sexta-feira, 15 de maio de 2026

Sophie

Estou encurralado nessa situação e não sei pra onde ir nem o que fazer. Estou preso e sou cúmplice porque eu paguei pra isso acontecer desde o início.

Basicamente, eu descobri essa empresa através de um cara que eu conheço vagamente do trabalho. Eu sabia que ele tinha se divorciado e que tudo foi resolvido em três semanas. Três semanas! Sem discussões. Sem advogados gritando um com o outro. A mulher dele simplesmente concordou com tudo e pronto. Ela assinou os papéis e abriu mão de tudo — a casa, os filhos, o dinheiro. Ele disse que ela simplesmente acordou numa manhã e disse que não queria mais brigar.

Então eu perguntei a ele como.

Ele me deu um número pra ligar. Me disse pra pedir pelo "programa residencial". Me disse que ia ser caro, mas que, se era o que eu queria, eles fariam acontecer. Ele disse que você não pergunta como, você só paga o dinheiro e espera.

Então eu liguei e uma mulher atendeu. Ela parecia profissional o suficiente e me perguntou qual resultado eu estava buscando. Minha mulher e eu estávamos brigando há vários meses sem parar. Estou de saco cheio. Nós dois estamos. Mas eu sabia que não queria um divórcio. Eu quero ficar com ela como era antes de toda essa merda começar. Eu disse à mulher no telefone que eu só queria que minha mulher fosse mais obediente. Que concordasse comigo com mais frequência.

Ela disse que podia ajudar. Seria um programa de seis meses.

Uma faxineira começou a vir toda terça-feira. Não foi ideia minha, então imaginei que devia ter alguma coisa a ver com o número que eu tinha ligado e o dinheiro que eu tinha pago. Minha mulher ficou irritada no começo, dizendo que era um desperdício de dinheiro, mas eu disse a ela que era meu presente. Quando ela viu pela primeira vez como a casa ficava limpa depois que a faxineira ia embora, ela logo mudou de ideia. Nós nem sempre estávamos em casa quando a faxineira vinha, mas nas poucas ocasiões em que a conhecemos ela parecia simpática. O nome dela era Sophie. Ela era uma mulher branca de uns cinquenta e poucos anos, bem comum, com sotaque de Londres. A gente trocava um pouco de papo furado com ela e aí ela ia trabalhar. Eu nunca vi a Sophie fazer nada estranho ou fora do comum.

Isso foi há cinco meses.

Eis o que aconteceu com a mulher com quem me casei.

Mês um. Nada. Ela era a mesma. Brigando comigo o tempo todo sobre tudo. Eu já estava arrancando os cabelos nessa altura. Achei que tinha sido enganado.

Mês dois. Ela parou de brigar sobre a bagunça na cozinha. Eu sempre deixo a cozinha uma zona depois que cozinho. Mas um dia ela simplesmente parou de ficar puta com isso. Talvez porque ela soubesse que o lugar ia receber uma limpeza caprichada na terça-feira seguinte. Ela lavava os pratos sujos e esquecia o resto. Os balcões sujos, as prateleiras bagunçadas — simplesmente não era mais um problema pra ela. Antes ela teria gritado comigo por uma hora.

Mês três. Ela parou de sair às sextas-feiras com as amigas. Isso era algo que ela fazia desde que a gente estava junto. Ela simplesmente disse que não estava a fim numa semana. Aí ficou em casa na semana seguinte. E na outra. A amiga dela, Karen, passou pela casa três vezes. Minha mulher se escondeu no quarto.

Mês quatro. Ela emagreceu. E acredite, ela não precisava emagrecer. Ela fazia o jantar pra mim e ficava sentada com um copo d'água. Eu perguntei se ela estava bem e ela disse que sim. Ela disse isso com essa voz monótona que não parecia dela. Como se alguém tivesse tirado a cor das palavras dela.

Ela começou a ficar checando as coisas o tempo todo. A porta da frente. As janelas. O forno. Ela verificava a fechadura da porta várias vezes antes de ir dormir. Ela se levantava de madrugada e checava de novo. Aí uma noite ela se levantou e ficou fora por vários minutos, então eu fui procurá-la pela casa. Eu a encontrei na cozinha sentada numa cadeira encarando a parede. É uma das coisas mais macabras que eu já vi.

Eu liguei pro número. Eu disse que queria parar. Eu disse que alguma coisa estava errada. Eu disse que isso não era o que eu tinha pedido.

A mulher disse que o programa estava progredindo conforme o esperado. Ela disse que minha mulher estava respondendo bem e que a fase final estaria completa em sete a oito semanas.

Eu disse: que fase final.

Ela disse: "O resultado que você solicitou."

Eu disse que eu solicitei obediência. Eu disse que eu queria que ela fosse mais fácil de conviver.

Ela disse: "Sim" e desligou.

Na terça-feira seguinte eu esperei a Sophie chegar. Foi a primeira vez que ela chegou atrasada. Eu imediatamente disse a ela pra parar de vir e peguei de volta as chaves que ela tinha da nossa casa. Ela me olhou confusa por eu estar nesse estado e foi embora.

Eu cheguei em casa muito tarde do trabalho e minha mulher estava sentada na cozinha no escuro. Simplesmente sentada. A cadeira estava no meio da sala de frente pra porta da frente. Ela não estava chorando. Ela não estava fazendo nada. Ela estava simplesmente sentada com as mãos no colo encarando a porta como se estivesse esperando alguém entrar por ela.

Eu disse o nome dela e ela olhou pra mim e, por um segundo, juro por Deus, ela não me reconheceu. A gente está casado há cinco anos e ela me olhou como se não tivesse a menor ideia de quem eu era. E aí, do nada, ela sorriu — esse sorriso esticado e horrível que era pra caralho aterrorizante, mas os olhos dela estavam mortos. Aí ela de repente voltou como se tivesse acordado de um pesadelo, subiu as escadas e bateu a porta do quarto e não saiu por quatorze horas. Eu passei a noite no sofá.

Eu parei a faxineira de vir, mas minha mulher não está melhorando. Ela está piorando.

As noites seguintes ela basicamente parou de dormir.

Toda noite, às três da manhã, eu acordava e ela estava em pé na ponta da nossa cama me encarando. Sem se mover. Sem piscar. Simplesmente em pé com os braços ao lado do corpo e a cabeça levemente inclinada como se estivesse tentando lembrar quem eu sou.

A primeira vez que ela fez isso eu gritei. Eu não gritava desde que era criança. Ela não reagiu. Eu acendi a luz e ela estava simplesmente em pé de pijama com os olhos arregalados e essa expressão no rosto como se estivesse resolvendo um problema de matemática. Eu disse o nome dela — mas eu não vou te contar o nome dela. Ela piscou uma vez, bem devagar, e aí voltou pro lado dela da cama, deitou e fechou os olhos. De manhã ela não lembrava.

Isso aconteceu toda noite por duas semanas.

Mês cinco.

Eu acordei e ela não estava na ponta da cama. Ela estava de quatro sobre mim. O rosto dela estava a uns sete centímetros do meu. A boca dela estava levemente aberta e eu podia sentir a respiração dela no meu rosto. Os olhos dela estavam abertos e ela estava me olhando com aquela mesma expressão de cabeça inclinada, mas agora ela estava sorrindo. Não um sorriso de verdade. Algo que o rosto dela estava fazendo sem a permissão dela.

Eu estava aterrorizado. Eu não me movi. Eu não sabia o que fazer. Eu fiquei deitado por quarenta minutos até ela se levantar e descer as escadas. Eu a ouvi sentar na cadeira da cozinha. Aquela de frente pra porta da frente.

Os dias eram tão ruins quanto. Ela começou a concordar com tudo. Tudo.

Eu perguntava o que ela queria pro jantar e ela dizia o que eu quisesse. Eu dizia não, o que VOCÊ quer. Ela dizia o que eu quisesse. Toda vez. Sem preferência. Sem opinião. Sem resistência em nada.

Então eu testei. Eu disse que achava que a gente devia dar o carro pro meu irmão. Ela disse tá bom. Eu disse que ia esvaziar a conta poupança. Ela disse tá bom. Eu disse que queria convidar minha mãe pra morar com a gente. Ela disse tá bom. Ela dizia isso com o mesmo sorriso monótono toda vez.

Aí eu forcei mais. Não porque eu queria. Porque eu precisava saber onde ficavam os limites.

Eu disse que queria que ela cortasse o cabelo. Ela foi pro banheiro. Eu ouvi tesoura. Ela saiu com punhados do próprio cabelo e colocou em cima da mesa da cozinha numa pilha arrumadinha e disse: "isso é o suficiente ou você quer que eu continue."

Eu disse para, então ela parou. Ela ficou em pé na cozinha com partes do couro cabeludo aparecendo pelo que restava do cabelo dela e estava sorrindo pra mim esperando outra ordem.

Eu estava chorando e ela estava me olhando com absolutamente nenhuma expressão e simplesmente perguntou se eu gostaria de uma xícara de chá.

Dois dias atrás ela estava em pé na ponta da nossa cama de novo. Mas dessa vez ela estava segurando a tesoura. Sem ameaçar. Simplesmente segurando do lado do corpo.

Eu disse a ela calmamente pra colocar a tesoura no chão e ela colocou.

Eu disse pra ir pra cama e ela foi.

Eu perguntei se ela estava bem e ela disse que era o que eu precisasse que ela fosse.

Eu fiquei deitado no escuro ao lado de uma mulher que faria qualquer coisa que eu pedisse e eu percebi que era exatamente isso que eu tinha pago.

Ontem eu disse que ia levá-la no médico, mas ela recusou de vez. Então eu fiz o médico vir até nós — tive que puxar uns fios. Ele veio e, quando se aproximou dela, ela mostrou os pulsos pra ele. Eu não sei por que ela faria isso. Ela mal disse uma palavra pro médico. Só respondia com "sim" e "não" baixinhos. Quando ele estava saindo ele me disse que ela precisava dormir mais. Só isso. Mas ele não a conhece.

Eu tentei a linha de novo, mas estava fora de serviço.

Eu não sei o que obediência significa pra essas pessoas. Eu não sei qual é a fase final. Eu não sei o que tem nos produtos de limpeza que a Sophie tem usado na minha casa há cinco meses. Eu não sei por que minha mulher fica sentada no escuro encarando a porta da frente.

Eu sei que deveria chamar a polícia. Eu sei. Mas eu paguei por isso. No meu cartão de crédito. Existem registros. Eu pedi por isso. Eu usei a palavra obediente. Eu disse que queria que ela parasse de brigar. Eu disse que estava cansado dela sendo difícil.

Eu não sei o que eles vão fazer com ela nas próximas duas a três semanas.

E eu não sei como parar essa coisa que começou.

A Hora Perdida

Olá, meu nome é Robbie. Este ano faço 65 anos. Trabalhei como bombeiro por 30 anos antes de me aposentar recentemente e já vi horrores além da compreensão. Corpos carbonizados, pessoas queimando vivas, um inferno engolindo prédios inteiros como uma onda do inferno se estatelando e depois recuando em direção aos céus. Nunca vou esquecer o horror daquele dia. Tenho vergonha de admitir que isso me aterroriza até hoje, e esse evento nem mesmo foi um ato heroico — um rosto nas chamas convidando para a morte. Eu nem era bombeiro ainda. Tudo começou no verão em que me formei no ensino médio.

Era uma época diferente. Não havia celulares ou qualquer tipo de comunicação eletrônica, na verdade. Eu ainda tinha cabelo e estava em forma, por mais que meus filhos custem a acreditar. Meu amigo Ron tinha perdido os pais tragicamente em um acidente bizarro, foi muito triste. Os pais dele não puderam vê-lo se formar. Ele estava simplesmente acabado com o mundo. Eu o conhecia a vida toda e, apesar de tudo, nunca o tinha visto tão deprimido.

Ele queria fugir de tudo. Então decidiu que queria ser um homem selvagem, queria viver na cabana da família pelo resto da vida. Viver da terra, ser um com a natureza. Me convidou para ir junto e, bem, eu não tinha planos para depois da escola. Eu amava a natureza, então disse sim. Avisei meus pais para onde íamos e partimos.

Norte de Minnesota, perto das Boundary Waters. Os sons da nossa grande cidade se tornaram um ruído distante; apenas o farfalhar de pássaros e insetos se tornou nossa poluição sonora. Era lindo. Não tenho vergonha de dizer, como homem, que me senti tão livre por poder acordar com aquele ar fresco e crocante e ver o orvalho da manhã em todas as plantas, enquanto o mundo dava sua primeira grande respirada do dia.

Apesar do isolamento, a família de Ron tinha vizinhos na cabana deles — ou pelo menos um vizinho. Joe, o vizinho, foi criado naquela cabana. Os pais dele eram superinteligentes e o ensinaram em casa. Ele não era tão brilhante segundo suas próprias palavras, mas era muito mais esperto que eu e o Ron. Quero dizer, nós éramos atletas que fumavam maconha e bebiam como marinheiros nos fins de semana. Já o Joe era um cara no meio do mato com gênios como pais. Eles tinham se mudado para cuidar da avó paterna com Alzheimer. Joe ficou para trás para vigiar a cabana até segunda ordem. Ele se juntou a muitas das nossas aventuras. Caçávamos coelhos e pescávamos com lança no riacho próximo. Cozinhávamos tudo naquele fogão a pellets de madeira. Não tínhamos água encanada, então tínhamos que dirigir 45 minutos até a cidade mais próxima para conseguir água potável. Tomávamos banho no lago mais próximo, três estações do ano. Quando o inverno chegava, federia, não vou mentir. Fiquei lá 18 meses com o Ron e, por extensão, com o Joe. Perdi contato com o Joe. Espero que ele esteja bem hoje em dia, onde quer que esteja.

Lembro que, mais ou menos 5 ou 6 meses depois de eu ter chegado, aconteceu. Naquele dia. Precisávamos de água, água para beber. Quero dizer, tentamos ferver a água do riacho uma vez, mas aprendemos muito rápido que isso não funciona quando você tem apenas uma latrina. Então decidimos fazer a viagem cedo de manhã para ver o céu enquanto estava bonito e para aproveitar aquele ar de outono, não há nada igual em Minnesota. Estávamos indo em direção à cidade. Ron no banco do passageiro, Joe no banco de trás do meio, como uma criança. Claro, eu estava dirigindo. Eu amo dirigir, a única coisa que ainda não mudou desde aquele dia. Estávamos conversando de bobeira.

Trinta minutos da cabana, o relógio marcava 7:37 da manhã. Eu pisquei. Foi isso, de alguma forma o crime que cometemos: piscar. Tão humano, e ainda penso nisso. Todos nós piscamos e isso mudou nossas vidas. Acho que é por isso que dizem "num piscar de olhos" às vezes, para se referir a certas ações ou eventos.

Quando abri os olhos de novo, vi que estava na entrada da cabana, com o carro em ponto-morto. O relógio marcava 8:37 da manhã, o marcador de gasolina não tinha mudado, o odômetro estava igual. Até a mesma música estava tocando no rádio. Apesar de estarmos a meia hora de distância, num piscar de olhos uma hora havia passado e acabamos de volta na entrada da cabana.

Fiquei em choque, mas como se faz, tentei ser racional. Pensei comigo mesmo que talvez eu tivesse desmaiado mentalmente ou que minha memória fosse simplesmente aquela porcaria. Quando olhei para o Ron, o rosto dele estava branco como fantasma e me olhou de volta, como se nossos movimentos estivessem em sincronia. Pude ouvir o Joe começar a hiperventilar atrás de nós.

"Rob, eu juro que se você drogou a gente ou alguma merda...", ele soltou.

"Eu estava prestes a te perguntar a mesma coisa?! O que está acontecendo, Ron?!", retruquei com raiva.

Quero dizer, eu estava começando a surtar. Talvez tenhamos tornado a coisa mais grave do que era, mas eram três de nós naquele carro e nem um de nós sabe, até hoje, o que aconteceu naquela hora, como voltamos para casa ou o que nos fez, por falta de uma expressão melhor, "apagar" por uma hora.

Nós dois nos viramos para o Joe. Os olhos dele estavam tão arregalados que achei que iam saltar fora da cabeça dele, todo o sangue tinha sumido do rosto dele, e eu juro que se ele tivesse sentido um cheiro podre teria vomitado tudo no banco de trás do meu carro.

"Joe, o que aconteceu na última hora?", perguntou Ron.

Joe começou a chorar.

"Eu pensei que vocês soubessem!" Ele então se desceu o cinto apressadamente e se jogou para fora do carro. Ron e eu logo o seguimos, saindo do carro.

Joe foi até uma árvore e vomitou.

"Se isso é uma das suas piadas estúpidas, Rob, eu juro. Não pense que não consigo te bater só porque você é meu amigo", ameaçou Ron.

Eu estava ficando muito puto, muito puto mesmo.

"Diz você, precisa calar essa sua boca!", ameacei de volta.

Quero dizer, estávamos brigando. Lembro de nos empurrarmos em alguns momentos e eventualmente chegamos a agarrar as golas um do outro.

Joe eventualmente terminou de vomitar e interveio.

"CHEGA!", gritou ele.

Paramos de nos mover, mas ainda segurávamos as golas um do outro, com os olhos voltados para Joe, que estava encostado em uma árvore.

"Ok, claramente alguma coisa aconteceu. Nenhum de nós se lembra da última hora, do que fizemos ou de como chegamos à casa. Vamos revisar tudo para ver o que aconteceu e tentar identificar uma causa", observou Joe.

Ron e eu soltamos as golas um do outro, mas dava para ver que ele estava tão puto quanto eu.

"Ok, primeiro vamos confirmar se o relógio está certo. Ron, vai para dentro da casa e verifica o relógio lá. Rob, você verifica a hora no carro. Vamos comparar os dois. Pelo menos isso vai nos dizer se a hora está correta", explicou Joe.

Ron entrou na cabana, enquanto eu voltei para o carro. Abri a porta e olhei o relógio do carro. Agora marcava 8:53 da manhã. Nós dois voltamos até Joe, que agora estava encostado no carro.

"Qual era a hora na casa?", Joe perguntou para nós dois.

Respondemos ao mesmo tempo.

"8:53 da manhã", dissemos juntos.

Sei que pode parecer dramático, mas eu senti arrepios naquele momento, porque isso apenas confirmou que uma hora havia passado e nós não sabemos por que, como ou o quê.

"Ok, vamos verificar o porta-malas. Talvez tenhamos comprado a água", observou Joe.

Fomos até o porta-malas, onde eu o abri apenas para revelar que estava completamente vazio.

Então revisamos as mesmas coisas que eu tinha visto no carro: a gasolina, as milhas e assim por diante. Até checamos a posição exata de cada pedaço de lixo.

Nós martelamos nossos cérebros por horas. Checamos toda aquela cabana para ver se alguma coisa tinha mudado.

Nada fora do lugar.

Uma hora simplesmente sumida.

Sei que isso pode não parecer aterrorizante, mas eu só quero que você imagine. Você está sentado em algum lugar, talvez na aula, talvez no trabalho, ou talvez andando pelos corredores de um mercado.

Você pisca.

Quando reabre os olhos depois daquele milissegundo, você está de repente em outro lugar. Talvez na sua casa, na casa de um amigo, talvez na sua escola. Você olha para o relógio e vê que uma hora passou, mas você não faz a menor ideia do que aconteceu. Você poderia ter matado alguém, por tudo que você sabe. Você poderia ter tomado uma decisão que arruinou sua vida ou uma que a melhorou, e você nunca saberia. Agora imagine que dois dos seus amigos mais próximos, familiares ou entes queridos estejam passando pela mesma coisa ao mesmo tempo que você, no mesmo lugar. Você estaria tão perdido quanto nós estávamos.

Nós revisamos isso por horas. Todas as nossas histórias se alinhavam, exceto por um pequeno detalhe.

"Vocês não viram a luz brilhante?", perguntou Joe.

Era meio-dia agora.

"Que luz brilhante? Do que você está falando?", perguntei.

"Bem, estávamos conversando sobre uma música antiga. Aí, antes de eu piscar, eu vi uma luz super brilhante. Quero dizer, ofuscante", afirmou Joe.

Ron e eu nos olhamos confusos. Ou isso era uma piada de mau gosto do Joe, ou ele estava amaldiçoado a ver o que quer que tenha causado aquela hora a cair fora da existência.

Nós éramos tão jovens, todos nós recém-18 anos. Eventualmente conseguimos coragem para voltar naquele carro e dirigir, porque precisávamos de água.

Eu juro que conseguia sentir meu coração batendo nos meus ouvidos. Nunca me senti tão nervoso dirigindo na minha vida, e eu já dirigi veículos de emergência agora — aquilo foi menos estressante do que isso.

Parecia que algo estava nos observando enquanto dirigíamos. Meus pelos ficaram em pé a viagem toda. Ron estava tentando fazer cara de corajoso, mas estava suando; as mãos dele tremiam quando foi acender o cigarro e continuaram trêmulas enquanto segurava a mão com o cigarro para fora da janela.

Mas o Joe foi o pior de nós, sabe aquela posição de proteção que eles te fazem sentar quando o avião pode cair? Ele estava assim, ida e volta. Eu conseguia ouvir sua respiração trêmula apesar da batida nos meus ouvidos. Ele estava tentando controlar a respiração, mas era uma luta contra os instintos.

Chegamos ao posto de gasolina sem problemas, abastecemos, pegamos nossa água e lanches, guardamos tudo e fomos embora.

Ron e eu relaxamos um pouco no caminho de volta, mas mesmo assim eu diria que era a definição mais frouxa possível de relaxado. O rádio nunca esteve ligado em nenhuma das viagens, mas na volta estava de alguma forma ainda mais silencioso — um alfinete poderia ter caído e soaria como um trovão, estava tão quieto. Bem, quieto fora a respiração do Joe.

Ainda me deixa nervoso até hoje. O não saber. O que fizemos? Eu nem ligo se tivéssemos simplesmente voltado para casa e ficado sentados lá. Eu não ligo se tivéssemos ganhado na loteria ou visto o Pé Grande. O que ainda me corroe por dentro é não saber o que aconteceu com nós três naquela hora.

Lembro que voltamos para casa e ficamos sentados na sala em completo silêncio pelo que pareceu uma eternidade, mas provavelmente foram 15 ou 20 minutos.

Lembro que naquela noite nós ficamos muito bêbados, bem, eu fiquei. Eu odeio não saber. Me assustou.

O primeiro mês ainda foi um pouco difícil com as viagens de carro, mas fora isso, cada mês foi melhorando: as estações, a natureza, as experiências, as memórias. Isso fez com que o que quer que tenha acontecido parecesse apenas um pesadelo. Depois de cerca de 18 meses, decidi por conta própria ir embora. Eu amava a natureza, mas também sabia que não podia ficar lá para sempre.

Lembro de entrar naquele carro para ir embora. Vendo os dois no meu retrovisor, acenando adeus.

Nunca me senti tão completamente sozinho naquele carro. Mais uma vez, o coração batendo nos meus ouvidos ficou cada vez mais alto. Eu simplesmente liguei o rádio e fui em frente. Acredito que deveria ter tido um ataque cardíaco naquele dia em que fui embora, dado que meu coração estava praticamente explodindo do meu peito a viagem toda para casa, mas seja por destino ou escolha, eu sou teimoso demais para morrer.

Depois que voltei para a casa dos meus pais, não demorou muito até eu me alistar no exército. Fui para a Califórnia por um tempo, voltei para casa e me tornei bombeiro. Casei, estou casado há 27 anos, chegando aí. Tenho dois filhos lindos e sou sortudo por ter uma ótima casa onde posso passar o resto da minha vida.

Ron eventualmente saiu daquela cabana e se tornou mecânico. Também se casou, mas nunca teve filhos, o que tudo bem. A esposa dele morreu há dois anos, no entanto. O câncer é uma doença horrível.

Ainda converso regularmente com o Ron por mensagens de texto e ligações. Recentemente ele me mandou algo muito interessante.

Aparentemente, um ano antes do nosso evento estranho, um delegado chamado Val Johnson teve um incidente similar ao nosso, mas ele parece ter passado por algo muito pior do que nós.

Sou grato pela vida que tenho. Já vi horrores, já vi tragédias que fariam uma pessoa caminhar para um abismo e nunca mais sair. Já vi amor, dei e recebi. Já estive nos momentos mais baixos e já estive no topo do mundo. Já vi a vida, estava lá quando meus dois filhos nasceram. Estaria mentindo diante do Senhor se não admitisse que aquele dia foi o dia em que mais me senti perdido, o mais vulnerável, o mais aterrorizado que já me senti na vida. Acho que é por isso que ficou mais fácil fazer as coisas que fiz, mas estaria mentindo mais uma vez se não admitisse que quero saber o que aconteceu durante aquela hora.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Encontrei uma velha amiga na semana passada. No começo, não a reconheci...

Ouvi as três sílabas do meu primeiro nome ecoarem do outro lado do estacionamento da Chevron antes mesmo de vê-la.

Era cedo, o sol da manhã mal tinha despontado no horizonte. A rodovia ainda estava silenciosa. Uma brisa fazia com que fios soltos de cabelo grudassem no meu gloss labial. Uma mão segurava a porta do meu carro, a outra apertava uma Red Bull gelada.

Não reconheci a voz imediatamente. Mas deveria ter reconhecido.

Era familiar, mas não de um jeito que eu conseguisse identificar de cara. Quando levantei o olhar, ela já vinha andando na minha direção, acenando como se tivéssemos nos visto ontem. Lembro de ter apertado os olhos para olhá-la por um segundo a mais do que devia. Não porque não a reconhecesse. Porque sim. Era ela.

Nos conhecemos na segunda série. Era fim de setembro, ainda fazia calor suficiente para que miragens de calor se formassem sobre o asfalto. Ela tinha cabelo ruivo vivo, cortado num corte reto, e a família dela tinha acabado de se mudar de Chicago. A Sra. Yuele sentou ela do meu lado porque eu era "boa em fazer as pessoas se sentirem bem-vindas", o que na verdade só significava que eu falava demais para o gosto dela. A manhã inteira foi passada sussurrando e trocando risadas em vez de fazer o trabalho. Nossos aniversários eram exatamente no mesmo dia, até o ano. Lembro de nós duas ficarmos olhando uma para a outra por um segundo depois da descoberta, como se tivéssemos tropeçado acidentalmente no nosso próprio reino secreto.

Ela ainda é a única pessoa com quem eu realmente dividirei meu aniversário.

Minha melhor amiga na época era uma menina chamada Lily, de uma das outras turmas de segunda série. Nós só éramos amigas de verdade desde o ano anterior, mas Lily já tinha desenvolvido o hábito de agir como se me possuísse, daquele jeito que crianças às vezes têm. Ela ficou visivelmente irritada quando convidei a garota nova para sentar com a gente no almoço, especialmente depois que começou a notar as pequenas semelhanças que nós ficávamos apontando uma para a outra. Depois do almoço, passamos todo o recreio tentando evitar a Lily.

Nossa escola primária dava de frente para a rodovia, com aquele campo vasto ao lado do playground que parecia enorme quando você tinha sete anos. Nós nos escondíamos debaixo do complexo de brinquedos, dentro dos escorregadores de tubo, atrás do galpão de equipamentos que não podíamos tocar. Toda vez que achávamos que tínhamos despistado ela, Lily aparecia. Lembro dela nos perseguindo pelo gramado como um cão de caça, gritando e correndo o mais rápido que nossas pernas conseguiam. Ela só parou quando a campainha tocou e tivemos que voltar para dentro.

Na época parecia engraçado. Olhando para trás agora, acho que aquela foi provavelmente a primeira vez que alguém tentou nos separar.

No verão entre a quarta e a quinta série, minha mãe organizou nossa festa do pijama de aniversário. Ela fez cupcakes de arco-íris e comprou confeitos especiais de unicórnio para que pudéssemos decorá-los nós mesmas. No fim das contas, acabamos fazendo uma bagunça e ficando acordadas até tarde por causa da overdose de açúcar.

Depois que meus pais "foram dormir", estávamos no chão do meu quarto brincando com os cavalos Breyer novos que a avó dela tinha comprado. Eu estava no comando do garanhão, ela tinha reivindicado a égua e os potros. Estávamos conduzindo uma fuga dramática de um dono de estábulo malvado que queria vendê-los todos.

"Shhh! Se a gente passar por cima da cerca fazendo barulho demais, ele vai acordar," sussurrei, tentando aprofundar minha voz daquele jeito que eu achava que homens adultos soavam. Empurrei o garanhão para frente. "Ok, Glitter. Agora."

Ela levantou a égua branca, saltando a cerca invisível entre o piso de madeira e meu tapete. A voz dela mudou para o personagem.

"Vamos, crianças, vocês conseguem!"

Um por um, ela moveu os potros por cima da "cerca", cuidadosa e dramática, como se os pouso seguros deles tivessem alguma grande importância. Quando o último conseguiu atravessar, eu segui com o garanhão.

"Você nos salvou!" ela gritou, alto demais para a hora que era, as mãos voando para a boca como se os passos pesados do meu pai fossem começar a descer pelo corredor a qualquer segundo. Por um segundo, tudo ficou parado. Ela não moveu mais a égua. Só olhou para mim.

"Eu te amo, Thunder." As palavras saíram da boca dela baixinho, como se ainda fizesse parte do jogo.

Depois da quinta série, eu fui para a escola pública local enquanto os pais dela a matricularam numa escola particular. Nos vimos algumas vezes ao longo da sexta série, mas as duas estávamos ocupadas aprendendo como estar perto de outras pessoas e descobrindo quais novas versões de nós mesmas se encaixavam na paisagem que estava mudando.

Meu cabelo mudou primeiro de castanho escuro para azul, depois rosa. Ela deixou o dela crescer longo. Toda vez que uma de nós mudava algo em si mesma, a outra geralmente seguia com sua própria versão disso. Não parecia particularmente doloroso na época, só lembro que ela não estava mais por perto tanto quanto antes. É daquele tipo de coisa que você não percebe até já ter acabado.

No primeiro ano do ensino médio, meu cabelo tinha crescido de volta ao seu castanho natural e desenvolvido cachos soltos e irregulares. Eu tinha furado meu próprio nariz naquele verão e começado uma coleção de pequenas tatuagens de handpoke mal feitas pelo meu corpo.

Quando entrei na minha última aula, ela estava lá.

Ela tinha mantido o cabelo longo, mas agora estava tingido de preto com tinta de caixa e visivelmente danificado nas pontas. A máscara dela estava sempre empelotada e um pouco borrada, como se ela tivesse passado correndo e parado de se importar pela metade. Ela usava a sombra de um jeito similar, um pouco pesada demais para os traços dela e não totalmente esfumada.

Nosso colégio tinha um sistema de blocos, então só nos víamos um dia sim, outro não, mas em poucas semanas já tínhamos voltado ao normal como se nada tivesse acontecido. Parecia como retomar uma conversa que tínhamos pausado em algum lugar daquela época. Como se nunca tivéssemos sido separadas de verdade.

Ela tinha começado a fumar maconha na oitava série, e começamos a fazer pausas frequentes no banheiro entre as aulas só para nos encontrarmos e sumirmos por alguns minutos de cada vez. Eu sempre deixava ela dar uma tragada no meu Juul em troca do cartucho dela. Ficávamos lá encostadas nas cabines por quase vinte minutos às vezes, falando sobre nada importante, depois nos acompanhávamos de volta para a aula o mais devagar possível, como se nenhuma de nós quisesse realmente voltar.

O ano letivo se confundiu com ele mesmo. Assim como o verão depois.

Acabávamos na varanda dos fundanda dos fundos dela à noite com mais frequência do que não, passando coisasos dela à noite com mais frequência do que não, passando coisas de uma para a outra, rindo demais de coisas que não eram tão engraçadas assim. Lembro de ter vomitado na madeira desgastada depois de beber demais do Casamigos dos pais dela, o gosto de carvão ainda forte na minha garganta quando voltamos para dentro como se nada tivesse acontecido. Desde então, evito tequila.

De manhã, quando a mãe dela entrou gritando sobre isso, tentamos botar a culpa no cachorro.

"Eu sei que vocês duas estão mentindo porque tá cheirando a PURA BEBIDA lá fora!"

Ela entrou furiosa na cozinha, e nós não conseguimos mais segurar. Só nos olhamos e perdemos o controle. Depois disso, virou uma piada interna. Toda vez que uma de nós estava forçando a barra na verdade, a gente estalava a língua e resmungava: "Tá cheirando a bebida lá fora..."

No outono do segundo ano, ela tinha começado a sair com um calouro. Não era nada sério, pelo menos não do jeito que ela falava sobre isso, mas ela ficava me pedindo para ir a um dos jogos de futebol júnior dele com ela porque estava nervosa demais para ir sozinha. Eventualmente eu concordei, mais que tudo para parar de ouvir sobre isso, e disse que só iria se pudéssemos chapar antes.

Ela veio na minha casa depois da aula naquela quinta-feira e matamos tempo na minha casa até que fosse tarde o suficiente para sair. Não falamos sobre nada importante. Só deixamos as horas passarem entre nós do jeito que costumavam fazer.

Em algum momento olhei para ela e disse: "Ei... você ainda quer aquela tatuagem?"

Ela tinha me pedido uma semanas antes, depois que eu furci o nariz dela no banheiro da escola. Nenhuma de nós tinha mencionado desde então.

"Obviamente," ela respondeu. "Você consegue fazer no jogo hoje à noite? Tenho que chegar em casa meio cedo."

Fiquei cutucando minhas unhas por um segundo antes de responder. "Sim. O que você queria mesmo? Preciso desenhar com uma Sharpie primeiro."

"Que tal uma estrela? Igual a que você tem, mas no meu tornozelo." Ela sorriu um pouco. "Aí a gente combina."

Ela sempre ficava um pouco empolgada demais quando a gente combinava. Roupas, joias, todas aquelas coisas adolescentes de sempre. Na época, parecia mais lisonjeiro do que qualquer outra coisa.

Lembro de ter pausado mais do que pretendia. Só por um segundo. Depois dei de ombros. "Claro."

Quando a primavera chegou, a COVID tinha começado a fechar tudo.

Depois do lockdown, passava a maioria das noites na casa dela. Não tinha muita estrutura, só horas se confundindo umas com as outras. Ficávamos sentadas na cama dela assistindo vídeos do YouTube que não estávamos realmente prestando atenção, ou deitadas no escuro conversando sobre nada até que uma de nós adormecesse no meio da frase. Às vezes eu a pegava respondendo perguntas por mim antes que eu pudesse falar, como se ela já soubesse o que eu ia dizer. Ela tinha começado a sair escondida para ver aquele garoto do outono, me usando de desculpa mais de uma vez. Eu sempre odiei isso, mas nunca tive coragem de dizer isso em voz alta.

A essa altura, o que quer que fôssemos tinha parado de ter uma forma clara. Beijos de madrugada, mãos tropeçando debaixo das roupas, momentos que pareciam demais para ser nada, mas muito ambíguos para chamar de qualquer outra coisa. Começamos a adormecer abraçadas com mais frequência do que não.

Ela riu uma vez e disse que era como se estivéssemos praticando uma na outra. Eu não ri de volta.

Parecia muito mais do que isso, muito mais do que isso, mas eu nunca conseguia encontrar uma maneira de dizer isso que não parecesse que mudaria algo que eu não queria perder. Então não disse. Só fiquei.

Estávamos andando até o parque numa noite de fim de verão, com a intenção de fumar as últimas gotas de cera de um TKO extracts velho que tínhamos guardado. A lua estava baixa no céu, um crescente sonhador daquele tipo que você veria num desenho infantil antigo. Não tinha nuvens, mas o ar estava espesso e abafado da chuva de três noites atrás.

Ela acendeu o isqueiro e segurou contra o vidro por mais tempo do que precisava. Deixou uma marca preta de queimadura que nunca saiu de verdade, borrando nos meus dedos enquanto eu segurava o cartucho bem reto. Ela olhou para mim por um longo momento antes de falar.

"Você sabe que eu estou apaixonada por você, né?"

Pisci. Levei um segundo a mais para responder do que deveria.

"É," pausei. "Talvez às vezes eu esteja apaixonada por você também."

Ela riu como se não soubesse o que fazer com minha resposta e mudou de assunto.

Terminamos o que restava da conversa e eu perguntei se ela queria chapar. Ela assentiu, claro que sim, e quando deu a primeira tragada ela meio que segurou por um momento antes de agarrar meu rosto.

Os lábios dela eram macios e a fumaça tinha gosto de metal, daquele jeito que sempre tem quando a cera está quase acabando. Ficamos sentadas ali por mais um pouco e ela perguntou se eu queria ir ao Waffle House mais adiante na estrada. Eu concordei.

Quando chegamos lá, a multidão pós-bar já tinha passado e só tinha uma única garçonete atrás do balcão. Dei gorjeta a mais do que precisava e disse que esperava que ela não tivesse muito mais tempo no turno.

Não lembro muito sobre a comida. Nunca lembro mesmo.

Mas lembro dos olhos dela. Grandes e castanhos, mais escuros que os meus, sempre emoldurados com delineador borrado e aquele glitter rosado-prateado nos cantos internos. Me observando mais do que qualquer outra coisa. Me observando como se estivesse tentando entender algo só de olhar por tempo suficiente.

Ela segurou meu braço durante toda a caminhada de volta para a casa dela.

Roubamos uma garrafa da bebida dos pais dela como costumávamos fazer e adormecemos embriagadas; ela estava enroscada em mim como se fôssemos namoradas. Naquela noite, parecia que éramos.

Ela me acordou duas horas depois, às quatro da manhã, para me dizer que ia vê-lo; voltaria antes das sete. Eu sabia o que queria perguntar e acho que ela também. Mas eu estava com medo demais, ela percebeu.

Tudo que disse foi: "Tá bom. Me liga se precisar de alguma coisa."

Ela olhou para mim por um pouco mais do que precisava. Depois, sorriu, pequeno e cansado, antes de beijar minha bochecha. A caminho da janela, ela parou.

"Deixa destrancado para mim," sussurrou.

E então ela se foi.

Não nos vimos muito depois daquela noite.

A formatura foi o último lugar onde realmente conversamos. Trocamos gentilezas na multidão depois da cerimônia, falando sobre faculdade como se fosse algo acontecendo com outras pessoas, como se tínhamos conseguido antes e conseguiríamos de novo. Nos afastamos de novo sem realmente fazer isso parecer uma decisão.

Ela se mudou para uns trinta minutos ao norte de onde crescemos. Eu me mudei para o centro de Atlanta. Não parecia nada dramático na época, só a distância fazendo o que sempre tinha feito. Sempre imaginei que eventualmente encontraríamos nosso caminho de volta.

Teve algumas vezes depois disso em que acabamos juntas de novo. Foram breves, quase acidentais, mas nada que realmente durasse. Parecia que não conseguíamos encontrar nossa âncora.

E então teve a Chevron. De manhã cedo, logo antes do trânsito começar a engrossar, onde tudo ainda parecia nebuloso e silencioso.

Ela estava na minha frente agora. Levei um segundo para descontrair a mandíbula e responder. "Meu Deus! Como você tá?"

Ajustei minha expressão, agora sorrindo, e estendi os braços para um abraço. Ela me apertou forte demais e riu, jogando a cabeça para trás um pouco.

"Tô bem. Faz tempo demais, quase achei que você não tinha me reconhecido!"

Deixei o último comentário dela passar com uma risada nervosa. "Nossa, sim. Faz uma eternidade."

"Que tal a gente tomar um café no Starbucks? Se você tiver tempo, quero dizer."

"Ah, acho que não tô tão ocupada, não. Te encontro lá?"

Ela deu um pulinho no ar, transbordando de animação. "Yay!! Vem, eu tô logo atrás de vocêuuu!"

Forcei um sorriso e comecei a entrar no carro enquanto ela saltitava de volta para o dela. Suspirando, joguei a Red Bull no porta-luvas e saí do estacionamento.

Entramos no Starbucks algumas ruas depois da Chevron e estacionamos separadas. A vi sair do carro dela, fingindo que estava alguns segundos atrás.

Dentro, era cedo o suficiente para o lugar parecer vazio demais e limpo demais. Pedimos sem muita discussão. Ela pediu algo complexo que eu vagamente lembrava como meu pedido habitual no ensino médio. Fiquei num latte gelado simples, eu não queria café de qualquer jeito.

Sentamos perto da janela e ela começou a falar primeiro, mais sobre a faculdade. Depois as perguntas de praxe que você faz quando está tentando reconstruir algo que deixou intocado por tempo demais. Respondi com um tom levemente mais animado do que tinha sido no estacionamento, e ela acenava de um jeito que parecia familiar o suficiente para ser desorientador.

Em algum momento, ela interrompeu. Não de forma rude, só surpreendentemente natural. Parecia daquele jeito que costumávamos fazer no ensino médio, falando uma por cima da outra e rindo disso. Eu notei, mas deixei passar. Eu meio que sentia falta disso.

Falamos sobre namorados depois disso. No começo, não parecia um tema carregado, só uma daquelas coisas que você supostamente atualiza uma a outra. Contei a ela que tinha terminado com o meu não muito depois da formatura e fiz uma piada meio sem graça sobre como eu deveria ter ficado longe de homens loiros, algo sobre como o cabelo deles nunca escurece porque eles ainda são imaturos no fundo.

Ela disse que tinha terminado com o ex dela mais ou menos na mesma época, mas que estava vendo alguém novo agora. Estavam juntos há um tempo. Fiz um comentário sobre não ter namorado ninguém sério desde então. Me chamei de espírito livre daquele jeito que as pessoas fazem quando estão tentando fazer algo parecer mais leve do que é.

Ela me mostrou uma foto dele. O novo namorado dela. Acho que ele tecnicamente era meio velho, mas novo para mim.

Ele era alto e loiro. Familiar de um jeito que eu não queria pensar muito. Ela mencionou que os pais dele também eram eslavos, da Ucrânia para ser específica, e riu um pouco como se fosse engraçado como essas coisas aconteciam.

Só sorri em resposta, porque é o que você supostamente faz nesses momentos.

Enquanto ela lançava num monólogo meio tagarela, comecei a notar as joias dela. Ela costumava sempre usar ouro. Só uso prata, sempre usei, mas isso nunca tinha importado antes. O colar dela era de prata e os brincos também. Me disse para não ler demais nisso.

A conversa estava começando a se perder. Ela ainda falava do mesmo jeito de antes, mas algo nisso parecia levemente estranho. O tom dela tinha se achatado em lugares onde costumava permanecer animado, como se estivesse imitando algo sem querer.

Não tinha certeza do que estava ouvindo mais.

Ficamos ali por um tempo conversando sobre o ensino médio. Já tinha sido mais ou menos meia hora, talvez mais. O mundo lá fora estava totalmente acordado agora.

Ela trouxe à tona a vez que eu furci o nariz dela nos banheiros da escola.

"Não acredito que deixei você fazer isso. É um milagre que tenha cicatrizado! E a infecção durou tipo um mês inteiro, você ficou tããão mal!"

"O quê? Não lembro de ter ficado infectado." Franzi a testa levemente. "Acho que você ficou com tanto medo que ia ficar que quase se convenceu de que ficou." Talvez eu estivesse errada.

Ela riu. "Meu Deus, não acredito que você esqueceu isso! Parecia uma espinha gigante e minha mãe me chamava de Rudolph até cicatrizar."

"Hã. Acho que você tem razão." Mordi a língua enquanto ela trazia mais algumas memórias, cada uma levemente deslocada. Não necessariamente errada, só... diferente. Como se ela tivesse vivido alguma realidade alternativa. Não me incomodei em corrigi-la de novo.

Ela mencionou algo sobre nós estarmos grudadas uma na outra naquela época. Olhei para o celular mais de uma vez depois disso. Comecei a pensar em ir embora, mas não disse nada em voz alta.

Aí ela perguntou por que eu estava de volta na cidade. Disse a ela que era só uma visita antecipada de Dia das Mães. Não perguntei o que ela estava fazendo aqui, eu não queria realmente saber.

Ela assentiu como se fizesse perfeito sentido, como se tivesse quase certeza da minha resposta antes de perguntar.

A conversa continuou, mas algo tinha mudado. Ela estava trazendo coisinhas sobre minha vida agora, coisas que eu não tinha contado a ela. Não de um jeito que parecesse impossível, mas pessoal o suficiente para me fazer sentir incerta sobre onde ela poderia ter aprendido aquilo.

"Então as coisas estão boas entre você e sua mãe agora?" Ela perguntou, inclinando a cabeça.

"É, tá sido bem bom. Não tivemos uma grande briga desde mais ou menos a formatura."

"Hã. Pensei que você tinha menstruado naquele mês, no entanto?"

Pisci, um pouco atordoada. Não me lembrava de ter contado isso a ninguém. "O quê? O que isso tem a ver com qualquer coisa?"

"Ah, desculpa. Pensei que vocês costumavam brigar logo antes da sua menstruação começar. Você ficava toda exaltada com cada coisinha e tal." Ela soou um pouco desculpagora, embora a expressão dela parecesse mais com a de um veado paralisado nos faróis.

"Ah... acho que isso provavelmente foi um fator ou algo assim, é." Deixei o momento estranho nos envolver por um segundo. Ela não. Ela voltou direto para algum discurso cansado sobre como ela e a mãe dela eram iguais, ainda não conseguiam se reconciliar, blá blá blá.

Conseguia sentir minha paciência rareando, como se estivesse a observando em vez de conversando com ela. Foi quando comecei a notar as coisas menores.

O jeito que o tom dela se achatava nos mesmos lugares que o meu faz quando paro de tentar parecer interessada, ou como ela estava segurando as pausas. Me disse que estava imaginando coisas.

Tem essa pequena cavidade no interior da minha narina direita, na parte da pele que cobre o septo. Quando eu era criança, tinha um angioma bem ali e todo mundo sempre perguntava se meu nariz estava sangrando. Minha mãe ficou de saco cheio das ligações para casa e das minhas reclamações, então quando eu estava na quarta série ela mandou remover. Não é perceptível agora a menos que eu aponte, o tipo de coisa que penso de passagem de vez em quando.

Ela ainda estava falando quando a olhei mais cuidadosamente.

Estava lá.

O mesmo pequeno buraco no mesmo lugar.

Por um segundo não respondi nada. Meu estômago torceu.

Levantei abruptamente, minha cadeira arranhando o chão um pouco alto demais. Não disse nada e ela também não. Saí rápido, deixando meu café quase intocado para trás na mesa.

Não olhei para trás por muito tempo, mas quando olhei, consegui vê-la ainda sentada ali pela janela. Olhos arregalados e fixos em mim, ainda sorrindo como se a conversa não tivesse acabado.

Entrei no carro e dirigi.

Meu celular vibrou enquanto eu estava entrando na rodovia. O nome dela apareceu no CarPlay. Uma onda de náusea me atingiu e mal consegui puxar para o acostamento antes de vomitar as tripas no asfalto. Só bile pura, não tinha mais nada.

Não lembro muito bem de como voltei para o meu apartamento. Só sei que estava atravessando o trânsito pesado da manhã como se estivesse no piloto automático. Quando finalmente entrei, verifiquei cada tranca duas vezes; porta da frente, trava adicional, corrente, varanda, janelas.

Sabia que tinha que abrir a mensagem. Meus dedos tremiam enquanto destravava o celular. A prévia apareceu. Só uma palavra.

"te peguei."

Não fui a lugar nenhum depois disso. Fiquei de folga do trabalho no dia seguinte, e no outro também. Disse ao meu gerente que estava pegando algum tipo de gripe estomacal. Contei a mesma coisa para minha colega de quarto Kyla. Ela tem comprado as compras da semana. Não saí de casa de novo até sábado de manhã.

Evitei todos os meus lugares de sempre, só direto para o trabalho e volta. O trabalho estava lento e sem eventos. Isso quase piorou tudo. Parte de mim quase queria que ela aparecesse, só para eu saber onde ela estava. A ausência total de clientes me dava arrepios na pele. Não consegui contar a nenhum dos meus colegas por que eu estava tão estranha.

Cheguei em casa naquela tarde e percebi que tinha acabado os cigarros. Mandei mensagem para minha colega de quarto e pedi para ela comprar mais enquanto estivesse fora. Ela respondeu em alguns minutos.

"sim sem prob mas que foi com seu número?"

Pausei. O quê? Meu número? Que porra isso queria dizer? Aquele mal-estar começou a subir para o meu peito. Antes que eu pudesse responder, ela mandou outra mensagem.

"vc me mandou msg hoje de manhã de um novo kkk"

Não respondi depois disso. Kyla voltou com um maço novo dentro de uma hora e eu tentei explicar tudo para ela, tropeçando nas palavras.

"Não tô nem aí se isso soa louco. Você só precisa bloquear esse número. Aquilo não era eu."

Ela piscou para mim em descrença. "Ah, tá... sim. Vou bloquear. Você devia provavelmente só descansar um pouco, essa história toda soa um pouco absurda."

Parei de argumentar e meio que só fiquei parada ali por um minuto. Não tinha sentido.

Por volta das 23h de ontem à noite, minha mãe ligou.

"Oi, querida... por que sua localização mostra que você tá no seu apartamento quando eu tô te vendo parada do lado de fora da porta?"

"O quê?"

"Alguém acabou de bater. Disse que esqueceu as chaves e precisava entrar. Soa exatamente como você."

"Mãe," eu comecei, "isso não sou eu. Não abre a porta. Chama a polícia."

Minha mãe ficou quieta por um segundo.

Aí, muito baixinho, ela falou de novo.

"Ela fica puxando as mangas igual você faz."

Ouvi outra batida pelo telefone.

Três batidas silenciosas contra a porta da frente.

Aí, minha própria voz. Abafada, mas minha.

"Mãe, por favor. Você sabe que sou eu."

Algo aconteceu no túnel B da fábrica de frango

Está doendo de novo.

Ainda consigo sentir. Apertando. Enroscando.

Aquele aperto frio e viscoso.

Meus amigos me dizem pra falar sobre isso, mas, honestamente, todos me olham como se eu fosse louco.

Eu não sou louco.

Aconteceu há três dias. Eu trabalho numa fábrica de frango local como funcionário de manutenção. Eles processam toneladas de carne todo dia, do início ao fim. Normalmente, esses tipos de lugares dividem os processos em fábricas menores, mas não aqui.

Desde a suspensão das aves vivas, desossa, corte em cubos, preparo e até algumas linhas cozinhando frango que você mesmo pode ter comido em alguma lanchonete local de fast food. Eles faziam tudo. Mas veja, não é só eficiência limpa.

Tem trabalhos sujos também.

A maioria das miudezas, pedaços e outros restos vira ração pra cachorro, mas isso não significa que ainda não haja toneladas de carne desperdiçada que é jogada no sistema de drenagem da empresa. Uma série de grades, canos e canais entrelaçados que desembocam num grande lago de águas residuais.

É, eu sei o que você tá pensando, não pode ser muito bom pro meio ambiente local, mas eu acho que quando a parada chega nos canos de drenagem já tá praticamente estéril e diluída o suficiente pra ser liberada no mundo.

É um pesadelo no verão. A cidade inteira odeia. Mas isso não impede eles de deixar os adolescentes, amigos e familiares trabalharem lá. Afinal, quase não tem mais nada por perto.

É por isso que eu tô aqui, no fim das contas. Paga melhor do que trabalhar nas linhas e é basicamente trabalho de faz-tudo.

Um parafuso solto aqui, um cabo de energia trocado ali. Na verdade, tudo que você tinha que fazer era prestar atenção no que os caras mais velhos faziam e talvez assistir a alguns vídeos no YouTube aqui e ali nos intervalos pro almoço. No entanto, tinha um trabalho que você nunca pegava nenhum dos veteranos fazendo.

Desobstrução de canos. De vez em quando, alguma grande massa de pele, gordura e talvez uma sacola plástica ou duas ficava presa em algum lugar e causava algum refluxo ou começava a se aglomerar perto de um dos túneis que desembocavam no lago de drenagem. Geralmente era um trabalho bem simples.

E você sempre voltava cheirando a carne podre. É por isso que eles fazem os caras mais novos fazerem. Caras como eu e o Mikey, que fez da última vez que teve um problema, então, aparentemente, era a minha vez. Ótimo.

Eu optei por almoçar antes de descer pro poço, imaginando que eu não estaria exatamente com vontade depois. O relatório falava sobre drenagem mais lenta, algumas das grades levando uma hora pra escoar completamente quando deveriam levar minutos, e um odor persistente de podridão subindo do túnel B.

Isso significava verificar cada grade e canal desde o piso da fábrica até a saída de concreto que se projetava sobre o lago por uns bons seis ou sete pés.

Então eu me pus a trabalhar. Peguei um rádio, algumas das luvas de borracha grandes que usávamos pra limpezas, e um cultivador de jardim de três pontas que a manutenção tinha começado a usar pra dragar torrões teimosos das águas cheias de gordura.

Verificando as grades que eles relataram, não encontrei sinais óbvios de obstrução além do refluxo. Ainda assim, eu tirei as tampas de metal e tentei peneirar pelo líquido vermelho-acastanhado. A ponta do cultivador raspou contra o concreto e só conseguiu puxar alguns pedaços de gordura e uma pena meio despedaçada.

Eu segui a linha pra baixo e repeti esse processo algumas vezes antes de pensar que seria mais fácil encontrar onde a água não estava acumulada.

Então, desci pelas escadas de manutenção, entrei no túnel B e fui andando. Quanto mais eu descia, mais funda a água ficava. Nada perigoso. Bem, além do risco de perder meu almoço por causa do cheiro. Só uma polegada ou duas de água suja.

O chapinhar dos meus passos virou um barulho de chafurdar quando a água chegou na altura do tornozelo. Eu nunca fiquei tão agradecido por aquelas botas de borracha feias e desconfortáveis que eles faziam todo mundo usar enquanto eu arrastava os pés pelaquela parada.

Aí, finalmente, na altura da canela. Nessa altura eu já tava começando a ficar nervoso. Minhas botas iam bem alto, mas se a água ficasse mais funda eu acabaria precisando voltar e pegar um par de calças de água ou algo assim. Felizmente, parecia se manter bem consistente quando eu cheguei no último trecho do túnel de drenagem. Eu gostaria de poder dizer o mesmo do cheiro.

O fedor tava aumentando rapidamente, não era mais o cheiro velho de aves esterilizadas mas podres.

Isso era quase como esgoto ou como naquela vez que eu tive que puxar um gambá morto do galpão do vizinho.

Doce, mas errado, como fruta podre até o ponto em que aquele músculo gorduroso te atinge e fica preso no fundo da sua garganta.

A caminhada me levou até a saída. Um bueiro quadrado que levava direto à descarga. Eles mantinham os túneis bem iluminados, mas eu ainda conseguia ver o reflexo da luz do sol vindo pela grade grande que separava o túnel do mundo exterior.

Eu podia dizer mesmo de longe que a água não estava escoando direito.

O fluxo uniforme de sempre era algo mais parecido com uma espiral lenta e preguiçosa, como se estivesse engasgada e mal escoando por algum buraco perto do fundo da grade. O som de um fluxo constante de água agora era um gotejar seguido de um respingo ocasional enquanto o lixo ocasionalmente escoava sobre o que quer que fosse a obstrução.

E o som de zumbido.

Meu Deus, as moscas deviam estar se divertindo pra caralho com isso.

Eu andei pelas beiradas onde a passarela se mantinha nivelada apesar do próprio túnel de drenagem descer em declive. Isso significava que o que quer que estivesse causando a obstrução era grande o suficiente pra cobrir vários pés de grade.

Isso ia ser uma merda. Não tinha como não ser alguma grande massa de pele, gordura e penas que de alguma forma tinha escapado pelo processamento. Acontecia. Talvez não tão ruim, mas acontecia de vez em quando.

A poça aqui tinha começado a turvar, parecendo mais com o lago lá fora do que com o líquido marrom-avermelhado de costume que eu estava acostumado a ver escoar por essas grades. Estava tão espessa que eu nem conseguia ver o fundo.

Então, naturalmente, eu peguei o cultivador e enfiei a cabeça fundo na água, arrastando a ponta do mais fundo que eu conseguia e começando a raspar pra cima.

E definitivamente tinha algo ali, uma espécie de resistência borrachenta entre o cultivador e a grade de metal. O que quer que fosse, eu não conseguia pegar tração nele. Quando eu puxei a cabeça de volta, ela foi seguida por uma massa de lodo verde tipo algas.

Eu quase vomitei. O fedor piorou quando eu puxei a massa pra fora da água. Um cheiro como lama de lago misturado com carne pútrida.

Foi o suficiente pra me distrair do fato de que a água ao redor dos meus pés não estava apenas se movendo com meus próprios movimentos.

O fato de eu ter vomitado, aquele solavanco repentino enquanto eu sentia a refeição de frango barata fornecida pela empresa me deixar e se juntar à água embaixo, me fez fechar os olhos por tempo suficiente.

Algo apertou.

Forte.

Ainda não doía. Como se alguém tivesse estendido a mão da lama turva pra tentar me puxar pra baixo. Um aperto forte o suficiente pra que, em todo o meu debater, eu nem conseguisse sair da minha bota pra fugir.

Um aperto que se encontrou no meu outro pé, me fazendo cair de costas na grade.

A coisa toda tremeu com o impacto. O som de metal sacudindo ecoando pelos túneis.

Eu diria que eu respirei fundo, me acalmei e tentei meu rádio.

Mas eu não fiz isso. Não, em vez disso eu gritei, me debati e enfiei meus dedos na grade atrás de mim. Eu tentei desesperadamente me alavancar pra cima e pra fora da água, longe do que quer que estivesse me tocando, me empurrando de costas contra a grade.

Quanto mais eu puxava, mais apertada a sensação ficava. Toda vez que eu era puxado pra baixo enquanto puxava freneticamente minhas pernas, o que quer que fosse subia mais uma polegada ou assim.

Eu não parei de me debater até que não estava mais apenas segurando minhas botas, mas dentro delas, derramando nelas e esfregando contra meus pés.

Você já segurou pele de frango crua? Sentiu aquela textura fria e borrachenta? É tudo o que eu conseguia imaginar naquela hora, minhas botas enchendo de pele solta se contorcendo.

O cheiro. Eu nunca vou esquecer aquele cheiro. Não importa o quanto eu esfregue minhas pernas, eu juro.

Às vezes, quando eu estou sozinho. Quando não tá acontecendo nada.

Eu sinto aquele cheiro encharcado e doentio de podridão.

Em algum lugar do meu pânico, o clipe barato do rádio deve ter quebrado, ou talvez ele só tenha sido empurrado pro lado errado quando eu bati na grade. Não sei. Eles nunca o recuperaram.

Então ali estava eu, hiperventilando e segurando naquele metal gorduroso como se minha vida dependesse disso enquanto algo subia lentamente pelas minhas pernas. Parecia que quanto menos eu lutava, mais devagar a coisa se movia.

Foi quando eu consegui ver ela, ou pelo menos parte dela. A parte que tava subindo por mim era principalmente um limo transparente com manchas amarelo-brancas que eu eventualmente identifiquei como pedaços de gordura junto com algumas manchas de líquido descolorido borbulhando retido na sua forma.

Quando encontrava a água embaixo, eu via uma mistura de manchas vermelho-ferrugem que se moviam preguiçosamente, suspensas no que quer que estivesse mantendo essa coisa junta.

E mais fundo na água, mal visível sob a superfície, haviam torrões pretos mais concentrados que ocasionalmente boiavam perto o suficiente pra ver enquanto a coisa se deslocava pelo meu corpo.

Eu gritei, chorei, berrei. Tão fundo nos túneis, provavelmente ninguém ia me ouvir. Claro, talvez se entrassem na escada de manutenção, mas como eu disse.

Ninguém descia aqui a menos que tivesse que descer.

A pior parte? Eu conseguia ver a cidade. Através da grade, ali na distância eu mal conseguia ver a estrada levando pra longe da fábrica e até a cidade em si.

Nenhum dos meus gritos importava. Os carros continuavam dirigindo, a cidade continuava se movendo enquanto eu tinha que ficar ali parado e esperar essa coisa me matar.

Eu acho que foi uma hora depois que eu vomitei de novo. Não estava exatamente com pressa depois que eu parei de lutar. Naquele ponto eu estava esperando que alguém simplesmente notasse que eu tinha sumido e viesse me buscar. O lodo tinha subido lentamente até meu estômago e ainda tava apertando. Isso, junto com o fato de que eu conseguia distinguir o que parecia muito com larvas de mosquito se contorcendo naquelas pequenas bolsas de água amarelada presas dentro do lodo, tornou a vontade difícil de resistir.

Isso foi um erro.

Eu não conseguia me inclinar pra frente exatamente, então uma boa parte simplesmente escorreu pelo meu macacão de trabalho.

E quando fez contato com a coisa, eu pude ver o movimento parar. A coisa toda pareceu congelar.

Começou a beber. É a única forma que eu consigo descrever. Ela sugou o fio de vômito pra dentro de si. Eu podia ver os pedaços de branco e marrom da refeição de frango empanado sendo sugados pra uma das partes mais escuras da massa fedida.

Ela se movia em contrações, como uma garganta engolindo repetidamente.

Eu ainda vejo. Ainda vejo o momento em que começou a seguir o rastro de vômito.

Ainda lembro da sensação pegajosa entre meus dedos enquanto eu arrancava ela, jogava pedaços de gosma pra longe só pra ela reagir prendendo meus dedos tão apertado que eu ouvi algo estalar.

Ela tava me prendendo na grade. Não mais rastejando pra cima, mas se movendo em surtos curtos e pulsantes, apertando, esmagando.

Eu senti minha cabeça ficando leve. Tentei mover minha perna de novo, mas a coisa respondeu apertando minha perna direita com uma força esmagadora. Eu senti algo ceder seguido por uma dor cegante que me fez gritar.

A última coisa que eu lembro é algo frio, molhado e viscoso subindo pelo meu queixo e o gosto de mofo e bolor enfiando na minha boca.

E aí nada. De acordo com os médicos, eu devo ter caído na água enquanto tentava limpar uma obstrução, o que aparentemente eu fiz, porque quando alguém finalmente foi verificar como eu tava, a água já tava escoando normalmente.

Comigo deitado, espalmado, encostado na grade.

Eu não sei por que ela me deixou vivo.

O que eu sei é que quando eu acordei, eu tentei vomitar. Ainda conseguia sentir aquele gosto de podridão velha na minha boca, cheirar no meu nariz, sentir na minha pele. Era demais.

Água. Principalmente, de qualquer forma, espessa e morna com um fedor que era muito familiar.

Os médicos me mandaram pra casa com um gesso e alguns antibióticos, me disseram pra ligar se sentisse algum sintoma tipo gripe.

Agora eu tô preso aqui sentado, me perguntando enquanto tento esquecer a dor latejante na minha perna e aquele gosto que não some não importa o que eu coma.

Ela parou na minha boca?
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Sophie

Estou encurralado nessa situação e não sei pra onde ir nem o que fazer. Estou preso e sou cúmplice porque eu paguei pra isso acontecer desde...