sábado, 18 de julho de 2026

Algo Está Errado com o Fantasma que Assombra Meu Marido

Fui eu quem acordou no meio da noite, porque meu instinto materno disse que algo estava errado. Fui eu quem deslizei para o quarto da nossa filha para verificá-la. Fui eu quem a encontrou de bruços, sem respirar. Fui eu quem ligou para o 911 e fez desesperadamente RCP nela até a ambulância chegar. Meu marido só acordou quando as sirenes estouraram do lado de fora de casa. Eu estava sozinha na sala de espera quando a médica saiu, com o rosto frouxo numa compaixão ensaiada. Meu marido tinha ido ao banheiro. Pela segunda vez naquela noite, eu estava soluçando sozinha.

Mas ele tem me alcançado. Quando voltei ao trabalho, porque alguém precisava, ele disse que não estava pronto. No nosso grupo de apoio ao luto, ele chora descontroladamente, a ponto de parecer que não sobra espaço para as minhas lágrimas. Ele é frágil demais para envolver os braços em mim e dizer que sente muito; ele precisa que eu faça isso por ele. E agora, ele está sendo assombrado pelo fantasma dela.

Começou há cerca de um mês. Ele me ligou no trabalho — o que ele sabe que meu chefe não gosta —, balbuciando e soluçando, dizendo que ouviu o choro dela. O monitor de bebê, que não tivemos coragem de jogar fora, de alguma forma ligou sozinho. Ele ouviu a voz dela, mas a tela mostrava que o berço ainda estava vazio. É claro que tudo já tinha parado quando ele me ligou.

Da próxima vez que ele ouviu o choro dela, durou só um instante. Não vinha do monitor de bebê, mas do próprio quarto do bebê, bem depois que ele passou por ele. Ele abriu a porta de repente, e jurou que conseguia sentir o cheiro dela mais forte do que nunca, aquela fragrância suave de lenços umedecidos grudada em cada superfície. Ele surtou. Quando cheguei em casa, eu disse a ele que não conseguia sentir cheiro diferente nenhum. Mesmo que eu conseguisse.

Na terceira vez que aconteceu, eu disse que não aguentava mais aquilo. Disse que ele precisava desabafar — conversar com um amigo, familiar ou profissional. O irmão dele me ligou alguns dias depois, cheio de preocupações sobre as alucinações, e eu disse a ele, de forma brusca, que a razão pela qual pedi para meu marido ligar para ele era porque eu não podia continuar sendo a forte pelos dois. E desliguei na cara dele.

Fiquei tão aliviada quando ele me disse que estava planejando se internar voluntariamente na manhã seguinte. Foi como ver as nuvens de tempestade começarem a se abrir, e um raio de sol cinza e neblinoso começar a espreitar. Naquela noite, depois que apaguei a luz, depois que pensei que ele tinha adormecido, senti os dedos dele roçarem minhas costas. "Querida?" — ele sussurrou.

"Hmm?"

"Você não está dormindo?"

"Não." Embora eu quisesse estar.

"Você está brava comigo?"

"Não." Disse isso por reflexo, do mesmo jeito que se diz "tudo bem" quando as pessoas perguntam como você está, mesmo quando você sabe que elas sabem que você acabou de perder uma filha. Por alguns minutos, ficamos os dois em silêncio. Então eu me virei para encará-lo. "Você está bravo consigo mesmo?"

Ele pareceu assustado com a pergunta.

"Quer dizer... se você acha que estou brava com você, será que essa pode ser a sua própria voz que você está ouvindo?"

Ele ficou abalado. "Por que eu deveria estar bravo comigo mesmo?"

"Você não deveria." Fiz uma pausa, procurando as palavras certas. "Mas talvez tudo isso — as alucinações, a projeção em mim — talvez você se sinta culpado porque foi você quem colocou ela na cama naquela noite."

Ele virou as costas para mim, e eu pude sentir ele tremendo. Finalmente, ele disse: "Eu a coloquei de barriga para cima. Sei que você não acredita em mim. Mas eu coloquei."

Nenhum dos dois disse mais nada naquela noite. O irmão dele o pegou bem cedo de manhã, enquanto eu fingia estar dormindo. Então, só por segurança, fui ao quarto do bebê e removi a minúscula caixa de som Bluetooth e o pacote de lenços umedecidos de baixo da cômoda.

Crucifixo de Creosoto

Quatro milhas de postes de creosoto, com doze pés de distância entre eles. Cinco fios de arame farpado de alta tensão. Noventa graus pela manhã, chegando a cento e dez ao meio-dia. Nenhuma sombra por trinta milhas. Mato, terra, e gotas de suor que evaporavam antes mesmo de tocar o chão. Metade da equipe não apareceu para o serviço.

Mas o pagamento era bom – bom demais, embora depois do primeiro dia com certeza não parecesse mais assim. Era possível a pele formar bolhas por baixo do tecido? Com certeza parecia que sim. Será que a poeira conseguia se depositar no fundo dos meus pulmões? Porque o pano amarrado no meu rosto com certeza não estava fazendo porra nenhuma.

O velho nos deixou na primeira manhã, o que logo se tornaria nosso ritual. Ele não era muito de conversa. Ficava em pé sobre nós, a barriga pendurada sobre um cinto gasto com uma bola de fumo de mascar sobressaindo na bochecha. De vez em quando ele cuspia, os olhos astutos acompanhando a linha.

"Seria mais rápido com estacas de metal", disse Mack, enxugando o suor da testa.

"Metal não pega", o velho grunhiu.

Nós não dissemos nada. Afinal, ele era quem estava pagando a conta, e quem nos deixava no meio do nada com nada além de uma caminhonete surrada e um reboque carregado.

Isso me deixava nervoso, estar a quilômetros de qualquer coisa. Embora tivéssemos o calhambeque do velho, ele tinha deixado claro que era para dirigir ao longo da linha e nada mais. Mas tínhamos um rádio, um bebedouro de água e uma caixa de gelo que derreteria em poucas horas e deixaria nossos lanches encharcados, não importava o quão bem embalados estivessem. O que mais poderíamos realmente precisar? Equipamento melhor seria bom, mas pelo menos não estávamos enfardando a porra do feno.

"Tava esperando que você fosse um dos que não apareceu", resmungou Mack para mim.

Eu não lhe dei a satisfação de responder. Nunca adiantava nada. Ele era nosso líder, de certa forma. Nenhum de nós tinha qualquer lealdade real uns com os outros – mas trabalhávamos melhor em grupo e era mais fácil conseguir empregos assim, então lá estávamos nós.

"Deixa o garoto em paz", interrompeu Cobb. "Ele trabalha mais que o West."

"Tenho um joelho fodido, filho da puta", reclamou West.

"Esse não é o problema", Mack tinha murmurando, e deixamos por isso mesmo. Seja lá qual fosse o problema que aquele homem encarquilhado tinha comigo, podia ficar enterrado.

"Não liga pra ele. Ele só é um cuzão", Cobb tinha dito, com uma mão batendo no meu ombro.

"Nunca ligo", descartei.

Não valia a pena se preocupar quando tínhamos um serviço a fazer. Eu não conseguia entender por que estávamos cercando aquela seção. Não tinha nada por perto. Nem mesmo uma estrada de terra. O mato era uma merda. Mais terra do que qualquer outra coisa. Que porra eles queriam pastar lá, eu não sabia. Pelo menos os buracos cavavam fácil, mesmo que eu odiasse o creosoto pegajoso manchando minhas luvas, e tudo já tinha sido marcado com bandeirinhas, o que tornava o trabalho algo mecânico, na verdade.

Aí veio o quinto dia.

O velho ficou mais tempo que o normal, caminhando ao longo da linha de postes que tínhamos colocado. Estavam retos, espaçados com precisão, e os tínhamos enterrado fundo. A última coisa que precisávamos era ele decidir arrastar isso e nos fazer arrancá-los.

"Vocês estão perdendo terreno. Trabalhem mais rápido", ele finalmente disse, cuspindo suco de fumo contra o chão empoeirado.

Ora, não estávamos fazendo nosso tempo habitual, mas a equipe estava reduzida em relação ao que normalmente tínhamos, e era pleno meio do verão, caralho. Ainda tínhamos colocado quinhentos postes, mas –

Parei o que estava fazendo, deixando cair o cavador de buracos.

Quinhentos postes, mas não tínhamos virado uma esquina.

Como caralhos não tínhamos notado?

O velho viu meu choque, tocou o chapéu e foi embora.

"O quê?" Mack me perguntou.

"Por que ainda estamos deste lado?"

Levou um momento para o resto deles perceber. Fazíamos esse tipo de trabalho o tempo todo sem problemas. Quando eu dormia à noite, era ao som suave do cavador cortando fundo e do sussurro da terra sendo jogada para o lado. Minhas mãos eram só calos que nunca ficavam limpos. Eu tinha cavado tantos malditos buracos e colocado tantos malditos postes que tudo se misturava. Se desligar durante um serviço não era novidade, mas perder a noção era.

"Cobb, conta eles", disse Mack.

"Por que caralho eu tenho que fazer isso?" ele reclamou.

"Porque o Slate está prestes a ter um treco, e o West não sabe contar porra nenhuma."

"Ei", exclamou West, "eu conto os fios quando a gente estica eles."

"Então até cinco? É. Cobb?"

Ele suspirou. "Já vou."

Voltamos ao trabalho, mesmo que eu ficasse olhando por cima do ombro. Finalmente, ele voltou, com expressão sombria.

"Trezentos."

"Sem porra de jeito!" Mack jogou a perfuratriz no chão.

"Tô te dizendo, contei indo e voltando só pra ter certeza", defendeu-se Cobb.

"Você é tão ruim quanto o West. Continuem cavando, eu conto", suspirou Mack.

Mal consegui manter a pegada na pá até ele voltar, o rosto pálido mesmo com o suor escorrendo pela testa.

"O que foi?" perguntei.

"Duzentos e noventa e nove."

"Bom, você perdeu um", resmungou Cobb.

Mack estreitou os olhos com força suficiente para calar até o West.

"Só – vou contar também, pra ter certeza", intervim.

Eles balançaram a cabeça, e eu comecei a andar. Cada passo se perdia no vazio ao meu redor. Estranho como o som fazia isso às vezes. Normalmente, os campos eram barulhentos. Vida em todo lugar, insetos zumbindo e o sussurro da brisa na grama, mas ali era tão silencioso que o ranger da terra sob minhas botas gastas parecia ter medo de quebrar o silêncio. Tínhamos tocado o rádio chiando por dias, mas enquanto ele ficava para trás, meus ouvidos zumbiam com o silêncio.

Eles estavam certos. Bem, quase certos. Contei novamente enquanto voltava.

"Tá certo, Sr. Diploma Universitário – qual é?" Cobb enxugou o suor da testa.

Revirei os olhos. Como se aquele pedaço de papel tivesse valido alguma porra. "Ambos erraram. Duzentos e noventa e oito."

West soltou um longo assobio. "Talvez vocês devessem ter me mandado, hein?"

"Não importa porra nenhuma", sibilou Mack. "Os números de ninguém fazem sentido."

Nenhum de nós sabia o que fazer além de continuar cavando. Então continuamos, desta vez com Mack marcando no caderninho dele cada vez que colocávamos um poste. Quando o velho finalmente voltou, perguntamos quantos postes ele tinha trazido.

Ele ficou em silêncio por tempo demais antes de responder. "Preciso de mais creosoto, acho."

O jeito que ele disse carregava o tipo de resolução que fazia você saber que nada mais seria dito sobre o assunto, então mantivemos a boca fechada e fomos embora enquanto o sol ainda queimava lá em cima.

No sexto dia, os postes estavam tão encharcados de creosoto que estavam pretos. Separá-los sob o sol escaldante já era um feito por si só.

"Cuidado agora, meninos, ouviram?" o velho disse antes de ir embora, as palavras soando como uma ameaça.

Não voltamos para contar o que ainda estava de pé. Tínhamos pensado, mas nenhum de nós queria realmente a resposta. Em vez disso, cavávamos, colocávamos e enxugávamos o suor até que nossos rostos estivessem riscados de terra e nossos olhos ardendo.

Então a terra mudou.

Foi sutil. Eu já tinha visto terra vermelha no sul antes, mas não daquele jeito. Começou como um tom de ferrugem. Apenas diferente o bastante para eu ter que apertar os olhos nas partes mais fundas do buraco. Eu nem sabia por que tinha registrado aquilo. A terra mudava de cor. Os solos variavam. Não era como se a terra fosse apenas um depósito homogêneo. Mas aquilo parecia errado.

E cada buraco ficava pior.

A cor enferrujada ficava mais intensa e aparecia mais perto da superfície.

Arranquei uma luva e peguei um punhado. Parecia normal o suficiente, esfarelando facilmente em pó. Mas aquele cheiro... Levei um momento para identificar. Cobre e ferro, como moedas velhas.

"A terra tá estranha", eu disse aos outros.

"O porra do Slate ia querer brincar na terra", riu West.

"Tô falando sério. Olha! Tem cheiro estranho também."

"Você tem cheirado muito creosoto", grunhiu Cobb.

"Ah é? Cadê a esquina?" argumentei. "Já deveríamos ter chegado nela."

"Provavelmente onde quer que os postes tenham ido. Foda-se, a gente é pago por dia mesmo", Mack tentou disfarçar, mas a voz estava tensa.

West deu de ombros. "É, é estranho, mas cava fácil."

Isso não era conforto nenhum. O metal deslizava pelo solo como se estivesse sendo puxado para dentro. Talvez eu estivesse imaginando coisas, mas eu teria jurado que meu cavador de buracos estava começando a corroer.

Mas caramba, estávamos finalmente começando a progredir. Os postes se encaixavam perfeitamente num ritmo fácil. Cavar, passar a perfuratriz, socar, colocar o poste, nivelar, preencher, compactar e firmar. O sol implacável oprimia, deixando minha visão branca e transformando a distância numa mancha trêmula.

Fiquei tão absorto nos movimentos que escorreguei, cortando-me no metal da perfuratriz quando ela emperrou.

"Merda!" sibiei, arrancando a luva e apertando a mão em volta do corte no pulso.

Meus olhos caíram no chão, não no ferimento, e quase não percebi o que estava errado. Essa era a coisa sobre coisas que eram normais quando não deveriam ser – você nem sempre notava mais do que aquela sensação de estranheza. Talvez tivesse sido melhor se eu nunca tivesse notado que o sangue que jorrou da minha mão tinha sumido. Fascinado, soltei o aperto e virei o pulso, observando-o desaparecer na poeira.

"Caramba, Slate. Se machucou bonito", comentou West.

Ignorando a dor, puxei as bordas do ferimento para que mais sangue caísse na terra. Sem respingos. Sem mancha escura. O vermelho vivo simplesmente desbotava, a terra parecendo de alguma forma mais rica, mais viva, pelo sabor. Minha boca secou. Sede. Desesperado por aquele líquido rico e pesado. Mais, eu precisava de mais.

"West, cala a boca e pega o kit de primeiros socorros", ordenou Mack.

"Não tenho", arrastou Cobb.

"Por que caralhos não?" rosnou Mack enquanto jogava a pá no chão e vinha até mim.

Cobb agitou as mãos em volta, apontando a falta de qualquer recurso real.

"E a caminhonete? Encontra alguma coisa, porra", ele disparou enquanto eu continuava cutucando o corte até que o sangue escorresse entre meus dedos.

Mack agarrou minha mão, me parando.

"Garoto, que porra você tá fazendo?" ele rosnou.

Eu pisquei, a dor chegando. Ela tinha estado lá, mas tão distante. Como se não fosse minha, como se eu não passasse de uma testemunha. Mack resmungou comigo antes de arrancar o pano do rosto e pressioná-lo contra o ferimento. Um pensamento ocioso passou de que era um desperdício quando a terra pedia tão gentilmente.

West encontrou um maço de toalhas de papel de limpeza duvidosa que Mack amontoou e prendeu com fita adesiva até que a pressão ficasse desconfortável.

"É fundo, caralho. Devia ver um médico", ele me disse.

Grunhi, sem intenção alguma de fazer isso. Não é como se fazer bicos para fazendeiros locais viesse com benefícios de seguro, ou mesmo uma renda estável. Quando chegasse em casa, jogaria um pouco de água oxigenada e pronto.

"Ele levou o sangue", eu disse baixinho.

As sobrancelhas de Mack se franziram enquanto eu acenava com a cabeça em direção à terra aos meus pés. Terra que estava seca como osso, nem uma mancha à vista. Seus olhos se arregalaram.

"Não se preocupe com isso. Talvez não tenha sido tão ruim quanto pensamos, e o chão é muito seco. Absorve rápido."

Era uma mentira e nós dois sabíamos, mas queríamos que fosse verdade, então era.

Continuar o trabalho foi estranho com o curativo, mas continuei, bem a tempo de o velho aparecer. O tempo parecia errado. O jeito que as sombras caíam me fez jurar que era meio-dia, mas num piscar de olhos tinham o tom do fim da tarde.

Mack se colocou entre nós e o velho. "O Slate aqui se machucou, deve estar bem amanhã, mas o ritmo diminuiu."

"Ele sangrou?" o velho perguntou.

"Ah, sim. Um pouco. Está sob controle." Mack coçou a nuca.

O velho simplesmente olhou para a linha de postes e para o progresso das bandeirinhas que ainda faltavam, todas murchas no ar abafado.

"Ainda não chegou na esquina, hein?" ele perguntou, uma sobrancelha grossa erguida.

"Não, senhor, receio que não." Mack baixou a cabeça.

"Preciso de mais creosoto então, suponho", ele grunhiu.

E pronto.

Mais um dia chegou. Cheguei cedo, mexendo nos curativos. Mack chegou ao ponto de encontro logo depois, olhou para meu trabalho de merda, suspirou e puxou um kit de primeiros socorros barato da mochila.

"Vem cá." Ele me chamou com a mão.

Eu teria discutido, mas sabia que não tinha apertado o bastante e que cairia até meio da manhã. A última coisa que precisava era uma infecção. Ele não disse nada enquanto trabalhava.

"Obrigado", murmurei quando ele terminou.

Ele me encarou.

"O quê? Vai me dizer que quer que eu desista de novo?" zombei.

"Garoto, você é bom demais pra essa merda. Sai enquanto pode. Você não precisa ficar preso igual ao resto de nós."

Aquilo me pegou de surpresa. "E fazer o quê? Arranjar um emprego de merda num escritório com salário de merda onde eu só fico olhando pra porra de uma tela? Pelo menos assim eu sou livre."

"Um dia você vai acordar e perceber que não tem liberdade nenhuma aqui. Queria mais do que tudo que alguém tivesse me dito antes de ser tarde demais."

Nada mais foi dito, só entramos na caminhonete com os outros e fomos embora. Fiquei olhando pela janela enquanto o caminhão sacudia nos buracos, campos esparsos se misturando até que tudo parecia igual. Eu tinha tentado a vida que ele falou. Tentei encontrar um bom emprego. Era uma merda em todos os sentidos, mas pelo menos aqui eu ia onde queria e fazia o que queria. E daí se meu corpo doía toda noite? Quem se importava se eu tinha que me virar para sobreviver? Alguns dias eram piores que outros, mas não era como se o que eu quisesse estivesse ao meu alcance de qualquer forma. Isso era o mais perto que eu jamais chegaria de ter uma fazenda.

Chegamos ao local, e eu teria jurado que tínhamos voltado. Tudo parecia igual, porém, e postes de creosoto não somem do nada.

Os que estavam no reboque naquele dia eram pretos como breu e exsudavam sob o sol. Uma névoa química acre emanava deles. Talvez fosse só a lombra dolorosa que estavam nos dando e não havia nada de errado, pensei, até o velho jogar um saco de sal aos nossos pés.

"Espalhem isso antes de começar hoje", tossiu o velho.

"Você não quer criar gado aqui? Vai matar a grama", perguntou Mack.

As sobrancelhas do velho se ergueram. "Nunca disse nada sobre criar gado."

"É uma cerca de gado que estamos construindo", argumentou Cobb.

"Vai fazer o trabalho que precisa fazer, se vocês ever construírem", foi tudo o que o homem disse antes de nos deixar novamente.

West olhou para o saco. "Não sou eu."

"O Slate faz. Você ouviu. Abre, espalha ao longo da linha", ordenou Mack.

"Por que eu?" respondi.

"Só porra, faz", suspirou.

Resmungando, fiz o que me mandaram, espalhando os grânulos grosseiros até que brilhassem na poeira.

Quando finalmente chegamos à esquina, todos soltamos um suspiro de alívio que era mais um gole de ar quente. As esquinas já tinham sido marcadas, e me perguntei por que aquela equipe não tinha feito tudo. Desta vez, quando o velho veio, a esquina estava bem atrás de nós e nossas luvas eram uma bagunça pegajosa do creosoto grosso que cobria os postes.

As coisas começaram a andar como deviam. Terminaríamos esse serviço rápido, passaríamos para o próximo, e eu faria o possível para nunca pensar naquela porra de campo novamente. Foram alguns dias fáceis o suficiente antes que aquele lado tomasse um rumo ruim. O velho não tinha trazido mais sal e eu não estava reclamando. Afinal, de que adiantava sal para colocar postes?

Distraidamente, porém, eu me perguntava sobre as bandeirinhas. Elas não desapareciam como a contagem de postes que Mack continuava franzindo a testa ao olhar no caderno. Quando ele me pegou encarando-as, balançou a cabeça, como se isso fosse me impedir de pensar. Talvez tivesse funcionado se a terra não tivesse mudado de novo.

Desta vez foi menos sutil. Um pó fino e branco no fundo dos buracos. No começo a mistura era só terra mais clara, mas ficou mais brilhante e os grânulos mais grossos. Eles eram estranhos, esfarelando facilmente, mas a forma... era como se estivessem formando algo. Cada vez mais espesso, mais granuloso, o som de nossas ferramentas pressionando aquele material estranho rangia até meus dentes doerem com o barulho seco.

Croc. Croc. Croc.

Aquilo rastejava sob minha pele enquanto avançávamos. Quando minha pá começou a prender, me abaixei para pegar um punhado. Rolando entre minhas mãos, meu polegar prendeu numa forma familiar.

Vértebra.

Quebrada, pequena, mas inconfundível. Depois, ao lado, um crânio pequeno. O de um pássaro. Olhos ocos, bico. Ao lado, um fêmur minúsculo e pequenos espinhos de costelas, alguns dentes pequenos. A maioria quebrada, lascada. Alguns esmagados.

Mas era tudo osso.

Joguei o punhado para longe e Mack parou o que estava fazendo.

"Você está bem?" perguntou.

"É osso."

"Que porra você tá falando?" perguntou West.

Apontei para as listras branqueadas na terra. "A cor. É de osso."

Mack apertou os olhos antes de pegar um punhado e mostrar aos outros.

"Deve ser um campo de caça ou algo assim", murmurou West.

"Pra quê? Isso é fodido, cara", argumentou Cobb.

"Terra velha como essa? Pode ser qualquer coisa. Esse lugar já foi um oceano, milhões de anos atrás. Pode ser de um animal, pode ser só sobras do que era antes. Terra assim fica no meio do caminho. Não tem motivo pra se preocupar", racionalizou Mack.

"Claro, Mack. Explica com ciência", riu West. "Não importa de qualquer forma. A gente recebe o mesmo, terra ou osso. Contanto que não seja humano, quem liga?"

"Se for humano, não falo porra nenhuma. Olho pro lado, termino o serviço e vou pra puta que pariu", bufonou Cobb.

"Nenhum disso vai ser humano", cortou Mack. "Pode ser algo aqui, tipo um alcaide."

"Que porra é um alcaide?" perguntou Cobb.

"Pássaro. Eles pegam animais pequenos e os empalam em galhos e tal. Guarda pra depois e marca território."

"Vivos?" West perguntou com horror.

"Às vezes", ele deu de ombros.

Meu estômago se contraiu. Território de alcaide? Oceanos antigos? A terra aqui era sangue e osso, e estávamos cravando postes de creosoto nela.

"Isso não está certo", minha voz soou distante.

"Olha, a gente só continua cavando. Mais alguns dias e a gente passa pro próximo. Terra velha guarda coisas, só isso."

Engoli em seco e peguei minha pá. Essa era a única saída. Não importava se eu odiava, não importava nem se estava me matando. Perder um emprego assim não era opção. O aluguel não seria pago, eu ficaria devendo de novo, e uma vez que você escorregava, se levantar significava que você sempre estaria um passo atrás.

"Caramba, eles são maiores aqui", gritou West, abaixando-se para pegar um crânio do tamanho de uma mão que ele ficou jogando entre as mãos.

"Acho que a gente pode esmagar eles com a perfuratriz."

O pensamento do estalo de ferramentas atravessando os ossos frágeis me deixou tonto. Cada novo buraco era pior que o anterior. Mais espesso, maior, mais deles. Custava tudo o que tínhamos para quebrá-los. Até pedras eram melhores do que o horrível arranhar que vinha com cada pá de terra.

"Porra. Isso", grunhiu West enquanto começava a espetar um buraco difícil.

Mack olhou para cima do poste que estava colocando. "Calma com isso."

"Serviço de merda do caralho", murmurou, colocando todo o peso em cada golpe.

"Cara, pode usar a perfuratriz", ofereceu Cobb.

"Porra nenhuma, esse aqui só tá sendo difícil", reclamou um momento antes de levantar a pá alto demais e...

Ela desceu com força no pé dele.

Os detalhes desaceleraram, capturados no olhar ardente do sol. Seu rosto lentamente se contorcendo num grito de dor horrorizado. O gotejamento pegajoso do creosoto, turvando com poeira e osso. O ranger seco de uma brisa que cintilava no calor do horizonte, mesmo que as bandeirinhas não tremulassem sequer com o sopro dela.

Então o inferno se soltou.

Mack largou o poste que estava trabalhando dentro de um buraco e correu para o lado de West. Cobb gritou para eu pegar gelo, e West caiu para trás contra a terra enquanto tiravam sua bota. Corri para o nosso isopor para descobrir que a maior parte tinha ido embora, mas peguei o que pude da água suja.

"Slate, eu juro por Deus se você trouxer isso aqui nas suas mãos. Pega um copo, porra!" Mack gritou comigo.

Merda. Peguei minha garrafa térmica vazia de café. Eles já estavam tirando a bota dele, a ponta de couro cortada até a sola. Ela ficou bamba enquanto a removiam, despejando a ponta cortada da meia. Quando atingiu o chão, seus dedos rolaram para fora. O sangue jorrou enquanto tentavam envolver o pé liberto, mas pelo menos não encharcou a terra.

"Coloca eles no gelo", exigiu Mack, acenando para os dedos.

Eles pareciam surreais, com o leito ungueal e os pelos ainda intactos. Estiquei a mão para pegá-los, chocado com o quão macios pareciam, quase amassando na minha pegada enquanto os colocava na garrafa térmica. West estava gemendo, mas eles tinham feito o que podiam e ele estava pronto para ir.

"Cobb, leva ele de volta. Eu fico aqui com o Slate."

Cobb ajudou-o a mancar até a caminhonete e então eles foram embora. A coisa toda levou apenas minutos. Mack e eu ficamos olhando para a nuvem de poeira ao longe.

"Você acha que vão conseguir reimplantar?" perguntei.

"Espero que sim", murmurou.

Assenti, peguei a pá, pronto para voltar ao trabalho.

"Slate?" Mack me parou com incerteza atrás do meu nome.

"Sim?"

"Tem porra de cuidado."

"Sei o que tô fazendo", cuspi, já cavando.

"Se você soubesse de alguma coisa, não estaria aqui", murmurou com desdém.

"Talvez o mesmo possa ser dito de você", eu disse, olhando-o bem nos olhos.

"Com certeza poderia. Viver dia após dia nunca traz o amanhã. Só um monte de ontens que todos parecem iguais."

Eu não queria pensar nisso. Não queria aceitar que os últimos anos tinham sido uma névoa só. Um se misturava no outro, avançando mas sem chegar a lugar nenhum. Trabalhar duro não trazia nada novo, apenas o próximo dia – mas se ele achava que era diferente num escritório, estava redondamente enganado. Aqui pelo menos a gente não fingia que trabalhar só um pouco mais, um pouco mais, poderia nos levar a algum lugar.

Não falamos até o velho chegar de novo. Mack explicou o que tinha acontecido. Ele não pareceu surpreso nem reagiu.

"Vou trazer a sálvia amanhã", ele disse como se fosse um fato consumado.

Não questionamos aquilo, mesmo que ambos quiséssemos. No dia seguinte Cobb apareceu sem West.

"Conseguiram colocar de volta no pé dele?" perguntou Mack.

Cobb enxugou a testa. "Não. Não conseguiram."

"Esperava que o gelo tivesse mantido eles frescos", franziu Mack.

"Não foi isso. Os ossos tinham sumido."

"O quê?" perguntei, com o coração disparado.

"Sei lá. Acho que caíram. Tudo o que tinham era um tubo de carne de dedo e eu acho que isso não serve pra reimplantar."

Meu estômago embrulhou com a lembrança do amassado macio da carne dos dedos dele, todo mole e sem estrutura. Eu deveria ter olhado melhor.

Nenhum de nós se sentiu com vontade de conversar depois disso, e logo o velho chegou para nos carregar em sua caminhonete suja. De volta ao local, nos entregou maços de sálvia amarrados com barbante e alguns isqueiros.

"Defumem cada poste. Apontem pra baixo e queimem, só até o cheiro da fumaça ficar bem forte. Andar em círculo ao redor de onde vocês querem cavar ajuda."

Ficamos todos nos encarando, sentindo que estávamos enlouquecendo, mas estávamos acostumados a seguir ordens e rapidamente entramos num ritmo. Eu queimava e andava ao redor do local, a gente cavava, colocava e repetia. A fumaça ficava baixa, quase se assentando no chão como uma neblina. Mack disse que era só porque não tinha vento. Não explicava os arbustos balançando ao longe, ou as nuvens correndo lá em cima, deixando um mapa de sombras movediças pelo chão, mas também nunca sentíamos o sussurro de uma brisa em nossa pele escorregadia de suor.

O osso não desapareceu, mas deixou de ser um obstáculo. Quebrava facilmente em pó fino até que simplesmente era assim, e chegamos à próxima esquina antes de o velho chegar. No fim, o cheiro de sálvia estava tão pesado na minha garganta que meus pulmões sufocavam nele.

West nunca se juntou a nós novamente. Tudo o que soubemos foi que houve complicações. Felizmente, ainda estávamos progredindo bem. Não ótimo, ainda parecendo perder dias de trabalho apesar de sempre avançar, mas o terceiro lado quase parecia normal. Nem precisamos de sal ou sálvia.

Até o terceiro dia, quando minha pele começou a se arrepiar.

No começo pensei que fossem insetos, mas não importa o quanto eu batesse ou cutucasse, a sensação se recusava a passar. Eu estava pronto para arrancar meu próprio couro cabeludo se conseguisse fazer aquela coceira parar.

"Você tá usando alguma coisa?" Cobb me perguntou.

"Porra nenhuma. Acho que pisei num formigueiro ou algo assim."

"Tô vendo nenhum", ele deu de ombros.

Suspirei e tentei ignorar, porque ele estava certo. Não havia nada ali. Na verdade, eu não tinha visto nada vivo em toda a extensão das cercas, insetos ou outros. Nem mesmo o círculo preguiçoso de urubus. Em vez de ficar remoendo, me esforcei mais até que minha pá fez um som escorregadio.

Surpreso, virei a ponta.

Algo molhado e fino enrolado como uma película. Arrastei sobre algumas pedras espalhadas até que se soltou numa bola de massa cinzenta. Confuso, verifiquei o buraco, mas nada parecia fora do lugar. Decidindo que devia ser só uma anomalia, continuei.

Até que o fenômeno se repetiu. Desta vez o material formou uma tenda quando puxei minha pá até que um som rasgado e escorregadio o fez se desfazer. Cutuquei as laterais do buraco até conseguir juntar o suficiente para mostrar aos outros.

"Que porra é essa?" Mack me perguntou.

"Eu não sei. Vocês estão vendo isso nos buracos de vocês?" perguntei, cutucando o material carnudo até que ele ficou translúcido à luz do sol.

Eles olharam para onde estavam trabalhando e balançaram a cabeça.

"Pode ser uma lona velha", ofereceu Mack.

Não era, mas não importava muito, então joguei fora e continuei. Mack parou e eu sabia que ele estava vendo o mesmo, com Cobb rapidamente seguindo o exemplo. Silenciosamente, cortamos a camada elástica, arrancando-a em bolhas que pareciam chiar no calor até endurecerem. Minha pele ainda coçava, praticamente se contorcendo a cada golpe. A cor era nauseante, acinzentada com tons rosados e uma textura veiuda que quase parecia viva. Mais adiante, ficava mais grossa e irregular, como gordura grudada na barriga de um animal aberto.

Os outros também começaram a se bater e se coçar, embora não disséssemos nada. Parecia que não deveríamos falar aquilo em voz alta, como se o próprio reconhecimento envolvesse aquele pergaminho em volta de nossas gargantas e nos sufocasse até que também endurecêssemos ao sol.

Cobb começou a xingar, incapaz de atravessar uma placa grossa. Num acesso de raiva, arrancou as luvas enegrecidas de creosoto e abriu o canivete. Gritamos um aviso enquanto ele começava a cortar de onde estava ajoelhado no buraco, mas antes que pudéssemos alcançá-lo, ele se levantou triunfante com uma folha daquilo em suas mãos.

Mack soltou um suspiro de alívio curto quando Cobb a sacudiu, o material gorduroso pingando uma gosma gelatinosa no chão. Seus olhos quase pareciam vidrados, a mão apertada com força no canivete antes de levantá-lo, largar o retalho, rasgar a manga e fazer um corte profundo sob sua própria pele.

Corremos em sua direção, gritando, mas estávamos impotentes para impedi-lo de esculpir tiras de carne de seu braço. Elas se enrolaram no chão em montes sangrentos, quase parecendo se contorcer contra a terra. Mack o derrubou no chão e arrancou a faca.

"Que porra você está fazendo?" gritou com ele.

Quebrado o feitiço, Cobb começou a gritar e agarrar o antebraço arruinado. Corri até a mochila de Mack e puxei o kit de primeiros socorros, entregando-lhe rolos de gaze que ele usou para mumificar o braço de Cobb.

"Eu não – eu não sei o que aconteceu", gaguejou Cobb, os dentes batendo.

"Puta que pariu", Mack enxugou o suor da testa, o cabelo grudando em sua testa. "Vamos te colocar na sombra."

Mack o levou até a pilha de postes de creosoto, ajudando Cobb a sentar no breve pedaço de sombra que não trazia alívio real. Ele se encostou nos postes até que eles grudaram nele, e eu sabia que isso encharcaria sua camisa até sua pele ficar inflamada. Entregamos água a ele e nos afastamos.

"Que porra está acontecendo aqui?" perguntei a Mack, olhando-o bem nos olhos porque não podíamos continuar fingindo que aquilo estava bem.

Seu olhar era cortante enquanto olhava para o horizonte aberto ao nosso redor. "Não sei. Essa terra ficou sem dono por muito tempo. Lugares como esse... ficam intocados por um motivo."

Não progredimos muito antes de o velho chegar novamente. Cobb não tinha se mexido. Cometi o erro de olhar para onde a pele dele estava. Sob o calor do sol, tinha se assado na terra, enrugando como cicatrizes brilhantes de queimadura.

Desta vez, quando Mack informou o velho, seu rosto se imobilizou.

"Tudo bem. Tenho algo que pode resolver."

A tensão era palpável entre nós, porque não dava mais para fingir que algo muito errado não estava acontecendo naquela terra.

Parte de mim não sabia por que voltei no dia seguinte. Nesse ponto, eu estava de boa em perder o dinheiro. Eu podia sobreviver ficando devendo de novo. Se tivesse que dormir na rua, que seja. Sempre preferi deitar sob as estrelas de qualquer forma. Era quase uma compulsão ir ao ponto de encontro.

Mack já estava esperando.

"Devíamos largar esse serviço", eu disse a ele.

Ele me olhou com dureza. "Então por que você veio?"

"Por que você veio?" respondi de volta.

"Sempre termino o que começo. Não posso arriscar perder reputação, eu não sou mais o que fui, garoto. O boca a boca pode me arruinar."

"Então você iria sozinho?"

"Não seria a primeira vez", ele disse, já que nenhum de nós estava reconhecendo a ausência de West e Cobb.

"Você não consegue terminar esse sozinho", afirmei.

Talvez ele concordou pela primeira vez, porque não discutiu.

Desta vez o velho nos entregou giz.

"O que fazemos com isso?" perguntei.

"Desenhem um círculo ao redor de cada buraco de poste", ele disse simplesmente antes de ir embora.

Mack suspirou, mas juntou o saco para começar. Hesitei, querendo questionar, mas ele balançou a cabeça de um jeito que me disse que era melhor eu ficar calado.

Como antes, a solução do velho funcionou. As películas se quebravam tão facilmente que podíamos quase ignorar o som suave e escorregadio enquanto as cortávamos, e ficamos muito bons em despejar giz em círculos. Se você olhasse para trás ao longo da linha, veria uma efígie de postes pretos gotejantes contrastando fortemente com os anéis brancos nítidos sob um céu azul brilhante.

Chegamos à próxima esquina. Mack e eu compartilhamos um momento silencioso, ambos nos perguntando que inferno nos esperava no último lado. Meu corpo doía, minha pele estava queimada e meus nervos em frangalhos. Mack não ia desistir, porém, e eu não o deixaria enfrentar aquele inferno sozinho.

O velho nunca falava no caminho de volta, mas naquele dia falou.

"Ninguém chegou tão longe antes", grunhiu.

"Terra difícil", disse Mack, com os olhos duros.

"Avisei. Faz muito tempo que essa propriedade está sendo reivindicada."

Abri a boca para falar, mas Mack me deu um olhar cortante. O velho olhou no retrovisor.

"Tem algo a dizer, garoto?"

Mack se tensou. "Ele não tem."

"Bom", ele disse, embora os olhos permanecessem fixos no espelho. "Tenho encharcado esses postes por muito tempo. Devem fazer o trabalho."

"E as bandeirinhas?" perguntei, para o desagrado de Mack.

O velho pareceu um pouco surpreso. "O que tem elas? Facilitei pra vocês, não?"

"Você disse que metal não pega", repeti suas palavras, e nossas ferramentas se embotando e enferrujando tinham provado esse ponto mais do que o bastante.

"Prata. Custou uma bela grana, mas vai valer cada centavo, pode marcar minhas palavras."

"Aquela porra de terra estéril?" ergui uma sobrancelha.

Ele sorriu. Devia ter sido inofensivo, mas com seus dentes amarelados fez os pelos da minha nuca se arrepiarem.

"Terra é poder, garoto. E terra como aquela..." ele soltou uma risada baixa. "Não tem preço nas mãos certas. Domine-a até a submissão e há um coração de riquezas sob aquele solo."

Um arrepio apertou minha pele, pressentindo que não passávamos de baixas contra os caprichos daqueles que seguravam o talão de cheques.

Na manhã seguinte, no ponto de encontro, Mack me encarou por tanto tempo que eu sabia, simplesmente sabia, que ele estava prestes a me destruir.

"West não resistiu."

"Por causa dos dedos?" perguntei em choque.

"Gangrena. Espalhou rápido. Não tinha nada que pudessem fazer."

"Por que não disse nada?" disparei.

"Eu precisava ter certeza", ele disse lentamente.

"De quê?"

"Que não há outra saída."

"Vai logo ao ponto."

"Cobb também se foi. Infecção foi para o sangue. Teve uma convulsão e simplesmente..." ele balançou a cabeça.

Meus olhos se arregalaram em choque, mas ele continuou antes que eu pudesse dizer mais.

"Você sangrou, Slate. Naquele primeiro lado. A terra provou. Ela não vai te soltar."

"Desde quando você é supersticioso?"

"Estou por essas bandas há muito tempo. Ouvi as histórias das pessoas que estavam aqui muito antes do resto de nós. Há uma razão pela qual metade da equipe não apareceu. Eu dei tudo o que tenho para trabalhar essa terra por anos, não tenho mais nada para dar. Ela já é parte de mim agora. Ela ainda não te pegou, e não vai pegar. A gente termina esse serviço, e você vai se virar e nunca mais olhar para trás."

Meu queixo se moveu. "Parece que você só tá tentando me assustar, porra."

"Como está seu braço?"

Eu não queria responder – e especialmente não queria contar a ele como não estava sarando, ou como quando eu tentava limpar, a terra se acumulava e escorria do corte irregular. Terra vermelha enferrujada, nunca sangue, e os hematomas continuavam subindo pelo meu braço.

Meu silêncio foi toda a confirmação que ele precisava. "Só aguenta. Vou te dar meu pagamento do serviço também se você jurar porra que vai embora depois disso."

"Por que você se importa com o que eu faço? Você nunca se importou..." Não consegui dizer os nomes deles.

Ele olhou para a estrada, onde o velho estava prestes a chegar a qualquer segundo. "Tudo o que você vai fazer aqui é olhar para a vida que quer e nunca a ter. Aproveite a chance. É melhor do que só estar perto dela."

O velho chegou, e nosso dia se repetiu, com duas mãos a menos e o dobro do trabalho, porque desta vez estávamos com prazo apertado.

"Vocês vão querer terminar esse rápido. Melhor fazer hoje, se puderem", ele nos disse.

"Isso é impossível. Levamos dias em cada um dos outros", reclamei, sem dizer que o progresso era devorado, como se passássemos a maior parte do tempo correndo no lugar.

Ele bufou e puxou dois cristais do bolso. "Turmalina negra. Mantenham com vocês."

Parecia intencionalmente cruel que ele nunca tivesse começado os outros lados com seus truques.

"Fechem isso hoje e dobro o pagamento de vocês pelo serviço inteiro", acrescentou.

Enfiamos os cristais nos bolsos e fomos trabalhar. Mack e eu trabalhávamos bem juntos, sem parar para descansar ou mesmo almoçar. Nem olhávamos para trás, não ousávamos. O sol nos pressionava, e seguíamos em frente.

Então, o céu escureceu.

Pensei que uma tempestade estivesse vindo, mas não havia uma nuvem à vista. Só uma névoa, como se a poeira tivesse se levantado para obscurecer o sol, apesar de ainda não sentirmos nem um sopro de vento. Um tom esverdeado transformou os amarelos e marrons brilhantes da paisagem numa exibição doentia de um hematoma velho. Náusea subiu pela minha garganta.

"Não pare", Mack avisou bem antes de minha pá atingir algo macio.

Houve um squelch molhado e a terra tremeu. O próximo golpe a espremeu para cima até que bolhas se formassem. Minha pá deslizou vísceras para fora na terra. Bobinas e laços se derramaram em montes fumegantes de tripas que se espalharam.

Mas eu não parei.

Nem quando os pedaços orgânicos sugaram meu cavador de buracos para as profundezas.

Nem quando tive que cortar as bolhas carnudas até que estourassem.

Nem quando tive que raspar as entranhas pegajosas pelas laterais dos buracos até que ficassem escorregadias e gotejantes, ou quando os postes de creosoto deslizavam para dentro, deslocando os restos até que se agarravam à madeira escura numa camada macabra.

Mais escuro ainda o céu ficou, até que pude olhar diretamente para o sol e não ver manchas.

E continuamos, eviscerando a terra e a estacando.

Cada novo poste fazia minhas próprias entranhas se revirarem umas sobre as outras como cobras. Como se elas também estivessem sendo escavadas e esmagadas. A terra cobria os restos tão espessamente que eu podia quase apertar os olhos e acreditar que eram torrões normais. Então minha bota escorregava e a fachada se quebrava.

"Mack, não consigo fazer isso." Engasguei enquanto outro monte fumegante respingava das mandíbulas do cavador de buracos.

"Não ouse porra parar", rosnou ele.

O tempo se esticou, horas passando enquanto as sombras permaneciam imóveis. A terra ficou mais viscosa enquanto preenchíamos os buracos, socando carne pegajosa que se compactava em bolas de miudezas.

Meu estômago se contorceu até a dor se tornar insuportável. Apertado. Apertado demais, a pele esticada ao limite. A pressão precisava ser liberada. Se eu pudesse só... encontrar uma pequena folga...

"Slate!" Mack gritou, me jogando no chão.

Num estado de confusão, percebi que meu canivete estava na mão e minha camisa levantada. Uma linha vermelha brilhante brotou onde eu tinha pressionado a ponta da lâmina contra minha pele.

"Estamos quase lá. Não ceda."

"Ao quê?" eu disse, minha voz a milhas de distância e minha mente zumbindo porque isso não podia ser... isso não era real. Isso era um pesadelo, e eu acordaria e eu só tinha trabalhado demais, então me seguiu até o sono. Isso não era real.

Os olhos de Mack se franziram. "Esquece. Me dá a faca e continua. Não pare."

Ordens simples, e então eu as segui. Me desligar no trabalho era fácil. Era fácil se tornar nada além do próximo movimento. Nada além do agora. Sem passado, sem futuro, só um momento e outro e outro.

O último poste foi colocado, mas aquele revirar nas minhas entranhas não tinha terminado, nem mesmo quando começamos a esticar os fios. Agarrei-o, olhando para as linhas de creosoto cruzando o horizonte, sentinelas contra um céu silencioso.

O velho chegou, observando enquanto lutávamos para terminar os fios. De alguma forma, o último poste escorregou, afundando enquanto tripas molhadas espremiam pelas laterais.

O velho saiu da caminhonete.

Nós o recolocamos, socando mais entranhas para mantê-lo firme. Eu gaguejei, ainda agarrando meu estômago.

O velho cruzou os braços, os olhos apertados com raiva.

"Quase lá, Slate", murmurou Mack, a voz tensa.

Meus olhos foram para nossas ferramentas, onde a longa lâmina de um velho facão estava. Cega, enferrujada, mas podia deslizar pelas camadas de pele e gordura para libertar minhas tripas antes que elas me estrangulassem por dentro.

O velho deu um passo mais perto.

Arranquei minha camisa e caí de joelhos. Uma pedra afiada, serviria. Só uma pequena folga. Era tudo de que eu precisava. Minha mão se espalhou sobre meu estômago, as unhas cavando, rasgando minha própria carne, minha própria pele, através de sangue e osso...

Gritos quebraram meu transe. Mack estava arrastando o velho em direção à cerca. Os punhos voaram, mas ele usou sua alavanca para pressionar o velho contra o poste de creosoto da esquina. Enquanto eu continuava a me rasgar, Mack amarrou os braços do velho bem abertos na seção transversal com cordas antes de rasgar sua camisa aberta.

"O garoto..." a voz do velho arrastou, sangue escorrendo pela têmpora. "Só deixa ele ir. Quase pronto. Só mais um pouco e ela vai estar distraída o bastante."

"Você quer terra comprada com sangue, derrame a porra do seu", cuspiu Mack.

O velho se debateu contra as cordas enquanto Mack se afastava. "Podemos reivindicar juntos!"

"Não estou disposto a pagar minha alma por isso", cuspiu Mack antes de agarrar o facão que eu estava tentando alcançar. Ele parou para olhar para mim, resolução em seus olhos. "Vai, Slate, e nunca mais olhe para trás."

Então ele se foi, parado acima do velho com o facão cerrado no punho. Ele lutou contra as cordas mesmo enquanto o arame farpado o cortava, o suficiente para arrancar a pele. Seu estômago tentou sugar, mas a pele pálida de sua barriga enorme abaulava, implorando por libertação igual à minha.

"Não olhe para trás", Mack disse novamente, mas eu nunca tinha me virado.

Nem quando ele decepou a barriga gorda do velho.

Nem quando ele a rasgou através de sua carne, usando as duas mãos enquanto o corte cego forçava seu caminho através de cada camada até que montes de tripas serpenteadas escorregaram livres, salpicadas com bolhas amareladas.

Nem quando elas se enrolaram na terra que as sorveu, as espirais o sugando tão rápido que o velho foi dilacerado entre o crucifixo de creosoto e a terra faminta. Rasgando. Sugando. Enrolando. Dilacerando.

Os gritos começaram primais, estalando as cordas vocais antes de diminuir para gemidos. Quando morreram, seu corpo estremeceu em sorvos nauseantes. Clarões brilhantes cintilavam num caleidoscópio de vermelhos, roxos, amarelos enquanto cada centímetro de vísceras era arrancado.

Mack se virou para mim, olhos assombrados enquanto o frenesi nas minhas tripas se acalmava. Ele tinha puxado as mangas até os antebraços ficarem nus.

"Vai", ele moveu os lábios antes de levantar o facão novamente, desta vez para cortar o arame farpado. Para libertar a terra.

Foi tudo o que ele pôde fazer antes de cair de joelhos. Ele substituiu o facão pelo canivete, segurando-o firme acima de suas veias. Eu me movi em sua direção, mas ele estendeu a palma enegrecida de creosoto para fora.

Isso me parou como uma parede física.

Isso, e o olhar em seus olhos. Dor e resignação – a determinação de uma última resistência.

"Vire-se, Slate", sua voz era quase suave.

Não sei por que fiz isso.

Gostaria de poder dizer que o agarrei, que entramos naquela maldita caminhonete e fomos embora juntos. Voltamos para nossas vidas, pegando serviços, compartilhando um laço forjado pela observação de horrores indizíveis. Mais do que tudo, gostaria de poder dizer isso.

Mas em vez disso, tropecei atrás de suas palavras e nunca olhei para trás.

Eu Não Sonho

Eu não sonho, e nunca sonhei. Desde que eu me lembro, o sono sempre vem e vai num piscar de olhos. Sempre que alguém me fala sobre um sonho que teve na noite anterior — louco, assustador, triste, feliz ou seja lá o que for — eu só aceno e digo que parece parecido com um que eu já tive no passado. É mais rápido e mais fácil do que contar a verdade. Na verdade, são eles que me parecem malucos, embora eu tente me lembrar de que sou eu a exceção. Francamente, todas aquelas histórias me deixam grato por não ter que lidar com sonhos eu mesmo. É uma bênção para mim, sinceramente.

Minha namorada, Mandy, e eu estamos juntos há quase cinco anos agora, neste outubro, e moramos juntos por cerca de metade desse tempo. Ela não sabia da minha "condição" até então. Ela acha fascinante, mas também um pouco preocupante às vezes, apesar de minhas afirmações de que não ir para o País das Maravilhas toda noite não tem efeito algum sobre mim. Ela, no entanto, acredita que isso não pode ser verdade.

Mandy acredita que os sonhos são apenas uma das muitas facetas da condição humana, que eles existem para inspirar ou, de outra forma, forçar nossas mentes subconscientes a ver o familiar de maneiras totalmente novas. Então, naturalmente, não ter sonhos deve ser sintoma de algo errado. Eu estaria disposto a engolir minhas palavras se houvesse prova tangível de que isso é realmente prejudicial; respostas espirituais para as coisas nunca me caíram bem — infelizmente, já que Mandy era uma pessoa mais espiritual. Mas a gente fazia funcionar. Meu foco em coisas práticas a trazia de volta à terra, e os devaneios dela me ajudavam a lembrar de olhar para cima de vez em quando e ver o mundo com admiração.

As pessoas que não me conhecem bem assumem que, por causa da minha personalidade prática e do fato de eu não sonhar, eu não devo ser uma pessoa criativa; talvez você seja só mais focado nas coisas práticas da vida?

Mas isso não é verdade. Sou pintor, e sou há, bem, desde que me lembro. Meu trabalho usual consiste em paisagens surreais, arquitetura, animais e pessoas. É engraçado — sempre que submeto meus trabalhos a críticas ou mostro aos amigos, me dizem que é muito onírico. Talvez eu apenas preencha minha cota de sonhos no mundo desperto. Eu não sei.

Mandy trouxe o assunto à tona novamente algumas semanas atrás. Ela me contou sobre como teve os sonhos mais vívidos da vida dela por várias noites depois de tomar uns cogumelos mágicos.

— Não foi aquela viagem com...

— Sim. Ele — ela disse, me cortando.

"Ele" sendo um babaca que partiu o coração dela três anos antes de nos conhecermos. Ela nunca me contou todos os detalhes, mas eu soube o suficiente para deduzir que ele era um lixo abusivo.

Ela continuou:
— Você nem precisa de uma dose grande se for a primeira vez. Tomei uma microdose porque estava com medo por causa de todas as histórias sobre viagens ruins. Eu estava pensando: se você topasse, a gente podia tentar e ver se finalmente acontece?

Depois de um vai-e-vem, eu concordei com a condição de que ela finalmente deixasse o assunto de lado se não funcionasse. E, secretamente, eu esperava que não funcionasse. Diante da possibilidade de sonhar pela primeira vez na vida, me vi com medo do que poderia ver. Será que era possível que os sonhos se "acumulassem" com o tempo, de modo que, quando você finalmente sonhasse, fosse mais vívido e intenso que o normal?

E se fosse esse o caso, como seria para alguém como eu, que nunca teve um único sonho na vida inteira?

Eu considerei seriamente desistir no momento em que disse sim, mas a Mandy estava tão animada que não consegui me forçar a dizer que tinha mudado de ideia.

— Tá bom, tá bom — eu disse. — Mas só uma microdose.

Dois dias depois, ela chegou do trabalho uma hora mais tarde que o normal, depois de visitar uma das velhas amigas que esteve lá na noite em que ela tomou cogumelos pela primeira vez (não ele). Assim que entrou, ela pegou um saquinho da bolsa de trabalho e o balançou na minha direção, sorrindo. Perguntou se eu estava pronto. Eu disse que estava pronto para sonhar.

Bati com a mão no sofá, no lugar ao meu lado, e ela rapidamente tirou os sapatos e se jogou ali. Pegou um dos cogumelinhos do saquinho, arrancou um pedaço e me entregou. Ela ficou com o resto.

— Você vai mesmo tomar tudo isso? — perguntei.

— É! Por que não? Não trabalho amanhã. Além disso, não tive a experiência completa da última vez, e eu realmente me diverti. Quero sentir como é mais.

Justo. Nós "brindamos" com os cogumelos, fizemos um "saúde" e lá foram elas goela abaixo.

No geral, a gente se divertiu pra caralho. A Mandy ficou tão eufórica que tive que acalmá-la e lembrá-la dos nossos vizinhos que odeiam barulho várias vezes, mas eles nunca vieram nos incomodar. Passamos o resto da noite vendo filmes, jogando videogame, comendo porcarias e falando sobre as coisas mais aleatórias. Foi bom. Mas eu não conseguia dizer se era por causa dos cogumelos ou se era só por estar passando tempo com ela.

Ela começou a pegar no sono sentada lá pelas 4h da manhã, então a carreguei até a cama e me deitei com ela. Sussurramos um para o outro coisas tão doces que ainda me fazem sorrir até agora. Dormimos profunda e intensamente.

Mas eu não sonhei. Levantei cedo, aliviado, mas também um pouco decepcionado, e fiz nosso café da manhã. Quando o levei para o quarto, ela já estava acordada e sentada, me esperando com um sorriso largo e sonolento no rosto.

— Entãoooo? — ela disse.

Considerei contar uma das minhas mentiras piedosas e relatar alguma grande história sobre como o eu-dos-sonhos era um cavaleiro-dos-sonhos, sobre como ele matou alguns dragões-dos-sonhos e resgatou uma princesa-dos-sonhos que, estranhamente, se parecia exatamente com ela, só que com três metros e oitenta de altura e pés de pássaro.

Mas, sabendo que não suportaria ser tão desonesto sobre algo em que ela estava tão investida, apenas balancei a cabeça e contei a verdade.

Ela franziu a testa.
— Isso realmente não faz sentido para mim, Rob. Eu acho seriamente que você deveria considerar fazer um estudo do sono. Pesquisei antes, e os sonhos acontecem durante o sono REM. Se você nunca, jamais sonhou na vida, então talvez haja algo errado no seu ciclo de sono?

— Você prometeu que ia largar o assunto se isso não funcionasse. Por que isso é tão importante para você? — eu disse, mais alto e com mais raiva do que pretendia. Mas eu já estava de saco cheio da conversa sobre sonhos.

— Me desculpa. Eu tenho medo de simplesmente deixar isso de lado caso realmente haja algo errado. Eu sei que você acha que essa coisa toda de espiritualidade é boba...

— Eu não acho boba, só não é para mim.

— É as duas coisas. Nós dois sabemos disso. E eu tenho segurança suficiente nas minhas crenças para realmente não me ofender com isso. Mas, para colocar minhas preocupações de um jeito mais realista que você possa entender, percebi ao longo dos anos que você sempre precisou de um pouco mais de sono do que a maioria das pessoas. Você pode ir dormir às nove da noite e acordar depois do meio-dia se eu deixar. Eu sei que algumas pessoas são assim, mas combinado com o fato de você não sonhar, pode significar que você não tem uma boa qualidade de sono.

— Eu acordei cedo hoje — rebati.

— Já são quatro da tarde, Rob.

— Ah — eu disse. — Acho que isso tudo faz sentido mesmo.

— Você estaria disposto a fazer um estudo do sono? Se eles não virem nada de errado, aí eu aceito que estou sendo ridícula e deixo isso de lado para sempre. Eu prometo. Por favor?

— Tá bem, querida. Vou dar uma pesquisada agora mesmo e marcar uma consulta hoje. De qualquer forma, tenho alguns dias de folga chegando, então é o momento perfeito. Eu te amo. E me desculpa por ter gritado.

— Ah, você mal levantou a voz. Eu também te amo.

Eu me movi para abraçá-la e beijá-la, percebi que ainda estava segurando nossos pratos cheios de ovos, bacon, pãezinhos americanos e molho de carne, e nós dois rimos. A tensão foi dissipada como se uma cortina tivesse sido aberta no escuro, e em pouco tempo estávamos aconchegados na cama comendo nosso café da manhã noturno e assistindo a velhos desenhos animados da infância juntos.

Alguns dias depois, fui à minha consulta. Um atendente me levou a uma sala que parecia muito mais um quarto de hotel de categoria média do que o ambiente médico estéril que eu esperava. Dormi bem.

Nos dias seguintes, voltei ao consultório para a consulta de retorno e me sentei com um profissional.

— Como o senhor está hoje, senhor?

— Bem! Estou animado para ver os resultados.

— E eu estou animado para discuti-los com o senhor. Eles foram... um pouco diferentes do que já vimos antes.

— De um jeito bom, espero?

— Ainda não temos certeza. Agora, quero tranquilizá-lo: por todos os critérios, o senhor está dormindo muito bem. Poderíamos chamá-lo de um caso clássico de dorminhoco, se é que isso existe. O senhor ficou imóvel, sua respiração estava normal e não roncou uma vez. O senhor mencionou estar preocupado com a quantidade de sono que costuma precisar, mas dez horas não é tão estranho assim, desde que o senhor consiga funcionar normalmente durante o dia. No geral, muito bom.

— Então qual era o problema?

— A atividade das suas ondas cerebrais. O tempo todo, desde que o senhor se deitou até acordar, os resultados eram indicativos de alguém que estava acordado. A atividade das ondas cerebrais durante o sono REM normalmente tende a ser lida de forma semelhante à de um cérebro acordado.

— O que isso significa para mim?

— Ainda não temos certeza agora. Normalmente, o REM é o último estágio de uma boa noite de sono. Há três estágios antes disso, e o senhor pulou todos eles. Pelos padrões da ciência do sono, o senhor está em REM neste exato momento.

Eu pude perceber que devia estar fazendo uma careta engraçada, porque a expressão do médico se suavizou, e ela pareceu prestes a me tranquilizar antes que eu falasse.

— Mas esse é o problema. Eu nunca sonhei na minha vida. Como posso estar em REM agora?

— Eu só disse que suas ondas cerebrais eram indicativas de alguém que está em REM, não que o senhor literalmente está. Isso seria ridículo. O senhor estaria sonhaaaaaaaaaaaaaando...

Meu queixo caiu, e uma onda quente de pânico sacudiu meu corpo. O corpo da médica ficou completamente imóvel, como se tivesse sido congelada no tempo, mas a voz dela continuou arrastando o último tom da palavra como uma falha de áudio. Pensei que estava tendo um derrame.

Levantei-me num pulo e saí correndo do consultório. Todos por quem passei olharam para mim como se eu tivesse enlouquecido, e talvez eu tivesse — eu não tinha outra explicação para o que acabara de acontecer.

Eu não sabia para onde estava indo, só queria sair daquela sala. Que porra foi aquela?

Corri para o estacionamento, senti uma tontura, de repente desequilibrado. Eu estava na garagem da minha casa. E meu carro não estava nela. Eu não tinha simplesmente experimentado um tempo pulado — eu tinha me movido.

Correndo pela entrada — a porta da frente, que geralmente era um saco abrir com a maçaneta quebrada, tinha sumido — e gritei pela Mandy. Ela desceu as escadas da nossa casa de um andar só e parou no meio, olhando para mim por cima do corrimão.

— Você sonhou?

— Mandy! Não sei o que está acontecendo. Estou com medo. A médica...

— Você sonhou?

— O quê?

— Você, você, você, você, você, você, você, você

Demorou muito tempo, mas agora consigo controlar isso. Ainda não tenho certeza do que "isso" é, mas não me importo mais. Estou mais feliz agora. Contanto que eu mantenha minha pegada nessa realidade, é melhor do que a coisa real.

O ex-babaca da Mandy? Ele nunca existiu, até onde esse mundo se preocupa. Tive a chance de conhecer uma Mandy que nunca passou por aquele trauma. Eu nunca soube o quanto aquilo a afetou — ela é uma pessoa completamente diferente agora. Tão diferente que ela não gostava mais muito de mim. Mas eu consertei isso também.

O tempo está lindo quando quero estar lá fora, e sombrio quando quero ficar em casa e ler um livro. E, quando não gosto daquele livro, posso melhorá-lo num estalo. Se não gosto de um autor, posso tornar os livros dele terríveis. Obviamente, eu poderia fazer com que ele não se tornasse escritor ou que nunca tivesse nascido em primeiro lugar, mas é nas pequenas mudanças impactantes que encontro mais satisfação.

Eu não sonho. Eu sou o sonho.

Diga o que você quer, e talvez eu torne isso realidade também.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Sangue na porta do meu vizinho e eu fiquei curioso demais

Queria postar isso aqui como uma forma de documentar ou registrar em diário minhas experiências com o meu vizinho. Ninguém pensa nada demais sobre ele, mas eu consigo ver através dele. Resumindo: ele é perigoso. Porém, não tenho a menor ideia do que fazer sobre isso. A polícia não vai me ajudar e a administração do prédio também não, então estou bem encurralado. Então, deixa eu começar com isso: há dois dias, eu o vi subindo com várias sacolas marrons de supermercado. Dava para perceber, só de olhar, que o fundo delas estava encharcado. Quando espiei pela pequena janela quadrada do meu nicho de cozinha, vi os braços longos e esguios do meu vizinho envolvendo as sacolas com força. O sobretudo preto dele fazia um esforço vão para bloquear os ventos gelados do inverno. Os passos dele mal rangiam enquanto ele pisava na escada descascada e caiada de branco que subia da calçada. Ele virou à esquerda no segundo andar, onde ambos morávamos, e ouvi as chaves dele tinindo suavemente na fechadura. Não ouvi a porta abrir, mas ouvi a porta fechar silenciosamente, como se a porta tivesse medo de fazer qualquer barulho perturbador. Então eu fiquei sozinho de novo. Olhei para o chão de concreto e vi um pequeno gotejamento vermelho levando até a porta da frente dele.

Sei que não é algo para ficar nervoso, mas deixa eu contar tudo o que aconteceu mais tarde naquela noite. A informação anterior é importante.

Decidi que passaria a noite jogando videogame. Meu estúdio tinha espaço de sobra para um cara jovem como eu. Ninguém mais mora comigo e não tenho dependentes, então posso basicamente fazer o que quiser. No entanto, morar e ficar sozinho significa que encaro as ansiedades de viver num bairro pobre, com moradia assistida pelo governo, totalmente sozinho. Seja os tiros ocasionais, brigas de vizinhos, uma festa que se estende demais. Essas coisas. Eu estava jogando exatamente neste computador em que estou digitando isso. Quando, de repente, ouvi algo estranho lá fora. Normalmente não ligo para nada estranho que acontece do lado de fora. Não procure confusão que confusão não vai te achar. Mas esse som realmente me pegou. Levantei da minha escrivaninha e encostei o ouvido na porta da frente. Ouvi o que parecia um rosnado. Não era como o rosnado de um cachorro, parecia que algo estava tentando rosnar para soar como outra coisa. Algo tentando ser maior e mais assustador do que realmente era. E estava perto também.

Estava bem do lado de fora da porta da frente.

Então, de repente, parou.

Esperei, com a respiração suspensa, por outra coisa, qualquer coisa. Só para ouvir algo que explicasse o que poderia estar acontecendo lá fora. E parecia que tudo estava parado lá fora. Coloquei meu moletom e meus chinelos e abri a porta rangendo. Vi um rastro fino de sangue e algum outro tipo de fluido entrelaçado ao longo do caminho do sangue, que se distorcia em uma espécie de miasma viscoso, traçando o caminho de volta até a porta da frente do meu vizinho. Olhei para o estacionamento além da escada. O viaduto atrás do nosso prédio estava em silêncio. Nenhum rugido de caminhões e nenhum farfalhar das árvores. Apenas um silêncio absoluto que o universo parecia acentuar habilmente com um céu vazio. O céu parece solitário e frio sem as estrelas para aquecê-lo.

"Olá?" — exclamei na noite silenciosa.

"Posso eu..."

"Puta merda!" — gritei quando uma voz rouca passou por uma fresta sinistra na porta do meu vizinho.

Há quanto tempo aquela porta estava entreaberta? Juro que quando saí pela primeira vez, vi que estava fechada.

"Minhas desculpas, não quis te assustar, jovem."

"Tudo bem, mas o que é esse sangue? Você não parece bem... vo-você está bem?" A porta balançou silenciosamente, mas de forma trêmula, abrindo-se um pouco mais. Acho que percebi que meu vizinho estava usando a maçaneta por dentro para apoiar o peso. Então me atingiu: um forte fedor de podre que devastou meus sentidos. Sua figura sombria se erguia até o topo da entrada e eu mal conseguia ver seu corpo, exceto pelo torso enrugado e nu. A luz fluorescente amarelada e envelhecida acima daquele pedaço de concreto não penetrava muito em sua morada sombria, mas iluminava metade de seu rosto pálido e idoso. A outra metade estava escondida atrás da porta, como uma criança se escondendo atrás da perna da mãe. A parte de sua expressão que eu conseguia ver era vazia, mas intensa. O único olho azul pequeno me encarou com dureza e me perfurou até atingir meu medo. Os cantos da boca dele se curvaram para cima.

"Posso pedir que você entre e me ajude com uma coisa?" — ele disse com uma voz de lixa, enquanto dedos longos e aranhosos com unhas afiadas e irregulares serpenteavam pela moldura da porta.

"Você está bem? Você não me ouviu? O-que é esse sangue?" Dava para perceber que minha voz começava a tremer e eu instintivamente comecei a recuar em direção à minha porta. O olhar dele se intensificou e a parte superior do lábio dele começou a tremer, revelando dentes podres e monstruosos. Bati minha porta com força. Fiquei parado, ofegando no meio da sala. Eu podia ouvir meu coração acelerado nos meus ouvidos. Não tinha ninguém para ligar. Aliás — não tenho ninguém para ligar.

Fiquei acordado a noite toda, andando de um lado para o outro, verificando as fechaduras da porta e ocasionalmente espiando pelo olho mágico. O rosto miserável dele ficou completamente imóvel na fresta da porta, encarando diretamente o olho mágico da minha porta. Ficou assim até eu verificar às 3h41. Então ele sumiu. A porta dele estava fechada e o rastro de sangue havia desaparecido. Não acreditei quando vi que o rastro tinha sumido. Quer dizer, não é como se ele pudesse ter feito desaparecer o que quer que estivesse acontecendo ali ou limpado tudo tão rápido. Eu sabia que ou tinha que fugir e ficar longe desse cara ou descobrir o que estava rolando. E ir embora, para mim, realmente não é uma opção.

No dia seguinte, liguei para a administração do prédio para fazer uma reclamação sobre esse cara.

"Parkway Management Services, aqui é a Mandy. Como posso ajudar?"

"Ah, sim. Meu vizinho, uh, ele tem agido de forma muito estranha e estava me assustando muito, e a outras pessoas também, na noite passada."

"Tudo bem, quem está falando? Em que apartamento você está?"

"Aqui é o Micah, do 353."

"Ok, e quem é o vizinho?"

"Eu não peguei, ou melhor, ainda não peguei o nome dele, mas ele mora no 354, bem ao lado."

"Certo, vamos enviar alguém da equipe de administração para falar com ele. Há mais alguma coisa com que eu possa ajudar?"

"Então é só isso? Vocês nem querem saber o que ele estava fazendo?"

"Um membro da equipe de administração vai falar com você para mais detalhes."

"Ok, obrigado, tchau." Desliguei abruptamente porque percebi, só de falar com eles, que esse problema nunca seria resolvido por meio deles. Mal têm tempo para cuidar dos pedidos de manutenção que eu fiz naquele site de merda. Ou talvez sejam só uns preguiçosos do caralho. Era hora de chamar a polícia. Eu não tinha exatamente uma emergência no momento, então disquei a linha não emergencial.

"Olá, aqui é a linha não emergencial. Como posso ajudar?"

"Sim, uh, posso pedir uma verificação de bem-estar para alguém? Acho que ele não está bem."

Depois de algumas idas e vindas e troca de informações, ela me disse que um policial viria em breve. Fiquei esperando e olhando pela janela e pelo olho mágico quase o tempo todo. Enquanto esperava e observava, notei que a janela do meu vizinho estava toda escurecida. Parecia que ele havia pintado o interior das janelas com grandes pinceladas de tinta preta. Isso era muito estranho. Então ouvi o pisar pesado das botas táticas do policial subindo a escada. O parceiro dele subiu logo em seguida. Um deles bateu na porta com mão pesada, e o outro ficou ao lado da porta, mantendo a cabeça em movimento, até que a porta se abriu depois de uma série de cerca de cinco fechaduras diferentes sendo destravadas de dentro. Com clareza abafada, ouvi essa conversa:

"Ei, boa tarde, senhor, sou o oficial Charlie, só queríamos verificar e ter certeza de que estava tudo bem aqui na sua casa. O senhor se importaria se entrássemos?" — o oficial falou com calma enquanto esticava o pescoço para cima, na direção do vizinho, com um sorriso brilhante. O vizinho, à plena luz do dia, agora estava vestido com o que parecia ser um conjunto de pijama combinando, discreto, do tipo "Melhor Avô do Mundo".

"Ah, olá, oficiais, desculpa, uh, vocês me acordaram do meu cochilo! Haha." A voz do velho estava diferente hoje. Soava gentil e lenta, como deveria soar a de um velho despretensioso. "Adoraria ter companhia, se vocês não se importarem de ser meus convidados!" Ele saiu da porta e abriu os braços para fazer a entrada dos dois policiais. Como se estivesse visitando dois velhos amigos.

Passaram-se uns 10 minutos mais ou menos, e então os policiais saíram; eles estavam sorrindo e rindo o caminho todo escada abaixo. Então o vi de novo. Os olhos dele me desprezando num ângulo de ódio, por baixo das sobrancelhas grisalhas franzidas. Ele estava parado, simplesmente na porta, me encarando pelo olho mágico de novo. Seu olhar me deu calafrios na espinha e eu imediatamente desviei o olhar. Notei algo estranho nele, porém. Ele estava ficando vermelho como um tomate por todo o corpo. O vermelho estava no rosto e nos braços. Eu não sabia se ele estava prestes a explodir de fúria ou se tinha uma alergia grave a alguma coisa, mas seja o que fosse, acho que o fez entrar. Depois que criei coragem para espiar de novo, ele tinha sumido.

Então chegamos a ontem.

Era tarde da noite quando saí do trabalho e passei na loja de ferragens para comprar uma câmera de porta barata e sem fio. O problema é que ela não grava nada a menos que você pague uma assinatura, mas posso assistir ao vivo de graça com anúncios por um aplicativo no meu celular. Então me deitei na cama, liguei a TV e fiquei observando o que meu vizinho filho da puta poderia aprontar. A noite foi ficando bem tarde. Vi na imagem vagabunda, com uns suaves 20 quadros por segundo, meu vizinho com o mesmo sobretudo preto de antes. Subindo as escadas sorrateiramente enquanto carregava duas sacolas de papel marrom. Ele parou e encarou a câmera. Imediatamente deixou as sacolas caírem no chão e vi que estavam cheias de carne sem embalagem, enquanto as sacolas gemiam em farrapos sob o peso do conteúdo ao se espatifarem no chão. Ele correu em direção à câmera e sua mão envolveu a lente, e então o aplicativo disse em letras pequenas e frágeis: "conexão perdida, verifique as configurações". Bati o pé com raiva até a porta e a arrombei, e não havia ninguém, nada. Olhei para todos os lados e não havia carne vazando sangue no chão, nenhuma câmera destruída pregada ao lado da porta e, certamente, nenhum vizinho.

"Mas que porra?"

Estava silencioso de novo, como na primeira noite. Era meio-dia e não havia som. Tudo o que eu ouvia era minha própria respiração.

"Onde você está?" — exclamei com um tremor nervoso.

Tump! Um pássaro passou voando bem perto da minha cabeça e se espatifou na janela do meu nicho de cozinha. Ele ficou caído no concreto lá embaixo, tremendo em seus estertores da morte. Tump! Outro pássaro se espatifou na janela. Dessa vez, uma rachadura manchada de sangue vermelho ficou no vidro. Girei a cabeça em todas as direções por medo. Não conseguia ver mais nenhum pássaro.

Tump! Outro atingiu a janela, aumentando a rachadura e deixando um respingo de vômito de pássaro em seu rastro. Depois do terceiro, eu entrei correndo. A janela, coberta por essa mistura vermelho-verde-amarelada, tinha fraturas coloridas se espalhando por toda a sua superfície como um mosaico gore distorcido. Finalmente me acalmei depois de uma pausa de uns quinze minutos sem nenhum suicídio de pássaros se espatifando.

Então veio como um tornado.

Tump! Tump! Tump! Smash! Uma enxurrada de pássaros invadiu a janela e a rompeu sem piedade. A torrente de aves vibrava e batia asas violentamente enquanto um enxame inteiro enchia o pequeno apartamento como uma caneca de café embaixo de uma cachoeira. Suas asas batiam na minha cabeça e suas garras arranhavam e beliscavam cada parte descoberta do meu corpo. Eu podia sentir o gosma quente de sangue escorrendo pela minha testa. Qualquer coisa não presa nas paredes ou no chão foi arremessada pelo apartamento. Comecei a gritar, mas quase não conseguia me ouvir por causa do barulho ensurdecedor das asas. Então a voz dele cortou todo o barulho como se eu estivesse usando fones de ouvido.

"Eu posso fazer isso parar se você me deixar entrarrrrrr!" — O tom rouco e envelhecido dele soava zombeteiro e exigente.

"Tá bem, só faz parar! Para! Para!"

Então tudo parou. Abri os olhos e, claro, minha casa estava destruída e feita em pedaços. As luzes estavam apagadas, mas eu ainda conseguia sentir o cheiro e ver a visão de animais mortos espalhados pelas paredes e pelo chão. Virei-me e olhei em direção à minha porta, e lá estava ele, pairando sobre mim, bem atrás de mim. Ele me agarrou com uma mão pela garganta e me içou no ar. Eu podia sentir a pressão aumentando no meu pescoço e na minha cabeça enquanto ele me estrangulava.

"Nós vamos chegar a um acordo, garoto." — Ele falou com uma autoridade nítida através de suas cordas vocais ásperas. "Você vai me trazer dois quilos e meio de carne fresca até a minha porta todos os dias, sem falta, até as seis da tarde. Você vai atender a todas as minhas exigências. Você agora é meu servo." A luz começou a escurecer nas bordas da minha visão enquanto eu tentava agarrar e arranhar a pele flácida dele.

"Por-fa- por- fa-" — Mal conseguia falar.

Ele me soltou e eu desabei numa bola no chão.

"Posso transformar sua vida num inferno na Terra. Saiba que isso é a verdade, Micah."

Ele me virou de costas e se ajoelhou ao meu lado.

"Vamos praticar, Micah. Agora, abra a boca."

"O quê-"

Enquanto eu falava, dois dedos dele entraram na minha garganta e eu senti ele agarrar minha úvula. Comecei a vomitar violentamente. Ele começou a murmurar algo que parecia latim, mas eu não conseguia distinguir por causa dos meus engasgos.

"Pronto, se você falar com alguém sobre mim, seu estômago vai te castigar por isso." — Ele limpou a mão no carpete. "E mais uma coisa-" Então ele pegou meu braço e mordeu. Um relâmpago de dor disparou pelo meu braço e por todo o meu corpo. Senti algo hediondo e maligno perfurar a fibra da minha alma quando meu sangue jorrou na boca dele. Então perdi a consciência.

Acordei agora com essa bagunça. É tarde da noite e não tenho a menor ideia do que fazer.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

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