sábado, 21 de fevereiro de 2026

Eu Sobrevivi Uma Noite nos Apalaches. Não Acabou Por Aí

Eu não era pra estar lá sozinho.

É isso que eu tenho que falar em voz alta pras pessoas depois, porque senão elas começam a preencher as lacunas sozinhas. Transformam a coisa toda numa historinha bonitinha de "garoto se encontra na natureza". Ou decidem que eu tava pedindo pra acontecer. Ou riem e falam que foi um momento à la Bruxa de Blair, como se isso ajudasse de alguma forma.

Eu tenho dezessete anos. Tenho carteira de motorista, um emprego num mercado onde passo metade do turno empilhando latas de feijão e fingindo que não ouço homens adultos brigando por raspadinha, e eu já faço trilha nessas montanhas com meu tio desde o ensino fundamental.

E mesmo assim eu não era pra estar lá sozinho.

Minha mãe tava num plantão de doze horas no hospital. Meu padrasto tava num daqueles dias de "vou ficar na garagem", o que significava que ele ia botar um podcast no último volume e ficaria puto se alguém falasse com ele. Meu tio Wayne tava fora do estado a trabalho. A única pessoa que teria me falado "não, não seja idiota" não tava por perto.

Então eu fiz o que venho fazendo o verão inteiro: empilhei minhas desculpas bonitinhas e tentei fazer elas parecerem fatos.

Eu disse pra mim mesmo que não era mata fechada de verdade. Era uma trilha que eu já tinha feito antes. Disse que ia chegar e montar acampamento antes de escurecer. Disse que spray de urso era tipo cheat code. Disse que minha faca dobrável me tornava alguém que dava conta do recado.

Eu até escrevi um bilhete no balcão da cozinha com canetão Sharpie no verso de um cupom de pizza, igual criança fugindo de casa em filme.

"Vou acampar. Volto amanhã. Te amo."

Como se "te amo" fosse um escudo à prova de tudo.

O estacionamento da trilha tava meio cheio. SUVs empoeiradas, uns Subarus cobertos de adesivos no vidro traseiro, e uma minivan com uma família descarregando como se fossem se mudar pra lá. Eu estacionei lá no canto mais longe, como se meu carro fosse uma vergonha — e era mesmo. Tinha um cara apertando os cadarços da bota na caçamba de uma picape. Ele acenou com a cabeça pra mim. Eu acenei de volta. Aquela coisinha mínima me fez sentir mais seguro do que deveria.

Uma barrinha de sinal piscava no topo do meu celular, como se estivesse me fazendo um favor. Coloquei no modo avião mesmo assim. Bateria era uma das poucas coisas que eu podia controlar. Mais ou menos.

Minha mochila tava mais pesada do que eu tinha fingido que seria. Barraca baratinha de domo, saco de dormir velho, fogareiro, lanterna de cabeça e lanterna reserva, carne seca e miojo, o cobertor de emergência prateado que o Wayne insistia que eu levasse. Tinha um filtro de água que rangia e um rolo de fita adesiva. Só isso.

Tranquei o carro duas vezes. Mania. Ansiedade. Sei lá.

O primeiro quilômetro foi moleza. Trilha larga, bem batida pelo uso. Uns degraus naturais de raiz aqui e ali. Pedras chatas como calçada natural. Passei por um casal com bastões de trekking e chapéus iguais de sol. Passei por uma família com duas crianças brigando por causa do mix de castanhas. Sons normais. Folhas tremendo numa brisa leve. Um pica-pau martelando em algum lugar como quem bate numa porta oca.

Depois de um tempo a trilha se dividiu. O loop principal continuava reto, e o atalho que eu queria pegava e subia mais forte. A placa tava desbotada pelo sol e meio torta. Embaixo dela, pregada no poste, tinha uma plaquinha enferrujada que dizia TRILHA MANUTENÇÃO EQUIPE — 1987. O Wayne tinha apontado isso da primeira vez e falado: "Essa plaquinha é mais velha que você, garoto", como se fosse piada.

Eu entrei no atalho e o mundo mudou de um jeito que não dá pra explicar sem soar dramático pra caralho.

Não foi tipo a luz apagou ou a temperatura caiu dez graus. Foi menor. Tipo quando você entra num quarto onde as pessoas tavam conversando e todo mundo cala a boca de repente.

A trilha ficou mais estreita. Samambaias lotavam as bordas e roçavam nas minhas canelas. Eu ainda ouvia vozes distantes atrás de mim por um tempo, depois elas sumiram também, e as montanhas tomaram conta.

Um pouco depois da bifurcação, tem uma pedra enorme bem do lado esquerdo da trilha, como se alguém tivesse rolado ela pra lá de propósito. É do tamanho de um carro pequeno, e tem uma veia de quartzo branco cortando ela como uma cicatriz. O Wayne usava ela como marco. "Depois que passar pela Pedra de Quartzo, é só você e a crista."

Eu passei pela Pedra de Quartzo, e foi exatamente assim que pareceu.

A subida não era horrível, mas era constante. Daquelas que te fazem perceber sua respiração e o suor esfriando nas costas. Na metade do caminho, vi a primeira coisa que apertou meu estômago.

Uma trilha de cervo cruzava o caminho, plantas dobradas numa linha estreita, terra mais escura onde cascos tinham revirado.

Só que não era só cervo.

Tinha pegadas que não faziam sentido — umas manchas meio humanas, como se alguém tivesse pressionado a lateral de um tênis na terra e arrastado. Duas delas. Muito juntas.

Eu agachei, olhei fixo, pus meu pé do lado.

Não eram minhas.

Eu disse pra mim mesmo que eram velhas, amolecidas pela chuva, talvez alguém escorregou. História boa o suficiente pro meu cérebro agarrar.

Mesmo assim, levantei mais devagar do que precisava e escutei mais forte do que tava escutando. Não por ursos. Não por cobras. Por passos.

Nada óbvio.

Só os barulhinhos normais que deviam ser reconfortantes. Naquele dia eles pareciam camuflagem.

No meio da tarde, comecei a sentir que tavam me observando.

Não de um jeito poético. De um jeito físico. Como se o espaço atrás de mim tivesse peso.

Tentei tornar engraçado pra mim mesmo.

Beleza, Evan. Parabéns. Você inventou ansiedade.

Eu até falei em voz alta. Ouvir minha própria voz ajudou — até que não ajudou mais.

Numa curva fechada, ouvi um som baixo e molhado, tipo alguém limpando a garganta de boca fechada.

Veio de morro abaixo à minha direita. Perto o suficiente pra eu travar.

Fiquei lá com a mão meio levantada pra afastar um galho e escutei tão forte que minhas orelhas doeram.

Nada.

Sem movimento depois. Sem bicho correndo. Só ausência.

Continuei porque parar parecia pior.

Um tempo depois a trilha cortou um grupo de cicutas. Tudo ficou mais escuro embaixo delas, a luz virou esverdeada e chapada. Minha lanterna de cabeça balançava no peito a cada passo.

A sensação de ser observado piorou, e eu vi algo que não encaixava.

Na altura do ombro num tronco de árvore, uns seis metros fora da trilha, a casca tinha sido raspada numa área larga. Fresca, madeira clara exposta. Seiva brilhando.

Não eram marcas de urso. Não eram sulcos verticais. Era uma mancha de lado, como se algo tivesse se encostado e esfregado.

"Provavelmente nada", murmurei.

Eu não acreditei em mim mesmo. Não totalmente.

O acampamento do Wayne ficava perto de um riacho onde o atalho desce um pouco e você ouve a água antes de ver. Tem uma marca velha de blaze numa árvore também — dois retângulos amarelos desbotados, um em cima do outro. O Wayne tinha dito: "Se vir o amarelo duplo, tá quase lá."

Quando vi o amarelo duplo, o alívio me acertou como uma onda.

O acampamento tava lá, mais ou menos. Um pedaço de chão mais plano que o resto. Algumas pedras arrumadas como se alguém tivesse começado um círculo de fogueira em algum momento. O riacho era uma fitinha clara correndo sobre pedras, fazendo aquele barulho constante de sussurro que devia ser calmante.

Larguei a mochila e fiz a checagem do perímetro como o Wayne me ensinou — olhar pra galhos mortos em cima, cocô, sinais de que alguém já tava lá.

Sem sinal óbvio de animal. Sem pegadas.

Mas na borda mais distante da clareira, as samambaias tavam dobradas numa linha, como se algo tivesse passado por ali recentemente. Um corredor estreito entrando nas árvores.

Fiquei encarando tempo suficiente pra me sentir idiota, depois montei a barraca rápido mesmo assim.

Rotina. Rotina faz você sentir que tá no controle.

Filtrei água — o filtro rangeu quando apertei, igual sempre. Fervi miojo. Comi direto da panela. Pendurei o saco de comida o melhor que consegui, não perfeito, mas alto o suficiente pra me deixar mais tranquilo. A corda queimou minhas mãos.

O anoitecer chegou e a mata virou outro lugar. Não assombrado. Só menos legível.

Escovei os dentes lá embaixo no riacho. Pasta de menta, água com areia, cuspi nas pedras.

Quando levantei, vi algo na margem oposta.

Uma pilha de pedras.

Não um marco arrumadinho. Mais como se alguém tivesse jogado pedras claras num montinho. Não tavam lá antes. Eu teria notado. Minha lanterna pegou nelas e fez parecerem claras demais.

Cheguei mais perto, e na pedra de cima tinha uma mancha. Escura. Parecia molhada. Marrom-preta.

Não toquei.

Varri a luz pela linha das árvores do outro lado e não vi nada, mas a nuca ficou dura mesmo assim.

Voltei pra barraca rápido. Não correndo. Mas rápido.

Dentro, fechei o zíper da tela e sentei no isolante com os tênis ainda nos pés, lanterna de cabeça na testa, spray de urso do lado da coxa como objeto de conforto.

Escutei.

Riacho. Insetos. Um chamado fraco de coruja.

Depois, mais fundo nas árvores, ouvi aquele som de garganta de novo.

Baixo. Molhado. Perto.

Eu disse pra mim mesmo que cervos fazem sons estranhos. Raposas gritam como gente. A natureza é creepy. Era meu cérebro ficando dramático porque eu tava sozinho.

Só que não parecia animal.

Parecia uma pessoa fingindo ser um.

Chequei o celular. 21:03.

Uma barrinha de sinal piscando.

Tentei mandar mensagem pra minha mãe mesmo assim.

"E aí. Acampamento montado. Tudo certo."

Não enviou. O ícone girando ficou lá parado.

Desliguei o celular, liguei de novo, porque ver a tela me fazia sentir menos sozinho. Desliguei a lanterna de cabeça porque não queria a barraca brilhando como lanterna.

No escuro, a barraca encolheu. A tela virou um vazio preto. O mundo lá fora existia só como som.

Aí algo quebrou um galho perto da borda da clareira.

Não graveto. Galho. Estalo seco.

Eu travei tão forte que meus ombros doeram.

Algo roçou a lateral da barraca.

Não empurrão. Arrasto, tipo dedos testando o tecido.

O nylon sussurrou. A parede afundou uns centímetros pra dentro, depois soltou.

Levantei o spray de urso. Meu polegar achou o travador.

Bem do lado de fora, algo expirou.

Não respiração normal de animal.

Uma expiração longa, controlada, tipo alguém suspirando pelo nariz.

Ar quente bateu na parede da barraca. Senti através do tecido.

Sussurrei: "Vai embora."

Silêncio.

Depois movimento se afastando — sem passos pesados, mais um arrastar sussurrante pelas folhas.

Em direção ao riacho.

Um tilintar pequeno veio depois. Depois outro.

Pedra na pedra. Deliberado. Com pausas.

Tlim… tlim… pausa… tlim.

O riacho mudou de tom como se algo tivesse entrado com cuidado. Sem splash. Controlado.

Aí ouvi minha corda de comida mexer lá em cima.

Um rangido fraco, tipo peso testando.

A corda guinchou, e o mosquetão ticou.

Um puxão leve. Outro.

Depois a corda ficou frouxa.

Um estalo menor lá em cima, seguido de um baque pesado nas folhas.

Meu saco de comida caiu no chão.

Plástico amassou. Pacotes de carne seca mexeram. Algo metálico rolou.

Aí aquele som molhado de garganta de novo — agora mais satisfeito.

Mexeu nas minhas coisas devagar, como se fosse dono. Cuidadoso. Paciente. Não frenético como urso. Não barulhento como guaxinim.

Depois parou.

Meu celular vibrou.

A tela acendeu.

Número desconhecido.

Não atendi. Não rejeitei. Fiquei olhando tocar até parar.

Lá fora, em algum lugar nas árvores, meu toque tocou — só que não era meu celular. Era uma imitação fina, errada, tipo alguém cantarolando pelos dentes. Desafinado.

O cantarolar flutuou e sumiu como se estivesse se movendo.

Meu celular vibrou de novo.

Mesmo número desconhecido.

Aí, bem do lado de fora da barraca, algo disse meu nome.

"Evan."

Baixo. Tipo alguém chamando de outro lado do quarto.

Minha garganta travou.

"Evan", disse de novo, mais perto.

Depois: "E aí, garoto."

Frase do Wayne.

Parecia o Wayne em voicemail. Meio abafado. Como se a voz tivesse que passar por algo.

E aí riu.

Tentou rir como o Wayne, mas saiu grave demais e molhado demais, tipo tosse e risada emboladas.

Passos começaram.

Passos de verdade. Pesados. Bípedes. Lentos.

Cruzaram a clareira com pausas entre os passos, como se estivesse escutando entre os movimentos.

Parou bem do lado de fora da minha barraca.

Um cheiro azedo, úmido, vazou pelo tecido — cachorro molhado e cogumelo velho e podridão de folha.

A parede da barraca afundou de novo, mais alto dessa vez, como se algo tivesse pressionado a palma contra ela.

"Evan", disse, a centímetros do meu rosto através do nylon.

Expirou, lento e quente.

Depois, na voz da minha mãe: "Filhinho?"

Aquilo acertou algo mole no meu cérebro que eu não queria mexer.

Eu fiz um som. Não palavra. Um gemidinho involuntário.

A parede da barraca pressionou de novo.

"Filhinho", disse. "Abre aí."

As palavras tavam certas. O ritmo não. Minha mãe não fala assim.

Aí começou a raspar ao longo da linha do zíper. Devagar. Como se estivesse achando o ponto fraco.

Os dentes do zíper clicaram sob pressão.

Parou.

Toc. Toc. Toc.

Nós em nylon.

"Evan", disse, e a voz mudou — mais velha, rouca, cascalho na garganta.

"Sai daí."

Sussurrei: "Me deixa em paz."

O toc toc parou.

Por um segundo, achei que isso importava.

Aí a parede da barraca desabou.

Não rasgo limpo. Empurrão de corpo inteiro. Varas quebraram. Tecido desabou em cima de mim.

Eu gritei. Feio e alto.

Atirei o spray de urso às cegas no nylon desabando, e a nuvem voltou na minha cara.

Meus olhos arderam. Minha garganta travou. Tossi tão forte que engasguei.

Lá fora, algo recuou com um chiado gorgolejante, tipo ar forçado por algo molhado e estreito.

Arranhei minha saída, meio cego, lágrimas escorrendo.

Ar frio da noite bateu na minha cara.

A clareira era um borrão de escuridão. Minha lanterna de cabeça tava dentro da barraca desabada. Minha lanterna tava na mochila.

Algo caiu atrás de mim. Pesado. Folhas explodiram sob o peso.

Arrastei pra trás, bati numa pedra, caí de bunda com força. Dor subiu pela coluna.

Uma forma alta se mexeu entre mim e as árvores. Alta demais pra pessoa. Não urso em pé também. Proporções erradas.

Brilhos úmidos pegaram a luz das estrelas — olhos como vidro molhado.

Fez aquele som de garganta de novo, agora bravo.

Minhas mãos procuraram o spray. Sumiu.

Meu cérebro gritou corre.

Eu saí correndo pra trilha.

Não peguei a mochila. Minhas chaves tavam na mochila lá no acampamento, mas a ideia de carro parecia história da vida de outra pessoa. Tudo que eu tinha era direção.

Corri morro acima porque acima significava crista, e crista significava trilha principal, e trilha principal significava outras pessoas.

Atrás de mim ele se movia com aquele arrastar sussurrante, agora rápido, controlado.

De algum lugar à frente, ouvi minha própria voz.

"Evan."

Meu nome, no meu tom, com aquela coisa nasal idiota que eu odeio em gravações.

Veio da trilha à frente.

Eu derrapei até parar, pulmões travando.

Na escuridão à frente, uma silhueta tava no caminho. Forma de pessoa. De adolescente. De mim.

Levantou um braço devagar.

"Evan", disse de novo, na minha voz, e parecia que tava sorrindo.

Meu cérebro deu um estalo numa ideia limpa:

Tá me encurralando.

Usando som pra me fazer parar. Pra me fazer virar. Pra me fazer duvidar.

Atrás de mim, folhas sussurraram. Algo encurtou distância.

Então eu saí da trilha batendo nas árvores.

Galhos chicotearam minha cara. Samambaias agarraram minhas pernas. Não liguei.

O chão caiu. Metade caí, metade deslizei por uma encosta íngreme, me segurando em mudas e raízes. Minhas palmas rasparam. Meu joelho bateu em algo duro e a dor explodiu branca.

Continuei até bater em chão mais plano e o som de água me achar.

O riacho de novo.

E reconheci o lugar por uma coisa idiota: um tronco morto com fita laranja de agrimensor presa nele, balançando. Eu tinha notado antes e pensado, aleatório.

Ver aquilo fez meu estômago despencar.

Eu não tinha só corrido. Tinha sido direcionado.

Joguei água na cara mesmo assim, tentando tirar o spray de pimenta, e bebi sem filtrar porque meu cérebro não ligava mais.

Atrás de mim: toc… toc… toc.

Não em nylon. Em madeira.

Virei e vi outra área raspada numa árvore. Madeira clara fresca exposta. Sulcos rasos nela, não palavras, só formas que queriam ser algo.

Um contorno grosseiro de pessoa. Braços compridos demais. Dois círculos pros olhos. Uma linha pra boca.

Parecia bobo. Mesmo assim me deu nojo.

Do outro lado do riacho, algo entrou na água com cuidado. O som mudou ao redor.

Aquele cheiro azedo veio de novo na minha direção.

De rio acima, naquela voz de cascalho, disse meu nome como se gostasse do gosto.

"Evan."

Corri de novo, de lado pela mata, longe do riacho, longe de qualquer coisa que parecesse rota que ele pudesse prever.

Corri até meus pulmões parecerem papel.

Tropecei e caí feio, de cara nas folhas. Dor atravessou meu joelho. O ar saiu num som quase soluço.

Fiquei lá ofegante e escutei.

Sem passos. Sem som de garganta.

Só o barulho constante, indiferente das montanhas.

Pela primeira vez naquela noite, o silêncio pareceu que podia estar me escondendo em vez de me vigiar.

Rastejei pra baixo de um tronco caído — um tronco velho apodrecido num túnel baixo que fedia a fungo. Me enfiei lá, ombros raspando casca. Tirei o cobertor de emergência do bolso e amassei ele pra não brilhar. Mesmo assim estalou alto demais. Odiei aquele som.

O tempo passou em pedaços feios.

Minha lanterna de cabeça sumiu. Minha barraca sumiu. Minha comida sumiu. Minhas chaves sumiram. Tudo que eu tinha levado pra me sentir capaz tava lá na clareira como oferenda.

E meu celular — em algum momento na encosta e na queda — sumiu também.

Aí o cantarolar errado começou de novo.

Meu toque, desafinado, tipo alguém copiando de memória.

Não vinha de alto-falante.

Vinham da mata mesma.

Segurei a respiração e contei na cabeça porque contar é algo que você pode fazer quando nada mais faz sentido.

Um… dois… três…

O cantarolar parou.

Silêncio.

Uma mão pressionou nas folhas do lado de fora do túnel de tronco.

Pele pálida, manchada, esticada demais. Dedos compridos demais. Articulações dobrando levemente errado. Unhas escuras e grossas, não garras, só unhas humanas crescidas e endurecidas.

Pressionou devagar. Folhas estalaram.

Meu corpo inteiro travou. Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza que ele ouvia.

A mão levantou, e algo se abaixou pra olhar dentro.

Uma cara pairou na borda do túnel.

Não humana. Não animal.

Caroço tipo nariz. Fenda tipo boca. Pele úmida em lugares como se nunca secasse de verdade.

Os olhos eram o pior.

Pareciam usados.

Tipo olhos de boneca de vidro colocados errado. Brilhantes. Fixos. Sem piscar.

Chegou mais perto e puxou ar pela fenda da boca como se estivesse provando.

A boca se abriu um pouco.

Dentro não tinham dentes humanos. Pedaços quebrados cravados em gengivas escuras.

Esticou um dedo comprido na minha direção.

O cobertor de emergência estalou enquanto meu corpo tremia.

Aí a cabeça da coisa virou um pouco pro lado, como se tivesse ouvido outra coisa.

Longe, uma voz humana gritou.

"Alguém aí?"

Voz de verdade. Respiração. Esforço.

"Alguém aí? Tem alguém por aí?"

Minha garganta apertou tanto que doeu. Queria responder. Não respondi.

A criatura congelou, calculando.

Depois recuou do túnel, silenciosa, a mão saindo das folhas como se nunca tivesse estado lá.

A voz distante chamou de novo, depois se moveu, depois sumiu.

No silêncio depois, ouvi aquela risada molhada de novo.

Baixa. Perto.

Entre mim e onde o grito tinha vindo.

Como se tivesse seguido o som. Como se soubesse usar ele.

Apertei o rosto na terra até encher o nariz.

Não lembro de dormir. Devo ter dormido, porque a próxima coisa que lembro é luz pálida filtrando pelas folhas e som de pássaros, pássaros normais.

Por uns segundos, esqueci onde tava. Aí me mexi e meu joelho gritou e minhas mãos arderam e minha boca tinha gosto de terra e medo.

A realidade voltou com tudo.

Rastejei pra fora de baixo do tronco piscando pro dia como se fosse claro demais. A mata parecia inofensiva de manhã. Isso me deixou com raiva. Como se as montanhas estivessem fingindo.

Levantei devagar e manquei.

Não vi ele. Não ouvi ele.

Mas a sensação de ser observado não sumiu totalmente. Ficou debaixo da pele como espinho.

Subi morro acima porque acima geralmente significava crista e crista geralmente significava trilha.

Depois de um tempo achei — a terra batida, o jeito que o caminho parecia uma decisão em vez de aleatoriedade.

O alívio bateu tão forte que meus olhos marejaram.

Manquei rápido. Quase corri.

A Pedra de Quartzo apareceu de novo — a pedra com a veia branca — e vê-la torceu meu estômago porque significava que eu realmente tinha sido enrolado. Não perdido-perdido. Movido.

Quando cheguei no loop principal, vi outros trilheiros.

Um cara com um cachorro na coleira vermelha. O cachorro parou morto quando me viu, pelos arrepiados, um latido baixo de aviso na garganta. O cara puxou a coleira e me encarou como se não soubesse o que eu era.

Um casal de short de corrida diminuiu.

"Tá tudo bem?", a mulher perguntou.

Três universitários dobraram a curva, um com caixinha de som Bluetooth presa na mochila, música tinindo e animada. Um viu minhas mãos e falou: "Cara, você tá sangrando."

A mulher ralhou: "Desliga isso", e o garoto atrapalhou, matando a música no meio do refrão.

O silêncio depois fez minha respiração parecer alta.

"Me perdi", falei. Minha voz saiu destruída.

O cachorro continuou encarando pras árvores atrás de mim, focinho tremendo, choramingando como se não gostasse do cheiro em mim.

"Ursos?", o cara da coleira perguntou, meio brincando mas não de verdade.

"Não", falei rápido demais. "Não urso."

"Você tá sozinho?", a mulher perguntou.

Balancei a cabeça.

"Senta", ela disse, e não era pergunta.

Sentei numa pedra porque minhas pernas tavam tremendo. O parceiro dela me deu água. Bebi como se nunca tivesse visto água antes.

"Tem celular?", o cara da coleira perguntou.

"Perdi", falei. Minha voz rachou.

O parceiro dela pegou o celular, subiu um pouco na trilha, e tentou os serviços do parque. Conseguiu na segunda tentativa.

Quando o guarda florestal chegou, perguntou coisas como adulto faz quando tá tentando não deixar virar bagunça.

Onde acampou? Quanto tempo ficou fora? Viu urso? Ouviu algo estranho?

Falei que me virei. Falei que minha barraca desabou. Falei que entrei em pânico e corri.

Tudo verdade, tecnicamente.

Minha mãe chegou como se tivesse dirigido direto pelo próprio medo. Me abraçou tão forte que minhas costelas doeram, depois me empurrou pra trás e me escaneou como se procurasse peças faltando.

O guarda perguntou se queríamos que pegassem meu equipamento.

Minha mãe disse sim na hora.

Minha boca disse: "Não."

Todo mundo me olhou.

"Não quero", falei, afiado demais. "Deixa lá."

O guarda piscou. "É coisa cara, garoto."

Garoto.

Palavra do Wayne.

Minha pele arrepiou.

"Não ligo", falei. "Deixa."

O rosto da minha mãe amoleceu de um jeito que me assustou mais que a raiva dela. O guarda hesitou, depois balançou a cabeça como se já tivesse lidado com trauma antes.

"Tá bom", disse.

Fizeram meu depoimento. Deram pra minha mãe um panfleto de segurança na trilha como se essa fosse a lição. Minha mãe me levou pra casa com uma mão branca agarrada no volante.

Tomei banho até a pele ficar vermelha, vendo água lamacenta escorrer pelo ralo, esfregando como se pudesse apagar um cheiro.

Naquela noite, não dormi.

Não era só medo. Meu corpo se recusava. Todo barulho na casa parecia afiado demais.

Por volta das duas da manhã, ouvi meu celular vibrar.

De onde devia estar — minha mesinha de cabeceira.

Uma vibração curta, tipo notificação. Depois uma mais longa, tipo chamada entrando.

Meu corpo inteiro deu um pulo. Meu coração foi direto pra garganta.

Estiquei a mão, dedos procurando na mesa.

Nada.

Minha mesinha tava vazia exceto por um porta-copos e um livro de bolso que eu fingia estar lendo. Sem celular. Porque eu tinha perdido na mata.

A vibração aconteceu de novo mesmo assim, bem na madeira, perto o suficiente pra eu sentir nos ossos.

Aí, daquele espaço vazio, um cantarolar fino e errado começou. Meu toque, meio tom fora, tipo alguém copiando de memória.

Puxei a mão de volta como se tivesse tocado algo quente.

Meu padrasto gritou da garagem: "Que porra você tá fazendo?"

Não respondi.

Minha mãe entrou e acendeu a luz. Viu minha cara e não discutiu.

"O quê?", disse, já com medo.

"Eu ouvi", sussurrei.

"Ouvi o quê?"

"Meu celular."

Ela olhou pra mesa vazia, depois pra mim.

Dava pra ver que ela queria dizer que eu tava sonhando. Dava pra ver também que ela não acreditava totalmente nisso.

Perguntou o que aconteceu lá fora. O que realmente aconteceu.

Tentei contar, mas tudo que eu via era aquela mão nas folhas e aquela voz usando a palavra dela pra mim como se fosse dona.

Então falei a única coisa que dava pra falar sem parecer louco.

"Acho que algo me seguiu."

Minha mãe me encarou por um longo segundo, depois passou o braço pelos meus ombros como se estivesse me ancorando.

Ficamos lá escutando os sons normais da casa — zumbido da geladeira, tráfego distante, o podcast do meu padrasto abafado pela parede.

E nos espaços entre esses sons, eu ficava esperando.

Por batidas.

Por aquela garganta molhada.

Pela minha própria voz dizendo meu nome de algum lugar que não devia.

Não ouvi de novo naquela noite.

Na manhã seguinte, o guarda ligou de volta pra minha mãe. A voz dele era cuidadosa.

Disse que tinham ido na clareira onde eu disse que acampei.

Disse que acharam minha barraca desabada.

Disse que acharam meu equipamento.

Disse que meu saco de comida tava rasgado e espalhado como se alguém tivesse organizado — carne seca em fila certinha, pacotes de miojo empilhados como criança brincando de lojinha, meu isqueiro colocado numa pedra como se estivesse em exposição. Disse que tinha pedras arrumadas perto do riacho também, como se alguém tivesse ficado ocupado com as mãos.

Aí disse: "Não achamos seu celular."

Minha mãe perguntou se alguém tinha levado.

O guarda pausou.

"Senhora… tinha marcas nas árvores ao redor do local. Tipo esfregadas. Raspadas. Às vezes vemos sinal de urso, mas isso não era típico. Tinha impressões no chão mole também. Difícil dizer de quê. Vamos ficar de olho na área."

Os dedos da minha mãe apertaram os meus tão forte que doeu.

Não ouvi o resto. Não de verdade.

Porque tudo que eu conseguia pensar era: ele não precisava do meu celular.

Nunca precisou do meu celular.

Só gostava do som que conseguia fazer com ele.

E agora nem precisava mais do celular pra fazer isso.

Já Ouviu Um Homem Gritar Sem Pulmões?

Um homem doente me sequestrou. Ele parecia arrependido depois do fato, falando sobre alguma entidade alienígena ameaçando destruir o mundo inteiro a menos que ele me sacrificasse para essa entidade. Uma coisa que ele chamava de Unketzez. Como o nome real dele não é particularmente relevante, vou me referir a ele como John.

Veja bem, John tinha uma fala muito desorganizada e um raciocínio impossível de seguir. Com certeza, ele era delirante. Claramente doente, como eu disse. Eu me deixei ser levado como refém porque tenho tempo e muito pouco a fazer com o meu tempo. Com isso em mente, eu entrei no jogo do pobre homem.

John, apesar de todos os seus defeitos, trabalhou duro para adiar o que ele achava que era inevitável.

Infelizmente, Unketzez venceu, e eu tive que ser sacrificado.

Nem preciso dizer que não saiu como planejado. Não por falta de tentativa. Não, John tentou me sacrificar. Tecnicamente, ele conseguiu.

Tecnicamente.

Não deu certo porque eu sou imortal. Eu não posso morrer permanentemente, pelo menos até onde eu sei. Pode confiar em mim, eu tentei; outros também tentaram me matar. Nada parece funcionar até agora. Temporariamente, eu posso "morrer", mas eventualmente o meu corpo se conserta sozinho. Tem desvantagens nisso; eu não sou imune às dores da morte.

E John, bem, John transformou aquilo em uma noite muito longa...

Eu fui parcialmente esfolado, com um ferro quente, forçado a comer a minha própria pele queimada, depois eviscerado e enforcado pelas minhas próprias entranhas.

Depois disso, o filho da puta louco rasgou as minhas costas, estilhaçou a minha caixa torácica e drapeou os pulmões sobre os ossos expostos.

Eu senti tudo aquilo, cada momento.

Injeções de adrenalina funcionaram como mágica para me manter acordado e prolongar o meu sofrimento.

Não há palavras para descrever a agonia que John me fez passar. Que Deus o abençoe, ele ficava se desculpando e chorando o tempo todo.

Imagine um homem gritando sem pulmões; era assim que soava.

Eventualmente, parou, e eu "morri".

Imagine o choque de John quando ele me encontrou saindo do porão dele ileso.

Ele olhou e gritou como se tivesse visto um fantasma. Eu poderia ter rido se ele não tivesse me esfaqueado no braço e em um pulmão naquele momento.

Prendê-lo na parede foi surpreendentemente fácil antes de eu inventar uma história para ele. Entrando nas delusões dele, eu disse que eu também era um devoto de Unketzez e que toda aquela provação era só um teste para ver se ele era digno de um despertar.

Sendo o homem doente que era, ele acreditou em cada palavra.

Eu expliquei que eu era imortal graças ao nosso deus. Na realidade, faz tanto tempo que eu não sei se nasci assim ou me tornei assim. O que eu sei é que, se alguém come a minha carne ou bebe o meu sangue, ganha alguma habilidade sobre-humana.

Eu mencionei como fui morto muitas vezes antes, em parte para ser consumido.

O que acontece toda vez, no entanto, é que quem quer que participe do meu consumo acaba com uma habilidade que inadvertidamente os mata.

Toda santa vez.

Então, eu disse a John que beber o meu sangue o tornaria imortal também.

É difícil para mim dizer que eu estava com raiva dele; um efeito de uma vida longa é o desapego. Eu não poderia me importar menos com o que acontecesse com essa criatura insignificante, mas uma noite terrível valia uma lição.

Então, eu convenci John de que ele queria essa imortalidade que eu estava prometendo, e uma vez que ele concordou, eu puxei a faca do meu corpo, enfiei o meu braço ferido direto na boca dele, garantindo que ele provasse bem o meu sangue. Eu mantive lá até ele começar a engasgar e vomitar e não parar, mesmo assim. Só parei quando o pulmão colapsado no meu peito finalmente me nocauteou, e nós dois caímos no chão.

Eu voltei a mim só horas depois, ao som de um homem chorando.

O quarto estava coberto de manchas e impressões de mãos de ouro.

Quase tudo ao meu redor brilhava com um brilho áureo; as paredes, o chão, os móveis. Tudo tinha um toque daquele metal precioso cobrindo.

No centro, de frente para mim, estava John, metade coberto de ouro ele mesmo, balançando para frente e para trás.

O metal parecia se espalhar lentamente pelo corpo dele enquanto os movimentos dele ficavam mais rígidos a cada momento que passava.

Ele estava murmurando e chorando para si mesmo.

O próprio toque de Midas dele estava o matando lentamente...

Mais rápido do que eu esperava, na hora em que eu me levantei, ele mal conseguia implorar por ajuda.

Um olhar terrível de medo no olhar desesperado dele penetrou direto em mim. Fazia tempo que algo não me dava arrepios na espinha, mas nesse estado, esse homem doente definitivamente deu.

Ele mal conseguiu levantar um braço banhado em ouro na minha direção quando me viu me levantar, e os gritos de ajuda dele lentamente se transformaram em algo muito pior, e muito menos humano.

Sem fôlego, sufocado, quase esmagado.

Um sibilo.

Um estertor de morte escapando de uma rachadura em uma estátua metálica quando o vento sopra por ela.

Aquele era o som de um homem gritando sem pulmões.

A morte dele foi mais lenta do que parecia. Mesmo depois de ficar em silêncio, ele deve ter tido algum tempo antes que a estátua de ouro envolvendo os órgãos dele endurecesse completamente, colapsando os pulmões e o coração no lugar.

A pior parte de tudo é que mesmo depois que o ouro cobriu o corpo dele completamente, deve ter sido só superficial, porque eu vi os olhos dele se movendo, quase implorando, por mais um ou dois minutos, antes que o olhar deles caísse em mim.

Dilatando uma última vez, presos no lugar.

Mas de alguma forma, me seguindo pelo quarto até eu sair.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O Oceano Para de se Mover à Noite

Uma ideia errada que ouço com frequência sobre os guardiões de faróis é que não usamos a internet, que não temos acesso a ela. Mas temos, sim. Às vezes, pelo menos. Não é comum, mas com a tecnologia avançando cada vez mais, é possível. No entanto, demorei um bocado para postar isso aqui, tanto porque estou velho agora quanto porque o Wi-Fi aqui é uma porcaria, fica caindo metade do tempo.

Sou o único guardião de um farol na costa leste, lá perto do Maine. Fico sozinho na maior parte do tempo, visitantes são raros, mas acontece, ou então recebo uma chamada de algum navio. Durmo a maior parte do dia e vigio à noite. Adotei o crochê como passatempo, é reconfortante sentar sob aquela luz intensa, cercado pelo breu mais absoluto, e fazer algo simples e repetitivo. Laçada, gancho, laçada, gancho, uma e outra vez, um gesto que traz uma paz profunda.

Certa vez, num raro dia de folga — ou melhor, num dia em que eu estava descansado o suficiente para me aventurar na cidadezinha a poucos quilômetros do farol —, um homem se aproximou de mim. Ele me conhecia, mas eu não o conhecia. Perguntou como era cuidar de um monstro daqueles, e eu disse a verdade. Contei que no começo era estranho, até aterrorizante, ficar tão isolado e no escuro o tempo todo. Mas com o tempo, você se acostuma, o oposto vira o esquisito: a luz do dia começa a machucar os olhos, e o contato humano, aquele mesmo que você ansiava desesperadamente antes, se torna alheio e bizarro, e uma sensação de que você não precisa mais dele começa a invadir você, a infiltrar-se nos ossos. Mas se você cair nas armadilhas do farol, enlouquece.

O motivo de eu escrever para vocês agora é que, há algumas noites, me lembrei dessa conversa. Quando, enquanto eu crocheteava, laçada, gancho, laçada, gancho, ouvi, por cima do ruído da maquinaria girando a luz colossal, um canto. Cresci entre marinheiros, meu pai era um, então ouvi histórias de sereias antes, mas isso era diferente delas. Nas lendas que conheço, o canto das sereias era belo e encantador, algo que te arrastava para elas. Mas isso... isso era desafinado, agudo e pavoroso, como uma lâmina sendo afiada numa pedra de amolar, um som aceitável em si, mas terrível saindo de uma garganta humana. Ouvi-lo me paralisou, imobilizando meu corpo, o gancho de crochê erguido, tremendo, desfazendo a laçada ao redor dele e deixando o fio cair.

Levantei-me para olhar lá fora, esperando avistar talvez uma mulher bêbada uivando, mas apesar do som ser tão alto e presente, não havia nada do lado de fora das janelas. Nada exceto o mar, liso e imóvel. Apenas uma lona estendida sobre um abismo.

Na noite seguinte, resolvi descer até o oceano. Uma porta no andar térreo do farol dava para a praia, e eu avancei, tropeçando na areia úmida, escorregadia e movediça. O fedor de peixe podre invadiu minhas narinas, e, no breu, era o único sentido real que me restava. Eu estava praticamente cego até acender a lanterna; eram só uns passos do prédio até onde eu estava quando a liguei, mas aqueles poucos passos pareceram mais longos e árduos do que deviam. Um homem cego, surdo pelo estrondo das ondas quebrando na costa, e admito, bêbado, cambaleando para o negrume, na esperança de vislumbrar a cantora.

Quando acendi a luz e um sol branco artificial iluminou a praia, vi tudo de uma vez. Absorvi aquilo e caí de joelhos, vomitando. Peixes mortos, por toda parte, carpas e bacalhaus apodrecendo e o que mais tivesse sido arrastado das profundezas, me cercavam. Meus pés, marcados nas carcaças, deixavam um rastro vermelho e rosado de volta à porta do farol. Sobre um dos joelhos, jazia um olhinho pequeno, lançado para cima pela minha queda abrupta.

O cheiro era muito pior, muito mais invasivo, uma vez que eu estava sentado nele. Picando e atacando, queimando o interior do meu nariz junto com o vômito queimando a garganta. Eu queimava vivo por dentro. Tossi os últimos resquícios do estômago sobre a pilha sobreposta de peixes mortos, alguns ainda batendo o rabo numa busca idiota e desesperada por água, na tentativa de encontrar o caminho de volta para ela. Era um manto que cobria toda a praia, nem um grão de areia visível entre o farol e o oceano. Endireitei-me, ainda de joelhos, fraco e bêbado demais para ficar de pé, e olhei ao redor.

Girei a lanterna de um lado para o outro, imitando e me tornando o edifício que protejo, procurando qualquer coisa que tornasse aquela saída valer a pena. À medida que a luz era lançada para cá e para lá, as ondas cruzadas começaram a se fundir, a se mesclar nos meus olhos e fazer o oceano parar. A rotação do meu corpo sobre os corpos de tantas criaturas era o único som que eu ouvia. Um silêncio tão denso e palpável. Avistei algo sobre uma rocha enquanto ia para a esquerda e direita e esquerda e direita de novo, e firmei a lanterna, apontando para a pedra saliente que devia ter algo em cima, e não vi nada.

Levantei-me trêmulo e devagar, e iluminei a água mais uma vez. Os truques que meus olhos pregavam, fazendo o oceano estagnar, a essa altura já deviam ter passado, mas o oceano ainda não se mexia. Nenhuma onda se erguia da superfície, nenhum distúrbio no espelho d'água causado pelo vento, só uma ondulação, perto da rocha que eu notara.

E então o silêncio foi preenchido por um guincho, metálico e horrendo, alto e dissonante, e eu corri para dentro.

O fedor de peixe, de tantos peixes mortos na minha praia, não saiu do meu nariz enquanto eu batia a porta atrás de mim e cobria os ouvidos doloridos com travesseiros. Mas quando acordei, só sentia o cheiro de água salgada e do farol em si. O aroma da morte sumira do ar, o único ruído era o zumbido mecânico da minha casa, as ondas batiam na costa com sua força habitual, e nem um único peixe jazia espalhado na praia. Mas minhas roupas ainda estavam manchadas de sangue de peixe.

Eu Matei Meu Amigo Num Ritual Que Deu Errado

Eu sei que isso soa muito, muito ruim. E é. Mas posso explicar.

Lonny e eu éramos amigos havia muito tempo. Estudamos juntos no ensino fundamental e no ensino médio, e pouco depois entramos na mesma faculdade. Ele sempre foi obcecado por coisas sinistras, falando sem parar sobre o filme mais recente, o livro ou qualquer coisa macabra que descobrisse.

Eu não era muito fã de terror, mas o entretinha. Quase sempre. Nunca cedi quando ele queria tentar aqueles rituais idiotas que os garotos espalham por aí como lendas. A Maria Sangrenta. Os Três Reis. O Esconde-Esconde de Um Homem Só. Ele queria fazer todos e queria desesperadamente que fossem reais.

Ontem, finalmente, eu cedi.

Nós dois morávamos com mais três caras numa casa alugada simples. Os outros três tinham saído mais cedo naquele dia para uma viagem por causa de uma competição, nos deixando sozinhos, Lonny e eu. Ele havia terminado um relacionamento recentemente e eu vinha tentando fazer de tudo para animá-lo e distraí-lo.

Pensei que ele fosse querer aproveitar a casa vazia com uma reunião grande, assistindo filmes ou algo do tipo. Mas não. Com ele nunca é simples. Ele queria tentar algo diferente.

— Chama-se o Jogo do Estilhaçamento — disse ele, os olhos brilhando de excitação.

— E o que fazemos? — perguntei, achando que não seria nada tão insano.

— Então. Você coloca um espelho longo deitado no chão. Forma um círculo de velas acesas ao redor dele, com espaço suficiente para nós dois ficarmos em pé. Obviamente, todas as luzes da casa têm que estar apagadas. Depois, cada um de nós fica em uma extremidade oposta do espelho, perto o bastante para olhar direto para baixo e ver nosso próprio reflexo. — A empolgação dele era palpável.

— E algo deve aparecer?

— É aqui que fica interessante. Uma pessoa deixa cair uma pedra no centro do espelho, fazendo-o estilhaçar. A pessoa cujo reflexo for destruído fica possuída por um espírito. — Um sorriso largo se abriu no rosto dele.

Engoli em seco.

— Possuída? Por que diabos alguém ia querer ser possuído? Ou eu, aliás?

— Cara, é só um jogo divertido. Vamos lá, vamos tentar! — Ele se levantou, pronto para começar os preparativos.

— Tá bom, tá bom. Eu faço. Só dessa vez. — Só para agradá-lo. Ele estava sofrendo.

— Beleza, vou pegar as coisas. Não podemos começar antes da meia-noite — disse ele, ansioso.

Com isso, ele saiu de casa para comprar velas na loja. Disse que podíamos usar o espelho do quarto dele mesmo. Eu só precisava arrumar a pedra.

Encontrei a pedra no quintal da frente. Era lisa e fria na minha mão, seu peso me dando uma sensação de realidade que eu tinha ignorado até então. Imaginei soltando-a sobre o vidro, as rachaduras em forma de teia se espalhando sobre meu rosto. Estremeci e voltei para dentro para esperar o Lonny.

Pelo que eu via, o Lonny estava ansioso demais para quebrar o próprio espelho. Mas era assim que ele sempre agia com essas coisas. E, pensando bem, nada ia acontecer mesmo.

Ele havia arrumado todas as velas num círculo largo ao redor do espelho na sala de estar bem antes da meia-noite. Quando a hora chegou, acendeu cada uma com cuidado e me mandou apagar todas as luzes.

Clique!

A sala, junto com o resto da casa, mergulhou numa escuridão densa que dominou todos os meus sentidos. Tudo que eu conseguia ver era o brilho alaranjado tremulante das velas refletido no espelho e o sorriso maligno do Lonny.

— Pronto? — sussurrou ele através dos lábios retorcidos.

— Só faz logo — respondi.

Lonny ergueu a pedra acima do centro do espelho, na altura do ombro.

Ele a soltou de repente. Meu coração deu um salto quando o impacto ecoou num estilhaço ensurdecedor.

As fraturas caóticas no espelho dispararam para fora a partir da cratera formada pela pedra no centro do vidro. Os dedos espinhosos rastejaram brevemente em direção aos nossos rostos antes de pararem bruscamente.

Silêncio. Os rostos de nós dois permaneciam perfeitamente visíveis no reflexo.

Shrrk!

As rachaduras explodiram subitamente para fora sobre o reflexo do Lonny, refratando apenas a luz das velas em ângulos estranhos e interseções distorcidas.

Seu rosto não era mais visível.

A temperatura da sala despencou e minha cabeça se ergueu lentamente para encontrar o olhar dele. O brilho alaranjado em seus olhos lançava um reflexo sinistro que cravou agulhas geladas nas minhas costas.

— Lonny? Você não está possuído, né? — Dei uma meia-risada nervosa, balançando o peso do corpo de um pé para o outro.

— ...e você? — As palavras de Lonny saíram num sussurro serpentino.

Dei um passinho para trás.

— Não, cara…

Ele contornou lentamente o lado do espelho e veio em minha direção. Comecei a ficar tenso. Seus braços se recolheram.

— Boo! — gritou ele, jogando os braços para cima na minha direção. Cambaleei para trás em choque, meus pés derrubando algumas velas.

— Não faz isso, porra! Jesus, cara — falei, enquanto o cheiro de fumaça das velas apagadas invadia minhas narinas. Sentei no sofá.

— Você é um medroso pra caralho, mano. Foi só uma brincadeira. — Lonny se jogou no sofá ao meu lado.

Ficamos ali na penumbra, esperando algo acontecer por alguns minutos. Como nada rolou, ligamos a TV e jogamos videogame por uma hora.

Depois de um tempo, Lonny largou o controle de repente.

— Ai, merda! — gemeu ele, levando as mãos ao rosto.

— O que foi? — perguntei, virando para ele.

Um vermelho intenso jorrava por entre seus dedos, fechados com força sobre o nariz.

— Vou pegar uns guardanapos! — Corri até a cozinha e voltei correndo.

Quando cheguei, o sangue já tinha coberto toda a mão dele, escorrendo pela boca e pingando na camisa e no colo. Entreguei os guardanapos e ele lutava para conter a hemorragia. Fui atrás enquanto ele corria para o banheiro para jogar o sangue na pia.

— Isso nunca acontece comigo, cara — disse ele, com dificuldade para falar através do sangue que jorrava e do nariz entupido.

A pia branca rapidamente se encheu e ficou de um vermelho escuro enquanto os guardanapos e o papel higiênico encharcados falhavam em conter a torrente.

Saí do banheiro.

Depois de uns quinze minutos, Lonny voltou.

— Meu Deus, preciso sentar. Estou tonto. — Ele desabou no sofá, segurando um pano no rosto.

— Finalmente. Preciso mijar. — Levantei e fui andando para o banheiro.

— Desculpa pela bagunça aí dentro — disse ele, com um tom envergonhado.

Entrei no banheiro. Bagunça era pouco. Tinha sangue para todo lado. Na pia, no balcão. Uma poça já seca havia se formado no chão. O lugar inteiro fedia a ferro. A água da privada estava tingida de um vermelho doentio.

Quando olhei mais de perto, consegui distinguir um objeto no fundo da privada. Algo escuro, sua silhueta borrada pelos grumos de sangue.

Eu sei que é nojento, mas foi o que eu fiz. A curiosidade falou mais alto. Enfiei a mão na água morna e meus dedos se fecharam ao redor do objeto duro e fino. Puxei para fora.

Era um pequeno crucifixo de madeira, manchado de sangue. Do tipo que freiras usam. Deixei cair no chão, a cabeça rodando. Que porra era aquela? Tinha saído do nariz dele? Isso não fazia o menor sentido.

Virei-me e olhei para o espelho.

Uma sombra escura dançou subitamente sobre meu rosto. Cambaleei para trás. Meu estômago revirou. Eu precisava sair dali.

Saí tropeçando do banheiro, deixando um rastro de sangue a cada passo.

— Lonny, você está bem? Que merda era aquela na privada? — chamei por ele.

Ao entrar na sala, não vi ninguém. Lonny não estava no sofá, nem em lugar nenhum. Chamei mais algumas vezes sem resposta. Logo encontrei algumas gotas de sangue que formavam um rastro saindo do sofá e saindo da sala em direção ao corredor.

Passando pela cozinha, notei facilmente que a maior faca da cozinha tinha sumido do suporte. Engoli em seco e continuei até a escada.

Segui as gotas timidamente. Cada degrau que subia deixava minhas pernas mais trêmulas. Minha respiração ficou presa na garganta quando cheguei ao topo. Alguma coisa ali estava errada. Estava frio demais. Entrei no corredor e vi que as gotas vermelhas terminavam em frente a uma porta fechada de um dos quartos.

Bati na porta.

— Lonny? Você tá bem? — Minha voz saiu trêmula.

Nenhuma resposta. Minha mão nervosa alcançou a maçaneta. Tentei não entrar em pânico. Devia ser só um mal-entendido. Abri a porta.

Um vislumbre de algo pálido se escondendo atrás da estrutura da cama. Vi por uma fração de segundo, mas foi o suficiente para questionar minha sanidade.

— Lonny… para de me zoar. Por favor. — Não sei nem se as palavras saíram audíveis da minha boca.

Dei passos deliberados e nervosos até o lado da cama. Espiei com cuidado, o suficiente para revelar o que estava escondido.

Uma imitação branco-papel, fantasmagórica, do Lonny emergiu das sombras atrás da cama. Sangue continuava escorrendo do nariz — não, da boca também — e seus olhos vidrados e escuros se arregalaram ao me fixar como alvo.

A Coisa-Lonny arfou e saltou sobre mim, seus membros finos cortando o ar com algo antes que eu pudesse reagir. Uma dor quente irradiou do meu ombro enquanto eu cambaleava para trás, vendo a criatura disparar porta afora.

Apertando o ombro que sangrava, corri até a porta, vendo de relance a nuca dela desaparecendo escada abaixo. Fui atrás.

No pé da escada, um rastro fresco de sangue seguia o mesmo caminho do antigo. Refiz meus passos pela cozinha e pelo corredor, parando na entrada da sala.

A pele doentia da Coisa-Lonny era iluminada fracamente pelo brilho tremulante das velas, agachada no canto perto da TV. Seus olhos estavam cravados em mim.

— Só… calma. Foi só um jogo. Sua cabeça deve estar pregando peças em você. — Contra meu bom senso, fui me aproximando lentamente.

Ela estremeceu quando meus sapatos esmagaram os cacos soltos do espelho. Eu tinha percorrido quase metade da sala.

A criatura se lançou contra mim. A faca de cozinha refletiu a luz alaranjada direto nos meus olhos enquanto ela fechava a distância em uma fração de segundo.

Nós dois caíram no chão ao lado do espelho, os cacos cravando nas minhas costas. Arquejei e segurei seu pulso frágil quando a faca mergulhou em direção ao meu peito, parando a poucos centímetros. Em pânico, estendi a mão para o espelho e senti o peso familiar da pedra.

Arremessei-a contra a têmpora do monstro, ouvindo um estalo devastador. Ela rolou para fora de mim e caiu sobre o círculo de velas, apagando várias delas. Eu a prendi no chão.

Desci a pedra novamente com toda a força, abrindo uma depressão visível no crânio. Cada golpe seguinte apagava mais velas e tornava o ambiente mais frio.

Senti o corpo ficar mole quando dei o golpe final. A pedra cravada na testa foi a última coisa que vi antes da última vela se apagar.

Caí de lado, ofegando pesadamente. Após alguns momentos na escuridão total, minhas mãos escorregadias encontraram o chão e me levantei. Tateei em busca do interruptor.

Clique!

A luz invadiu minha visão, me cegando por alguns segundos. Quando meus olhos se ajustaram, testemunhei de verdade a cena catastrófica à minha frente.

Aproximei-me do corpo do Lonny. Bem diferente do espectro que eu tinha visto momentos antes, ele estava completamente normal. Sua pele tinha um tom mais escuro e os membros tinham espessura real.

Sua cabeça estava destruída. Totalmente afundada. Só conseguia distinguir uma massa disforme de fragmentos de osso, dentes, sangue, carne e massa encefálica. A pedra estava cravada bem no centro.

Minha cabeça girava tão violentamente que desabei no chão diante dele.

Virei o rosto, incapaz de encarar aquela visão terrível. Meus olhos recaíram sobre o espelho.

Meu reflexo estava fragmentado em pedaços confusos. Olhei ao longo do espelho e vi que ele estava completamente estilhaçado dos dois lados.

Desde então, tenho ficado trancado no meu quarto pensando no que fazer. Acho que matei meu amigo num surto de pavor cego. A polícia vai me levar embora. Eu sei que vai.

Deixo esta mensagem aqui para que vocês possam analisá-la. Julguem minha culpa. Por favor. Juro que não foi de propósito. Não foi.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

Eu Sobrevivi Uma Noite nos Apalaches. Não Acabou Por Aí

Eu não era pra estar lá sozinho. É isso que eu tenho que falar em voz alta pras pessoas depois, porque senão elas começam a preencher as lac...