é livre para desistir a qualquer momento. Porém, isso significaria abandonar o jogo, e isso significa que eu ganho." Um sorriso de escárnio se abriu no rosto dele. "Você pode levar o tempo que precisar, e pode tentar quantas vezes quiser; afinal, temos a eternidade." O homem começou a dar uma risadinha, e a risadinha rapidamente virou uma gargalhada, e da gargalhada para uma risada maníaca que ecoou pela praia. "Bem-vindo ao paraíso!"

O homem desapareceu tão rapidamente quanto havia chegado, se dissolvendo em névoa, e levando consigo qualquer domínio que tinha sobre mim. Arfei atrás de ar e me deleitei na paz que veio com a ausência dele; porém, fui rapidamente esmagado em absoluta falta de esperança mais uma vez, diante da tarefa assustadora que parecia tão impossível.

Depois disso, as coisas ficam… vagas. Não é que eu não me lembre do que aconteceu; só não consigo lembrar por quê, nem como, nem mesmo quando. Tipo, eu sei que comecei a contar rapidamente, mas não me lembro por que desisti tão facilmente de tentar escapar. Me lembro de fragmentos de números; me lembro de lembranças de buracos na areia e pilhas mais altas do que minha altura três vezes. Me lembro de cada segundo horrível que passei naquele… naquele… inferno, mas não me lembro da quantidade exata de tempo que fiquei lá.

A última memória que tenho daquele lugar foi de um número impossível: 10.289.798.543.

Então acordei. Estava no fundo de uma ambulância, paramédicos ao meu redor, gritando palavras ininteligíveis. E depois de inúmeras cirurgias, e ainda mais por vir, saí bem.

Mas ouça isso: me lembro claramente do número exato de dias que passei contando areia — me lembro de 163 anos fazendo isso — mas fiquei clinicamente morto por apenas cerca de 2 segundos. Olha, eu sei o que você está pensando: provavelmente foi algum tipo de truque que minha mente pregou em mim no último segundo, ou algum tipo de sonho estranho, ou algum efeito colateral bizarro da anestesia, mas você está errado! Encontrei areia nos meus sapatos esta manhã, porra, areia! Eu sei que não estou louco, juro!

Nem consigo me dar ao trabalho de me perguntar por um segundo se estou louco, porque o único pensamento que me atormenta é se esse é o inferno que me espera — quando o motivo pelo qual eu fui parar na beira da estrada finalmente me alcançar, quando o câncer no meu cérebro finalmente me dominar em questão de dias.

O Som Constante Que Eu Ouvia Toda Noite na Minha Fazenda

Eu moro perto de um observatório, o telescópio dá pra ver a quilômetros de distância, e mesmo morando a um quilômetro e meio da entrada ainda tenho que passar por uma revista de segurança. Desde que o lugar foi construído eu notei o fluxo constante de caminhões e transportes pesados passando em frente ao meu portão. Eu vivo numa fazenda antiga e cuido dela como meu pai e meu avô cuidavam, então minha vida nunca mudou muito.

Uns três anos depois da conclusão das obras do observatório, começamos a ouvir esse som agudo, um zumbido alto de madrugada. Incomodava o gado, mas durava só uns cinco minutos, então eu não dei muita bola. Começava às dez da noite e durava cinco minutos, depois silêncio. O que era realmente estranho é que depois que o som parava, o silêncio que vinha a seguir parecia pesado. Nada de grilos, nada de corujas. Na verdade, a noite inteira parecia congelada. Eu fazia minha ronda antes de ir dormir e via esse feixe de luz disparar do prédio principal como se fosse algum tipo de laser.

Convivi com aquilo por mais quatro anos e o zumbido virou barulho de fundo. O rádio perdia o sinal ou a televisão apagava do nada. Era uma esquisitice no começo, e quando perguntei a um dos guardas sobre isso, ele me olhou como se eu tivesse ficado louco. Numa noite o som não veio, e foi aí que eu descobri o porquê.

Eu estava arrumando a cozinha depois do jantar e planejando ir checar as vacas, faltava um minutinho pras dez. Minha esposa e meus filhos estavam na casa dos sogros pra um churrasco ou alguma festa assim, então eu estava completamente sozinho, do jeito que eu gostava. Saí e olhei as horas: eram dez e dois, e o zumbido não tinha vindo. Fui até um lugar aberto pra ver o prédio do observatório e não tinha nenhum feixe de luz disparando pra cima. Senti que alguma coisa estava errada, mas não me preocupei porque aquelas cabeças pensantes de lá sabiam o que estavam fazendo. Indo em direção ao estábulo, senti alguma coisa se mover nas árvores além da minha cerca, como se algo estivesse me seguindo. Não estava carregando minha espingarda nem a lanterna porque estava tão acostumado com o caminho que não precisava delas.

Parei pra olhar as árvores e não vi nada. Quando voltei a andar, veio um som como se mais de uma coisa estivesse caminhando nas sombras. Virei e corri de volta pra dentro de casa. Peguei a lanterna e a espingarda e voltei lá pra fora, foi então que ouvi um estrondo enorme vindo do meu portão e corri pra ver o que tinha acontecido. Lá estava um caminhão que tinha arrombado o meu portão, mas ficou preso porque o portão quebrado tinha ficado enroscado embaixo do veículo.

Berrei pro motorista perguntando se ele tinha perdido o rumo e o juízo, mas não obtive resposta. Fui andando até o caminhão gritando. O motorista tinha sumido e o para-brisa estava quebrado de dentro pra fora. Olhei de novo pra ver se conseguia entender o que tinha acontecido, mas o lugar estava vazio. Eu ia checar a parte de trás quando ouvi um rosnado grave vindo das sombras. Apontei a lanterna naquela direção e peguei uma sombra correndo. Tentei seguir, mas não consegui. Aquilo estava começando a me apavorar de verdade, então voltei pra casa. Ia ligar pro xerife e deixar ele resolver a situação.

Voltando pra casa ouvi o barulho de passos de algo correndo em direção ao portão e me virei pra ver, mas não tinha nada. Sem a menor vontade de virar jantar pra seja lá o que fosse aquela porra, corri e tranquei as portas da minha casa. Apaguei as luzes e tentei ligar pro xerife, mas a linha estava morta. Ouvi alguma coisa correr até a casa e parar. Fui devagar até a janela pra tentar ver o que era, mas não tinha nada lá. Meu coração estava disparado e eu conseguia sentir o sangue pulsando. Tentei me concentrar e entender o que poderia ser aquilo.

Fiquei parado na janela encarando a noite, esperando ver aquela coisa. Por um bom tempo, nada. Depois de uma hora ouvi os passos de novo, dessa vez estavam na varanda e eu levantei a espingarda apontando pra janela. Continuava sem nada. Me movi pra checar, e foi aí que ouvi o barulho de vidro quebrando no andar de cima, era do quarto das crianças. Corri até as escadas e apontei a espingarda pro topo. Nada se movia. Os passos se arrastavam devagar pelo quarto em direção à porta. Fiquei esperando e senti meu coração acelerar mais ainda, conseguia quase sentir o gosto dele na boca, o suor escorria pelo meu rosto e eu tinha que enxugá-lo dos olhos. Os passos foram se aproximando das escadas e meu dedo foi apertando o gatilho. Qualquer que fosse aquela coisa, eu não estava nem aí, queria que ela sumisse.

Vi uma sombra escura se mover no alto das escadas e esperei. Então vi algo se mexer e atirei. O trovão da espingarda e o clarão me cegaram por um segundo. Quando a fumaça dissipou, a janela atrás das escadas estava destruída e a parede toda cravejada de chumbo. Engatilhei a espingarda e apontei de novo. Nenhum som dessa vez. Só o barulho de vidros caindo e madeira rachando, nenhum passo. Do nada os passos recuaram de volta pro quarto e ouvi a coisa aterrissar no telhado e depois no chão. Virei e apontei pras janelas, varrendo uma por uma com a espingarda, depois pro portão. Eu estava apavorado pra caralho. Nada veio e a coisa talvez tivesse ido embora. Fui devagar até a janela onde eu estava antes e olhei lá fora.

Lá estava essa coisa comprida e preta parada perto da minha caminhonete, só parada lá. Não conseguia distinguir o que era. Cerrei os olhos e tentei focar o máximo que pude, mas não conseguia decifrar aquilo. Era uns dois metros e meio de altura, totalmente preta, sem nenhum movimento, só parada. Peguei a lanterna e apontei pra aquela coisa. Segundos antes de eu acender ela, a coisa disparou pra direita e sumiu. Tentei ver pra onde tinha ido, mas não encontrei nada. Apaguei a lanterna e fiquei esperando de novo. Nada. A noite estava silenciosa e pesada.

Os passos voltaram, mais altos dessa vez, perto de onde eu estava. Me afastei devagar seguindo os sons com a arma, aquilo estava me farejando. Parei logo antes das escadas e fiquei esperando. A sombra passou pela porta e parou antes da janela. Eu queria atirar tanto que conseguia sentir a tensão do gatilho no dedo. A coisa não se movia, só esperava.

Uma gota de suor caiu no meu olho e eu pisquei. A parede estourou pra dentro e atirei ao mesmo tempo. A coisa gritou e eu entrei em pânico tentando engatilhar a espingarda pra atirar de novo. Ela se jogou pra frente e antes que eu conseguisse atirar me acertou. Voei pra trás e caí nas escadas, a espingarda saiu das minhas mãos. Olhei pra cima e vi estrelas rodando. Tentei me levantar, mas tinha uma força avassaladora me mantendo no chão. Olhei pro meu peito pra ver o que era. Não tinha nada lá, nenhuma sombra, absolutamente nada, e ainda assim eu não conseguia me mover. A pressão foi aumentando e eu conseguia sentir minhas costelas estalar e minhas entranhas sendo esmagadas. Cada respiração era mais difícil que a anterior. Tentei me levantar, mas a força era grande demais. As escadas atrás de mim estavam me cortando a espinha e a dor era inimaginável.

Bem quando senti que ia perder a consciência, o zumbido familiar voltou e aquela coisa, seja lá o que fosse, gritou como se estivesse em agonia e a pressão sumiu num estalo. Fiquei lá deitado respirando fundo tentando me levantar. Os gritos saíram da casa e se perderam na noite. Não vi o que era e nem conseguia imaginar o que poderia ser. Tudo o que eu sabia era que aquele zumbido era como veneno pra aquela coisa.

Depois disso os militares apareceram na minha propriedade e me fizeram tantas perguntas que eu quase acreditei que tinha imaginado tudo aquilo, essa porra toda. Me mandaram assinar um monte de documentos dizendo que não podia falar sobre aquela noite e foram embora me deixando com um buraco gigante na parede. Seja lá o que aquela coisa era, eu não faço a menor ideia. Pouco tempo depois vendi a fazenda e me mudei pra outro lugar.

Ele Cresceu no Meu Cesto de Roupa Suja

Não sou muito chegado a higiene pessoal, vou admitir. Eu reutilizo as roupas pra adiar a lavagem, então as primeiras peças que vão pro cesto ficam ali por um bom tempo. Por todo o Fórum, já vi centenas de fotos de cogumelos e mofo crescendo nas roupas das pessoas — essa coisa tinha os mesmos ingredientes, mas não era cogumelo nenhum.

Numa camiseta d' O Retorno do Jedi tinha vários brotos crescendo. O maior era um caroço do tamanho de um polegar, com a textura e a cor de pudim de tapioca velho. Ele se espalhava mais uns três centímetros pela camiseta, cobrindo boa parte da cara do Jabba the Hutt. Eu apertei o tecido por baixo dele e, mesmo que a superfície encrustada parecesse que ia esfarelar, ele ficou preso e se mexeu junto. Fiquei chocado, mas nunca com nojo de verdade — achei tudo absurdo, na real. Tirei uma foto e postei, e as pessoas tiveram uma reação bem mais explosiva do que a minha. Não sou nenhum especialista em plantas, não fazia ideia do que era aquilo, e ninguém mais parecia saber também. Os CDFs saíram da moita pra compartilhar a sabedoria deles, mas ficaram todos de boca aberta. Não fiquei com ele por algum senso solene de dever à ciência e à descoberta — eu queria ver até onde aquilo ficaria bizarro. Acho que consegui as duas coisas.

Tentei recriar o fundo do cesto num lugar onde eu pudesse observar o crescimento. Estendi a camiseta numa cesta de vime e a coloquei em cima de uma saída de ar do aquecimento no meu armário. Borrifei água na camiseta e continuei fazendo isso a cada poucos dias. Estava funcionando — ele crescia aos poucos, assim como os menores que cresciam ao lado. Depois de três semanas, os tentáculos se estenderam até a Princesa Leia e deixaram visível só a metade de baixo do Jabba. Ficou mais detalhado: as crostas eram mais finas e com covinhas, e a camada superior inteira estava mais escura, como uma batata murcha.

Só o toquei uma vez — cutucuei o centro com delicadeza e ele afundou. A camada de cima não explodiu, mas vazou um líquido transparente; gotinhas correram pela superfície e escorreram até as raízes, onde se misturaram com outro fluido. Era um líquido amarelado e turvo que escorria por baixo e ia encharcando a camiseta. O crescimento desacelerou na semana depois que eu cutucuei; convicto de que tinha machucado ele, jurei que não ia tocá-lo de novo a não ser que fosse absolutamente necessário.

Ele pegou mesmo o ritmo quando as raízes dele encontraram as de outro broto. Embora a relação parecesse simbiótica, o broto menor não se beneficiou tanto quanto o maior — o progresso dele foi estagnando até parar completamente. A largura aumentou onde as raízes se encontravam, conforme a planta principal se espalhava mais. Essa largura avançou pelas raízes da menor e causou um inchaço na massa central. A mudança mais repentina entre uma borrifada e outra aconteceu quando o broto menor explodiu com novo crescimento. Todo o material que havia acumulado no centro parecia ter sido expelido para o lado, deixando-o completamente murcho.

Com o tempo, todos os brotos foram se conectando e passaram a se comportar da mesma forma — inchavam e, no dia seguinte, eu encontrava uma explosão de crescimento. A massa grande se tornou a única restante, e as outras pareciam nós no sistema de raízes. As raízes se enrolaram por baixo da camiseta, presumivelmente dando uma volta completa em torno dela. Estava ficando sem tecido e achei que teria que transferi-lo para outro lugar, mas ele se adaptou escalando o cesto.

Chegou num ponto em que eu tinha que borrifar várias vezes por dia pra manter um ritmo de crescimento constante. Prendi um umidificador pequeno na tampa pra mantê-lo sempre úmido — fazendo isso, eu conseguia voltar a checar a cada dois dias, e toda vez que checava, ele parecia ter mudado drasticamente. Raízes mais grossas e mais numerosas traçavam os sulcos do cesto; a cada dia que passava o cesto parecia dois centímetros mais raso. Por um tempo — talvez desde quando eu o cutucuei — uma protuberância vinha se formando no centro: se fosse esse o caso, soava quase como um galo ou algum tipo de reação imunológica. O topo foi ficando mais fino, se espalhando e rasgando — escamoso como a muda de uma cobra. Os últimos fios se romperam e um caroço branco leitoso foi revelado. A área ao redor estava com uma cor diferente do resto da superfície — um roxo orgânico irritado. Parecia uma espinha, ou um hematoma infectado; foi a primeira vez que senti nojo do crescimento. Fiquei me perguntando se tê-lo tocado tinha de fato o infectado, se eu havia perturbado uma carne vulnerável.

Esperava que um dia eu tiraria a tampa e encontraria o furúnculo estourado, mas isso nunca aconteceu — pelo contrário, parecia estar cicatrizando. O inchaço foi diminuindo e a descoloração foi embora. Uma mancha escura se desenvolveu no centro, surgindo devagar do cinza claro pro preto — um ponto do tamanho de uma picada de alfinete. Dali ele se espalhou, o preto absoluto e vazio cobrindo mais e mais do branco polido e brilhante. Toda vez que eu o regava, ficava um tempo observando — sempre havia algo diferente no seu design. Se eu ficasse tempo suficiente olhando numa mesma sessão, o ponto escuro diminuía. Interpretei isso primeiro como uma reação negativa à luz, então coloquei a tampa rapidinho e o deixei em paz. Quando voltei, o ponto tinha voltado ao tamanho anterior, mas diminuiu de novo assim que o descobri. Era fascinante, mas tinha uma explicação — plantas reagem à luz, algumas, como os lírios-do-dia, reagindo rapidamente. O que eu não conseguia explicar, no entanto, era como o ponto seguia o meu movimento.

Tirei a tampa pra recolocar água na bandeja, deixando-a de lado enquanto me ausentei. Quando voltei pro armário, o ponto havia se deslocado pro canto mais distante da cúpula branca, de frente pra porta. Ele nunca havia se movido antes — só mudava de tamanho — e vê-lo se virar ativamente em direção à luz foi um desenvolvimento e tanto. Me joguei no chão pra dar uma olhada mais de perto, e enquanto me inclinava sobre ele, o ponto foi se arrastando de volta pro centro. Inclinei minha cabeça pra direita e, depois de manter a posição por alguns minutos, o ponto foi novamente se arrastando na minha direção. Fiquei observando por quase uma hora, me movendo ao redor e deixando-o me seguir. Mesmo depois de todo aquele tempo, não conseguia identificar ao que ele era atraído. Quando apontei uma luz para ele e me movi de um lado pro outro, ele continuava apontando pra onde quer que eu estivesse — mover outros objetos ao redor resultou no mesmo. Quando eu saía ou me escondia do campo de visão, ele apontava para onde eu havia estado por último. Não fazia sentido, mas fiquei me perguntando se ele era atraído por pessoas — então peguei uma foto da minha mãe e fui acenando com ela por lá. Nada.

Estava numa sinuca de bico. Sentia que precisava ser estudado por um profissional — um geneticista ou coisa assim — mas tanto a ideia de entregá-lo quanto a de dissecá-lo eram difíceis de aceitar. Tentei ser bem cauteloso quanto à quantidade de estímulos a que o expunha; podia estar arrancando um peixe-cachorro da sua toca toda vez que tirava a tampa. Se eu tivesse mais deles, talvez estivesse disposto a ir cutucar — mas, até onde eu sabia, esse aqui era um George Solitário.

Não falei pra ninguém depois dos posts iniciais. Aquilo era especial, e pessoal. Havia algo de sagrado nele, algo que eu vivenciaria sozinho. Documentei bastante — fotos e vídeos sem fim — mas nunca foi destinado a mais ninguém além de mim; era mais um álbum de fotos do que um relatório. Nunca fui bom em cuidar de coisas, especialmente plantas — mas esse estava prosperando, e a rotina veio naturalmente. Havia um orgulho simultâneo que eu sentia por mim mesmo e por ele, conforme ele continuava crescendo.

Chegou uma hora em que o cesto estava quase cheio. As raízes já haviam transbordado pela borda e começado a descer pelos lados. Conforme eu estudava mais a orbe branca, fui aceitando que era um olho — enquanto conseguia encontrar alguma racionalidade no crescimento ser natural lá no início, já havia superado isso. O olho estava quase chegando na tampa, com o umidificador borrifando névoa diretamente nele; eu precisava mudar o arranjo, mas não sabia a melhor forma de fazer isso. Assisti vídeos sobre como transplantar árvores com raízes aglomeradas — não tinha como saber como estaria a parte de baixo, mas raízes aglomeradas era meu melhor palpite. Com muito custo, baixei as mãos até o cesto, mantendo-as perto das bordas. As pontas dos meus dedos enluvados pressionaram a costura onde a pele encontrava o vime entrelaçado — elas afundaram um pouco e o fluido amarelado vazou. Puxei as mãos rapidamente, com fios de gosma se arrastando pra trás. Conforme o fluido continuava a vazar, bolhinhas subiram à superfície soltando um chiado fininho. Seja qual fosse o bolsão de ar que estava por baixo, devia estar se enchendo com o fluido. Fiquei preocupado com ter machucado ele — que estava secretando algum tipo de seiva das feridas. Coloquei a tampa de volta e decidi que teria que fazer um recipiente novo, grande o suficiente pra acomodar o cesto também.

Comprei um grande baú antigo — estava bem gasto, então era bem barato. O interior era forrado com esse papel rasgado com estampas da natureza, tipo papel de parede vintage. O crescimento dele estava normal — melhor do que eu esperaria dado o incidente — mas ainda estava secretando o fluido, agora escorrendo pelos sulcos do cesto. Coloquei-o sobre jornais enquanto procurava pelo baú, tendo que trocá-los constantemente. Quando finalmente coloquei o baú onde eu queria, ergui o cesto pelas alças.

Era incrivelmente pesado. Até então eu só havia levantado alguns centímetros do chão pra trocar os jornais — isso não me preparou pra como seria erguê-lo de verdade. Devia ter uns dez quilos, o que era demais pras alças de madeira aguentar. A madeira encharcada ao redor dos parafusos rachou; consegui colocar um braço por baixo do cesto antes que ele caísse no chão, mas a luta não havia acabado. O fluido que havia encharcado o fundo do cesto estava quente e espesso — vazou pelas dobras da minha mão descoberta como mel não misturado. Curvei o corpo sobre o cesto pra apoiá-lo no colo, mas o fluido parecia secretar ainda mais — escorregou pelas minhas pernas e desceu por elas. O cesto pousou nos meus pés, amassando até explodir num gêiser de gosma amarela, com cordas dela se espalhando pelo meu tapete. Estendido sobre meus pés estava o broto — enrolado como um novelo de grama seca, coberto de salmoura, me encarando lá de baixo. Suas raízes se desenrolaram, se libertando do espaço apertado — algumas delas se contorciam, agitando e batendo; outras simplesmente se arrastaram o mais longe que conseguiam. Durante tudo isso, aquele mesmo chiado sibilante escapava de algum lugar dentro dele — dessa vez mais alto.

Fiquei lá parado chocado por um minuto, certo de ter matado ele, mas me recompus e comecei a transferi-lo pro baú novo. Nem me dei ao trabalho de colocar luvas — nossos germes já estavam todos entrelaçados. Coloquei as mãos por baixo do agrupamento principal e levantei. Foi como se uma torneira tivesse sido aberta, com aquele jorro pesado de gosma que derramou de dentro — não só se enrolou nas minhas mãos, mas as raízes também. Não tinha o apoio que tinha com o cesto, então minhas mãos afundaram fundo entre tentáculos quentes e molhados. Elas se enrolaram nos meus antebraços, se agarrando a mim, assim como eu me agarrei a ele. Havia dezenas de raízes com mais de um metro de comprimento que eu não queria arriscar pisar — então me curvei e o apoiei no peito enquanto jogava as pontas longas por cima dos meus ombros. O olho estava a quinze centímetros do meu rosto, e enquanto eu fitava dentro dele, percebi que nunca havíamos estado tão próximos. O horror era que provavelmente não estaríamos de novo — se ele sobrevivesse a tudo isso, eu não via como haveria outra oportunidade de segurá-lo. Não acho que o momento durou muito — tentando rapidamente deixá-lo confortável — mas pareceu longo.

Estendi as raízes longas por cima dos vários tecidos úmidos que forrei no fundo do baú, finalmente depositando o restante dele no centro. A forma como ele ficou estendido naquele baú grande o fazia parecer tão pequeno — igualzinho a quando era jovem. O chiado diminuiu, assim como o vazamento e o movimento dos membros. Não conseguia me decidir entre alívio e preocupação, com medo de que ele estivesse se acalmando como sintoma de estar morrendo. Seja o que fosse que estivesse passando, ele pelo menos parecia em paz.

Passei muitas horas nos dias seguintes limpando a bagunça. Lutando contra a gosma que já havia encharcado o tapete e endurecido, com um cheiro podre que só piorava conforme fermentava. Estragei muitas toalhas tentando tirar a mancha do tapete — cada uma delas indo pro baú. Tive que desistir quando havia esgotado quase todas elas. Não tinha como salvar a minha roupa também, então ela foi pro baú. Ficou evidente que tinha mais roupa minha no baú do que no cesto, e que havia passado um mês sem fazer lavagem. Meu armário estava pelado — algumas camisetas penduradas no cabideiro, e as prateleiras com calças espalhadas e amassadas. Parecia mais cheio do que nunca, com o baú quase ocupando toda a largura do cômodo. Apesar da minha negligência em lavar as roupas, me sentia mais produtivo do que nunca — limpeza nunca foi uma prioridade pra mim, mas de alguma forma me tornei uma, e minhas outras responsabilidades foram se apagando.

Acho que estava tentando tirar ele da cabeça — me mantendo ocupado enquanto ficava perto, simplesmente existindo no mesmo espaço. O crescimento dele parecia ter estancado, ele parecia murcho — sua superfície outrora rechonchuda e encrustada, afundada com sulcos mais profundos. Seus movimentos oculares estavam lentos, às vezes nem me reconhecendo, perdido em algum outro lugar. Às vezes eu me forçava a checá-lo — uma sensação de culpa — mas disposto a admitir que estava com medo do que encontraria. A mudança finalmente veio. Quando entrei no armário pra visitá-lo, encontrei protuberâncias pelo tapete. Me ajoelhei e vi brotinhos minúsculos, igualzinhos a ele e aos seus irmãos na infância. Corri pro quarto dos fundos e derrubei o cesto — tudo dentro dele tinha pelo menos um dos brotinhos.

Me ajoelhei ali no chão do banheiro estendendo o que havia sobrado das minhas roupas, o rosto tomado pelo espanto. Havia um conforto que senti olhando pra todos eles — num momento em que ainda estava incerto sobre o que aconteceria com o original, havia um consolo em pensar que sempre teria uma parte dele. O único dilema era decidir o que fazer com eles: arriscar as consequências de transplantá-los, ou deixá-los ter minhas roupas. Talvez houvesse um tempo em que eu jogaria com as vidas deles — talvez fosse um pensamento mais fácil quando os riscos eram imaginários. Eles importavam muito mais do que eu poderia ter previsto, e tudo o mais, muito menos. Imaginei que importariam mais pra ele do que pra qualquer outra coisa. Peguei todas as roupas cobertas de esporos no braço e fui até o armário — engancho a tampa do baú com o pé, levantei e fiquei parado sobre a abertura.

— Você não vai acreditar no que eu encontrei.

Foi a primeira vez que falei com ele. As pessoas dizem que plantas gostam que a gente cante pra elas, mas eu nunca conseguia me fazer isso — mesmo em completo isolamento me sentia envergonhado. Mas enquanto mostrava cada um dos filhotinhos, não senti nenhuma vergonha. O cômodo estava aromático e aconchegante — algo conjurado pela felicidade que compartilhávamos. Os pequenos mudaram tudo. Não foi uma decisão tanto quanto foi um instinto — eu estava totalmente comprometido em cuidar dele e de seus filhotes.

Os jovens foram crescendo; com minha atenção total, estavam crescendo mais rápido do que o original havia crescido na mesma idade. Ele também continuou crescendo — assim como havia feito com o cesto, ele extrapolou o baú. Arranquei os pregos e deixei os lados achaterem enquanto seus membros se derramavam como intestinos. O fluido inundou o tapete do armário e se espalhou pelo meu quarto. Estendi seus membros o máximo que conseguia, colocando-os nas prateleiras do armário, sobre minha cama e por cima dos varões de cortina. Tinha uma dúzia de umidificadores espalhados pelo apartamento quando percebi que era melhor deixar o chuveiro ligado. De vez em quando eu tampava o ralo e deixava uma fina camada de água se acumular.

Muitas vezes eu ficava deitado no chão do banheiro por horas — nunca pra me limpar, apenas deixando a água correr sobre mim. Virou um hábito depois de descobrir que acalmava minha pele irritada. Um dia, uma crise repentina cobriu meus braços de pele vermelha e ressecada — ela se espalhava em manchas pelo peito e pelas pernas. Só frustrante no começo, mas foi ficando debilitante — escamas de pele morta caíam com cada movimento, e as dobras ficaram com um rosa vivo. Qualquer tipo de limpeza ficou impossível, já que os produtos químicos fortes deixavam minhas mãos em brasa, então eu só ficava no chuveiro encharcando o máximo que conseguia. A pior parte de ficar no banheiro era me ver no espelho. Às vezes fico me perguntando se fiquei tanto tempo deitado no chão porque detestava me ver quando levantava. A imagem me enojava toda vez: meus olhos estavam inchados, encrostados nas pálpebras e com olheiras roxas e infladas. Quebrei o espelho e parei de acender as luzes — algo que deveria ter feito muito antes, pra criar um ambiente de crescimento melhor. Só precisei chegar ao ponto em que ver meu corpo sem roupa à luz era a pior parte do dia. Meus olhos foram se adaptando ao escuro, e embora eu permanecesse envolto nas sombras, os traços mais vergonhosos ainda se destacavam. Houve algum consolo quando percebi que minha visão estava piorando — meu rosto inchado foi gradualmente crescendo ao redor dos olhos, e eu acordava muitas vezes com eles colados de pus. Achei que estavam infectados, assim como o resto de mim, e que em breve as bactérias os matariam. Era uma realidade que eu ia aceitando de bom grado — em parte porque não estava sozinho na experiência; ele estava passando pelo mesmo. O olho dele permaneceu no armário, uma orbe gigantesca ao longo da parede dos fundos, e conforme suas raízes de longo alcance inchavam ao redor da entrada, ele estava fadado a ficar trancado lá dentro.

Coexistimos por anos agora — milhares de filhotes nascidos e todos conectados; nossas vidas entrelaçadas o tempo todo. Não há lugar onde ele não chegue, e em breve isso também se aplicará a mim. Seus membros se encontram com os meus agora. Onde antes eu o segurava e temia que seria a última vez, sei que ele teme o mesmo — e provavelmente está certo. Ele vai cuidar de mim como cuidou dos seus filhotes — isso vem naturalmente pra ele. Ele consegue se virar sozinho e vai conseguir seguir em frente sem mim — disso tenho certeza. Mas não sou ignorante quanto à aparência dele. Ele vai ser encontrado algum dia. Só espero que os descobridores encontrem esse post primeiro. Estou mandando isso como minha última vontade e testamento — um apelo em nome da minha criação, para que ele receba a mesma gentileza que me mostrou. Ele não conhece as crueldades do mundo, e eu esperava que nunca fosse conhecer — não tenho mais nenhum poder sobre isso. Tudo o que peço é que o mundo não seja cruel com ele.

Meus Órgãos Estão com Coceira

Tinha chegado ao ponto de estar afetando minha qualidade de vida. Eu não sabia exatamente de onde vinha, mas de repente senti algo fundo dentro do meu torso.

Lembro que estava batendo o ponto no trabalho quando começou — um leve desconforto naquela época, um alívio comparado ao que estava por vir. Mantendo os olhos na estrada, fui balançando o torso de um lado pro outro tentando me aliviar, o que felizmente funcionou. Quando cheguei em casa, me senti mais exausto do que de costume e fui dormir cedo.

No dia seguinte, a coceira voltou, mais forte mas ainda suportável. Aquela sensação persistente ficou rondando minha cabeça, e nos momentos de folga no trabalho eu ficava me contorcendo, tentando me livrar daquele incômodo. Apesar de todos os meus esforços, ela continuava teimosa. Quando cheguei em casa naquela noite, tive dificuldade pra dormir — fechar os olhos parecia amplificar a sensação. Não me lembro quando finalmente desmaiei.

No terceiro dia, ficou tão ruim que senti calafrios descendo pelas minhas pernas. No momento em que acordei, me vi me contorcendo de forma descontrolada em posições esquisitas tentando acabar com a coceira. Cheguei até a tentar beliscar, agarrar a pele em punhados e esticá-la pra todo lado, me socando e me dando tapas. Estranhamente, juro que senti alguma coisa se mover, mas independente do que eu fizesse, simplesmente não passava.

Decidi que precisava ir ao médico ver o que era isso. Liguei pro trabalho dizendo que estava doente e liguei pro meu clínico geral, que concordou que era uma situação bem estranha. Depois de me fazer uma série de perguntas, durante as quais fiquei o tempo todo pulando no lugar, ela me disse pra agendar um ultrassom.

A consulta seria tarde da noite. Queria marcar o mais cedo possível e aquele era o horário mais próximo disponível. Vou aceitar o que tiver.

Tentando ao máximo ignorar aquilo e seguir com o meu dia, me preparei um café da manhã. Meu cérebro protestava, gritando por alívio, mas não tinha nada que eu pudesse fazer. Afinal, não ia pegar uma faca pra me abrir e coçar as entranhas, né.

Junto com esse pensamento, meu olhar foi direto pro armário onde ficavam as facas. Sacudi a cabeça pra mim mesmo. Eu não era doido a esse ponto. Só precisava aguentar mais algumas horas.

Depois de uma tarde agonizante de espera, finalmente chegou a hora de sair. Peguei as chaves e saí disparado pela porta, incapaz de ficar parado por mais tempo.

Quando cheguei ao hospital, fui recebido por um médico que me levou até um quarto onde troquei de roupa pra uma camisola, e depois entrei na sala de ultrassom.

O médico arregaçou minha camisola, colocou uma toalha cobrindo minha virilha, e encostou o aparelho gelado no meu corpo. Senti o gel se espalhando enquanto ela pressionava em direção à área que eu tinha indicado momentos antes.

Ela foi movendo o aparelho de um lado pro outro pela região, e de repente parou completamente.

— O que foi? — perguntei.

Levantei a cabeça pra olhar pra ela.

Seus olhos estavam arregalados, sobrancelhas franzidas. A expressão dela era uma mistura de medo e confusão — provavelmente a última coisa que eu queria ver nessa situação. Será que eu tinha alguma doença? Tinha algo errado com meu corpo?

Ela virou a tela do ultrassom na minha direção.

A princípio, não consegui identificar nada além de uma enorme mancha em movimento, mas olhando mais de perto, consegui ver as pernas.

Milhares, não — milhões delas.

Aranhas. Minúsculas aranhas bebês haviam tomado conta do meu fígado, rastejando velozmente umas por cima das outras, cobrindo meu fígado inteiro numa massa escura. Pra piorar tudo, bem no centro estava a maior de todas, espalmada sobre as aranhas bebês com um tamanho comparável ao de uma tarântula grande.

Eu não conseguia mais me controlar. Estava com uma coceira insuportável.

Comecei a me debater e a me contorcer na cama. Minha médica gritou alguma coisa e outros médicos vieram correndo. Implorei que fizessem alguma coisa, qualquer coisa.

Depois de me avaliarem e examinarem o ultrassom, me colocaram pra dormir.

Acordei numa cama de hospital. Ainda grogue da anestesia, olhei ao redor procurando por algum médico enquanto tentava recuperar as memórias.

É verdade. Tinham operado em mim enquanto eu dormia.

Eu não sentia mais a coceira. Nunca na minha vida fui tão grato por estar livre dela, pensando em como eu vinha subestimando as coisas simples do dia a dia.

Um médico entrou pra verificar meu estado antes de me contar o que tinha acontecido.

Ele disse que nunca tinha visto uma anomalia assim na vida dele. Eu ficaria surpreso se tivesse visto.

1.074 aranhas. Esse foi o número que retiraram de mim.

O número me deu arrepios na espinha.

O médico deve ter lido minha expressão perturbada e me assegurou que eu ia ficar bem. Agradeci pelo trabalho duro dele.

Recebi alta alguns dias depois.

Voltar à minha vida normal não foi tão fácil. Embora estivesse bem fisicamente, não me recuperei mentalmente. Como uma anomalia dessas poderia ser possível, e por que comigo?

Com o tempo, voltei ao trabalho e tentei esquecer a experiência, enterrando-a fundo num lugar onde jamais pensaria nela de novo.

Até hoje.

Faz só duas semanas desde que voltei pra casa, e quando acordei essa manhã, senti uma sensação familiar.

Uma leve coceira.

Acho que o medo que tentei tanto afastar está se tornando realidade.

Um medo de que,

talvez durante a operação…

houvesse uma pequena possibilidade.

A possibilidade de que tenham deixado uma passar.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

Eu Morri Ontem, e Joguei um Jogo com o Diabo pela Minha Alma

Acho que morri ontem. Foi um acidente de carro. Eu estava a duzentos e dezessete quilômetros por hora na rodovia, na chuva, e… bom, não me l...