segunda-feira, 23 de março de 2026

Eu não sei se a pessoa na minha casa é meu marido...

O ar quente e úmido de uma noite de início de primavera entrava pelas telas, carregando o cheiro de terra molhada para dentro da casa silenciosa.

Peter e eu estávamos acomodados no sofá; a sala era um cantinho aconchegante de luz âmbar e sombras suaves. Aproveitávamos a primeira oportunidade de abrir as janelas depois de um inverno especialmente rigoroso. Nós tínhamos comprado essa casa juntos recentemente — embora ela fosse dos meus pais, que queriam reduzir o tamanho da casa… mas, com essa economia, a gente seria idiota de recusar a oferta, apesar do trabalho que teríamos que fazer nela. A casa era mais antiga, mas, no geral, tinha sido bem cuidada. Um pouco de esforço e tinta, e a gente estaria com tudo em ordem.

Então era assim: a casa em que eu cresci seria o lugar onde Peter e eu, com sorte, um dia criaríamos nossos próprios filhos. Mas, por enquanto, estávamos dividindo um Cabernet barato, acompanhado de algumas fatias de queijo e linguiça defumada… um agrado para nos recompensar por termos consertado juntos aquele vazamento acima da varanda da frente e economizado uma boa grana por fazer isso por conta própria, com a ajuda de alguns vídeos na internet.

Peter parecia completamente à vontade, afundado nas almofadas de um jeito que deixava claro que ele não planejava se mexer pelo resto da noite. O cabelo escuro estava preso num coque bagunçado na nuca, e o maxilar dele estava escondido sob uma barba cheia, que só recentemente tinha começado a ganhar um toque grisalho.

Ele vestia um moletom enorme de um festival de música de verão a que tínhamos ido anos atrás. A barraca de produtos do festival tinha ficado sem o tamanho dele logo no começo da noite, mas a teimosia brincalhona e a recusa dele em ir embora sem aquela estampa específica fizeram com que ele saísse de lá com uma blusa de lã vários números maior. Praticamente engolia ele — e ele adorava. Era muito confortável, admito. Em mim, parecia uma lona de circo, de tão grande. Como ele não estava com nada por baixo do moletom, a tatuagem tribal no pescoço dele ficava totalmente à mostra: um desenho serrilhado de tinta do primeiro ano da faculdade, que ele diz que fez por pressão dos amigos, e que geralmente virava a piada principal das nossas brincadeiras particulares.

O controle da TV estava entre nós.

A gente estava no meio de um debate sem grandes consequências, tentando decidir se escolhia um filme novo ou se terminava de maratonar a última temporada daquele drama de vampiros — do qual a gente devia estar uns dez anos atrasado, mas amigos tinham recomendado, e acabou virando uma ótima desculpa para passar tempo juntos.

Falávamos com as vozes um pouco mais altas, talvez por causa das taças de vinho que tínhamos dividido, nos empolgando de verdade na discussão sobre a garçonete telepata versus um filme de época ambientado na Grande Depressão, que tinha ótimas críticas dos especialistas, mas que as redes sociais estavam detonando.

— Se for uma merda, a gente troca. Vamos dar uma olhada… você acha mesmo que robôs num algoritmo infinito sabem mais do que um crítico profissional? — Eu sempre gostei do interesse do Peter por filmes, e não consegui pensar em nada para rebater o ponto dele. Eu estava no meio de admitir que ele tinha razão quando…

De repente.

Sem um tremeluzir, sem um som, o mundo simplesmente deixou de existir. Uma explosão silenciosa e apavorante de luz branca detonou no centro da sala, mais intensa do que qualquer coisa que eu já tivesse imaginado. Era aquele tipo de brilho absoluto e cegante que eu associo a uma explosão nuclear — uma luz tão densa e pesada que quase parecia pressionar a minha pele. As paredes, a TV e o próprio ar se dissolveram numa única claridade pulsante, um clarão zumbindo que eu sentia vibrar na raiz dos meus dentes. Apertei os olhos com força, mas não adiantou. A luz atravessava minhas pálpebras, transformando todo o meu campo de visão num branco ardente, sem forma, sem contorno.

Então o mundo simplesmente se encaixou de volta no lugar. A luz sumiu tão instantaneamente quanto tinha surgido. A sala voltou ao seu brilho quente e familiar, exatamente como estava menos de um segundo antes. O abajur continuava aceso. A TV continuava emitindo seu zumbido baixo.

Fiquei imóvel, por um instante confusa e desorientada com a mudança abrupta. Me recuperei rápido, olhando ao redor enquanto as coisas familiares da minha casa me ancoravam de volta na realidade. Nada tinha mudado — mas alguma coisa tinha acontecido.

No impulso, estendi a mão até Peter, procurando o tecido macio e folgado do moletom.

— Amor, você viu isso? Que porra foi ess…?

Meus dedos encontraram apenas o couro frio e vazio do sofá.

Peter tinha sumido.

O pânico explodiu no meu peito. Eu chamei o nome dele, minha voz falhando dentro da casa silenciosa. Não veio resposta nenhuma da cozinha. Não veio som nenhum do corredor. Havia apenas o estalo da casa assentando e a batida frenética do meu próprio coração.

De repente, um som ritmado de batidas ecoou do fundo da casa. Alguém estava batendo na porta de vidro de correr que dava para o deque.

Eu me levantei com as pernas tremendo. Fui em direção à cozinha, com o piso de linóleo gelado sob os meus pés. As cortinas da porta de vidro estavam bem fechadas.

Com uma respiração entrecortada, estendi a mão e puxei o tecido para o lado.

Peter estava lá fora, no deque, como se nada tivesse acontecido — encostado no corrimão de madeira, tragando um cigarro eletrônico e mexendo no celular.

Eu encarei o aparelho na mão dele.

Peter tinha parado de fumar fazia quase cinco anos. Era uma conquista de que ele se orgulhava, algo que comentava com praticamente todo mundo que a gente conhecia. Quando foi que ele decidiu começar de novo?

Uma nuvenzinha de vapor cobriu o rosto dele por um segundo antes de se dissipar.

Eu recuei, minhas costas batendo na bancada. Era o rosto dele — mas o homem no deque era um estranho. A barba grossa tinha desaparecido. A pele estava lisa, recém-barbeada. O cabelo comprido e bagunçado tinha sido cortado bem rente, num corte militar; os fios escuros tinham sido substituídos por um loiro bem claro, quase chocante. Só então reparei que ele vestia uma camisa social azul, bem passada, abotoada, por dentro de um jeans rígido. Eram roupas que eu nunca tinha visto nele.

O mais aterrorizante de tudo era o pescoço. A pele estava pálida e lisa, sem marca nenhuma. A tatuagem tribal tinha sumido.

Eu destranquei e abri a porta só uma fresta. Minha voz saiu num sussurro quando perguntei quem ele era e o que tinha feito com o meu marido, minhas mãos tremendo enquanto eu segurava a porta.

O homem me olhou com confusão genuína. Deu mais uma tragada no cigarro eletrônico e perguntou do que eu estava falando. Disse que só tinha ido levar o lixo até a rua, como eu tinha pedido, antes de a gente começar o próximo episódio da nossa série.

Dando um passo à frente, ele foi até a maçaneta, com movimentos casuais e calmos.

Eu gritei perguntas na cara dele. Exigi saber para onde tinha ido a tatuagem. Perguntei por que o cabelo dele estava amarelo e curto. Eu chorei enquanto descrevia o moletom gigante e a calça de pijama que ele estava usando minutos antes. Acima de tudo, eu apontei para o cigarro eletrônico, lembrando ele dos cinco anos desde que tinha parado.

Colocando a mão entre o batente e o vidro, me impedindo de bater a porta com força, Peter entrou pela porta e veio para a cozinha. Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido. Disse que eu estava falando um monte de absurdo. Afirmou que nunca tinha tido tatuagem na vida. Passou a mão no cabelo loiro raspado e perguntou se eu estava bem. Olhou para o cigarro eletrônico na mão dele como se aquilo fosse tão natural quanto os próprios dedos.

O desespero me empurrou até a mesa de centro. Eu recuei correndo da cozinha e peguei meu celular, abrindo as redes sociais o mais rápido possível. Eu precisava ver a vida que a gente tinha construído. Abri nosso álbum de casamento de sete anos atrás e fui passando freneticamente.

Eu parei de respirar.

Nas fotos, de pé no altar, de smoking, estava o homem loiro, de rosto liso. Passei para a foto do nosso primeiro encontro na feira do condado. Lá estava ele, comendo algodão-doce, o pescoço à mostra e o cabelo curto. Abri uma foto borrada de uma festa de quase dez anos atrás. O homem na foto era exatamente o mesmo homem que estava em pé na cozinha — só que sem os quilinhos a mais que homens casados costumam ganhar.

Não havia nenhum sinal do cabelo escuro. Não havia vestígio de barba. O homem que eu lembrava — o homem que estava sentado no sofá trinta segundos atrás — tinha desaparecido. Eu levantei os olhos da tela, e o estranho loiro deu um passo na minha direção. Os olhos dele estavam cheios de uma pena curiosa e gentil. Ele estendeu a mão, chamando meu nome baixinho; a voz dele vinha carregada de preocupação, não de raiva.

Então eu olhei para as fotos do casamento que a gente tinha emoldurado atrás da TV. Era eu, no meu vestido de sempre — que eu tinha escolhido com a minha melhor amiga depois de um brunch de mimosas sem fim — e lá estava o homem que parecia o Peter, com o cabelo loiro curto, sorrindo ao meu lado. Outra foto mostrava a gente montados a cavalo, quando visitamos o rancho do tio dele no Colorado… um homem loiro, sem barba, sorrindo atrás de óculos escuros enormes, usando um chapéu de aba larga; eu atrás, com os braços em volta da cintura dele… eu nunca tinha montado num cavalo antes daquele dia e insisti para eu e o Peter irmos juntos porque eu estava com medo de cair.

Minha visão começou a girar.

Eu saí disparada. Passei por ele no impulso, minhas meias escorregando no linóleo enquanto eu virava a esquina em direção à escada. Voei para o nosso quarto e bati a porta, girando a trava da maçaneta com um estalo metálico seco. Sentei na beira da cama, ofegante, com a respiração vindo em arrancos, e liguei para a minha mãe.

Minha mãe atendeu no terceiro toque, com a voz pesada de sono.

— Sarah, o qu…

Eu a interrompi, exigindo que ela me dissesse de que cor era o cabelo do Peter.

Houve um silêncio longo e confuso do outro lado. Minha mãe perguntou do que eu estava falando. Disse que era loiro, obviamente. Perguntou se eu estava fazendo uma piada às custas dela, claramente irritada por eu ter acordado ela por causa do que ela achou que era uma pegadinha. Eu amo a minha mãe, mas ela sempre foi um pouco rígida no jeito. Ela nunca faria um truque comigo de propósito, nem se esforçaria para ajudar em brincadeiras desse tipo. Ela não é do tipo que entra em joguinho ou besteira.

Eu encarei a porta do quarto trancada, o celular escorregando da minha mão. Me afastei da porta, a visão embaçando de lágrimas. Do lado de fora, no corredor, as tábuas do assoalho gemeram sob um peso familiar. Em seguida veio o som da maçaneta de metal balançando — um chacoalhar agudo, ritmado.

Meus olhos foram para a foto minha e do Peter na nossa viagem para Saint Maarten: nós dois posando — mal — numa praia, enquanto um avião a jato passava por cima da gente, se preparando para pousar. Eu segurava meu chapéu de sol enorme para ele não sair voando com a força do motor, e lá estava o Peter com a pochete que ele comprou porque tinha medo de batedores de carteira, um braço levantado para o céu, apontando para a barriga do avião, o outro me segurando; sorrindo com cabelo loiro e o rosto barbeado, protetor solar cobrindo o nariz.

A voz do Peter atravessou a madeira, baixa e cheia de gentileza.

— Sarah, por favor — ele disse. — Só me deixa entrar.

domingo, 22 de março de 2026

Comprei um manequim num leilão de espólio de uma atriz morta. Acho que tem algo errado com ele…

Encontrei um manequim num leilão de espólio em Hollywood Hills. Não é como se eu trabalhasse com moda ou tivesse qualquer motivo pra me interessar especialmente por um manequim… mas eu me senti atraída por ela.

Pele pálida e lisa. Cabelo preso. Um vestido de renda e pérolas. E tinha alguma coisa nos olhos dela. Eram de vidro? De plástico? Nenhuma das duas opções parecia certa pra mim.

A mulher que estava comandando a venda disse que o nome dela era Cynthia. Disse que ela tinha sido feita por um escultor de sabão nos anos 1920. Quando o escultor morreu, deixou ela para uma atriz linda chamada Ruby del Mar. Ruby fez um monte de filmes noir nos anos 40. Mas teve uma vida meio trágica. Muitas mortes repentinas. E lá estava eu revirando a roupa íntima dela.

Enfim, eu decidi que o manequim poderia ser uma decoração legal, talvez um bom assunto pra puxar conversa. Mas quando meus amigos bateram o olho nela, eles riram. Disseram que ela era assustadora. Humana demais.

Aí, uma noite, eu acordei com um som. Tipo alguma coisa tentando rastejar pra fora de uma parede. Talvez um rato de palmeira. Mas quando eu fui até a sala, não tinha rato nenhum. Nenhum som. Só a Cynthia sentada ali onde eu tinha deixado ela. Quer dizer, ela estava no mesmo lugar… mas agora estava virada na direção do meu quarto. Eu fechei a porta quando voltei pra cama.

De dia, eu sou esteticista. Tenho um estúdio pequeno ali perto da Sunset Boulevard, em West Hollywood. Eu faço limpeza de pele, mas também aplico botox, faço preenchimento, esse tipo de coisa. Na segunda-feira eu estava no trabalho e uma cliente disse que estava fazendo aquela tendência de “resistência mental”. Não queria creme anestésico pro microagulhamento dela (basicamente uma agulhinha afiada espetando seu rosto de novo e de novo). Eu avisei que ia doer. Ela cerrou os dentes e insistiu.

Na manhã seguinte, eu fui escovar os dentes e travei na hora. Minha pele parecia mais lisa. E estava mais lisa. Meu rosto, de algum jeito, estava mais simétrico. Meu cabelo mais cheio. Não era nada drástico. Mas a gente sempre nota as menores mudanças no próprio rosto. Principalmente quando você faz o que eu faço.

Eu ainda estava olhando pro meu reflexo quando uma sombra passou atrás de mim. Eu levei um susto. Virei. A Cynthia tinha mudado de posição de novo. Ela estava com um sorrisinho de canto, olhando direto pra mim.

Eu tentei tirar ela do apartamento. Levei ela até o beco atrás do meu prédio. Deixei ela ao lado das caçambas de lixo. Mas quando eu voltei lá pra cima depois de uma noite bebendo, a minha porta da frente estava entreaberta. Quando eu empurrei mais, a Cynthia estava de volta no lugar de sempre.

Aí veio o acidente.

Minha amiga Cassie estava lá em casa. A gente estava arrumando depois do jantar e, quando eu entreguei pra ela uma lata de tomate aberta pra ela enxaguar, ela cortou a mão na borda afiada do metal. Sangue pra todo lado.

Eu corri pra pegar o kit de primeiros socorros, mas quando eu voltei, ela estava brava comigo. Perguntando por que, enquanto ela estava sentindo toda aquela dor, eu tinha ido lá e passado maquiagem. Eu não tinha. Óbvio. Mas quando eu olhei no espelho, eu vi que ela estava certa. Eu parecia… renovada. Rejuvenescida.

Parece loucura, eu sei. Mas, conforme os dias foram passando, a cada suspiro, a cada gemido contido de um cliente, eu conseguia sentir alguma coisa dentro de mim mudando. Cintura mais marcada, cílios mais escuros, lábios mais cheios.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Mas toda noite eu voltava pra casa e era como se a Cynthia estivesse aprovando. Não fisicamente, mas como se ela aprovasse em silêncio cada queimadura de laser, cada picada de agulha, cada momento em que eu causava dor. Como se ela tivesse orgulho de mim.

Eu disse pra mim mesma que estava imaginando coisas. Mas aí eu olhava no espelho e via uma linha sumida, um poro desaparecido, e era como se eu soubesse que a Cynthia estava contabilizando tudo. Quanto mais sofrimento eu causava, mais bonita eu ficava.

Olhando agora, eu devia ter tentado mais destruir ela. Queimado. Esmagado. Feito qualquer coisa. Mas tinha algo intoxicante no jeito que ela me fazia sentir. Como se eu fosse uma versão de mim que eu não sabia que podia existir. Quem é que quer abrir mão disso?

Eu não percebi na época, mas não era só por fora que estava mudando.

Uma noite, eu acordei e a Cynthia estava aos pés da minha cama, sentada. Me encarando. Totalmente imóvel. Mas aí, por um instante, eu juro que vi ela inspirar.

Eu quis pular da cama. Sair correndo. Mas quando eu olhei pro espelho do outro lado do quarto, eu congelei. Não era só eu encarando de volta. Era a Cynthia. O rosto dela tinha substituído o meu. Olhos pretos demais, como se estivessem cheios de sangue. Boca larga demais, um sorriso cruel cortado de orelha a orelha.

Eu estou escrevendo isso porque estou com medo de estar perdendo o controle. Dela. De mim. Tenho medo de contar pros meus amigos. Pra minha família. Mas o domínio dela sobre mim está apertando.

Eu só espero que alguém por aí possa ajudar.

Mais alguém já lidou com algo assim antes? Um manequim ou uma boneca que tem um poder sobre você? Que parece viva?

Eu só espero que alguém leia isso antes que seja tarde demais.

A garota na beira da estrada

Eu sei que isso soa clichê, mas essa história não aconteceu comigo. Na verdade, eu nem me lembraria dela se não tivesse encontrado uns amigos uns dias atrás e A Estrada não tivesse entrado na conversa. A história nem é tão assustadora assim, mas saber que alguém que eu realmente conheço, alguém em quem eu confio, diz que isso realmente rolou me dá um arrepio. Até o pai dela confirma que aconteceu.

A Estrada é um trecho de cinco milhas entre duas cidadezinhas vizinhas da minha cidade natal. A primeira vez que ouvi falar dela, eu tava voltando pra casa pro Natal. Eu tinha vivido a 700 milhas da minha cidade natal pela maior parte da vida adulta, e na época, eu tava me esforçando pra reconectar com a família. A única pessoa com quem eu tinha falado na maior parte daquele tempo era meu irmão caçula.

Voltar pra casa pra passar o Natal com a família ia ser a primeira vez que eu pegava uma viagem de carro tão longa, então meu irmão caçula pegou um voo pra cidade onde eu morava, ficou uns dias comigo, e aí a gente dirigiu de volta juntos. A ideia era ir alternando na direção pra não precisar parar tanto pra descansar.

No plano inicial, era uma viagem de 12 horas, o que significava que, se a gente saísse às 5 da manhã, chegava lá às 5 da tarde. Mas teve um deslizamento de terra que ficava atrasando o ETA cada vez mais. Às 10 da noite, a gente ainda tava a duas cidadezinhas e 60 milhas de distância. Meu irmão tinha dirigido as últimas duas horas e tava cansado, então paramos num posto de gasolina, abastecemos, e eu assumi o volante.

Quando passamos pela primeira cidadezinha e rumamos pra segunda, ele disse: “Vai devagar aqui. As curvas são perigosas, e bichos podem pular na frente do carro do nada. Ah, e se você vir alguém na beira da estrada tentando te fazer parar, não para.”

“Por quê?” Foi uma pergunta idiota. Era tarde da noite, e parar pra pegar um caroneiro não era lá muito esperto, mas pareceu estranho ele precisar falar isso.

Aí ele disse, bem tranquilo: “Porque eles não são reais.”

Eu quase bati na frenagem de tão pego de surpresa. 

“O quê que você acabou de me dizer?”

“O quê?” ele respondeu, do mesmo jeito despreocupado. “Todo mundo sabe disso. Essa estrada é famosa por isso. Sabe, ver coisas que não tão lá e gente de preto. Como você não sabe disso? Eu achava que você curtia terror!”

“Eu curto terror do conforto da minha casa, tomando chá, de fone de ouvido; não desse jeito!” Ele sorriu, então eu falei: “Tá me zoando, né?”

Ele deu uma risadinha. “Tô rindo, mas não tô te zoando. Isso é uma parada real que rola. Eu já vi umas duas vezes.”

“Nah, tá me enrolando na carniça.”

“Tá bom, se você diz. Só… sabe como é, não para se vir qualquer coisa.”

Naquela noite, eu não vi porra nenhuma. A gente chegou em casa uns 45 minutos depois, e eu esqueci completamente disso por uns dois anos. Um ano depois daquela viagem, eu me mudei de volta pra casa. Meu pai tava com insuficiência renal, o que significava que ele precisava de muito cuidado, e eu não queria que algo acontecesse com ele enquanto eu tava a 700 milhas de distância. Três meses depois de voltar, eu conheci uma mulher incrível, e a gente começou a namorar. A família dela é de uma das cidadezinhas ligadas pela Estrada — a primeira que eu passei naquela viagem de carro, na verdade. Foi visitando um parente dela que eu ouvi a história pela primeira vez.

A prima da minha namorada tava comemorando o primeiro aniversário do filho dela. Tinha churrasco, cerveja e crianças correndo pra todo lado, então uns poucos de nós sentamos num canto afastado e começamos a bater papo sobre nada em particular. A conversa devagar foi mudando pra viagens de carro e estradas porque eu e minha namorada curtimos um pouco de aventura de moto, e a gente falou como é chato quando algo na estrada fode com todo o seu itinerário. Eu mencionei o que tinha rolado comigo com o deslizamento de terra, como ele me obrigou a pegar a Estrada às 10 da noite, e como meu irmão caçula me falou que todo mundo sabia que coisas sinistras aconteciam lá.

“Ah, por favor. Superstição!” disse o marido da prima.

“Não, não é! Se você viaja entre as cidadezinhas com frequência suficiente, você sabe que tem algo errado!” disse a prima da minha namorada.

“As pessoas são crédulas, cara — ele acrescentou.

“É real, amor. Eu sei **de primeira mão** — ela rebateu.

“Ah, claro, querida.”

“Não, de verdade. Eu lembro quando eu tinha uns 15 anos. E olha que isso rolou às 2 da tarde, com o sol rachando. Eu tava de férias. Eu tava só de carona enquanto meu pai trabalhava, e eu ia no banco da frente na picape dele. Ele tinha que fazer uma entrega, um sistema de som pra uma festa ou algo assim, e a gente teve que passar pela estrada. A gente tava se aproximando daquela curva grande, a uns dois milhas antes do posto de gasolina? Você sabe qual é? Quando a gente viu essa garota. Ela tinha 16 ou 17 anos e tava andando na beira da estrada. Ela tava de blusa azul e calça jeans cinza. Parecia cansada, então meu pai parou do lado dela e perguntou se ela precisava de ajuda. Ela disse que só precisava ligar pra mãe pra avisar onde tava. Meu pai ofereceu o celular dele. Ela ficou meio na defensiva no começo, mas ver uma garotinha com ele provavelmente a convenceu que ele não era um predador ou algo assim, então ela pediu se ele podia dar uma carona até o posto de gasolina, onde a mãe dela podia buscá-la.

Ela deu um gole na cerveja, limpou a garganta e continuou. “Enfim, meu pai deu o celular pra ela. Ela ligou, e eu ouvi tudo que a mãe dela tava dizendo: ‘A gente tava tão preocupada. Onde você tá? A gente tá indo te buscar’, né? Elas se despediram, ‘Te amo, mãe’, e ‘Te vejo já já’. Nos dois minutos que restavam pra gente chegar no posto, ela ficou quieta e parecia que ia dormir. Ela também tava suando pra caramba, tipo se tivesse sido mergulhada numa piscina e vestido a roupa de volta em seguida, o que era esquisito porque o dia tava bem fresco. Finalmente chegamos no posto, e meu pai ofereceu pra ficar com ela enquanto esperava os pais, mas ela disse que tava tudo bem e que agora ela tava segura. Ela agradeceu a gente, e a gente seguiu viagem. Fizemos umas entregas, e quando o sol começou a se pôr, voltamos pra casa.”

Nesse ponto, ela começou a respirar pesado, tipo lutando pra achar as palavras pra terminar a história. “Quando o jornal das 7 da noite começou, a gente ouviu. Uma garota de 17 anos que tava desaparecida foi encontrada pela mãe dela perto de um riacho atrás do posto de gasolina. Ela tava de blusa azul e calça jeans cinza. Era ela, eu soube antes mesmo de ver a foto na TV. Ela tava desaparecida há quase um dia e tinha sido morta e jogada naquele riacho naquela manhã. Isso significa que, na hora que meu pai e eu pegamos ela, ela já tava morta há cinco horas.”

A gente se entreolhou; uns de nós genuinamente arrepiados, outros fingindo que o ar não tinha ficado mais pesado de repente.

A prima da minha namorada terminou a história dizendo: “Eu não ligo se você acredita ou não. Isso aconteceu comigo e com meu pai. Vai perguntar pra ele se quiser, mas rolou. Eu tive que dormir com a luz acesa por semanas.”

Nem preciso dizer, eu perguntei pro pai dela. Ele confirmou. E ele acrescentou que, assim que aquela garota entrou na picape, ele se sentiu incrivelmente triste e com frio, e não conseguia entender o porquê.

Eles nunca pegaram quem machucou aquela garota.

Eu não pego muito aquela estrada. Não é que eu fique sempre pensando na história, eu mal me lembro dela agora. Mas tem algo primal em não querer chegar perto daquele trecho de cinco milhas. Acho que me acostumei a evitar por padrão; até de dia.

sábado, 21 de março de 2026

Eu trabalho no controle de pragas no turno da noite. Não mato só baratas...

São exatamente quatro galões de termiticida industrial pra mascarar completamente o cheiro de um trato digestivo aberto. Eu descobri isso hoje à noite. Tô sentado na cabine da minha caminhonete de trabalho agora mesmo, cheirando a pinho químico e suor, só encarando o volante enquanto o motor ronca em marcha lenta.

Tenho 36 anos. Trabalho no controle de pragas no turno da noite pra esses complexos de apartamentos de luxo caríssimos e inflados no centro da cidade. Você não ia acreditar no quão porcos esses ricos são. Eles moram nesses apartamentos de três mil dólares por mês, mas deixam comida pra viagem apodrecendo em bancadas de mármore importado. Deixam os cachorros de raça pura mijarem no piso de madeira nobre.

Eles são parasitas. Sério, piores que as baratas que eu borrifo veneno. Não mato qualquer um. Sou um limpador. Só miro nos piores dos piores, aqueles que tratam tudo e todo mundo ao redor como um vaso sanitário.

Pega o Apartamento 412. Um babaca arrogante do ramo financeiro. Ele deixa sacos de lixo pingando no corredor pra estragar o carpete. Na semana passada, eu vi ele gritando com uma faxineira idosa porque ela desconectou o roteador dele sem querer. Ele era a praga perfeita. Precisava ser exterminado.

Eu tenho os crachás master. A gerência do condomínio dá pros técnicos da noite pra gente fazer os borrifamentos preventivos mensais obrigatórios nos apartamentos vazios ou onde o pessoal tá dormindo. Normalmente, meu método é impecável. Eu entro por volta das 3 da manhã. Coloco minha máscara respiratória, vou direto pro quarto deles, passo um zip tie industrial pesado no pescoço enquanto eles tão no sono REM profundo, e puxo. Bonito, limpo e acaba em dois minutos.

Aí eu só dobro o corpo e arrasto pra fora num dos meus bins amarelos de químicos com rodinhas. Os bins são herméticos e aguentam até cinquenta galões. Fiz isso quatro vezes esse ano. Ninguém olha duas vezes pro cara cansado de pragas carregando equipamento pra van no meio da noite. É um trabalho invisível.

Hoje à noite ia ser igualzinho. Eu entrei no 412 às 3:15 da manhã. O apê cheirava a cerveja velha e maconha. O cara tava dormindo de bruços num colchão caro sem lençol. A TV tava no mudo, passando uns highlights de esportes. Eu tava de luvas, sacos de lixo pesados prontos, e o zip tie mais grosso esticado entre as mãos. Entrei no quarto dele, completamente silencioso.

Mas o filho da puta idiota tinha um bong de vidro enorme bem no chão do lado da cama. Eu não vi na escuridão. Minha bota de trabalho pesada acertou a base e ele estourou contra o criado-mudo. Pareceu um acidente de carro naquele quarto quieto pra caralho.

Ele se sentou na hora, bem acordado, e me viu ali de pé no uniforme escuro e máscara respiratória. Eu pulei em cima dele com o zip tie, mas ele surtou e jogou uma luminária de latão pesada da mesinha de cabeceira direto na minha cara. Acertou meu osso zigomático — porra, dói pra cacete agora, tá inchando meu olho.

Ele gritou. Um grito de verdade, gutural, de pavor puro. Eu o derrubei no colchão e tive que usar as mãos nuas. Não deu pra ser cirúrgico ou limpo. Foi uma briga feia e desesperada. Ele se debatia, arranhava minha cara, chutava a parede de dry-wall com tanta força que rachou. Thump. Thump. Thump.

Finalmente prendi os braços dele com os joelhos, enfiei os polegares na traqueia e esmaguei com tudo que tinha. Pareceu pisar num galho seco. Ele engasgou e cuspiu, sangue espirrando na minha máscara, até finalmente amolecer.

Mas o barulho... porra, mano, o barulho foi catastrófico. Bem quando os braços dele caíram, ouvi batidas fortes e agressivas na porta da frente.

"Ei! Tá tudo bem aí dentro? Vou chamar a polícia!", gritou uma voz abafada do corredor.

Jesus Cristo. Meu estômago despencou de vez. Não deu pra usar o bin. Não deu pra limpar. Só peguei minha bolsa de ferramentas, saí correndo pela porta da varanda, e desci pela escada de incêndio de metal como um rato. Rasguei minha jaqueta num parafuso enferrujado na descida. Tô quase certo de que o cara do segundo andar tava olhando pela janela quando pulei no beco. Vi uma sombra se mexer atrás das persianas.

Agora tô estacionado a três milhas dali, atrás de um strip mall, tremendo, bebendo água morna. Será que aquele cara viu minha cara? Viu o logo da empresa nas minhas costas? Tenho que ir trabalhar amanhã como se nada tivesse acontecido pra não parecer suspeito. Fico checando o retrovisor, esperando luzes piscando.

Ele arranhou meu pescoço. Será que pegou meu DNA debaixo das unhas? Nem sei. Não paro de ranger os dentes.

Eu ferrei tudo dessa vez...
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Quem sou eu

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

Eu não sei se a pessoa na minha casa é meu marido...

O ar quente e úmido de uma noite de início de primavera entrava pelas telas, carregando o cheiro de terra molhada para dentro da casa silenc...