segunda-feira, 2 de março de 2026

A compulsão alimentar da minha namorada nos destruiu

Desde que comecei a sair com a Carla, eu já sabia dos problemas dela com comida. Sou nutricionista e conheço muito bem os hábitos alimentares anormais. No começo, ela escondia isso com muito cuidado, mas eu sempre sentia a tensão quando aparecia alguma comida nova no prato dela ou quando passava um anúncio da Domino’s na TV.

Já estávamos namorando há mais ou menos um ano quando, finalmente, ela começou a se abrir sobre o assunto.

“Pra mim é uma ladeira escorregadia. Eu não posso dar nenhuma liberdade pra minha dieta, senão o inferno inteiro vai se abrir”, ela me disse.

Eu atribuí aquilo à ansiedade típica relacionada a comida, que a maioria dos meus clientes com transtornos alimentares sente.

“Eu posso comer o que eu quiser, desde que eu controle as porções, registre no meu diário alimentar e encaixe dentro do meu limite calórico diário”, ela falou dando de ombros, como se aquilo não parecesse um jeito exaustivo pra caralho de viver.

Mesmo assim, eu estava tranquilo. “O que quer que ela precise fazer pra passar o dia sem surtar”, pensei.

“Mas, hipoteticamente, digamos que um dia, por qualquer motivo, você não consiga seguir a dieta. Você está dizendo que não conseguiria lidar com essa mudança?” perguntei, curioso sobre o que eu precisaria saber pro nosso futuro (que eu esperava que fosse longo) juntos. Como diz o ditado, estamos atrelados um ao outro.

“Confia em mim, eu virava uma pessoa completamente diferente quando entrava em compulsão. As menores coisas me jogavam em semanas de caos. Ficava nojento pra cacete. Eu simplesmente me recuso a deixar isso acontecer de novo.”

Do meu ponto de vista, eu achava que as regras rígidas da Carla eram insustentáveis. Eu ficava preocupado que, se algo ruim acontecesse na nossa vida e ferrasse a dieta dela, ela não teria as ferramentas emocionais necessárias pra se levantar e seguir em frente.

Claro, eu não sou terapeuta, mas ouvir aquilo me deixou preocupado, e eu queria ajudar minha namorada de qualquer jeito que pudesse. Foi por isso que comecei a dar conselhos pra ela.

A Carla me aturou porque via o quanto eu estava sério, e mesmo relutante com as minhas ideias, ela fez um esforço meia-boca.

Nos primeiros dias, passamos expondo ela gentilmente a comidas que não faziam parte da rotina normal. Coisas ainda saudáveis, claro, e que eu não diria pros meus clientes evitarem.

Ela ficava preocupada com as calorias por grama, açúcares adicionados e porcionamento sem balança. Embora pareça contraditório pra alguém que tem compulsão alimentar, eu estava preocupado que a restrição da Carla estava virando obsessão. O objetivo dessa exposição gradual era comer com atenção plena, sem monitoramento pedante e sem aquele medo constante de perder o controle.

Passaram-se umas duas semanas e eu já notava melhoras. Começamos a sair pra restaurantes nas noites de encontro com mais frequência, ou ela ia comigo pro café que eu frequento antes do trabalho. Duas taças de vinho aqui, um croissant ali, nada excessivo. Em casa, ela continuava com as refeições de sempre, mas de vez em quando sugeria fazer cookies num dia chuvoso, coisas assim.

Isso me deixava muito feliz de ver ela tratando a comida menos como uma droga viciante que precisava tomar todo dia e mais como combustível necessário pra funcionar tanto física quanto emocionalmente.

Ela parecia feliz, orgulhosa… pelo menos por um tempo. Mas não demorou muito pra algo mudar dentro dela, escondido fundo o suficiente pra eu não ver os sinais até que aquilo a consumisse por completo.

Ela agia como se tudo estivesse normal. Jantávamos juntos depois do trabalho e íamos dormir como sempre, mas quando tirei o lixo uma manhã, notei algo escondido bem no fundo da sacola. Havia embalagens de delivery, pacotes vazios de cookies e potes inteiros de cobertura de bolo.

Percebi que ela não estava indo tão bem quanto eu pensava, e pior: ela estava escondendo de mim.

Verifiquei nossa conta bancária conjunta (a que usávamos pras despesas da casa) e rolei horrorizado vendo transação atrás de transação de comida que eu nunca soube.

Eu não só fiquei decepcionado comigo mesmo por não ter ajudado ela do jeito que achava que estava ajudando, como também fiquei puto com a falta de cuidado da Carla. Sim, como nutricionista eu ganho bem, mas entre o aluguel e as contas da casa de repouso da minha mãe, a gente não podia bancar a Carla comprando comida em excesso daquele jeito.

Eu sabia que ia ser desconfortável pra nós dois, mas precisava confrontar ela. Então esperei ela chegar em casa aquela noite, com meu e-mail aberto e pronto caso a Carla quisesse voltar pra terapia.

Já estava ficando tarde, mas eu fiquei acordado mais um pouco, imaginando ela parando pra comprar comida antes de voltar. O apartamento foi ficando cada vez mais escuro conforme a noite avançava, e eu decidi descansar os olhos um pouco, esperando na poltrona da sala pelo barulho das chaves e da porta da frente abrindo.

Não era a intenção, mas acabei cochilando. Não sei por quanto tempo, mas quando o som de mastigação me acordou, estava completamente escuro.

Tentei apertar os olhos na escuridão pra ver se a Carla já tinha chegado, mas a única fonte de luz era o relógio digital verde do micro-ondas. Eu estava longe demais pra ler os números, mas enquanto olhava pra ele, a luz piscou por um segundo, como se algo tivesse passado na frente.

“Carla?” chamei no vazio do apartamento. Não tive resposta, só o barulho molhado e desleixado contínuo, tipo esfregão dentro de um balde.

Levantei pra acender a luz e descobrir de onde vinha o barulho. A mudança de macio pra frio na sola dos meus pés me avisou que eu tinha chegado na cozinha. O barulho ficava mais alto a cada passo. Ao lado da pia tinha uma luz de toque, daquelas fracas que grudam embaixo dos armários. Quando estiquei a mão pra acender, meu ombro esbarrou em algo quente. Algo que não deveria estar ali.

O barulho parou.

Senti meu coração dar um pulo forte dentro do peito.

Eu conseguia sentir o perfume dela e algo azedo, metálico. Tipo carne podre no fundo de uma lixeira.

Em pura confusão, perguntei de novo: “Carla? É você?”

O silêncio era sufocante. Estiquei a mão pra luz de novo e, depois que meus dedos tocaram o plástico, lançando uma luz azul fraca e sombras grossas pela cozinha, eu a vi. Ela estava parada no balcão da cozinha, curvada rigidamente sobre… alguma coisa. Ela estava comendo aquilo, dava pra perceber pelas listras escuras cobrindo as mãos e a boca dela e pelos pedaços brilhantes que ainda segurava nas mãos e grudados no cabelo. A gosma pastosa estava espalhada pelo balcão inteiro, e um pouco tinha até caído no chão, respingado entre os pés dela.

Ela não olhou pra mim nem se mexeu um centímetro desde que a luz acendeu. Era como se ela nem soubesse onde estava ou o que estava fazendo.

“Carla… O que é isso?” Estiquei a mão com cuidado pro monte carnudo e coagulado que ela estava apertando. Líquido escorria, e a polpa era espremida entre os dedos dela. Isso já estava me dando ânsia de vômito. Eu só queria que ela largasse aquilo.

Em questão de segundos, ela girou pra me encarar e me empurrou com força. Antes que eu conseguisse entender o que estava acontecendo, senti a parte de trás da minha cabeça bater forte no chão. Eu estava de costas, tentando piscar pra afastar a dor, mas na mesma hora ela já estava em cima de mim.

Eu olhava pra cima pro rosto dela, coberto pela escuridão, o cabelo molhado daquela coisa fazendo cócegas no meu rosto e pingando pedaços frios e molhados em mim. Tentei empurrar ela, tentei chutar e espernear, mas tinha algo errado. Ela tinha uma força animal, tipo um urso faminto tentando esmagar meus ossos.

“Carla, sai de cima de mim, porra!” gritei, mas acho que ela nem me ouvia mais.

Os dedos ossudos dela eram como algemas nos meus pulsos, e eu berrei quando ela se aproximou mais, cravando os dentes no meu ombro, rasgando a camisa e arrancando um pedaço da pele num único golpe irregular. A dor queimando fez minha visão ficar branca, e eu sentia o sangue escorrendo pelo bíceps e formando uma poça embaixo do meu braço.

A boca da Carla mastigava, triturando minha carne e engolindo com força. Lágrimas começaram a escorrer dos cantos dos meus olhos. Eu estava apavorado. Aquela não era a minha Carla; era alguma coisa maligna. Forcei todos os músculos, lutando sem parar pra conseguir dominar ela.

Por um momento ela pareceu que ia dar outra mordida, mas parou. Alguma coisa saiu da boca dela, um rosnado baixo e grave, tipo um arroto. Ela começou a tremer, as costas arqueadas pra cima, e a barriga inchada pulsou antes de um jato de bile quente e pedaços cobertos de cabelo jorrar da boca dela, se espalhando todo em cima de mim. O cheiro queimou meu nariz quando respirei.

O vômito era vermelho apodrecido. Viscoso e escuro, como se as entranhas dela tivessem virado uma papa sangrenta de podridão.

Ela parou por um segundo depois que o último fio escorreu pelos lábios, e eu consegui soltar um braço, empurrando ela pra longe e me levantando desesperado. Corri pra porta, mas senti ela agarrar a parte de trás da minha camisa, tentando me puxar de volta.

O pânico corria em todas as minhas veias. Segurei no balcão pra não cair e estiquei a mão pro fogão. Meus dedos procuravam desesperados a alça da frigideira de ferro fundido enquanto a Carla se jogava nas minhas costas, rasgando minha pele com as unhas.

A camada gelatinosa que cobria o balcão fez meu braço escorregar. Quase perdi a pegada enquanto lutávamos.

Estiquei mais, forçando pra continuar de pé, e finalmente minha mão se fechou na alça da frigideira. Girei o ferro fundido por cima do ombro com toda a força que consegui. Acertou a cabeça dela e ela caiu pra trás, cambaleando.

Não perdi tempo depois disso e corri pra porta, girei a tranca e abri com tudo. Ouvi ela uivando de dor atrás de mim, mas isso não me impediu de descer correndo as escadas de metal e me afastar do apartamento o máximo que consegui.

Me vi num posto de gasolina, meio atordoado e ainda de pé só por causa da adrenalina. A moça do caixa, assustada com minha camisa preta de sangue e o pedaço faltando no ombro, chamou o 911.

Uma ambulância me levou pro hospital, e depois de me remendarem, mandaram um policial pra fazer perguntas. Eu não queria que eles fossem atrás da Carla, então menti, disse que foi um ataque estranho de animal enquanto voltava do trabalho. Eu sabia que soava idiota, mas meu cérebro não conseguia inventar mais nada na hora.

Desde aquela noite estou hospedado num hotel e não voltei pra ver a Carla. Ainda fico me perguntando exatamente o que aconteceu.

E sendo completamente honesto… eu ainda amo ela. Ela foi a melhor namorada que eu já tive, e sinto que tudo isso foi culpa minha. Acho que, tentando consertar ela antes dela estar pronta, eu acabei empurrando ela pro abismo.

Seja sincero: eu devo dar uma segunda chance pra “nós”?

Você de Novo…

Sou psiquiatra, acostumado a ver de tudo no meu consultório. Quase tudo tem uma explicação, e eu sempre consigo encontrá-la. Mas o que eu vivi é algo que não dá pra explicar nem com medicina nem com psiquiatria. Tudo começou há alguns anos, quando atendi um paciente com transtorno de estresse pós-traumático clássico. Ele revivia um acidente que tinha sofrido anos antes, sem parar. Com o tempo fizemos progresso e ele passou a entender que aquelas memórias e sonhos não passavam disso — sonhos.

Houve um período em que parei de vê-lo. Ele parou de vir ao consultório, o que costuma acontecer quando o paciente melhora. É um lembrete de que eu ajudo mais do que cobro. Então, um dia, esse paciente voltou. Ele nunca tinha parado de ter aqueles sonhos recorrentes que o atormentavam todo santo dia sobre o acidente. Mesmo assim, tinha voltado só pra me contar o sonho mais uma vez. Irritante, mas é o meu trabalho.

Sentamos no meu consultório, um de frente pro outro em duas poltronas bem confortáveis que eu tenho há muito tempo. Não tenho secretária, então ele não precisou ser anunciado. Tinha um horário vago na minha agenda e, mesmo aparecendo sem marcar, eu tinha que atendê-lo. O pobre coitado estava diferente.

“Doutor”, começou meu paciente, “sonhei a mesma coisa de todas as noites. Estou saindo de casa como sempre, indo pro trabalho, andando um pouco distraído, olhando pras nuvens de um jeito quase hipnótico. No sonho eu não estou com pressa nenhuma, e então simplesmente sinto uma pancada do lado. Um carro me atropela e eu acordo morrendo de medo. Mas tem sido estranho ultimamente.”

“Por que você está se sentindo diferente?”, perguntei, com certa curiosidade.

“Tem sido diferente ultimamente porque…”, ele parou por um instante. “Eu notei que meu peito não aperta e eu não acordo suando. E sinceramente… nunca aconteceu nada disso desde que comecei a ter esse sonho toda noite. Com a terapia eu venho perdendo o medo e a ansiedade, mas não é verdade que eu acordo suado ou com o coração na boca.”

“Isso é uma boa notícia”, eu disse com entusiasmo genuíno. “O estresse pós-traumático traz muitos sintomas, e o fato de você estar superando eles é algo pra comemorar.”

Antes de responder, ele ficou alguns segundos em silêncio. Observei com um desconforto discreto a confusão que se formava na mente do meu paciente. É comum ver pacientes que debatem se sarar é bom ou ruim pras suas vidas — muitas vezes transformam os sintomas em parte da própria identidade. Mas esse homem tinha uma atitude diferente. Ele estava genuinamente preocupado por não estar sentindo o que deveria sentir. E então disse algo que me deixou gelado.

“Doutor”, falou ele com um drama sincero, inclinando-se para a frente na poltrona, praticamente se dobrando na minha direção, “eu nunca acordei suando ou agitado com o peito apertado.”

Levantei uma sobrancelha e me recostei um pouco. Ele viu meus olhos se abrirem um pouco mais que o normal e continuou: “Doutor, eu não tenho pulso. Não consigo ouvir minha própria respiração. Doutor… eu não estou vivo.”

Abri os olhos ainda mais e, com um meio sorriso, segurei ele pelos ombros e o fiz se recostar de novo na poltrona. Ele estava frio. Depois me levantei e fui até minha mesa, convidando-o a sentar de frente pra mim. Isso servia pra dois propósitos: estabelecer distância e encerrar a sessão.

“Eu entendo pelo que você passou”, falei com aquele tom sério e pesado que construí ao longo dos anos. “Os sonhos pressionam forte a nossa psique e tendem a distorcer nossa realidade quando são tão repetitivos. Quero que você se agarre à realidade, que veja a importância dos seus sintomas estarem diminuindo. Segure isso.”

Ele me encarou com a testa franzida e olhos apertados, quase suplicantes, e coçou a cabeça nervoso. Estava genuinamente assustado — não era a primeira vez que chegávamos a um sentimento assim. A síndrome de Cotard é muito rara de se desenvolver, e mais rara ainda depois de um transtorno de estresse pós-traumático. Simplesmente não é comum. De jeito nenhum.

O rosto dele mudou num instante, como se tivesse chegado a alguma conclusão, e ele se levantou. Apertou minha mão — senti algo estranho — e eu não tentei impedi-lo. Eu o veria em breve. Ofereci aumentar a dose da medicação, mas ele indicou que realmente estava melhorando, e desapareceu porta afora.

Naquela mesma noite, antes de dormir, olhei pra minha mão. Sou um homem de constituição magra, pálido, bem alto, então ver minha mão pálida nunca me surpreendeu. Já cheguei a pensar que poderia ter síndrome de Marfan ou algum distúrbio do tecido conjuntivo. Naquela noite meus dedos finos não foram o que chamaram minha atenção — foi meu pulso. Senti vontade de checar meu próprio pulso. Fechei a mão em punho e fechei os olhos. Esse paciente não ia criar raiz na minha cabeça. O louco não sou eu.

Nos dias seguintes tentei continuar com minha vida normal, indo trabalhar como se nada tivesse mudado. Mas eu sabia que, na verdade, tudo tinha mudado. Um dia me senti muito mais disposto — nem lembrei da vontade de fumar. Eu pegava um cigarro toda manhã há anos. Mas aquele dia foi diferente. Eu não tinha fumado. Também não tinha tomado café da manhã. E então caiu a ficha. Olhei pra minha mão trêmula — pálida, como se não tivesse uma gota de sangue por baixo da pele. Eu precisava fazer isso. Procurei meu pulso prendendo a respiração, dedos no lugar certo. Os segundos passaram e não senti nada. Mesmo assim eu ainda não estava respirando. Minutos se passaram e não senti nenhuma necessidade de ar. E então eu acordei.

Respirei fundo. Foi um alívio me sentir molhado de suor. Toquei as carótidas — dos dois lados elas pulsavam, anunciando vida. Eu estava vivo. Eram 3 da manhã. Fiquei mais algumas horas na cama, e quando bateu a vontade de urinar, levantei rápido demais. Minhas têmporas começaram a latejar, o peito não parava de apertar, tudo começou a girar. Alguns minutos depois me levantei do chão devagar. Tinha desmaiado — disse pra mim mesmo que não deveria ter levantado tão rápido. Estou ficando velho. Bebi água e fui direto pro espelho. Enquanto me segurava na pia e esfregava o rosto, me reconhecendo, notei algo atrás de mim. Alguém. Uma sombra alta passando rápido pelo corredor. No fundo da minha mente: é um espírito, é um demônio, ou pior — não é nada, e eu estou enlouquecendo. Decidi não seguir. Voltei pra cama e esperei o despertador.

Às 7 da manhã me vesti e fui trabalhar. Dessa vez me certifiquei de que não estava sonhando lendo minha agenda — se estivesse dormindo eu não conseguiria ler — então comecei meu dia normalmente. Mais uma vez havia um intervalo de duas horas na minha agenda, algo que acontece durante a semana mas incomum por tanto tempo assim. Eu normalmente deixo pequenos intervalos de dez ou vinte minutos no máximo. Nunca duas horas. Senti o coração na boca.

Conforme o tempo passava eu ficava mais ansioso, esperando que aquele paciente de algumas semanas atrás aparecesse. Eu precisava checar o pulso dele, sentir que ele respirava. Não dava pra continuar me sentindo como se estivesse enlouquecendo à toa. Então chegou a hora. Levantei da mesa e tentei me distrair na janela — na verdade eu estava vigiando quem entrava no prédio. Foi quando vi algo muito estranho. Multidões de pessoas atravessando a avenida, quase uma massa de corpos — mulheres, homens, crianças — sem um único veículo à vista. Não consegui entender o que estava acontecendo, então voltei a sentar e tentei me distrair com outra coisa. Me forcei a olhar minhas anotações. Minhas mãos pareciam pesadas, sem resposta. Comecei a notar mais luz vindo da avenida, e então alguém entrou pela porta. Sem fazer barulho nenhum.

Não era meu paciente antigo. Com certeza eu não conhecia essa pessoa. Uma mulher de idade incalculável, mais velha que eu, atravessou a sala sem se apresentar e começou a falar imediatamente. “Doutor, obrigada por me atender. Preciso da sua ajuda.” A palavra “atender” ecoou na minha cabeça, já que ela tinha entrado sozinha sem pedir.

“Sinto que tem algo errado”, continuou a senhora. “Meus filhos não falam comigo há muito tempo. Eles estão me abandonando — levaram todas as minhas coisas de casa, me deixaram só com a roupa do corpo e depois simplesmente me largaram sozinha. Não como nada há dias. Não durmo uma noite sequer. Não entendo por que fizeram isso comigo. Vim porque não consigo lembrar o nome deles, nem o meu próprio. Acho que me chamavam de María, ou Ana, ou Clementina — mas não lembro. Me dá algo pra memória, pra demência. Eu preciso.”

Tentei diagnosticá-la de verdade. A deterioração estava evidente. Olhei fixamente pra ela e ofereci água, corri pra colocar num copinho de papel, depois me aproximei e peguei sua mão, tentando ajudá-la a sentar. Ela estava fria. Parecia abatida, à beira das lágrimas. Comecei a reparar nos detalhes — o rosto esquelético, o corpo magro — e quanto mais eu olhava, mais alto ficava um pensamento: será que eu estava olhando pra um fantasma? Voltei a sentar e instintivamente procurei meu próprio pulso. Não senti nada. Peguei minhas anotações e consegui ver minha agenda. Estava lendo perfeitamente: a consulta marcada era “María ou Ana ou Clementina” — literalmente o que ela tinha acabado de me dizer. Eu diria que senti um arrepio, mas não senti absolutamente nada. Olhei direto nos olhos dela. Ela começou a chorar. Nenhuma lágrima caiu.

“Quando você nasceu?”, perguntei com cuidado. Ela me olhou e sufocou um soluço com as mãos. Não conseguia lembrar. Isso estava claro. Não quis perguntar mais nada. Coloquei minhas mãos viradas pra cima sobre a mesa, como se pedisse as dela. Segurei-as — por fora oferecendo suporte emocional, mas na verdade procurando o pulso. Não encontrei nada. Ela estava morta.

“Senhora… uh…” tentei dizer o nome dela, mas nem ela nem eu sabíamos. “Quero te ajudar. Vou falar com seus filhos. Me diga onde você mora.” Os olhos dela foram primeiro pra direita, procurando uma resposta, depois pra esquerda, tentando se explicar. Não conseguia lembrar. Continuou soluçando sem dizer mais nenhuma palavra, tentou falar, mas não conseguia produzir som. Parei de perguntar. Ela estava presa em algo sério. Se eu estivesse em meu juízo perfeito teria chamado uma ambulância imediatamente — uma mulher sem pulso, sem memória — não pedir ajuda seria negligência médica absoluta. Não tenho desculpa. Eu estava realmente desconectado da realidade. Estava perdendo a cabeça.

Enquanto eu estava perdido em pensamentos, não percebi o que realmente estava acontecendo. Quando olhei de volta pra ela, o que vi não fazia sentido. Vou tentar descrever da melhor forma possível: ela tinha se transformado numa espiral de sombras. Se eu olhasse pelo canto do olho ela ainda era a senhora idosa, mas olhar direto era perturbador — ela tinha uma frequência desconfortável de se ver. Como se algo a puxasse em direção à porta por onde tinha entrado, ela desapareceu. Um momento depois eu me levantei rápido e quando cheguei à porta ela já não estava mais lá. De repente senti todo o peso do meu corpo. Meu peito voltou a apertar e minhas têmporas doíam.

Enquanto estava inconsciente sonhei algo bem breve. Eu estava parado em frente ao espelho do banheiro, esfregando o rosto. Mais uma vez uma sombra nas minhas costas, atravessando o corredor. Dessa vez eu segui. Alguém estava em pé no final do corredor. Um homem alto, muito bem vestido — aquele tipo de elegância que se acumula ao longo de séculos. Terninho escuro, colete, gravata. Ele não precisou dizer o nome. Na verdade falou bem pouco, numa voz que ressoava nos ossos em vez de nos ouvidos. Disse algo sobre a mente, a alma, o ego. Algo sobre a memória que os mantém. Depois atravessou o corredor num instante. Eu não conseguia me mexer. Ele deixou um relógio de bolso dentro do meu paletó e desapareceu.

Acordei com uma dor de cabeça forte. Eu realmente tinha desmaiado e batido a cabeça. Mas me recompus direito, olhei o relógio na parede — não tinha se passado muito tempo desde a manhã — e um paciente razoavelmente normal chegaria em breve. Não havia nenhum registro da senhora idosa na minha agenda. Eu não conseguia lembrar o nome dela, se começava com M ou A. Nada nas minhas anotações sobre qualquer senhora. Na verdade nunca tinha existido um intervalo de duas horas na minha agenda. Considerei se tinha sido um sonho, olhei pela janela — nenhuma multidão. O sonho recente era uma memória vívida. Peguei o relógio. Ele estava lá. Frio, pesado contra a lapela como se fosse de chumbo. Abri: os ponteiros não marcavam as horas. Eles se moviam lentamente para trás, contando os minutos exatos que faltavam até o próximo paciente cruzar minha porta.

Estou escrevendo isso porque sei que tem mais deles por aí. Se você conhece alguém que parou de comer não por falta de fome, mas por ter esquecido; se tem um familiar que insiste que o pulso dele parou, ou que consegue ouvir o choro de um funeral que mais ninguém escuta — não leve pra um hospital comum. Eles não precisam de remédio. Precisam de um diagnóstico que permita que descansem. Minha agenda tem um horário vago hoje às três da tarde. Estarei esperando. Afinal, o ego é a última coisa a morrer — e eu sou o único que sabe como ajudá-los a se despedir.

Um motorista de ônibus contou uma história tão assustadora que deixou um garoto em coma e fez todos os outros desmaiarem. Um sobrevivente compartilhou essa história comigo…

Quando eu tinha 12 anos, durante uma excursão, o motorista do ônibus perguntou se a gente queria que ele contasse a história mais assustadora do mundo. A história que ele contou foi tão aterrorizante que fez todo mundo desmaiar. Depois, ninguém queria dizer do que se tratava. Só que era a coisa mais assustadora que qualquer um deles já tinha ouvido na vida. As crianças falavam disso aos sussurros. Em boatos. Mas ninguém nunca repetia pra mim, não importava o quanto eu implorasse ou suplicasse.

Eu era o único garoto no ônibus usando fone de ouvido, então não ouvi nada.

Eu tinha um Walkman novinho em folha (é, eu sou velho pra caralho). E enquanto todas as outras crianças estavam trocando histórias de terror, eu coloquei meu fone. Nem lembro mais pra onde era a excursão — museu de ciências? Enfim, era uma viagem longa pra uma dúzia de crianças.

O que eu lembro é de ver o motorista do ônibus (não era o nosso motorista normal, era um substituto só pra essa excursão) olhando pra nós pelo retrovisor e perguntando se a gente queria ouvir “a história mais assustadora do mundo”. Todo mundo gritou “SIM!!!” bem alto. E o motorista ficava insistindo que era assustadora demais pra gente. Acho que revirei os olhos, e lembro dele dizendo: “Essa história começa numa estrada municipal…”

Aí eu desliguei dele, aumentei o volume do Walkman e, quando a fita acabou, percebi que o ônibus inteiro ao meu redor estava em silêncio absoluto. Levantei a cabeça. Todas as crianças estavam boquiabertas, olhos arregalados. Virei no banco pro meu melhor amigo, Isaiah, que estava na fila de trás, e perguntei: “Ei, que porra tá acontecendo?”

Os olhos dele subiram e encontraram os meus. Ele fechou a boca, mas não disse nada.

“Tá tudo bem? Por que ficou tão quieto?”

Em algum lugar do ônibus, um sussurro. Algumas crianças da frente conversavam em tom nervoso. Acho que ouvi elas dizendo: “Não conta pra ele.”

Isaiah falou, com a voz completamente sem emoção: “Ele nos contou uma história assustadora.”

“Do que era?” perguntei, virando minha atenção pro motorista, que agora também estava calado, mãos no volante, sem dizer uma palavra, embora tivesse uma expressão estranha no rosto. Os olhos meio vidrados.

“Não posso te contar”, disse Isaiah.

“Por quê?”

Ele não respondeu. Ninguém respondeu. Era como se o que eles tinham ouvido tivesse aterrorizado tanto que os deixou travados no trauma. Congelados ali por essa experiência compartilhada, coletiva e horrível que eu, de alguma forma, tinha perdido. Não sei se você já andou num ônibus cheio de crianças em idade escolar, mas nunca fica quieto. Sempre tem falação. Mas naquele momento, fora o ronco do motor, dava pra ouvir um alfinete caindo no chão.

“Do que era?” repeti, mais alto.

Naquele exato segundo uma buzina tocou. Todo mundo agarrou os bancos quando um caminhão veio voando na nossa direção. Depois me contaram que o ônibus tinha desviado pra pista contrária. Os reflexos rápidos do motorista do caminhão e a manobra salvaram a gente de um acidente pior, mas o impacto matou o motorista do ônibus, deixou um aluno em coma, rodou o ônibus inteiro e derrubou vários de nós. Depois o boato se espalhou de que o motorista e os alunos tinham desmaiado por causa da história e foi isso que causou a batida. Enfim, lembro de voltar a mim no banco, me sentando, e vendo o céu azul lá fora. O dia parecia tão normal, exceto pelo vapor, ou fumaça, saindo do ônibus e do caminhão. Ouvi choro dos meus colegas de classe.

Alguns de nós foram pro hospital. O resto foi pra casa.

Dias depois, quando todo mundo já tinha voltado pras aulas, exceto o garoto que caiu em coma, perguntei pra uma colega: “Ei, Maria, você ouviu a história no ônibus, né?”

Ela estava rabiscando num caderno da aula de matemática, mas a caneta parou. Ela falou baixinho: “Sim…”

“Era realmente assustadora?”

Ela fez que sim com a cabeça.

“A história mais assustadora que você já ouviu?”

Ela fechou o caderno e mudou pra outra carteira, falando alto: “Não quero falar com você, Joshua.”

Vários outros garotos deram risadinha. Acho que minhas bochechas ficaram vermelhas. Eu não era exatamente um rejeitado social, mas também não era um dos populares. Tentei com outras crianças que tinham ido na excursão, mas nenhuma queria falar comigo sobre isso, nem meu melhor amigo Isaiah. Ele só ficava repetindo: “Não, cara, é assustador demais.”

Eu explodi: “Porra, cara, só resume se for tão assustador! Do que era, afinal?”

“Eu te conto quando eu tiver cinquenta e cinco anos.”

“CINQUENTA E CINCO?”

“Eu não quero nem pensar nisso! Mano, só deixa pra lá!”

A recusa dele quase destruiu nossa amizade. Mas no fim eu aceitei que ninguém ia me contar o que tinha traumatizado eles tanto assim.

É um mistério que me atormentou por décadas.

Só no ano passado eu encontrei uma nota no meu calendário do Google que eu aparentemente tinha feito como lembrete pra mim mesmo: “Aniversário do Isaiah — cinquenta e cinco.”

Eu entrei em contato, em parte pra desejar feliz aniversário, mas também pra perguntar se a gente podia se encontrar. A gente não se via desde o reencontro do ensino médio, e marcamos um café.

Quando cheguei, fiquei surpreso de ver os olhos dele vidrados e amarelados. Ele parecia bem mais velho que 55. Tentei esconder o choque, mas ele só sorriu e disse: “Câncer de pâncreas. Tenho uns poucos meses, provavelmente.”

“Ah”, eu disse. “Ah. Porra, me desculpa—”

“Você tá com cara boa, hein.” Ele levantou a xícara de café pra mim. “Parece que ainda tem quarenta anos. Como a vida tá te tratando?”

Puxei uma cadeira e contei que tinha casado e divorciado (“Igual eu”, ele disse), que era eletricista e às vezes escritor autônomo. Ele falou de reciclagem, hortas comunitárias, dos dois netos e de como tinha fundado uma organização sem fins lucrativos porque queria um mundo melhor pra eles. E quando eu comecei a relembrar dos tempos de escola, ele levantou a mão.

“Antes que você pergunte, não vou te contar aquela história do ônibus.”

“Mas—”

Ele balançou a cabeça. Me disse que todos os alunos que ouviram desejaram nunca ter ouvido — cada um deles.

“Confia em mim quando eu te digo — tô falando com amor — não pergunta. Se você ouvir, vai desejar que não tivesse ouvido. Irmão, deixa pra lá.”

Apesar da decepção, foi bom ver ele e botar o papo em dia. Também foi um dos adeuses mais tristes que eu já dei na vida, porque só de olhar pra ele eu sabia que seria o último.

Depois daquela conversa, finalmente aceitei que o mistério ia ficar sem solução.

Até ontem…

Ontem aconteceu por puro acaso.

Eu finalmente ouvi.

A história que o motorista de ônibus contou.

Eu estava num barzinho local e, de uma mesa ali perto, ouvi uma mulher dizendo: “… todo mundo contando histórias de terror, e o motorista falou: ‘Querem que eu conte a história mais assustadora de todas?’”

Na hora eu parei minha própria conversa e estiquei o pescoço pra ver quem estava falando. Era uma mulher de meia-idade, e no começo não reconheci ela na luz fraca do bar, mas conforme ela continuou falando eu percebi — Maria! Era a nossa Maria. Da última vez que eu tinha visto ela, tinha 12 anos. Ela tinha ido pra outra escola fundamental e médio que eu e o Isaiah. Mas naquele cabelo castanho cacheado e no jeito que a boca dela se torcia de lado quando falava… era ela com certeza. Ou ela tinha voltado pra nossa cidade natal ou, como eu, nunca tinha saído. Mundo pequeno!

A falação no bar estava alta. Perdi as próximas palavras dela.

“— você tá falando sério?” ofegou uma garota na mesa dela.

“É tudo verdade. O Shinji caiu em coma. O padrasto do Devon esfaqueou ele. A Mitsuko morreu no casamento dela quando o bolo foi esmagado na cara dela e uma das varetas atravessou o olho—”

Mais suspiros chocados.

“— tudo aconteceu exatamente como o motorista disse. O Isaiah tinha cinquenta e cinco anos quando o câncer pegou ele, e ele e eu fomos os últimos dois. Ah, mas a coisa mais louca: tinha um outro garoto no ônibus que não estava escutando.” A voz dela baixou, e eu tive que chegar mais perto, andando perto da mesa dela. “O motorista guardou ele pro final e disse: ‘O Joshua morre três dias depois que ouvir essa história.’ E aí o caminhão bateu, exatamente como o motorista tinha dito que ia acontecer logo no começo. E o coitado do Shinji caiu no coma dele. E aquele pobre garoto, Joshua… Joshua nunca parou de perguntar. Perguntava O TEMPO TODO. A gente brincava que se nunca contássemos pra ele, talvez ele nunca morresse—”

Um som engasgado escapou da minha garganta. A Maria levantou a cabeça e eu saí correndo, e acho que ela falou meu nome.

Isaiah, que descanse em paz, estava certo. Ele e os outros me protegeram todos esses anos.

Porra, irmão, você estava certo!

Queria nunca ter ouvido…

domingo, 1 de março de 2026

Meu professor colocou algo dentro de mim...

Eram 8h da manhã de segunda-feira. Aula de Fisiologia Comparada. Se você já passou por isso, sabe o quanto pode ser um saco do caralho.

Todo mundo estava ou dormindo ou num torpor enevoado. O professor falava arrastado sobre ciclos de sono em mamíferos e como eles se ajustam a diferentes fontes de luz ao longo das estações. Aí ele disse uma coisa completamente diferente.

“Como todos sabemos, o cérebro humano, ao contrário do de outros primatas, consegue funcionar em homeostase com apenas 30 minutos de sono por noite, em média”, falou ele, com uma cara totalmente séria que negava o absurdo da afirmação.

Eu levantei o olhar, confuso. Ele estava zoando? A expressão e a linguagem corporal dele pareciam as de um agente funerário no fim de um plantão de 12 horas. Olhei mais pra cima, pros slides projetados na tela.

Tinha um diagrama absurdamente detalhado do sistema nervoso dentro da cabeça humana. Um mapa complexo de linhas entrecruzadas com setas apontando para várias partes estava sobreposto em cima do cérebro e dos olhos. Eu não fazia a menor ideia do que era aquilo. Não se parecia com nenhum diagrama que eu já tinha visto antes, e a frase dele era estranha pra caralho.

Antes que eu conseguisse olhar melhor, ele clicou no controle remoto e pulou pro slide seguinte. Não tinha nada a ver com o que eu tinha acabado de ver.

Olhei pros lados pros meus colegas e ninguém estava nem aí, ninguém piscou.

Pensando que provavelmente eu só estava entendendo merda da matéria, fui falar com o professor depois da aula.

“Professor Davis, pode explicar aquele diagrama de novo? O do cérebro humano? Aquela coisa sobre dormir?”

“Uh, qual slide você tá falando? A gente não cobriu nada sobre comportamento de sono humano. Era só sobre diferentes espécies de urso.” Ele me olhou franzindo a testa.

“E aquele slide com o cérebro? Você falou alguma coisa sobre quanto tempo os humanos dormem. Né?”

“Não, não tô entendendo do que você tá falando. Com certeza não teve nada disso hoje. Talvez você tenha sonhado!”, ele riu de si mesmo.

“É… talvez.” Dei uma risada falsa. “Acho que vou só checar a apresentação da aula de novo quando chegar em casa.”

Ele riu de novo enquanto eu saía do auditório.

Mais tarde naquele dia, quando voltei pro dormitório, abri o notebook na hora e fui conferir a apresentação da aula. Estudei cada slide com calma e não achei porra nenhuma. Era tudo sobre urso mesmo. Será que eu tinha dormido na aula? Sonhado com aquilo?

Eu jurava que tinha acontecido. Aquele diagrama era bizarro. Aquela rede de linhas em cima do cérebro. Que porra era aquela?

Embora um pouco abalado, tentei deixar pra lá.

Mas naquela mesma noite eu senti. Alguma coisa dentro do meu cérebro. Meu crânio parecia um ovo cozido sendo descascado. Senti uma coceira leve debaixo da pele do couro cabeludo que eu não conseguia aliviar de jeito nenhum. E aquilo me deixou acordado. Fiquei encarando o teto por horas, tentando só desligar o cérebro e cair no sono. Mas eu simplesmente não conseguia.

Às 6h eu desisti. Sentei na cama e esfreguei os olhos. Meu corpo estava destruído de cansado. Mas meu cérebro não parava quieto. Levantei e me vesti pro dia.

Apesar de estar me sentindo exausto o dia inteiro, a terça-feira correu até que normal. Meu corpo estava louco pra deitar na cama de novo, mas minha cabeça estava apavorada com isso. Eu já tinha certeza de que tinha a ver com aquela aula. E a próxima era na manhã seguinte, às 8h.

Outra noite sem pregar o olho.

Quando terminei de fingir que dormia, me arrastei nervoso pra me vestir e fui caminhando pra Fisiologia Comparada.

A aula estava falando sobre adaptações que mamíferos em ambientes úmidos fazem pra sobreviver melhor e usar o corpo de forma mais eficiente. Nos primeiros minutos estava tudo normal.

“Claro, o corpo humano tende a piscar bem menos quando a pessoa está adaptada a ambientes equatoriais úmidos. Como aqui.” Ele olhou ao redor, cruzando rapidamente o olhar com o meu. “Na verdade, o olho consegue funcionar praticamente sem pálpebras nenhuma.”

Meus olhos voaram pro slide, mas ele clicou rápido demais. Não consegui ver. Fiquei encarando a tela com força, sentindo um buraco se abrindo no estômago. Que merda tinha ali? Prestei atenção redobrada nas anotações.

Seja lá o que fosse, os efeitos da minha insônia tomaram conta. Meus olhos pareciam pesados pra caralho, quase queimando. Foi aí que percebi que não tinha piscado desde que olhei pra cima. Quanto tempo tinha sido?

Olhei pro relógio. 8h46.

Não podia estar certo. Eu devia estar encarando direto a tela por pelo menos… 30 minutos? Meus olhos começaram a arder pra valer.

Quando tentei forçar as pálpebras a fecharem, nada aconteceu. O conforto normal da escuridão não veio. Senti lágrimas começando a se formar nas bordas.

Virei pro cara do lado. Ele estava dormindo. Agarrei o ombro dele e sacudi.

“Ei cara, você viu aquele slide sobre o olho humano?” O desespero na minha voz saiu mais do que eu queria.

“O quê? Eu não tava prestando muita atenção.” Ele abaixou a cabeça de novo.

Eu estava começando a me sentir louco. Talvez eu fosse?

Não. Impossível.

Meus olhos queimavam pra porra. Fiquei contando os minutos. Quando deu 8h50, levantei na hora da carteira e marchei pra frente da sala com as pernas tremendo.

“Professor Davis. Quanto tempo um ser humano precisa dormir?” Minha voz cansada estava falhando.

“Hum, não sei bem o que você quer dizer. Oito horas por noite?” Ele deu um sorrisinho rápido que sumiu na hora que olhou nos meus olhos. “Se você tá com dificuldade pra prova do meio do semestre que vem aí, pode sempre aparecer no meu horário de atendimento.”

“Não… eu, eu, só aquela coisa que você falou hoje. Sobre piscar? O olho? Umidade? Alguma coisa?” Fiquei olhando fixo pra ele, segurando a mesa dele pra não cair.

Ele franziu a testa. “Você tá se sentindo bem? Tá com cara de doente. Sabe que pode ir pro posto de saúde dos alunos–”

Eu virei as costas e saí andando enquanto ele ainda falava. Ele não ia me ajudar.

Quando cheguei em casa à noite já estava insuportável. Meus olhos pareciam que estavam jogando metal derretido neles. As lágrimas já tinham secado fazia tempo. Minha mente estava a mil. Eu não sabia o que fazer.

Davis tinha dedo nisso. Eu sabia. Ele estava fazendo alguma coisa comigo. Só não sabia exatamente o quê.

Passei o resto da noite tentando me concentrar nos estudos pra prova de outra matéria que eu tinha no dia seguinte. Nem preciso dizer que não rolou. Na manhã seguinte eu me fodi bonito. Mal conseguia segurar o lápis direito. Minha cabeça estava numa névoa grossa sem fim.

O resto da quinta-feira foi igual. Se alguma coisa, foi pior ainda. Eu percebia que as pessoas estavam me evitando agora. Desviando o olhar quando falavam comigo. Me encarando quando achavam que eu não ia notar.

O dia passou numa névoa cinzenta.

8h. Sexta-feira. Fisiologia Comparada.

Eu estava largado na carteira, mal conseguindo ficar sentado sem cair. A aula era sobre organismos coloniais. A caravela-portuguesa. Aí ele mudou o rumo.

“Assim como a caravela-portuguesa, nossos corpos estão numa relação bem próxima com um organismo.” Ele clicou no controle.

“Filaria habitans”, disse ele, o slide novo brilhando acima da cabeça dele. Mostrava um mapa completo do sistema nervoso humano ao lado de uma rede secundária de tubos e linhas espalhada pelo corpo inteiro. Parecia se juntar num núcleo parecido com tumor no estômago.

“Esse organismo, feito de 320 quilômetros de tubos, se origina dentro do estômago quando a gente come certos alimentos que contêm os ovos dele. O núcleo da filaria cresce dentro do hospedeiro, ajudando na saúde do microbioma intestinal, até chegar num certo tamanho.” A pele pálida e os olhos mortos dele davam uma aparência vazia enquanto ele falava.

Levantei a mão.

“Sim?” Ele apontou pra mim.

“Do que você tá falando? Que porra é essa? Isso não é real. Sou o único prestando atenção aqui?” Olhei ao redor, mas ninguém nem se mexeu.

Ele deu uma risadinha. “Eles não ligam. Não vão te escutar.”

“O quê? O que tá acontecendo? Por que eu não consigo mais dormir? Por que não consigo piscar?” Só aí percebi que minhas unhas estavam cravadas na carteira, sangrando.

“Tá dentro de você agora. Sempre esteve. Quando chegar no ápice, vai ter que sair.” Ele apertou o maxilar.

Fiquei olhando pra ele sem acreditar, com minha visão distorcida e seca.

“Enfim, vamos continuar”, disse ele, clicando no controle e indo pro slide seguinte. Voltou pra caravela-portuguesa.

Eu senti no estômago. Uma massa. Do tamanho de uma toranja. Se mexendo, gemendo. Levantei e saí da aula direto pra casa.

Quando cheguei no quarto já estava enjoado pra caralho. O mundo estava começando a rodar. A velocidade com que tudo isso avançou foi demais. Eu sentia que ia vomitar.

Desabei no chão e comecei a ter ânsia seca. A toranja no meu estômago subia e descia, chegando cada vez mais perto da garganta. Cuspe grosso escorrendo da boca, os nós dos dedos brancos enquanto eu agarrava o carpete.

Senti minha garganta se esticar até o limite e além, queimando enquanto a massa rasgava caminho pra fora. Meu maxilar rachou e estalou quando a coisa espremeu pro chão com um ploft molhado.

Era pálida, cheia de veias, mais ou menos redonda. Coberta por uns pelinhos brancos minúsculos que saíam pra todos os lados. Tudo brilhava na luz do quarto, encharcado de bile e cuspe.

Fechei os olhos. Um alívio gelado me invadiu e, pela primeira vez em anos, eu não vi mais nada.

Estou escrevendo tudo isso depois de ter dormido direto as últimas 15 horas. Foi o melhor sono da minha vida.

Talvez se eu não tivesse visto, nada disso teria acontecido.

Se você é estudante, talvez seja ok dormir na aula de vez em quando.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

A compulsão alimentar da minha namorada nos destruiu

Desde que comecei a sair com a Carla, eu já sabia dos problemas dela com comida. Sou nutricionista e conheço muito bem os hábitos alimentare...