quarta-feira, 6 de maio de 2026

Meu amigo de infância disse que existe uma palavra pro meu déjà vu: “Kurse”

Essa história precisa de um contexto.

Eu me lembro de um arco-íris. Não sei bem por quê, mas é isso que vem na minha cabeça quando penso no dia que a gente se conheceu. Oitavo ano, um playground molhado, um arco-íris e ela desenhando na caixa de areia com um graveto.

Ela gostava de rabiscar na areia molhada — pelo jeito segurava melhor o desenho. No dia que eu falei oi pra ela pela primeira vez, ela estava no meio de fazer o mesmo círculo várias e várias vezes.

Perguntei por que ela só ficava desenhando um círculo só, e lembro direitinho dela responder, toda tímida: “Porque ele não tem fim.”

Achei ela estranha pra caralho, mas eu também era. Então sentei do lado, peguei meu próprio graveto e desenhei um círculo ao lado do dela. Pelo sorrisinho que ela deu, deu pra ver que achou engraçado.

Viramos amigos rapidinho.

Um tempo depois, uma coisa estranha começou a acontecer. Eu comecei a ter mais déjà vu, uns flashes rápidos, aquela sensação de que eu já tinha vivido aquilo. No começo eu ignorava; era meio assustador, mas meus pais disseram que era normal. Minha amiga até falou que acontecia com ela às vezes também. Então achei que tava tudo bem.

Mas foi ficando mais frequente e mais forte. Eu tava fazendo lição de casa e, de repente, vinha aquela sensação… quando passava, eu já tinha escrito a resposta da pergunta sem nem perceber.

Ou então eu tava falando com alguém no telefone e, no meio do déjà vu, falava a mesma coisa que a pessoa ia falar, ao mesmo tempo. Tipo… eu já sabia.

Contei pros meus pais, pros amigos. Como ninguém conseguia explicar, meus pais me levaram no médico. No consultório, o cara falou que não fazia ideia do que meus pais estavam falando e que podia tentar um remédio, mas não recomendava. Como a gente não tinha muito dinheiro, eles só me levaram de volta pra casa e deixaram quieto.

E a vida toda eu convivi com isso. Parece que chegou num platô: acontece de vez em quando e depois some por um bom tempo.

Perdi contato com minha amiga da caixa de areia faz anos. Muitos anos. Segui em frente e aprendi a lidar com isso. Em alguns momentos até era útil. Às vezes eu conseguia chutar as respostas da prova na faculdade quando o déjà vu batia. Ou sabia o que meu chefe ia falar antes mesmo dele abrir a boca.

A vida seguiu. Até uns dias atrás.

Cheguei do trabalho destruído. Tinha sido um dia longo pra caralho. Fiquei uns bons trinta minutos sentado no carro só respirando antes de entrar em casa. Foi aí que senti aquele comichão no cérebro. Tipo um verme se mexendo. Sabia que o déjà vu ia ser forte, daqueles que parecem um raio.

E veio. Por um segundo eu senti que estava ao mesmo tempo dentro do carro e na porta de casa, onde tinha um bilhetinho dobrado colado. “Pra você”, estava escrito.

Um pássaro cantou no entardecer. E eu… estava indo em direção à porta. Não lembro de ter saído do carro, o que é bem estranho mesmo pra esses momentos já estranhos. Fiquei meio tonto. Demorei um minuto pra me recuperar e subir as escadas de tijolo.

Lá estava o bilhete. E eu reconheci a letra na hora. Mesmo assim, levei um susto quando abri. Tinha um círculo perfeito desenhado no meio da folha, e dentro dele as palavras: “Precisamos conversar. Me encontra no Cat Brew Café.”

Tá bom, pensei. Estranho, mas bem a cara dela. Dei de ombros, abri a porta de casa, tirei os sapatos e entrei. Mas quando cheguei na sala, vi o rabo de uma sombra se esgueirando pra cozinha.

Congelei. Senti um frio na barriga. Respirei bem baixo, me agachei, encostei na parede e peguei o celular com a mão tremendo. Podia ser ela, né? Se ainda fosse tão doida quanto antes, era bem capaz. Mas eu não podia arriscar.

Fui me arrastando devagar até a esquina entre o corredor e a cozinha, espiei no escuro. Não vi nada. Entrei na ponta dos pés, peguei uma faca do cepo bem quietinho, fui até o interruptor e acendi a luz o mais rápido que consegui.

Ninguém.

Revirei a casa inteira, centímetro por centímetro. Todas as portas e janelas estavam trancadas. Não achei ninguém. Acabei achando que era coisa da minha cabeça e sentei pra comer.

Tava na metade da salada quando ouvi um barulho na porta da frente, como se alguém tivesse batido com os nós dos dedos.

Meu coração disparou. Levantei, guardei a salada na geladeira e fui até o corredor olhar. Não vi nada. Voltei pra cozinha e foi aí que ouvi a porta destrancar e abrir sozinha. Com um susto, apaguei a luz da cozinha e me escondi atrás da ilha.

Passos ecoaram no corredor. Prendi a respiração e fui me arrastando agachado pro sala. Quase não deu tempo. Ouvi os passos chegando na cozinha. Entre respirações curtas e rápidas, xinguei baixinho e voltei pelo circuito da casa até o corredor.

Ouvi uma respiração forte na cozinha. A luz acendeu. Mais passos. “Porra”, sussurrei, sentindo o suor escorrendo na testa. O mais rápido e silencioso possível, fui até a porta da frente, abri e saí correndo noite adentro.

Pensei em chamar a polícia. Estava quase fazendo isso quando senti outro déjà vu forte vindo. “Agora não”, implorei baixinho.

E ele veio.

Me vi ao mesmo tempo do lado de fora de casa, quase chorando, *e* estacionando no Cat Brew Café. Eu estava chorando e ao mesmo tempo em pé na frente do café procurando minha amiga. É muito difícil explicar. Mas aí ouvi a voz dela, delicada e doce, chamando meu nome… e de repente eu já estava no café.

Pisquei. “Que porra é essa?”

Ela apareceu no meu campo de visão. O cabelo loiro dela tinha crescido até a cintura, mas o corpo continuava magro. Estava com roupa casual e uma mochila que parecia vazia nas costas. Aquele sorriso afiado dela ainda me chamava atenção. Parecia surreal. Mas ao mesmo tempo era familiar e bom.

“O que tá acontecendo?”, perguntei.

O sorriso dela ficou mais suave, quase triste. “A gente precisa conversar”, disse ela.

Fiquei olhando sem acreditar. “O café tá fechado! Como você sabia que eu ia estar aqui?”

“Você sabe como”, ela respondeu. “Acontece comigo também.”

Soltei um suspiro longo e me joguei no meio-fio. “Tá. Olha… você não vai acreditar na noite que eu tô tendo. Desculpa dominar a conversa, é bom te ver. Mas alguém invadiu minha casa.”

Os olhos dela arregalaram. “O quê?”

“É”, falei, segurando a cabeça com as mãos. “É um pesadelo. Eu ia chamar a polícia, mas… acabei aparecendo aqui primeiro. Sei lá como.”

Ela umedeceu os lábios, assentiu devagar, sentou do meu lado e disse: “É… eu entendo. Tá acontecendo comigo também.”

Olhei de lado pra ela. “O que tá acontecendo com você?”

“O déjà vu. Ele tá me movendo de lugar”, respondeu.

Meus dedos se abriram. “Caralho… tá, isso é muita coisa. O que tá rolando com esse déjà vu? Acho que era sobre isso que você queria falar, né?”

Ela assentiu. O cabelo dela brilhava na luz laranja do poste da rua vazia. “Por mais que eu ache legal a gente colocar o papo em dia, a gente não tem tempo.”

Ela enfiou a mão na mochila e tirou um caderno de desenho. Me entregou e mandou eu olhar. Quando abri, página após página só tinha círculos. Círculos sozinhos na folha, todos diferentes, com rabiscos estranhos e tentáculos saindo. Na hora senti um desconforto profundo. Olhei pro caderno, depois pra ela, e abri a boca pra falar — mas ela falou primeiro.

“O que é isso?”, ela perguntou por mim, pegando o caderno de volta. “Não sei o nome verdadeiro. O pessoal da internet chama de ‘Circular’. É uma língua. Uma língua antiga pra caralho. A mais antiga que a humanidade conhece.”

“Como assim?”, falei, levantando a sobrancelha.

Ela balançou a cabeça. “Olha.” Abriu numa página específica, passou o dedo no círculo e disse: “Essa palavra aqui. É a mais importante de todas.”

“Desculpa, mas quem na internet tá falando tudo isso?”

Ela me olhou com cara de coruja. “As outras pessoas como a gente. É isso que essa palavra significa. É pra gente como nós.”

“Isso tá parecendo loucura”, falei. E realmente parecia. Uma palavra em forma de círculo pra pessoas com déjà vu preditivo, vinda de uma língua mais antiga que todas as outras? Dava pra internar qualquer um por menos. Mesmo assim, perguntei baixinho: “O que ela significa?”

O olhar dela ficou mais sério. “Olha aqui. Esse risco significa ‘em algum lugar no tempo’. Esse aqui significa ‘não’. Aqui é ‘imediato’ e ali é ‘ambos’. É uma palavra que não existe em português. Significa ‘Kurse’.”

Fiz um “oh” sem som e perguntei: “E… somos nós? A gente é ‘Kurse’?”

Ela fez um hum e assentiu uma vez. “É.”

Fiquei sem palavras. Só dei de ombros e abri a mão. Ela ainda me entendia depois de tanto tempo e disse: “Eu sei que parece besteira. Mas pra mim o déjà vu tá ficando cada vez mais forte. Então eu fiquei fuçando em uns sites e fóruns bem doidos de gente como a gente. E alguns deles fazem uma coisa muito estranha quando o déjà vu fica forte assim…”

“Tá…?”, eu disse.

Ela olhou pro chão, procurando respostas que não estavam ali. “Eles começam a postar o mesmo comentário final várias vezes, em intervalos. Pra alguns é a cada vinte minutos. Pra outros, uma vez por dia. Mas postam a mesma coisa, como um relógio.”

Senti o déjà vu vindo de novo. Soltei um “Não!” sofrido, mas já era tarde. Minha amiga me deu o olhar mais doce e preocupado que já vi dela — e então me vi ao mesmo tempo sentado com ela e dentro do carro, indo pra um parque, chorando.

Pra mim que ainda estava lá com ela, ouvi ela dizer: “Tá começando com você também.”

E então eu já estava no parque, estacionado, completamente desorientado. Parecia que eu precisava descruzar a mente, igual quando você acorda e descruzar os olhos. Gemi, esfreguei a testa, as lágrimas já secando no rosto. E gritei.

Gritei pra caralho.

Bati os punhos no volante.

Meu peito apertou, o corpo travou e comecei a soltar todos os palavrões que conheço.

Essa estava sendo uma das noites mais estressantes da minha vida. Olhei sem expressão pro brilho fraco dos postes nos caminhos do parque. As sombras nas árvores, o playground vazio… o lugar inteiro parecia preso no tempo.

E eu também.

Meu celular vibrou no bolso e quase me matou do coração. Era o nome da minha amiga na tela, mesmo eu não lembrando de ter passado meu número pra ela. Atendi mesmo assim.

“Alô?”

“Ei”, ela disse. “Você chegou bem?”

Hesitei. “Acho que sim. Tô no parque.”

“Você precisa tomar muito cuidado”, ela falou. “Eu também. Quando eu li sobre o conceito de ‘Kurse’, o pessoal dizia que depois de um certo ponto a pessoa fica presa.”

“Presa?”

“É…”, a voz dela ficou baixa e triste. “Elas ficam presas em loops.”

Encostei a cabeça no descanso do banco e soltei um suspiro longo. “Loops? Do que você tá falando?”

“Ainda tô tentando entender. Só toma cuidado pra não ser seguido. Ou pra não seguir ninguém”, disse ela. “Tenho que ir. Me liga de manhã, por favor.”

E desligou sem mais nem menos. Guardei o celular e, sem ter mais ideia do que fazer — e sem nenhuma vontade de voltar pra casa —, resolvi andar pelo parque pra processar tudo que tinha ouvido. Peguei minhas coisas, tranquei o carro e saí andando pelos caminhos iluminados.

Parei no playground, sentei no balanço. O movimento ajudou um pouco, mas comecei a ficar enjoado com tanta confusão. Só queria ir pra casa e dormir, mas até isso me dava medo. Não sabia o que fazer.

Enquanto estava sentado, ouvi passos pesados e apressados sumindo na escuridão. Quase caí do balanço.

Estava ficando frio e eu tava apavorado. Precisava sair dali.

Levantei, dei uma última olhada no parque e voltei pro carro. Já estava quase chegando quando, no silêncio, ouvi o rangido das correntes do balanço atrás de mim.

Nem olhei pra trás. Só saí correndo.

Me joguei dentro do carro, tranquei as portas, liguei o motor e saí cantando pneu. Quando estava saindo, vi uma figura sentada no balanço. Uma mulher. Cabelo preto curto. Mal vestida pro frio. Parecia perdida em pensamentos dentro da sombra.

Acelerei pra longe dali.

Naquela noite dormi dentro do carro, mesmo estando na garagem de casa. Por mais desconfortável que fosse, era o único lugar onde eu me sentia seguro de verdade. O sono foi sem sonhos e acordei dolorido e cansado. Mesmo assim, quando vi a luz fraca da manhã entrando pelas janelas bem escuras, senti uma onda de alívio.

Consegui uns três minutos de paz antes do déjà vu bater de novo. Dessa vez me vi ao mesmo tempo no carro tentando me aquecer e no Cat Brew Café, comendo um sanduíche de café da manhã em frente à minha amiga.

Acho que você já entendeu como funciona. Pisquei, e de repente eu já estava lá, comendo e conversando. Lembro que congelei com o sanduíche na metade do caminho pra boca. Ela me olhou com cara de dúvida e disse: “Oi de novo.”

Franzi o nariz. “Oi? Eu não estava aqui?”

Ela fez um hum, tomou um gole d’água. Notei que no vidro embaçado ela tinha desenhado vários círculos pequenos. “Você estava, mas também acabou de chegar. Dá pra ler na sua cara.”

Minhas mãos começaram a tremer tanto que deixei o sanduíche cair no prato. Com um sussurro desesperado, implorei: “O que tá acontecendo?”

“A mesma coisa que tá acontecendo comigo. E que aconteceu com outros ‘Kurses’, se eu estiver certa.” Ela estalou a língua e olhou pro lado. “O pior é que eu não sei por quê, nem como parar.”

Meus lábios tremiam tanto que mal consegui falar: “Eu sinto que tô pulando no—”

“Tempo. Eu também”, ela completou.

Mas falando em tempo, e talvez porque eu tava desesperado por um pouco de normalidade, olhei pro celular e soltei: “Merda! Tô atrasado pro trabalho! Tenho que ir, desculpa. Te ligo hoje à noite.”

Ela me olhou com aqueles olhos grandes e tristes. “Espero que sim”, disse.

A gente se despediu. Ela no sedã velho dela, eu no meu. Quando estava saindo do estacionamento, vi o que parecia ser o meu carro — mesma cor vermelha, janelas escuras, amassado no para-choque — passando por mim entrando no estacionamento.

Eu vomitei. Joguei tudo nas roupas que tinha usado no escritório no dia anterior. Vomitei tão forte que acho que triggerou o déjà vu de novo, porque a próxima coisa que eu soube foi que eu estava *saindo* do trabalho. Minhas roupas estavam limpas, mas eram as mesmas de ontem. Não lembrava de nada do dia, nem de ter trocado de roupa. Um minuto eu tava vomitando, no outro eu já estava no carro depois do expediente, na sombra de um prédio de oito andares.

Fui direto pra casa chorando o caminho inteiro. Em casa chorei mais ainda. Só queria minha cama. Dormir. Foda-se o invasor, pensei. Chutei a porta pra abrir, saí tropeçando e bati ela atrás de mim. Dei a volta pelo caminho curvo, subi as escadas de tijolo e, quando olhei pra porta, vi ela se fechando atrás de alguém.

Hesitei só um segundo, mas foi a gota d’água. Invadi minha própria casa, fechei a porta bem quietinho e fui andando pra dentro. Uma figura entrou na cozinha apagada, deixando a luz desligada. Fiquei ali, tremendo de raiva, pensando: será que eu vou mesmo fazer isso?

Eu ia, até que a luz acendeu. Fiquei congelado por um bom tempo, morrendo de medo. Uns trinta minutos se passaram até eu criar coragem pra me mexer. Quando consegui, marchei pra cozinha pronto pra cobrar explicações. E lá não tinha ninguém. Nada tinha sido mexido, só faltava uma faca no cepo.

Desliguei a luz com cuidado. Não queria ser visto. Peguei outra faca, rodei a casa inteira e voltei pro corredor bem na hora de ver…

Eu mesma saindo pela porta da frente, feito um gato assustado. Deixei a faca cair. Prendi a respiração. Era eu. O cabelo curtinho, a roupa de escritório meio desarrumada, o jeito de andar rápido. Era eu. Assim como eu no parque. Eu no café da manhã. Eu, eu, eu… era tudo eu!

Eu gritei.

Saí correndo de casa.

Entrei no carro e liguei pra minha amiga. Ela não atendeu.

E então, poucos minutos atrás, veio mais uma onda de déjà vu. Me vi ao mesmo tempo dentro do carro segurando o celular, me acalmando depois de um dia longo no entardecer… e subindo as escadas de tijolo até a porta de casa. Vi um bilhete nela. Li.

“Pra você.”

Quando voltei a mim, eu estava subindo as escadas até a porta. O bilhete estava colado na madeira. Peguei ele, abri correndo. Reconheci a letra. Li as palavras: “Precisamos conversar. Me encontra no Cat Brew Café.”

E desabei nas escadas. É onde eu estou agora. Sentada aqui, lendo o bilhete várias vezes. Tô com medo pra caralho. Peguei o celular pra tentar ligar pra ela de novo, mas o número dela não tá mais na minha agenda. Na verdade, não tem nenhuma ligação entre a gente.

Minha memória dos últimos dois dias tá toda quebrada, nebulosa. Talvez por isso eu esteja escrevendo isso, pra tentar lembrar o máximo possível. Não entendo o que tá acontecendo comigo e tô apavorada.

Se alguém puder me ajudar, por favor, por favor, fala alguma coisa. Se você tem déjà vu forte que nem eu, como você lida com isso? Essa merda de “Kurse” tá me deixando maluca, qualquer conselho ajuda pra caralho.

Quanto a mim… sei lá. Tô com fome. Foi um dia longo no trabalho. E tenho esse bilhete misterioso da minha amiga que não entendo.

Acho que vou entrar e comer alguma coisa. Uma salada, talvez. Tentar entender toda essa loucura.

Eu… acho.

Acabei de reler o post inteiro pra lembrar por que eu tô digitando isso agora. E sinto mais déjà vu vindo.

É melhor eu entrar e comer. Só Deus sabe o quanto eu preciso descansar.

Tô exausta. Foi um dia longo pra caralho.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Meu dentista quebrou a ponte de porcelana que minha vila me deu há 40 anos. Agora, minha verdadeira boca está nascendo...

Na minha família, as histórias têm essa qualidade antiga, rústica. Afinal, era dali que viemos. As histórias nos assombravam durante a noite; invadiam nossas cozinhas, se escondiam atrás dos fogões a lenha e se esgueiravam até a soleira dos quartos. Minha mãe sempre dizia que eu não nasci com fome, mas com urgência. Quando eu mal era uma mancha de carne buscando o peito dela, minha sucção não era a de um bebê mamando, mas a de uma maré recuando com violência. No dia em que fui desmamada, houve apenas silêncio. Minha mãe sentiu uma fisgada forte, um rasgo no tecido, e quando me afastou, viu que o leite escorrendo pelo meu queixo não era branco. Era um rosa pálido, riscado por um fio de líquido vermelho — denso e escuro. Naquele dia, a vila decidiu que eu já tinha provado o suficiente dela.

Depois desse desmame abrupto, a fórmula chegou como um consolo frio, mas insuficiente. Conforme eu crescia, minhas gengivas não pulsavam apenas; ardiam com um fogo baço que subia até as têmporas. Lembro-me de cravar os dentes em tudo que encontrava: as bordas das mesas de madeira, brinquedos de borracha endurecida, até as pedras lisas do rio que minha mãe me deixava chupar para “esfriar” a boca.

Eu não era a única. Na escola da vila, o som de fundo durante as aulas não era o de lápis riscando papel, mas o ranger dos dentes de trinta crianças. Era um coro de mandíbulas cerradas. Olhávamos uns para os outros com as bochechas inchadas e os olhos brilhando de febre, reconhecendo no vizinho aquele mesmo tique nervoso na mandíbula. Meu avô, com a boca de gengivas nuas e escuras, nos observava com uma mistura de pena e resignação: “É a terra cobrando o que é seu”, dizia ele, mastigando com dificuldade seu mingau de milho.

Quando fiz dez anos, a coceira se tornou insuportável. Eu sentia como se meus dentes da frente não estivessem presos à gengiva, mas flutuando sobre uma massa macia que queria romper para fora. Foi então que minha mãe me levou pela mão ao consultório do doutor Alarcón. Não tiraram raio-x. Não fizeram muitas perguntas — eu era só uma criança e não me lembro de todos os detalhes. Abriram minha boca à força com dedos que cheiravam a tabaco e metal.

“É a hora”, disse ele, olhando não para os meus dentes, mas para algo mais atrás. Algo no meu palato que começava a se projetar para baixo.

A extração foi rápida e estranhamente silenciosa. Não houve o estalo seco que se espera de um dente saudável deixando o alvéolo. Foi mais como arrancar raízes de um solo pantanoso. O doutor Alarcón tirou os quatro dentes da frente e, por um segundo, antes de o sangue inundar minha boca, vi o que havia por baixo: não havia buracos limpos, mas uma cavidade escura, em forma de fenda, que parecia querer respirar.

“Coloque a ponte imediatamente”, ordenou minha mãe. “Não deixe o osso sentir o ar. Se o osso sentir o ar, ele se acostuma a sair.”

Eu não entendi o que o doutor Alarcón queria dizer, nem por que mamãe tinha aquele olhar de urgência desesperada. Mas havia muitas coisas que eu não entendia, e ainda assim aprendi a não perguntar.

Na nossa vila, sobrenomes não eram nomes; eram etiquetas da mesma substância. Ninguém estranhava que o filho do prefeito tivesse os mesmos olhos caídos e o mesmo queixo retraído que o senhor Juan, o colhedor de café, ou que minha mãe chamasse de “primo” homens que, pela lógica biológica, deveriam ser simples conhecidos. Éramos um enxame fechado. Nas festas do padroeiro, a dança era um misturar do mesmo sangue encontrando a si mesmo de novo — espesso e lento, como a água de um poço que ninguém esvazia há séculos.

Aceitávamos tudo. Aceitávamos que algumas crianças nascessem com as costas abertas, numa ferida de carne viva que os médicos chamavam de “corrente de ar”, e que outras, como eu, carregassem essa urgência no palato. Os mais velhos, já de cabelos grisalhos, culpavam repetidamente a má conduta dos adolescentes. Aqueles de coração branco, de alma branca e impura. Aqueles que viviam na soleira. “É uma idade complicada”, dizia dona María. “Eles não sabem que seus atos são pagos com as doenças dos jovens.”

O doutor Alarcón não era um estranho: era um guardião. Suas mãos de tabaco e metal aparavam as gengivas das minhas tias e dos meus avós, mantendo à distância aquela forma que a genética — ou os pecados dos adolescentes brancos — queria nos dar, e que a decência nos obrigava a esconder atrás de pontes de porcelana.

“Não se desvie dos seus”, disse minha tia ao ajustar minha nova ponte, com um olhar que era ao mesmo tempo súplica e aviso. “Lá fora, eles não entendem a nossa sede. Lá fora, as pessoas são... finas. Não têm a nossa consistência.”

Minha adolescência não chegou com o despertar da curiosidade, mas com uma vigilância extrema. Minha família chamava essa fase de “Período Branco”, um tempo de purificação em que deveríamos pagar o peso da nossa herança com silêncio. Nós, os jovens, chamávamos de “Período Branco” por outros motivos — por tudo que podíamos ver em nós mesmos, pelas mudanças no coração, nos pensamentos. Foi então que o véu começou a se rasgar, não pelo que eu sabia, mas pelo que eu sentia.

Lembro-me da tarde em que minha mãe me sentou no quintal e chamou a vizinha. Ela trouxe o filho pela mão, um menino de pouco mais de onze anos, com um olhar vazio e aqueles mesmos olhos caídos que todos nós compartilhávamos. O rosto do menino ainda estava manchado de doces e ele brincava com um pedaço de madeira, mas a mãe o apresentou a mim com uma solenidade que me gelou.

“É pelo bem da raiz”, sussurrou minha mãe, acariciando a cabeça do menino enquanto me encarava. “Vocês têm a mesma consistência óssea. O doutor Alarcón diz que os palatos de vocês se encaixam como duas metades do mesmo fruto.”

Senti um arrepio que não começou na pele, mas fundo na mandíbula. Não era só por ele ser uma criança; era a forma como nos olhavam. Não estavam procurando que nos amássemos; estavam procurando que nos selássemos. Para eles, éramos apenas recipientes para que o sangue espesso e estagnado não se perdesse. O menino me olhou com uma inocência quebrada, e notei que seus quatro dentes da frente também haviam sido extraídos. Ele tinha a mesma ponte de porcelana que eu, o mesmo focinho da decência.

Passei a observar tudo com outros olhos. Vi como a vila não celebrava uniões, mas cruzamentos. Vi bebês nascidos com dedos a mais ou com aquela ferida nas costas, e como todo mundo assentia com uma normalidade aterradora, como se o preço de ser “nós” fosse a deformidade. O que a vila chamava de “tradição” tinha para mim o gosto de carne estragada.

A gota d’água foi ouvir o doutor Alarcón certa noite, à soleira, falando com meu pai.

“Se não a ligarmos logo ao menino, o corpo dela vai começar a olhar para fora”, disse Alarcón com sua voz metálica. “E você sabe que o que ela carrega no palato não lida bem com estranhos. O ar de fora vai despertá-lo. Se ela sair, o que selamos vai apodrecer. Precisamos garantir a ponte antes que o desejo a mova.”

Naquela noite, enquanto eu passava a língua pela borda fria da prótese, entendi que eu não era filha; eu era um reservatório para... alguma coisa que eu não conseguia nomear porque não sabia o que era. A vila era um laboratório de pecados antigos que se alimentava de seus próprios descendentes, planejando minha vida com um menino que mal sabia amarrar os sapatos, simplesmente porque nossos ossos eram compatíveis no erro.

Aquilo era... repulsivo.

Na manhã seguinte, antes que o sol atravessasse a névoa espessa do vale, arrumei minhas poucas coisas. Cruzei a soleira sem olhar para trás, sentindo o ar estranho da estrada bater no meu rosto. Minha tia tinha razão: lá fora, o ar era fino. Mas eu preferia qualquer vazio a continuar sendo mais um fio naquela trama de sangue estagnado.

A cidade me recebeu com sua indiferença salvífica. Durante quarenta anos, tornei-me uma especialista na superfície. Na cidade, onde ninguém olha nos seus olhos por mais de um segundo, era fácil me esconder. Consegui construir uma vida pequena, mas sólida: um trabalho administrativo, um apartamento com cheiro de café e produtos de limpeza, uma rotina sem rachaduras pelas quais o passado pudesse vazar.

Minha vida amorosa foi o sacrifício necessário para manter minha paz. Havia homens, claro — homens que me levavam para jantar e estendiam a mão sobre a mesa. Mas, no instante em que a conversa se tornava íntima, quando a possibilidade de um beijo ou de uma noite compartilhada ameaçava despir não só meu corpo, mas meus segredos, eu recuava. A ideia de alguém ver o metal e a porcelana que sustentavam meu sorriso — de sentir a anomalia do meu palato com a própria língua — era insuportável. Já havia gente demais no mundo (os fantasmas da minha vila) que sabia que eu tinha uma tampão na mandíbula. Eu não era corajosa o suficiente para ser descoberta pelos “finos”. Preferia a solidão ao risco de ver nojo nos olhos de um estranho.

Convenci-me de que o doutor Alarcón havia se enganado. O ar da cidade não tinha me despertado; tinha me anestesiado.

Até que, algumas semanas atrás, o silêncio se rompeu. Começou como uma dor surda, uma pulsação que me lembrava o “Período Branco” da juventude. Mas logo a pulsação virou uma agulha de fogo. Era uma dor lancinante na gengiva superior que turvava minha visão. Toda vez que minha língua roçava por acidente o palato ou os dentes, um raio elétrico descia pela minha coluna, fazendo minhas pernas tremerem. Era uma dor que chegava ao osso, uma pressão como se algo estivesse empurrando de dentro para fora, querendo retomar o espaço que cimento e porcelana haviam negado por décadas.

Impotente, com a mandíbula vibrando de puro tormento, me entreguei ao sistema. Fui ao dentista do convênio, esperando encontrar alívio na ciência moderna que eu tanto idealizara. O consultório cheirava a água sanitária e pressa. O médico que me atendeu tinha o rosto cansado de quem já vira cem pacientes antes de mim. Nem sequer olhou nos meus olhos quando mandou que eu me sentasse na cadeira reclinável.

“Essa ponte é antiga, senhora. Muito antiga”, disse ele, manipulando minha boca com pinças frias. “E a raiz do dente ao lado está apodrecendo. Precisamos extrair o que restou e limpar a área. Está muito inflamado.”

Não houve cerimônia ao estilo Alarcón. Nenhum aviso sobre o ar. Para aquele homem, eu era uma peça mecânica precisando de manutenção.

“Dói muito”, consegui gaguejar.

“Dói em todo mundo. Abra mais.”

Quando o primeiro dente quebrou sob a pressão da pinça, o som não foi seco, mas úmido — como madeira podre se partindo em lascas. O dentista soltou um bufar de impaciência, como se minha dor fosse uma ofensa pessoal. Em vez de parar, enfiou os dedos enluvados na minha boca e puxou meu lábio superior para cima com uma brutalidade cega.

Senti o freio — aquele fio fino de carne que liga o lábio à gengiva — esticar até o limite absoluto. A elasticidade do meu próprio rosto estava no ponto de ruptura. Cada puxão do médico era uma agonia; eu sentia que o tecido estava prestes a se rasgar, que meu lábio perderia a forma para sempre, se soltando como a pele de uma fruta madura demais. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu via, pelo reflexo do metal da lâmpada, minha própria boca sendo forçada a um bocejo antinatural.

“Fique parada”, rosnou ele, enquanto o elevador de metal raspava contra o osso exposto.

O homem começou a escavar para remover os fragmentos enterrados no meu palato duro. Ele não procurava uma saída limpa; estava abrindo um buraco. O estalo final foi diferente: um som profundo e oco, que ecoou na base do meu crânio. Ele havia perfurado o palato. Uma cascata de sangue quente e rançoso, com um gosto que me lançou de volta instantaneamente ao peito da minha mãe, inundou minha garganta.

“Engula isso”, ordenou sem me olhar. “Não vou deixar este lugar se encher de sangue.”

Ele me obrigou a engolir a própria essência, aquele fluido contaminado que Alarcón tentara conter sob a porcelana. Depois, com um último gesto áspero, soltou meu lábio, que caiu sobre a gengiva como um trapo morto. Enfiou minha boca com gaze estéril, que encharcou em segundos.

“Pronto. Coma coisas frias. Se inchar, é normal.”

Me mandou para a rua sem um único antibiótico, sem um analgésico, com o palato escancarado e a ordem de continuar engolindo tudo o que começasse a brotar daquela ferida.

Naquela noite, o silêncio do meu apartamento se tornou insuportável. A dor já não era uma pulsação; era um grito silencioso correndo pelo meu rosto. Tentei dormir, mas o gosto na boca — aquele tom amarelo-esverdeado filtrando pela gaze — era denso demais.

Quando acordei, a inflamação tinha deformado metade do meu rosto. Minha bochecha pendia pesada, e uma cor biliosa, quase fluorescente sob a luz do banheiro, manchava o lugar onde antes ficava meu sorriso. Ao remover a gaze, vi o buraco no palato. Não era uma ferida cirúrgica. Era uma boca dentro da minha boca.

A infecção não era pus. Era uma massa de tecido poroso, vivo, que vibrava a cada respiração. Lembrei-me das palavras de Alarcón: “Se o osso sentir o ar, ele se acostuma a sair.” O açougueiro da cidade não tinha arrancado apenas um dente; tinha removido o tampão do poço. E agora, o que a vila cultivara no meu sangue durante séculos finalmente tinha espaço suficiente para terminar de nascer.

Na manhã do quinto dia, meu corpo se rendeu. Não era mais só a dor; era uma febre gelada que me fazia ver sombras nos cantos do apartamento. No pronto-socorro, os médicos não demonstraram a indiferença do dentista do convênio. Seus rostos se contraíram atrás das máscaras enquanto removiam o tampão de gaze da minha segunda boca. Coletaram amostras daquele pus espesso, riscado por grânulos amarelos — Actinomyces — uma bactéria anaeróbia que estava devorando minha maxila agora que o ar e o trauma lhe tinham aberto caminho. Mas o verdadeiro horror não estava na cultura microbiana, e sim nos resultados dos exames de sangue e no mapeamento genético que solicitaram por causa da estranha porosidade do meu osso.

“Tem algo que não fecha nos seus marcadores, senhora”, disse a hematologista, evitando meus olhos enquanto segurava o laudo do microarray. “Encontramos longos trechos de homozigosidade em quase todos os seus cromossomos. Segmentos idênticos de DNA que não deveriam estar aí.”

Ela disse isso enquanto eu encarava o laudo: meu mapa genético não era uma encruzilhada; era um círculo fechado. Um laço infinito do mesmo sangue se chocando contra si mesmo. O exame revelou que meus pais compartilhavam muito mais do que um sobrenome; compartilhavam uma arquitetura biológica tão estreita que meu corpo não passava de um quebra-cabeça de peças repetidas e defeituosas.

Agora, enquanto o soro do antibiótico marca o ritmo das minhas horas, não consigo parar as perguntas que me atravessam com violência. O que a ligação com aquele menino de onze anos deveria resolver? Alarcón disse que nossos palatos se encaixavam como duas metades de um fruto... mas que tipo de semente esperavam que germinasse daquela união? Estavam tentando aperfeiçoar a deformidade até que ela deixasse de ser erro e se tornasse uma nova espécie?

Fico pensando se o “Período Branco” era mesmo uma purificação, ou se era o momento em que nossos ossos estavam mais maleáveis, prontos para serem moldados antes que o selo de porcelana já não bastasse. O que era que “podia sair” se o osso sentisse o ar? Existe outra coisa viva no vazio do meu crânio?

Talvez a infecção não seja uma invasora. Talvez a cor amarelo-esverdeada seja a minha cor verdadeira. Olho para o relatório médico sobre a mesa e uma última dúvida congela meu sangue: se meu mapa genético é um círculo perfeito, quantas outras vezes essa história se repetiu nas sombras da vila antes de eu acreditar que poderia escapar? No fim, o açougueiro da cidade não me matou; apenas arrancou a minha máscara. E agora que o ar entrou, tenho medo de pensar que aquilo que está despertando no meu palato... tem medo de voltar para casa.

Há um detalhe nesses casos de pessoas desaparecidas de que ninguém está falando

Eu não percebi de uma vez, e, sendo bem sincero, provavelmente nem teria percebido se não tivesse começado a ver os mesmos cartazes repetidas vezes, nos mesmos lugares. O primeiro estava colado em um poste de luz perto do posto de gasolina onde eu paro no caminho de casa depois do trabalho, aquele tipo de poste coberto por camadas de fita velha e papel, onde as pessoas grudam coisas sem nem pensar em quantas já tem ali. Lembro de ficar ali com a bomba abastecendo, sentindo o cheiro de gasolina no ar, olhando só o bastante para registrar a foto e a palavra “DESAPARECIDO” em letras grandes antes de desviar o olhar e conferir quanto ainda faltava pagar.

Alguns dias depois, vi outro naquele mesmo poste, só um pouco mais abaixo, como se alguém tivesse tentado abrir espaço em vez de cobrir o primeiro. Pessoa diferente, nome diferente, mas a estrutura era quase idêntica. O mesmo tipo de foto, a mesma formatação, o mesmo bloco de texto embaixo. Lembro de ter parado um pouco mais daquela vez, lendo mais do cartaz enquanto a impressora do recibo ficava clicando atrás de mim, tentando entender por que aquilo me parecia familiar de um jeito que eu não conseguia identificar na hora.

Depois disso, comecei a perceber mais, não porque eles tivessem aparecido do nada em todo lugar, mas porque eu já tinha visto o suficiente para começarem a se destacar. Um num placa de pare perto do mercado, outro colado na lateral de um ponto de ônibus por onde eu passo às vezes, um parcialmente rasgado num poste de madeira perto do parque. Eles não estavam todos no mesmo lugar, mas também não estavam distantes o bastante para parecerem aleatórios. Era como se todos viessem da mesma região geral, mesmo que eu não conseguisse traçar uma linha clara entre eles.

No começo, eu não conectei nada. Pessoas desaparecem, isso acontece, e na maioria das vezes você não ouve nada além da publicação inicial. Mas havia algo em vê-los com tanta frequência, tão próximos uns dos outros, que me fez começar a lê-los com mais atenção sem nem perceber. Eu me pegava diminuindo o passo quando passava por eles, levando um segundo a mais do que o necessário para ler os nomes, as datas, os últimos lugares onde foram vistos, como se eu estivesse tentando encontrar alguma coisa específica sem saber o quê.

Foi aí que comecei a notar o detalhe. Não era algo óbvio, nem estava destacado como se fosse importante. Era só parte da descrição, aquele tipo de frase que você passaria batido se não estivesse prestando atenção. “Visto pela última vez perto de...” seguido de um local e, às vezes, nem sempre, mas o suficiente para ficar marcado, vinha uma segunda parte no fim. “Visto pela última vez falando com um homem.” Na primeira vez em que percebi isso, não dei muita importância, porque isso é normal — afinal, as pessoas costumam ser vistas com alguém antes de desaparecer — mas depois eu vi de novo em outro cartaz, com uma formulação diferente, mas querendo dizer a mesma coisa, algo como “visto pela última vez conversando com um homem desconhecido” ou “visto pela última vez na companhia de um homem”, e foi aí que aquilo ficou na minha cabeça por mais tempo do que deveria.

Naquele momento ainda parecia coincidência, mas eu comecei a conferir os cartazes antigos também, voltando aos lugares onde eu sabia que eles tinham sido colocados só para ler tudo de novo. Alguns não mencionavam mais ninguém, mas eram tantos os que mencionavam que deixou de parecer acaso. Sempre era algo vago, nunca um nome, nunca uma descrição clara, só “um homem”, e às vezes acrescentavam alguma coisa pequena, como altura aproximada ou roupa, mas nunca o bastante para identificar alguém de verdade, só o bastante para confirmar que havia alguém lá.

Não sei quando isso deixou de ser só notar e passou a ser realmente procurar, mas em algum ponto comecei a prestar mais atenção nas pessoas ao redor daquelas áreas do que eu normalmente prestaria. Não de um jeito óbvio, só olhares rápidos enquanto eu esperava numa fila, ou passava por alguém na calçada, ou ficava um segundo a mais no semáforo tentando ver se alguém se destacava de um jeito que combinasse com o que eu continuava lendo. Ninguém realmente se destacava, e isso deveria ter encerrado a questão.

Mas então eu o vi.

Não percebi de imediato. Ele era só mais uma pessoa na fila do posto, algumas posições à minha frente, segurando uma bebida e alguma coisa pequena do balcão. Nada nele chamava atenção. Altura mediana, talvez na casa dos 30 e poucos, roupas escuras sem nada que se destacasse, o tipo de pessoa que você não lembraria se não estivesse já procurando alguma coisa. O que fez eu notar foi a atendente, que soltou um “oi” rápido para ele, como se o conhecesse; não de um jeito amigável o bastante para significar algo, só familiar o suficiente para registrar. Ele não respondeu direito, apenas colocou as coisas no balcão e ficou esperando.

Lembro de mudar o peso de um pé para o outro, olhar para o visor de preços e depois para ele de novo sem realmente querer, e foi aí que caiu a ficha de que eu já tinha visto aquele homem antes, não uma, mas várias vezes, em lugares diferentes pela cidade. Perto da entrada do mercado, passando pelo parque, parado perto daquele mesmo ponto de ônibus onde um dos cartazes tinha sido colado. Nenhum desses momentos significava nada sozinho, mas, juntos, eles pareciam conectados de um jeito que eu não conseguia explicar.

Eu disse a mim mesmo que aquilo não significava nada, porque é uma cidade pequena e você vê as mesmas pessoas o tempo todo, mas, da próxima vez que vi um dos cartazes, li de outro jeito. Fiquei ali mais tempo do que precisava, lendo aquela linha outra vez e depois olhando para a rua ao redor sem perceber que estava fazendo isso, e, depois disso, comecei a notá-lo mais, não porque ele estivesse de repente em todo lugar, mas porque eu estava prestando atenção agora.

Ele aparecia nos mesmos tipos de lugar onde os cartazes eram colocados, nunca fazendo nada estranho, nunca chamando atenção e, se fosse para dizer alguma coisa, ele se misturava bem demais, como se soubesse exatamente como atravessar um espaço sem ser lembrado. Foi isso que tornou tudo pior, porque eu nunca o vi diretamente com ninguém dos cartazes, mas havia momentos em que parecia que eu tinha acabado de perder alguma coisa, como se eu o visse saindo de um lugar e, um ou dois dias depois, aparecesse um aviso de desaparecimento ali, ou eu passasse por ele na calçada e percebesse que havia um cartaz de pessoa desaparecida colado a poucos metros e eu não tinha notado antes.

Nunca batia de um jeito limpo o bastante para provar alguma coisa, só o suficiente para me incomodar, e eu tentei ignorar depois de um tempo, me impedindo de ler os cartazes com tanta atenção, mas, quando você percebe uma coisa dessas, ela não vai embora de verdade. Só fica ali, esperando alguma coisa confirmar o que você suspeita, e essa confirmação veio há alguns dias.

Eu estava saindo do trabalho mais tarde do que o normal, e as ruas estavam mais silenciosas do que de costume. Não vazias, mas quietas o bastante para você notar os próprios passos mais do que o normal, e lembro de apertar o celular na mão e olhar as horas sem nem precisar, só para ter alguma coisa em que me concentrar enquanto caminhava. Foi então que ouvi passos atrás de mim, não perto o bastante para me dar pânico imediato, só ali, firmes, acompanhando o ritmo de quem anda na mesma direção, e quando virei um pouco o rosto sem olhar totalmente para trás, eu o vi.

Ele caminhava no mesmo ritmo, com a mesma expressão neutra, como se estivesse indo para algum lugar e eu fosse simplesmente alguém na frente dele, e eu voltei a olhar para a frente e continuei andando, mas já sentia aquela mesma tensão começando a crescer no peito. Atravessei a rua na próxima abertura sem deixar isso muito óbvio, e ele atravessou também, e foi aí que engoli seco e percebi o quanto minha boca estava seca. Diminui um pouco o passo, fingindo checar o celular de novo, e os passos dele ajustaram atrás de mim, acompanhando a mudança no ritmo.

Naquela hora eu não me virei. Em vez disso, acelerei e continuei andando até chegar a uma rua mais movimentada, com gente o bastante para eu não me sentir tão exposto, e, quando finalmente olhei para trás, ele tinha sumido. Fiquei parado por um segundo a mais do que devia, vasculhando a rua com os olhos, mas não havia um caminho claro por onde ele pudesse ter ido sem que eu visse, e eu tentei me convencer de que estava exagerando, de que aquilo não provava nada, de que eu tinha ligado pontos que na verdade não estavam ligados.

Isso funcionou por cerca de um dia.

Depois, eu vi o cartaz mais recente.

Ele estava no mesmo poste perto do posto de gasolina, colocado por cima de um dos cartazes mais antigos que já começavam a soltar nas bordas, e eu parei sem perceber e comecei a ler, já sabendo o que procurava antes mesmo de chegar naquela parte. “Visto pela última vez falando com um homem”, e, desta vez, havia uma descrição embaixo dizendo “30 e poucos anos, altura mediana, roupas escuras, sem características identificáveis”, e eu fiquei ali mais tempo do que devia, lendo aquilo de novo e de novo, até deixar de parecer coincidência e começar a parecer alguma coisa sobre a qual eu deveria ter falado antes.

Quando levantei os olhos, ele estava parado do outro lado da rua, sem se mexer, sem fingir estar ocupado, só olhando diretamente para mim como se estivesse esperando que eu o notasse. E, pela primeira vez, não pareceu que eu tinha descoberto alguma coisa.

Pareceu que tinham me descoberto também.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Eu encontrei algo enterrado no deserto que eu não deveria ter tocado

Eu não deveria estar tão longe assim, e o pior de tudo é que eu sabia disso enquanto estava fazendo. Não foi como se eu tivesse me perdido ou cometido um erro sem perceber; eu tomei a decisão de continuar quando deveria ter dado meia-volta. 

Lembro de checar o combustível, olhar para aquele vazio todo e, mesmo assim, dizer a mim mesmo que iria só um pouco mais longe antes de voltar. Não tinha um motivo real, era só aquele sentimento de que eu ainda não tinha visto o suficiente, como se tivesse algo lá fora que valesse a pena ser encontrado se eu avançasse mais um pouco.

O deserto não parece perigoso da forma que as pessoas esperam. Não é barulhento nem opressor; ele só se estende em todas as direções até que tudo comece a parecer igual. Quanto mais tempo você passa nele, mais difícil fica saber se você está realmente avançando ou apenas pisando no mesmo lugar. Eu já tinha passado das áreas onde você ainda pode cruzar com alguém, longe dos lugares que as pessoas exploram por lazer, e quando percebi o quão silencioso tudo tinha ficado, eu já estava sozinho de um jeito que nunca tinha sentido antes.

Notei as pedras antes de entender o que estava vendo, e, a princípio, não parecia nada importante. Parecia um trecho onde rochas tinham se acumulado naturalmente, algo que você nem pensaria duas vezes se estivesse só de passagem, mas algo ali não parecia certo. Quanto mais eu olhava, mais óbvio ficava que elas não estavam espalhadas como deveriam. Elas foram colocadas — não perfeitamente, nem de um jeito que formasse uma forma exata, mas com intenção suficiente para não parecer acidental. Algumas estavam empilhadas, outras espaçadas, formando um círculo frouxo que não era preciso, mas definitivamente não era aleatório.

Parei de andar sem querer e fiquei ali parado, encarando aquilo por mais tempo do que deveria, tentando entender o que era e por que parecia tão estranho. Não era grande, talvez uns seis metros de largura no máximo, mas parecia separado de tudo ao redor, como se alguém tivesse marcado aquele espaço por um motivo e depois o deixado em paz. Lembro de pensar que poderia ser algum tipo de marcador de trilha ou algo deixado por trilheiros, mas isso não fazia sentido conforme eu ficava ali, porque não parecia oficial e não parecia velho.

Quando cheguei mais perto, comecei a notar as marcas nas pedras, e foi o primeiro momento em que algo apertou no meu peito. No começo, achei que fossem apenas arranhões, mas eles também não eram aleatórios; eles se repetiam de formas que não acontecem na natureza. Eu me agachei e passei os dedos sobre uma delas, sentindo os sulcos pressionados na superfície, rasos, mas deliberados, como se alguém os tivesse entalhado rápido, sem se preocupar em deixá-los limpos. Quanto mais eu olhava, mais percebia que não eram apenas marcas deixadas por acidente.

Eram símbolos, e embora eu não conseguisse entendê-los, dava para notar que não eram sem sentido. Havia padrões neles, formas que quase pareciam que deveriam se conectar em algo que eu reconheceria se encarasse por tempo suficiente, mas elas nunca se encaixavam totalmente. Isso me deu uma sensação estranha que eu não conseguia afastar, como se eu estivesse olhando para algo que deveria ser capaz de entender, mas que não conseguia alcançar.

Aquele era o ponto onde eu deveria ter ido embora, mas, em vez disso, entrei no círculo sem realmente decidir. O ar não mudou fisicamente, mas a sensação foi essa, como se o espaço dentro das pedras guardasse algo diferente de tudo o que estava fora. O silêncio parecia mais pesado, mais próximo, e meus passos soaram errados no segundo em que entrei — mais abafados do que deveriam ser, como se o som não estivesse viajando da forma normal. Diminuí o passo sem querer, como se meu corpo estivesse reagindo antes que eu tivesse tempo de pensar.

Fui em direção ao centro, nem com cuidado nem de forma casual, como se algo naquele espaço estivesse me forçando a prestar atenção, e foi aí que notei que o chão parecia diferente em um ponto. Não era óbvio no começo, apenas uma leve mudança no jeito que a areia estava assentada em comparação ao resto, mas, uma vez que vi, aquilo saltou aos olhos. Tinha sido mexido — não recentemente o suficiente para ainda estar solto, mas não fazia tanto tempo assim para ter assentado completamente. Fiquei parado ali por um segundo com um sentimento imediato e pesado de que eu não deveria tocar naquilo.

Não parecia exatamente medo; parecia que eu tinha chegado à beira de algo que não entendia e estava prestes a atravessar o limite. Ignorei esse sentimento e me ajoelhei, afastando a areia devagar no início e depois mais rápido quando senti algo sólido embaixo. Primeiro achei que fosse só uma rocha, algo maior enterrado sob a superfície, mas quanto mais eu descobria, mais óbvio ficava que não era natural.

Era osso, e no segundo em que percebi isso, minhas mãos pararam de se mexer, embora ainda estivessem enterradas na areia. Fiquei encarando, tentando me convencer de que estava errado, mas já havia o suficiente exposto para que eu não pudesse negar por muito tempo. A curva, a superfície lisa, a forma que não pertencia àquele lugar... tudo fez sentido de uma vez de um jeito que me deu um nó no estômago.

Era parte de um crânio.

Eu deveria ter levantado e ido embora ali mesmo, mas não fui, e até agora não entendo totalmente o porquê. A única explicação que tenho é que, uma vez que comecei, senti que precisava ver tudo, como se parar no meio do caminho fosse de alguma forma pior do que terminar o que eu já tinha começado. Então continuei cavando, mesmo com cada parte de mim dizendo para não fazer isso.

Quanto mais areia eu tirava, pior ficava, porque não era apenas um crânio; era um corpo, ou o que restava de um, e não estava disposto da forma que deveria estar. Não estava espalhado como se algo o tivesse despedaçado, e não estava intacto como um sepultamento normal. Os ossos tinham sido movidos, colocados de formas que não batiam com a maneira como um corpo descansa naturalmente. 

Os braços estavam perto demais do tronco, em ângulos errados; as costelas parcialmente expostas, mas fora de lugar; as pernas dobradas levemente para dentro de um jeito que não fazia sentido, a menos que alguém as tivesse colocado assim depois que o corpo já tivesse se decomposto.

Parecia que alguém o tinha desmontado e tentado montar de novo sem entender como as peças se encaixavam originalmente, e essa percepção me deixou enjoado de um jeito que não tinha nada a ver com o que eu estava vendo fisicamente. Aquilo não era algo que o deserto tinha feito; não era erosão, nem animais, nem o tempo. Alguém tinha feito aquilo, e tinha feito com cuidado suficiente para não parecer caótico — apenas parecia errado.

Foi então que notei as outras áreas mexidas e, uma vez que vi uma, vi todas. Pequenos trechos ao redor do centro onde a areia parecia levemente diferente, espaçados de um jeito que seguia o formato do círculo. Eu não precisei cavar para entender o que eram, e esse foi o momento em que a situação mudou de algo que eu não entendia para algo de que eu, de repente, tinha plena consciência de que não deveria estar parado no meio.

Não era apenas um corpo; eram vários, e o que quer que tivesse sido feito ali não tinha sido algo único.
Essa percepção bateu com tanta força que eu levantei rápido demais, com as mãos tremendo, o peito apertado e os olhos percorrendo o círculo como se eu tivesse deixado passar algo importante — e foi aí que eu ouvi. Não foi alto, apenas o som da areia se movendo levemente atrás de mim, como se um peso tivesse sido colocado cuidadosamente onde não faria muito barulho.

Eu me virei na hora, esperando ver alguém ali, mas não havia nada, apenas o deserto aberto se estendendo atrás de mim, vazio em todas as direções. Isso não melhorou as coisas, porque por um segundo eu tive a sensação muito clara de que tinha sido observado o tempo todo enquanto cavava, como se alguém estivesse parado logo do lado de fora do círculo, perto o suficiente para ver tudo o que eu estava fazendo sem que eu notasse.
Fui recuando devagar, sem dar as costas para aquilo, sem querer perder o centro de vista, e no segundo em que saí do círculo de pedras, aquela pressão mudou, como se eu tivesse saído de algo onde não deveria ter entrado. Não fiquei lá depois disso; não tentei entender nada enquanto ainda estava no local. Eu simplesmente fui embora, andando mais rápido do que deveria, tentando não olhar para trás, tentando não pensar no que eu tinha acabado de ver ou no que aquilo significava.

Demorei mais do que o normal para encontrar meu carro, tempo suficiente para eu começar a sentir que tinha pegado o caminho errado, mas finalmente consegui voltar e não parei de me mover até estar dirigindo para bem longe dali.

Não voltei lá e não contei para ninguém pessoalmente, porque não sei como explicar sem que pareça algo que eu inventei, e parte de mim não quer que mais ninguém vá até lá e encontre aquilo.

Mas tem uma coisa que não consigo parar de pensar, e é a parte que não desce, não importa o quanto eu tente ignorar.

Eu não desenterrei o corpo inteiro; só expus parte dele antes de parar. E do jeito que estava arrumado, do jeito que tudo tinha sido colocado de forma tão deliberada, não parecia que tinha sido deixado inacabado.

Parecia que tinha sido interrompido.

Como se alguém tivesse começado algo que pretendia voltar para terminar.

E não consigo afastar a sensação de que, quando eu estava ali cavando, quem quer que tenha colocado aqueles corpos ali não tinha ido embora.

Eles estavam perto o suficiente para me ver.

E a única razão pela qual nada aconteceu é porque eu parei antes que eles precisassem que eu parasse.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

Meu amigo de infância disse que existe uma palavra pro meu déjà vu: “Kurse”

Essa história precisa de um contexto. Eu me lembro de um arco-íris. Não sei bem por quê, mas é isso que vem na minha cabeça quando penso no ...