O Apostador é uma daquelas lendas urbanas que fazem todo mundo parar pra conversar. Se você lembra da loucura da Bloody Mary de uns anos atrás, o Apostador teve um efeito igualmente contagioso na gente, os jovens. A história de como essa lenda urbana específica surgiu varia bastante dependendo de quem conta, mas o jeito certo de invocar e o ritual que vem depois são basicamente idênticos, não importa pra quem você pergunte. Não importa se o Apostador é do tipo “mulher de branco”, um poltergeist vingativo ou o próprio diabo. A única coisa que realmente importa é o que ele faz dentro do contexto desse ritual.
Olha só, existem certas coisas que a mente humana foi feita pra esquecer. A consciência é o oposto do que não dá pra entender, então faz todo sentido a gente não saber direito o que se esconde no escuro justamente por causa dessa incompreensibilidade. Eu sou a única pessoa que conheço que já venceu o Apostador, e mesmo assim a verdadeira natureza dele continua um mistério pra mim. Claro que eu poderia só contar tudo isso, pedir pra você confiar na minha experiência e depois pedir sua confiança de volta de que você não vai mexer com essas coisas. Mas eu também já fui curiosa pra caralho. Depois de tudo que rolou, eu sei que a única forma de impedir mais tragédia é contar exatamente o que aconteceu comigo.
Mesmo que quase todo mundo que conhece o ritual saiba mais ou menos a versão certa, pouca gente entrega a informação de bandeja. Embora isso pareça contraditório, eu vou te passar o processo exato de invocação e as regras que eu usei pra vencer, só pela documentação:
O jogo que você escolher tem que ser colocado do seu lado do limiar de um possível “portal”, mas o espaço entre o tabuleiro ou o baralho não pode passar de um pé, senão a invocação não funciona. Nota importante: espiritualmente, limiar costuma ser porta, espelho ou janela. Eu usei uma janela.
Duas velas têm que ser colocadas do seu lado do limiar, uma na esquerda e uma na direita. Às vezes o Apostador é um péssimo perdedor, então isso é sua proteção; se você fizer certo, ele não consegue cruzar a linha invisível que surge entre as velas. Só que se as velas ficarem muito perto do limiar, o Apostador não vai conseguir jogar direito o seu jogo porque não alcança as peças dele, mesmo que o resto do ritual esteja perfeito. Lembra: isso significa que as suas próprias mãos vão ficar expostas pra ele durante a sua vez.
Seu jogo tem que ser de estratégia. Damas, xadrez e alguns jogos de carta funcionam bem. A sorte tem que ser o mínimo possível, porque é uma força que o Apostador manipula fácil, igual um poltergeist mexe no mundo físico.
Você começa o jogo falando “Eu não consigo jogar isso sozinho, senta aí no limiar da minha casa” três vezes.
Você termina o jogo apertando a mão do Apostador. Pra mim, esse foi o passo mais foda de todos, porque você é obrigado a enfiar parte do corpo pra além das velas. Se você vencer, o Apostador tem que estar calmo o suficiente pra você finalizar o jogo e selar o limiar. Se você sair sem fazer esse passo final, ele pode ir atrás de você assim que as velas apagarem.
Você não pode sair até o ritual estar completamente cumprido. Cuidado: olhar pra trás também conta como sair.
Não há honra em vencer o seu visitante, e existem consequências pra quem perde pra ele.
Entender essas regras e saber por que você deve temer quebrar qualquer uma delas é essencial pra você sobreviver. É por isso que eu vou te dar todo o contexto agora.
No verão antes do primeiro ano do ensino médio, minhas melhores amigas Abigail, Brynn e eu mesma revezávamos fazendo um monte de noites do pijama e outros rolês gerais. Depois do fundamental, as duas iam pra escola pública do bairro enquanto meus pais pagavam pra eu estudar numa escola só de meninas. Eu tava morrendo de medo que elas fossem me esquecer, então garanti que a gente passasse o máximo possível daquele verão grudado uma na outra. Hoje, olhando pra trás, vejo que foi um desespero absurdo da minha parte, mas quem pode me julgar? Eu tinha treze anos. Abigail, Brynn e eu formamos uma espécie de irmandade pra aguentar as merdas do ensino fundamental. Aquele apoio todo estava prestes a ser arrancado de mim.
Enfim, como a gente passava tanto tempo junto e meu nome era Charlotte, nossos pais começaram a chamar a gente de “as ABCs”. Sacou? Abby, Brynn e Charlie. As ABCs. Um trio icônico pra caralho.
Alguns dias a gente passava no shopping, só olhando vitrine e experimentando roupa porque tinha treze anos e dinheiro era pouco. Outros dias a gente ia nadar na piscina pública. Quando não tinha mais ninguém, a gente brincava de sereia escondido. Com treze anos já, a gente teria levado a maior zoação se alguém descobrisse. Entre outras coisas daquele verão, a gente conversava. Conversava tanto que quase não sobrava mais assunto. Nós três passamos tanto tempo juntas que os dias derretiam uns nos outros que nem pote de plástico cheio de sopa grossa no micro-ondas. No finalzinho, a gente tava só arrastando os últimos dias de férias. Eu te conto tudo isso pra você entender o quanto a gente tava entediada pra valer.
Um daqueles dias virou uma noite de pijama na minha casa. Foi a Brynn que sugeriu que a gente testasse uns jogos sobrenaturais. Depois de discutir um pouco, a gente sabia que clássicos da internet tipo o Jogo da Meia-Noite estavam fora porque não tínhamos nada preparado. Ouija também tava fora porque eu não tinha tabuleiro. Abigail falou do jogo do Livro Vermelho, mas não achamos nenhum livro vermelho de capa dura, então ficou fora também. No fim, a gente decidiu pela Bloody Mary.
Primeiro a gente se apertou toda no banheiro. Porta fechada, luz apagada, todas nós falamos “Bloody Mary” três vezes de olhos fechados. Quando abrimos, ficamos completamente decepcionadas. Eu sugeri que talvez funcionasse se fizesse uma de cada vez, porta fechada — metade porque parecia uma boa ideia e metade porque ouvir minhas amigas se cagando de medo sozinhas ia ser hilário. Elas toparam. Brynn foi primeiro, sem medo nenhum. Abigail e eu ficamos escutando na porta, mas só ouvimos ela falando “Bloody Mary” três vezes. Depois era a vez da Abigail, mas ela se acovardou, então eu fui na frente dela. Igual eu imaginei que tinha rolado com a Brynn, não vi porra nenhuma. Mesmo que eu e a Brynn jurássemos que nada aconteceu, a Abigail ainda não quis fazer sozinha. A gente não forçou.
Uns quinze minutos depois, a Brynn sugeriu que a gente tentasse o Jogo do Apostador. Ela explicou as regras pra mim mais ou menos como eu acabei de explicar pra você. Como só uma pessoa pode jogar de cada vez, ela me escolheu pra ir primeiro porque eu era a melhor em jogos de estratégia das três.
Começamos a juntar o material: velas do estoque da minha mãe, caixa de fósforo da gaveta da cozinha e o jogo de xadrez de mármore dos meus pais. As velas foram fáceis, só estavam num armário no quarto deles. O fósforo também foi moleza porque meus pais estavam vidrados no seriado favorito deles aquela noite. Eu mandei a Brynn e a Abigail arrastarem minha escrivaninha pra frente da janela enquanto eu pegava o tabuleiro de xadrez — que foi a única parte complicada da operação. Eu não tive coragem de levar o tabuleiro inteiro de uma vez pra não arriscar derrubar nada. Por isso, acabei levando as peças de duas em duas pro meu quarto. Só quando todas as peças estavam seguras na escrivaninha é que eu trouxe o tabuleiro.
Depois que tudo estava montado, eu expulsei minhas amigas do quarto. Elas riram, reclamaram, mas acabaram obedecendo. Quando finalmente fiquei sozinha, sentei e recitei as palavras.
Por um segundo eu achei que o ritual não tinha funcionado. Na escuridão fraquinha da noite, eu soltei o nervoso do corpo. A ansiedade voltou multiplicada por dez quando todos os postes de luz da minha rua pareceram ser apagados de uma vez só. O silêncio que veio depois mostrava que a energia não tinha caído; aquele zumbido baixo de eletricidade que a gente aprende a ignorar ainda tava lá. Eu percebi que não era que as luzes tinham sumido — era como se todas as luzes externas da minha vizinhança tivessem sido cobertas ou sentadas por um manto gigante. Um único pensamento martelava na minha cabeça: quem diabos estaria usando um manto daqueles?
Eu forcei a vista pro breu total e comecei a ver rostos surgindo, então fechei os olhos rápido e virei o rosto. Quando abri de novo, evitei olhar direto pra boca escancarada da janela aberta.
Aí eu vi um único peão branco se mover uma casa pra frente. Precisei olhar bem pra conseguir ver de relance uma mão escura segurando o topo dele pra mover. Do lado de fora da janela estava tão preto que eu não conseguia distinguir o céu da coisa que eu tinha desafiado.
Os detalhes do resto do jogo de xadrez não importam, exceto o momento em que eu usei meu cavalo pra dar um garfo no bispo e na torre dele. Da escuridão veio um rosnado baixo que ecoou pela rua inteira. Pelo canto do olho vi a luz debaixo da porta piscar. Ouvi minhas amigas gritando de algum lugar da casa. Isso me deixou em pânico total; ninguém tinha me avisado que o Apostador conseguia fazer isso. Mesmo sem saber se ele estava realmente machucando elas ou se era só teatro ou efeito colateral da raiva dele, eu era muito supersticiosa. Eu não ia quebrar as regras e ir checar minhas amigas nem se elas estivessem sendo torturadas um pouquinho. Sim, era exatamente assim que eu pensava na época. Eu era um pesadelo pra criar.
O Apostador moveu a torre dele pra segurança, eu peguei o bispo com meu cavalo e ele pegou meu cavalo com a rainha. Uma troca limpa, mas que ainda valia alguma coisa.
Quando eu finalmente venci, o Apostador tentou se mandar na hora. Eu vi a luz dos postes voltando e o céu ficando um preto um pouco mais claro. Foi aí que eu entendi — ele estava tentando vazar sem terminar o ritual! Eu estiquei o braço por cima do tabuleiro e entrei naquele mar escuro que era o ar na minha frente. Estiquei, estiquei, agarrei, agarrei. Tropecei pra frente, caí de quatro e me arrastei pela janela. Não adiantou. A luz voltou e eu fiquei sozinha de novo.
Pois é, eu tinha ganhado o jogo… mas não tinha terminado o ritual. Só isso já deixou minha vitória completamente inútil.
A partir daquele dia, a sorte virou minha inimiga. É isso que o Apostador faz. Hoje, mais velha, eu nem consigo contar quantos pets morreram, quantos empregos perdi, quantas cirurgias deram errado e outras merdas do tipo. É como se ele conseguisse enfiar a mão nos cantos da realidade e mudar o número da sorte de uma pessoa. Hoje à noite eu tô tentando reconquistar a minha vida.
Se eu voltar vitoriosa ou se for arrastada pro fundo do inferno, presta atenção nas minhas últimas palavras: a lição que você tira da minha história não é que eu acho que você tem que ficar longe de feitiçaria ou bruxaria pra sempre. Você só precisa entender e aceitar as consequências das suas ações. Esse ritual não é só uma ligação pro outro lado — é um convite pra o outro lado vir fazer uma visita domiciliar na sua casa.

