sábado, 4 de abril de 2026

O Coelhinho da Páscoa me deixou 4 ovos e matou minha família inteira

Você precisa esquecer tudo o que acha que sabe sobre a Páscoa. Os ovos coloridos, o chocolate, tudo isso. Na minha família, a gente não espera a Páscoa com ansiedade. A gente teme por ela. Estou te contando isso na Sexta-feira Santa, 3 de abril de 2026. Já se passaram vinte anos.

Vinte anos até o dia em que tudo começou, o dia em que o Coelhinho da Páscoa escolheu minha família. A lista dele não tem nada a ver com ser levado ou bonzinho… é uma ordem de execução. E o som abafado que eu ouço lá fora? Aquele cheiro fraco e adocicado de feno úmido e terra invadindo por baixo da minha porta? Isso significa que ele está aqui. E acabou de escolher meus filhos.

Tudo começou numa Sexta-feira Santa, lá em 2006. Eu tinha dez anos, e a vida ainda era simples. Morávamos numa casa de dois andares no fim de uma rua sem saída silenciosa, com os fundos dando para um trecho denso de mata. A Páscoa era algo enorme na nossa casa. Minha mãe organizava os feriados com precisão militar, então o ar já estava pesado com o cheiro de pãezinhos assando e presunto glaceado com mel. Meu pai tinha acabado de passar a tarde montando uma bicicleta nova para meu irmão mais velho, Michael, e a escondeu sob uma lona na garagem. Éramos só… uma família normal e feliz.

Foi naquela sexta-feira que tudo começou a parecer errado. Eu estava no quintal com meu pai, juntando as últimas folhas mortas do inverno. Foi então que eu vi, bem na beira da mata. Uma única pegada enorme, afundada fundo demais na lama. Era grande demais para ser o pé de uma pessoa, comprida e estreita demais. Parecia só… errada. Uma paródia distorcida de uma pegada. Mostrei aquilo para meu pai. Ele estreitou os olhos, apoiando-se no ancinho. “Provavelmente só uns moleques aprontando”, disse ele, com aquela confiança fácil de adulto que cala uma criança. “Ou um cervo, talvez.” Mas não era um cervo. Cervos não deixam uma única pegada. E não deixam para trás um leve cheiro de feno molhado e alguma coisa metálica, como moedas velhas.

Mais tarde, naquela noite, depois que o sol se pôs, minha mãe chamou a gente para dentro. Quando corri de volta pelo gramado, olhei na direção da mata. Por um segundo só, um lampejo no crepúsculo, juro que vi alguma coisa ali parada nas sombras. Uma forma alta e magra. E as orelhas… aquelas orelhas eram impossíveis de confundir. Longas e pontudas contra o resto da luz que ainda morria. Pisquei, e ela sumiu. Disse a mim mesma que devia ser só um galho, meus olhos me pregando peças. Mas aquele medo frio já se torcia dentro do meu estômago. Eu sabia, com a certeza que só crianças têm, que aquilo não era uma árvore.

Na escola, a gente tinha histórias. Toda criança tem. Lendas locais que se trocam no recreio. A nossa era o Bunny Man. A história era antiga e tinha uma dúzia de versões diferentes. Alguns diziam que ele era o fantasma de um paciente fugitivo de hospício chamado Douglas, que esfolava coelhos para vestir e, no fim, começou a esfolar gente. Outros diziam que, se você fosse até a velha Colchester Overpass à meia-noite e falasse o nome dele três vezes, ele apareceria e te penduraria na ponte. Tem um motivo para chamarem aquilo de Bunny Man Bridge.

A gente até tinha uma rima para ele, um canto de corda de pular. Nossas vozes eram todas cantaroladas e inocentes, sem ideia do que realmente estávamos falando.

Bunny Man, Bunny Man, machado a reluzir,

Se esconde nas sombras, não dá para o ver surgir.

Não usa lista, não confere duas vezes,

Ser bom ou mau não salva a vida de vocês.

Era para ser uma história de fantasma. Mas eu tinha ouvido os outros sussurros. Os verdadeiros. Dos mais velhos, cujos pais não eram cuidadosos. Eu tinha ouvido falar da família Johnson, cinco anos antes. O pai era lenhador, e encontraram ele lá na mata. Esfolado. A polícia disse que foi um urso, mas não havia pegadas de urso. Só rumores de uma pegada única e estranha, e umas fibras que pareciam vir de uma fantasia barata de coelho. Eu tinha ouvido falar do garotinho dos Smith, que desapareceu do próprio quintal durante uma caça aos ovos de Páscoa. Nunca encontraram o menino, só os ovos que ele tinha recolhido, arrumados em um círculo perfeito no quarto vazio dele.

Tentei contar aos meus pais sobre a pegada, a rima, a coisa que vi na mata. Tentei juntar as peças que queimavam na minha mente. Minha mãe só me dava aquele sorriso forçado e paciente. “Chega de histórias assustadoras, querida. Você vai acabar tendo pesadelos.” Meu pai só ria. “Não existe Bunny Man nenhum. É só história.” Eles guardaram meus medos numa caixa, rotularam de “fantasia infantil” e colocaram numa prateleira. Eles me amavam. Só não conseguiam imaginar um mundo em que os monstros fossem reais. A descrença deles parecia uma jaula, e eu estava presa dentro dela, sabendo que alguma coisa terrível estava a caminho. A Páscoa estava chegando.

Na noite da Sexta-feira Santa, os sons começaram. Um thump… thump… thump… suave e constante contra a lateral da casa. Parecia um coração gigante batendo dentro das paredes. Fiquei deitada na cama, paralisada, com as cobertas puxadas até o nariz. Por fim, me arrastei até a janela e olhei para fora, para o quintal. Não consegui ver nada além das formas escuras das árvores. Mas o cheiro estava ali de novo, muito mais forte agora. Feno molhado e podridão. E sangue.

No sábado, o mundo parecia cruelmente normal. O sol estava lá fora, os pássaros cantavam. Parecia uma piada doente. Minha mãe estava na cozinha, perdida numa nuvem de farinha e açúcar. Ela pediu ao meu pai para ir buscar a forma grande de assar na garagem. A bicicleta nova do Michael ainda estava lá dentro, e senti um pequeno lampejo de empolgação por ele antes que o pavor o sufocasse de novo.

“Já volto”, disse meu pai. Ele bagunçou meu cabelo ao sair pela porta dos fundos.

Mas ele não voltou logo.

Depois de uns dez minutos, minha mãe enxugou as mãos no avental, com cara de aborrecida. “O que está prendendo esse homem?”, resmungou, indo até a porta. Eu a segui. Meu coração batia forte. A porta da garagem estava aberta só uma fresta. Minha mãe chamou o nome dele. Nada. Ela caminhou até lá, mas eu fiquei paralisada no pátio.

Ela empurrou a porta até abrir completamente e simplesmente… parou. Ela não gritou. É isso que eu mais me lembro. O silêncio. Ela só ficou ali, com a mão tampando a boca. Dei um passo lento para frente, depois outro, até conseguir ver por cima do ombro dela para dentro da garagem.

Meu pai estava no chão, ao lado da lona caída e da bicicleta novinha do Michael. A forma de assar estava no chão perto dali, salpicada de vermelho. A cabeça do meu pai… estava virada num ângulo que não devia ser possível, e a parede atrás dele estava pintada de carmim. Escorado em alguns pneus havia um machado. Era o nosso machado; o que meu pai usava para rachar lenha. Mas ele não estava onde a gente o guardava. E não estava limpo. O mundo simplesmente inclinou. A única coisa que me manteve em pé foi ver as costas da minha mãe, rígidas como uma tábua. Ela se virou devagar; o rosto dela era uma máscara pálida e cerosa. “Vá para o seu quarto”, sussurrou, a voz fina e estranha. “Tranque a porta. E não. Saia. De. Lá.”

Corri. Corri escada acima, passando pelo quarto do Michael, onde ele ainda estava jogando videogame, totalmente alheio a tudo. Tranquei a porta e me escondi no armário, enterrando o rosto num monte de roupas, tentando apagar da cabeça a imagem do machado e da parede.

O resto do dia foi um borrão de policiais, luzes piscando e vozes baixas em cômodos onde eu não podia entrar. Minha mãe quis levar Michael e eu para outro lugar, um hotel, a casa da minha tia, qualquer lugar menos ali, mas a polícia disse para a gente ficar. Disseram que teriam agentes por perto durante a noite. Disseram que a casa estava segura. Eu me lembro da expressão no rosto da minha mãe quando eles disseram isso. Ela não discutiu. Mas eu sabia. Ela sabia. O que quer que tivesse matado meu pai ainda não tinha terminado.

Naquela noite, a casa estava silenciosa como um túmulo. Mamãe colocou Michael na cama, dizendo que o papai tinha ido ajudar um vizinho. Trancou todas as portas, todas as janelas. Depois ficou sentada na sala, no escuro total. Eu não conseguia dormir.

As batidas voltaram, mas já não estavam do lado de fora.

Estavam dentro da casa. Passos suaves e pesados no andar de baixo. Uma tábua do assoalho rangendo no corredor.

Então, ouvi a água correndo no banheiro dos meus pais. Um respingo. Depois… silêncio. Um silêncio espesso e pesado, muito pior do que o barulho. Esperei o que pareceram horas. Não aguentei ficar no meu quarto. Abri a porta devagar e me arrastei para o corredor. A porta do quarto dos meus pais estava aberta. A luz do banheiro estava acesa, derramando-se sobre o carpete.

Andei na ponta dos pés e espreitei pela moldura da porta. Minha mãe estava na banheira. Mas ela não estava tomando banho.

Ela estava pendurada no chuveiro pelo cinto do meu pai, o corpo só… balançando. A garganta dela tinha sido cortada, um sorriso horrível e aberto de orelha a orelha. A água que eu tinha ouvido vinha do chuveiro, lavando o sangue dela pelo ralo.

E na parede branca de azulejos, desenhado com sangue, havia uma imagem tosca de um ovo de Páscoa.

Cambaleei para trás; um grito travou na minha garganta. Eu precisava pegar o Michael. Corri até o quarto dele e escancarei a porta.

A cama dele estava vazia. Os lençóis estavam rasgados e jogados no chão. A janela estava totalmente aberta, as cortinas soprando no ar da noite. E no travesseiro dele, exatamente onde a cabeça dele deveria estar, havia um único ovo de Páscoa azul, cor de ovo de tordo. Ao lado dele, uma cenoura meio comida.

Ouvi uma tábua do assoalho ranger bem atrás de mim.

Não me virei. Só disparei. Pela porta dos fundos, para dentro da mata. Corri até o sol nascer e minhas pernas cederem. Me escondi embaixo de um arbusto, tremendo, enquanto as primeiras sirenes cortavam a manhã de Domingo de Páscoa. Eu era a única que tinha sobrado. Ele não usava lista. Não conferia duas vezes. Por algum motivo que jamais vou entender, ele me deixou ir.

A polícia chamou aquilo de roubo seguido de homicídio. Um andarilho, eles supuseram. A janela aberta no quarto do Michael, algumas joias desaparecidas, essa era a história deles. Meu pai reagiu, e minha mãe foi vítima de uma crueldade sem sentido. Para o Michael, não tinham história nenhuma. Ele só virou uma pessoa desaparecida. Um rosto num folheto. Um fantasma.

Eles não acreditaram numa menina de dez anos em choque. O Bunny Man? Só me olhavam com pena. Minha história foi enterrada sob sessões de terapia e relatórios psiquiátricos. Fui enviada para morar com minha tia em outro condado, longe da mata e dos sussurros.

Por vinte anos, eu tentei com todas as forças ser normal. Fui para a escola, fiz amigos, entrei na faculdade. Conheci meu marido, Mat. O mundo dele é tão concreto, tão abençoadamente normal, que por um tempo eu quase consegui fingir que o meu também era. Nós nos casamos. Compramos uma casa nova, sem passado, sem estalos, sem garagem. Tivemos dois filhos. Lily, que tem os meus olhos, e Sam, que tem o sorriso fácil do pai.

Eu construí uma vida em cima da negação. Mas, todo ano, quando a primavera chegava, o pavor voltava rastejando. Eu via enfeites de Páscoa no supermercado e minha garganta se fechava. Via um cara vestido de coelho no shopping e precisava lutar contra um ataque de pânico de verdade. O passado não estava morto. Só estava dormindo. E eu sempre soube que, um dia, ele ia acordar.

Hoje à noite, ele acordou. É Sexta-feira Santa, vinte anos depois. E as batidas voltaram.

Começaram há uma hora. Aquele mesmo ritmo suave contra a parede da sala. Thump… thump… thump…

“É só a casa assentando, querida”, disse Mat sem levantar os olhos do laptop. “Casas novas fazem isso.”

Mas eu sabia…

Então veio o cheiro. Aquele mesmo feno podre e pelo úmido, infiltrando-se pelas molduras da janela. Eu conferi as trancas três vezes. Fechei todas as persianas.

“O que há de errado com você?”, Mat finalmente perguntou, fechando o laptop. “Você está branca como um fantasma. Isso é por causa da Páscoa de novo? A gente já conversou sobre isso. Foi uma tragédia horrível, aleatória. Mas acabou.”

Ele estava tentando me consolar, mas era como jogar gasolina no fogo. Ele não entende. Não pode entender. Para ele, o Coelhinho da Páscoa é só chocolate e cestas. Para mim, é um assassino num figurino sujo com um machado. É um monstro que despedaça famílias por diversão.

Meus filhos estão dormindo lá em cima. Lily tem oito anos, Sam tem seis. Passaram a noite inteira falando sobre a caça aos ovos da cidade, amanhã. Eles até deixaram cenouras para o Coelhinho da Páscoa. A inocência deles parece um pedaço frágil de vidro, e eu consigo sentir que está prestes a se estilhaçar.

As batidas pararam. E é isso que mais me assusta. O silêncio sempre é pior. Mat suspirou. “Olha, eu vi um galho batendo na lateral da casa mais cedo. Vou cortar. Isso vai te deixar melhor?”

“Não, Mat, não faça isso”, eu disse, a voz trêmula. “Por favor, só fique aqui.”

“Vou demorar dois segundos”, ele disse, beijando minha testa. “Vou sair pela garagem. Tranca a porta atrás de mim.”

Ele foi em direção à cozinha, em direção à porta da garagem. Para a parte de trás da casa. Exatamente como meu pai indo em direção à garagem. A velha rima explodiu dentro da minha cabeça. Meu sangue gelou.

Ele está fora há cinco minutos.

Parece uma hora…

A luz com sensor de movimento no quintal acabou de acender…

Eu não consigo ver os fundos da casa daqui.

Só a luz.

Três de Nós Entramos… Só Eu Saí

As sirenes da polícia estavam altas o bastante para acordar o bairro inteiro. Eu as ouvi antes mesmo de abrir os olhos; os ecos sobrepostos iam ficando cada vez mais próximos. Minha mãe e meu pai já tinham saído da cama quando saí para o corredor, e minha irmã vinha logo atrás de mim. Todos nós saímos juntos e vimos que quase todos os vizinhos estavam fazendo a mesma coisa, sendo atraídos pela calçada na direção de um aglomerado de luzes vermelhas e azuis piscando.

À medida que nos aproximávamos, percebi que tudo aquilo estava acontecendo em frente à Casa Dreadmoor.

A casa estava abandonada desde que eu me lembro. As janelas pregadas, a varanda caída, as histórias que o pessoal contava sobre ela ser assombrada. Fita de interdição atravessava o quintal enquanto policiais entravam e saíam. Ninguém dizia uma palavra; então uma maca apareceu pela porta da frente com um saco mortuário preso firmemente em cima dela.

Alguém ofegou. Senti a mão da minha mãe apertar meu ombro.

Isso já foi o suficiente para meus pais. Eles nos viraram de volta e fizeram eu e minha irmã voltarmos para dentro. Eu não dormi depois disso; fiquei só deitado na cama, olhando para o teto, imaginando o que poderia ter acontecido naquela casa.

Na manhã seguinte, fiz minha rotina e fui para o ponto de ônibus como sempre. Eu estava ali parado quando ouvi alguém gritando meu nome. Virei e vi meu melhor amigo, Joshua, correndo na minha direção junto com Damon, que vinha logo atrás dele. Os dois estavam sem fôlego, falando ao mesmo tempo tão rápido que eu não entendia uma palavra.

Eu disse para eles irem com calma. Joshua finalmente soltou:

“O pai do Nick morreu!”

Fiquei olhando para ele, esperando que ele risse ou desmentisse aquilo. Quando ele não fez nenhuma das duas coisas, pedi para repetir. Ele repetiu, mas dessa vez mais alto.

Damon entrou na conversa, explicando que alguém tinha chamado a polícia na noite anterior por causa de gritos vindo da Casa Dreadmoor. O pai do Nick, que já estava em patrulha, tinha entrado para verificar. Segundo os boatos, ele só… morreu. Sem explicação, sem luta, ele simplesmente caiu duro.

O ônibus chegou antes que qualquer um de nós dissesse mais alguma coisa, e quando entramos, percebemos que Nick não estava nele.

Ele também não apareceu na escola. Os dias passaram, depois as semanas; com o tempo, cartazes de desaparecido com o rosto de Nick começaram a aparecer em postes de luz, centros comerciais, pontos de ônibus, em praticamente todo lugar que você possa imaginar. Eu via a mãe dele lá fora quase todos os dias, pregando os cartazes por horas. Até carros da polícia começaram a parar na casa dela com frequência. Uma noite, ouvi minha mãe dizendo ao meu pai que a mãe do Nick tinha começado a aparecer bêbada no trabalho e ser mandada embora mais cedo.

Então veio a noite que deu início a tudo.

Eu não conseguia dormir. Então saí da cama e puxei meu telescópio até a janela, apontando-o para a lua, como eu já tinha feito centenas de vezes antes. Mas quando abri as cortinas, notei movimento na rua. Ajustei a lente e senti meu peito apertar.

Era a mãe do Nick.

Ela caminhava devagar, como se não estivesse totalmente acordada. Eu a segui com o telescópio enquanto ela descia a rua. Ela estava indo direto para a Casa Dreadmoor.

Observei quando ela chegou à varanda e ergueu a mão em direção à maçaneta. Então parou por um segundo. Tudo ficou imóvel.

Depois, sua cabeça se virou lentamente. Devagar demais.

Ela olhou direto para a minha janela.

Meu fôlego travou na garganta enquanto eu ajustava o foco. O rosto dela preencheu a lente, e a pele estava pálida de um jeito que já não parecia humano; estava esticada, como se todo o sangue tivesse sido drenado dela. Mas o pior eram os olhos: fundos demais dentro do rosto, completamente pretos, sem refletir um único traço de luz.

Ela só ficou olhando, com a boca levemente entreaberta, como se estivesse tentando lembrar como falar. Eu larguei o telescópio e cambaleei para trás, gritando. Meus pais vieram correndo para o meu quarto, minha mãe acendendo a luz enquanto meu pai ficava na porta, já irritado.

“O que está acontecendo?” minha mãe perguntou. “Por que você está gritando?”

Eu estava tremendo enquanto tentava explicar, as palavras saindo atropeladas umas sobre as outras. Contei a eles sobre o telescópio. Sobre a mãe do Nick e o rosto dela. Sobre a forma como ela olhou direto para mim.

Meu pai suspirou antes mesmo de eu terminar.

“Você estava meio dormindo”, ele disse. “Provavelmente sonhou com isso.”

“Eu não estava dormindo”, eu disse. “Eu estava acordado. Eu a vi.”

Minha mãe trocou um olhar com ele.

“Você tem ouvido muitas coisas assustadoras ultimamente”, ela disse com gentileza. “Com o Nick e o pai dele… sua mente está preenchendo as lacunas.”

“Eu sei o que vi”, eu disse, com a voz falhando.

“Já chega”, disse meu pai. “Volta para a cama.”

A luz foi apagada, e eles saíram. Fiquei ali deitado no escuro, desejando não ter olhado por aquele telescópio de jeito nenhum. No dia seguinte, fui à casa do Joshua e contei tudo para ele e para o Damon. Sentamos no chão do quarto dele, com a porta fechada, como se estivéssemos planejando alguma coisa ilegal.

Damon riu depois que eu terminei de explicar.

“Então você está dizendo que ela virou um fantasma agora?” ele disse. “Ah, fala sério.”

“Ela não parecia normal”, eu disse. “Estou te dizendo, tem alguma coisa errada.”

Joshua não riu. Só ficou ali, quieto, olhando para o carpete. Ele me conhecia bem demais para achar que eu inventaria uma coisa daquelas. Damon revirou os olhos e sugeriu que a gente mesmo fosse investigar.

“Não”, Joshua e eu dissemos ao mesmo tempo.

Mais tarde naquele dia, saímos para caminhar pelo bairro e vimos carros de polícia parados em frente à casa da mãe do Nick. Damon perguntou a um dos policiais o que estava acontecendo, mas o sujeito o dispensou. Enquanto íamos embora, ouvimos outro policial dizer: “Os colegas de trabalho dela dizem que ela não apareceu hoje de manhã.”

Parei de andar.

Meu coração disparou quando me virei para eles.

“Eu falei”, disse baixinho. Corremos de volta para a casa do Joshua e conversamos sobre aquilo. Se ela foi até a Casa Dreadmoor, e o Nick também estava desaparecido, então talvez ele estivesse lá. “A gente devia contar pros nossos pais”, disse Damon.

Então contámos. Eles fizeram muitas perguntas, mas nenhuma parecia preocupada; só confusa, ou irritada. Meus pais estavam mais chateados por eu ter ficado acordado até tarde do que com qualquer outra coisa.

Mais tarde naquela noite, deitado sem conseguir dormir no quarto do Joshua, finalmente falei o que vinha pensando o dia inteiro.

“Ninguém vai ajudar”, eu disse. “Se o Nick ainda estiver vivo, ele precisa da gente.”

Joshua se sentou no saco de dormir.

“Você está falando em entrar naquela casa.”

“Eu sei”, eu disse. “Eu não quero. Mas a gente não pode simplesmente não fazer nada.”

Damon não disse nada de imediato. Ficou olhando para a parede, o maxilar travado.

Depois, ele assentiu. Joshua olhou para ele. Depois para mim.

“Vamos fazer isso”, os dois disseram.

E foi nesse momento que eu logo me arrependeria.

Depois que os pais do Joshua finalmente adormeceram, nos vestimos em silêncio, pegamos nossas lanternas e saímos pela janela do quarto dele. Caímos nos arbustos lá embaixo, galhos estalando e arranhando nossos braços quando aterrissamos. Ninguém riu. Ninguém falou. Nos movemos depressa, atravessando quintais e pulando cercas até chegarmos à Wicked Lane.

A Casa Dreadmoor esperava no fim da rua.

Nos aproximamos da casa e ficamos ali por um momento, encarando-a. A casa parecia maior do que o normal, como se estivesse se inclinando para a frente, nos observando.

“Talvez isso não tenha sido a melhor ideia”, sussurrou Damon. “A gente devia voltar.”

Antes que eu pudesse responder, Joshua balançou a cabeça.

“Não”, ele disse. “A gente vai entrar. Vamos encontrar o Nick e a mãe dele.”

“Mas e se eles estiverem mortos?” perguntou Damon.

Joshua engoliu em seco.

“Então pelo menos a gente vai saber”, disse ele. “E vai dizer à polícia onde encontrar os corpos.”

Ele subiu na varanda. Nós o seguimos.

A porta da frente já estava ligeiramente aberta, então Joshua empurrou, e ela se abriu com um rangido. Fomos recebidos pela escuridão até ligarmos as lanternas e entrarmos numa sala de estar congelada no tempo, com móveis antigos dos anos 50 ou 60, poeira grossa cobrindo tudo, teias de aranha pendendo nos cantos.

Minha luz subiu e parou num grande retrato acima da lareira. A pintura mostrava uma família de cinco pessoas: uma mãe, um pai e três filhos. Havia algo nos olhos deles que me arrepiava, porque, ao olhar mais de perto, percebi que eles não pareciam pintados. Pareciam conscientes.

“Tem que ser os Dreadmoor”, eu disse.

Joshua assentiu.

“Você lembra da história, né?”

Pedi para ele contar de novo.

Ele disse que a família tinha se mudado para lá décadas atrás, depois de fazer um acordo bom demais para ser verdade. O corretor prometeu a casa quase de graça. Durante semanas, tudo pareceu normal, até a filha mais nova, Rebecca, começar a falar sobre “a porta vermelha”.

No andar de cima, no fim de um corredor comprido, havia uma única porta pintada de vermelho. Ninguém conseguia abri-la. O corretor dizia que era só um espaço de depósito, mas cochichos vinham de trás dela, junto com sons altos de arranhões.

Logo a família começou a ver coisas e a ouvir vozes; eventualmente, a paranoia se instalou. Então, uma noite, eles deixaram tudo para trás e desapareceram.

Joshua terminou a história justamente quando alguma coisa se arrastou acima de nós.

Ficamos imóveis.

Lentamente, nos movemos em direção à escada. Cada degrau rangia sob o nosso peso. Quando chegamos ao topo, viramos à esquerda e lá estava ela.

A Porta Vermelha.

“O Nick e a mãe dele têm que estar atrás dessa porta”, sussurrou Damon. Ninguém respondeu; apenas fomos descendo lentamente pelo corredor, cada passo carregando uma sensação de desastre iminente, mas paramos bruscamente quando começamos a sentir cheiro de fumaça.

Olhei por cima do corrimão e vi o andar de baixo inteiro em chamas.

As labaredas subiam pelas paredes, rugindo para o alto. O pânico tomou conta, então corremos de porta em porta, puxando maçanetas, gritando por ajuda, mas nenhuma abria. O fogo subia pela escada.

Então, para nossa surpresa, a porta vermelha se abriu com um rangido. Não hesitamos e disparámos em direção a ela.

Joshua entrou correndo. Damon foi atrás. Eu vinha logo atrás deles quando a porta se fechou com tanta força na minha cara que meus ouvidos zuniram.

Quando o zumbido parou, me virei.

O fogo tinha sumido; a casa estava tomada por silêncio. Corri até o corrimão. O andar de baixo estava intocado — sem chamas, sem fumaça, sem calor. Só escuridão.

Joshua e Damon tinham desaparecido.

Corri até a porta vermelha e girei a maçaneta. Bati nela até minha mão inchar, até minha garganta ficar em carne viva de tanto gritar; por fim, tudo o que eu consegui fazer foi me sentar ali e chorar.

A polícia vasculhou a Casa Dreadmoor de cima a baixo depois que eu contei tudo. Eles disseram que nunca encontraram uma porta vermelha. Me interrogaram por horas, voltando às mesmas informações repetidas vezes, tentando entender algo que não conseguiam explicar e que eu não podia provar.

Meses se passaram. A vida continuou, embora eu me sentisse preso.

Às vezes, tarde da noite, sinto vontade de montar meu telescópio e apontá-lo para aquela casa. Digo a mim mesmo que é uma péssima ideia. Que minha imaginação está procurando padrões que não existem. Mas toda vez que olho, juro que vejo a mesma coisa.

Duas pequenas figuras em pé na janela do lado mais à esquerda da casa.

Me observando.

Então, se você tirar alguma coisa desta história… seja o que for.

Nunca entre em lugar nenhum onde você não tem nada que esteja fazendo.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Sou um policial rodoviário. Meus olhos viram uma família cansada, mas minha câmera de bordo viu cadáveres apodrecidos sorrindo para mim...

Estou estacionado diretamente sob a brutal e zumbidora marquise de luz fluorescente de um posto de combustível aberto vinte e quatro horas. Tranquei as quatro portas. O motor está ligado, o aquecedor está no máximo e todas as luzes internas estão acesas. Estou cercado por concreto e luz artificial, e ainda assim não consigo fazer minhas mãos pararem de tremer no volante.

Sou um agente da polícia do condado. Estou na corporação há apenas dois anos, mas construí uma reputação de ser rigoroso, meticuloso e completamente dependente de protocolo. Eu gosto de regras. Gosto de diretrizes. Nesse tipo de trabalho, o manual é sua melhor ferramenta. Se você seguir os passos, se checar as placas, se abordar o veículo no ângulo correto, você elimina variáveis e mantém o controle da situação.

Meu setor de patrulha designado é um trecho vasto e desolado de uma rodovia de duas faixas do condado. É uma atribuição solitária, isolada. A estrada corre ao longo da borda leste de um lago imenso e profundo de água doce. O relevo da região significa que não há absolutamente nada por ali. Do lado esquerdo da rodovia, há um barranco íngreme e rochoso que despenca diretamente na água escura do lago. Do lado direito, há uma extensão interminável e densa de floresta de pinheiros cerrada. Não há casas, não há postes de luz e não há estradas cruzando essa via por mais de sessenta quilômetros. É só uma faixa de asfalto escuro presa entre a mata profunda e a água profunda.

Eu trabalho no turno da madrugada. Patrulho essa rodovia das dez da noite às seis da manhã. Normalmente, o turno inteiro de oito horas consiste em dirigir para lá e para cá em completo silêncio, ouvindo o zumbido dos pneus e o estalo ocasional do rádio de despacho. Às vezes, eu paro um caminhoneiro de longa distância que errou a saída, ou um adolescente local que está dirigindo rápido demais. É um trabalho calmo, previsível.

A noite começou exatamente como qualquer outra. O tempo estava limpo, mas muito frio. Uma camada espessa de neblina estava subindo da superfície do lago, rastejando pelo barranco e se espalhando pelo asfalto. Eu estava cruzando a estrada a sessenta e cinco quilômetros por hora, segurando um copo de café morno, varrendo a escuridão à frente com os faróis.

Por volta de 2h15 da manhã, vi um veículo a alguns quilômetros à minha frente.

Acelerei um pouco para diminuir a distância. Era uma minivan de cor escura, um modelo mais antigo. Estava andando bem abaixo do limite de velocidade, talvez a uns quarenta e oito quilômetros por hora. Quanto mais me aproximava, notei duas coisas. Primeiro, a lanterna traseira do lado do passageiro estava completamente queimada. Segundo, o veículo estava ziguezagueando. Não era uma guinada violenta, errática, mas um balanço lento, derivando de um lado para o outro. Os pneus passavam sobre a linha amarela contínua no centro da estrada, corrigiam devagar e então voltavam a cruzar a faixa branca do acostamento, perto da borda do barranco do lago.

O protocolo para isso é claro. Uma lanterna traseira queimada é uma infração de trânsito menor, mas, combinada com o ziguezague, estabelece suspeita razoável de direção sob efeito de álcool ou fadiga extrema do motorista. Eu precisava iniciar uma abordagem de trânsito.

Parei atrás da minivan, mantendo uma distância segura de três comprimentos de carro. Estendi a mão até o console central e acionei a chave das luzes de emergência no teto. As luzes piscantes vermelhas e azuis imediatamente iluminaram a rodovia escura, refletindo nas densas árvores de pinho à direita e cortando a neblina que subia do lago à esquerda.

O motorista da minivan reagiu devagar. Demorou quase um quarto de milha para perceber as luzes no retrovisor. Por fim, a seta da direita piscou, e a van encostou lentamente no estreito acostamento de cascalho, parando a apenas alguns metros da queda íngreme na água.

Parei minha viatura no acostamento atrás dela. Segui exatamente meu treinamento. Desloquei o veículo um pouco para a esquerda, criando um corredor de segurança entre minha viatura e o fluxo de tráfego. Virei as rodas dianteiras em direção à estrada, para que, se um motorista bêbado batesse na traseira da minha viatura, ela não fosse empurrada para frente contra a minivan. Coloquei a transmissão em “P”, desafivelei o cinto de segurança e peguei minha pesada lanterna de metal.

Saí para o ar frio da noite. Os únicos sons eram o ronco baixo dos dois motores em marcha lenta, o estalar do cascalho sob minhas botas e o leve e ritmado bater da água do lago contra as pedras no fundo do barranco.

Caminhei até a traseira da minivan. Estendi a mão esquerda e pressionei com firmeza a palma contra a tampa do porta-malas. Esse também é um procedimento padrão. Você deixa suas digitais no veículo. Se algo acontecer com você, os investigadores terão prova física de que você estava logo atrás daquele carro específico.

O metal do porta-malas parecia estranhamente frio e úmido.

Caminhei até o lado do motorista, mantendo a lanterna apontada para baixo. Parei logo atrás da janela do motorista, inclinando o corpo de modo que eu não fosse um alvo fácil caso o condutor decidisse abrir a porta de forma agressiva. Bati no vidro com a lanterna.

A janela desceu manualmente com um rangido.

Apontei o facho da lanterna para o interior da van.

Era uma família perfeitamente normal.

A motorista era uma mulher de meia-idade. Parecia incrivelmente exausta. O cabelo estava desgrenhado, e havia grandes olheiras escuras sob os olhos. Ela semicerrava os olhos contra o brilho da minha lanterna.

Sentado no banco do passageiro havia um homem de meia-idade. Ele usava uma camisa xadrez de flanela. A cabeça estava jogada para trás no encosto, os olhos fechados, roncando baixinho. Parecia completamente relaxado.

Mudei o facho da lanterna para o banco de trás. Havia duas crianças pequenas, um menino e uma menina, talvez com oito ou nove anos. Os dois estavam dormindo profundamente, com as cabeças encostadas no vidro frio das janelas laterais. Havia um monte de cobertores e travesseiros enfiados entre eles. Parecia exatamente uma família atravessando as últimas e exaustivas horas de uma longa viagem de carro.

— Boa noite, senhora.

Eu disse, mantendo a voz educada, mas firme.

— Estou parando vocês esta noite porque a lanterna traseira do lado do passageiro está completamente apagada, e notei que a senhora estava tendo alguma dificuldade para manter a faixa.

A mulher passou a mão cansada pelo rosto.

— Sinto muito, policial.

Sua voz era baixa e rouca.

— Estamos dirigindo há muito tempo. Só queríamos chegar antes da manhã. Acho que estou mais cansada do que percebi.

— Acontece.

Respondi.

— Mas dirigir exausta neste trecho da rodovia é perigoso. Ainda mais tão perto da água. Preciso ver sua carteira de motorista, o documento do veículo e o comprovante de seguro, por favor.

Ela assentiu devagar. Estendeu o braço por cima do homem adormecido no banco do passageiro, abriu o porta-luvas e puxou um pequeno maço de papéis. Entregou tudo para mim junto com uma carteira de motorista de plástico.

Quando seus dedos roçaram os meus, a pele dela pareceu congelante. Era como tocar um pedaço de gelo.

— Vou levar isso para a viatura e verificar seus dados.

Eu lhe disse.

— Já volto. Por favor, permaneça no veículo.

Ela não disse nada. Apenas me deu um aceno lento e cansado e ficou olhando para a frente pelo para-brisa.

Virei-me e voltei para a minha viatura. Entrei no banco do motorista, bati a porta pesada e coloquei a carteira de motorista e o documento do veículo no console central. Acendi a luz interna do teto para poder ler as letras pequenas.

Peguei o microfone do rádio.

— Central, aqui é a Unidade Quatro. Estou realizando uma abordagem de trânsito em uma minivan de cor escura. Solicitando consulta da placa.

O rádio chiou. A despachante de plantão naquela noite era uma mulher mais velha, que normalmente trabalhava nos turnos tranquilos. — Entendido, Unidade Quatro. Pode passar o número da placa.

Li a sequência alfanumérica do documento.

— Copiado.

ela respondeu.

— Aguarde. O sistema está um pouco lento esta noite.

Pousei o microfone. Recostei-me no banco, apreciando o ar quente soprando pelas saídas do aquecedor. O pesado protocolo da abordagem estava completo. Agora, eu só precisava esperar o sistema de computador verificar os documentos, emitir uma advertência simples pela lanterna queimada e aconselhar a mãe cansada a encostar e descansar.

Enquanto esperava, baixei os olhos para o console central.

Montado diretamente abaixo do rádio há um pequeno monitor reforçado. Ele mostra a transmissão ao vivo da câmera do painel da viatura. A câmera grava continuamente durante uma abordagem de trânsito, captando tudo o que acontece diretamente em frente ao meu veículo. O vídeo é estritamente em preto e branco, projetado para capturar detalhes de alto contraste, como placas em condições de pouca luz.

Por puro hábito enraizado, olhei para o monitor para garantir que a câmera estava gravando a minivan.

Pareci parar de respirar.

A imagem exibida na pequena tela estava errada. Estava errada de um jeito total, fundamental.

Olhei para a tela, e meu cérebro lutou para processar a informação visual. A câmera apontava diretamente para o espaço em frente à minha viatura. As luzes estroboscópicas vermelhas e azuis varriam a cena em ondas alternadas de branco intenso e preto profundo.

O veículo no monitor não era a minivan da qual eu acabara de me afastar.

A van na tela estava esmagada. O teto estava completamente afundado, curvando a estrutura de metal para baixo, em direção aos assentos. O para-choque traseiro estava torto, pendendo preso por um único parafuso enferrujado. A parte externa estava totalmente coberta por grossas camadas penduradas de algas aquáticas escuras e ervas-das-lagoas. Os pneus estavam murchos, apodrecidos e meio enterrados em lama espessa.

Parecia exatamente um veículo retirado do fundo de um lago depois de décadas submerso.

Mas não era isso que fazia meu sangue virar gelo.

A câmera do painel estava posicionada diretamente atrás do vidro traseiro enferrujado e esmagado da van. O vidro estava estilhaçado.

Olhando através da janela traseira quebrada, encarando diretamente a lente da câmera, havia quatro rostos.

Eles estavam inchados. Estavam esqueléticos. A carne nos rostos era cinzenta, soltando-se do osso em tiras úmidas e rasgadas. As órbitas dos olhos estavam vazias, negras, cavernas ocas cheias de água parada. Estavam apertados uns contra os outros na traseira do veículo destruído.

A mãe, o pai, as duas crianças.

Todos olhavam diretamente para a câmera. E estavam sorrindo.

Não era uma expressão natural. Os maxilares estavam puxados para trás, esticando a pele apodrecida e encharcada em sorrisos largos, antinaturais, escancarados. Estavam completamente imóveis, suspensos na transmissão granulada em preto e branco, apenas encarando e sorrindo para a lente.

Uma onda de pânico sufocante esmagou meu peito. Minhas mãos agarraram as bordas do monitor com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Pensei que o sistema da câmera estivesse com defeito.

Desviei os olhos da tela e levantei o olhar pelo para-brisa.

Estacionada a seis metros à minha frente estava a minivan impecável, de cor escura. O metal estava limpo. O teto estava perfeitamente intacto. O brilho vermelho da lanterna de freio funcional iluminava o acostamento de cascalho. Pelo vidro traseiro, eu podia ver a silhueta das duas crianças dormindo tranquilamente sob os cobertores. Eu podia ver a mãe olhando para o retrovisor lateral, observando minha viatura.

Tudo estava perfeitamente normal.

Olhei de volta para o monitor.

O carro esmagado, enferrujado, coberto de algas, ainda estava ali. Os quatro cadáveres esqueléticos e apodrecidos ainda estavam ali.

Eles tinham se movido.

A mãe havia levantado a mão. Um braço esquelético e inchado, coberto de pele molhada descascando e grossas ervas verdes, estava pressionado contra o vidro estilhaçado da janela traseira. Ela estava batendo no vidro de dentro.

Eu não conseguia ouvir as batidas através das portas pesadas da viatura, mas conseguia ver o osso do dedo dela atingindo a lente na tela.

Toc. Toc. Toc.

Eles ainda sorriam aquele sorriso largo, aberto, impossível.

Senti tontura. Estendi a mão trêmula e bati fisicamente na lateral do monitor, esperando resetar a imagem. A tela piscou, mas a imagem permaneceu. Os cadáveres inchados continuavam encarando.

De repente, o rádio chiou alto, quebrando o silêncio pesado dentro da viatura.

— Unidade Quatro, aqui é a central.

disse a voz da mulher mais velha. Soava profundamente confusa. Seu tom profissional havia desaparecido por completo.

Peguei o microfone, atrapalhando-me com o fio.

— Unidade Quatro. Pode falar.

— Consultei as placas e a carteira.

disse ela devagar.

— O senhor tem absoluta certeza de que leu essa sequência corretamente? Tem certeza de que está olhando para uma minivan escura?

— Sim.

Gaguejei, com os olhos indo e voltando entre a van impecável lá fora e o pesadelo na tela.

— Estou estacionado bem atrás dela. Por quê?

— O sistema acusou o registro.

disse a despachante.

— Essas placas pertencem a um veículo envolvido em um grande caso de pessoas desaparecidas. Há trinta anos.

Senti o sangue sumir do meu rosto.

— Desaparecidas?

— Uma família de quatro pessoas.

ela leu na tela.

— Estavam viajando pelo país. Foram vistas pela última vez em um posto de gasolina perto da sua localização atual. A polícia procurou por semanas. A principal teoria era que o motorista adormeceu ao volante e o veículo caiu do barranco no lago. Nunca encontraram o carro. Nunca encontraram os corpos. A carteira que você me passou pertence à mãe. O status dela consta como legalmente morta.

O rádio ficou em silêncio.

Fiquei completamente paralisado no banco do motorista. O aquecedor soprava ar quente no meu rosto, mas eu tremia sem controle.

Levantei lentamente a cabeça e olhei através do para-brisa.

A minivan impecável havia desaparecido.

Ela não tinha ido embora. Eu não ouvi o motor ligar. Não ouvi os pneus esmagando o cascalho. A lanterna de freio vermelha simplesmente sumira. O espaço à frente da minha viatura estava completamente vazio.

Estendi a mão e acionei a alavanca mecânica do holofote de alta potência montado no pilar do lado do motorista. Girei o manípulo, apontando o feixe forte de luz diretamente para o trecho de cascalho onde a van estava estacionada segundos antes.

Não havia marcas de pneus.

No lugar disso, cobrindo o acostamento de cascalho, havia uma imensa poça de água espessa, preta e parada. A água borbulhava ativamente, infiltrando-se rapidamente no solo. Um cheiro horrível e nauseante começou a entrar pelas saídas de ar da viatura. Cheirava a peixe morto, madeira apodrecida e lama antiga e estagnada.

Olhei para baixo, para o monitor do painel.

A tela mostrava a transmissão ao vivo do acostamento vazio e da poça d’água. A van esmagada havia sumido. Os cadáveres haviam sumido.

Joguei o microfone do rádio no banco do passageiro. Mal consegui alcançar a alavanca de marchas. Eu precisava colocar a viatura em “D”. Eu precisava dar meia-volta e sair dali o mais rápido que o motor permitisse. Protocolo não importava mais. Eu só precisava ir embora.

Agarrei a alavanca e coloquei em “D”.

Antes que meu pé pudesse tocar no acelerador, a viatura inteira foi violentamente jogada para o lado.

Foi um impacto enorme, concussivo, vindo do lado direito do veículo. A estrutura pesada de metal do Ford Explorer gemeu sob a tensão súbita. Minha cabeça foi bruscamente para a direita, batendo no encosto do banco.

A viatura estava se movendo.

Estava sendo arrastada para o lado.

Alguma coisa estava puxando o veículo policial de duas toneladas pelo acostamento de cascalho, arrastando-o diretamente em direção ao barranco íngreme que despencava na água negra do lago.

Pisei fundo no acelerador. O motor potente rugiu, o ponteiro do RPM disparando para a zona vermelha. Os pneus traseiros giraram freneticamente, levantando uma nuvem enorme de cascalho, terra e lama. Os pneus gritavam, tentando encontrar tração no acostamento solto, mas o impulso lateral era forte demais. Estávamos deslizando em direção à borda.

Virei a cabeça e olhei pela janela do passageiro.

O lago estava agitado. A superfície escura e lisa da água fervilhava, lançando espuma branca e densa contra as rochas.

Saindo da água negra e congelante, erguiam-se quatro figuras.

Era a família. A mãe, o pai, as duas crianças.

Mas já não eram humanos. Eram os cadáveres apodrecidos, esqueléticos e inchados do monitor da câmera. A carne deles era cinzenta e se soltava em tiras. As órbitas vazias dos olhos encaravam sem foco minha viatura. As mandíbulas estavam deslocadas, presas naquele sorriso largo e horrível.

Eles estavam suspensos no ar.

Preso às costas de cada cadáver apodrecido havia um apêndice enorme, grosso e musculoso. Pareciam tentáculos escuros, molhados e brilhantes, mais grossos do que troncos de árvores, emergindo das profundezas do lago. Os tentáculos estavam fundidos diretamente às colunas vertebrais dos cadáveres, usando os corpos humanos mortos como marionetes carnais e apodrecidas.

Os tentáculos se estendiam do lago, subindo o barranco rochoso. Os cadáveres-marionetes apodrecidos da família estavam pressionados diretamente contra a lateral da minha viatura. As mãos esqueléticas e inchadas agarravam as molduras das janelas, as maçanetas e as caixas das rodas.

A força daqueles apêndices era impossível. Eles arrastavam a pesada viatura policial pelo cascalho profundo, centímetro por centímetro, puxando-me cada vez mais perto da queda.

O cheiro da água parada e da carne apodrecida era avassalador, enchendo a cabine da viatura. As portas de metal se curvaram para dentro sob a pressão esmagadora dos tentáculos. A janela do passageiro estilhaçou, lançando pequenos cubos de vidro de segurança sobre o banco da frente.

Um dos braços inchados e apodrecidos entrou pela janela quebrada. Os dedos esqueléticos, pingando lama grossa do lago, agarraram o tecido do meu banco do passageiro, puxando a viatura com ainda mais força na direção do penhasco.

Os pneus traseiros da minha viatura passaram pela borda do barranco.

A traseira do veículo despencou violentamente, e a parte de baixo bateu contra as pedras afiadas. Meu estômago afundou. Fiquei inclinado para cima, encarando o céu noturno. A água negra do lago fervia furiosamente a poucos metros do meu para-choque traseiro.

Eu tinha exatamente um segundo antes que o centro de gravidade mudasse por completo e a viatura tombasse de costas na água profunda.

Agarrei o volante com as duas mãos, travei os cotovelos e afundei completamente minha bota pesada de policial no pedal do acelerador.

O motor berrou, enviando torque máximo para o sistema de tração integral. Os pneus dianteiros, ainda agarrados ao asfalto sólido da faixa da rodovia, cravaram fundo. A borracha queimava no asfalto, enchendo o ar de fumaça branca espessa.

Por um segundo terrível e agonizante, a viatura permaneceu completamente parada, suspensa em uma luta brutal entre a potência do motor e a força esmagadora dos tentáculos no lago.

A estrutura de metal gemeu. O motor assoviou.

Então os pneus dianteiros ganharam tração.

A viatura deu um solavanco violento para a frente. O impulso súbito e explosivo arrancou o veículo do aperto dos cadáveres apodrecidos.

Ouvi um som úmido e nauseante de rasgo quando as mãos esqueléticas agarradas à moldura da janela foram fisicamente arrancadas dos tentáculos.

A viatura disparou para a frente, subiu o barranco e despencou com força sobre o asfalto plano da rodovia. Os pneus traseiros tocaram a pista, impulsionando o veículo para a frente como um míssil.

Eu não tirei o pé do acelerador. Mantive tudo afundado.

Olhei no retrovisor.

Os tentáculos enormes e encharcados se contorciam no acostamento de cascalho, batendo agressivamente no chão onde minha viatura tinha estado segundos antes. Os corpos apodrecidos da família pendiam frouxamente nas extremidades dos apêndices. Enquanto eu fugia em alta velocidade, a coisa puxou lentamente os tentáculos de volta para baixo do barranco, arrastando os cadáveres esqueléticos para a superfície negra e borbulhante do lago, desaparecendo sem um splash.

Dirigi a mais de cento e setenta quilômetros por hora pela rodovia do condado. Não liguei as sirenes. Não chamei a central para contar o que aconteceu. Apenas dirigi, olhando fixamente para a frente, segurando o volante até minhas mãos ficarem dormentes.

Só parei quando vi a marquise artificial e brilhante deste posto de combustível.

Entrei sob as luzes e coloquei a viatura em “P”. Estou sentado aqui desde então. Verifiquei o lado do passageiro do meu veículo. A janela está completamente estilhaçada. As portas pesadas de metal estão profundamente amassadas, esmagadas para dentro por uma pressão circular enorme. Sobre o banco do passageiro, repousando entre os estilhaços de vidro, há três dedos esqueléticos decepados, completamente cobertos de uma lama grossa e fétida do lago.

Não vou voltar para a delegacia. Vou deixar as chaves na ignição e largar esse emprego. Não me importo mais com as regras.

Estou escrevendo isso no meu celular e postando aqui como um aviso direto para qualquer pessoa que esteja dirigindo sozinha à noite. Se você estiver viajando por uma rodovia desolada perto de uma grande massa de água profunda e vir um veículo andando devagar, saindo da faixa, tentando chamar sua atenção.

Não pare. Não encoste para ajudá-los

Meu Consolo Insano

Está piorando nos dias de hoje.

Às vezes tenho medo de que minha mãe estivesse certa a meu respeito. De que a maçã não cai longe da árvore. No meu caso, parece que ela bateu em todos os galhos enquanto caía. É bem provável que tenha quicado e rolado em cima do meu galhinho algumas vezes. Nossa loucura. Insanidade hereditária. O ermitão maluco na floresta sobre o qual as crianças contam histórias de terror. Tipo Ted Kaczynski, só que sem a infâmia. Ou o terrorismo. Eu só quero ficar em paz.

Nunca vi necessidade de companhia. Amigos ou qualquer outra coisa. Eu era, para dizer o mínimo, perturbado. Tinha um desprezo visceral por contato físico, cenourinhas baby, mas não cenouras normais, esmalte de unha, certas fontes e a cor roxa, para citar apenas algumas coisas. A distopia urbana em que eu nasci era, por concepção, o meu inferno. Uma selva de concreto onde eu jamais poderia sonhar em roubar um momento de paz e silêncio. Apenas um momento sozinho com os meus próprios pensamentos. O trem das 6h30 da manhã rasgava o meio dos prédios de apartamentos. A serpente de aço ensurdecedora que assombrava meus sonhos das primeiras horas da manhã. Eu me lembro nitidamente de que eu sempre estava em algum lugar tranquilo. Uma cabana na floresta. Um píer à beira de um lago. Um momento maravilhoso em que, justamente quando eu começava a relaxar, o som estridente de rodas enferrujadas rangendo em trilhos de metal ressoava por trás. Eu acordava encharcado de suor frio e em lágrimas. Todas as manhãs.

Por pior que aquilo fosse para mim, acho que para a mãe era ainda pior. Eu era um caos inconsolável, chorando para que ela fizesse o monstro ir embora. Ela realmente tentou me consolar. Mas, com o tempo, passou a me repreender, depois a gritar e, por fim, as coisas ficaram físicas. Acho que não posso culpá-la. Ela estava completamente sozinha. Eu sabia que não era a criança mais fácil de criar. E ela tinha os próprios problemas, não muito diferentes dos meus. Mas ela nunca me expulsou. Poderia ter me colocado no sistema, como ameaçou fazer tantas vezes. Havia algo que ela sentia por mim. Sua própria carne e sangue. Talvez não amor, mas uma certa posse sobre aquilo que se cria.

Era uma noite no fim de dezembro, em um longo trecho de estrada. Eu sempre gostei de dirigir por bastante tempo, acompanhado de nada além da minha própria mente vagando. Pensei em como aquela estrada poderia continuar para sempre e eu ficaria satisfeito. Minha paz só era interrompida por instantes pelos carros que passavam de vez em quando. Toda vez, aquilo me arrancava dos meus pensamentos e me lembrava de onde eu estava. O ronco do motor. O whoosh cortante e ensurdecedor quando eles passavam zunindo. De novo, e de novo, e de novo. Era como tortura chinesa com água. A espera pelo próximo veículo inevitável. O próximo tique. A próxima gota. O próximo e o próximo e o próximo e…

Não me lembro de como fui parar encostado no acostamento. Eu simplesmente estava lá. Sentado, suando em frenesi, apertando o volante até os nós dos meus dedos ficarem brancos como osso. Quando desliguei o motor, tive um momento cegante de clareza. Alcançando, de imediato, um objetivo que eu jamais soube que fosse possível. Um silêncio absolutamente puro e maravilhosamente sereno. Finalmente. Saí do carro e respirei o ar frio como se eu tivesse prendido a respiração a vida inteira. Estrelas que eu nunca tinha visto dançavam no céu noturno. Qualquer destino anterior para o qual eu estivesse indo pareceu tão distante e irrelevante. Eu tinha escapado. Nem hesitei. Deixei as chaves na ignição. Fechei a porta atrás de mim. Saí da estrada e nunca olhei para trás.

Entre no meu consolo.

Estou sendo assombrado.

Talvez “perseguido” seja uma palavra melhor. Ou perturbado. Por qual entidade, eu não posso dizer. Não estou particularmente assustado com essa nova situação. Se era um fantasma ou espectro com quem eu vivia, ele era o meu colega de quarto ideal. Ele (e digo “ele” por respeito, já que não é um IT, mas também não é uma ela, pois a mãe jamais aprovaria a ideia de uma companhia feminina) era bastante afeiçoado à minha caneca.

Sou só eu aqui. Eu sei que não a movi. Eu a tinha deixado bem ao lado do balcão da cozinha. Nunca a ponho na mesa de cabeceira. Não naquela vez. Não fui eu. Foi ele, tinha que ter sido. Deve ter sido.

Consegui improvisar uma vida aqui na floresta. Naquela noite, eu abandonei a civilização. Andei por dias. Eu havia deixado todos os meus pertences mundanos, além da roupa do corpo. Como algum tipo de monge budista em busca do esclarecimento. Acabei encontrando isso na forma de uma cabana abandonada no meio de uma clareira. Lembro que, quando coloquei os olhos nela pela primeira vez, senti uma certa afinidade. Era como se um pedaço da minha alma tivesse se materializado no mundo tangível. Era velha, decadente, negligenciada, mas tão quente e acolhedora. Era tudo de que eu precisava.

Se eu soubesse que ela vinha com uma força invisível que não respeitava o limite de tocar os meus pertences pessoais... bom, eu ainda teria ficado com ela sorrindo. Talvez ele estivesse aqui antes de mim. Ainda assim, só deu as caras recentemente. Ou talvez essa tenha sido apenas a primeira vez que consegui pegá-lo no flagrante. Um deslize da parte dele, o danadinho. Pelo menos foi assim que tudo começou.

Ele tem andado displicente ultimamente. Espero que tenha sido isso. Temo que ele, na verdade, esteja ficando mais ousado. Dei um vislumbre dele outro dia. Bem fora da janela. Pelo menos acho que dei. Havia algo ali, na beirada da clareira, alguns passos atrás da linha das árvores. Uma figura. Uma sombra. Um movimento no canto do olho. Não é paranoia. O que eu teria para paranoiar? Estou completamente sozinho. Sou só eu aqui. Só eu. Meu próprio cantinho do mundo. Ele é meu, e só meu. Sou só eu aqui.

Está piorando.

De vez em quando eu ouvia uma batida. No começo, eu até poderia fingir que era o vento sacudindo os ossos dessa morada antiga. Não posso mais. Sei que é ele. Brincando comigo. Nunca consigo identificar de onde exatamente vem a batida. É sempre do outro lado da cabana. Nós dos dedos fantasma tamborilando em madeira frágil.

Toc Toc Toc

De novo, de novo, de novo

Eu me assustava toda vez que ouvia. Está ficando mais alto. Às vezes, raramente, mas de vez em quando era o som de uma porta sendo violentamente chacoalhada. Já não era a batida educada, e sim pancadas desesperadas. Outro dia ouvi isso enquanto eu estava lá fora, cuidando do meu jardim. Uma batida etérea, como se eu estivesse parado bem ao lado de uma porta. Fiquei mais irritado do que assustado. Saber que ele não está preso à cabana, mas a mim. Eu estou sendo assombrado.

Acho que estou vendo agora. Apenas vislumbres sutis na minha visão periférica. Aquela porta não deveria estar ali.

Está ficando mais claro.

Eu nunca sou de duvidar de mim mesmo. O que é que dizem sobre a loucura? Um louco nunca acha que é louco. Mas e se eu achar? Pensar que sou louco torna isso menos loucura? Acho que depende de eu realmente ser. Se eu for, então meu reconhecimento disso é um passo para deixar de ser. E, se eu não for, então talvez seja o primeiro sinal de que estou perdendo a porra da minha cabeça.

Enfim, encontrei a porta. “Encontrei” é a forma certa de dizer isso? Eu sempre soube onde ela estava. Só agora ela se mostrou. Por completo. De uma forma borrada no canto para uma porta nitidamente real.

Ele ainda bate do outro lado. Eu prefiro não responder. Ele tem sido uma presença invisível desde que nos conhecemos. Acho que não estou preparado para encontrá-lo no corpo físico. Isso estragaria o relacionamento que estabelecemos.

Ele não me deixa em paz. Era só isso que eu queria, e a existência dele é o único obstáculo para o meu consolo. Se eu pudesse simplesmente... removê-lo.

Não é comum alguém se pegar pensando em assassinato. Se ele, de fato, for um fantasma, isso sequer seria assassinato? Isso me cai mal. Que falta de civilidade. Mas, na floresta, não somos todos animais? Criaturas ferozes preocupadas apenas com a própria sobrevivência. Retorno ao instinto básico. Talvez egoísta, mas somos parte da natureza. Ainda assim, ele não merece a chance de apresentar sua defesa? Que ameaça ele realmente representa para a minha existência? Eu, nascido para a civilização, deveria ser mais cortês. Gosto de pensar que a mãe teria me ensinado melhor. Virar a outra face. Apoiar-me na minha natureza perdoadora. Afinal, o que ele realmente fez para merecer a minha ira? Além de, ocasionalmente, extraviar certos objetos e bater incessantemente do dia até a noite, sem que eu tenha escapatória de sua batida batida batida constante bate—

Vou matá-lo.

Nunca pensei que veria isso ao vivo.

Uma vez vi fotos disso numa revista. Uma abertura em página dupla. Páginas 16 e 17. As lombadas grampeadas perfeitamente centralizadas. A linha do horizonte fica ligeiramente acima do ponto médio. Eu gostei disso.

Um oásis lindíssimo cercado por cadeias de montanhas com picos cobertos de neve. Água tão límpida e imóvel que era como uma fina folha de vidro cobrindo um ecossistema aquático lá embaixo. Eu sei que era só uma foto, mas ela encarnava tudo o que eu ansiava. Paz em sua manifestação mais pura. Serenidade.

Lake Tahoe

Ainda mais de tirar o fôlego ao vivo.

“Você devia ter se vestido de forma mais adequada para o tempo. Esse frio vai acabar com você.”

Mãe

Minha determinação de matar. Era matricídio o que eu pretendia? Contra o que eu estava tão furioso? Está tudo embaralhado. Minhas memórias são um novelo de fios e cabos espalhados e entrelaçados. Sem começo nem fim. O que resta é um presente sem contexto. Como entrar num cômodo e esquecer por que você entrou em primeiro lugar.

Uma vez eu tinha matutado sobre a ideia de que a experiência que chamamos de viver não passa de algo representado em fragmentos. A mãe uma vez trouxe para casa um DVD. Um dos primeiros filmes de que me lembro de ter visto. Wallace e Gromit. As Calças Erradas. O meio da animação em stop motion me fascinava. Imagine por um momento uma vida como a de Wallace. A vida dele acontecendo em um movimento fluido, mas, entre um quadro e outro, um Deus arruma meticulosamente cada membro. Um quadro para o seguinte. Wallace tem consciência entre os quadros? Certamente ele não tem noção de um ser além da sua compreensão, torcendo e puxando seus membros. Ajustando sua expressão e zombando do seu livre-arbítrio. Às vezes temo que minha vida não seja tão diferente da de Wallace. Uma vítima impotente aos caprichos de um Deus louco. Como eu poderia ter certeza de que era o mesmo de um segundo atrás? Talvez eu tivesse morrido e, no mesmo instante, sido substituído por uma versão idêntica de mim mesmo, com todas as memórias, exceto o conhecimento de ter experimentado a morte incontáveis vezes.

“Você está sempre perdido nos seus próprios pensamentos.”

Sim, mãe. Perdido. Acho que desta vez foi longe demais. Não acho que exista saída. Eu realmente fiz isso, não foi?

“Eu sempre quis te trazer para cá. Somos só nós dois, querido. Só teremos um ao outro.”

Claro.

“Eu esperei por você.”

O que ela...?

“Por que você nunca veio?”

Por que eu não fui?

“Você me deixou. Eu estava completamente sozinha.”

Era tudo o que eu sempre quis.

“Como você pôde ser tão egoísta?”

Era tudo o que eu sempre quis.

“Como você pôde?”

Eu precisava sair.

“Eu te trouxe a este mundo. Você não pode me abandonar. Você é meu. Você não pode...”

Não aguentava mais. Nem mais um dia, nem mais um minuto, nem mais um segundo dessa porra desse purgatório.

“Volta.”

Mãe, me desculpe. Hoje era para ser especial, não era? O único dia do ano em que nos era permitido largar tudo e perdoar. O primeiro vislumbre de pequenas manchas pálidas descendo, se dissolvendo no lago e se tornando uma só coisa. Eu sempre gostei da neve. Ela era limpa. Um lençol branco que cobria as imperfeições feias do nosso mundo. Você sabia que é mais silencioso quando neva? É verdade. As camadas fofas de neve agem como um absorvedor natural de som. As ondas sonoras ficam presas nos bolsões de ar dentro dela. Isso amortecia o caos. Naquela época do ano, parecia que o volume do mundo estava abaixado.

Ah, como eu amava o Natal.

Estamos nos aproximando do fim.

Não vai demorar para estar aqui. Para me levar embora. Faz tanto tempo. Acho que desta vez estou pronto. Não há medo.

O som do monstro rumbleando fica mais alto. Ele está vindo.

Não tenham medo. Foi maravilhoso enquanto durou.

O aço guinchou até parar, enquanto o chão tremia sob mim.

Fecho os olhos para este mundo. Acordo para outro.

Silêncio.

Já deveria ter acontecido. Olho ao meu redor. Ainda estava de pé no píer com a mãe. Ela olhava para trás de nós, para o fim do píer, de volta para a margem. E lá estava ele. Estranho. Eu nunca tinha chegado tão longe. Já deveria ter acabado.

O trem do metrô vazio me aguardava com as portas abertas.

“Cuidado com o vão”

Acho que eu não deveria ter entrado, mas que outra escolha havia? Por mais que eu quisesse ficar naquele píer com a mãe, eu duvidava que o trem fosse esperar por mim. Pedi que ela se juntasse a mim, mas ela recusou. Achei estranho quando ela me disse que pegaria o próximo. Não acho que vá haver um próximo.

E então me sentei sozinho no vagão, vendo a paisagem passar em disparada, pensando no que tudo isso leva. Há algo inquietante em estar sozinho num lugar que sugere reunião coletiva. Shoppings abandonados, escolas ao entardecer, o último trem programado da noite. Por mais que eu gostasse de estar sozinho, aquilo parecia invasão. Como se eu não devesse estar ali porque ninguém mais estava. O que todo mundo sabia que eu não sabia? O que a mãe não me contou?

Eventualmente o sol se pôs no horizonte e a noite chegou. O trem não dava sinais de parar. Não consegui dizer quanto tempo durou a viagem. A floresta de pinheiros parecia ficar mais densa à medida que eu avançava cada vez mais fundo na mata. A noite só ficava mais escura. As luzes fluorescentes no trem tremeluziam enquanto os galhos estendidos roçavam e batiam na lateral do vagão. À medida que as luzes piscavam, nas breves instâncias de escuridão eu conseguia distinguir o brilho de uma luz laranja dançando entre a folhagem. Uma nuvem de fumaça subindo para o céu. O trem se virou na direção da luz e começou a desacelerar.

Parou diante de uma pequena clareira na floresta. As chamas agora ardiam mais forte e mais alto enquanto minha cabana era engolida, transformando-se em uma pira enegrecida. Minha casa estava em chamas. Meu santuário.

Dentro do fogo eu conseguia ver uma figura parada na janela. Era ele, pensei. Foi ele quem fez isso. Eu saio por um momento e ele põe tudo abaixo. Eu disse que ia matá-lo. Ainda pretendo.

Ao correr para dentro das chamas para enfrentá-lo, meu corpo se incendiava e fervia por dentro. Minhas roupas queimaram em um instante, reduzidas a cinzas. Eu me choquei contra a porta só para descobrir que ela estava trancada, mesmo sem nunca ter havido uma tranca naquela porta. Bati, esmurrando e sacudindo a porta, sem obter nada. O calor era insuportável, e ainda assim eu me recusava a ceder. Como eu havia dito, aquela cabana era um pedaço tangível da minha alma. O único lar que eu jamais conhecera. Eu o recuperaria do intruso ou queimaria junto com ele. Com um esforço triunfante, finalmente arranquei a porta das dobradiças e cambaleei para dentro do inferno em chamas.

Lá estava ele, aguardando por mim. Um estranho familiar. Quase tinha me esquecido da visão do meu próprio rosto. Ele parecia... eu parecia satisfeito. Como se não estivéssemos no meio de madeira em chamas. Ergui minha mão em sinal de conforto.

Está ficando frio.

O quê?

A mãe estava certa. Não estamos vestidos para o tempo.

As estrelas estão caindo.

Elas descem, leve e suavemente, das copas das árvores. É hipnotizante. Estão chegando mais perto. Arde. As estrelas na minha pele estão... formando bolhas.

Ah

Está frio. Congelante, na verdade. Mas eu não estou tremendo. Tudo parece dormente e lento. O que eu estava fazendo aqui fora?

Tento me lembrar do acontecimento que me trouxera para essa situação... Como eu fui parar nisso. Qual foi a última coisa de que me lembrei?

Fogo

Não

Mãe

Não

Não essas fabricações

Concentre-se

Eu estava num carro. Eu estava indo para casa. E então...

Naquele momento, tudo o que consigo fazer é rir para mim mesmo. A tragédia da minha condição e sua natureza autodestrutiva. A falta de autopreservação na busca até mesmo de um pequeno instante de alívio do ruído. Ainda assim, apesar de tudo, não consigo evitar sorrir. Acho que devo estar louco.

Ah, como eu amava a neve.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

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