Desde que comecei a sair com a Carla, eu já sabia dos problemas dela com comida. Sou nutricionista e conheço muito bem os hábitos alimentares anormais. No começo, ela escondia isso com muito cuidado, mas eu sempre sentia a tensão quando aparecia alguma comida nova no prato dela ou quando passava um anúncio da Domino’s na TV.
Já estávamos namorando há mais ou menos um ano quando, finalmente, ela começou a se abrir sobre o assunto.
“Pra mim é uma ladeira escorregadia. Eu não posso dar nenhuma liberdade pra minha dieta, senão o inferno inteiro vai se abrir”, ela me disse.
Eu atribuí aquilo à ansiedade típica relacionada a comida, que a maioria dos meus clientes com transtornos alimentares sente.
“Eu posso comer o que eu quiser, desde que eu controle as porções, registre no meu diário alimentar e encaixe dentro do meu limite calórico diário”, ela falou dando de ombros, como se aquilo não parecesse um jeito exaustivo pra caralho de viver.
Mesmo assim, eu estava tranquilo. “O que quer que ela precise fazer pra passar o dia sem surtar”, pensei.
“Mas, hipoteticamente, digamos que um dia, por qualquer motivo, você não consiga seguir a dieta. Você está dizendo que não conseguiria lidar com essa mudança?” perguntei, curioso sobre o que eu precisaria saber pro nosso futuro (que eu esperava que fosse longo) juntos. Como diz o ditado, estamos atrelados um ao outro.
“Confia em mim, eu virava uma pessoa completamente diferente quando entrava em compulsão. As menores coisas me jogavam em semanas de caos. Ficava nojento pra cacete. Eu simplesmente me recuso a deixar isso acontecer de novo.”
Do meu ponto de vista, eu achava que as regras rígidas da Carla eram insustentáveis. Eu ficava preocupado que, se algo ruim acontecesse na nossa vida e ferrasse a dieta dela, ela não teria as ferramentas emocionais necessárias pra se levantar e seguir em frente.
Claro, eu não sou terapeuta, mas ouvir aquilo me deixou preocupado, e eu queria ajudar minha namorada de qualquer jeito que pudesse. Foi por isso que comecei a dar conselhos pra ela.
A Carla me aturou porque via o quanto eu estava sério, e mesmo relutante com as minhas ideias, ela fez um esforço meia-boca.
Nos primeiros dias, passamos expondo ela gentilmente a comidas que não faziam parte da rotina normal. Coisas ainda saudáveis, claro, e que eu não diria pros meus clientes evitarem.
Ela ficava preocupada com as calorias por grama, açúcares adicionados e porcionamento sem balança. Embora pareça contraditório pra alguém que tem compulsão alimentar, eu estava preocupado que a restrição da Carla estava virando obsessão. O objetivo dessa exposição gradual era comer com atenção plena, sem monitoramento pedante e sem aquele medo constante de perder o controle.
Passaram-se umas duas semanas e eu já notava melhoras. Começamos a sair pra restaurantes nas noites de encontro com mais frequência, ou ela ia comigo pro café que eu frequento antes do trabalho. Duas taças de vinho aqui, um croissant ali, nada excessivo. Em casa, ela continuava com as refeições de sempre, mas de vez em quando sugeria fazer cookies num dia chuvoso, coisas assim.
Isso me deixava muito feliz de ver ela tratando a comida menos como uma droga viciante que precisava tomar todo dia e mais como combustível necessário pra funcionar tanto física quanto emocionalmente.
Ela parecia feliz, orgulhosa… pelo menos por um tempo. Mas não demorou muito pra algo mudar dentro dela, escondido fundo o suficiente pra eu não ver os sinais até que aquilo a consumisse por completo.
Ela agia como se tudo estivesse normal. Jantávamos juntos depois do trabalho e íamos dormir como sempre, mas quando tirei o lixo uma manhã, notei algo escondido bem no fundo da sacola. Havia embalagens de delivery, pacotes vazios de cookies e potes inteiros de cobertura de bolo.
Percebi que ela não estava indo tão bem quanto eu pensava, e pior: ela estava escondendo de mim.
Verifiquei nossa conta bancária conjunta (a que usávamos pras despesas da casa) e rolei horrorizado vendo transação atrás de transação de comida que eu nunca soube.
Eu não só fiquei decepcionado comigo mesmo por não ter ajudado ela do jeito que achava que estava ajudando, como também fiquei puto com a falta de cuidado da Carla. Sim, como nutricionista eu ganho bem, mas entre o aluguel e as contas da casa de repouso da minha mãe, a gente não podia bancar a Carla comprando comida em excesso daquele jeito.
Eu sabia que ia ser desconfortável pra nós dois, mas precisava confrontar ela. Então esperei ela chegar em casa aquela noite, com meu e-mail aberto e pronto caso a Carla quisesse voltar pra terapia.
Já estava ficando tarde, mas eu fiquei acordado mais um pouco, imaginando ela parando pra comprar comida antes de voltar. O apartamento foi ficando cada vez mais escuro conforme a noite avançava, e eu decidi descansar os olhos um pouco, esperando na poltrona da sala pelo barulho das chaves e da porta da frente abrindo.
Não era a intenção, mas acabei cochilando. Não sei por quanto tempo, mas quando o som de mastigação me acordou, estava completamente escuro.
Tentei apertar os olhos na escuridão pra ver se a Carla já tinha chegado, mas a única fonte de luz era o relógio digital verde do micro-ondas. Eu estava longe demais pra ler os números, mas enquanto olhava pra ele, a luz piscou por um segundo, como se algo tivesse passado na frente.
“Carla?” chamei no vazio do apartamento. Não tive resposta, só o barulho molhado e desleixado contínuo, tipo esfregão dentro de um balde.
Levantei pra acender a luz e descobrir de onde vinha o barulho. A mudança de macio pra frio na sola dos meus pés me avisou que eu tinha chegado na cozinha. O barulho ficava mais alto a cada passo. Ao lado da pia tinha uma luz de toque, daquelas fracas que grudam embaixo dos armários. Quando estiquei a mão pra acender, meu ombro esbarrou em algo quente. Algo que não deveria estar ali.
O barulho parou.
Senti meu coração dar um pulo forte dentro do peito.
Eu conseguia sentir o perfume dela e algo azedo, metálico. Tipo carne podre no fundo de uma lixeira.
Em pura confusão, perguntei de novo: “Carla? É você?”
O silêncio era sufocante. Estiquei a mão pra luz de novo e, depois que meus dedos tocaram o plástico, lançando uma luz azul fraca e sombras grossas pela cozinha, eu a vi. Ela estava parada no balcão da cozinha, curvada rigidamente sobre… alguma coisa. Ela estava comendo aquilo, dava pra perceber pelas listras escuras cobrindo as mãos e a boca dela e pelos pedaços brilhantes que ainda segurava nas mãos e grudados no cabelo. A gosma pastosa estava espalhada pelo balcão inteiro, e um pouco tinha até caído no chão, respingado entre os pés dela.
Ela não olhou pra mim nem se mexeu um centímetro desde que a luz acendeu. Era como se ela nem soubesse onde estava ou o que estava fazendo.
“Carla… O que é isso?” Estiquei a mão com cuidado pro monte carnudo e coagulado que ela estava apertando. Líquido escorria, e a polpa era espremida entre os dedos dela. Isso já estava me dando ânsia de vômito. Eu só queria que ela largasse aquilo.
Em questão de segundos, ela girou pra me encarar e me empurrou com força. Antes que eu conseguisse entender o que estava acontecendo, senti a parte de trás da minha cabeça bater forte no chão. Eu estava de costas, tentando piscar pra afastar a dor, mas na mesma hora ela já estava em cima de mim.
Eu olhava pra cima pro rosto dela, coberto pela escuridão, o cabelo molhado daquela coisa fazendo cócegas no meu rosto e pingando pedaços frios e molhados em mim. Tentei empurrar ela, tentei chutar e espernear, mas tinha algo errado. Ela tinha uma força animal, tipo um urso faminto tentando esmagar meus ossos.
“Carla, sai de cima de mim, porra!” gritei, mas acho que ela nem me ouvia mais.
Os dedos ossudos dela eram como algemas nos meus pulsos, e eu berrei quando ela se aproximou mais, cravando os dentes no meu ombro, rasgando a camisa e arrancando um pedaço da pele num único golpe irregular. A dor queimando fez minha visão ficar branca, e eu sentia o sangue escorrendo pelo bíceps e formando uma poça embaixo do meu braço.
A boca da Carla mastigava, triturando minha carne e engolindo com força. Lágrimas começaram a escorrer dos cantos dos meus olhos. Eu estava apavorado. Aquela não era a minha Carla; era alguma coisa maligna. Forcei todos os músculos, lutando sem parar pra conseguir dominar ela.
Por um momento ela pareceu que ia dar outra mordida, mas parou. Alguma coisa saiu da boca dela, um rosnado baixo e grave, tipo um arroto. Ela começou a tremer, as costas arqueadas pra cima, e a barriga inchada pulsou antes de um jato de bile quente e pedaços cobertos de cabelo jorrar da boca dela, se espalhando todo em cima de mim. O cheiro queimou meu nariz quando respirei.
O vômito era vermelho apodrecido. Viscoso e escuro, como se as entranhas dela tivessem virado uma papa sangrenta de podridão.
Ela parou por um segundo depois que o último fio escorreu pelos lábios, e eu consegui soltar um braço, empurrando ela pra longe e me levantando desesperado. Corri pra porta, mas senti ela agarrar a parte de trás da minha camisa, tentando me puxar de volta.
O pânico corria em todas as minhas veias. Segurei no balcão pra não cair e estiquei a mão pro fogão. Meus dedos procuravam desesperados a alça da frigideira de ferro fundido enquanto a Carla se jogava nas minhas costas, rasgando minha pele com as unhas.
A camada gelatinosa que cobria o balcão fez meu braço escorregar. Quase perdi a pegada enquanto lutávamos.
Estiquei mais, forçando pra continuar de pé, e finalmente minha mão se fechou na alça da frigideira. Girei o ferro fundido por cima do ombro com toda a força que consegui. Acertou a cabeça dela e ela caiu pra trás, cambaleando.
Não perdi tempo depois disso e corri pra porta, girei a tranca e abri com tudo. Ouvi ela uivando de dor atrás de mim, mas isso não me impediu de descer correndo as escadas de metal e me afastar do apartamento o máximo que consegui.
Me vi num posto de gasolina, meio atordoado e ainda de pé só por causa da adrenalina. A moça do caixa, assustada com minha camisa preta de sangue e o pedaço faltando no ombro, chamou o 911.
Uma ambulância me levou pro hospital, e depois de me remendarem, mandaram um policial pra fazer perguntas. Eu não queria que eles fossem atrás da Carla, então menti, disse que foi um ataque estranho de animal enquanto voltava do trabalho. Eu sabia que soava idiota, mas meu cérebro não conseguia inventar mais nada na hora.
Desde aquela noite estou hospedado num hotel e não voltei pra ver a Carla. Ainda fico me perguntando exatamente o que aconteceu.
E sendo completamente honesto… eu ainda amo ela. Ela foi a melhor namorada que eu já tive, e sinto que tudo isso foi culpa minha. Acho que, tentando consertar ela antes dela estar pronta, eu acabei empurrando ela pro abismo.
Seja sincero: eu devo dar uma segunda chance pra “nós”?

