Acho que foi no começo de janeiro quando aconteceu. Estava um frio congelante lá fora. Sempre que eu saía, eu conseguia sentir instantaneamente que começava a congelar de dentro pra fora. Ficou insuportável só de ter que sair de casa. Não consigo imaginar ninguém saindo de casa por vontade própria quando está tão insuportavelmente frio lá fora.
Então, quando eu vi ela lá fora, eu só tive que ajudar.
Era uma noite de quinta-feira, eu estava com preguiça, então pedi uma pizza e fiquei deitado no meu sofá a noite toda só assistindo TV. A janela atrás de mim estava embaçada, então decidi desenhar nela. Eu costumava fazer isso muito quando criança.
Deslizando meus dedos pelos vidros frios, eu desenhei um solzinho, um começo simples. Limpando a névoa na janela, eu vi algo lá fora. Não, alguém.
Ela estava parada na minha calçada completamente imóvel. Estava usando uma parka; o capuz cobria o rosto dela, então eu nem conseguia ver o rosto dela. Limpei minha janela um pouco mais. Ela não se mexeu, não falou, nem fez nada. Ela estava só congelada, parada. Eu nem acho que ela estava respirando.
Talvez ficar observando uma mulher aleatória na rua seja estranho, mas foi ela que estava do lado de fora da minha casa, foi ela que não ia embora, foi ela que começou a me observar primeiro.
Bem do meu lado estava meu telefone. Eu rapidamente peguei ele e liguei pro meu melhor amigo, Matt. Tocou por alguns segundos enquanto eu ficava ali sentado falando sozinho. “Vamos, cara, atende logo!” sussurrei pra mim mesmo, meus olhos encarando direto meu telefone. Um arrepio subiu pela minha espinha e se recusou a ir embora. Parecia tão frio.
“Desculpe, mas o número que você está chamando está indisponível no momento, por favor ligue novamente em outro horário.”
Quase xinguei alguma coisa baixinho, mas me acalmei rápido. Era só uma garota do lado de fora da minha casa. Ela não estava fazendo nada prejudicial, então eu não tinha motivo pra ter medo.
E mesmo assim eu ainda sentia aquele arrepio se arrastando nas minhas costas, me instigando a ficar em alerta. Respirando fundo, virei pro lado e olhei pela minha janela.
Ela tinha sumido.
Nenhuma pegada ficou pra trás, a neve continuava lisa, era como se ela nunca tivesse estado ali. Esfreguei meus olhos e mesmo assim não havia nada lá. Nada mais tinha mudado.
Um pouco assustado, me encostei no braço do sofá e olhei de volta pro meu teto. “Talvez tenha sido só imaginação minha,” falei comigo mesmo, “É- é, foi só imaginação minha.” Repeti pra mim mesmo várias e várias vezes, esperando encontrar algum tipo de lógica no que eu vi.
Alguém bateu na minha porta. Eu pulei do sofá, entrando em pânico em silêncio. Mas rapidamente raciocinei comigo mesmo. Devia ser o cara da pizza.
Descendo as escadas até a porta da frente, estendi a mão pra alcançar a maçaneta, mas congelei. Não sei por quê, mas algo me instigou a ser cauteloso. Então, em vez disso, olhei pelo olho mágico da minha porta.
Ela estava lá de novo.
Tropecei pra trás, me segurando rápido antes que eu pudesse cair. Um arrepio repentino atravessou meu coração e me puxou de volta pra minha porta. Encostei minha mão e a testa contra a porta de madeira, buscando estabilidade. Eu não conseguia olhar pra cima.
Ela bateu, esperando uma resposta. Mas eu não conseguia falar. Ela bateu de novo. Uma névoa gelada inundou os corredores, o frio se arrastando pra dentro do cômodo, lentamente me alcançando. Ela continuou batendo enquanto eu ficava congelado, parado.
“Foca, Luke.” Penso comigo mesmo, tentando encontrar razão. “É só uma garota, o que ela pode fazer com você?” ignorando o arrepio se arrastando nas minhas costas, me forcei a me recompor. Fiquei de pé, vesti uma jaqueta e abri a porta.
Estrelas brancas brilhantes navegavam no céu preto-piche, nuvens cobrindo a lua. Neve branca e lisa cobria a terra lá fora, pinheiros spruce altos brotando.
Ela foi embora.
Saí da casa, meu hálito congelando no inverno. Olhei pra esquerda e pra direita procurando qualquer sinal dela. Igual antes, não havia nenhum rastro deixado pra trás. Era como se ela nunca tivesse estado ali.
Desabando contra a porta atrás de mim, segurei meu rosto nas mãos, confuso. Nesse ponto, comecei a achar que estava imaginando coisas. Essa era a única solução lógica que eu conseguia pensar.
Observando meu hálito começar a congelar no frio, me levantei de novo e caminhei até a beirada da minha varanda, apoiando as mãos no topo dos portões de metal, olhando ao redor pra neve que me cerca, lutando pra manter os olhos abertos.
Isso foi até eu ver.
Uma seta traçada na neve.
Como eu perdi isso?
Não sei por que decidi ser burro, mas eu juro que naquele momento ela falou comigo. Talvez tenha sido o vento gelado que sussurrou pra eu seguir a seta. Talvez a seta em si tenha chamado meu nome. Talvez eu só estivesse falando comigo mesmo, dizendo pra mim mesmo que era natural ficar curioso. Mas seja lá o que me fez fazer isso, fez eu fazer isso.
Tranquei minha porta e segui a seta, sentindo que estava sendo puxado como um fantoche num barbante. Virando na beirada da minha casa, encontro outra seta no lado da minha casa, fazendo uma curva na neve levando pro meu quintal.
Seguindo a próxima seta, rapidamente encontrei outra logo depois dela. Dessa vez levando pra floresta. Congelei no lugar e bati a mão na cara. Olhando pra minhas mãos, lentamente ficando dormentes de frio, e pensei comigo mesmo, “Eu sou mesmo tão burro? Eu vou mesmo ir pra lá no meio da noite?” Passei a mão pelo cabelo, batendo o pé na neve grossa e fofa abaixo de mim.
O vento começou a uivar, começou a implorar.
Acontece que eu sou mesmo tão burro.
Continuei seguindo as setas e entrei na floresta atrás da minha casa. Pinheiros spruce altos e escuros alinhavam o caminho, camadas grossas de neve cobriam suas folhas verde-escuras e caíam lentamente. A lua começou a passar pelas nuvens e lançou sua luz pela mata, parecia que estava me seguindo. Mais setas estavam gravadas na neve, uma atrás da outra. Eu conseguia sentir o arrepio subindo pela minha espinha perfurando ainda mais fundo dentro da minha pele, tentando me congelar. No entanto, o vento frio parecia mais calmo.
Ele roçava graciosamente nos meus lados, quase segurando minha mão antes de sumir no vazio repentino à minha frente. Parecia tão frio.
Estava tão frio.
Frio, frio e frio.
Mantive a cabeça baixa enquanto as árvores me olhavam de cima. Outra seta vinha uma logo depois da outra, eu me abracei, imaginando quando o caminho ia acabar. Às vezes eu me via congelado, dizendo pra mim mesmo pra voltar. Mas sempre que eu dava um passo pra trás, o vento começava a uivar ou as árvores começavam a me encarar de cima, a lua me deixava sem luz, e ela começava a me chamar.
Continuei andando.
Ficou mais escuro, mas a lua ficou do meu lado. Estava congelante, mas estava calmo. Meu hálito começou a congelar no frio. A certa altura pisei num galho, foi o suficiente pra me assustar.
Mas eventualmente, cheguei a um ponto final.
Havia uma cruz gravada na neve.
Me ajoelhei no X, respirando pesado. O vento enevoado espiralava ao meu redor suavemente, queria que eu cavasse. Ela queria que eu cavasse. Pra encontrá-la. Às vezes ela chorava, mas depois ficava quieta. Às vezes ela arranhava a neve, mas logo ficava congelada, parada. Eu tinha que encontrá-la.
Usando nada além das minhas mãos, comecei a cavar na neve. Minhas mãos começaram a congelar, lentamente ficando dormentes de frio. Mas eu tinha que tirá-la de lá.
Eu cavei. Ficou mais frio. Eu cavei. Ficou mais escuro. Eu cavei. Me senti tão cansado. Eu cavei. Cavei até finalmente ver o rosto dela. O rosto congelado e pálido dela. As pupilas dela eram puro branco, listras azul-índigo pintavam a pele dela, as veias visíveis. Geada rastejava das pontas dos dedos dela; sangue escorria dos lábios dela.
Eu a encontrei.

