terça-feira, 9 de junho de 2026

Nós Roubamos do Velho Errado

Eu provavelmente estou prestes a confessar um crime. Não, vários crimes. Porra. Eu não devia dizer nada, mas vou dizer. Tinha que haver uma prova, um testemunho do que realmente aconteceu. Se eu pudesse voltar atrás… eu nunca teria roubado aquele filho da puta velho.

Eu sempre fui um ladrão. Sempre procurando o caminho mais fácil e cortando cantos sempre que possível. Eu sempre fui aquele cara na escola que mal se safava e nunca ligava pra porra nenhuma. Quando a escola acabou, eu finalmente estava livre, só que eu não queria um emprego normal. Então comecei a vender maconha pra fazer uma grana.

Na época, era mais do que suficiente pra me sustentar, e eu fiquei nessa linha de trabalho até encontrar algo ainda mais lucrativo. Roubar velhos. Meu amigo Freddy e eu ajudávamos idosos entregando refeições e cuidando das necessidades básicas que eles não conseguiam mais lidar sozinhos, e sempre que descobríamos onde eles guardavam a grana, a gente roubava. Simples. A melhor parte era que a gente ainda era pago pra fazer essas coisas.

Era um emprego numa empresa que prestava serviços pra idosos, onde eles pagavam pra ter gente indo toda semana ajudar com tarefas básicas que eles não conseguiam mais fazer sozinhos. É, era trabalho pesado, o tipo de trabalho que eu passei a vida inteira tentando evitar… só que esse pagava um salário e vinha com um bônus bem gordo, se é que você me entende. Valia a pena.

Como eu disse antes, eu sempre fui um ladrão. Eu sempre tentei ganhar dinheiro fazendo o mínimo possível. Com o nosso esquema, a gente trabalhava, beleza. Às vezes até ficava exaustivo, mas a gente ainda conseguia tirar vantagem.

Enquanto prestávamos esses serviços de assistência pros idosos, Freddy e eu tínhamos tempo de descobrir onde eles guardavam a grana. Enquanto um de nós distraía o velho ajudando com alguma coisa, tipo entregar o almoço, lavar a roupa dele, ou até guardar as compras, o outro rapidamente vasculhava a casa sem chamar atenção.

A gente tinha esse esquema todo planejado e funcionando que nem uma máquina. Quando os velhos percebiam que tinham sido roubados, nunca desconfiavam da gente. A gente era os jovens simpáticos que apareciam a cada dois dias pra ajudar por uma hora. Alguns deles provavelmente nem tinham percebido ainda que tinham sido roubados.

É, é, eu sei. Como eu pude fazer uma coisa dessas? Eu sei que é isso que vocês estão se perguntando. Nesse mundo, ou você come ou é comido, e eu preferia ser quem tava comendo. Não importava o custo. Pra ser sincero, aqueles velhos já tinham vivido a vida deles, já tinham aproveitado. Era a minha vez de aproveitar a minha. Pra que diabos eles precisavam daquela grana? A maioria mal conseguia sair da cadeira, então era melhor eu aproveitar aquele dinheiro pras minhas próprias coisas.

Onde tudo deu merda feia foi com o velho Jepson. Enquanto Freddy e eu estávamos ajudando ele com os serviços básicos, a gente encontrou um cofre pequeno escondido dentro do guarda-roupa dele. Se tinha dinheiro escondido em algum lugar daquela casa, tinha que ser ali. O cofre era velho, ainda tinha um daqueles cadeados de combinação mecânica. Isso não nos impediu de tentar. Se é que teve algum efeito, só nos deixou mais empolgados de roubar.

Freddy e eu passamos meses estudando como abrir aqueles tipos de cofre através de informações e vídeos que a gente encontrou na internet. Acabou virando só mais uma habilidade pros nossos esquemas.

Quando finalmente nos sentimos confiantes o suficiente pra executar o roubo, a gente entrou em ação. E foi exatamente isso que aconteceu. A gente se sentiu pronto pra abrir aquele cofre, e foi o que fizemos. Enquanto eu guardava a comida que o velho Jepson tinha pedido pra gente comprar, Freddy ficou lá em cima tentando arrombar o cofre.

O velho Jepson sentado numa poltrona assistindo televisão. Ele devia ter uns oitenta anos e usava uma máscara conectada a um tanque de oxigênio pra ajudar a respirar. Eu sabia muito pouco sobre ele, além do fato de que ele tinha lutado na Guerra do Vietnã e não tinha nem mulher nem filhos. Se eu quisesse saber mais, podia ter perguntado. Aposto que aqueles velhos falariam sem hesitar só pra aproveitar a companhia, mas eu sinceramente não tava nem aí pra eles. Eu não me importava com eles nem com as histórias deles. Eu só queria a grana deles, nada mais.

Eu tinha acabado de guardar a última das compras que a gente tinha feito pro velho Jepson quando Freddy desceu parecendo meio estressado.

"Temos um problema, Vince," ele sussurrou pra mim. "O velho só tem uma fita VHS no cofre."

Eu fiquei confuso. Que porra ele queria dizer com não tinha dinheiro? Quem tinha um cofre e não guardava dinheiro nele?

"O quê? Uma fita VHS?" eu sussurrei de volta, completamente confuso, ainda tentando processar o que tinha acabado de acontecer.

"É, e eu não consegui encontrar dinheiro em lugar nenhum também," ele disse preocupado.

A gente tinha se preparado por tanto tempo só pra abrir aquele cofre, e não tinha nada de valor dentro. Uma fita VHS. Mas se ela tava trancada dentro de um cofre, então tinha que valer alguma coisa, então decidi na hora que a gente devia levar ela mesmo assim. Talvez ela realmente fosse valiosa e a gente pudesse vender na internet. O Ebay podia ter nos dado uma fortuna com aquela parada. Mas na época, eu não tava nem perto de convencido de que valia alguma coisa. Eu só tava tentando manter o otimismo. Como dizem, a esperança é a última que morre.

"Pega a fita mesmo assim e vamos cair fora daqui," eu disse decepcionado, querendo estar a quilômetros daquele lugar.

Freddy rapidamente foi pegar a fita enquanto eu fingia me ocupar com outra coisa antes de a gente ir embora. Eu tava puto da vida. Todo aquele trabalho pra nada. Que diabos não guardava dinheiro num cofre? O velho Jepson devia ter grana escondida em algum lugar, mas tava fora do nosso alcance.

Alguns minutos depois, Freddy voltou. Ele assentiu pra mim, me avisando que podíamos ir embora. A gente se despediu do velho Jepson e saiu daquela casa. Por sorte, ele tinha sido nosso último cliente do dia, porque depois daquela merda eu não tinha paciência pra ir na casa de outro velho. A pior parte era terminar o dia de mãos abanando.

Algumas horas depois, Freddy e eu nos encontramos no meu apartamento. Eu tinha ido na casa da minha mãe pegar um aparelho de VHS pra gente poder assistir o que tinha na fita. Eu esperava que fosse algum filme raro ou talvez um filme super popular tipo Star Wars que pudesse valer muita grana.

Freddy trouxe dois six-packs de cerveja. A gente começou a beber antes mesmo de eu olhar pra fita.

"Aquele velho filho da puta realmente nos fodeu," eu disse, ainda puto com o que tinha acontecido. "Me mostra a fita."

"Nem me fale…" Freddy resmungou irritado enquanto me entregava a fita.

Era literalmente só uma fita VHS normal. A única diferença era que ela não tinha etiqueta. Antigamente, as fitas VHS costumavam ter uma faixa branca onde as pessoas escreviam o conteúdo da fita pra poder identificar o que tinha nela. Essa não tinha nada. Era completamente preta.

Eu não conseguia parar de me perguntar o que diabos podia ter naquela fita pro velho Jepson guardar ela trancada dentro de um cofre. A gente estava prestes a descobrir.

Eu abri outra cerveja e inseri a fita no aparelho. A imagem clássica das barras coloridas verticais apareceu por uns três segundos. Aí apareceu uma filmagem de uma floresta. A gente tava vendo a perspectiva de alguém caminhando pelas matas. Era de noite. A única coisa iluminando a floresta era a luz da câmera. Ficou assim por cerca de um minuto. Só alguém andando pelas matas até que… apareceu uma mulher amarrada no tronco de uma árvore.

"Jesus Cristo!" Freddy gritou, dando um pulo de choque.

Eu não disse nada. Não consegui. Eu tava tão horrorizado quanto com o que estava vendo. A mulher amarrada na árvore tava seminua. As roupas dela estavam rasgadas, cobertas de arranhões e um pouco de sangue. Ela parecia desnutrida e desidratada. A câmera se aproximou dela, e a gente conseguia ver os ferimentos e o estado frágil dela mais claramente. Vou admitir que já tava ficando difícil continuar olhando pra televisão. Eu queria desviar o olhar, mas continuei assistindo apesar de como aquilo me deixava desconfortável.

A câmera se afastou da mulher e foi colocada numa pedra próxima, apontada pra ela amarrada na árvore. Alguns segundos depois, a pessoa que tinha segurado a câmera o tempo todo entrou no quadro e encarou diretamente pra ela.

"Não é possível, porra!" Freddy disse, incapaz de acreditar no que estava vendo.

"É o Jepson…" eu sussurrei, ainda em choque. Eu não conseguia acreditar no que estava olhando.

Jepson encarou a câmera como se tivesse se certificando de que ela estava posicionada corretamente. O Jepson que tava ali na nossa frente não era o Jepson velho que a gente conhecia, aquele que precisava de máscara de oxigênio e mal conseguia andar. Esse era um Jepson mais jovem. Uns trinta anos mais jovem. Muito mais saudável do que o velho acabado que a gente conhecia.

Eu comecei a ficar com medo. Eu não gostava do que podia acontecer em seguida. Eu sentia que Freddy sentia a mesma coisa que eu, mas eu nem olhei pra ele. Nossos olhos estavam grudados na televisão.

Jepson começou a se afastar da câmera e se aproximou da mulher imóvel amarrada na árvore. Ele começou a cheirar o corpo dela como um animal, aí começou a lamber ela. Ele lambia principalmente os ferimentos dela.

Eu tava enjoado com o que estava vendo e aterrorizado com o que viria em seguida.

Do nada, Jepson cravou os dentes no ombro da mulher. Sangue começou a jorrar do ferimento. Ele arrancou um pedaço do ombro dela com os dentes. A boca dele tava coberta de sangue. Alguma coisa saiu dela — eu não consegui dizer o que era — mas ela tava sendo drenada, e Jepson tava recebendo aquilo. Ele parecia mais vivo. Eu não consigo explicar melhor o que eu vi. A mulher ficou toda enrugada, tipo um boneco inflável esvaziado.

Eu tava completamente horrorizado. Eu nunca tinha visto nada igual antes, nem nos filmes. A pior parte era que era real. Cem por cento real. Isso me deixou ainda mais enjoado. Eu queria vomitar, mas consegui segurar.

Jepson caminhou em direção à câmera e passou pra trás dela. Ele pegou alguma coisa que a gente não conseguia ver porque tava atrás da câmera. Um momento depois, ele voltou pro quadro carregando um pequeno galão vermelho. Eu imediatamente percebi o que era. Um galão de gasolina. E eu percebi o que ele estava prestes a fazer com ele.

Ele se aproximou lentamente da mulher, que ainda tava amarrada na árvore, e derramou o líquido do galão vermelho sobre ela. Eu sabia que era gasolina, e eu sabia que ele ia queimar ela.

Quando ele terminou de derramar gasolina sobre a mulher e a árvore, Jepson caminhou de volta em direção à câmera. Ele pegou ela e mais uma vez se aproximou do que restava do corpo sem vida, enrugado da mulher, encharcado de gasolina. Quando ele ficou cara a cara com ela, ficou ali por alguns segundos, como se saboreasse o que tinha feito antes de destruir as provas.

Como Jepson tava segurando a câmera, Freddy e eu estávamos vendo a mulher da perspectiva dele. A gente conseguia ver claramente o que ele tinha feito com aquela pobre mulher. Parecia que toda a carne tinha desaparecido do corpo dela, sobrando só pele e osso. Era horrível de se olhar. Aquela imagem provavelmente ficaria queimada no meu cérebro pro resto da minha vida.

Jepson pareceu procurar alguma coisa no bolso. Ele puxou a mão, segurando um isqueiro. Ele acendeu e jogou na árvore onde o que restava daquela mulher pendia. Em milissegundos, a árvore explodiu em chamas, e em segundos tanto a árvore quanto a mulher foram consumidas pelo fogo. Jepson deu um passo pra trás, afastando-se levemente da árvore em chamas sem nunca desviar a câmera. Ele manteve ela apontada pras chamas. Eu tinha que admitir que havia algum tipo de beleza mórbida naquela árvore queimando. Mas eu não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido antes, ou parar de me sentir enjoado. Sujo por causa do que a gente tinha testemunhado.

Depois de ficar ali assistindo a árvore queimar por um tempo, a imagem começou a encher de ruído estático, e aí a imagem congelou. Isso significava que a fita tinha chegado ao fim.

Freddy e eu encaramos aquele quadro final sem dizer uma palavra por vários minutos. O que a gente tinha acabado de assistir era perturbador, até traumático. A pior parte de tudo era que a gente tinha testemunhado um assassinato macabro, mórbido e bizarro cometido por alguém que a gente via e ajudava regularmente. O velho Jepson, que agora mal conseguia andar e mal conseguia respirar, já andou por aí matando pessoas e filmando seus assassinatos bizarros. E ele tinha guardado isso trancado dentro de um cofre. Ele considerava aquela fita VHS sua possessão mais valiosa. Esse pensamento só me fez sentir ainda mais inquieto.

Que diabos a gente tinha se metido… Era tudo o que eu conseguia pensar antes de finalmente quebrar o silêncio.

"A gente tem que colocar a fita de volta no cofre, como se nada tivesse acontecido," eu disse com medo, preocupado que o velho Jepson já tivesse percebido que tava faltando.

"Eu tenho uma ideia melhor," Freddy disse pensativo. "Por que a gente não chantageia o velho filho da puta? Dinheiro em troca da fita."

Eu tenho que admitir que Freddy era basicamente como um irmão gêmeo pra mim. Por isso a gente se dava tão bem e pensava da mesma forma, como ladrões. A gente podia ter pais diferentes, mas éramos incrivelmente parecidos em personalidade, na forma de pensar e executar nossos esquemas. Mas pela primeira vez, eu não gostei daquela ideia. Depois de assistir aquela fita, eu tava com medo do velho Jepson. Muito medo.

"Não. A gente não pode. Você viu o que ele fez com aquela mulher?" eu disse, tentando convencê-lo.

"É, mas ele tá velho agora. É diferente. Além do mais, ele praticamente nos deve dinheiro depois dessa merda."

"Não me conta nisso. Se você quer chantagear aquele velho filho da puta, vai em frente, mas me deixa fora," eu disse.

"Qual é, Vince. Ele não vai fazer nada."

"Não. Não me conta nisso."

"Tá bom, fica à vontade. A gente faz do seu jeito então. Não faz sentido fazer sozinho," ele disse, parecendo um pouco decepcionado.

Eu fiquei aliviado que ele tinha desistido da ideia. O velho Jepson era claramente perigoso, então se meter em mais esquemas com ele era uma ideia terrível. Eu pretendia nunca mais ver o velho Jepson depois de devolver a fita. Eu não conseguia olhar pra ele da mesma forma depois de descobrir seu segredo mais obscuro. E pra ser sincero, depois do que eu tinha visto, eu sentia que sempre teria que ficar em alerta porque eu acreditava que ele podia me matar a qualquer momento.

O dia seguinte foi normal, ou pelo menos pareceu normal, mas por dentro eu tava uma merda completa o tempo todo. Eu não conseguia parar de pensar naquela fita e no que o velho Jepson — muito mais jovem naquelas gravações — tinha feito. Eu mal dormi porque não conseguia parar de imaginar aquela mulher "drenada" pendurada na árvore. A ansiedade só aumentava sempre que eu pensava em ter que devolver a fita no dia seguinte.

Parte de mim queria desesperadamente que aquele dia chegasse pra eu finalmente me livrar da fita e nunca mais ver o velho Jepson na minha vida. Outra parte de mim tava aterrorizada de ter que olhar pra ele de novo.

Aí finalmente chegou o dia D. Eu não conseguia pensar em mais nada. Não posso falar pelo Freddy, mas acho que ele tava nervoso também, e aquela fita tinha afetado ele também. A gente tinha que devolver a fita custe o que custasse.

Quando chegamos na casa do velho Jepson, a gente fingiu que tava tudo normal. A gente entrou sozinho já que tinha as chaves. O velho Jepson sentado na poltrona assistindo televisão como sempre.

"Olá, Sr. Jepson, como o senhor tá hoje?" eu perguntei com meu sorriso de sempre.

"Eu sei que vocês dois merdinhas roubaram minha fita," ele disse imediatamente, sem nem nos cumprimentar ou tentar esconder. O tom dele era sinistro.

Eu congelei. Eu tava completamente aterrorizado. Ele sabia. Porra. Era o pior cenário possível.

"Sr. Jepson, deve ter algum mal-enten—" eu comecei nervosamente, tropeçando completamente nas palavras, até ele me interromper.

"Cala a boca. Eu sei muito bem que foram vocês dois que roubaram a fita," ele disse firmemente, num tom ameaçador. "Agora me diz, vocês gostaram do que viram?"

Ele sorriu de um jeito sinistro. Eu me arrependi tanto de ter roubado aquela fita. Se eu pudesse voltar atrás… mas já era tarde demais.

Freddy puxou a fita da pequena bolsa que tava carregando e se aproximou do velho Jepson, irritado. Ele ficou bem perto dele enquanto Jepson permanecia sentado na poltrona.

"Quer sua fita de volta, seu velho doente? Então vai ter que pagar primeiro. Dez mil dólares em dinheiro pela fita, senão… eu entrego isso pra polícia," Freddy disse sem hesitar, sem nenhum nervosismo. Só pura confiança.

O velho Jepson soltou uma gargalhada.

"Então entrega pra polícia. E quando eles perguntarem como a fita parou nas suas mãos, o que você vai dizer? Que caiu do céu ou que você roubou?" o velho Jepson disse com um tom sarcástico na voz.

Essa jogada de chantagem que Freddy tinha armado na última hora era um ato de desespero. Eu admirava a coragem dele, mas o velho Jepson não parecia intimidado. Nem um pouco. Isso era um péssimo sinal.

Freddy agarrou o velho Jepson pela gola da camisa e puxou o rosto dele perto do seu. Eles estavam a menos de trinta centímetros de distância.

"Escuta aqui, seu pedaço de merda velho, eu tô nem aí se eu roubei a fita e a polícia descobre. Eles vão ver que tipo de merda doentia você fez se você não nos der a grana. Eu juro que eu—" Freddy tava dizendo com confiança, irritação clara na voz, quando o velho Jepson de repente se lançou pra frente e mordeu o nariz dele, cortando-o no meio da frase.

Isso me pegou completamente desprevenido. Eu congelei, sem palavras, enquanto acontecia. O velho Jepson tinha os dentes cravados no nariz do Freddy. Sangue jorrou e escorreu pra todo lado. Freddy gritou de agonia.

Aí o velho Jepson arrancou o nariz do Freddy limpo, e ainda mais sangue jorrou. O rosto do Jepson tava encharcado de sangue. Freddy desabou de joelhos com um buraco no rosto onde o nariz dele tinha estado, e alguma coisa saiu dele, como se ele tivesse sendo drenado. E o velho Jepson tava recebendo aquilo. Igual ao que tinha acontecido com a mulher na fita.

Quando parou, Freddy desabou no chão completamente enrugado, sobrando só pele e osso… ele parecia um boneco inflável esvaziado. O velho Jepson parecia ligeiramente mais jovem do que tinha estado cinco minutos antes. Era como se ele tivesse recuperado mais cinco anos de vida.

O velho Jepson olhou pra mim com um sorriso sinistro.

"Você é o próximo," ele disse. O rosto dele tava completamente coberto de sangue, e os olhos dele pareciam brilhar amarelo.

Adrenalina bombeou pelas minhas veias a todo vapor. Eu nem pensei. Em pânico, no momento em que ele disse isso, eu imediatamente corri pras escadas que levavam ao quarto dele, onde a gente tinha roubado a fita. Esse era o problema — eu devia ter corrido direto pra porta da frente, mas infelizmente não foi o que eu fiz. Foi uma decisão tomada no impulso, alimentada por desespero, pânico e estresse.

Eu subi as escadas em segundos, pulando dois degraus de cada vez. Eu me senti como se tivesse tomado duas ou três latas de energético. Logo depois, eu arrombei no quarto dele e bati a porta atrás de mim. Sem perder um segundo, eu empurrei cada móvel que ele tinha no quarto em frente à porta.

Pouco tempo depois, o velho Jepson chegou na porta do quarto. Ele tentou abrir, mas não conseguiu. Ele começou a bater os punhos na porta como um louco.

"Você acha que pode escapar de mim?! Não esqueça, é você que tá preso aqui comigo, não o contrário!!!" ele gritou.

"Vai se foder, seu pedaço de merda velho!!!" eu gritei de volta, mais uma vez no impulso.

"Eu consegui viver por mais de duzentos anos sem ninguém nunca me descobrir, e você acha que um rato de esgoto como você vai me derrubar?!?!" o velho Jepson gritou do outro lado da porta, loucura se infiltrando na voz dele. "Eu drenei a alma e a força vital do seu amigo, e cedo ou tarde você será o próximo. É só uma questão de tempo."

Eu não disse nada. Fiquei perfeitamente imóvel, aterrorizado, encostado nos móveis que eu tinha empurrado em frente à porta pra impedir ele de entrar e me matar.

"Você vai ser a última pessoa cuja força vital eu dreno, e aí eu finalmente vou poder morrer em paz," ele disse com raiva, como se Freddy e eu tivéssemos interrompido algum tipo de plano.

Na verdade, tínhamos. Foi aí que eu percebi que de alguma forma ele drenava a força vital das pessoas pra recuperar anos da própria vida. As peças começaram a se encaixar lentamente. Ele queria morrer naturalmente. Ele tava cansado de viver. Mas a gente tinha arruinado os planos dele.

Aquela fita servia como uma lembrança pra ele reviver seu passado sangrento e mórbido. Talvez ele até se masturbasse assistindo ela. Talvez fosse a única coisa que ainda o excitava. Eu não sabia ao certo. Isso era só uma teoria. A única coisa que eu sabia com certeza era que ele tinha matado muito mais pessoas, e eu não fazia ideia de quantas. Ele era basicamente um serial killer, e o mais bem-sucedido da história do planeta. Ninguém tinha descoberto ele antes, exceto Freddy e eu, puramente por acidente.

Eu nem sabia se ele era humano ou algum tipo de entidade sobrenatural se alimentando daquela força vital pra sobreviver mais tempo. Mas nada disso importava naquele momento. A única coisa que importava era sair dali vivo. Como? Eu ainda não sabia.

É por isso que eu tô escrevendo isso enquanto me escondo no quarto do velho Jepson enquanto ele tenta arrombar a porta. Eu já ouvi ele pegando ferramentas e outros objetos pra derrubar a porta. Cedo ou tarde, ele vai entrar. Eu já liguei pro 911, desesperado pedindo ajuda. É a única forma de eu sair dali vivo.

Agora só resta esperar pela polícia… e rezar pra que eles não cheguem tarde demais.

A Caixa

Um cara esquisito me deu um presente estranho. É uma caixa que eu não consigo abrir.

Eu estava indo a pé para a estação de metrô. Estava chovendo, o que não tinha sido previsto no canal de meteorologia, então eu coloquei um jornal roubado sobre a minha cabeça. Olhei para baixo, em direção ao pavimento molhado, e me afastei do temporal para que meus óculos ficassem secos. Isso não funcionou — a água escorria pela minha testa e pingava das minhas bochechas. Houve um som de tilintar. Tilim-tilim. Várias moedas quicavam dentro de um copo de papel. Eu não olhei para cima, apenas bati no bolso da minha calça como se dissesse "nada aqui", e continuei andando.

"Você tem oito dólares e setenta e cinco centavos!", o homem gritou. A voz dele ecoou acima do som do aguaceiro. Sim, eu tinha exatamente isso. São duas vezes a tarifa do metrô, pensei: quatro loonies e um quarter multiplicados por duas viagens. Era um truque esperto. Eu me perguntava, no entanto, como ele sabia que eu estava carregando um quarter a mais — eu tinha trazido para o carrinho de compras no supermercado, onde eu ia parar depois do trabalho.

"Você tem algo para mim", ele sussurrou, meloso. A artimanha dele me fez parar e agora, enquanto eu estava parado, ele deu um passo à minha frente. O sorriso dele mostrava dentes de cavalo, amarelados e projetados para fora. Ele tinha um nariz como o bico de uma águia; curvo, inclinado para uma ponta caída. As orelhas dele se projetavam para fora e caíam como as de uma vaca, e seu pescoço longo se arqueava como o de um cisne. Ele tinha cabelo laranja flamejante que, onde havia ficado encharcado pela chuva, desbotava para uma cor cobre turva. Ele era um homem muito feio.

"Desculpe, eu preciso dele", eu disse. O observei por cima das hastes dos meus óculos. Meus olhos estavam cautelosos; tentei não demonstrar minha frustração. O jornal batia furiosamente à medida que o vento ganhava velocidade. Me movi para continuar meu caminho — splash, a sola da minha bota de borracha batendo contra uma poça turva.

"Eu tenho algo para você."

Eu parei de novo. O sorriso dele estava mais largo, mais dentudo, e as coroas douradas que decoravam seus molares espreitavam pelos cantos de sua boca virada para cima. Ele girou e se abaixou até seu lugar de dormir. Sua cama era um cobertor encharcado de chuva e desbotado pelo sol. Sobre ele havia uma dispersão de itens: tiras encharcadas de papelão, um balde amarelo sujo cheio de água, uma variedade de canetas, lápis e marcadores. Uma blusa cinza dobrada servia como travesseiro. Havia mais uma coisa — uma caixa grande feita de madeira. Ele a pegou e empurrou o baú pesado contra meu peito e, não querendo que ele caísse sobre meus sapatos frágeis caso ele soltasse, eu o segurei firmemente com as duas mãos. Eu observei enquanto o jornal era arrancado pela tempestade, sacudindo-se no ar, piscando as palavras Toronto Star para mim antes de desaparecer atrás da névoa.

"Não olhe para dentro. Mantenha a tampa fechada."

"Eu não quero isso, não posso levá-lo no trem", eu gaguejei, e olhei para cima em direção a ele — mas ele não estava lá. Minha cabeça girou para a esquerda e para a direita. Eu não conseguia localizá-lo, mas eu podia sentir que o olhar do homem feio estava sobre mim, sua figura obscurecida pela cortina de água caindo. Meus óculos não serviam para nada, manchados de chuva. Trac! Um trovão soou, e um relâmpago iluminou a rua, então eu saí correndo para o metrô sem mais uma palavra.

Eu estava na catraca. Eu tentei pegar a tarifa que estava enfiada no meu bolso. Eu não conseguia alcançá-la, eu percebi, porque minhas mãos estavam cheias com a caixa. Um "olá" seco atraiu a atenção do fiscal de bilhetes, e eu passei o baú para ele enquanto eu enfiava o troco na máquina. Tilim-tilim. A porta abriu. Por um momento, alguns segundos pelo menos, pensei em deixar a caixa com o atendente. O baú molhado havia começado a encharcar as mangas brancas impecáveis de sua camisa. Ele olhou para ela intensamente, seu rosto revelando uma mistura de confusão e interesse. Ele estava inspecionando a caixa com mais profundidade do que eu havia feito, e eu fiquei curioso sobre ela também, então a arranquei de volta dele. Eu pisei na plataforma e não encontrei seus olhos enquanto ele me observava partir.

Enquanto eu estava sentado no trem, tentei não encarar a coisa obtusa e desajeitada; pensei que, quanto menos atenção ela recebesse de mim, menos receberia de outros passageiros intrometidos. Olhei ao redor para as expressões exaustas usadas pelos passageiros do vagão, explicadas por uma conferida rápida no meu relógio digital: 7:34 da manhã. Alguns de seus olhos cansados piscaram em direção à minha caixa. Minha cabeça tinha começado a doer. Eu estava apertando a mandíbula.

Eu observei a paisagem urbana melancólica passar enquanto o trem emergia. A janela molhada ocultava os detalhes mais finos, mas eu conhecia a vista; essa era minha rota habitual, claro. Concreto escorregadio espalhado com grafites coloridos preencheu o primeiro plano. Arranha-céus espelhados espiralavam em direção a nuvens gordas, cheias de chuva, e ecoavam o cinza duro do céu nublado. O Lago Ontário podia ser vislumbrado onde uma parede de tijolos em ruínas havia sido substituída às pressas por uma cerca de arame farpado. Sem o sol para iluminar suas águas ondulantes, o Grande Lago se assemelhava a uma laje de pedra lisa. A janela foi consumida pela escuridão enquanto o metrô mergulhava de volta sob a rua — refletido no vidro negro estava eu, minha caixa, e o homem que silenciosamente havia tomado seu lugar ao meu lado.

"Eu vou tirar isso de você", ele disse para mim. A voz dele era um grunhido baixo. Ele era um homem grande. Sua figura imensa ocupava um assento e meio, e embora um assento vazio ficasse à sua direita, sua massa invadia meu espaço. Ele me anulava em altura; onde eu tinha um mísero um metro e sessenta e três centímetros, sua estrutura robusta certamente ultrapassava um metro e oitenta e três. Eu arranquei meus olhos do reflexo dele e não olhei para ele. Balançuei a cabeça "não".

"Por favor?" Ele esticou uma mão grossa e carnuda em direção à caixa, acariciando a madeira molhada. Eu a afastei com um tapa — minha. Enquanto ele recuava, eu me levantei do banco. As portas de metal rangeram pouco depois de eu me levantar. Eu saí apressado do trem, várias paradas antes da minha, para frustrar o ladrão em potencial. Eu caminhei o resto do caminho até o trabalho. Meia milha, apedrejado pela chuva constante.

Minhas botas de borracha faziam barulho de sucção no piso carpetado do elevador. Ping, ping. A água escorria do meu paletó de terno encharcado e gotejava sobre o tapete. Eu apertei nove com meu cotovelo. Eu tinha uma reunião, alguma agitação sobre um projeto futuro, mas queria visitar meu escritório primeiro. Números piscavam em um display vermelho de sete segmentos enquanto o elevador subia lentamente. Um, dois, três — e então o elevador parou. A porta deslizou. Houve um escárnio.

"Nossa, olha você", Deuce disse. Ele levantou o braço até o rosto, cobrindo a boca, e disfarçou sua risada zombeteira como uma tosse. Eu não suportava Deuce. Não ofereci nenhuma gentileza em resposta. Ele segurou sua maleta firmemente e entrou no elevador sem mais uma palavra, embora eu pudesse ver a borda de seus lábios se apertando em um sorriso malicioso. A chefe dele, Helen, ficou atrás dele; seu olhar estava fixado nele, um cenho se formando em seu rosto. Ela acenou com a cabeça para mim em cumprimento. Eu acenei de volta.

O elevador começou a subir, seis andares até o meu, mas apenas dois andares tinham passado quando eu comecei a me sentir inquieto — os olhos de Deuce e Helen estavam sobre mim, eu podia sentir. Sobre minha caixa. Eu apertei o baú com tanta força que uma lasca de madeira se alojou no meu dedo indicador. Ardia vermelho, doloroso. Ai. Para me proteger, e para proteger minha caixa, eu me virei. Eu abaixei a cabeça e me encolhi em volta do baú. Eu encarei os painéis de metal vazios que decoravam as paredes do elevador e a fina costura preta entre eles onde se encontravam no canto. Os dois se mexeram; eles arrastaram os pés, e suas cabeças se viraram para mim, mas eu protegia a caixa com meu corpo trêmulo. Seis, sete, oito, e então nove. Eu corri para dentro do meu escritório.

Eu tranquei a porta, fechei as persianas e apaguei as luzes. Eu fechei as cortinas na janela que dava para a cidade. Eu me sentei na mesa, a cadeira velha gemendo sob nosso peso, e realmente olhei para a caixa pela primeira vez.

Era madeira, sim, mas de que tipo eu não saberia, pois a chuva havia mudado a cor e a textura do grão. Havia duas tiras de couro com fivelas de latão que seguravam a tampa. As bordas estavam gastas e desbotadas, a pele não curada visível através das rachaduras. Havia duas abraçadeiras de plástico, também, feitas de plástico branco canelado. Havia muitos elásticos envoltos na caixa. Cem ou mais tiras finas de borracha bege. Havia um cadeado muito, muito pequeno no fecho dourado da caixa — não era maior que a ponta do meu dedo mindinho.

Este presente estranho é uma caixa que eu não deveria abrir. Ele me disse: não abra. Mas o que havia dentro? Quando eu sacudi o baú, não houve som, parecia vazio. Não havia nada dentro? Por que o homem a havia dado tão ansiosamente — por que todos a queriam tanto? Eu queria saber, eu tinha que saber: nesta caixa, o que havia?

Eu desfiz os fechos de metal e removi as tiras de couro. Eu as virei nas minhas mãos, e no verso macio, elas haviam sido marcadas com uma palavra cada. A primeira dizia cobiça. A segunda dizia inveja. Eu as joguei na cesta de lixo de plástico — então as peguei de volta e as enfiei na gaveta trancada da mesa para que ninguém mais as encontrasse.

Eu peguei um par de tesouras nas abraçadeiras de cabo. Elas também tinham texto. Marcador permanente preto havia inscrito nelas fome e anseio. Elas também foram para a gaveta.

Eu usei as tesouras de novo nos elásticos. Eu poderia tê-los esticado em volta da caixa, um por um, mas eu precisava saber o que havia dentro dela. Eu precisava saber agora. Enquanto eles se encolhiam de volta em pequenos fragmentos de corda elástica, eles fizeram um barulho que, se eu fosse louco, eu poderia dizer que soava como a palavra curiosidade. Mas eu não sou louco, então soou como elásticos estalando. Seus restos foram para a gaveta.

Eu enfiei um clipe de papel torto no cadeado minúsculo. Eu o mexi, enfiei lá dentro, esfaqueei o mecanismo selvagemente; não funcionou. Eu virei a caixa para o lado e peguei meu grampeador de metal. Eu o bati para baixo, e para baixo, e para baixo de novo no cadeado pequeno. Eu o segurei no lugar com minha mão esquerda, apertando-o entre meu dedo com lasca e meu polegar suado. Eu trouxe o grampeador para baixo de novo — eu o trouxe para baixo no meu polegar.

"Estupidez", eu xinguei sob meu fôlego. Mas o cadeado havia se aberto. Eu o joguei na gaveta tão rápido que quase quicou para fora. Eu endireitei a caixa e arranquei a tampa. Rangido. As dobradiças gritaram. Eu estava vibrando de excitação, meus dentes batendo, quando espreitei para dentro.

Havia vazio. Certamente não havia nada.

Eu mergulhei minha mão na caixa, sacudindo-a, e agarrei a falta de qualquer coisa. Mas havia algo. Havia uma palavra gravada no fundo da caixa. Eu a tracejei cuidadosamente com meu dedo, senti cada letra, procurei por mais nas quatro paredes e no topo; mas havia apenas uma.

Esperança, dizia.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Eu já vivi essa vida antes. Você também. Pelo amor de Deus, faça alguma coisa diferente

Eu não sei em que ano você está lendo isso. Mas se for antes de 2089 e se você reconhece o mundo lá fora da sua janela como mais ou menos normal, então pare com o que quer que você esteja fazendo agora.

Você pode quebrar uma rotina. Mandar seu emprego à merda. Não importa se é pequeno ou grande, só precisa ser diferente e algo que você não faz regularmente. O efeito borboleta é real. Eu sei como isso vai soar... porque eu já escrevi isso antes. Eu escrevi isso incontáveis vezes.

Meu nome não importa. O que importa é que eu sou um físico, ou era, antes da instituição para a qual eu trabalhava ser dissolvida. Eu trabalhei em um projeto que não posso nomear, financiado por pessoas que eu nunca conheci. A gente era levado para trabalhar de carro e era vendado sempre que tinha que andar lá fora.

A premissa do projeto era: o que acontece com uma pessoa depois que ela morre se você a trouxer de volta rápido o suficiente? Não era um procedimento médico, você não precisaria de um físico para isso. A gente estava fazendo algo preciso. Parando o coração, mantendo oxigênio no cérebro e induzindo morte clínica por intervalos de trinta segundos a quatro minutos e depois restaurando a função.

Tínhamos um sujeito a quem vou chamar de R. Ele foi compensado. Ele se voluntariou. Ele assinou tudo. E nas primeiras sessões, nada de estranho aconteceu. Aí uma das nossas pesquisadoras júnior notou algo nas gravações.
Ela me puxou de lado numa quinta-feira. Ela tinha estado revisando gravações de três sessões separadas, semanas de diferença, e as alinhou numa linha do tempo começando do segundo exato em que o coração de R voltou a bater.

Em todos os três vídeos, na marca de sete segundos, R deu uma respirada forte pelo nariz.

Aos quinze segundos: ele levantou a mão direita e pressionou o dorso dela nos olhos.

Aos trinta segundos: a mão esquerda dele subiu e coçou, bem de leve, atrás da orelha esquerda.

As mesmas ações aconteceram na mesma sequência em toda sessão, realizadas semanas de diferença. A gente rodou de novo. E de novo. Sete segundos: a respirada. Quinze segundos: os olhos. Trinta segundos: a orelha esquerda. Toda vez. A gente nunca contou para R, achando que se ele soubesse, ele faria de propósito, e a gente perderia os dados. Mas eu não acho que teria feito diferença.

O que a nossa equipe passou a acreditar, depois de três anos de trabalho que eu suspeito ter sido enterrado, classificado, ou simplesmente apagado dos registros, é que você já viveu sua vida antes. E não num sentido espiritual ou metafórico. Eu digo isso literalmente, mecanicamente, do jeito que uma música toca de novo quando você aperta repetir. O tempo não é um rio movendo-se para frente. É uma reta numérica. Infinita em ambas as direções. E sua consciência... seja lá o que for, ocupa um segmento finito dela.

Digamos que você nasceu em 1991 e vai morrer aos oitenta. Seu segmento é 1991 a 2071. Só isso. Esse é seu pedaço da reta numérica. Quando você morre, você não vai para frente. Não há frente para você. Você volta para o começo do seu segmento. 1991. Bebê. Sem memórias. Sem consciência do loop. Você vive cada momento de novo, faz cada escolha de novo, sente cada sentimento de novo, e faz do mesmo jeito, porque você é a mesma pessoa com o mesmo cérebro nas mesmas condições, e as mesmas condições produzem os mesmos resultados.

Matar e reviver sujeitos parece ter criado uma espécie de loop... ou falha. R coçou a orelha porque R sempre coça a orelha. Ele coçou dez mil vezes naquela sala, nos segundos depois de voltar da morte. Ele vai coçar mais dez mil vezes.

Essa é a sua vida. Você já viveu ela antes. Você vai viver ela de novo. Seus filhos... se você tem, ou vai ter, o segmento deles se estende além do seu. Eles se movem um pouco mais para baixo na reta numérica. Os filhos deles, mais ainda. É por isso que a humanidade tem uma história, que o conhecimento se acumula, que a gente constrói sobre o que veio antes: não somos uma consciência em loop, mas uma borda em expansão de loops, cada geração empurrando um pouco mais para dentro do tempo. Os renascimentos infinitos deles cobrem terreno que os seus nunca vão. Mas você está preso a apenas seu pedacinho minúsculo no tempo.

A gente não publicou nada. Mas alguns de nós continuaram trabalhando informalmente, e eventualmente, através de uma combinação de métodos que não vou entrar aqui, chegamos à seguinte conclusão: O loop não é hermético. Existem o que chamamos de pontos de ramificação. Momentos de genuína aleatoriedade. São eventos realmente, fisicamente caóticos cujos resultados não são determinados pelo estado prévio do universo.
Esses são raros. A maioria das suas escolhas não é livre em nenhum sentido significativo. Você é uma máquina complexa rodando um programa. Mas ocasionalmente, dado que o espaço amostral é grande o suficiente, ruído aleatório é capaz de entrar. Se você age nesse ruído, se introduz genuína aleatoriedade no seu comportamento. Se você faz algo que o estado prévio do universo, estritamente falando, não exigia de você, você cria um novo ramo.
E nesse ramo, seus infinitos renascimentos futuros correm diferente.
Você ainda está em loop. Isso não para. Mas você está em loop através de uma vida diferente.

Eu preciso te contar sobre o mundo de onde eu estou escrevendo. Eu quero que você entenda para o que você está indo em loop.
O mundo é controlado por três entidades que não são o governo. Governos foram úteis (pode soar como uma piada para você) por um tempo e aí não foram mais. Essas entidades não são empresas em nenhuma forma que você reconheceria. Elas são mais como climas. Você não pode interagir com elas, só existir dentro delas. Dissidência não é ilegal. Simplesmente não é possível de nenhuma forma que importe.
Os mecanismos de ação coletiva foram erodidos tão incrementalmente, ao longo de tantas décadas, que a maioria das pessoas que estão vivas agora não tem memória funcional de como esses mecanismos pareciam quando funcionavam. As pessoas que se lembram são velhas e cansadas e estão cansadas há muito tempo.
Existem crianças nascendo agora que nunca vão conhecer um pensamento não monitorado. Porque a arquitetura de tudo que elas usam para pensar, se comunicar e entender o mundo foi construída para fazer com que certos pensamentos não ocorram a elas. É mais elegante que vigilância. Vigilância implica que elas têm algo a esconder. Mas assim, elas simplesmente não têm nada a esconder, porque o esconderijo nunca foi construído.

A coisa que poderia ter parado isso não foi uma revolução. Só aleatoriedade, ruído puro pode atrapalhar o caminho dela. A resistência de pessoas que continuaram fazendo coisas inconvenientes. Eu não posso te dizer a uma coisa para resistir ou a uma coisa para fazer. Eu só posso te dizer que a direção foi estabelecida muito cedo, e que foi estabelecida pela vida ordinária. Pelo que as pessoas escolheram quando achavam que ninguém estava escolhendo nada.

Aqui está o que eu estou te pedindo para fazer, e não é para salvar meu mundo. Você não pode salvar meu mundo. O ramo em que eu estou, o ramo principal, é o que é. Toda versão de mim, em todo loop, escreve esse post num prédio se escondendo do "clima". E toda versão de você em todo loop no meu ramo lê tarde demais ou não lê de todo ou lê e concorda e não faz nada. Essa versão de você vai continuar em loop no ramo principal, em todas as suas iterações infinitas. Me desculpe. Eu não consigo consertar isso.

Mas a versão de você lendo isso agora, essa noite, pode ramificar. Você não precisa mudar o mundo. Você precisa mudar sua própria sequência infinita de mundos. Você precisa sair do ramo principal. Então faça merda aleatória. Eu sei como isso soa. Mas eu passei anos vendo um homem coçar a orelha esquerda em exatos trinta segundos depois de ser trazido de volta da morte. Eu vi como é quando uma vida está rodando um programa.

Nós somos todos R. Nós todos estamos coçando nossas orelhas. A questão é se você está disposto a levantar uma mão diferente. Eu não vou ver se você fizer... eu nunca vou saber. O ramo para o qual você se move não é um lugar que eu possa seguir. O ponto inteiro é que ele se torna uma história diferente, e eu não estou nela, e a versão de você que vive essa história nunca vai saber que é diferente porque não vai se lembrar dessa versão.

Essa é a última coisa que eu quero dizer, e é a coisa que me mantém acordado através de mais noites sem sono do que eu consigo contar: Você não vai se lembrar de ter feito a escolha. A versão de você renascida no novo ramo não vai saber que deve isso a um blog ou a um post num site. Ela só vai viver uma vida diferente. Você não se beneficia diretamente disso. O você que se beneficia não é o você que age. E ainda assim, algo nisso soa como a coisa mais próxima de graça que eu já encontrei. A ideia de que uma versão de você pode ser livre por causa de uma escolha que você nunca vai se lembrar de ter feito. Isso vale alguma coisa. Eu tenho que acreditar que isso vale alguma coisa. Por favor. Faça algo que você não consiga prever.

Não espero que esse post continue no ar. Não espero que a maioria de vocês acredite nele. Mas eu já escrevi isso antes e vou escrever de novo, e numa dessas ocasiões infinitas, talvez para um de vocês, ele vai cair diferente.

Carona Compartilhada Pode Ser Perigosa

Tô fazendo carona compartilhada há alguns meses. Algumas pessoas parecem amar isso, mas pra mim é só um trampo de meio período. Busco alguém, passo por um papo furado constrangedor, ou um silêncio constrangedor, e deixo a pessoa. A gente acostuma.

Essa semana aconteceu uma coisa que me deixou no hospital. Ainda tô tentando processar, mas pensei que escrever sobre isso poderia ajudar.

Umas 23h40, uma notificação apareceu no meu celular [2 min (0,8 km) de distância · 5,0 ★].

Quando cheguei no local da busca, um cara alto saiu andando pra dentro da luz de um poste piscando. Abaixei o vidro enquanto parei o carro. "E aí, mano, cê tá esperando um Uber, é o John, certo?"

Ele não levantou a cabeça, mas começou a andar até a porta do carro. Sinceramente, nada tão estranho, ainda mais tarde da noite. Pelo retrovisor, tentei dar uma olhada no rosto dele por baixo do boné, instinto humano, acho, mas não vi nada. Ele enfiou o corpo magrelo pela porta do carro, mantendo o olhar fixo no chão o tempo todo.

Decidi não encher o saco e deslizei o [iniciar viagem] no app. Ele tava indo pro parque público, uns 5 minutos de distância. Quando saí do meio-fio, minha escolha consciente de não me intrometer virou uma pergunta inconsciente, "O que que tem no parque? Tem algo lá que eu devia conferir?"

Olhei no retrovisor de novo, e na luz fraca, dava pra ver só a parte de baixo do rosto dele, o queixo, a boca.

Era nojento.

Através da barba por fazer, um líquido laranja grosso tava vazando da boca escancarada dele, passando por uns dentes amarelos tortos que se projetavam pra todos os lados possíveis. Era como se alguém tivesse tentado encher a boca dele com o máximo de dentes que cabia. O rosto dele tava coberto de um monte de feridas abertas que escorriam, quase como se alguém tivesse cravado as unhas na cara dele.

Ele pareceu perceber que eu tava olhando pra ele.

Desviei o olhar do banco de trás e voltei pra estrada. A gente tava desviando pro lado da rua, era um milagre eu não ter batido em nada. Tentei ajustar o carro rapidamente, mas o barulho dele se mexendo no banco de trás dificultava focar.

Uma mão agarrou um punhado do meu cabelo e começou a puxar pra trás. Minha cabeça foi jogada pra trás no encosto de cabeça, fazendo o carro guinar de repente de novo. O passageiro foi arremessado contra a lateral do carro com um som pesado de esmagamento.

Tentei retomar o controle do carro mais uma vez, procurando um lugar pra encostar sem ser atropelado. Um som começou a ecoar pelo carro, mãos cravando as unhas nos bancos, tentando se reequilibrar.

Mas, outra coisa também. Algo horrível, um arranhar e raspar vindo do homem. Baixo, mas ficando mais alto a cada segundo. Ele tava soltando uma risada grotesca, xaroposa, que parecia lutar pra passar por aquele líquido laranja jorrando da boca dele. Meu peito ficou apertado, como se tentasse segurar a força do grito que eu ainda não tinha gritado.

Tentei abrir a porta do carro, mas ele agarrou meu braço e tentou me puxar de volta com toda força. Alcancei o outro lado do corpo pra tentar pegar o spray de pimenta que eu guardava no porta-luvas. A risada dele encheu o carro inteiro, ecoando no interior, enchendo minha mente de visões do que ele podia fazer se eu não saísse daquele carro AGORA MESMO. Aí parou.

Ele bateu as mãos nos meus ombros, me segurando no lugar.

O grito que tava se formando no meu peito finalmente escapou, "ME SOLTA, QUE PORRA— O QUE CÊ TÁ FAZENDO? POR QUE CÊ TÁ FAZENDO ISSO!" Eu me debatia, tentando me soltar do aperto dele, mas o aperto dele só ficou mais forte.

O rosto dele tava colado no meu agora. A umidade do meu rosto cheio de lágrimas se misturando com aquele líquido grudento que cobria o dele. Ele sabia que tinha me prendido onde queria. Ele falou pela primeira vez, direto no meu ouvido, um sussurro baixo e faminto, crepitando e borbulhando a cada sílaba que ele parecia forçar pra fora. "Praa onde cê vai, eu preeeeciso de você."

Ele mordeu meu ombro, rasgando a carne e mandando ondas alternadas de dor e medo pelo meu corpo. Com a pouca energia que ainda me restava, pisei fundo no acelerador, fazendo o carro disparar pra frente.

Nós voamos pela rua e batemos na parede de uma loja de conveniência.

Os airbags explodiram na minha cara e minha consciência começou a sumir. Nos meus últimos momentos de consciência, ouvi um som de ar sendo puxado vindo do banco de trás, a porta abrindo, e uma massa grande caindo do carro.

Acordei alguns momentos depois, sendo puxado pra fora do carro por uma mulher de uniforme verde, o rosto dela pálido e suado. "Ai meu Deus, ai meu Deus, você tá bem? Quem era aquele cara?"

Tentei responder, mas minha boca parecia cheia de cola, e minhas palavras saíram meio sem forma.

Uma ambulância chegou alguns longos momentos depois e me trouxe pro hospital, onde fiquei me recuperando nos últimos 2 dias. Os médicos dizem que é um milagre eu não ter me machucado mais no acidente, mas tem uma coisa que não para de me incomodar.

Minha saliva está laranja.
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Eu provavelmente estou prestes a confessar um crime. Não, vários crimes. Porra. Eu não devia dizer nada, mas vou dizer. Tinha que haver uma ...