“Nada importa quando você está na praia vivendo o sonho que nunca imaginou que se tornaria realidade!”, dizia a mulher no comercial. Eu não conseguia parar de pensar em quem não gostaria de uma vida assim. Eu só queria chegar em casa e dormir. Os turnos da noite eram os piores para mim. Eu trabalhava como ajudante de cozinha em um restaurante, e meu trabalho era uma merda: levava bronca quando os ingredientes acabavam ou quando as entregas de hortifrúti atrasavam. Naquela noite, levei a cartela completa: produto ruim que chegou estragado e eu levando esporro por erro de outra pessoa.
O trem do metrô seguia zumbindo e eu olhava a cidade passando sem o menor interesse. Havia poucas pessoas no vagão, nada chamava atenção e eu preferia assim. Chegou minha estação, desci. Eu era o único — o que não era estranho, já que eram 3 da manhã. Comecei a caminhar em direção às escadas para sair da estação quando as vi: uma mãe e uma filha paradas no fim do corredor, olhando para a cidade. Pareciam qualquer moradora de rua da cidade — sujas, perdidas. Não dei importância e segui para as escadas. Foi quando senti um cheiro estranho.
Eu conhecia muito bem aquele cheiro: carne podre. Era tão característico que tive de parar de novo e olhar em volta. Tentei identificar de onde vinha, mas não consegui. Olhei para ver se o casal ainda estava lá, mas elas tinham sumido. Isso começou a me deixar arrepiado. Apressei o passo para as escadas e ignorei qualquer outra coisa. Ao chegar às escadas, lá estavam elas de novo, agora na base, olhando para cima, na minha direção. Seja lá qual brincadeira de mau gosto fosse aquela, eu não queria participar. Continuei descendo as escadas e fiz o possível para ignorá-las. Na base, passei direto por elas. O fedor de carne podre estava tão forte que tive de levar a mão à boca. Não olhei uma segunda vez e segui andando.
Enquanto passava pelas lojas fechadas e outros prédios, eu tinha a sensação constante de que estava sendo seguido. Olhava para trás e não via ninguém além do normal. As ruas estavam silenciosas àquela hora da madrugada. Apressei o passo até o prédio, olhando para trás de tempos em tempos. Chegando ao edifício, parei na entrada para olhar em volta: ninguém. Ao me virar para entrar, lá estavam elas outra vez — paradas na frente do elevador, me encarando. Seus rostos pareciam encovados, como se não comessem há dias ou semanas; a pele quase branca, as roupas rasgadas em vários lugares e imundas. Meu apartamento ficava no segundo andar. Ao vê-las, mudei de direção e fui para a escada. Elas me observavam. Eu não fazia ideia de como tinham conseguido me ultrapassar na rua e não queria parar para perguntar.
Subindo as escadas, eu ficava olhando para baixo e para cima o tempo todo, verificando se estavam me seguindo. Toda aquela situação estava me deixando apavorado. No segundo andar, espiei pela porta até o corredor para ver se tinham usado o elevador. O caminho estava livre. Entrei, caminhei até meu apartamento e comecei a mexer nas chaves. Minhas mãos tremiam tanto que encontrar a chave certa virou uma missão. Chegando à porta, abri os três trincos enquanto mantinha um olho aberto para elas. Abri a porta e foi aí que o cheiro me acertou em cheio: carne podre. Dei um pulo para trás e quase gritei.
O apartamento estava escuro, com pouca luz entrando do corredor e das janelas. Procurei ver se havia algo lá dentro que pudesse ser a fonte do cheiro, mas não enxergava nada. Entrei devagar, passando a mão na parede à procura do interruptor. Encontrei e acendi as luzes. O apartamento estava exatamente como eu havia deixado no dia anterior: nada fora do lugar, nenhuma evidência de que alguém tivesse entrado. O cheiro ainda pairava no ar. Tampei o nariz e a boca com a mão e comecei a vasculhar o lugar à procura da origem.
Não havia nada no apartamento que pudesse estar causando aquele fedor. As saídas de ventilação eram pequenas demais para eu abrir e verificar. Saí do quarto e lá estavam elas, paradas na pequena sala de estar. Perguntei o que queriam. Elas apenas ficaram lá, imóveis. Perguntei como tinham entrado no apartamento, mas não se mexeram. Eu estava começando a ficar mais irritado do que com medo.
Avancei até ficar a um passo delas e perguntei, em voz mais alta:
— Que porra é essa com vocês duas? Por que estão me seguindo?
Nada.
— Quem caralho mandou vocês?
Nada.
Avancei para agarrar a mulher e, antes que eu pudesse tocá-la, uma onda de dor me atingiu como se um caminhão tivesse me atropelado. Fui jogado para trás e bati na parede. Elas não se mexeram, só continuaram me encarando. A dor começou no peito e se espalhou por todo o corpo. Era como se eu estivesse sendo esmagado por dentro. A sensação era amortecida, mas ao mesmo tempo minha força estava sendo sugada. Caí no chão e perdi a consciência.
De repente, me vi em algum tipo de campo. Parecia uma encosta de morro. O céu era de um cinza estranho, sem vento, apenas uma paisagem parada e imóvel.
Eu não conseguia entender por que ou como tinha chegado ali. Só sabia que estava parado, confuso. Comecei a andar em uma direção qualquer e percebi que minhas pernas se moviam, mas o chão não. Olhei em volta tentando entender o que estava acontecendo e então percebi que estava afundando. O solo parecia mãos agarrando minhas pernas e me puxando para baixo. Gritei com a sensação de ser arrastado para baixo. Tentei me segurar em alguma coisa e percebi que estava segurando uma mão — e aquela mão também estava me puxando. Seja lá que sonho doentio fosse aquele, eu não entendia nada. Só sabia que estava sendo puxado para baixo.
Acordei gritando. Olhei em volta: as duas tinham sumido e já era dia claro. Peguei o celular — estava descarregado. Verifiquei o horário: 11 da manhã. Eu já estava atrasadíssimo para o trabalho, mas nem liguei. Olhando para baixo, vi terra e grama grudadas nos meus pés. Peguei uma folha de grama e era idêntica à do sonho. Seja lá o que aquelas duas fossem, eu não queria descobrir. Levantei e praticamente corri para fora do apartamento. Depois de alguns passos, parei, voltei, tranquei a porta e continuei correndo escada abaixo. Lembrei que havia um templo no caminho para casa e decidi que era minha melhor opção.
No caminho, comecei a notar que os rostos das pessoas pareciam estar derretendo. O mundo inteiro parecia estar se desfazendo na minha frente. Eu não conseguia andar em linha reta sem esbarrar em pessoas ou objetos. Finalmente cheguei ao templo. Procurei um padre e o encontrei. Contei tudo o que tinha acontecido. O que ele respondeu não fez sentido na hora porque desmaiei de novo.
Acordei em um quarto, deitado sobre um tatame. Aos meus pés, um único incenso queimava. Tentei me sentar, mas uma dor aguda nas costas me fez cair de volta. Tentei falar, mas minha garganta ardia com o esforço. O padre entrou e sentou-se ao meu lado.
— Percebi que algo se agarrou à sua alma enquanto você tentava falar comigo. Era como se três pessoas estivessem falando ao mesmo tempo. Quando recitei uma oração, você desmaiou. Precisei purificar sua alma e seu corpo. Parece que duas almas perturbadas escolheram possuí-lo. Não sei quem elas podem ser, mas se você não tivesse vindo até aqui como veio, temo que elas poderiam ter tomado conta de você completamente.
Tentei falar novamente, mas não consegui. Ele me deu um copo d’água e depois um chá quente. Isso aliviou a dor e, finalmente, consegui contar toda a história da noite anterior. Ele ouviu em silêncio. Quando terminei, a única coisa que perguntou foi em que dia aquilo tinha acontecido. Respondi que foi na madrugada de quinta-feira. Ele me disse que era terça-feira. Eu tinha ficado inconsciente por cinco dias. Fiquei em choque total.
— Você precisará ficar aqui por mais um dia para que possamos completar as orações. Caso contrário, elas podem tomar conta de você por completo. Ainda é um mistério quem elas são, mas vou lhe dizer uma coisa: o cheiro que você mencionou pode significar que você passou por cima do local onde elas foram enterradas ou que você foi a última pessoa que elas viram antes de morrer.
Expliquei que eu era apenas um ajudante de cozinha em um restaurante, não um assassino. Mesmo assim, ele insistiu que tudo poderia ser apenas uma coincidência. Tudo o que sei é que perdi meu emprego e poderia ter perdido muito mais se não tivesse ido ao templo como fui. Seja qual for o caso, tive sorte de continuar vivo.

