domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Paralisia do Sono

Então, eu não tenho certeza absoluta se foi realmente o que aconteceu ou se eu só imaginei tudo no estado em que eu estava naquela época, mas eu só queria compartilhar essa história da minha infância enquanto ainda tento entender isso sozinho e não consigo decidir se acredito que foi algo sobrenatural ou não.

Minha infância foi difícil, pra dizer o mínimo. Eu nunca cheguei a conhecer minha mãe porque ela morreu no parto, e por isso fui criado pelo meu pai, que aparentemente achava que a morte dela tinha sido culpa minha e fazia questão de que eu nunca esquecesse disso.

Ele não me batia propriamente dito, mas era extremamente negligente e abusivo psicologicamente. Em algum momento, quando eu ainda era bem pequeno, ele começou a beber, e eu não tenho nenhuma memória dele que não seja a de um cara gritando ou chorando feito um trapo. Hoje, depois de todos esses anos, eu até sinto um pouco de pena dele, mas na época eu odiava as tripas dele.

Se vocês estão se perguntando como isso pôde durar tanto tempo sem intervenção da assistência social ou do conselho tutelar, é só lembrar que foi há uns 20 anos numa aldeia do Leste Europeu, e isso não era nada incomum na época.

Enfim, o vício do meu pai acabou matando ele quando eu tinha 12 anos. Era inverno e ele ficou tão bêbado que desmaiou numa vala e morreu congelado.

Minha avó, mãe dele, que morava não muito longe, me acolheu. E pra qualquer um de vocês que quiser falar mal dela porque ela deixou meu pai me abusar todos aqueles anos — nem tentem. A mulher era um anjo e a única pessoa boa na minha infância inteira. As coisas simplesmente eram assim naquela época e as pessoas não sabiam fazer diferente.

Ela era uma alma bondosa e se esforçava pra caramba pra compensar todos aqueles anos de negligência que eu vivi.

Cerca de seis meses depois de eu me mudar pra casa dela, os pesadelos começaram. Eu sonhava que estava preso num lugar frio pra caralho, congelante. Não conseguia ver nada, não conseguia ouvir nada. Só sentia aquele frio que gelava até os ossos. Era tão vívido que, mesmo depois de acordar, eu continuava tremendo e batendo os dentes, mesmo no meio do verão.

Os pesadelos eram tão ruins e aconteciam com tanta frequência que minha avó finalmente decidiu me levar num psicólogo — o que era uma decisão bem incomum naqueles tempos, porque uma coisa dessas podia te marcar como louco pro resto da vida. Mas eu não conseguia dormir, não queria comer nada, então ela realmente não tinha outra escolha.

O diagnóstico do médico foi bem óbvio: um trauma resultante de um longo período de abuso psicológico, e as circunstâncias da morte do meu pai fizeram meu subconsciente me punir na forma de sonhos. Por que punir?, vocês podem perguntar. Bom, porque eu senti alívio depois da morte dele. Não tinha dúvida nenhuma sobre isso. Além do mais, eu tinha só 12 anos — por que eu questionaria as palavras dele?

Ele disse pra minha avó me levar regularmente pras sessões de terapia pra trabalhar o trauma, e foi o que ela fez. Durante as sessões, além das coisas normais, ele me falou que eu precisava aprender a reconhecer um sonho pelo que ele era: só um sonho. Assim, uma vez que eu fizesse esse reconhecimento, eu deveria conseguir tomar controle do sonho e ou mudar ele pra algo agradável ou simplesmente acordar.

Eu queria que ele nunca tivesse me dito isso.

Não vou fingir que sei se foi realmente isso que piorou as coisas, porque não faço a menor ideia. Só sei que, assim que comecei a colocar a teoria em prática, as coisas escalaram.

Eu aprendi a reconhecer que era sonho bem rápido. A segunda parte, porém, estava totalmente além das minhas capacidades. Eu não conseguia mudar porra nenhuma. Não conseguia me forçar a acordar. E assim eu ficava preso nessa escuridão, congelando, sabendo que estava sonhando, mas completamente incapaz de fazer qualquer coisa a respeito. E o fato de saber que era “só um sonho” de alguma forma tornava tudo ainda pior. Eu me sentia preso, impotente e morrendo de medo. E o pior é que eu não conseguia voltar pros ajustes originais, então agora cada pesadelo era muito, muito pior.

E se tivesse parado por aí… Aos poucos, os pesadelos viraram episódios de paralisia do sono. Eu não estava mais numa escuridão fria e vazia. De vez em quando eu “acordava”, ou sentia como se tivesse acordado — e aí a linha entre sonho e realidade começou a ficar cada vez mais difícil de distinguir — e eu estava no meu quarto, na minha cama, completamente paralisado. Eu ficava encarando o teto pelo que parecia horas, incapaz de mexer um único músculo. E o frio? O frio continuava lá. Aquele calafrio no ar que parecia tão pesado, tão palpável, que quase me sufocava.

E nem era o fim. Foi piorando aos poucos.

Cada episódio era pior que o anterior. Pareciam durar mais tempo. Às vezes meus pulmões simplesmente se recusavam a respirar e eu ficava lá em pânico puro, sentindo a dor dos músculos se contorcendo pela falta de oxigênio, sem ter controle nenhum sobre meu corpo. Eu sei que não podia durar pra sempre, mas parecia uma eternidade. (Aliás, tô colocando isso aqui só pra manter minha própria sanidade — escrever isso tá me fazendo reviver esses momentos e eu preciso de uma distração agora.) É por isso que eu nunca consegui terminar de assistir Deadpool. Sabe aquela cena em que colocam ele no aparelho e regulam o oxigênio pra ele sufocar? Era exatamente assim que eu me sentia. Não ganhei superpoder nenhum, infelizmente.

Enfim, voltando pra essa merda pesada.

Em algum momento eu comecei a sentir uma presença no quarto durante os episódios. Vocês conhecem aquela sensação de estar sendo observado? Você não consegue apontar quem nem de onde, mas simplesmente sabe que tem alguém te vigiando?

Eu sentia isso. Tinha alguém, ou alguma coisa, no quarto comigo em cada episódio. A presença — e não consigo explicar como eu sabia — era maligna. A aura de maldade era quase palpável, e eu juro que sentia ela queimando minha pele com o ódio que tinha por mim, e isso era ainda pior que o frio.

Tentei falar sobre isso com o psicólogo, mas ele não tinha respostas prontas além de “encontrar a origem dos problemas e trabalhar neles”, e isso, obviamente, levava tempo.

E eu não tinha tempo. Todo dia parecia cinza pra mim. Eu passava dias inteiros só deitado na cama sem fazer nada. Via minha avó chorando quando ela achava que eu não estava olhando, e saber que era por minha causa me destruía ainda mais. Ela era a única coisa que me segurava e me impedia de acabar com meu sofrimento ali mesmo. Eu teria feito isso sem pestanejar se não fosse por ela.

Os episódios estavam ficando mais frequentes e mais aterrorizantes. Em algum ponto eu comecei a ver uma silhueta escura aos pés da minha cama. Só conseguia ver pela visão periférica, porque meus olhos estavam sempre grudados no teto, então não dava pra identificar direito. Só sabia que não era minha avó.

Aí a coisa… e vou continuar chamando de “coisa” pra manter a consistência (além do mais, silhueta é uma palavra complicada pra caralho) começou a se aproximar cada vez mais…

Uma noite eu fui “acordado” — bem, não exatamente acordado, porque ainda não conseguia me mexer — por um peso enorme pressionando meu peito. A coisa, fosse lá o que fosse, estava sentada em cima de mim. Eu ainda não conseguia ver direito, mas na minha cabeça eu estava gritando e chorando desesperado. Sentia como se minha mente estivesse prestes a se despedaçar. Não sei como não enlouqueci completamente naquela época… foi a pior experiência da minha vida inteira.

A coisa esticou o braço e agarrou meu pescoço. Os dedos eram ásperos e extremamente frios. E então eu senti o cheiro…

Uma coisa que eu não tinha contado sobre meu pai. Ele era alcoólatra, sim. Mas era bem específico na escolha da bebida. Só bebia um tipo de schnapps de hortelã-pimenta que tinha um cheiro bem característico… E era exatamente esse cheiro que eu sentia na coisa que estava me sufocando.

Depois do que pareceu horas, recuperei um pouco do controle e comecei a gritar com toda a força dos meus pulmões. Como sempre, a coisa desapareceu na hora. Eu ainda sentia o frio, mas conseguia me mexer de novo e, mais importante, conseguia respirar.

Minha avó entrou correndo, me abraçou forte e tentou me consolar. Passamos o resto da noite rezando e eu finalmente consegui dormir lá pelo amanhecer.

Teve muitos episódios e muitas coisas que eu poderia contar, mas eu realmente não quero voltar pra isso tudo agora. Só queria dar uma ideia geral do que eu passei. A história já está longa o suficiente.

Então minha vida era um pesadelo. Eu não era feliz e, mesmo assim, Deus, ou seja lá que força rege esse universo, ainda não tinha terminado comigo.

Minha avó ficou doente. Diagnosticaram câncer em estágio IV e ela morreu oito meses depois. Eu fiquei completamente sozinho.

O serviço social me levou pra uma instituição temporária. Nesse ponto, sozinho e ainda sofrendo com a paralisia, eu teria me matado se tivesse chance, mas eles sabiam disso e me monitoravam muito de perto.

Alguns meses depois, meu psicólogo disse que queria me transferir pra uma família acolhedora. Era uma fazenda enorme e a família que morava lá era muito gentil e já cuidava de outros três órfãos. Ele achou que ter trabalho pra fazer (ajudando na fazenda) poderia me ajudar e arranjou a transferência.

Bom, não foi a melhor ideia que ele teve. Na primeira oportunidade que tive, eu arrombei a gaveta de remédios e engoli o máximo de comprimidos que consegui. Fui pro meu quarto e fiquei esperando morrer.

Eu voltei a mim no meio de outro episódio de paralisia do sono. A coisa estava me sufocando, o cheiro de hortelã forte no pouco ar que eu conseguia puxar. Dessa vez, porém, eu recebi de braços abertos. Me sentia em paz… sentia a vida escapando de mim… e então uma brisa quente repentina entrou pela janela. Senti outra presença. Essa era totalmente oposta à coisa que me sufocava. Não conseguia olhar pra ela, mas sentia ela parada do meu lado. E então eu ouvi ela falar:

“Olek, sai de perto do meu menino!”. Juro por Deus que era a voz da minha avó. E Olek era o nome do meu pai…

A pressão no meu pescoço diminuiu e então veio um grito agudo. Nenhum ser humano conseguiria emitir um som tão estridente. Mas depois disso, o peso no meu peito simplesmente sumiu. E o frio desapareceu. Senti uma mão passando de leve no meu cabelo. “Agora está tudo bem.”

Eu estava prestes a responder, mas de repente tinha alguma coisa se forçando pra dentro da minha boca. Eu vomitei. E vomitei de novo. E de novo.

Quando abri os olhos, tinha gente ao meu redor. Eu estava deitado no chão e um paramédico estava iluminando meus olhos com uma lanterna.

Eles me levaram pro hospital, onde passei alguns dias me recuperando.

E desde aquele dia eu nunca mais tive um episódio de paralisia do sono.

Agora que tenho mais de 30 anos, não sei o que pensar sobre tudo isso. Na época parecia tão real. Eu gosto de me ver como uma pessoa racional.

Eu até criei uma teoria que explicaria por que os episódios pararam.

Talvez quando eu desmaiei e meu coração parou (eu sei que parou, os médicos me disseram), uma parte do meu cérebro responsável pelos episódios não recebeu oxigênio suficiente e simplesmente morreu. É uma teoria forçada e eu teria sido muito sortudo se tivesse sido isso, mas pelo menos é lógico, né? A outra explicação? O espírito da minha avó me salvou do fantasma do meu pai.

Não entre no trem cancelado

Quando a empresa mudou o escritório de lugar, eu fui um dos poucos que reclamou pra caralho. Eu tinha me mudado pra cá exatamente por causa desse emprego, e o novo endereço ia me obrigar a pegar uma hora de deslocamento todo santo dia. Infelizmente pra mim, a maioria venceu: o lugar novo tinha conexões melhores de transporte público, então era vantajoso pra quase todo mundo.

Eu nunca tinha usado transporte público direito até então. Meu apartamento anterior ficava tão perto do trabalho que eu simplesmente ia andando todo dia. Por isso, na primeira vez que fui fazer o trajeto, uma semana atrás, nem me dei ao trabalho de checar se tinha alguma atualização sobre o trânsito do dia. Já cheguei na estação e vi o cartaz: “Cancelado hoje por causa de greve”.

Dei uma risada sozinho enquanto pegava o celular pra chamar um Uber. Ainda tinha muita coisa pra aprender, pelo visto. Aí ouvi um trem chegando. Eu sabia que, mesmo com trens cancelados, eles às vezes ainda rodam por outros motivos — tipo treinar funcionários novos ou só reposicionar o trem em outra estação. Por isso fiquei confuso quando ele parou bem na minha frente e eu vi gente lá dentro.

Olhei pra trás pra confirmar: o painel digital ainda mostrava a mensagem de cancelamento. Mas no trem, o letreiro dizia claramente: “Linha 4, Green Street”. Era exatamente a minha conexão. As portas abriram, as pessoas desceram, eu peguei minha mochila e entrei na hora. Procurei um banco vazio, achei um e sentei. Começou o trajeto de uma hora.

O trem estava lotado, óbvio. 6:30 da manhã numa das linhas mais movimentadas do metrô de uma metrópole grande. Não me surpreendi quando ficou tão cheio que eu não conseguiria nem me levantar sem pedir pra galera abrir espaço. O que me surpreendeu mesmo foi que, depois das primeiras duas ou três estações, ninguém mais entrou.

O trem já estava lotadão, claro. Entrar quando não tem mais espaço era literalmente impossível. Mas as estações onde a gente parava agora estavam vazias também. Ninguém esperando esse trem. E, além disso, fazia um tempo que ninguém descia também.

Quando vi cinco estações seguidas sem ninguém entrando nem saindo, comecei a ficar preocupado. Estava começando a sentir claustrofobia. Olhei no celular pra ver a hora, torcendo pra chegar logo. Faltavam 45 minutos. Abri o app de rideshare de novo pra ver quanto custaria do próximo ponto até o trabalho. 25 dólares? Foda-se, eu pago. E a partir de amanhã, home office direto, a menos que tenha algo muito importante no escritório. Decidi ouvir meu instinto e descer na próxima estação. Alguma coisa nessa situação estava me deixando extremamente desconfortável.

Foi aí que começou de verdade.

Percebi que o trem não parava fazia uns bons cinco ou seis minutos. Não era só passar pelas estações sem parar — é que simplesmente não tinha mais estação nenhuma. Só via túnel escuro e empoeirado pela janela. Resolvi dar mais um tempinho antes de surtar de vez, mas depois de uns 10 minutos sem nenhuma mudança na paisagem, eu tive que levantar. Tinha que sair daquele trem.

“Com licença?”, falei pro cara na minha frente. “Quero levantar, a próxima é a minha.” Nada. Ele estava olhando pro lado direito, como se nem tivesse me ouvido.

“Com licença, preciso levantar”, tentei de novo. Dessa vez puxei a manga da jaqueta dele pra garantir que notasse. Zero reação. Olhei em volta e percebi que fazia um tempo que não ouvia ninguém fazer barulho nenhum. Voltei a olhar pro cara, que continuava me ignorando.

Não aguentei mais. Sempre fui péssimo com espaços apertados. Sou do tipo que fecha o vídeo de mergulho em caverna na hora, senão surto. Agora eu estava surtando pra valer.

Levantei, meu corpo espremendo contra as pessoas na frente, mas tive que forçar a barra. Se eles não iam reagir, melhor pra mim. Ia me virar no meio da multidão até a porta e puxar o freio de emergência.

Virei pro lado direito, com o rosto esmagado contra os outros ao redor. Quando tentei dar o primeiro passo, senti algo nas minhas costas. Não era gente apertando — eram mãos. Quatro ou cinco. Todas diferentes. Mãos que me agarraram com uma força do caralho por trás. Duas puxaram meu braço esquerdo. Uma pegou meu pescoço, e as outras agarraram minha jaqueta, tentando me puxar de volta.

Gritei e lutei contra a multidão pra me virar o mais rápido possível. As mãos sumiram. Ninguém mais me segurava. Todo mundo olhando pra outro lado. Eu respirava rápido, empurrando as pessoas pra longe enquanto gritava no meio da multidão: “Que porra vocês querem de mim?”. Nada.

Estava prestes a me virar de novo quando senti as mãos de novo. Dessa vez vindo da direção exatamente oposta. Entrei em pânico. Queria tirar elas de mim. Me joguei contra elas, me debatendo e gritando pra afastar. Acabei caindo de volta no banco. Olhei pra cima: todo mundo ainda no mesmo lugar na minha frente. Olhando pro lado, igual antes.

Contra todos os meus instintos, fechei os olhos. Precisava me acalmar. Respirei fundo e fiquei ali uns minutos. Primeiro as coisas importantes: tinha que chegar no freio de emergência. Os outros passageiros pareciam me agarrar toda vez que eu virava as costas pra eles. Isso me deu uma ideia, mesmo odiando pensar nisso.

Deslizei da cadeira até sentar no chão e empurrei os outros o máximo que consegui. Consegui abrir espaço suficiente pra deitar. Protegi a cabeça com as mãos e estiquei as pernas pra me empurrar devagarinho em direção à porta do trem. Não tirava os olhos deles nem por um segundo — ficava encarando como se minha vida dependesse disso. Por sorte, a ideia funcionou. Ninguém mais tentava me agarrar.

Continuei assim até chegar na porta. Sentei, depois levantei devagar, sempre mantendo as costas viradas pros passageiros. Agora via o freio de emergência. Uns metro à esquerda.

Estiquei o braço, mas não alcançava. Virei o tronco pra me inclinar mais, quando senti as mãos de novo. Mas já era tarde demais pra eles. Consegui engancharem meu dedo indicador no freio e, com toda a força do mundo, jogando meu corpo inteiro contra as mãos que me seguravam, puxei.

O túnel não era a única coisa que parecia infinita. O trem freou violentamente, com um barulho ensurdecedor, e praticamente todo mundo voou pra trás com a força brusca. Consegui me segurar na maçaneta da porta. A sensação e o chiado nos ouvidos não paravam. Continuava como se a distância de frenagem fosse infinita, empurrando todo mundo sem parar. Pelo menos isso tirou as mãos de mim. Elas ainda tentavam me pegar, mas eram arrastadas pela força da frenagem.

A pressão era insuportável, e eu só via uma saída: de algum jeito, tinha que abrir a porta do trem. Mesmo que precisasse pular de um trem em movimento, minhas chances de sobreviver ali dentro eram bem piores.

Por sorte, as portas do trem eram separadas por uma camada de silicone nas bordas, pra ninguém se machucar se ficasse preso no meio. Usei isso: enfiei a mão na fresta com força.

Empurrei pra conseguir passar a mão o máximo possível, quando senti algo. Algo do outro lado da porta. Outra mão, mas dessa vez não estava me agarrando. Estava acariciando meu braço devagar, de fora. Um arrepio subiu pela minha espinha e quase puxei a mão de volta por instinto. Quase. Foda-se o que quer que esteja lá fora. Eu não podia ficar ali. Precisava sair. Ignorei.

Enfiei a segunda mão na fresta e a carícia continuou na outra mão. A força da frenagem parecia que ia quebrar meus dois braços naquela posição, mas eu tinha que continuar. Comecei a puxar as portas pra abrir com toda a força, quando vi o reflexo dos outros passageiros nas janelas. Até então não tinha visto a expressão deles, porque sempre viravam o rosto.

Eles estavam todos se segurando — uns nos outros, outros nas barras — tentando resistir à frenagem, mas as ações não batiam com a situação. Uns com celular na mão, outros pareciam estar conversando, embora eu ainda não ouvisse som nenhum. Tudo parecia completamente normal… exceto que todos estavam me encarando, balançando a cabeça em negação, como se dissessem que o que eu estava fazendo era errado. Nenhuma das ações deles parecia coordenada, exceto o movimento da cabeça — todos fazendo exatamente igual, em uníssono.

As portas começaram a se abrir. Não dava pra ver nada pela fresta, mas continuei. Consegui abrir o suficiente pra passar o joelho no meio. Não parecia que ia abrir mais, então tentei passar o máximo que dava. Dei uma última olhada nos reflexos das pessoas. Empurrei o ombro. Parte do tronco passou. Depois a cabeça ficou do lado de fora. O chiado dos freios estava ainda mais alto ali fora e dava pra ver faíscas voando.

Quando meu tronco inteiro saiu, tentei me afastar da porta pra tirar a perna e o braço que faltavam. Ouvi um estalo alto e voei contra a parede do túnel.

O chiado sumiu quase na hora. Eu estava zonzo, deitado no chão, a visão ficando cada vez mais vermelha. Mas estava vivo. Olhei em volta e não via mais o trem. Tentei levantar, mas não conseguia. Não era surpresa: pular de um trem em movimento machucou pra caralho. Comecei a rastejar.

Depois de um tempo, vi lanternas ao longe. Aparentemente a cidade aproveitou a greve pra fazer manutenção necessária no túnel. Nenhum deles viu trem nenhum passar quando perguntei.

Estou no hospital agora. O médico disse que saio amanhã. Ainda pego-me olhando pros reflexos nas janelas, quando vejo alguém virando o rosto de mim, mas não vi nada estranho desde então.

Não estou escrevendo isso pra ninguém ter pena de mim, francamente tô pouco me lixando. Só preciso contar pras pessoas. Mesmo que o trem cancelado apareça de verdade… por favor, não entre nele.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Eu Sobrevivi Uma Noite nos Apalaches. Não Acabou Por Aí

Eu não era pra estar lá sozinho.

É isso que eu tenho que falar em voz alta pras pessoas depois, porque senão elas começam a preencher as lacunas sozinhas. Transformam a coisa toda numa historinha bonitinha de "garoto se encontra na natureza". Ou decidem que eu tava pedindo pra acontecer. Ou riem e falam que foi um momento à la Bruxa de Blair, como se isso ajudasse de alguma forma.

Eu tenho dezessete anos. Tenho carteira de motorista, um emprego num mercado onde passo metade do turno empilhando latas de feijão e fingindo que não ouço homens adultos brigando por raspadinha, e eu já faço trilha nessas montanhas com meu tio desde o ensino fundamental.

E mesmo assim eu não era pra estar lá sozinho.

Minha mãe tava num plantão de doze horas no hospital. Meu padrasto tava num daqueles dias de "vou ficar na garagem", o que significava que ele ia botar um podcast no último volume e ficaria puto se alguém falasse com ele. Meu tio Wayne tava fora do estado a trabalho. A única pessoa que teria me falado "não, não seja idiota" não tava por perto.

Então eu fiz o que venho fazendo o verão inteiro: empilhei minhas desculpas bonitinhas e tentei fazer elas parecerem fatos.

Eu disse pra mim mesmo que não era mata fechada de verdade. Era uma trilha que eu já tinha feito antes. Disse que ia chegar e montar acampamento antes de escurecer. Disse que spray de urso era tipo cheat code. Disse que minha faca dobrável me tornava alguém que dava conta do recado.

Eu até escrevi um bilhete no balcão da cozinha com canetão Sharpie no verso de um cupom de pizza, igual criança fugindo de casa em filme.

"Vou acampar. Volto amanhã. Te amo."

Como se "te amo" fosse um escudo à prova de tudo.

O estacionamento da trilha tava meio cheio. SUVs empoeiradas, uns Subarus cobertos de adesivos no vidro traseiro, e uma minivan com uma família descarregando como se fossem se mudar pra lá. Eu estacionei lá no canto mais longe, como se meu carro fosse uma vergonha — e era mesmo. Tinha um cara apertando os cadarços da bota na caçamba de uma picape. Ele acenou com a cabeça pra mim. Eu acenei de volta. Aquela coisinha mínima me fez sentir mais seguro do que deveria.

Uma barrinha de sinal piscava no topo do meu celular, como se estivesse me fazendo um favor. Coloquei no modo avião mesmo assim. Bateria era uma das poucas coisas que eu podia controlar. Mais ou menos.

Minha mochila tava mais pesada do que eu tinha fingido que seria. Barraca baratinha de domo, saco de dormir velho, fogareiro, lanterna de cabeça e lanterna reserva, carne seca e miojo, o cobertor de emergência prateado que o Wayne insistia que eu levasse. Tinha um filtro de água que rangia e um rolo de fita adesiva. Só isso.

Tranquei o carro duas vezes. Mania. Ansiedade. Sei lá.

O primeiro quilômetro foi moleza. Trilha larga, bem batida pelo uso. Uns degraus naturais de raiz aqui e ali. Pedras chatas como calçada natural. Passei por um casal com bastões de trekking e chapéus iguais de sol. Passei por uma família com duas crianças brigando por causa do mix de castanhas. Sons normais. Folhas tremendo numa brisa leve. Um pica-pau martelando em algum lugar como quem bate numa porta oca.

Depois de um tempo a trilha se dividiu. O loop principal continuava reto, e o atalho que eu queria pegava e subia mais forte. A placa tava desbotada pelo sol e meio torta. Embaixo dela, pregada no poste, tinha uma plaquinha enferrujada que dizia TRILHA MANUTENÇÃO EQUIPE — 1987. O Wayne tinha apontado isso da primeira vez e falado: "Essa plaquinha é mais velha que você, garoto", como se fosse piada.

Eu entrei no atalho e o mundo mudou de um jeito que não dá pra explicar sem soar dramático pra caralho.

Não foi tipo a luz apagou ou a temperatura caiu dez graus. Foi menor. Tipo quando você entra num quarto onde as pessoas tavam conversando e todo mundo cala a boca de repente.

A trilha ficou mais estreita. Samambaias lotavam as bordas e roçavam nas minhas canelas. Eu ainda ouvia vozes distantes atrás de mim por um tempo, depois elas sumiram também, e as montanhas tomaram conta.

Um pouco depois da bifurcação, tem uma pedra enorme bem do lado esquerdo da trilha, como se alguém tivesse rolado ela pra lá de propósito. É do tamanho de um carro pequeno, e tem uma veia de quartzo branco cortando ela como uma cicatriz. O Wayne usava ela como marco. "Depois que passar pela Pedra de Quartzo, é só você e a crista."

Eu passei pela Pedra de Quartzo, e foi exatamente assim que pareceu.

A subida não era horrível, mas era constante. Daquelas que te fazem perceber sua respiração e o suor esfriando nas costas. Na metade do caminho, vi a primeira coisa que apertou meu estômago.

Uma trilha de cervo cruzava o caminho, plantas dobradas numa linha estreita, terra mais escura onde cascos tinham revirado.

Só que não era só cervo.

Tinha pegadas que não faziam sentido — umas manchas meio humanas, como se alguém tivesse pressionado a lateral de um tênis na terra e arrastado. Duas delas. Muito juntas.

Eu agachei, olhei fixo, pus meu pé do lado.

Não eram minhas.

Eu disse pra mim mesmo que eram velhas, amolecidas pela chuva, talvez alguém escorregou. História boa o suficiente pro meu cérebro agarrar.

Mesmo assim, levantei mais devagar do que precisava e escutei mais forte do que tava escutando. Não por ursos. Não por cobras. Por passos.

Nada óbvio.

Só os barulhinhos normais que deviam ser reconfortantes. Naquele dia eles pareciam camuflagem.

No meio da tarde, comecei a sentir que tavam me observando.

Não de um jeito poético. De um jeito físico. Como se o espaço atrás de mim tivesse peso.

Tentei tornar engraçado pra mim mesmo.

Beleza, Evan. Parabéns. Você inventou ansiedade.

Eu até falei em voz alta. Ouvir minha própria voz ajudou — até que não ajudou mais.

Numa curva fechada, ouvi um som baixo e molhado, tipo alguém limpando a garganta de boca fechada.

Veio de morro abaixo à minha direita. Perto o suficiente pra eu travar.

Fiquei lá com a mão meio levantada pra afastar um galho e escutei tão forte que minhas orelhas doeram.

Nada.

Sem movimento depois. Sem bicho correndo. Só ausência.

Continuei porque parar parecia pior.

Um tempo depois a trilha cortou um grupo de cicutas. Tudo ficou mais escuro embaixo delas, a luz virou esverdeada e chapada. Minha lanterna de cabeça balançava no peito a cada passo.

A sensação de ser observado piorou, e eu vi algo que não encaixava.

Na altura do ombro num tronco de árvore, uns seis metros fora da trilha, a casca tinha sido raspada numa área larga. Fresca, madeira clara exposta. Seiva brilhando.

Não eram marcas de urso. Não eram sulcos verticais. Era uma mancha de lado, como se algo tivesse se encostado e esfregado.

"Provavelmente nada", murmurei.

Eu não acreditei em mim mesmo. Não totalmente.

O acampamento do Wayne ficava perto de um riacho onde o atalho desce um pouco e você ouve a água antes de ver. Tem uma marca velha de blaze numa árvore também — dois retângulos amarelos desbotados, um em cima do outro. O Wayne tinha dito: "Se vir o amarelo duplo, tá quase lá."

Quando vi o amarelo duplo, o alívio me acertou como uma onda.

O acampamento tava lá, mais ou menos. Um pedaço de chão mais plano que o resto. Algumas pedras arrumadas como se alguém tivesse começado um círculo de fogueira em algum momento. O riacho era uma fitinha clara correndo sobre pedras, fazendo aquele barulho constante de sussurro que devia ser calmante.

Larguei a mochila e fiz a checagem do perímetro como o Wayne me ensinou — olhar pra galhos mortos em cima, cocô, sinais de que alguém já tava lá.

Sem sinal óbvio de animal. Sem pegadas.

Mas na borda mais distante da clareira, as samambaias tavam dobradas numa linha, como se algo tivesse passado por ali recentemente. Um corredor estreito entrando nas árvores.

Fiquei encarando tempo suficiente pra me sentir idiota, depois montei a barraca rápido mesmo assim.

Rotina. Rotina faz você sentir que tá no controle.

Filtrei água — o filtro rangeu quando apertei, igual sempre. Fervi miojo. Comi direto da panela. Pendurei o saco de comida o melhor que consegui, não perfeito, mas alto o suficiente pra me deixar mais tranquilo. A corda queimou minhas mãos.

O anoitecer chegou e a mata virou outro lugar. Não assombrado. Só menos legível.

Escovei os dentes lá embaixo no riacho. Pasta de menta, água com areia, cuspi nas pedras.

Quando levantei, vi algo na margem oposta.

Uma pilha de pedras.

Não um marco arrumadinho. Mais como se alguém tivesse jogado pedras claras num montinho. Não tavam lá antes. Eu teria notado. Minha lanterna pegou nelas e fez parecerem claras demais.

Cheguei mais perto, e na pedra de cima tinha uma mancha. Escura. Parecia molhada. Marrom-preta.

Não toquei.

Varri a luz pela linha das árvores do outro lado e não vi nada, mas a nuca ficou dura mesmo assim.

Voltei pra barraca rápido. Não correndo. Mas rápido.

Dentro, fechei o zíper da tela e sentei no isolante com os tênis ainda nos pés, lanterna de cabeça na testa, spray de urso do lado da coxa como objeto de conforto.

Escutei.

Riacho. Insetos. Um chamado fraco de coruja.

Depois, mais fundo nas árvores, ouvi aquele som de garganta de novo.

Baixo. Molhado. Perto.

Eu disse pra mim mesmo que cervos fazem sons estranhos. Raposas gritam como gente. A natureza é creepy. Era meu cérebro ficando dramático porque eu tava sozinho.

Só que não parecia animal.

Parecia uma pessoa fingindo ser um.

Chequei o celular. 21:03.

Uma barrinha de sinal piscando.

Tentei mandar mensagem pra minha mãe mesmo assim.

"E aí. Acampamento montado. Tudo certo."

Não enviou. O ícone girando ficou lá parado.

Desliguei o celular, liguei de novo, porque ver a tela me fazia sentir menos sozinho. Desliguei a lanterna de cabeça porque não queria a barraca brilhando como lanterna.

No escuro, a barraca encolheu. A tela virou um vazio preto. O mundo lá fora existia só como som.

Aí algo quebrou um galho perto da borda da clareira.

Não graveto. Galho. Estalo seco.

Eu travei tão forte que meus ombros doeram.

Algo roçou a lateral da barraca.

Não empurrão. Arrasto, tipo dedos testando o tecido.

O nylon sussurrou. A parede afundou uns centímetros pra dentro, depois soltou.

Levantei o spray de urso. Meu polegar achou o travador.

Bem do lado de fora, algo expirou.

Não respiração normal de animal.

Uma expiração longa, controlada, tipo alguém suspirando pelo nariz.

Ar quente bateu na parede da barraca. Senti através do tecido.

Sussurrei: "Vai embora."

Silêncio.

Depois movimento se afastando — sem passos pesados, mais um arrastar sussurrante pelas folhas.

Em direção ao riacho.

Um tilintar pequeno veio depois. Depois outro.

Pedra na pedra. Deliberado. Com pausas.

Tlim… tlim… pausa… tlim.

O riacho mudou de tom como se algo tivesse entrado com cuidado. Sem splash. Controlado.

Aí ouvi minha corda de comida mexer lá em cima.

Um rangido fraco, tipo peso testando.

A corda guinchou, e o mosquetão ticou.

Um puxão leve. Outro.

Depois a corda ficou frouxa.

Um estalo menor lá em cima, seguido de um baque pesado nas folhas.

Meu saco de comida caiu no chão.

Plástico amassou. Pacotes de carne seca mexeram. Algo metálico rolou.

Aí aquele som molhado de garganta de novo — agora mais satisfeito.

Mexeu nas minhas coisas devagar, como se fosse dono. Cuidadoso. Paciente. Não frenético como urso. Não barulhento como guaxinim.

Depois parou.

Meu celular vibrou.

A tela acendeu.

Número desconhecido.

Não atendi. Não rejeitei. Fiquei olhando tocar até parar.

Lá fora, em algum lugar nas árvores, meu toque tocou — só que não era meu celular. Era uma imitação fina, errada, tipo alguém cantarolando pelos dentes. Desafinado.

O cantarolar flutuou e sumiu como se estivesse se movendo.

Meu celular vibrou de novo.

Mesmo número desconhecido.

Aí, bem do lado de fora da barraca, algo disse meu nome.

"Evan."

Baixo. Tipo alguém chamando de outro lado do quarto.

Minha garganta travou.

"Evan", disse de novo, mais perto.

Depois: "E aí, garoto."

Frase do Wayne.

Parecia o Wayne em voicemail. Meio abafado. Como se a voz tivesse que passar por algo.

E aí riu.

Tentou rir como o Wayne, mas saiu grave demais e molhado demais, tipo tosse e risada emboladas.

Passos começaram.

Passos de verdade. Pesados. Bípedes. Lentos.

Cruzaram a clareira com pausas entre os passos, como se estivesse escutando entre os movimentos.

Parou bem do lado de fora da minha barraca.

Um cheiro azedo, úmido, vazou pelo tecido — cachorro molhado e cogumelo velho e podridão de folha.

A parede da barraca afundou de novo, mais alto dessa vez, como se algo tivesse pressionado a palma contra ela.

"Evan", disse, a centímetros do meu rosto através do nylon.

Expirou, lento e quente.

Depois, na voz da minha mãe: "Filhinho?"

Aquilo acertou algo mole no meu cérebro que eu não queria mexer.

Eu fiz um som. Não palavra. Um gemidinho involuntário.

A parede da barraca pressionou de novo.

"Filhinho", disse. "Abre aí."

As palavras tavam certas. O ritmo não. Minha mãe não fala assim.

Aí começou a raspar ao longo da linha do zíper. Devagar. Como se estivesse achando o ponto fraco.

Os dentes do zíper clicaram sob pressão.

Parou.

Toc. Toc. Toc.

Nós em nylon.

"Evan", disse, e a voz mudou — mais velha, rouca, cascalho na garganta.

"Sai daí."

Sussurrei: "Me deixa em paz."

O toc toc parou.

Por um segundo, achei que isso importava.

Aí a parede da barraca desabou.

Não rasgo limpo. Empurrão de corpo inteiro. Varas quebraram. Tecido desabou em cima de mim.

Eu gritei. Feio e alto.

Atirei o spray de urso às cegas no nylon desabando, e a nuvem voltou na minha cara.

Meus olhos arderam. Minha garganta travou. Tossi tão forte que engasguei.

Lá fora, algo recuou com um chiado gorgolejante, tipo ar forçado por algo molhado e estreito.

Arranhei minha saída, meio cego, lágrimas escorrendo.

Ar frio da noite bateu na minha cara.

A clareira era um borrão de escuridão. Minha lanterna de cabeça tava dentro da barraca desabada. Minha lanterna tava na mochila.

Algo caiu atrás de mim. Pesado. Folhas explodiram sob o peso.

Arrastei pra trás, bati numa pedra, caí de bunda com força. Dor subiu pela coluna.

Uma forma alta se mexeu entre mim e as árvores. Alta demais pra pessoa. Não urso em pé também. Proporções erradas.

Brilhos úmidos pegaram a luz das estrelas — olhos como vidro molhado.

Fez aquele som de garganta de novo, agora bravo.

Minhas mãos procuraram o spray. Sumiu.

Meu cérebro gritou corre.

Eu saí correndo pra trilha.

Não peguei a mochila. Minhas chaves tavam na mochila lá no acampamento, mas a ideia de carro parecia história da vida de outra pessoa. Tudo que eu tinha era direção.

Corri morro acima porque acima significava crista, e crista significava trilha principal, e trilha principal significava outras pessoas.

Atrás de mim ele se movia com aquele arrastar sussurrante, agora rápido, controlado.

De algum lugar à frente, ouvi minha própria voz.

"Evan."

Meu nome, no meu tom, com aquela coisa nasal idiota que eu odeio em gravações.

Veio da trilha à frente.

Eu derrapei até parar, pulmões travando.

Na escuridão à frente, uma silhueta tava no caminho. Forma de pessoa. De adolescente. De mim.

Levantou um braço devagar.

"Evan", disse de novo, na minha voz, e parecia que tava sorrindo.

Meu cérebro deu um estalo numa ideia limpa:

Tá me encurralando.

Usando som pra me fazer parar. Pra me fazer virar. Pra me fazer duvidar.

Atrás de mim, folhas sussurraram. Algo encurtou distância.

Então eu saí da trilha batendo nas árvores.

Galhos chicotearam minha cara. Samambaias agarraram minhas pernas. Não liguei.

O chão caiu. Metade caí, metade deslizei por uma encosta íngreme, me segurando em mudas e raízes. Minhas palmas rasparam. Meu joelho bateu em algo duro e a dor explodiu branca.

Continuei até bater em chão mais plano e o som de água me achar.

O riacho de novo.

E reconheci o lugar por uma coisa idiota: um tronco morto com fita laranja de agrimensor presa nele, balançando. Eu tinha notado antes e pensado, aleatório.

Ver aquilo fez meu estômago despencar.

Eu não tinha só corrido. Tinha sido direcionado.

Joguei água na cara mesmo assim, tentando tirar o spray de pimenta, e bebi sem filtrar porque meu cérebro não ligava mais.

Atrás de mim: toc… toc… toc.

Não em nylon. Em madeira.

Virei e vi outra área raspada numa árvore. Madeira clara fresca exposta. Sulcos rasos nela, não palavras, só formas que queriam ser algo.

Um contorno grosseiro de pessoa. Braços compridos demais. Dois círculos pros olhos. Uma linha pra boca.

Parecia bobo. Mesmo assim me deu nojo.

Do outro lado do riacho, algo entrou na água com cuidado. O som mudou ao redor.

Aquele cheiro azedo veio de novo na minha direção.

De rio acima, naquela voz de cascalho, disse meu nome como se gostasse do gosto.

"Evan."

Corri de novo, de lado pela mata, longe do riacho, longe de qualquer coisa que parecesse rota que ele pudesse prever.

Corri até meus pulmões parecerem papel.

Tropecei e caí feio, de cara nas folhas. Dor atravessou meu joelho. O ar saiu num som quase soluço.

Fiquei lá ofegante e escutei.

Sem passos. Sem som de garganta.

Só o barulho constante, indiferente das montanhas.

Pela primeira vez naquela noite, o silêncio pareceu que podia estar me escondendo em vez de me vigiar.

Rastejei pra baixo de um tronco caído — um tronco velho apodrecido num túnel baixo que fedia a fungo. Me enfiei lá, ombros raspando casca. Tirei o cobertor de emergência do bolso e amassei ele pra não brilhar. Mesmo assim estalou alto demais. Odiei aquele som.

O tempo passou em pedaços feios.

Minha lanterna de cabeça sumiu. Minha barraca sumiu. Minha comida sumiu. Minhas chaves sumiram. Tudo que eu tinha levado pra me sentir capaz tava lá na clareira como oferenda.

E meu celular — em algum momento na encosta e na queda — sumiu também.

Aí o cantarolar errado começou de novo.

Meu toque, desafinado, tipo alguém copiando de memória.

Não vinha de alto-falante.

Vinham da mata mesma.

Segurei a respiração e contei na cabeça porque contar é algo que você pode fazer quando nada mais faz sentido.

Um… dois… três…

O cantarolar parou.

Silêncio.

Uma mão pressionou nas folhas do lado de fora do túnel de tronco.

Pele pálida, manchada, esticada demais. Dedos compridos demais. Articulações dobrando levemente errado. Unhas escuras e grossas, não garras, só unhas humanas crescidas e endurecidas.

Pressionou devagar. Folhas estalaram.

Meu corpo inteiro travou. Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza que ele ouvia.

A mão levantou, e algo se abaixou pra olhar dentro.

Uma cara pairou na borda do túnel.

Não humana. Não animal.

Caroço tipo nariz. Fenda tipo boca. Pele úmida em lugares como se nunca secasse de verdade.

Os olhos eram o pior.

Pareciam usados.

Tipo olhos de boneca de vidro colocados errado. Brilhantes. Fixos. Sem piscar.

Chegou mais perto e puxou ar pela fenda da boca como se estivesse provando.

A boca se abriu um pouco.

Dentro não tinham dentes humanos. Pedaços quebrados cravados em gengivas escuras.

Esticou um dedo comprido na minha direção.

O cobertor de emergência estalou enquanto meu corpo tremia.

Aí a cabeça da coisa virou um pouco pro lado, como se tivesse ouvido outra coisa.

Longe, uma voz humana gritou.

"Alguém aí?"

Voz de verdade. Respiração. Esforço.

"Alguém aí? Tem alguém por aí?"

Minha garganta apertou tanto que doeu. Queria responder. Não respondi.

A criatura congelou, calculando.

Depois recuou do túnel, silenciosa, a mão saindo das folhas como se nunca tivesse estado lá.

A voz distante chamou de novo, depois se moveu, depois sumiu.

No silêncio depois, ouvi aquela risada molhada de novo.

Baixa. Perto.

Entre mim e onde o grito tinha vindo.

Como se tivesse seguido o som. Como se soubesse usar ele.

Apertei o rosto na terra até encher o nariz.

Não lembro de dormir. Devo ter dormido, porque a próxima coisa que lembro é luz pálida filtrando pelas folhas e som de pássaros, pássaros normais.

Por uns segundos, esqueci onde tava. Aí me mexi e meu joelho gritou e minhas mãos arderam e minha boca tinha gosto de terra e medo.

A realidade voltou com tudo.

Rastejei pra fora de baixo do tronco piscando pro dia como se fosse claro demais. A mata parecia inofensiva de manhã. Isso me deixou com raiva. Como se as montanhas estivessem fingindo.

Levantei devagar e manquei.

Não vi ele. Não ouvi ele.

Mas a sensação de ser observado não sumiu totalmente. Ficou debaixo da pele como espinho.

Subi morro acima porque acima geralmente significava crista e crista geralmente significava trilha.

Depois de um tempo achei — a terra batida, o jeito que o caminho parecia uma decisão em vez de aleatoriedade.

O alívio bateu tão forte que meus olhos marejaram.

Manquei rápido. Quase corri.

A Pedra de Quartzo apareceu de novo — a pedra com a veia branca — e vê-la torceu meu estômago porque significava que eu realmente tinha sido enrolado. Não perdido-perdido. Movido.

Quando cheguei no loop principal, vi outros trilheiros.

Um cara com um cachorro na coleira vermelha. O cachorro parou morto quando me viu, pelos arrepiados, um latido baixo de aviso na garganta. O cara puxou a coleira e me encarou como se não soubesse o que eu era.

Um casal de short de corrida diminuiu.

"Tá tudo bem?", a mulher perguntou.

Três universitários dobraram a curva, um com caixinha de som Bluetooth presa na mochila, música tinindo e animada. Um viu minhas mãos e falou: "Cara, você tá sangrando."

A mulher ralhou: "Desliga isso", e o garoto atrapalhou, matando a música no meio do refrão.

O silêncio depois fez minha respiração parecer alta.

"Me perdi", falei. Minha voz saiu destruída.

O cachorro continuou encarando pras árvores atrás de mim, focinho tremendo, choramingando como se não gostasse do cheiro em mim.

"Ursos?", o cara da coleira perguntou, meio brincando mas não de verdade.

"Não", falei rápido demais. "Não urso."

"Você tá sozinho?", a mulher perguntou.

Balancei a cabeça.

"Senta", ela disse, e não era pergunta.

Sentei numa pedra porque minhas pernas tavam tremendo. O parceiro dela me deu água. Bebi como se nunca tivesse visto água antes.

"Tem celular?", o cara da coleira perguntou.

"Perdi", falei. Minha voz rachou.

O parceiro dela pegou o celular, subiu um pouco na trilha, e tentou os serviços do parque. Conseguiu na segunda tentativa.

Quando o guarda florestal chegou, perguntou coisas como adulto faz quando tá tentando não deixar virar bagunça.

Onde acampou? Quanto tempo ficou fora? Viu urso? Ouviu algo estranho?

Falei que me virei. Falei que minha barraca desabou. Falei que entrei em pânico e corri.

Tudo verdade, tecnicamente.

Minha mãe chegou como se tivesse dirigido direto pelo próprio medo. Me abraçou tão forte que minhas costelas doeram, depois me empurrou pra trás e me escaneou como se procurasse peças faltando.

O guarda perguntou se queríamos que pegassem meu equipamento.

Minha mãe disse sim na hora.

Minha boca disse: "Não."

Todo mundo me olhou.

"Não quero", falei, afiado demais. "Deixa lá."

O guarda piscou. "É coisa cara, garoto."

Garoto.

Palavra do Wayne.

Minha pele arrepiou.

"Não ligo", falei. "Deixa."

O rosto da minha mãe amoleceu de um jeito que me assustou mais que a raiva dela. O guarda hesitou, depois balançou a cabeça como se já tivesse lidado com trauma antes.

"Tá bom", disse.

Fizeram meu depoimento. Deram pra minha mãe um panfleto de segurança na trilha como se essa fosse a lição. Minha mãe me levou pra casa com uma mão branca agarrada no volante.

Tomei banho até a pele ficar vermelha, vendo água lamacenta escorrer pelo ralo, esfregando como se pudesse apagar um cheiro.

Naquela noite, não dormi.

Não era só medo. Meu corpo se recusava. Todo barulho na casa parecia afiado demais.

Por volta das duas da manhã, ouvi meu celular vibrar.

De onde devia estar — minha mesinha de cabeceira.

Uma vibração curta, tipo notificação. Depois uma mais longa, tipo chamada entrando.

Meu corpo inteiro deu um pulo. Meu coração foi direto pra garganta.

Estiquei a mão, dedos procurando na mesa.

Nada.

Minha mesinha tava vazia exceto por um porta-copos e um livro de bolso que eu fingia estar lendo. Sem celular. Porque eu tinha perdido na mata.

A vibração aconteceu de novo mesmo assim, bem na madeira, perto o suficiente pra eu sentir nos ossos.

Aí, daquele espaço vazio, um cantarolar fino e errado começou. Meu toque, meio tom fora, tipo alguém copiando de memória.

Puxei a mão de volta como se tivesse tocado algo quente.

Meu padrasto gritou da garagem: "Que porra você tá fazendo?"

Não respondi.

Minha mãe entrou e acendeu a luz. Viu minha cara e não discutiu.

"O quê?", disse, já com medo.

"Eu ouvi", sussurrei.

"Ouvi o quê?"

"Meu celular."

Ela olhou pra mesa vazia, depois pra mim.

Dava pra ver que ela queria dizer que eu tava sonhando. Dava pra ver também que ela não acreditava totalmente nisso.

Perguntou o que aconteceu lá fora. O que realmente aconteceu.

Tentei contar, mas tudo que eu via era aquela mão nas folhas e aquela voz usando a palavra dela pra mim como se fosse dona.

Então falei a única coisa que dava pra falar sem parecer louco.

"Acho que algo me seguiu."

Minha mãe me encarou por um longo segundo, depois passou o braço pelos meus ombros como se estivesse me ancorando.

Ficamos lá escutando os sons normais da casa — zumbido da geladeira, tráfego distante, o podcast do meu padrasto abafado pela parede.

E nos espaços entre esses sons, eu ficava esperando.

Por batidas.

Por aquela garganta molhada.

Pela minha própria voz dizendo meu nome de algum lugar que não devia.

Não ouvi de novo naquela noite.

Na manhã seguinte, o guarda ligou de volta pra minha mãe. A voz dele era cuidadosa.

Disse que tinham ido na clareira onde eu disse que acampei.

Disse que acharam minha barraca desabada.

Disse que acharam meu equipamento.

Disse que meu saco de comida tava rasgado e espalhado como se alguém tivesse organizado — carne seca em fila certinha, pacotes de miojo empilhados como criança brincando de lojinha, meu isqueiro colocado numa pedra como se estivesse em exposição. Disse que tinha pedras arrumadas perto do riacho também, como se alguém tivesse ficado ocupado com as mãos.

Aí disse: "Não achamos seu celular."

Minha mãe perguntou se alguém tinha levado.

O guarda pausou.

"Senhora… tinha marcas nas árvores ao redor do local. Tipo esfregadas. Raspadas. Às vezes vemos sinal de urso, mas isso não era típico. Tinha impressões no chão mole também. Difícil dizer de quê. Vamos ficar de olho na área."

Os dedos da minha mãe apertaram os meus tão forte que doeu.

Não ouvi o resto. Não de verdade.

Porque tudo que eu conseguia pensar era: ele não precisava do meu celular.

Nunca precisou do meu celular.

Só gostava do som que conseguia fazer com ele.

E agora nem precisava mais do celular pra fazer isso.

Já Ouviu Um Homem Gritar Sem Pulmões?

Um homem doente me sequestrou. Ele parecia arrependido depois do fato, falando sobre alguma entidade alienígena ameaçando destruir o mundo inteiro a menos que ele me sacrificasse para essa entidade. Uma coisa que ele chamava de Unketzez. Como o nome real dele não é particularmente relevante, vou me referir a ele como John.

Veja bem, John tinha uma fala muito desorganizada e um raciocínio impossível de seguir. Com certeza, ele era delirante. Claramente doente, como eu disse. Eu me deixei ser levado como refém porque tenho tempo e muito pouco a fazer com o meu tempo. Com isso em mente, eu entrei no jogo do pobre homem.

John, apesar de todos os seus defeitos, trabalhou duro para adiar o que ele achava que era inevitável.

Infelizmente, Unketzez venceu, e eu tive que ser sacrificado.

Nem preciso dizer que não saiu como planejado. Não por falta de tentativa. Não, John tentou me sacrificar. Tecnicamente, ele conseguiu.

Tecnicamente.

Não deu certo porque eu sou imortal. Eu não posso morrer permanentemente, pelo menos até onde eu sei. Pode confiar em mim, eu tentei; outros também tentaram me matar. Nada parece funcionar até agora. Temporariamente, eu posso "morrer", mas eventualmente o meu corpo se conserta sozinho. Tem desvantagens nisso; eu não sou imune às dores da morte.

E John, bem, John transformou aquilo em uma noite muito longa...

Eu fui parcialmente esfolado, com um ferro quente, forçado a comer a minha própria pele queimada, depois eviscerado e enforcado pelas minhas próprias entranhas.

Depois disso, o filho da puta louco rasgou as minhas costas, estilhaçou a minha caixa torácica e drapeou os pulmões sobre os ossos expostos.

Eu senti tudo aquilo, cada momento.

Injeções de adrenalina funcionaram como mágica para me manter acordado e prolongar o meu sofrimento.

Não há palavras para descrever a agonia que John me fez passar. Que Deus o abençoe, ele ficava se desculpando e chorando o tempo todo.

Imagine um homem gritando sem pulmões; era assim que soava.

Eventualmente, parou, e eu "morri".

Imagine o choque de John quando ele me encontrou saindo do porão dele ileso.

Ele olhou e gritou como se tivesse visto um fantasma. Eu poderia ter rido se ele não tivesse me esfaqueado no braço e em um pulmão naquele momento.

Prendê-lo na parede foi surpreendentemente fácil antes de eu inventar uma história para ele. Entrando nas delusões dele, eu disse que eu também era um devoto de Unketzez e que toda aquela provação era só um teste para ver se ele era digno de um despertar.

Sendo o homem doente que era, ele acreditou em cada palavra.

Eu expliquei que eu era imortal graças ao nosso deus. Na realidade, faz tanto tempo que eu não sei se nasci assim ou me tornei assim. O que eu sei é que, se alguém come a minha carne ou bebe o meu sangue, ganha alguma habilidade sobre-humana.

Eu mencionei como fui morto muitas vezes antes, em parte para ser consumido.

O que acontece toda vez, no entanto, é que quem quer que participe do meu consumo acaba com uma habilidade que inadvertidamente os mata.

Toda santa vez.

Então, eu disse a John que beber o meu sangue o tornaria imortal também.

É difícil para mim dizer que eu estava com raiva dele; um efeito de uma vida longa é o desapego. Eu não poderia me importar menos com o que acontecesse com essa criatura insignificante, mas uma noite terrível valia uma lição.

Então, eu convenci John de que ele queria essa imortalidade que eu estava prometendo, e uma vez que ele concordou, eu puxei a faca do meu corpo, enfiei o meu braço ferido direto na boca dele, garantindo que ele provasse bem o meu sangue. Eu mantive lá até ele começar a engasgar e vomitar e não parar, mesmo assim. Só parei quando o pulmão colapsado no meu peito finalmente me nocauteou, e nós dois caímos no chão.

Eu voltei a mim só horas depois, ao som de um homem chorando.

O quarto estava coberto de manchas e impressões de mãos de ouro.

Quase tudo ao meu redor brilhava com um brilho áureo; as paredes, o chão, os móveis. Tudo tinha um toque daquele metal precioso cobrindo.

No centro, de frente para mim, estava John, metade coberto de ouro ele mesmo, balançando para frente e para trás.

O metal parecia se espalhar lentamente pelo corpo dele enquanto os movimentos dele ficavam mais rígidos a cada momento que passava.

Ele estava murmurando e chorando para si mesmo.

O próprio toque de Midas dele estava o matando lentamente...

Mais rápido do que eu esperava, na hora em que eu me levantei, ele mal conseguia implorar por ajuda.

Um olhar terrível de medo no olhar desesperado dele penetrou direto em mim. Fazia tempo que algo não me dava arrepios na espinha, mas nesse estado, esse homem doente definitivamente deu.

Ele mal conseguiu levantar um braço banhado em ouro na minha direção quando me viu me levantar, e os gritos de ajuda dele lentamente se transformaram em algo muito pior, e muito menos humano.

Sem fôlego, sufocado, quase esmagado.

Um sibilo.

Um estertor de morte escapando de uma rachadura em uma estátua metálica quando o vento sopra por ela.

Aquele era o som de um homem gritando sem pulmões.

A morte dele foi mais lenta do que parecia. Mesmo depois de ficar em silêncio, ele deve ter tido algum tempo antes que a estátua de ouro envolvendo os órgãos dele endurecesse completamente, colapsando os pulmões e o coração no lugar.

A pior parte de tudo é que mesmo depois que o ouro cobriu o corpo dele completamente, deve ter sido só superficial, porque eu vi os olhos dele se movendo, quase implorando, por mais um ou dois minutos, antes que o olhar deles caísse em mim.

Dilatando uma última vez, presos no lugar.

Mas de alguma forma, me seguindo pelo quarto até eu sair.
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