sexta-feira, 20 de março de 2026

Uma Conversa no Silêncio

Desde que eu consigo me lembrar, sempre tive aversão a ficar sozinho. Pra ser mais preciso, eu odiava pra caralho ser deixado sozinho com os meus próprios pensamentos.

Quando eu era bebê, meus pais contavam que eu chorava mais alto do mundo no segundo em que eles saíam do quarto. Mas quando a gente se mudou pra cidade, eles notaram que eu fiquei bem mais calmo. Mesmo quando me deixavam por conta própria, eu não berrava mais como antes. Eu sempre me perguntei o motivo, até chegar no ensino médio. Foi aí que eu entendi: não era a solidão que me apavorava; era o silêncio que vinha junto com ela.

O incidente rolou no meu último ano. A escola nos deu a chance de ir acampar num terreno remoto e bem conhecido lá no sul. Era uma reuniãozinha antes da formatura. Como era atividade escolar, não dava pra pirar muito.

Quando chegamos, já era meio-dia. Enquanto montávamos as barracas e o equipamento todo, me deram a tarefa mais simples: juntar galhos. Era a primeira vez na vida que eu me via cercado por mata fechada. Até então, tudo que eu conhecia era a cidade, com aquele barulho constante ecoando por todo lado e o fluxo interminável de gente. Por um momento, senti uma coisa que não conseguia explicar: uma empolgação louca de descobrir algo estranho e novo.

Fui avisado pra não passar das cordas que cercavam o acampamento. Os professores disseram que não era necessariamente “perigoso”, só que eu podia me machucar com as raízes grossas e a folhagem densa, ou talvez trombar com algum animal que aparecesse por ali. Eu obedeci as palavras deles, mas a curiosidade me empurrou direto até a beirada.

Eu disparei por entre as árvores. Quanto mais eu avançava, mais fracos ficavam os sons do acampamento. Viraram um sussurro quase inaudível até eu chegar na corda que separava o terreno da floresta selvagem e crescida.

Parecia surreal pra caralho, mas eu tinha um trabalho pra fazer. Comecei a catar galhos quando vi algo pelo canto do olho. Achei que era algum colega que tinha me seguido até o limite. Dei um “e aí” casual e continuei juntando a madeira caída.

Quando ninguém respondeu, um arrepio gelado subiu pela minha espinha. Juntei os galhos e olhei em volta. Um suor frio escorreu pelas minhas costas. Não tinha ninguém. Eu tinha certeza absoluta de que tinha visto alguém, e a pessoa não podia ter sumido sem eu ouvir os passos nas folhas secas.

Então, bem atrás de mim, ouvi um farfalhar suave.

Eu me virei rápido e vi… cinza.

Um vazio sem cor cobria tudo. Minhas pernas viraram gelatina na hora e eu desabei. Tentei gritar, mas nada saiu. Sentia o ar saindo da garganta, mas nenhum som chegava aos meus ouvidos.

Aí caiu a ficha: eu não conseguia ouvir porra nenhuma. Nem o vento nas folhas, nem o barulho das minhas próprias botas quando tentei me levantar. Eu queria ficar maravilhado com aquela impossibilidade toda, e foi nesse momento que eu ouvi.

“Só um pouquinho mais…”

Um sussurro rasgou o vácuo. Eu me virei e vi uma forma humanoide, mas completamente errada, encurvada sobre uma árvore e me encarando. Era do mesmo cinza sem vida que o mundo inteiro ao redor. Ele se levantou e começou a deslizar na minha direção.

Conforme chegava mais perto, os detalhes ficavam nítidos. Tinha uma boca em forma de buraco, sem lábios. Os olhos eram só fendas rasgadas, revelando dois pontinhos brancos finos como agulhas. O corpo era nu e liso como um manequim sem detalhes, e quando levantou as mãos, vi um brilho de lâminas afiadas no lugar dos dedos.

Ele deu um passo e parou. Um som alto e esmagador de folhas ecoou — mas não vinha dos pés dele. Vinha do ar em volta. Eu sentia uma alegria doentia pulsando da coisa.

“Só um pouquinho mais”, repetiu. A voz congelou meu sangue. Era a minha própria voz. Soava exatamente como uma gravação minha tocando num alto-falante quebrado e distorcido.

Ele congelou, parecendo um predador selvagem prestes a dar o bote. Abriu a boca num rugido silencioso, depois sussurrou de novo: “Só um pouquinho mais…”

Ele saltou. Eu nem pensei: corri. Disparei cegamente na direção onde achava que ficava o acampamento. De repente, o barulho abafado de gente conversando começou a voltar. Aos poucos o volume subiu. Pisquei os olhos e as cores do mundo voltaram com tudo, batendo forte.

Eu desabei na frente dos outros, soluçando de alívio. Meus colegas me olharam confusos e preocupados até um professor vir correndo. Eu estava hiperventilando tanto que desmaiei.

Acordei dentro do ônibus. A viagem tinha sido cancelada. Depois fiquei sabendo que, quando os professores foram investigar o lugar onde eu tinha caído, encontraram um pesadelo. Os galhos que eu tinha juntado estavam destruídos em pedaços. O chão e as árvores estavam cheios de marcas profundas e irregulares de garras.

Eles me perguntaram o que eu tinha visto. Tentei contar a verdade, mas eles descartaram como alucinação causada pelo choque. Não diminuíram o perigo, porém. Eles sabiam que alguma coisa tinha estado lá.

Isso foi há cinco anos. Desde então eu nunca mais saí da cidade. Pode me chamar de covarde, mas eu me recuso a voltar.

Estranhamente, eu saí dessa com o que meus amigos chamam de superpoder. Eu consigo chegar de fininho em qualquer pessoa. A verdade é que eu não produzo som nenhum de passo, a menos que esteja usando sapatos pesados ou andando numa superfície barulhenta. Meu jeito natural de andar é perfeitamente, anormalmente silencioso. Por outro lado, sou péssimo com segredos. Não importa o quanto eu tente, não consigo mais sussurrar.

Às vezes me pergunto se deveria voltar pra tentar recuperar o que perdi. Mas aí o quê? Não sei nem se conseguiria tirar aquelas coisas de volta da criatura. Então eu fico aqui, no meio do agito e do burburinho da cidade, onde nunca fica quieto.

A criatura pode ficar com os meus passos e com os meus sussurros. Eu fico com o que sobrou de mim.

O motel mais estranho em que já estive

Eu achei que ia ser um dia comum, mas não foi. Peguei um ônibus de linha pra cidade onde minha família mora, porque o casamento da minha irmã é amanhã. Desde o começo reparei que não tinha muita gente: uns doze passageiros, contando comigo. Tudo estava indo de boa… até o ônibus parar de repente no meio de uma estrada no meio do mato.

O motorista tentou ligar de novo, mas o motor não respondia. Ele desceu, tentou outra vez e ficou repetindo isso sem parar. Um dos passageiros perguntou o que estava acontecendo. “Acabou a gasolina”, ele disse, “mas vou chamar ajuda agora mesmo.”

Esperamos mais ou menos uma hora e os passageiros começaram a ficar putos. Um gritou nervoso: “Quanto tempo a gente vai ficar esperando? Quando é que essa ajuda vai chegar?” Outro completou: “Isso é responsabilidade sua como motorista! Como você deixa a gasolina acabar no meio da viagem, caralho?” A discussão continuou enquanto o motorista tentava acalmar todo mundo e pedia desculpas sem parar.

No fim, ele falou que tinha um motel ali perto. “Vocês podem ir descansar lá até a ajuda chegar”, disse ele, “pode demorar um pouco.” E pediu desculpa de novo.

Todo mundo desceu do ônibus e ele nos levou até o motel. O lugar ficava no meio da floresta. Fiquei surpresa, mas não pensei muito nisso. Eu estava morta de cansaço e só queria dormir.

Entramos no motel e na recepção tinha uma velhinha. Ela nos entregou as chaves dos quartos. Meu quarto era no andar de cima, os dos outros eram embaixo. Entrei no meu, me joguei na cama e apaguei na hora.

Acordei com risada vindo lá de baixo. Desci e vi que todo mundo estava reunido num dos quartos, jogando cartas e rindo pra caralho. Cumprimentei eles e perguntei sobre a ajuda, mas disseram que não sabiam de nada.

Fui até o ônibus. Ele ainda estava lá, mas o motorista tinha sumido. Imaginei que ele tinha ido buscar ajuda de algum jeito, então voltei pro meu quarto. Tentei matar o tempo de qualquer forma: peguei o celular, mas não tinha sinal nenhum. Acabei lendo um livro até pegar no sono de novo.

Acordei na manhã seguinte e percebi que já tinha passado um dia inteiro. Corri até os outros e falei: “Já é o dia seguinte e a ajuda ainda não chegou! Como isso é possível?” Um deles respondeu bem tranquilo: “Relaxa, não vale a pena se estressar tanto.” Aí todo mundo começou a rir. Outro falou: “Sinceramente, eu nem quero sair daqui. Eu gosto pra caralho deste lugar. E vocês, galera?” E riram de novo.

Aquela cara de não tô nem aí me deixou puta da vida. Fui checar o ônibus outra vez. Ele continuava no mesmo lugar, mas o motorista não apareceu. Fiquei lá um tempão esperando ele voltar com ajuda, mas nada aconteceu. Decidi voltar pro motel. Quando entrei, a velhinha me cumprimentou: “Não se preocupe, meu querido. Deixa nas mãos do destino.” Eu forcei um sorriso e fui pro meu quarto.

Antes de entrar, ouvi choro vindo do quarto ao lado. A porta estava entreaberta, então espiei. Tinha uma menininha encolhida na cama, chorando. Cumprimentei ela e perguntei o nome e por que estava chorando. Ela disse que se chamava Amy e que estava dormindo no carro. Quando acordou, os pais tinham sumido. Achou que eles tinham ido buscar alguma coisa e esperou um tempão dentro do carro antes de conseguir chegar até o motel. Agora ela estava apavorada porque não fazia ideia de onde os pais estavam.

Senti pena dela e fiquei do lado dela pra consolar. O sol começou a se pôr e eu percebi que ia passar mais um dia ali. Fiquei pensando na minha irmã… o casamento dela era pra ser hoje. Tentei ligar pra ela e pra minha família, mas não tinha sinal. Só esperava não ter estragado o dia especial dela.

Quando escureceu, voltei pro meu quarto e dormi. Na manhã seguinte acordei com o barulho de sempre dos outros. Como antes, estavam todos reunidos num quarto jogando cartas e rindo. Fui até o ônibus ver se tinha mudado alguma coisa. O que eu não sabia era que o que ia acontecer em seguida seria a experiência mais estranha da minha vida.

Antes mesmo de sair do motel, ouvi uma TV ligando. Era uma televisãozinha pequena, da velhinha.

“O ônibus 471 se envolveu num acidente na Rodovia 40, resultando na morte de vários passageiros, enquanto alguns permanecem em coma.”

A TV apagou. A reportagem tinha mostrado fotos das vítimas… e eu estava entre elas. Fiquei paralisada, sem conseguir entender o que estava acontecendo. “Isso é pegadinha?” Peguei o controle remoto e tentei ligar a TV de novo, mas não funcionou. Joguei o controle longe e corri pro ônibus, histérica. Tentei até ligar o ônibus eu mesma, mas óbvio que não mexeu.

Corri tentando escapar daquele lugar, mas sempre voltava pro mesmo ponto. Resignada, voltei pro motel e ouvi os outros rindo como sempre. Eles pareciam viver num mundo só deles, completamente indiferentes. Eu sentia que eu e a Amy éramos as únicas pessoas sãs ali.

Fui pro meu quarto, sentei na beira da cama e mergulhei em pensamentos profundos. A Amy interrompeu meus pensamentos e perguntou como eu estava. Eu a tranquilizei, sem querer contar coisas que eu mesma ainda não entendia direito. Ela saiu e eu finalmente me entreguei pro sono.

Acordei de novo, mas dessa vez não tinha nenhum barulho dos outros… só silêncio absoluto. Desci e procurei em todos os quartos, mas não tinha ninguém. Pra onde todo mundo tinha ido? Até a velhinha tinha desaparecido. Só a Amy continuava do meu lado, me seguindo desde que saí do quarto.

Fui até o ônibus, achando que talvez a ajuda tivesse chegado e todo mundo estivesse lá. Mas quando cheguei perto, o ônibus estava vazio, ainda no mesmo lugar, completamente deserto.

Fiquei ali esperando com a Amy. O medo e a tensão tomaram conta de cada pedacinho do meu corpo. Mas aí, de longe, do outro lado da estrada, eu vi a velhinha. Ela estava indo em direção à floresta. Eu e a Amy fomos atrás dela e eu gritei: “Para! Para!” Mas ela andava de um jeito estranhamente rápido, mesmo sem correr.

De repente ela parou no lugar e virou pra mim. Sorriu… e então tudo mergulhou num breu total. O motel, as árvores, o ônibus, a estrada… tudo desapareceu.

Quando abri os olhos, minha família estava em volta de mim. Eles estavam chorando, depois se abraçaram entre si e em seguida me abraçaram. Eu ainda não conseguia entender o que tinha acontecido.

Um homem entrou. Pelo uniforme, parecia ser um médico. “Graças a Deus você está salva, senhorita Elizabeth”, ele disse. Eu perguntei onde eu estava e o que tinha acontecido. Ele me contou que eu tinha ficado em coma por três dias depois do acidente. Infelizmente, todos os outros passageiros tinham morrido, exceto eu e o motorista, que só teve ferimentos leves. Depois ele saiu.

Fiquei imóvel. Minha família saiu do quarto pra me deixar descansar, mas eu estava perdida em pensamentos, lembrando das risadas dos passageiros, da velhinha, do motel e da Amy.

Será que tudo aquilo tinha sido só na minha cabeça? Um sonho, talvez? Não podia ser. Tinha parecido tão real… tão real pra caralho. Fiquei me perguntando que lugar era aquele. Se os passageiros tinham morrido no acidente, quem eram aquelas pessoas que eu vi no motel o tempo todo? Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.

Minha estadia no hospital acabou e era hora de voltar pra casa. Na saída, passei por um quarto no corredor. Congelei quando vi o que tinha lá dentro. “Amy?” Era ela, a mesma menininha daquele lugar misterioso.

Ela me viu e ficamos nos encarando por um longo tempo, como se estivéssemos analisando uma à outra. Eu sentia que nós duas sabíamos exatamente o que a outra estava pensando, mas nenhuma de nós tinha respostas pras perguntas que giravam na nossa cabeça.

Ela sorriu pra mim e eu sorri de volta. Depois saí do hospital.

Fim

Um Trem Tarde da Noite

“2:03 da manhã.”

Eu sempre gostei do trem nesse horário. Meus amigos acham que dá um medo danado ficar aqui tão tarde, alguns até se ofereceram pra me dar carona pra casa, mas eu curto pra caralho. Meu celular iluminava meu rosto com um monte de notificações, e no topo de todas tinha uma mensagem do Mark: “Se cuida, cara, não esquece de me responder quando chegar.”

Eu fiquei pensando no que ia responder, ou se ia responder na hora, talvez uma figurinha? Ele já tem minha localização mesmo, talvez nem precise mandar nada. Antes de tudo isso eu me encontrava com ele e o Scott toda quinta, era tipo um acordo silencioso. Bebidas baratas, comida boa e a gente reclamando das mesmas merdas do trabalho até um de nós ser expulso por fazer muito barulho — a gente reclamava pra valer, esquentado pra caralho. Mas depois que eu faltei uma vez, parei de ir. Ninguém perguntou por quê, só mandavam aquelas garantias pequenas tipo “Tô aqui pra você” ou “Você pode falar com a gente quando quiser”. Facilitou pra eu faltar na próxima.

Com a visão meio embaçada, fiquei olhando em volta. O cheiro de bolo e mijo tomava conta da estação inteira — a padaria devia ter passado do horário de fechar hoje. O ar estava carregado com aquele fedor grosso de produto de limpeza barato que cobria as paredes rachadas pelo tempo. Eu me sentia calmo. Em todo lugar que eu ia, esperavam alguma coisa de mim, mas aqui ninguém podia falar nada além de mim mesmo. Aqui eu podia simplesmente estar, afundar nos meus próprios pensamentos e sentimentos. Aqui era pacífico.

Um barulho ecoou pelo túnel. Alguns minutos depois, o ronco profundo de um trem sacudiu a estação toda. Meu corpo acompanhou as vibrações no chão. Eu deixei ele me levar.

Tropeçando pra dentro do vagão, desabei num banco. Uma sensação de afundamento tomou minha barriga e ecoou pelo trem vazio. Olhando em volta, o vagão era todo misturado num cinza monocromático. Um anúncio de água com gás brilhava numa tela, e aquela iluminação triste pra caralho me lembrava de uma sala de cirurgia. Era tudo familiar demais. Na minha frente tinha uma janela. A única coisa que me cumprimentava de volta era meu próprio reflexo.

Eu estava sozinho.

Quando as portas fecharam, me peguei olhando pra fora delas, quase esperando que alguém viesse correndo pro vagão no último segundo, pedindo desculpa por estar tão atrasado. Não sei quando peguei esse hábito, essa mania de ficar esperando. Ultimamente, isso tem sido minha única habilidade real — esperar qualquer coisa acontecer: meu turno acabar, o barulho baixar o suficiente pra eu ouvir alguma coisa por baixo dele. Não sei quando aconteceu. Eu ainda gostava de conversar com o Mark e o Scott, e agradecia quando eles me chamavam, mas acho que apreciava mais na teoria do que na prática.

Eu afundei mais ainda no banco. Alguns lenços de papel caíram no chão. Fiquei olhando pra eles um tempo. Posso pegar depois. Fiquei mexendo nas coisas dos bolsos pra me distrair: um isqueiro que esqueci de jogar fora, mais uns lenços. Comecei a carregar isso sem nem perceber. Apareciam em todo casaco, bolsa, calça, tipo trocado solto. Eu dizia pra mim mesmo que era alergia.

O trem andou. Eu andei com ele. As luzes passavam deslizando. O vidro encostado na minha cara. Eu não pensava em nada. Pensava na próxima estação. Pensava na estação depois. Pensava na caminhada pra casa. Nada de novo. Meu corpo ficou parado. Nada mudava. Nada vai mudar. Vai ficar assim.

“Pra onde você tá indo, filho?”

A voz não veio de lugar nenhum. Não ecoou, não se espalhou. Eu não me mexi na hora. O trem não parou. As portas nunca abriram. Eu não tinha ouvido nenhum passo nem movimento de banco. O lugar ao meu lado ainda estava vazio. Tinha que estar.

Eu virei. Alguém estava sentado do meu lado. Quando caralho ele apareceu? Ele estava completamente coberto, quase nada visível: casaco longo, luvas e um chapéu. A luz parecia deslizar direto por ele, como se o rosto dele nem tivesse terminado de ser feito.

“Então, pra onde você tá indo?”

Eu engoli seco. Minha garganta precisou lembrar como funcionava. Eu desviei o olhar dele. Conseguia sentir o banco embaixo de mim, a vibração dos trilhos. Minha boca abriu pra falar, mas o queixo travou no lugar, os músculos se recusando a cooperar. Eu só fiquei em silêncio, olhando pra frente.

Ele esperou. Não piscou. Não se mexeu. Mantinha o olhar cravado em mim enquanto os trilhos sacudiam lá embaixo. Ele falou de novo, num tom quase entediado.

“Você tá indo pro seu apartamento na Seventh Avenue. Vai entrar pela porta da frente e soltar uma saudação brega como se tivesse alguém morando lá, e vai desmaiar no sofá.”

Alguma coisa apertou no meu peito. Não era medo, era pressão. Tipo uma mão me fechando.

“Como você sa—”

“Não é, Isaiah?”

Eu me levantei rápido demais. Meu corpo nem checou comigo se minha cabeça tava de boa com isso antes.

“Ok, quem caralho é você!” Minha voz saiu mais alta do que eu esperava. “Você tá me perseguindo? Me fala agora ou eu chamo a polícia!” As palavras tropeçavam umas nas outras. Eu me preparei pra alguma coisa. Uma gota de suor escorreu pelo meu pescoço.

“Senta.” O tom dele era calmo, mas dava pra sentir o amargor por trás. “Você não vai me bater”, ele olhou pro banco vazio do outro lado, “você não é do tipo que dá o primeiro soco. E não vai chamar a polícia, porque aí ia ter que admitir de onde tá vindo.” Ele parou e ficou me encarando. “Você tá tremendo.”

Eu olhei pra baixo e vi minha mão apontada pra ele. O tremor subia até os ombros. Isso é normal, eu disse pra mim mesmo. Eu não tô agindo estranho aqui, esse estranho é que tá me encurralando!

Eu olhei de novo pra ele. Alguma coisa nele não parava quieta. Além dos olhos frios, o resto parecia amolecer e mudar, tipo óleo tentando escorregar na água. As bordas em volta dele borravam. Eu não conseguia distinguir o contorno. Todo ele parecia o contorno.

Eu apertei os olhos. Talvez seja só a escuridão. É tarde. Eu tinha bebido antes. Não… eu tô sóbrio. Faz tempo que tô sóbrio.

“Não tô tentando te ameaçar”, ele disse de um jeito bem ameaçador. “Me fala, se você fosse chamar a polícia, o que você ia dizer pra eles?”

Eu abri a boca. Nada saiu. Um cara sombra que apareceu do nada na minha frente e sabe meu nome?

“Não sei”, eu finalmente resmunguei.

“Exatamente. E é por isso que você vai sentar de novo.”

Eu sentei. Que porra eu tô fazendo? Ele sorriu pra mim. O sorriso era frio. Sem compaixão. Sem maldade. Era uma tentativa falsa de me acalmar. Dava pra perceber.

“Novo assunto. De onde você tá vindo?” Ele continuava imóvel, o olhar atravessando direto por mim enquanto esperava quietinho a resposta. “Não me deixa esperando pra sempre.”

Meus olhos fugiram dele. Minha cabeça acompanhou. “Você já não sabe? Do bar.”

Ele se levantou. Eu nem vi ele se mexer — o corpo só mudou de um lugar pro outro. “Não, não é isso”, o tom dele ficou mais impaciente comigo. Foi aí que eu percebi: partes dele derretiam e se reformavam. “Você e eu sabemos que não é disso que se trata.” Ele começou a mudar.

Quase por instinto primitivo eu caí pra trás no chão tentando fugir — as luvas e o casaco dele pareciam derreter dentro de si mesmos. Eu quase conseguia sentir o estalo de ossos quebrando e se reconstruindo enquanto ele crescia bem na minha frente. O vagão gemeu sob o peso dele. O chão embaixo dele se curvou pra dentro em protesto, mas não quebrou. Devia ter quebrado. O metal se enrolou e se encaixou na nova forma dele, como se o próprio trem tivesse permitido aquilo acontecer.

Eu me arrastei pra trás, as palmas das mãos escorregando no chão molhado. Fui atingido pelo cheiro de formol e ferrugem, podridão e alguma coisa doce por baixo, tipo flores deixadas tempo demais na água. As luzes de cima piscaram, apagaram um pouco, estabilizaram, desenhando a forma dele em pedaços.

Ele era outra coisa completamente. Ângulos demais empilhados onde devia ter só um. Os braços dobravam pra trás, um deles bem maior e mais cheio que o outro. Articulações giravam onde nunca tinha existido articulação. Ele estava rastejando de quatro, não, de cinco, não — os membros torciam e se costuravam de volta, como se não tivessem decidido quantos deviam ter. Não parecia uma transformação sem dor pra ele.

Eu conseguia ouvir cada vértebra estalar e voltar pro lugar enquanto o rosto dele pairava na minha direção e acima de mim, sustentando um ângulo que traía a anatomia dele. Tudo mudava, menos os olhos. Esses permaneciam os mesmos. Sempre familiares.

“Fica longe de mim”, minha voz saiu pequena, só chegou uns metros na frente. “Some da porra da minha frente!”

Ele não reagiu. Nenhum sobressalto. Nem um inclinar do que eu achava que era a cabeça dele. Nada. O trem continuava andando. Alguma coisa tava errada. Eu não sabia o que ia acontecer, nem o que ele ia fazer comigo — quando a força de vontade saiu da minha alma, eu decidi simplesmente aceitar qualquer coisa que viesse.

Ele baixou o corpo. O pescoço se alongou de um jeito nojento enquanto ele encontrava meu olhar. Pela primeira vez os olhos dele pareceram outra coisa. Estavam cansados.

“Você fugiu dela. Do velório dela.”

Fisicamente as palavras saíram quase sem sentido, mas eu entendia tudo com clareza. A voz dele vinha de todo lugar — das paredes, de dentro da minha cabeça, dos trilhos em movimento — em sotaques que não eram desse mundo, em línguas que ainda não foram inventadas. O trem continuava andando. As palavras dele não ecoavam. Elas só ficavam ali entre nós, obsoletas.

Palavras não saíam da minha boca. Elas se recusavam a serem ditas. Eu via o pescoço deformado dele inclinando, esperando alguma coisa, qualquer coisa de mim. A única coisa que consegui soltar foram uns pedaços de palavra — eu tava confuso, com medo e só esperando minha estação chegar pra eu dar o fora daqui.

“Você não precisa se preocupar com isso”, ele arrastou as palavras enquanto olhava pras janelas. “Vai demorar um tempo até sua parada.”

O trem finalmente saiu do túnel. Lá fora não tinha estação me esperando, nem cidade, nem a noite escura. Lá fora tinha o infinito — sem horizonte pra olhar, nem céu. Nada além de um trilho impossível correndo por um espaço branco sem textura, infinito, sem destino à vista. Um entorpecimento se espalhou pelo meu corpo — começando nos dedos, subindo pras pernas e chegando atrás dos meus olhos. Eu devia sair daqui, mas meu corpo não obedecia. Eu olhei pro ser. O foco dele voltou pra mim, ainda esperando uma resposta. Finalmente comecei a falar.

“Ela não ia querer isso”, minha voz quase sumia no ronco lá embaixo. “Ela não ia querer que a última memória dela fosse um cadáver podre.” As palavras ecoaram entre nós. Eu me senti mal. Ele ficou em silêncio, ainda esperando. “Ela me disse uma vez, anos atrás, se ela morresse — não queria gente em volta do corpo sem vida dela, fingindo que sabia o que ele tava pensando.” Eu falei com mais confiança, o som ecoando mais alto que antes.

“Então é, eu não fiquei”, terminei. “Foi uma forma de respeitar ela.” Minha voz começou a ficar plana. Ele só me olhava. Sem resposta.

Os olhos dele continuavam focados em mim — não mais cansados, mas substituídos por outra coisa. Raiva? O silêncio ficou desconfortavelmente óbvio, grosso e sufocante. O vagão parecia menor, como se o trem agora estivesse escutando a gente. Eu engoli seco. O silêncio ficou alto demais. “Eu saí, entrei no carro, esperei acabar e fui embora. Ela ia querer…” Minha voz foi sumindo. Eu desviei o olhar dele.

“Você esperou.” Ele enfatizou, as palavras deslizando pelo chão, pelas paredes, embaixo dos bancos. “Suas falas estão bem ensaiadas.”

Ele começou a ter espasmos. Os movimentos ficaram aleatórios. Tendões pulavam debaixo da pele. Ligamentos se mexiam sozinhos, sem permissão da física. A forma dele tremia quadro a quadro, apertando. Afrouxando. Apertando de novo, tipo animação quadro a quadro travada.

Uma dor aguda veio correndo da minha barriga. Olhando pra baixo, vi uma das mãos dele atravessando meu corpo. Eu tava sangrando pra caralho. As luzes apagaram. O vagão apertou de todos os lados. Meu peito queimava. Mãos no rosto. Eu gritei. Não de dor, mas de outra coisa. Tudo veio de uma vez: ouvi uma voz chamando de um corredor longo — máquinas fazendo promessas que nunca cumpriam — cheiro de amônia e flores — um quarto preservado de um tempo melhor — e o peso da terra batendo num caixão. Minhas mãos saíram do rosto molhadas. Com a visão embaçada eu olhei pra cima pra ele de novo. O corpo dele parecia mais normal que antes. Quase humano.

“Você evita o quarto”, as palavras dele tropeçavam nele mesmo. “Você dorme no sofá. A cama ainda guarda um cheiro que você não aguenta.”

Minha respiração ficou pesada.

“Você não abriu a última gaveta da cozinha”, ele continuou. “Você se recusa a falar o nome dela, mesmo quando tá sozinho.”

O chão embaixo de mim parecia tão longe. Só consegui sussurrar: “Para.”

“Você deixa a correspondência dela se acumular, mas não serve mais pra nada. Ela se foi.” Os trilhos diminuíram a velocidade. O ronco ficou suave, depois desapareceu completamente. Ele virou pra janela. “Essa é sua parada.”

Eu ouvi as portas começando a abrir. A gente não tava mais no vazio. O corredor na minha frente se transformou num estacionamento de igreja. Luzes fluorescentes iluminavam o prédio. Tinha cadeiras dobráveis, casacos escuros. No canto do meu olho tinha um caixão. Era um velório. O velório dela.

“Não, eu não consigo”, meus olhos queimavam. “Eu não consigo descer aqui.” Ele virou pra mim de novo.

Pela primeira vez a forma dele se estabilizou. Humana. “Você precisa aceitar”, a voz dele estava suave. As portas abriram mais. A mão dele gesticulou pro lado de fora.

Eu engoli seco. Tentei me levantar. Meu corpo não obedeceu. Ficou parado. Em desespero eu perguntei: “O que acontece se eu não descer aqui?”

Os olhos dele travaram em mim, cansados, depois desviaram. “Aí você continua andando. Desmaia no sofá. Amanhã você volta pra cá, e a gente tem essa conversa de novo. E de novo. Até esse trem ir pra algum lugar que você não consegue descer.” As palavras dele soaram derrotadas.

Eu olhei lá fora. Olhei pra trás. Virei pro banco vazio. Senti cheiro de podridão. Senti cheiro de flores. Pensei no apartamento. Pensei nela. Virei pro caixão. Tentei me levantar. Meu corpo, no entanto, continuou parado, lutando contra o pouco de força de vontade que ainda me restava.

Eu fiquei sentado, imóvel, enquanto o ronco dos trilhos em movimento voltava a ser ouvido lá embaixo. Quando as portas fecharam, meu corpo se moveu junto com o trem. Ele era bom nisso.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Eles Respiram à Noite

Quando eu era criança, eu passava muito tempo na casa dos meus avós.

Era tão segura, tão quentinha e, sinceramente, não tinha lugar no mundo onde eu preferisse estar. Eles me davam leite à noite, eu podia dormir na cama grande.

Mas conforme fui crescendo, passei a dormir no meu próprio quarto, e aquele quarto… Ele ainda me assombra até hoje.

Uma cama de solteiro no canto do quarto, encostada bem juntinho em armários que iam do chão até o teto e que te obrigavam a arrastar a cama se quisesse abrir algum. O armário do pé da cama era onde eu guardava minhas coisas boas: lanches, salgadinhos e meus brinquedos favoritos. A janela ficava bem na cabeceira da cama, com um espacinho certinho pra encaixar.

Mas tinha uma coisa em um daqueles armários, o terceiro a partir do final, bem onde minha cabeça ficava quando eu dormia. Eu nunca contei pra ninguém. Achava que estava errado pelo que eu sentia à noite.

De dia era liberdade total e hora de brincar. Eu podia passar o dia inteiro vendo TV ou andando no meu triciclo. Minha avó cozinhava as melhores refeições do mundo e, no meu tempo livre, eu montava meus kits Airfix. Meu avô passava a maior parte do ano fora do país trabalhando. Doía nele deixar a gente tanto tempo assim, mas o comércio naval de petróleo pagava as contas.

Ele sempre trazia todo tipo de lembrança de uma quantidade enorme de países. Areia numa garrafinha da Arábia Saudita, tartarugas de cristal, uma vez até trouxe óleo cru de um vazamento no México. Mas a coisa que ele nunca deixava de trazer eram estátuas de madeira de todos os tipos. Tínhamos bustos esculpidos, manchados de anos tomando sol. Havia estátuas de corpos sem braços nem pernas, sem cabeça, só os corpos, sem nenhuma maneira de se mexerem.

Como era o quarto de hóspedes, eles insistiam em guardar aquelas estátuas ali. Os poucos bustos que ficavam na minha prateleira de cima eu virava de costas antes de dormir. Não conseguia tirar da cabeça a sensação de que eles estavam me olhando. Assim, minha escuridão ficava segura.


Eu ia pra cama como sempre naquela noite, com um copo d’água e leite quente que subiam comigo, rotina padrão. Me deitei pra ler e os barulhos começaram. Um gemido grave e baixo, com clique, claque, clique. Quase como o sobe e desce de uma respiração. Apaguei a luz. Eu já estava acostumado com aqueles sons. Se eu apagar a luz, eles não me pegam, não tem como me verem no escuro. Isso significava que a escuridão tinha que ser minha amiga.

O sono me pegava mais rápido do que eu queria todas as vezes. Eu acordava encharcado de suor e paralisado, preso olhando fixo pro meu baú de brinquedos no canto mais distante. Toda. Maldita. Vez. Os barulhos continuavam e o leve brilho no canto, perto do pé da cama, dava a luz que eles precisavam pra se fortalecer. Ficavam cada vez mais altos, o baú de brinquedos parecia cada vez mais longe, mas eu continuava imóvel. Quente, fervendo até os ossos, mas sem conseguir nem levantar a cabeça.

Os rangidos e cliques ficavam mais altos, aquela respiração ralhada de morte me mantinha acordado. Eles estavam ali e eu conseguia senti-los atrás de mim. Estavam dentro dos armários, eu sabia, mas não conseguia olhar. Eles não me deixavam virar, não me deixavam nem fechar os olhos.

O brilho no canto ficava cada vez mais forte, pareciam passar horas com meus olhos grudados abertos. Injetados de sangue, vermelhos e rosados naquela luz escaldante. Eles me forçavam a olhar, mas não me mostravam suas formas verdadeiras. Então eu ficava ali, petrificado com a presença deles, até o cansaço tomar meu corpo à força e me jogar de novo na escuridão.

Às vezes, por algumas noites seguidas, ficava tranquilo. Eu acordava de manhã sem nenhuma memória, com a esperança de que nada tivesse acontecido à noite. Nunca tinha certeza, mas havia sinais.

Eu entrava no quarto durante o dia pra pegar algum lanche secreto. Parecia bobagem ter medo do armário de dia, nenhum barulho, ele estava sempre um pouquinho entreaberto — provavelmente roupa de cama, eu pensava. Mas as estátuas… elas nunca estavam *exatamente* do jeito que eu tinha deixado.

Uma noite, meus olhos abriram de repente. Eu mal conseguia respirar com o calor que estava no quarto. Meu edredom me prendia sem espaço pro ar, eu estava sufocando devagar. Meu suor infiltrava no colchão.

Todo pensamento sobre isso sumiu quando eu notei. Nessa noite eu estava de barriga pra cima, minha visão periférica estava turva, mas eu tinha visão em túnel… Eu conseguia ver a prateleira naquela noite, e o busto que eu tinha virado de costas poucas horas antes tinha tombado de lado e… Ela? Estava me olhando com olhos fundos e vazios, poços negros sem saída. Eles me puxavam pra dentro, mas meu corpo continuava como um cadáver, encharcado até os ossos.

Na lateral da minha visão, um movimento leve. Aquilo, os cliques, a respiração… era demais. Tentei gritar, tentei com todas as forças, mas o grito travou na garganta. Engasguei, entrei em espiral, tossindo e engasgando. A estátua caiu da prateleira e eu caí junto, desabando no chão numa pilha imóvel e quebrada. Soluçando, a escuridão finalmente me consumiu. Não tinha mais luz pra me acordar pros terrores daquele quarto.

Eles me encontraram ali de manhã, imóvel, mas respirando. Eu não conseguia explicar o que tinha acontecido comigo, mas eles me abraçaram forte.

Anos depois, eu perguntei pro meu avô sobre os barulhos. Lembrei de repente numa noite, durante o jantar em família. Ele riu e me contou que a caldeira antiga fazia todo tipo de som: batidas e gemidos enquanto os canos se expandiam. De repente tudo fez sentido. Eu me senti ridículo por ter medo de uma coisa tão boba. Ele continuou dizendo que a caldeira tinha sido removida em 1978. Eu ri e falei que não podia ser, eu nasci no começo dos anos 2000.

Ele sorriu e deu de ombros, devia estar me confundindo com o meu pai.
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