quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Estou preso em um loop temporal por um demônio. Hoje é o meu post número cinco mil

Vou começar com alguns avisos, porque o título desse post é um pouco enganoso. Primeiro, não tenho 100% de certeza da contagem. Durante um bom tempo eu tinha, mas agora tenho que admitir que existe uma margem de erro de pelo menos ±5. Isso apesar de todos os meus esforços pra lembrar, e isso me deixa inquieto pra caralho, porque é prova de que minha cabeça tá escorregando. Mais sobre isso depois. Apesar dessa incerteza toda, tenho marcado os últimos posts meus como “dia cinco mil”. Eles parecem performar melhor quando o título tem um número redondo. Não sei bem por que eu me importo com uma merda dessas; talvez só faça bem fingir que ainda sou humano o suficiente pra caçar atenção. Também ajuda imaginar que eu tenho algum controle sobre o tamanho da audiência que lê meu testemunho. Ajuda ainda mais fantasiar que um dia alguém com conhecimento esotérico/oculto vai responder com um método de fuga. Claro que tudo isso é só meu jeito de lidar com a situação. Já faz tempo que aceitei meu destino.

Segundo, tô só chutando quando uso a palavra “demônio”. Eu poderia ter dito “Estou preso em um loop temporal por uma entidade de outro mundo”, mas não tem o mesmo impacto. Além disso, o post não bomba tanto quando eu descrevo como “demônio” ou “diabo”. Eu tenho um monte desses joguinhos. Outro é rastrear quais frases/detalhes atraem quais tipos de comentadores. Tem um cara que só responde se eu mencionar a cidade onde moro; outro só fala alguma coisa se eu mentir e escrever que tô preso há 1000 anos. Novidade virou um recurso raro necessário pra minha sobrevivência, então desculpa qualquer detalhe aleatório nesse post — faz parte do meu protocolo regimentado de sanidade.

Como eu estava dizendo, não faço a menor ideia se meu captor é realmente um demônio ou qualquer coisa do tipo. Dito isso, acho que o termo não tá totalmente fora de lugar. Não sou religioso (e especialmente não sou mais), mas essa coisa definitivamente encaixa na descrição do que eu imaginaria que um demônio pareceria e agiria. Pensei nisso pra caralho, e “parasita demoníaco” é a melhor explicação que consigo dar pra identidade da criatura que tá parada no canto do meu quarto agora mesmo. Mas nunca vou saber com certeza. Pode ser um alienígena, um fantasma, ou algum experimento de laboratório que escapou, pelo que eu sei. Não é como se ele fosse me contar. Ele só falou um punhado de vezes, e nenhuma delas me fez acreditar que tem a menor intenção de se explicar pra mim.

Sei ainda menos sobre como ele me encontrou e me prendeu no loop pra começo de conversa. Não explorei nenhum templo antigo abandonado e fui amaldiçoado, não é o resultado trágico de algum pacto faustiano com um estranho enigmático nem o backfire irônico de um desejo de pata de macaco. Na real, sempre tive como regra vaga não mexer com coisas que não entendo. Sou uma pessoa cautelosa por natureza e passei a vida pegando toda oportunidade pra reduzir riscos ou evitar me meter em qualquer coisa perigosa. Mas no final não significou porra nenhuma. A única explicação que consigo dar de como acabei aqui não é explicação nenhuma, é um fato bruto. Eu sou profundamente azarado. Passei anos pensando naquele dia, neste dia, e não consegui apontar absolutamente nada que, se eu tivesse mudado, teria me salvado desse destino. Eu ter sido selado no tempo foi só um acidente bizarro, igualzinho a um acidente de avião ou um tsunami. Se criaturas como essa existem — e elas existem —, significa que algum pobre coitado vai acabar na mira delas por puro acaso. Só consigo imaginar que eu estava pisando em alguma falha psíquica extradimensional no lugar errado na hora errada, e agora fui engolido inteiro por algo horrível. Uma criança que coloca a língua pra fora durante uma nevasca está fadada a pegar pelo menos um floco de neve, mesmo que milhões de outros cheguem ao chão em segurança. Só que o floco derrete rápido, poupando ele de um destino como o meu.

Muita coisa do começo tá ficando nebulosa, mas ainda lembro do primeiro loop com clareza total. Na real, não percebi que tinha algo errado nas primeiras horas do dia. Acordei bem cedo, então minha cabeça ainda tava meio enevoada e não reconheci que a data no meu celular era do dia anterior. No meu trajeto matinal pro campus, comecei a apertar os olhos enquanto admirava o nascer do sol pela janela do trem na minha frente. O jeito que o sol refletia na água parecia estranhamente familiar, como se eu tivesse visto em um sonho ou filme. Esse déjà vu vago só endureceu virando um terror quieto quando cheguei na biblioteca. Como estudante de mestrado, eu tava lá pra adiantar um pouco da minha tese antes da primeira aula do dia. Ao abrir o documento, porém, não tinha nenhuma das adições que eu tinha feito na noite anterior. Apavorado achando que tinha perdido todo aquele progresso, chequei o histórico de edições e descobri que a edição mais recente era da noite retrasada. Antes que eu pudesse reagir direito a isso, fui interrompido pelo meu amigo Jon vindo na minha direção.

“De volta aqui tão cedo? Você realmente não consegue parar de queimar a vela pelas duas pontas assim”, ele disse com um sorrisinho, puxando uma cadeira ao meu lado. “Acho que posso te fazer companhia.”

Meus olhos se arregalaram de choque enquanto eu virava a cabeça devagar pra encarar ele. Ele tinha dito isso ontem. Isso tinha acontecido ontem. Esse momento, essa troca, aquelas palavras naquela ordem. Meu coração começou a bater mais rápido devagar enquanto eu murmurava algo quase incoerente e fazia sinal de que ia levantar. Depois de correr direto pra porta pra pegar ar fresco e me acalmar, respirei fundo umas vezes antes de checar o celular. 8:37 da manhã, 24 de fevereiro. Aquelas respirações fundas não serviram pra nada quando comecei a hiperventilar. Hoje era pra ser o dia 25. Eu sabia disso com mais certeza do que de outros dias, porque o 25 é o aniversário do meu pai. Eu tinha passado a noite anterior editando um vídeo de todos os meus familiares desejando feliz aniversário pra ele. Era pra eu mandar isso hoje. Mas hoje era ontem. Eu desabei no chão, meu corpo se revoltando contra essa verdade nojenta. Por entre respirações irregulares, só um pensamento ficava martelando na minha cabeça: Isso não pode estar acontecendo.

Mas estava acontecendo. Passei as próximas horas lutando contra um surto psicótico enquanto andava pela cidade lotada, perguntando pras pessoas a data periodicamente. Era 24 de fevereiro toda vez, sem exceção. Cada confirmação piorava aquela sensação de aperto e ardor bem fundo no peito. No final resolvi que isso podia ser só um glitch solitário no estilo “falha na matrix”. Era só um soluço isolado, e eu ia voltar pro fluxo do tempo quando acordasse amanhã de manhã. Esses sonhos foram esmagados quando acordei no 24 de fevereiro seguinte, segurando a cabeça nas mãos por horas depois de checar o celular.

É aqui que as coisas começam a ficar borradas. Lembro dos meus primeiros meses em traços largos, mas os detalhes estão sumindo. Sei que minha primeira fase de luto diante da eternidade, a negação, consistiu em tentar descobrir que lição eu precisava aprender pra me libertar do que eu ainda acreditava ser algum castigo cósmico. Meditei, voltei pra igreja, liguei pra ex-namoradas, qualquer coisa que eu conseguisse pensar que pudesse levar a alguma reconciliação. Nada disso fez merda nenhuma. Depois de um tempo, acreditar que eu podia me libertar pelos meus próprios esforços virou uma maldição sufocante em vez de um farol de esperança.

Em vez disso, comecei a me entregar pro loop, explorando as novas avenidas de entretenimento que tinham se aberto pra mim. Descobria exatamente quais sequências de palavras faziam o Jon, meus professores ou até a garota sentada do meu lado no trem rir, chorar ou se apaixonar por mim. Descobri como convencer eles de que eu tava preso num loop e sentia um prazer doentio vendo os rostos deles se contorcerem em expressões distorcidas de horror e luto. No começo era um pouco nojento saber mais sobre essas pessoas do que os próprios entes queridos mais próximos, mas superei esse peso moral. Superei um monte de pesos morais. Nadar em tempo profundo faz isso com você. Meu entretenimento naqueles primeiros meses e anos ia muito além de esgotar todas as opções de diálogo com as pessoas no meu caminho. Meu corpo resetando todo dia significava que eu podia experimentar qualquer droga sem criar tolerância ou vício químico. O medo de overdose também não era limite, porque toda vez que eu exagerava, simplesmente acordava na minha cama no começo de mais um 24 de fevereiro. Devo ter passado pelo menos seis meses experimentando heroína pela “primeira” vez. Olho pra trás com carinho, mesmo que embaçado, daqueles dias.

Em vez de bater de frente com vício, foi o tédio que cortou meu uso de drogas. Era uma experiência surreal olhar pra uma seringa de heroína com nada além de apatia no coração. Devo ser o único humano vivo que já enjoou de narcóticos pesados. Hedonismo é só escapismo no fundo, e escapismo só vale a pena quando você tem uma crença razoável de que pode realmente escapar do que tá tentando evitar. Sem essa possibilidade disponível pra mim, até as atividades que pareciam mais cheias de adrenalina acabavam virando chatas e até irritantes. Talvez alguns de vocês conseguissem se picar pra eternidade, mas eu enjoei. Enjoei de violência também. Você só consegue dar um soco na cara do seu professor no meio da aula ou assassinar o prefeito um número limitado de vezes antes de ficar dessensibilizado e enjoar da coisa toda. Humanos são puxados naturalmente pro significado, e quanto mais tempo passava por cima de mim, mais eu percebia que esse dia nublado de fevereiro não tinha absolutamente nada pra me oferecer.

Minha memória é mais falha na próxima fase do meu aprisionamento. Quando a busca por emoção deu lugar a uma névoa melancólica, parei de me importar com a minha situação. Sem tentar mais escapar nem curtir minha nova vida, simplesmente me recusei a interagir com ela de qualquer jeito. Passei o que devem ter sido décadas só deitado na minha cama, mal pensando em qualquer coisa. Você sabe como é ficar tanto tempo sem nenhuma vontade de comer? Sem a menor vontade de levantar a cabeça do travesseiro? Eu já estava morto pro mundo no momento em que fiquei preso, mas agora eu estava completamente morto pra mim mesmo. Eu tinha tentado suicídio antes de me prender voluntariamente na cama, mas toda queda livre de 150 metros pro concreto terminava do mesmo jeito: com meu alarme me acordando num grito gutural. Essa era minha próxima melhor alternativa. Eu planejava ficar ali deitado indefinidamente, torcendo pra que quanto mais nada eu experimentasse, menos consciente eu ficasse. Perto do fim, estava começando a funcionar. Comecei a me sentir menos como uma criatura senciente e mais como a memória de alguém sobre uma. Era quase como se minha própria consciência estivesse sendo sugada, como se eu estivesse perdendo o que me fazia saber que eu podia perder coisas.

Em algum momento durante esse declínio cognitivo autoinduzido, porém, algo primal dentro de mim se agarrou aos aglomerados de sombras no canto do meu quarto. Pareceu instintivo, como se minha amígdala tivesse identificado uma ameaça pela primeira vez em uma eternidade. Fazia um tempo impossivelmente longo desde que eu tinha focado conscientemente minha visão em qualquer coisa, mas esse surto repentino de atividade cerebral me devolveu pra um estado em que eu queria desfocar minha visão e focar naquelas sombras. Meus olhos se arregalaram de terror quando finalmente consegui ver o que realmente estava parado a poucos metros de mim.

Era uma figura alta, musculosa, humanóide, com pele cinza carvão áspera. Com a cabeça a poucos centímetros do teto, ela estava virada pra mim, bloqueando a porta do meu quarto. Não usava nada além de um pano preto grosso amarrado na cintura. Mesmo quando foquei os olhos, o contorno da criatura ainda parecia borrado, como se estivesse sempre na minha visão periférica. Não tinha olhos. No topo da cabeça tinha só uma grande mancha de pele enrugada, tipo de cotovelo, só que as linhas eram bem mais profundas. Apesar da falta de olhos, eu tinha certeza de que ela estava intensamente focada em mim. Não tinha nariz também, só um sorriso enorme de orelha a orelha revelando fileiras de dentes pretos irregulares. Babava pela boca sorridente, fios grossos de saliva pendurados nos lábios. Deve ter percebido que eu estava olhando pra ela, porque soltou quatro palavras numa voz baixa e ofegante:

“Volta a dormir.”

Embora as palavras fossem quase sussurradas, era como se cada uma penetrasse minha alma com uma intenção maliciosa pura. Eu sabia por que ele estava babando. Entendi ali na hora que isso era um predador, e eu era a presa. Não obedeci o comando; acho que nem conseguiria, mesmo se quisesse nesse ponto. A onda de choque e sensação percorrendo meu corpo depois de eras de nada parecia um balde de água gelada no meu sistema nervoso inteiro. Fiquei ali sentado, paralisado, olhos arregalados de horror fixos na coisa. Mas enquanto eu continuava laser-focado na criatura, ela começou a ficar cada vez mais borrada. Era como se estivesse se dissolvendo quanto mais eu encarava. Isso continuou até virar só o estranho aglomerado de sombras que eu tinha identificado no começo. Depois de ficar na cama o que pareceu horas, finalmente juntei coragem pra atravessar elas. Não aconteceu nada.

Comecei a viver de novo depois desse primeiro encontro. Não tinha certeza total do motivo, talvez porque o escapismo voltou à moda depois que eu tive uma experiência que eu faria qualquer coisa pra esquecer. Tentei imaginar que era só consequência da minha mente derretendo, que era só o último suspiro do meu subconsciente. Mas lá no fundo eu sabia a verdade. Era real, e minha intuição me dizia que eu devia minhas décadas de tormento pra criatura no canto do meu quarto. Mas por que eu nunca tinha visto ele antes? Por que ele não simplesmente colhia minha alma ou me arrastava pro inferno ou pra nave-mãe dele ou pra onde quer que fosse e acabava logo com isso?

Aqui está o que eu sei. Essa criatura, esse demônio, não come no sentido tradicional. Parece não ter interesse nenhum no corpo da vítima; só se importa com a mente. Além disso, só se interessa por mentes desoladas e inativas. Essa é a única forma de eu fazer sentido daquele primeiro encontro e das aparições seguintes. Agora, você imaginaria que a refeição ideal dele seria um paciente em coma num hospital, né? Mas não pode ser. Eu era um intelectual em ascensão fazendo mestrado em antropologia evolutiva, e mesmo assim ele preferiu me desgastar em vez de se banquetear com uma mente já quebrada. Então tenho que concluir que esse demônio não é um necrófago. Ele caça, e o loop é o jeito.

Na minha vida antiga, passei muito tempo pesquisando a origem da humanidade. A maioria das pessoas atribui nosso sucesso evolutivo e domínio sobre o mundo natural à nossa inteligência aprimorada, mas isso é só parte da história. Humanos primitivos eram caçadores de resistência. Tínhamos a maior stamina de qualquer mamífero terrestre do mundo. Perseguíamos nossa presa sem descanso, sem dar a ela chance de recuperar o fôlego ou se curar de ferimentos contínuos. Éramos uma força opressora total de morte e desespero pra qualquer pobre coitado que cruzasse nosso caminho. Não importava o que você fizesse; a gente te pegava no final. Eu antes achava que isso era um nicho evolutivo único, que éramos as únicas criaturas que caçavam desse jeito. Agora eu sei melhor.

Até psicopatas podem ser torturados com confinamento solitário. Um espaço sem nenhuma novidade ou propósito eventualmente leva a mente à loucura. O loop é minha cela. É o mecanismo pelo qual o demônio pretende esvaziar meu crânio, me levar a uma morte cerebral funcional. Não tenho como saber se isso é algo necessário pro processo digestivo dele, tipo cozinhar carne crua, ou algo opcional pra dar sabor, tipo tempero. De qualquer forma, é assim que ele escolhe caçar, e quase conseguiu.

Claro, isso é só minha teoria de trabalho sobre o que está acontecendo. Mas ela é sustentada pelo que aconteceu desde nosso primeiro interação. Depois que voltei pro mundo fora do meu quarto, comecei a notar mudanças na sequência normal de eventos que eu estava acostumado. Era sutil no começo, mas quando você vive o mesmo dia milhares de vezes, capta cada detalhe imperceptível. O Jon andava um pouco mais devagar na minha direção na biblioteca, ou o sol ficava um pouco mais baixo e mais fraco no céu do que deveria no meu trajeto de trem. Isso piorou com o tempo, as coisas ficando cada vez mais vazias e sem graça. Eu pegava um livro novo na biblioteca só pra descobrir que todas as páginas estavam em branco. Tentava gritar obscenidades pra um estranho pra ter reação, e ele simplesmente passava reto. O céu, os prédios e as árvores começaram a desbotar pra um cinza escuro.

O tempo todo, eu continuava vendo aglomerados de sombras nas bordas da minha visão periférica, tomando forma mais sólida se eu continuasse ignorando eles. Pelo que entendo, o demônio está apertando o cerco no loop depois de falhar em me matar no quarto. Está reduzindo a largura de banda de tudo, removendo sistematicamente qualquer fonte de estímulo que eu possa usar pra me manter são. Ele odeia quando tô distraído, quando tô absorvido em qualquer coisa que me deixe esquecer minha situação por um segundo que seja. Eu estava lendo um dos livros que ainda tinham texto um dia, bem preso no monólogo interno do personagem principal. Não cheguei ao fim da página antes de ouvir uma única palavra sussurrada bem atrás de mim. Ainda num tom baixo, mas bem mais forte do que da primeira vez que ouvi ele falar.

“Para.”

É assim que cheguei à conclusão de que ele me quer dócil e sem cérebro. No mesmo dia, escrevi meu primeiro post aqui. Foi curto e mais um grito de socorro do que um testemunho, mas fiz de novo no dia seguinte. Foi bom dar voz à minha luta. E isso nos traz até agora. Passei os últimos 5000 (mais ou menos) dias fazendo tudo que posso pra adiar o declínio mental inevitável, com meus posts diários sendo uma parte chave do meu protocolo de sanidade. O protocolo é simples, mas sigo ele à risca. No fundo é só passar cada dia buscando o máximo de estímulo novo possível. Livros, filmes, escrita criativa, e até lendo todas as suas experiências aqui. Entrei em cada prédio da minha cidade e explorei tudo. Sei falar 10 línguas (no momento tô aprendendo islandês). Tenho um domínio de nível de mestrado em física quântica. Se eu voltasse pro fluxo normal do tempo, eu seria um polímata de verdade. Mas não vou voltar. Sou um condenado no corredor da morte.

O protocolo teve que sofrer algumas alterações conforme menos e menos fontes de novidade ficam disponíveis. Um dia acordei e descobri que entrar na URL de qualquer serviço de streaming devolvia só uma tela preta. O mesmo com a Wikipedia, que foi uma perda particularmente brutal. Tive que recorrer a mídia analógica pra maior parte do meu estímulo. Discos de vinil, fitas VHS, o pacote completo. Sempre gostei de coisa antiga mesmo, e tem várias lojas na minha cidade que vendem equipamentos vintage (hoje em dia o caixa nem fala nem faz nada se eu roubar na cara dura). Sou grato que esse site ainda funciona e que consigo continuar compartilhando meu testemunho. Escrever minha história ocupa várias horas de cada dia, mas é essencial. É como eu retenho minhas memórias do que aconteceu e de quem eu sou. Sem a repetição diária da minha situação, eu teria enlouquecido há muito tempo.

Mas não consigo manter isso pra sempre. Eu sei. Eventualmente o demônio vai sacar, e meus discos não vão emitir som nenhum. Eventualmente todo livro que eu abrir vai estar em branco. Posso até perder a cabeça antes disso acontecer. Rachaduras estão se formando no último ano. Não queria admitir por um tempo, mas a perda recente da contagem desses posts finalmente me fez encarar. Alguns dias demora mais do que deveria pra eu lembrar o nome do Jon, ou pra lembrar que “amanhã” é o aniversário do meu pai. Meu Deus. Meu Deus. O nome dele não se escreve assim; é John. Porra, caralho, eu realmente tenho escrito assim esse tempo todo? Caso em ponto. Tô escorregando. Ele vai vencer no final, e ele sabe. Mesmo agora, consigo ver o contorno fraco de um sorriso na minha visão periférica. Aquele sorriso nojento, presunçoso do caralho.

Chegou um ponto nesse ciclo em que eu quis morrer, sumir. Mas quanto mais eu entendia o que realmente estava acontecendo comigo, maior ficava a vontade de lutar. Isso não aconteceu comigo do nada; eu devo o que calculo ser quase um século de sofrimento a esse demônio. A culpa é dele. Não faço ideia de quantas pessoas ele já condenou a esse destino doente no passado, nem quanto tempo levou pra todas elas quebrarem. Mas eu não vou quieto. Vou cuspir no carpete enquanto me arrastam pro inferno. Vou alongar esse processo o máximo que puder. Se tudo que posso fazer diante desse mal de outro mundo é incomodar ele, então é isso que vou fazer. Eu sou Sísifo e a pedra me odeia. Mas eu odeio a pedra ainda mais.

O que a mosca fica pensando enquanto se dissolve na boca da planta carnívora? Ela realmente acredita que tem chance de lutar? Acho que nunca vamos saber. Vejo vocês todos amanhã.

A Parada

Era uma cidadezinha chamada Grindsworth.

Grindsworth era considerada uma cidade sortuda pra caralho. Nunca tinha tempo ruim, quase zero crime, terras agrícolas ótimas e a cidade vivia ganhando recursos de presente do prefeito.

Muitas famílias de cidades vizinhas se mudavam pra Grindsworth justamente por causa dessa sorte dela.

Mas a cidade tinha uma regra estranha que todo mundo que morava lá precisava seguir.

Ninguém podia sair de casa na Noite da Parada.

Todo dia 9 de cada mês, durante a noite, uma parada passava pela cidade tocando música até o sol nascer. Ninguém explicava o motivo de não poderem ver a parada, mas mesmo assim todo mundo obedecia a regra.

Eu moro em Grindsworth desde pequeno. Quando eu era criança, meus pais eram perfeitos. Nunca brigavam, nunca me trataram mal. Eram os pais que qualquer um sonharia em ter.

Mas depois que minha mãe morreu, há três anos, meu pai virou alcoólatra. Ele gritava comigo se eu não estivesse em casa antes do pôr do sol. Eu não podia fazer porra nenhuma à noite sem levar bronca. Mesmo assim, às vezes eu saía escondido quando ele apagava cedo.

Uma noite, meus amigos resolveram se encontrar justamente na Noite da Parada. Eu fiquei na dúvida no começo, mas depois de uma briga feia com meu pai, decidi ir junto.

Depois que meu pai desmaiou no sofá da sala, eu saí de fininho pra encontrar a galera.

Mais ou menos duas horas antes do pôr do sol, me encontrei com o Fritz, o Alan e a Hannah. Sou amigo do Fritz e do Alan desde o ensino fundamental. Da Hannah eu não sabia quase nada — só que ela estava namorando o Alan há uns meses.

A gente se reuniu na casa do Alan e começou a jogar Monopoly. A mãe dele estava em viagem de negócios a semana toda, então ele estava cuidando da casa sozinho. Enquanto a gente jogava, as sirenes de tornado da cidade não paravam de tocar, lembrando todo mundo pra ficar dentro de casa na Noite da Parada.

Na hora eu não sabia, mas meus amigos na verdade queriam ver a parada. Eu achava que ia ser só mais um sleepover normal, como sempre.

O Fritz falou que já tinha saído durante a Noite da Parada antes e que era tudo balela, uma farsa.

O Fritz sempre foi aquele cara doido pra caralho, vivia fazendo merda só pra se mostrar. O estranho é que ele quase nunca se machucava de verdade.

A única vez que eu lembro dele se ferrando feio foi quando quebrou o braço tentando escalar o playground da escola ainda no fundamental. Fora isso, quando não estava fazendo besteira, ele era um amigo foda.

O Alan ficou interessado na hora e topou ir junto com o Fritz. Só eu e a Hannah éramos contra. Mas o Alan acabou convencendo a Hannah a entrar na onda também.

Eu não queria ir de jeito nenhum, mas fiquei com medo do que poderia acontecer se eu deixasse eles sozinhos. E se desse merda e eles precisassem de mim?

Acabei concordando. Antes de sair, peguei escondido uma faca da cozinha do Alan e guardei na minha mochila.

Uns 10 minutos antes do pôr do sol, as sirenes de tornado tocaram o último aviso antes da Noite da Parada.

O Fritz nos levou pra um beco perto da praça central. No beco tinha duas lixeiras gigantes. Ele mandou a gente arrastar elas pro fundo do beco pra gente ter onde se esconder durante a parada.

Naquele momento meu coração estava batendo tão forte que parecia que ia explodir. Minhas mãos tremiam pra caralho. A vida inteira me falaram pra nunca olhar a parada… e ali estava eu.

Isso é tão idiota. Porra, por que caralho eu tô fazendo isso?

De repente, a gente ouviu o som de música e passos de marcha vindo de longe…

A gente viu várias pessoas de uniforme vermelho vivo marchando pela rua, todas sincronizadas. A maioria carregava instrumentos e tocava aquela música de banda que ecoava pelas ruas. Alguns faziam truques — malabarismo com pinos, acrobacias, esse tipo de coisa.

E bem no meio do grupo tinha um carro alegórico. Parecia que era pra ser uma ovelha.

Meus amigos estavam boquiabertos, impressionados pra caralho. Mas eu notei uma coisa estranha: todos os integrantes da parada tinham cordas ligando eles ao carro alegórico.

De repente, um berro ensurdecedor saiu de dentro do carro alegórico. A parada parou na hora. Todo mundo ficou congelado.

No canto da minha orelha eu ouvi a Hannah sussurrando: “Que porra foi—”

Olhei pro lado e vi o Fritz em pânico total tapando a boca dela com a mão. Nunca na vida eu vi o Fritz com tanto medo.

Olhei de volta pra parada e… eles estavam olhando direto pra gente.

O Fritz gritou: “CORRE!”

A gente saiu correndo do beco atrás dele. Enquanto corríamos, a música voltou a tocar, só que agora mais rápida, mais agressiva, mais intensa.

Eu ouvia gritos atrás de mim. Na hora eu estava em pânico total e nem percebi que o Alan e a Hannah não estavam mais comigo.

De repente, um dos membros da parada passou o braço no meu pescoço e tapou meus olhos com a outra mão. Eu me debati pra caralho tentando me soltar, mas o filho da puta não largava.

Enquanto ele me arrastava, eu ouvia meus amigos gritando e um rosnado horrível, gutural. Tentei me debater mais ainda e ouvi um barulho nojento de osso esmagando, junto com a Hannah gritando e chorando desesperada. Consegui finalmente tirar a mão dele dos meus olhos e vi o que estava rolando.

Na minha frente tinha uma coisa humanóide grotesca de uns 6 metros de altura. O corpo parecia velho, mas era musculoso e completamente deformado. O rosto era uma aberração: olhos cinza saltados, dentes podres, boca sem lábios nenhum.

A parte de baixo do corpo dela era onde todas aquelas “cordas” se conectavam aos membros da parada. Não eram cordas… eram cordões umbilicais.

Nas mãos dela estava o corpo do Alan, já meio comido. Ao lado da criatura, caído no chão, estava o carro alegórico que ela usava como casca.

Eu me debati pra cacete até conseguir me soltar do membro que me segurava, peguei a faca na mochila e enfiei no peito dele. Ele caiu. Corri até a Hannah e comecei a esfaquear várias vezes o membro que segurava ela, mas a porra não reagia nem um pouco.

Em puro desespero, agarrei o cordão umbilical que conectava o membro e cortei ele no meio. O cara soltou a Hannah na hora, começou a gritar feito um animal e, segundos depois, explodiu em chamas, virando só um corpo carbonizado.

O resto dos membros recuou de nós. A gente aproveitou o momento e correu pra porra toda. Olhei pra trás enquanto corria e vi que eles não estavam mais nos perseguindo.

A criatura rastejou de volta pra baixo do carro alegórico e a parada continuou marchando pela rua. O sol finalmente estava nascendo.

A Hannah acabou ligando pra polícia e contou tudo o que rolou. Ela insistiu pra eu ficar e esperar os policiais, mas eu só queria voltar pra casa.

Cheguei correndo, encontrei meu pai ainda largado no sofá. Tentei acordar ele pra contar o que tinha acontecido.

Ele não acordava. Chequei o pulso… Ele tinha morrido dormindo.

Anos depois, eu moro agora com minha tia e meu tio em outro estado. Ninguém nunca mais soube do Fritz desde aquela noite. Ele simplesmente sumiu.

Tentei falar com a Hannah algumas vezes, mas ela ficou muito deprimida depois daquilo.

Recentemente fiz mais pesquisa sobre a cidade e descobri algumas coisas.

1. Isso já aconteceu várias vezes desde que a cidade foi fundada. Por que ninguém nunca tentou matar aquela coisa?

E 2. Aparentemente, quem vê a parada fica amaldiçoado com azar o resto da vida. Será que eu causei a morte do meu pai só por ter visto aquilo?

Eu perdi tudo naquela noite. Vou descobrir que porra era aquela criatura e, de algum jeito, vou matar ela. Se você souber qualquer coisa sobre a Parada, por favor me avisa.

Minha experiência jogando com o tabuleiro Ouija...

Desde que a gente se conheceu, a gente sempre curtiu pra caralho contar histórias de fantasma. Na real, foi isso que nos uniu de verdade. Quando a gente era criança, ficava acordado até altas horas nas festinhas do pijama trocando histórias assustadoras. Eu poderia ter escrito um livro inteiro com todas as lorotas que eu contava pra ela, pro irmão e pra irmã dela. A satisfação que eu sentia vendo eles grudados em cada palavra minha, com aqueles olhos arregalados de medo...

Conforme a gente foi crescendo, isso virou assistir vídeo no YouTube de atividade paranormal e fenômenos bizarramente inexplicáveis. Depois a gente saía pra fazer nossas próprias caçadas a fantasma. Eu lembro que eles moravam no segundo andar, no apartamento dos fundos de um prédio antigo de dois andares no bairro Back of the Yards, em Chicago. Agora era a vez dela me contar histórias de fantasma. Só que dessa vez as dela eram de verdade.

Elas sempre envolviam o quartinho bem no fundo da casa. Um cômodo pequeno demais pra caber uma cama, então era onde ficava o computador da família. Era ali que a gente passava a maior parte do tempo vasculhando o YouTube atrás dos vídeos mais apavorantes que a gente conseguia achar. Ela vivia falando de como ouvia vozes. Aquele chiado de sussurros bem no ouvido dela quando estava sozinha. Até a mãe dela jurava que já tinha ouvido vozes estranhas saindo do quarto dos fundos.

Então, sempre que eu ia lá pra ficar, as histórias que eles contavam ficavam martelando na minha cabeça, me deixando com o ouvido ligado e olhando por cima do ombro o tempo inteiro.

Na maior parte do tempo eu nunca tinha vivido nada. Mesmo depois de todos aqueles vídeos sinistros que a gente assistia juntos, eu ainda não tinha presenciado porra nenhuma com meus próprios olhos. Isso até uma noite no verão de 2005. Ela me chamou pra ir lá depois da aula. A gente estudava na mesma escola. Normalmente o irmão e a irmã dela estavam por perto pra entrar na brincadeira macabra, mas acho que era sexta-feira, então eles deviam estar saindo com os amigos deles dessa vez.

Éramos só nós dois. Foi aí que minha amiga me mostrou que tinha comprado um tabuleiro Ouija. A gente sempre falava como seria foda pra caralho brincar com um, então ter um de verdade pra testar me deixou animadíssimo. Isso foi antes de todo mundo ter celular no bolso, então nas nossas caçadas a fantasma a gente geralmente filmava com a câmera digital Canon dela ou com o gravador de voz. Nessa noite a gente decidiu ir com o gravador de voz.

Era um dia quente pra porra em Chicago, máximas nos 80s. Quando entramos no quarto, eu lembro que estava abafado e úmido pra caralho, então minha amiga abriu uma fresta na janela pra deixar entrar uma brisa que simplesmente não existia. A gente limpou uma mesinha pequena, montou o tabuleiro e colocou o gravador de voz bem do lado. Os nervos já começaram a subir. A gente tinha passado a tarde toda maratonando nossos vídeos amadores de encontro com fantasma e fenômenos estranhos inexplicáveis, então o clima já estava tenso pra cacete. Ela colocou as mãos no planchette e eu fiz o mesmo. Ela explicou as regras: “A gente traça um oito três vezes e depois faz uma pergunta. Não solta até a gente dizer tchau pro tabuleiro, não importa o que aconteça.”

Minhas mãos já estavam suando frio. A gente fez o oito três vezes como ela mandou e deixou o planchette bem no meio do tabuleiro, com as nossas mãos descansando levemente em cima. “Vai, pergunta alguma coisa.” Ela me olhou com um sorrisinho de canto de boca; dava pra ver que ela também estava nervosa. “Tá bom. Tem alguém aqui nessa sala com a gente?” O silêncio era ensurdecedor. Eu lembro de conseguir ouvir meu coração batendo forte pra caralho no peito. Nada. “Tem alguém aqui? Fala com a gente.” A gente ficou sentado ali por um minuto inteiro, mas nada rolou. Minhas mãos estavam encharcadas de suor, segurando aquele planchette de plástico que brilhava fraquinho na luz baixa do quarto. Foi aí que eu tirei as mãos pra enxugar na calça... e aconteceu. Eu nunca vou esquecer essa merda.

Minha amiga ficou sentada ali, imóvel que nem estátua, mãos nunca saindo do planchette triangular. O cabelo dela caía na cara, fazendo sombra, mal dava pra ver o rosto dela. Ela falou. Mesmo estando bem na minha frente, eu não consegui entender porra nenhuma do que ela disse. “Quê?”, eu perguntei. Ela falou de novo, mas agora dava pra distinguir só um monte de besteira nessa voz rouca, gorgolejante, gutural pra caralho. Eu comecei a ficar apavorado de verdade. Chamei o nome dela: “Eu não tô entendendo nada do que você tá falando, para de brincar.” De repente eu senti a brisa mais gelada do mundo, tipo gelo puro, invadindo o quarto inteiro. Depois vieram aqueles estalos altos pra cacete de todos os cantos do quarto, igual quando a casa range de noite, só que nunca tinha sido tão alto e vindo de todo lado ao mesmo tempo.

Eu pirei completamente e pulei da cadeira. “Que porra tá acontecendo?!” Chamei o nome dela de novo. “Para de porra de brincar, eu tô com medo pra caralho!” Ela finalmente voltou a si. “Diz tchau. Você tem que dizer tchau”, ela me falou. Eu agarrei o planchette e a gente puxou ele pra baixo, até onde estava escrito “Goodbye” no pé do tabuleiro. Eu lembro de estar em pânico total, olhos enchendo de lágrima. “Tô fora, cara, eu não vou mexer com essa merda nunca mais”, eu falei. “Que porra aconteceu?! Você tá bem?” Eu nem conseguia firmar as mãos, tremendo pra caralho. “O que você tava falando? Você soava super estranha e eu não entendia nada do que você dizia.” Ela só me olhou, confusa. “Eu só tava fazendo a pergunta, tem alguém aqui com a gente.”

A gente ficou conversando sobre o que tinha rolado. Ela confirmou tudo que eu senti: o quarto ficou gelado do nada e ela também ouviu as paredes estalando e rangendo. Sobre ela ter começado a falar em línguas de repente, ela não tinha muita explicação. Tudo que eu sei é que ela estava falando sério pra caralho quando disse que não estava brincando. A única coisa que ela tinha perguntado foi exatamente aquela pergunta. Eu já tinha tido o suficiente. Estava tarde. Eu fui embora pra casa. Foi a caminhada de volta mais apavorante que eu já fiz na vida inteira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Os Insetos Estão Ficando Maiores

"Você percebeu que os insetos estão ficando maiores, ou sou só eu?"

Não lembro quem disse isso no trabalho, mas a frase ficou martelando na minha cabeça enquanto eu terminava minhas tarefas. Foi uma frase tão casual, tipo um pensamento bobo de última hora. Eu já odiava insetos do jeito que eles são agora, exceto talvez as joaninhas, que até são legais. Só de pensar na frase eu já tremi e segui com meu dia. Empurrei aquilo pra fora da mente e pensei em outras coisas. O que eu ia fazer pro jantar, o que eu deveria escrever no meu diário, coisas desse tipo. Qualquer coisa pra manter minha cabeça longe de insetos gigantes.

Não posso dizer que sou a pessoa mais observadora do mundo, mas algumas semanas atrás eu vi uma aranha-saltadora na minha entrada de carro do tamanho de uma moeda de um dólar. Olha, onde eu moro elas normalmente são só do tamanho de centavos. Ver uma daquele tamanho me assustou pra caralho. Mantive distância, mas a última coisa que eu queria era aquele filho da puta peludo pulando na minha perna e me fazendo gritar tão alto que acordasse os vizinhos. Era grande, sim, mas não era nada fora do comum pra mim. Na minha opinião, todas as aranhas parecem ‘grandes demais’.

No dia seguinte, meu vizinho George bateu na minha porta e falou:

"Você não vai acreditar nisso."

"O que foi?", eu perguntei.

Ele estava com um sorriso enorme no rosto, quase eufórico. Tipo criança que acabou de encontrar algo que não devia. Ele acenou pra eu ir junto:

"Vem cá, me segue. Cara, espero que ele ainda não tenha voado!"

Calcei minhas chinelas e fui atrás dele pro quintal da casa dele. Assim que ele abriu o portão e apontou, meu queixo caiu ao ver um grilo do tamanho de um filhote de cachorro. O inseto gigante estava devorando o pé de tomate dele. As pernas traseiras esfregavam uma na outra fazendo um som de chirp surpreendentemente metálico e alto.

"Legal, né?"

"Legal se você acha que insetos nojentos são legais."

"Você acha que se eu começar a dar comida pra ele, ele fica por aqui, tipo um bicho de estimação?"

"Faça o que quiser, cara."

Naquela noite, os sons suaves normais dos grilos foram substituídos por um monte de chirps altíssimos, tão descarados quanto o grasnar de patos ou gansos. Enfiei tampões de ouvido e coloquei a música ambiente no volume máximo.

Acordei com um cachorro gritando, um som que gelava o sangue de qualquer um. Era um latido agudo, cheio de medo. Saí da cama e olhei pela janela do quarto pra ver o cachorro da outra vizinha, a Clara — um buldogue — se contorcendo na grama. Alguma coisa brilhante e preta estava enrolada nele, com pinças gigantes cortando a nuca dele.

Era a porra de uma centopeia.

Corri da cama, calcei os sapatos e saí correndo pra fora. Aquele cachorro podia até me acordar no meio da noite às vezes, mas nenhum animal de estimação merece aquela merda. Pulei a cerca e corri até o cachorro. A centopeia estava cravando as pinças no pelo, as centenas de pernas finas como lápis acariciando o corpo dele freneticamente. Quando eu agarrei ela, a sensação foi muito errada.

Quando você pega um inseto normal, ele parece estranho porque os animais geralmente são peludos ou têm textura dura. Insetos são diferentes: duros como pedra mas leves como uma pena. Quando peguei a centopeia, ela tinha peso, parecia que eu estava levantando uma cobra.

Ouvi uma voz:

"Que porra é essa?!"

Era a Clara, olhando em pavor pra mim enquanto eu arrancava aquele inseto do cachorro dela. Juro que, enquanto eu puxava, as pinças afundavam ainda mais no pelo. O sangue tingia o pelo branco do cachorro. Com um último puxão forte, arranquei ela do cachorro e as pinças levaram junto um pedaço de carne. Enquanto eu segurava aquilo nas mãos, ela se contorcia loucamente, as pernas se mexendo pra cima e pra baixo. Levantei ela acima da cabeça e joguei por cima da cerca na direção da rua, torcendo pra algum coitado passar por cima e ter que limpar as rodas.

Clara correu pro lado do cachorro e olhou os ferimentos.

"Que porra foi aquela?", ela gritou, "Pelo amor de Deus, o que era aquilo?"

"Eu não sei!", respondi, "Deve ter sido algum tipo de centopeia mutante ou sei lá o caralho!"

"Escuta… Obrigada, Burt!"

"Tranquilo, só leva ele pro veterinário agora mesmo!"

Ela assentiu e saiu correndo pro carro, deixando um rastro de sangue de cachorro pra trás.

No dia seguinte, antes de ir pro trabalho, eu estava cuidando do meu jardim e, embaixo da terra, alguma coisa enorme se mexeu. A pele rompeu a superfície da terra solta e eu vi um corpo grande, viscoso e cheio de anéis. Era claramente uma minhoca, mas também era algo gigantesco. Pensei em tocar nela, mas aí ela afundou de volta na terra.

Quando voltei pro trabalho, todo mundo estava reunido numa reunião discutindo como marketear um novo desodorante com cheiro de árvore Bradford Pear. Perguntei se alguém já tinha sentido o cheiro de uma árvore Bradford Pear e eles disseram que não. Quando eu contei como era o cheiro, eles piraram pensando em como vender aquilo. Fizemos um breve intervalo e, enquanto eu estava sentado perto de uma janela checando e-mails, ouvi um helicóptero passando. Só quando olhei pra fora que não vi helicóptero nenhum, mas ouvi o barulho pesado das hélices.

Aí eu vi o besouro-de-junho, com a casca verde-azulada brilhando sob o sol quente. A princípio parecia de tamanho normal, até eu perceber que ele estava bem longe. As asas batiam tão alto que pareciam um helicóptero. Levantei o celular pra tirar uma foto e foi aí que ele voou na minha direção. Não era pra me atacar, por assim dizer, ele só estava voando sem rumo. Quando passou perto da janela, o tamanho real ficou óbvio. Ele pairou do meu lado; as asas subiam e desciam rápido e barulhentas, fazendo as janelas tremerem. O besouro-de-junho era mais ou menos do tamanho de um urubu, a envergadura era absurdamente grande, e de perto dava pra ver aquelas pernas gigantes penduradas como pêndulos. Ele olhou pro reflexo dele por um segundo e depois zumbiu embora.

Quando eu estava dirigindo de volta pra casa, vi luzes piscando em volta de um acidente de carro. Na pista, tinha um carro virado e, do lado, um besouro-rinoceronte do tamanho de um cavalo, cheio de buracos de bala. Pus esverdeado escorria dos furos e pingava no asfalto. Baixei o vidro e perguntei pra um policial:

"Ei, que porra aconteceu aqui?"

O policial olhou pra trás pro cenário e voltou os olhos cansados pra mim:

"Estamos recebendo chamados assim a semana toda, mas os caras da delegacia achavam que era algum tipo de pegadinha elaborada. Aí recebemos uma ligação sobre um besouro virando um carro. Quando chegamos, não esperávamos ver aquela coisa correndo por aí. Ele partiu pra cima da gente e nós só abrimos fogo."

"Tem outros… desse tipo?"

"Insetos grandes? Não sei… talvez."

Ele fez sinal pra eu seguir e eu fui pra casa.

Tive muita dificuldade pra dormir, por razões óbvias. Eu não fazia ideia do que caralhos estava acontecendo com o mundo ao meu redor. Aqueles insetinhos insignificantes que se arrastavam debaixo dos nossos pés estavam simplesmente ficando maiores e maiores a cada dia. Eu estava quase pegando no sono quando ouvi alguma coisa empurrando e abrindo minha porta. Olhei por cima dos lençóis e vi algo me encarando da porta. Aquilo preenchia todo o batente, o corpo era imenso, e no escuro eu não conseguia identificar o que era. Coloquei meus óculos e peguei o celular. Acendi a lanterna e iluminei aquela forma escura gigantesca na minha frente… e queria não ter feito isso.

A aranha-saltadora tinha voltado.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

Estou preso em um loop temporal por um demônio. Hoje é o meu post número cinco mil

Vou começar com alguns avisos, porque o título desse post é um pouco enganoso. Primeiro, não tenho 100% de certeza da contagem. Durante um b...