quinta-feira, 14 de maio de 2026

Algo aconteceu no túnel B da fábrica de frango

Está doendo de novo.

Ainda consigo sentir. Apertando. Enroscando.

Aquele aperto frio e viscoso.

Meus amigos me dizem pra falar sobre isso, mas, honestamente, todos me olham como se eu fosse louco.

Eu não sou louco.

Aconteceu há três dias. Eu trabalho numa fábrica de frango local como funcionário de manutenção. Eles processam toneladas de carne todo dia, do início ao fim. Normalmente, esses tipos de lugares dividem os processos em fábricas menores, mas não aqui.

Desde a suspensão das aves vivas, desossa, corte em cubos, preparo e até algumas linhas cozinhando frango que você mesmo pode ter comido em alguma lanchonete local de fast food. Eles faziam tudo. Mas veja, não é só eficiência limpa.

Tem trabalhos sujos também.

A maioria das miudezas, pedaços e outros restos vira ração pra cachorro, mas isso não significa que ainda não haja toneladas de carne desperdiçada que é jogada no sistema de drenagem da empresa. Uma série de grades, canos e canais entrelaçados que desembocam num grande lago de águas residuais.

É, eu sei o que você tá pensando, não pode ser muito bom pro meio ambiente local, mas eu acho que quando a parada chega nos canos de drenagem já tá praticamente estéril e diluída o suficiente pra ser liberada no mundo.

É um pesadelo no verão. A cidade inteira odeia. Mas isso não impede eles de deixar os adolescentes, amigos e familiares trabalharem lá. Afinal, quase não tem mais nada por perto.

É por isso que eu tô aqui, no fim das contas. Paga melhor do que trabalhar nas linhas e é basicamente trabalho de faz-tudo.

Um parafuso solto aqui, um cabo de energia trocado ali. Na verdade, tudo que você tinha que fazer era prestar atenção no que os caras mais velhos faziam e talvez assistir a alguns vídeos no YouTube aqui e ali nos intervalos pro almoço. No entanto, tinha um trabalho que você nunca pegava nenhum dos veteranos fazendo.

Desobstrução de canos. De vez em quando, alguma grande massa de pele, gordura e talvez uma sacola plástica ou duas ficava presa em algum lugar e causava algum refluxo ou começava a se aglomerar perto de um dos túneis que desembocavam no lago de drenagem. Geralmente era um trabalho bem simples.

E você sempre voltava cheirando a carne podre. É por isso que eles fazem os caras mais novos fazerem. Caras como eu e o Mikey, que fez da última vez que teve um problema, então, aparentemente, era a minha vez. Ótimo.

Eu optei por almoçar antes de descer pro poço, imaginando que eu não estaria exatamente com vontade depois. O relatório falava sobre drenagem mais lenta, algumas das grades levando uma hora pra escoar completamente quando deveriam levar minutos, e um odor persistente de podridão subindo do túnel B.

Isso significava verificar cada grade e canal desde o piso da fábrica até a saída de concreto que se projetava sobre o lago por uns bons seis ou sete pés.

Então eu me pus a trabalhar. Peguei um rádio, algumas das luvas de borracha grandes que usávamos pra limpezas, e um cultivador de jardim de três pontas que a manutenção tinha começado a usar pra dragar torrões teimosos das águas cheias de gordura.

Verificando as grades que eles relataram, não encontrei sinais óbvios de obstrução além do refluxo. Ainda assim, eu tirei as tampas de metal e tentei peneirar pelo líquido vermelho-acastanhado. A ponta do cultivador raspou contra o concreto e só conseguiu puxar alguns pedaços de gordura e uma pena meio despedaçada.

Eu segui a linha pra baixo e repeti esse processo algumas vezes antes de pensar que seria mais fácil encontrar onde a água não estava acumulada.

Então, desci pelas escadas de manutenção, entrei no túnel B e fui andando. Quanto mais eu descia, mais funda a água ficava. Nada perigoso. Bem, além do risco de perder meu almoço por causa do cheiro. Só uma polegada ou duas de água suja.

O chapinhar dos meus passos virou um barulho de chafurdar quando a água chegou na altura do tornozelo. Eu nunca fiquei tão agradecido por aquelas botas de borracha feias e desconfortáveis que eles faziam todo mundo usar enquanto eu arrastava os pés pelaquela parada.

Aí, finalmente, na altura da canela. Nessa altura eu já tava começando a ficar nervoso. Minhas botas iam bem alto, mas se a água ficasse mais funda eu acabaria precisando voltar e pegar um par de calças de água ou algo assim. Felizmente, parecia se manter bem consistente quando eu cheguei no último trecho do túnel de drenagem. Eu gostaria de poder dizer o mesmo do cheiro.

O fedor tava aumentando rapidamente, não era mais o cheiro velho de aves esterilizadas mas podres.

Isso era quase como esgoto ou como naquela vez que eu tive que puxar um gambá morto do galpão do vizinho.

Doce, mas errado, como fruta podre até o ponto em que aquele músculo gorduroso te atinge e fica preso no fundo da sua garganta.

A caminhada me levou até a saída. Um bueiro quadrado que levava direto à descarga. Eles mantinham os túneis bem iluminados, mas eu ainda conseguia ver o reflexo da luz do sol vindo pela grade grande que separava o túnel do mundo exterior.

Eu podia dizer mesmo de longe que a água não estava escoando direito.

O fluxo uniforme de sempre era algo mais parecido com uma espiral lenta e preguiçosa, como se estivesse engasgada e mal escoando por algum buraco perto do fundo da grade. O som de um fluxo constante de água agora era um gotejar seguido de um respingo ocasional enquanto o lixo ocasionalmente escoava sobre o que quer que fosse a obstrução.

E o som de zumbido.

Meu Deus, as moscas deviam estar se divertindo pra caralho com isso.

Eu andei pelas beiradas onde a passarela se mantinha nivelada apesar do próprio túnel de drenagem descer em declive. Isso significava que o que quer que estivesse causando a obstrução era grande o suficiente pra cobrir vários pés de grade.

Isso ia ser uma merda. Não tinha como não ser alguma grande massa de pele, gordura e penas que de alguma forma tinha escapado pelo processamento. Acontecia. Talvez não tão ruim, mas acontecia de vez em quando.

A poça aqui tinha começado a turvar, parecendo mais com o lago lá fora do que com o líquido marrom-avermelhado de costume que eu estava acostumado a ver escoar por essas grades. Estava tão espessa que eu nem conseguia ver o fundo.

Então, naturalmente, eu peguei o cultivador e enfiei a cabeça fundo na água, arrastando a ponta do mais fundo que eu conseguia e começando a raspar pra cima.

E definitivamente tinha algo ali, uma espécie de resistência borrachenta entre o cultivador e a grade de metal. O que quer que fosse, eu não conseguia pegar tração nele. Quando eu puxei a cabeça de volta, ela foi seguida por uma massa de lodo verde tipo algas.

Eu quase vomitei. O fedor piorou quando eu puxei a massa pra fora da água. Um cheiro como lama de lago misturado com carne pútrida.

Foi o suficiente pra me distrair do fato de que a água ao redor dos meus pés não estava apenas se movendo com meus próprios movimentos.

O fato de eu ter vomitado, aquele solavanco repentino enquanto eu sentia a refeição de frango barata fornecida pela empresa me deixar e se juntar à água embaixo, me fez fechar os olhos por tempo suficiente.

Algo apertou.

Forte.

Ainda não doía. Como se alguém tivesse estendido a mão da lama turva pra tentar me puxar pra baixo. Um aperto forte o suficiente pra que, em todo o meu debater, eu nem conseguisse sair da minha bota pra fugir.

Um aperto que se encontrou no meu outro pé, me fazendo cair de costas na grade.

A coisa toda tremeu com o impacto. O som de metal sacudindo ecoando pelos túneis.

Eu diria que eu respirei fundo, me acalmei e tentei meu rádio.

Mas eu não fiz isso. Não, em vez disso eu gritei, me debati e enfiei meus dedos na grade atrás de mim. Eu tentei desesperadamente me alavancar pra cima e pra fora da água, longe do que quer que estivesse me tocando, me empurrando de costas contra a grade.

Quanto mais eu puxava, mais apertada a sensação ficava. Toda vez que eu era puxado pra baixo enquanto puxava freneticamente minhas pernas, o que quer que fosse subia mais uma polegada ou assim.

Eu não parei de me debater até que não estava mais apenas segurando minhas botas, mas dentro delas, derramando nelas e esfregando contra meus pés.

Você já segurou pele de frango crua? Sentiu aquela textura fria e borrachenta? É tudo o que eu conseguia imaginar naquela hora, minhas botas enchendo de pele solta se contorcendo.

O cheiro. Eu nunca vou esquecer aquele cheiro. Não importa o quanto eu esfregue minhas pernas, eu juro.

Às vezes, quando eu estou sozinho. Quando não tá acontecendo nada.

Eu sinto aquele cheiro encharcado e doentio de podridão.

Em algum lugar do meu pânico, o clipe barato do rádio deve ter quebrado, ou talvez ele só tenha sido empurrado pro lado errado quando eu bati na grade. Não sei. Eles nunca o recuperaram.

Então ali estava eu, hiperventilando e segurando naquele metal gorduroso como se minha vida dependesse disso enquanto algo subia lentamente pelas minhas pernas. Parecia que quanto menos eu lutava, mais devagar a coisa se movia.

Foi quando eu consegui ver ela, ou pelo menos parte dela. A parte que tava subindo por mim era principalmente um limo transparente com manchas amarelo-brancas que eu eventualmente identifiquei como pedaços de gordura junto com algumas manchas de líquido descolorido borbulhando retido na sua forma.

Quando encontrava a água embaixo, eu via uma mistura de manchas vermelho-ferrugem que se moviam preguiçosamente, suspensas no que quer que estivesse mantendo essa coisa junta.

E mais fundo na água, mal visível sob a superfície, haviam torrões pretos mais concentrados que ocasionalmente boiavam perto o suficiente pra ver enquanto a coisa se deslocava pelo meu corpo.

Eu gritei, chorei, berrei. Tão fundo nos túneis, provavelmente ninguém ia me ouvir. Claro, talvez se entrassem na escada de manutenção, mas como eu disse.

Ninguém descia aqui a menos que tivesse que descer.

A pior parte? Eu conseguia ver a cidade. Através da grade, ali na distância eu mal conseguia ver a estrada levando pra longe da fábrica e até a cidade em si.

Nenhum dos meus gritos importava. Os carros continuavam dirigindo, a cidade continuava se movendo enquanto eu tinha que ficar ali parado e esperar essa coisa me matar.

Eu acho que foi uma hora depois que eu vomitei de novo. Não estava exatamente com pressa depois que eu parei de lutar. Naquele ponto eu estava esperando que alguém simplesmente notasse que eu tinha sumido e viesse me buscar. O lodo tinha subido lentamente até meu estômago e ainda tava apertando. Isso, junto com o fato de que eu conseguia distinguir o que parecia muito com larvas de mosquito se contorcendo naquelas pequenas bolsas de água amarelada presas dentro do lodo, tornou a vontade difícil de resistir.

Isso foi um erro.

Eu não conseguia me inclinar pra frente exatamente, então uma boa parte simplesmente escorreu pelo meu macacão de trabalho.

E quando fez contato com a coisa, eu pude ver o movimento parar. A coisa toda pareceu congelar.

Começou a beber. É a única forma que eu consigo descrever. Ela sugou o fio de vômito pra dentro de si. Eu podia ver os pedaços de branco e marrom da refeição de frango empanado sendo sugados pra uma das partes mais escuras da massa fedida.

Ela se movia em contrações, como uma garganta engolindo repetidamente.

Eu ainda vejo. Ainda vejo o momento em que começou a seguir o rastro de vômito.

Ainda lembro da sensação pegajosa entre meus dedos enquanto eu arrancava ela, jogava pedaços de gosma pra longe só pra ela reagir prendendo meus dedos tão apertado que eu ouvi algo estalar.

Ela tava me prendendo na grade. Não mais rastejando pra cima, mas se movendo em surtos curtos e pulsantes, apertando, esmagando.

Eu senti minha cabeça ficando leve. Tentei mover minha perna de novo, mas a coisa respondeu apertando minha perna direita com uma força esmagadora. Eu senti algo ceder seguido por uma dor cegante que me fez gritar.

A última coisa que eu lembro é algo frio, molhado e viscoso subindo pelo meu queixo e o gosto de mofo e bolor enfiando na minha boca.

E aí nada. De acordo com os médicos, eu devo ter caído na água enquanto tentava limpar uma obstrução, o que aparentemente eu fiz, porque quando alguém finalmente foi verificar como eu tava, a água já tava escoando normalmente.

Comigo deitado, espalmado, encostado na grade.

Eu não sei por que ela me deixou vivo.

O que eu sei é que quando eu acordei, eu tentei vomitar. Ainda conseguia sentir aquele gosto de podridão velha na minha boca, cheirar no meu nariz, sentir na minha pele. Era demais.

Água. Principalmente, de qualquer forma, espessa e morna com um fedor que era muito familiar.

Os médicos me mandaram pra casa com um gesso e alguns antibióticos, me disseram pra ligar se sentisse algum sintoma tipo gripe.

Agora eu tô preso aqui sentado, me perguntando enquanto tento esquecer a dor latejante na minha perna e aquele gosto que não some não importa o que eu coma.

Ela parou na minha boca?

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Esta luminária com certeza não pode estar assombrada

Esta luminária deve estar assombrada. Não é o tipo de luminária que você esperaria que estivesse assombrada. Normalmente você imaginaria algo de outro século — feito com bordado com miçangas e construído antes que a fiação elétrica tivesse sido totalmente dominada.

Não, esta é uma luminária da Modern&co. E nós a compramos hoje mesmo.

Mesmo antes de comprá-la, eu sabia que havia algo nela que não estava totalmente certo.

Eu posso ser bastante exigente quando se trata de cor. Se uma panela não for o tom exato de amarelo, eu vou passar algumas noites sem dormir antes de ela ir direto para a lixeira. Não porque houvesse algo remotamente errado com ela. Uma panela amarela perfeitamente boa, que não era exatamente o tom certo de amarelo, direto para a lixeira.

Eu já joguei fora conjuntos inteiros de pratos por esse motivo. Cortinas, roupas, tudo o que possuo tem que estar exatamente certo.

Sou bastante desperdiçadora, mas não é por descuido. Eu sou apenas sensível. Eu consigo notar se algo está fora do lugar, mesmo que seja por pouco. E quando está, eu não consigo parar de pensar nisso. Ao ponto de não conseguir dormir à noite.

Eu não acho que seria possível para mim morar com colegas de quarto. Nenhuma das posses deles estaria segura.

E, claro, como costuma acontecer nesses casos, eu não revelei nada disso ao meu namorado antes de mudarmos juntos. Minha paranóia sobre cores, molduras, texturas e contraste — nada disso pode ser compartilhado com alguém que, por algum motivo, decidiu que eu era a pessoa certa para ele. Por sorte, ele não trouxe muita coisa para o apartamento. Eu me pergunto se ele sequer notou que a chaleira dele foi substituída.

Eu estou realmente tentando me segurar. Talvez pudéssemos colocá-la no canto — aquele que você mal vê quando entra no quarto. E poderia ficar tudo bem. Eu poderia tentar reunir força de vontade para ignorá-la todos os dias, repetidamente.

E a pior parte disso tudo é — eu não tenho nenhuma desculpa real para odiar esta luminária.

Ela é o tom exato de bordô que eu estava querendo. A cúpula triangular e elegante é exatamente o que eu tanto pedia, meses antes da Modern&co lançá-la como produto. E custou tão caro que até o queixo do meu namorado caiu quando ele viu o valor.

Não há desculpa para aquela sensação incessante no canto da minha mente.

De que há algo terrivelmente errado com esta luminária.

Algo sobre a presença dela.

E cada parte de mim que normalmente protesta quando uma cor está errada, quando um reflexo não está suficientemente claro, quando há um leve arranhão ou quando uma peça está muito antiquada — tem estado absolutamente berrando sobre esta luminária perfeita que não tinha o menor indício de defeito nela.

Uma batalha entre mim e minha intuição.

Meu orgulho se manteve firme durante a maior parte do dia.

Eu não disse uma única palavra da minha irracionalidade ao meu namorado.

Ele nunca poderia saber.

Eu pensei que conseguiria me safar. Pensei que conseguiria sufocar o último resquício de superstição ainda enraizado no meu cérebro de mamífero.

Mas à noite, enquanto tentava dormir, não tenho certeza do que me dominou.

A luminária — eu sentia a presença dela por perto. Sua sombra triangular pairando, piscando com a luz dos carros passando pela janela.

Ela estava lá. Estava pensando, planejando, esperando para atacar.

Eu tinha que vigiá-la. Então vesti meu roupão e fui para a sala de estar.

E agora, eu ainda estou aqui. É uma e meia da manhã e eu estou vigiando uma luminária.

Ela me encara de volta. Uma presença, uma figura quase humana com uma cabeça triangular exageradamente grande, e um corpo irrealmente estreito.

Por que eu não consigo ir para a cama? Por que a minha mente não desliga? Deve haver algo errado comigo. Eu não posso estar tão apavorada assim por causa de uma luminária. Eu devo estar imaginando tudo isso. Meus pensamentos disparam, já não mais coerentes.

Por que as luminárias são tão aterrorizantes no escuro?

Eu não posso ceder. Aquele desejo de pegar a luminária e tirá-la para fora. Eu poderia fingir que houve um arrombamento. Que algum entusiasta excêntrico de luminárias tinha aparecido e roubado a casa sem nenhum de nós perceber.

Sim, poderia ser isso. A desculpa. Um ladrão silencioso.

Obviamente eu não estou mais pensando com clareza. Eu caminho até a luminária que não tem nada de errado. Uma luminária inocente que nunca quis fazer mal algum. Que teria passado a vida parada calmamente, observando pacientemente. Eu agarro sua estrutura de metal, e então — há um interruptor.

Eu a entendo. Eu entendo a luminária.

Eu sou a luminária.

A luminária me examina bem, e eu encaro de volta; seus olhos castanhos estão encravados em uma cabeça humana redonda, pousada de forma antinatural em um corpo exageradamente grande que balança precariamente sobre duas pernas, nenhuma das quais tem uma base suficiente. Ela me levanta e me carrega para fora do apartamento. Eu bato nas escadas algumas vezes. Meus últimos gritos por ajuda. Alguém abre a porta para reclamar, mas, apesar disso, mesmo assim sou rapidamente arrastada para fora e deixada na calçada. A luminária vira e me olha, e sorri um sorriso frio e fluorescente, do tipo que eu nunca tinha visto em um rosto humano antes. E então ela vira e reentra no prédio.

A polícia desistiu de procurar minha mãe desaparecida. Alguém pode me dizer o que é um "Adormecido"?

Estou escrevendo isso aqui porque as autoridades locais abandonaram completamente as buscas. Elas varreram as lagoas de retenção próximas, organizaram fileiras de voluntários para caminhar pelos limites do condado vizinho e imprimiram panfletos que atualmente estão desbotando em cada poste de utilidade pública desta cidade. Eles acreditam que minha mãe é um caso trágico de demência de início súbito. Eles acreditam que ela saiu de casa no meio da noite, ficou desorientada no escuro e sucumbiu aos elementos em algum lugar fora dos limites.

Eles estão errados. Estou postando este relato exatamente como aconteceu, passo a passo, na esperança de que alguém neste fórum reconheça os sinais. Estou esperando que alguém saiba como rastrear a coisa que a levou.

Eu vivo sozinho com minha mãe há cinco anos. Voltei para a casa da minha infância para ajudá-la a cuidar da propriedade depois que sua mobilidade começou a declinar. Nossa rotina diária era tranquila, previsível e inteiramente normal. Assistíamos televisão à noite, dividíamos as refeições e íamos dormir cedo. Ela tinha juízo perfeito. Gerenciava suas próprias finanças, lia constantemente e possuía uma memória afiada e implacável para detalhes.

O pesadelo começou sutilmente, numa terça-feira no final de outubro.

Tenho o sono leve. Os ruídos ambientes da casa geralmente desaparecem no fundo, mas qualquer som agudo e irregular me acorda instantaneamente. Às 3:00 da manhã em ponto, ouvi a pesada tranca de latão da porta dos fundos se abrir com estalo. Foi um clique alto que ecoou pelo corredor.

Joguei os cobertores para o lado e saí do meu quarto. O corredor estava escuro, iluminado apenas pela fraca luz da lua derramando-se pelas janelas da cozinha. A porta dos fundos estava escancarada, deixando entrar uma rajada gelada de ar outonal.

Saí para a varanda dos fundos, meus pés ardendo contra a madeira fria. Nosso quintal é uma extensão larga e plana de grama que termina numa alta cerca de madeira de privacidade.

Minha mãe estava lá fora. Ela estava usando seu fino camisão de algodão, ajoelhada bem no centro do gramado.

Desci os degraus correndo e chamei por ela. Ela não respondeu. À medida que me aproximei, a luz da lua revelou o que ela estava fazendo. Ela havia arrancado a camada superior da grama e estava cavando agressivamente o solo escuro e úmido com as mãos nuas. Ela se movia com uma intensidade frenética, mergulhando os dedos na lama, puxando punhados de terra e jogando-os para o lado.

Ajoelhei-me ao lado dela e segurei seus ombros. Sua pele estava gelada. Puxei-a para trás, forçando-a a olhar para mim. Seus olhos estavam completamente abertos, mas totalmente vazios. As pupilas estavam dilatadas, engolindo a íris por completo. Ela olhou diretamente através de mim, sua mandíbula flácida, seu peito arfando de exaustão.

Guiei-a de volta para dentro. Ela estava completamente maleável, não oferecendo resistência alguma uma vez que a afastei da terra. Levei-a ao banheiro e liguei a pia. Suas unhas estavam repletas de lama preta espessa, e a pele ao redor das cutículas estava raspada e sangrando. Lavei suas mãos, enrolei-as em bandagens e a coloquei de volta na cama.

Na manhã seguinte, ela não se lembrava absolutamente de nada.

Ela sentou-se à mesa da cozinha, encarando suas mãos enfaixadas em genuíno horror. Expliquei o que havia acontecido. Ela chorou, inteiramente aterrorizada pela perda de controle sobre seu próprio corpo. Marcamos uma consulta de emergência com seu médico de atenção primária. O médico fez uma bateria de exames, verificou suas respostas neurológicas e, em última instância, diagnosticou-a com sonambulismo de início adulto desencadeado por estresse. Ele prescreveu um sedativo forte e nos disse para manter as portas trancadas.

A medicação não fez absolutamente nada.

Na noite seguinte, às 3:00 da manhã em ponto, a tranca se abriu com estalo novamente. Encontrei-a no exato mesmo lugar do quintal, ajoelhada na lama, cavando o mesmo buraco mais fundo. Suas bandagens estavam arruinadas, encharcadas de terra úmida e sangue fresco.

Isso se tornou nossa realidade noturna. A repetição era aterrorizante. Parei de dormir. Eu sentava na sala de estar no escuro, observando o relógio digital do micro-ondas marcar em direção à hora. Às 2:59 da manhã, eu ouvia a porta do quarto dela se abrir. Ela descia o corredor com uma marcha pesada, antinatural e arrastada. Ela nunca olhava para mim. Ia direto para a porta dos fundos, destrancava-a e saía para o frio.

Se eu tentasse contê-la fisicamente antes que ela alcançasse o quintal, ela demonstrava um nível incompreensível de força física. Esta é uma mulher que tem dificuldade para abrir potes apertados, mas quando envolvi meus braços em sua cintura para puxá-la para longe da porta, ela arrastou todo o meu peso corporal pelo chão sem quebrar a marcha. A única forma de lidar com isso era deixá-la cavar por dez minutos, deixar a energia maníaca se esgotar, e então guiá-la de volta para dentro.

Toda manhã, lidávamos com as consequências. Seus dedos se tornaram uma bagunça de hematomas, carne rasgada e unhas quebradas. Passei meus dias limpando a lama de suas feridas e tentando confortar uma mulher que sentia sua mente se desintegrar.

Ao final da segunda semana, decidi acabar com o ciclo permanentemente.

Fui à loja de ferragens e comprei uma tranca de duplo cilindro reforçada para a porta dos fundos. Ela exigia uma chave para destrancar tanto por dentro quanto por fora. Naquela noite, depois que ela foi para a cama, instalei a nova fechadura, engatei o ferrolho e escondi a chave dentro de uma lata de café vazia na prateleira mais alta da despensa.

Sentei-me no sofá da sala de estar, esperando as 3:00 da manhã.

Na hora certa, a porta do quarto dela se abriu. Os passos pesados e arrastados ecoaram pelo corredor. Ela entrou na cozinha, seu camisão arrastando-se no chão, seus olhos fixos naquele mesmo olhar vazio e dilatado.

Ela alcançou a porta dos fundos e agarrou a maçaneta da tranca. Ela não girou.

Ela a torceu novamente, com mais força. Nada aconteceu.

Levantei-me do sofá, sentindo um profundo alívio. A barreira havia funcionado. Preparei-me para caminhar até lá, segurar gentilmente seu braço e guiá-la de volta para a cama.

Antes que eu pudesse dar um passo, ela se afastou da porta e caminhou com rigidez e propósito em direção à gaveta de utilidades do balcão da cozinha. Ela abriu a gaveta, suas mãos revirando cegamente pelo conteúdo.

Ela puxou um martelo de garra de aço maciço.

Meu alívio evaporou instantaneamente em pânico. Corri para frente, gritando o nome dela, estendendo a mão para agarrar seu pulso.

Ela girou com velocidade aterrorizante e brandiu o martelo diretamente contra o grande painel de vidro temperado encaixado no centro da porta dos fundos.

O impacto foi ensurdecedor. O vidro estilhaçou-se para fora, espalhando fragmentos afiados pela varanda de madeira. Sem uma única fração de segundo de hesitação, ela lançou seu corpo para frente, escalando através da abertura irregular.

Gritei para ela parar. Os cacos de vidro quebrados cortaram profundamente seus antebraços e suas coxas enquanto ela se forçava através do caixilho. Sangue imediatamente embebeu o tecido branco do camisão. Ela nem estremeceu, nem sequer gritou. Simplesmente caiu sobre a varanda, levantou-se e marchou diretamente para o quintal escuro.

Destranquei a porta com mãos trêmulas, peguei uma toalha do balcão e corri atrás dela. Ela já estava no buraco, ignorando as lacerações profundas em seus braços, mergulhando seus dedos sangrantes na lama gelada.

Levou-me vinte minutos para arrastá-la para longe naquela noite.

Passamos o dia seguinte na clínica de emergência. Ela precisou de trinta pontos nos braços e nas pernas. Quando finalmente viu o sangue em seu camisão e sentiu a dor agonizante dos cortes, ela desmoronou completamente. Ela me implorou para amarrá-la na cama. Ela me implorou para trancá-la num quarto. Ela estava aterrorizada com o que estava se tornando.

Levei-a para casa, dei-lhe a dose mais forte de seus sedativos e a coloquei na cama.

Sentei-me sozinho à mesa da cozinha, encarando através da porta dos fundos estilhaçada o quintal escuro. O buraco que ela vinha cavando há semanas agora tinha aproximadamente um metro de largura e sessenta centímetros de profundidade.

Uma constatação se instalou lentamente sobre mim. Isso não era sonambulismo aleatório. Ela estava mirando numa coordenada específica. Ela retornava ao exato mesmo pedaço de terra todas as noites, ignorando dor, ignorando barreiras, ignorando seus próprios limites físicos.

Ela estava tentando desenterrar algo.

O pensamento se alojou em meu cérebro e se recusou a me deixar em paz. Eu precisava saber o que havia lá embaixo, ou o que a estava atraindo para fora de sua cama e a forçando a destruir suas próprias mãos.

Esperei até a manhã de sábado. Verifiquei-a; os sedativos a mantinham num sono profundo e pesado. Fui à garagem, peguei uma pá de aço pesada e um picareta, e caminhei até o centro do quintal.

Fiquei sobre a depressão irregular e rasa que ela havia arrancado com os dedos. O solo aqui era denso, fortemente compactado com argila local e raízes grossas. Cravei a lâmina da pá na terra e comecei a cavar.

O trabalho era exaustivo. O sol outonal não oferecia calor algum, mas dentro de uma hora, minha camisa estava encharcada de suor. Cavei além da camada superficial, rompendo uma espessa camada de argila densa e teimosa. Expandi o perímetro do buraco para me dar espaço para ficar em pé.

Quando alcancei uma profundidade de um metro e vinte, minhas próprias mãos estavam cheias de bolhas e cruas por dentro das luvas de trabalho. O ar lá embaixo no buraco cheirava antigo, como água estagnada. Parei para recuperar o fôlego, apoiando-me pesadamente no cabo de madeira da pá. Olhei para baixo, para a terra compactada entre minhas botas. Não havia nada lá. Apenas mais terra, mais pedras, mais raízes.

Senti uma onda de tolice. Eu estava destruindo nosso quintal baseado nas ações maníacas de uma mulher doente. Preparei-me para sair e começar a encher o buraco novamente.

Cravei a pá uma última vez.

Um estalo alto e agudo ecoou do fundo do poço. A lâmina de aço vibrou violentamente, enviando uma onda de choque dolorosa pelos meus braços.

Eu havia atingido algo sólido. Não parecia uma pedra. Pedras oferecem uma resistência surda e contundente. Isso parecia denso, estruturado e incrivelmente duro.

Deixei a pá cair e ajoelhei-me na terra. Tirei as luvas e comecei a limpar o solo solto com as mãos nuas.

Uma superfície pálida, esbranquiçada, começou a emergir da argila escura. Era lisa em alguns lugares, pontilhada e porosa em outros. Raspei mais terra, seguindo a curva do objeto. Era massivo.

Era um osso.

Estava inteiramente fossilizado, pesado e completamente integrado à terra circundante, mas a estrutura biológica era inconfundível. Passei as próximas duas horas limpando meticulosamente a terra, usando uma pequena pá de mão e uma escova rígida para expor o objeto sem danificá-lo.

À medida que a forma completa do fóssil emergia, uma náusea profunda e primordial retorceu meu estômago.

Era uma estrutura esquelética completa, aproximadamente do tamanho de um adulto humano alto. Estava deitada de costas, embutida na argila. A caixa torácica era larga, composta de placas grossas e sobrepostas em vez de costelas individuais. O crânio era alongado, inclinando-se para trás numa crista afiada.

Mas os membros desafiavam toda a biologia padrão.

Ramificando-se do torso central havia seis braços distintos. Eles estavam arranjados em pares, descendo pelos lados da caixa torácica. Abaixo da pelve, quatro pernas se estendiam para baixo, articuladas em ângulos bizarros e agressivos.

Escovei a terra de um dos braços. A anatomia estava profundamente errada. Em vez de um único cotovelo, o braço possuía três articulações separadas, permitindo que se dobrasse e se articulasse de formas que destruiriam tendões humanos. As mãos, ou o que quer que fossem, terminavam em dígitos longos e multiarticulados que pareciam um híbrido entre dedos e ganchos.

Sentei-me no fundo do buraco, encarando o fóssil, minha mente completamente incapaz de processar a descoberta. Era humanoide, mas absolutamente não era humano.

Cobri cuidadosamente o esqueleto exposto com uma lona plástica pesada, pesando os cantos com pedras soltas. Saí do buraco, entrei em casa e esfreguei a terra de meus braços e rosto.

Fui ao meu escritório em casa, tranquei a porta e abri meu laptop.

Passei horas fazendo buscas por imagens, digitando descrições da anatomia em motores de busca, bancos de dados acadêmicos e arquivos de paleontologia. Busquei por hominídeos de seis braços, registros fósseis de quatro pernas e restos esqueléticos multiarticulados.

A internet convencional não ofereceu absolutamente nada. Não havia artigos acadêmicos, notícias, nem fraudes históricas que correspondessem ao que eu havia encontrado em meu quintal.

Afastei-me dos bancos de dados padrão e comecei a cavar em fóruns obscuros, painéis de arqueologia marginal e diretórios da web não indexados. Naveguei por horas de teorias da conspiração e lixo digital.

Assim que o sol começou a se pôr, encontrei um link num painel de mensagens extinto. O link me direcionou a um blog de texto simples, fortemente defasado, hospedado num servidor proxy anônimo. O fundo do site era um preto rígido, o texto um branco duro e ofuscante.

Havia uma única imagem embutida no centro da página.

Era um desenho rudimentar a carvão em papel texturizado. O esboço representava perfeita e impecavelmente o esqueleto enterrado em meu quintal. Mostrava o crânio inclinado, a caixa torácica em placas, os seis braços multiarticulados e as quatro pernas anguladas.

Rolei para baixo. O texto abaixo da imagem estava escrito num estilo desconexo, sem pontuação ou formatação adequadas.

O autor se referia à criatura como um "Adormecido".

Segundo o blog, os Adormecidos eram entidades ápice que existiram neste planeta milhões de anos antes que os primeiros primatas evoluíssem. Eles não morreram, nem mesmo foram extintos. Eles se embutiram profundamente dentro da terra, entrando num estado de dormência petrificada absoluta para sobreviver a mudanças planetárias e alterações atmosféricas.

O texto os descrevia como possuindo um peso psíquico massivo. Mesmo em seu estado fossilizado, suas mentes permaneciam ativas, projetando uma transmissão para o ambiente circundante.

O parágrafo seguinte gelou meu sangue por completo.

Quando um Adormecido deseja erguer-se, ele não pode mover seus membros de pedra. Ele requer trabalho, ou um zangão. A transmissão localiza uma mente mamífera vulnerável e suscetível na vizinhança imediata. Ela afunda no subconsciente e comanda o hospedeiro a cavar. O hospedeiro abandonará toda a autopreservação, cavando através de solo e pedra com as mãos nuas até que o Adormecido seja exposto ao ar livre.

Eu encarei a tela brilhante, meu coração batendo forte.

Li as linhas finais da postagem do blog.

A exposição à atmosfera inicia o ciclo de despertar. A conexão psíquica solidifica-se. O Adormecido requer um receptáculo vivo. Ele compelirá o zangão a se aproximar, arrancará a consciência do hospedeiro, lançá-la ao vazio e vestirá a pele vazia.

Minha mãe era o zangão. A proximidade do fóssil sob nossa casa havia mirado sua mente declinante e vulnerável. A havia forçado para fora da cama todas as noites, usando suas mãos para romper a terra.

Mas suas mãos eram fracas demais. Ela era velha demais, e o solo era duro demais. Ela estava levando meses para cavar apenas alguns centímetros, então o processo era lento demais.

Pensei em minhas ações naquela manhã, na pá de aço pesada, nas horas de trabalho intenso, rompendo a argila, limpando a terra.

A criatura não precisava mais das mãos dela.

Corri pelo corredor, disparando através da cozinha, minhas botas deslizando no linóleo. Arranquei a porta dos fundos aberta e corri para o ar gelado da noite.

Cheguei à beira do poço e olhei para baixo.

A pesada lona plástica havia sido jogada para o lado.

O buraco estava completamente vazio.

O esqueleto fossilizado massivo havia desaparecido. Não havia traço do osso, nem fragmentos quebrados. Havia apenas uma impressão multilimbada profunda, pressionada perfeitamente na argila dura, marcando exatamente onde a criatura havia repousado por milhões de anos.

Uma onda sufocante de terror lavou-se sobre mim. Virei-me e olhei de volta para a casa.

A porta dos fundos estilhaçada estava aberta. As luzes lá dentro estavam apagadas.

Corri de volta em direção à varanda, subindo os degraus de madeira de dois em dois. Cruzei o limiar, o vidro quebrado estalhando sob minhas botas. O silêncio na casa era absoluto. A pressão do ar parecia profundamente errada, pressionando contra meus tímpanos como a queda súbita antes de uma tempestade massiva.

Percorri o corredor, minha respiração áspera e rasa. Cheguei à porta fechada do quarto da minha mãe.

Segurei a maçaneta de latão. Estava gelada ao toque. Girei-a e empurrei a porta para abrir.

O quarto estava escuro, iluminado apenas pelo brilho ambiente do poste de rua filtrando-se através das persianas fechadas.

Minha mãe não estava em sua cama. Os cobertores pesados estavam jogados para trás, acumulando-se no carpete.

Ela estava no centro do quarto.

Ela estava em pé, mas sua postura era inteiramente irreconhecível. Sua coluna estava perfeitamente, rigidamente reta, carecendo da curva natural de uma coluna humana. Seus braços pendiam ao lado do corpo, mas as articulações pareciam soltas, como se os ossos sob a pele tivessem sido desengatados.

Olhei para baixo, para seus pés.

As bainhas de seu camisão pairavam imóveis no ar. Seus pés descalços estavam suspensos exatamente sete centímetros acima do carpete.

Ela estava flutuando.

— Mãe?

Sussurrei, minha voz quebrando, soando patética e pequena no silêncio pesado.

Ela girou; sua forma inteira simplesmente girou no ar ao longo de um eixo fixo e invisível até que estivesse de frente para mim.

Olhei para seu rosto.

Os traços eram os da minha mãe. As rugas, o formato de sua mandíbula, os finos cabelos grisalhos emoldurando suas bochechas. Mas a entidade por trás do rosto não era humana.

Seus olhos estavam completamente abertos, e estavam brilhando. Uma luz branca pálida, repugnante e luminescente jorrava de suas íris, iluminando as órbitas escuras de seu crânio. A luz era dura, fria e inteiramente desprovida de vida.

Sua mandíbula caiu aberta. Ela abriu demais, esticando a pele ao redor de suas bochechas até que ouvi o rasgo úmido do tecido.

Um som começou a preencher o quarto.

Era um sussurro, mas carregava o peso acústico de uma avalanche. Soava como granito sendo moído, água correndo e estática profunda e vibrante, todos sobrepostos uns aos outros numa sinfonia aterradora e caótica. As palavras eram incompreensíveis, faladas numa linguagem que desafiava tudo que eu já ouvira. O som machucava fisicamente meus ouvidos, vibrando profundamente em meus dentes e meu crânio, e então senti um medo que nunca senti antes, tão primordial que pensei que estava de pé diante de meu predador.

Dei um passo à frente, impulsionado por uma necessidade cega e desesperada de puxá-la de volta, de agarrá-la e arrastá-la para fora do quarto.

Estendi minha mão em direção à sua forma flutuante.

No momento em que meus dedos romperam o espaço entre nós, a pressão do ar no quarto colapsou por completo.

Houve um estalo seco e concussivo, incrivelmente alto, como um selo de vácuo massivo se rompendo de uma só vez. As janelas chacoalharam violentamente em seus caixilhos. As cortinas pesadas do quarto chicotearam para dentro, puxadas pelo súbito deslocamento de ar.

Levantei os braços para proteger meu rosto da súbita rajada de vento.

Quando abaixei os braços uma fração de segundo depois, o quarto estava vazio.

A luz pálida havia se ido, os sussurros moedores haviam cessado, e o ar estava parado.

Ela simplesmente havia desaparecido no ar fino. O espaço que ela ocupava estava inteiramente vazio.

Arrasei o quarto. Arranquei as portas do closet abertas, rastejei debaixo da cama, gritei o nome dela até minha garganta sangrar. Corri por todos os cômodos da casa, acendendo todas as luzes, arrombando portas de suas dobradiças num pânico cego e frenético.

Ela não estava em lugar algum. A casa estava completamente, absolutamente vazia.

Isso foi há trinta e dois dias.

Não durmo mais de uma hora seguida desde aquela noite. Sento-me na sala de estar, encarando o corredor vazio. Dei meu depoimento à polícia mais de uma dúzia de vezes. Eles vasculharam as matas atrás da propriedade. Trouxeram cães. Os cães alcançaram a beira do buraco vazio no quintal dos fundos, gemeram e se recusaram a rastrear mais adiante.

O caso oficial de pessoa desaparecida está esfriando. O detetive encarregado me olha com pena. Ele acha que o estresse de cuidar de mim causou-me alucinações nos detalhes, e que minha mãe simplesmente foi embora enquanto eu estava tendo um colapso.

Eu sei a verdade. Eu sei o que estava naquele buraco, o peso psíquico que a empurrou a destruir suas mãos.

Tentei contatar o autor do blog. Enviei centenas de mensagens para o e-mail proxy anônimo anexado ao site. Todas são recebidas com silêncio. Não sei se o autor está me ignorando, se o servidor está morto, ou se o autor está aterrorizado demais para responder.

Estou implorando a qualquer um que esteja lendo esta postagem. Se você é um arqueólogo, um pesquisador do oculto, ou alguém que rastreia as coisas que a história esqueceu. Se você já ouviu o termo "Adormecido". Se você viu o desenho a carvão de um fóssil com seis braços e quatro pernas.

Por favor, me diga para onde eles vão quando acordam.

Eu só preciso encontrar a criatura que está vestindo sua pele. Eu preciso encontrar minha mãe.

Minha gata é só de dentro de casa agora

Enterrar o chihuahua da vizinha foi uma coisa, mas está ficando demais agora. Não me entenda mal, Nurgle é a gata mais doce do mundo inteiro em todos os outros aspectos.

Sempre que tenho meus amigos em casa ela ronrona e se esfrega neles e nunca morde. Ela e nossa gata tigrada geriátrica Magenta se davam muito bem antes do pobre coraçãozinho dela parar.

Até achei levemente fofo quando ela aparecia com uma tamia viva de vez em quando. Mas aí ela chegou em casa um dia com um corte enorme no flanco.

Coloquei ela na caixa de transporte e pus no banco do passageiro do meu Ford Fusion e parti para o veterinário. Ela não parecia muito machucada, mas o sulco profundo em seu flanco cinzento e peludo estava preto de sangue coagulado, e eu não precisava que ela pegasse uma infecção enorme no corpinho de três quilos dela.

A veterinária a recebeu imediatamente e examinou a ferida. Ela me disse que já estava bem crostada e deu a ela antibióticos e um cone para impedi-la de lamber a ferida, além de analgésicos.

Depois disso ela parecia mais ansiosa para sair, e começou a chegar em casa mais tarde do que o normal. Às vezes ela vinha arranhando a porta às duas da manhã com sangue por toda as patas e o focinho. Eu a dava banhos e depois ficava um pouco enjoado toda vez que ela fazia massagem em mim nos dias seguintes.

Ela começou a trazer animais mortos quase todos os dias. Às vezes eu acordava com uma dúzia de tâmias e esquilos desentranhados no meu quintal dos fundos e tinha que pegar um saco de lixo e arrancá-los da grama.

Eu tinha ficado complacente com a imensa quantidade de morte. Isso até eu encontrar um chihuahua brutalmente mutilado no meu quintal dos fundos, ainda guinchando por socorro.
Eu conhecia muito bem aquele cachorro.

Minha vizinha de meia-idade Cathleen levava seus dois chihuahuas para o quintal da frente quando saía para cuidar do jardim. Eles perseguiam os vizinhos da rua de trás e eu estava apenas esperando o dia em que um deles se atropelaria.

Senti pena da Cathleen, ela era uma mulher legal, mas eu sabia como seria se ela descobrisse que Nurgle tinha assassinado o cachorrinho fofo dela. Então fui ao galpão, peguei uma pá, e acabei com o sofrimento do pobre cachorro.

Esse foi apenas o primeiro de muitos túmulos de cachorro no meu quintal dos fundos. A sede de sangue dela só escalou daí para frente. Cathleen parou de deixar os cachorros saírem sem supervisão a partir de então, então Nurgle encontrou outros cachorros no bairro.

Eu não a deixava sair, mas de alguma forma ela saía mesmo assim. Cheguei a tomar cuidado extra quando saía para não deixá-la escapar comigo. Tive que começar a trancar as janelas quando ela descobriu que conseguia arrombá-las.

Mesmo isso não a impediu de fugir. Um dia encontrei um pastor alemão adulto que ela de alguma forma tinha arrastado de algum lugar. Ela tinha conseguido alcançar a garganta dele e rasgá-la.

Ela trazia vira-latas mortalmente feridos para casa com tanta regularidade que eu nem me dava ao trabalho de guardar a pá, simplesmente a mantinha na varanda dos fundos.
Eventualmente descobri que algumas das janelas que eu tinha trancado tinham sido destrancadas de alguma forma, então preguei elas fechadas. Aí eu soube que ela não era a única que queria que ela saísse de casa.

Eu estava me preparando para dormir outro dia, quando ouvi um estrondo no outro cômodo. Tinha uma pedra no chão. Grosseiramente rabiscado no chão estava uma mensagem simples de três palavras inscritas no chão com carvão: DEIXA ELA SAIR.

Parecia uma coisa insana de fazer, mas fui na loja de ferragens e comprei algumas tábuas. Tapei as janelas com tábuas. Não sabia mais o que fazer.

Esta manhã ouvi o grito agudo inconfundível de uma mulher. Corri desesperado para encontrar Nurgle, mas ela não estava dentro. Senti uma bola de boliche se materializar no meu estômago quando percebi que ela estava lá fora. Quando cheguei ao quintal dos fundos, Cathleen já estava morta.

É meio da tarde agora enquanto escrevo isso. Levou horas para cavar um buraco fundo o suficiente para Cathleen. Não consigo imaginar quanto mais tempo teria levado para alguém alto ou especialmente grande.

Nurgle está sentada no meu colo agora, fazendo massagem com as patas enegrecidas de sangue. Não sei o que fazer. Não posso mais deixá-la sair, mas não sei se consigo impedi-la. O que eu faço?
Tecnologia do Blogger.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

Algo aconteceu no túnel B da fábrica de frango

Está doendo de novo. Ainda consigo sentir. Apertando. Enroscando. Aquele aperto frio e viscoso. Meus amigos me dizem pra falar sobre isso, m...