terça-feira, 10 de março de 2026

Não há honra em vencer o seu visitante

O Apostador é uma daquelas lendas urbanas que fazem todo mundo parar pra conversar. Se você lembra da loucura da Bloody Mary de uns anos atrás, o Apostador teve um efeito igualmente contagioso na gente, os jovens. A história de como essa lenda urbana específica surgiu varia bastante dependendo de quem conta, mas o jeito certo de invocar e o ritual que vem depois são basicamente idênticos, não importa pra quem você pergunte. Não importa se o Apostador é do tipo “mulher de branco”, um poltergeist vingativo ou o próprio diabo. A única coisa que realmente importa é o que ele faz dentro do contexto desse ritual.

Olha só, existem certas coisas que a mente humana foi feita pra esquecer. A consciência é o oposto do que não dá pra entender, então faz todo sentido a gente não saber direito o que se esconde no escuro justamente por causa dessa incompreensibilidade. Eu sou a única pessoa que conheço que já venceu o Apostador, e mesmo assim a verdadeira natureza dele continua um mistério pra mim. Claro que eu poderia só contar tudo isso, pedir pra você confiar na minha experiência e depois pedir sua confiança de volta de que você não vai mexer com essas coisas. Mas eu também já fui curiosa pra caralho. Depois de tudo que rolou, eu sei que a única forma de impedir mais tragédia é contar exatamente o que aconteceu comigo.

Mesmo que quase todo mundo que conhece o ritual saiba mais ou menos a versão certa, pouca gente entrega a informação de bandeja. Embora isso pareça contraditório, eu vou te passar o processo exato de invocação e as regras que eu usei pra vencer, só pela documentação:

O jogo que você escolher tem que ser colocado do seu lado do limiar de um possível “portal”, mas o espaço entre o tabuleiro ou o baralho não pode passar de um pé, senão a invocação não funciona. Nota importante: espiritualmente, limiar costuma ser porta, espelho ou janela. Eu usei uma janela.

Duas velas têm que ser colocadas do seu lado do limiar, uma na esquerda e uma na direita. Às vezes o Apostador é um péssimo perdedor, então isso é sua proteção; se você fizer certo, ele não consegue cruzar a linha invisível que surge entre as velas. Só que se as velas ficarem muito perto do limiar, o Apostador não vai conseguir jogar direito o seu jogo porque não alcança as peças dele, mesmo que o resto do ritual esteja perfeito. Lembra: isso significa que as suas próprias mãos vão ficar expostas pra ele durante a sua vez.

Seu jogo tem que ser de estratégia. Damas, xadrez e alguns jogos de carta funcionam bem. A sorte tem que ser o mínimo possível, porque é uma força que o Apostador manipula fácil, igual um poltergeist mexe no mundo físico.

Você começa o jogo falando “Eu não consigo jogar isso sozinho, senta aí no limiar da minha casa” três vezes.

Você termina o jogo apertando a mão do Apostador. Pra mim, esse foi o passo mais foda de todos, porque você é obrigado a enfiar parte do corpo pra além das velas. Se você vencer, o Apostador tem que estar calmo o suficiente pra você finalizar o jogo e selar o limiar. Se você sair sem fazer esse passo final, ele pode ir atrás de você assim que as velas apagarem.

Você não pode sair até o ritual estar completamente cumprido. Cuidado: olhar pra trás também conta como sair.

Não há honra em vencer o seu visitante, e existem consequências pra quem perde pra ele.

Entender essas regras e saber por que você deve temer quebrar qualquer uma delas é essencial pra você sobreviver. É por isso que eu vou te dar todo o contexto agora.

No verão antes do primeiro ano do ensino médio, minhas melhores amigas Abigail, Brynn e eu mesma revezávamos fazendo um monte de noites do pijama e outros rolês gerais. Depois do fundamental, as duas iam pra escola pública do bairro enquanto meus pais pagavam pra eu estudar numa escola só de meninas. Eu tava morrendo de medo que elas fossem me esquecer, então garanti que a gente passasse o máximo possível daquele verão grudado uma na outra. Hoje, olhando pra trás, vejo que foi um desespero absurdo da minha parte, mas quem pode me julgar? Eu tinha treze anos. Abigail, Brynn e eu formamos uma espécie de irmandade pra aguentar as merdas do ensino fundamental. Aquele apoio todo estava prestes a ser arrancado de mim.

Enfim, como a gente passava tanto tempo junto e meu nome era Charlotte, nossos pais começaram a chamar a gente de “as ABCs”. Sacou? Abby, Brynn e Charlie. As ABCs. Um trio icônico pra caralho.

Alguns dias a gente passava no shopping, só olhando vitrine e experimentando roupa porque tinha treze anos e dinheiro era pouco. Outros dias a gente ia nadar na piscina pública. Quando não tinha mais ninguém, a gente brincava de sereia escondido. Com treze anos já, a gente teria levado a maior zoação se alguém descobrisse. Entre outras coisas daquele verão, a gente conversava. Conversava tanto que quase não sobrava mais assunto. Nós três passamos tanto tempo juntas que os dias derretiam uns nos outros que nem pote de plástico cheio de sopa grossa no micro-ondas. No finalzinho, a gente tava só arrastando os últimos dias de férias. Eu te conto tudo isso pra você entender o quanto a gente tava entediada pra valer.

Um daqueles dias virou uma noite de pijama na minha casa. Foi a Brynn que sugeriu que a gente testasse uns jogos sobrenaturais. Depois de discutir um pouco, a gente sabia que clássicos da internet tipo o Jogo da Meia-Noite estavam fora porque não tínhamos nada preparado. Ouija também tava fora porque eu não tinha tabuleiro. Abigail falou do jogo do Livro Vermelho, mas não achamos nenhum livro vermelho de capa dura, então ficou fora também. No fim, a gente decidiu pela Bloody Mary.

Primeiro a gente se apertou toda no banheiro. Porta fechada, luz apagada, todas nós falamos “Bloody Mary” três vezes de olhos fechados. Quando abrimos, ficamos completamente decepcionadas. Eu sugeri que talvez funcionasse se fizesse uma de cada vez, porta fechada — metade porque parecia uma boa ideia e metade porque ouvir minhas amigas se cagando de medo sozinhas ia ser hilário. Elas toparam. Brynn foi primeiro, sem medo nenhum. Abigail e eu ficamos escutando na porta, mas só ouvimos ela falando “Bloody Mary” três vezes. Depois era a vez da Abigail, mas ela se acovardou, então eu fui na frente dela. Igual eu imaginei que tinha rolado com a Brynn, não vi porra nenhuma. Mesmo que eu e a Brynn jurássemos que nada aconteceu, a Abigail ainda não quis fazer sozinha. A gente não forçou.

Uns quinze minutos depois, a Brynn sugeriu que a gente tentasse o Jogo do Apostador. Ela explicou as regras pra mim mais ou menos como eu acabei de explicar pra você. Como só uma pessoa pode jogar de cada vez, ela me escolheu pra ir primeiro porque eu era a melhor em jogos de estratégia das três.

Começamos a juntar o material: velas do estoque da minha mãe, caixa de fósforo da gaveta da cozinha e o jogo de xadrez de mármore dos meus pais. As velas foram fáceis, só estavam num armário no quarto deles. O fósforo também foi moleza porque meus pais estavam vidrados no seriado favorito deles aquela noite. Eu mandei a Brynn e a Abigail arrastarem minha escrivaninha pra frente da janela enquanto eu pegava o tabuleiro de xadrez — que foi a única parte complicada da operação. Eu não tive coragem de levar o tabuleiro inteiro de uma vez pra não arriscar derrubar nada. Por isso, acabei levando as peças de duas em duas pro meu quarto. Só quando todas as peças estavam seguras na escrivaninha é que eu trouxe o tabuleiro.

Depois que tudo estava montado, eu expulsei minhas amigas do quarto. Elas riram, reclamaram, mas acabaram obedecendo. Quando finalmente fiquei sozinha, sentei e recitei as palavras.

Por um segundo eu achei que o ritual não tinha funcionado. Na escuridão fraquinha da noite, eu soltei o nervoso do corpo. A ansiedade voltou multiplicada por dez quando todos os postes de luz da minha rua pareceram ser apagados de uma vez só. O silêncio que veio depois mostrava que a energia não tinha caído; aquele zumbido baixo de eletricidade que a gente aprende a ignorar ainda tava lá. Eu percebi que não era que as luzes tinham sumido — era como se todas as luzes externas da minha vizinhança tivessem sido cobertas ou sentadas por um manto gigante. Um único pensamento martelava na minha cabeça: quem diabos estaria usando um manto daqueles?

Eu forcei a vista pro breu total e comecei a ver rostos surgindo, então fechei os olhos rápido e virei o rosto. Quando abri de novo, evitei olhar direto pra boca escancarada da janela aberta.

Aí eu vi um único peão branco se mover uma casa pra frente. Precisei olhar bem pra conseguir ver de relance uma mão escura segurando o topo dele pra mover. Do lado de fora da janela estava tão preto que eu não conseguia distinguir o céu da coisa que eu tinha desafiado.

Os detalhes do resto do jogo de xadrez não importam, exceto o momento em que eu usei meu cavalo pra dar um garfo no bispo e na torre dele. Da escuridão veio um rosnado baixo que ecoou pela rua inteira. Pelo canto do olho vi a luz debaixo da porta piscar. Ouvi minhas amigas gritando de algum lugar da casa. Isso me deixou em pânico total; ninguém tinha me avisado que o Apostador conseguia fazer isso. Mesmo sem saber se ele estava realmente machucando elas ou se era só teatro ou efeito colateral da raiva dele, eu era muito supersticiosa. Eu não ia quebrar as regras e ir checar minhas amigas nem se elas estivessem sendo torturadas um pouquinho. Sim, era exatamente assim que eu pensava na época. Eu era um pesadelo pra criar.

O Apostador moveu a torre dele pra segurança, eu peguei o bispo com meu cavalo e ele pegou meu cavalo com a rainha. Uma troca limpa, mas que ainda valia alguma coisa.

Quando eu finalmente venci, o Apostador tentou se mandar na hora. Eu vi a luz dos postes voltando e o céu ficando um preto um pouco mais claro. Foi aí que eu entendi — ele estava tentando vazar sem terminar o ritual! Eu estiquei o braço por cima do tabuleiro e entrei naquele mar escuro que era o ar na minha frente. Estiquei, estiquei, agarrei, agarrei. Tropecei pra frente, caí de quatro e me arrastei pela janela. Não adiantou. A luz voltou e eu fiquei sozinha de novo.

Pois é, eu tinha ganhado o jogo… mas não tinha terminado o ritual. Só isso já deixou minha vitória completamente inútil.

A partir daquele dia, a sorte virou minha inimiga. É isso que o Apostador faz. Hoje, mais velha, eu nem consigo contar quantos pets morreram, quantos empregos perdi, quantas cirurgias deram errado e outras merdas do tipo. É como se ele conseguisse enfiar a mão nos cantos da realidade e mudar o número da sorte de uma pessoa. Hoje à noite eu tô tentando reconquistar a minha vida.

Se eu voltar vitoriosa ou se for arrastada pro fundo do inferno, presta atenção nas minhas últimas palavras: a lição que você tira da minha história não é que eu acho que você tem que ficar longe de feitiçaria ou bruxaria pra sempre. Você só precisa entender e aceitar as consequências das suas ações. Esse ritual não é só uma ligação pro outro lado — é um convite pra o outro lado vir fazer uma visita domiciliar na sua casa.

Tenho alguns minutos antes do meu voo embarcar. Preciso que alguém saiba o que aconteceu...

Como conselheira familiar, já vi a humanidade no seu pior absoluto.

Pais alcoólatras descontando a frustração em crianças indefesas. Adolescentes com dismorfia corporal que mal chegam aos quarenta quilos e estão convencidas de que são obesas. Garotos atolados em subculturas obscuras da internet se cortando os pulsos com canivetes. Mães que tentam suicídio depois de sobreviver uma década de amor não correspondido só pra serem trocadas por uma versão mais nova.

Eu poderia entrar em detalhes absurdos sobre casos específicos que você nem acreditaria, e depois disso você nunca mais conseguiria andar por uma rua de subúrbio sem ficar imaginando o que diabos está acontecendo por trás daquelas cortinas. Mas não vou. Vou poupar sua imaginação. Em vez disso, deixa eu te contar sobre a minha visita domiciliar mais recente — que, por acaso, tenho certeza que vai ser a última da minha vida.

Estacionei em frente ao jardim de uma casa bem comum e chequei minha prancheta. Com a caneta, risquei o último endereço da lista e desci do carro. Levantei a aldrava de bronze em formato de esquilo e bati as patinhas traseiras dela três vezes contra a placa de metal. Uma senhora baixa, sorridente, de cabelo acobreado e pés de galinha ao redor dos olhos me recebeu e me fez entrar. O resto da família recomposta já estava sentado ao redor da mesa de mármore da sala de jantar. Sentei no lugar que me ofereceram e olhei um por um para cada membro daquele grupo.

Na cabeceira da mesa tinha um homem grandalhão, cabeça raspada, que me fuzilava por trás de óculos de armação fina. Ao lado dele, uma menina de doze anos de cabelo escuro cujo olhar captava cada tique e cada movimento nervoso dos outros. Atenta, mas calada, ela parecia uma lebre escondida num tufo de grama-das-dunas, torcendo pra raposa passar em paz. O jovem adulto na frente dela era um espetáculo triste pros meus olhos treinados. Pálido, magro feito um varapau, com o olhar baixo de quem já se considera condenado. A mulher que me recebeu — que só podia ser a mãe do rapaz por causa da cor de cabelo idêntica — fechou a porta e sentou.

A sessão começou com aquelas formalidades de sempre e esclarecimento de detalhes rotineiros. Confirmei que o motivo do encaminhamento ainda era válido: a família realmente precisava de ajuda pra lidar com desentendimentos e mal-entendidos, principalmente entre o padrasto e o enteado.

— Então — eu disse, abrindo meu caderno. — Quem quer começar?

Um silêncio ensurdecedor tomou conta. Eu estava prestes a cutucar o grandalhão pra dar a versão dele quando o adolescente abatido falou de repente.

— Eu posso, se estiver tudo bem.

— Claro. Pode falar — respondi, clicando a caneta e encostando na página.

— Teve um incidente ontem à noite em que eu senti que minha privacidade foi invadida — ele disse. O grandalhão jogou a cabeça pra trás feito uma bola de rúgbi e suspirou pesado.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Eu cheguei do trabalho e—

— Ryan, se você não gosta, vai morar com o seu pai — cortou o grandalhão.

A esposa dele e eu pedimos calmamente pra ele esperar, o que fez ele bufar e revirar os olhos. Depois de um segundo pra se recompor, Ryan contou o que rolou na noite anterior. Quando terminei de anotar tudo, pigarreei e perguntei pro grandalhão se ele queria dar a versão dele. Ele ficou lá, emburrado, de braços cruzados bem alto no peito.

— Se ele não gosta das regras, pode ir morar com o pai dele — repetiu.

Vale notar aqui que, em vez de me chamar pelo título e sobrenome como o enteado tinha feito e como a esposa dele havia feito por telefone mais cedo, ele me chamou pelo primeiro nome. Eu não tinha me apresentado assim. Era firmemente “Senhora Sobrenome”. Mas esse cara decidiu que podia fazer o que quisesse. Era revelador. Achando que ele devia ter visto meu nome no crachá pendurado no pescoço, enfiei ele de volta pra dentro do cardigã. Com esses filhos da puta que são arrastados pra terapia familiar aos berros, eles tentam inventar motivos pra fazer a parceira cancelar a sessão. Na hora, eu pensei que ele estava tentando um joguinho de poder pra me desestabilizar, na esperança de que eu me ofendesse ou corrigisse ele. Se eu fizesse isso, ele ia dizer que eu estava sendo parcial e que a coisa toda era inútil. Eu não ia dar essa vitória pra ele. Em vez disso, fiz uma pergunta direta.

— A sugestão de ele ir morar com o pai é um pedido razoável?

— Sim — ele afirmou.

Virei pra senhora de cabelo acobreado e fiz a mesma pergunta. Ela mastigou as palavras por um segundo antes de responder:

— A gente não tem notícia do meu ex-marido… pai do Ryan… faz muito tempo.

Dessa vez foi Ryan quem interrompeu:

— Eu literalmente não vejo ele desde os quatro anos. Não conheço ele. Não sei onde ele está.

Na hora, os olhos fundos do grandalhão incendiaram a lateral da cabeça de Ryan.

— Isso não é problema meu, né? Eu sou o provedor dessa casa, então se você quer morar aqui, VAI FAZER O QUE EU MANDO, PORRA!

Chamei rápido pra calma e virei pra menina assustada, abrindo meu melhor sorriso.

— E você, como está hoje à noite?

— Bem — ela respondeu.

— Imagino que você nunca tenha passado por uma situação parecida com a do seu irmão postiço, né?

A menina fez bico e bateu o dedo no queixo.

— Uma vez eu deixei um doce no quarto quando não podia — disse.

— Alguma medida disciplinar foi aplicada nesse caso?

O olhar da menina correu pela mesa, torcendo pra pergunta ir pra outro lugar.

— Uhh… não lembro — falou.

— Não — disse Ryan. — Ele faz vista grossa pra ela.

O grandalhão se inclinou pro enteado.

— Ela é criança. Você é adulto — sibilou.

Sorri de novo pra menina.

— O que você acha da situação?

— Sobre o doce ou da situação em geral?

— Em geral.

Ela pensou antes de responder.

— Acho que o que a gente tem aqui são duas pessoas com ideologias diferentes — disse.

Ryan caiu na gargalhada, o pai da menina explodiu numa raiva cheia de bile e a madrasta implorou pra todo mundo, pelo amor de Deus, não ser tão provocativo. Admito que fiquei bem chocada de ver uma menina tão nova usando uma palavra tão sofisticada, mas no meu ramo a gente aprende a esperar o inesperado.

— Não! Ele está errado e eu estou certo. É simples assim! — berrou o grandalhão, apertando aquelas mãos enormes até virarem marretas de carne. Fiz uma anotação rápida da reação dele, mas quando ele viu que eu estava escrevendo, abriu os punhos e se acalmou. Quebrei o silêncio que ele tinha imposto falando direto com a menina.

— Sabe de uma coisa? Acho que essa foi a resposta mais inteligente que ouvi hoje. Você está certa. Acho que todo mundo aqui faria muito bem em seguir o seu exemplo.

O grandalhão bufou, mas ignorei e me dirigi agora pra mesa inteira.

— Ela digeriu a pergunta e respondeu de forma objetiva. Quer dizer, ela tirou a emoção da equação e olhou de cima pra baixo. Assim ela conseguiu dar um passo atrás pra realmente pensar como cada lado se sente na briga. Em outras palavras, ela empatizou. Acho que se todo mundo nessa mesa, inclusive eu, vivesse o dia a dia com um pouquinho mais de empatia, o mundo seria um lugar muito melhor.

As crianças balançaram a cabeça concordando com meu discurso e a senhora de cabelo acobreado colocou a mão delicada em cima da pata do grandalhão. Depois disso não teve mais tensão na sessão, e quando nossa hora acabou, levantei e confirmei que voltaria na mesma hora na semana que vem.

Só queria agora que eu não tivesse feito essa promessa. Talvez as coisas tivessem sido diferentes.

Entrei no carro fingindo que não tinha escutado o grandalhão me chamar de “vadia idiota” depois que fechou a porta. No fim de um dia longo fuçando a vida dos outros, minha cabeça foi pras coisas práticas da minha própria vida. Será que meu marido lembrou de comprar alguma coisa pro jantar? Será que levou as crianças pro balé no horário? Será que eu ia ter tempo de fazer a roupa e pendurar antes de dormir?

Assim que a sola do meu mocassim marrom encostou no acelerador, um homem se ergueu de baixo dos bancos de trás do meu carro que nem uma cobra saindo da cesta do encantador.

— Ah — foi só o que eu disse. Gosto de me ver como uma mulher inteligente e capaz. Não tive a melhor infância, e isso gerou um monte de emoções desconfortáveis no começo da vida. Aprendi a descartar instinto e impulso em favor de decisões calculadas. Infelizmente, nessa ocasião teria sido bem melhor ouvir aqueles sinos de alarme distantes tocando na parte animal do meu cérebro que eu achava que tinha dominado.

O rosto longo do estranho encheu o retrovisor: bochechas fundas, queixo fraco, olhos cor de lama. Usava uma camisa xadrez azul, aberta no pescoço, por baixo de um fleece da cor de algas sem oxigênio. Um brilho de diversão apertou os músculos nos cantos dos olhos dele e um dedo pálido subiu pra pressionar aqueles lábios finos feito minhoca no pedido universal de silêncio.

Ele inclinou o pescoço pra frente e sussurrou uma série de palavras sem sentido no meu ouvido, fazendo a língua estalar em todos os cantos da boca. Quando terminou, afundou no couro do banco de trás e ficou olhando pela janela. Tentei falar, mas minha garganta estava selada. Só conseguia respirar pelo nariz. As vértebras e músculos do meu pescoço e ombros me fizeram virar de volta pro volante, e meu pé afundou no acelerador. O assobio rouco do ar entrando e saindo do meu nariz ficou mais alto enquanto eu começava a entrar em pânico. Minhas mãos giravam o volante sem que eu mandasse, e antes que eu me desse conta, chegamos na minha casa. As luzes da cozinha estavam acesas e eu via mãos acenando e cabelo loiro balançando enquanto minhas filhas praticavam a coreografia que tinham aprendido juntas naquela noite, e meu marido provavelmente desviava delas em algum lugar fora de vista com panelas e assadeiras.

A porta do carro abriu e meu passageiro desceu. Fiquei olhando ele andar gingando pela entrada da garagem. As mãos e os pés dele eram absurdamente grandes e as pernas engoliam o chão à frente. Ele inclinou a cabeça longa pra frente e sumiu nas sombras do meu corredor. Não demorou muito pra ele reaparecer, limpando sangue dos cantos da boca. Voltou pro carro e soltou um arroto baixo. Na mão, cuspiu um punhado de dentes de criança e um tufo de cabelo loiro. Um gemido escapou do meu pescoço estrangulado e os olhos divertidos do estranho encontraram os meus no retrovisor.

Ele se inclinou pra frente.

Senti o bafo quente dele fazendo cócegas na minha nuca.

Segurando os dentes com arte na mão de aranha, ele levantou até minha orelha e apertou. Suores quentes explodiram pelo meu corpo inteiro enquanto os dentes da minha filha mordiam carne e cartilagem. Quando ele tirou a mão, sangue escorria livremente pelo meu pescoço, mas ele ainda não tinha acabado. Pegou alguns fios soltos de cabelo e enfiou debaixo da alça do meu sutiã.

— Uma lembrancinha — disse com uma voz suave e culta.

Tentei gritar.

Tentei lutar.

Tentei correr.

Tudo em vão. Qualquer que fosse o feitiço que ele tinha me lançado, segurou firme.

Me dissociando da máquina que meu corpo tinha virado, só voltei pro momento presente quando parei em frente à casa onde tinha feito a sessão de terapia mais cedo naquela noite. Um braço branco e longo arrancou a prancheta de onde estava no banco do passageiro e soltou o crachá do meu pescoço.

— O patriarca daquela casa ali é o resultado de um projeto de gerações meu — sussurrou a voz no meu ouvido. — Eu odiaria que você desfizesse todo o meu trabalho duro.

Se eu conseguisse falar, teria prometido qualquer coisa pra ele me soltar, mas ele pareceu antecipar isso.

— Não sobrou nada pra você aqui agora que sua família sumiu. Só implicações.

Pensei na minha orelha mordida. No cabelo plantado em mim. Sinais de luta. Estavam me incriminando pelo assassinato da minha família.

— Hora de você começar do zero, eu acho. Eu cuido das coisas aqui.

Em vez de devolver minha lista de clientes, ele deixou cair delicadamente uma passagem de avião pra um país do outro lado do mundo no banco do passageiro. Depois desceu, fechou a porta e deu duas batidinhas no teto do meu carro. Fiquei olhando ele ficar menor, parado ali com minha prancheta encostada na barriga, enquanto eu dirigia embora, lágrimas escorrendo pelo rosto.

Agora, aqui na sala de embarque do aeroporto, digitando isso, estou testando os limites da minha autonomia. Como eu disse, ainda consigo chorar. No caminho pra cá, no meio de um ataque de pânico louco, descobri que minha bexiga ainda consegue esvaziar se meu nível de medo chegar num certo ponto. Os seguranças do raio-X torceram o nariz pro cheiro de urina seca, mas só me mandaram pros portões.

Consigo usar o celular, mas não consigo ligar pros serviços de emergência. Meu cérebro manda o sinal, mas o dedo não mexe. É bizarro. Até tentei digitar o número de emergência de outros países, mas não consigo fazer isso também.

Acabaram de anunciar que meu voo está embarcando, então vou digitando enquanto ando.

Pensando bem, é meio estranho eu ainda estar assim.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Meu chefe escoteiro nos mandou numa missão suicida sem nem perceber

É uma merda que a gente, os moleques, tenha que resolver o que adultos despreocupados deviam ter resolvido sozinhos. Foi exatamente isso que meteu eu e o Kurt na merda desde o começo.

A gente tava no acampamento de verão dos escoteiros. Dois dos moleques mais novos, o Dylan e o Joey, tinham saído pra ganhar a insígnia de mérito de “sobrevivência na natureza”, que consistia em passar 24 horas no mato sem contato com ninguém. Deram pra eles uns itens pra ajudar: duas facas de bolso, umas garrafinhas de água, algumas barrinhas de proteína, duas lanternas e um rolo de barbante.

Eram duas da manhã quando o Dylan voltou correndo pro acampamento. Foi direto pra barraca do chefe escoteiro Rusty e acordou o cara. Aí o Rusty veio direto pra nossa barraca e acordou a gente.

“Vocês dois precisam se levantar e descobrir o que aconteceu com o Joey. Ele tá apavorado com alguma coisa”, disse o Rusty, com a voz rouca e cansada.

Eu me sentei e esfreguei os olhos. “Hã? O que a gente tem que fazer?”

“Vão lá e encontrem ele. Certifiquem-se de que tá tudo bem. O Dylan disse que encontrou uma aranha grande e… bem, vocês sabem como ele é com essas coisas.” Ele olhou pra nós dois.

O Kurt murmurou baixinho que o Joey era uma putinha.

Eu falei rápido pra cobrir o comentário do Kurt. “Isso não ia desclassificar ele da insígnia de mérito? E cadê o Dylan?”

“Ele não quer admitir, mas acho que ele também se assustou. Agora não sai mais da barraca.” O Rusty apoiou a mão na testa vermelha e enrugada. “De qualquer jeito, o Joey não pode ficar lá sozinho. Insígnia de mérito que se foda.”

Foi só isso. Botamos as botas e nossos pés já tavam andando no meio do mato fechado. O Kurt tava mais puto com a situação do que eu, achando que o sono dele valia mais que dois adolescentes chorões de 15 anos. Pra um quase-18, um escoteiro mais novo era basicamente uma formiga.

Enquanto seguíamos a trilha até onde devia ser o abrigo deles, a floresta foi se abrindo e a vegetação baixa virou um chão pelado de agulhas de pinheiro. As árvores altas tavam espaçadas o suficiente pra gente ver um pouco do luar, mas não o bastante pra confiar só nele. Quando as lanternas iluminaram um tronco grande e podre que servia de marco pro abrigo, a gente saiu da trilha principal e andou perpendicular a ela, bem fundo no mato sem marcação.

“Esse moleque sempre me irrita pra caralho, cara. Juro por Deus”, soltou o Kurt.

“Ele não tem 14 anos? Você também era um pé no saco nessa idade.” Minha voz ecoou entre as árvores.

“Joey e aquele suéter amarelo feio pra porra.” Ele me olhou com nojo. “Foda-se. Tudo isso por causa de uma aranha só… que idiotice.”

“A gente só pega ele e volta, fácil. Não vai dar nem 20 minutos”, eu disse, tentando me convencer de não ficar puto também.

Depois de quase 15 minutos andando fora da trilha — bem mais do que a gente esperava —, a lanterna do Kurt finalmente parou num telhado baixo de galhos e folhas de pinheiro. Mal ficava de pé, sustentado por um pinheiro fino no meio. Tava bem na nossa frente.

“Joey?” A gente chamou os dois ao mesmo tempo.

Nenhuma resposta.

Iluminando o abrigo de longe, a gente viu que tava vazio. Varremos a área com os cones amarelos de luz, chamando pelo Joey. Enquanto o Kurt agachava pra olhar alguma coisa, eu me aproximei do abrigo.

O Kurt gritou: “Que porra é essa? Acabei de achar a lanterna do Joey, tá morta! Só tá largada aqui no chão!” Ele tava uns 6 metros do abrigo.

Eu abaixei a lanterna, fiquei de quatro e entrei engatinhando no abrigo escuro. No breu, ouvi um barulhinho de arranhado. Tipo folhas farfalhando com vento leve. Quando eu tava bem lá dentro, apontei a lanterna pra frente de novo.

Tinha uma bola grande no chão do abrigo, com uma faca de bolso aberta do lado. Tamanho de bola de futebol, e a superfície parecia areia endurecida. Tinha três cortes visíveis em cima do negócio. Dois rasos e tímidos, e um mais longo e bem fundo que mostrava o interior oco. Eu peguei a faca.

Quando um monte de pernas pretas e finas saiu do buraco, eu me assustei. Várias aranhas começaram a jorrar dali, como se tivessem reagido à invasão da luz. Pelo que eu sabia na época, pareciam só aranhas de porão inofensivas.

Aí eu senti uma coceira. Olhei pra baixo. Uma tava andando pela minha mão enquanto eu segurava a faca. Levantei a mão e dei um pulo, batendo a cabeça no teto do abrigo. Dezenas delas caíram das folhas sacudidas lá de cima, chovendo em cima de mim. Eu gritei de susto e tentei voltar engatinhando pra saída.

Enquanto recuava, apontei a lanterna pro interior do abrigo. Praticamente toda superfície tava coberta por uma bagunça emaranhada de patinhas pretas. Elas tavam em todo lugar. Nas paredes, no chão, tudo.

Eu gritei e rolei pra fora do abrigo, levantei rapidinho e comecei a me bater freneticamente. O Kurt correu pra ver o que tava acontecendo.

“Não me diz que você viu uma aranha”, ele falou de brincadeira, a lanterna dele me cegando.

“Por que você não olha com seus próprios olhos, seu filho da puta!” eu berrei.

O Kurt apontou a lanterna pra dentro do abrigo, revelando a massa enorme de aranhas. Ele deu um pulo e abaixou a lanterna pro chão, mostrando as ondas de aranhas saindo do abrigo e vindo na nossa direção. Elas já tavam nas nossas pernas.



A gente saiu correndo e chutando desesperadamente pra longe do abrigo. Só ouvia o barulho das nossas botas esmagando e a nossa respiração pesada.

No fim, a gente juntou coragem pra parar.

O Kurt balançou a lanterna em volta. “Onde caralho a gente tá?” Ele olhou pra mim.

“Onde tá o Joey?” eu gaguejei, curvado pra recuperar o fôlego.

A gente percebeu no mesmo segundo o quanto tava fodido. O abrigo já não tava mais à vista. Nenhuma marca de trilha, nenhum marco, nada. A gente sentou.

“Vamos pensar. Ele não tava no abrigo, né? E eu achei a lanterna dele, então ele não tem mais luz. Quanto tempo ele ficou sozinho mesmo?” O Kurt coçava o tornozelo com força.

“Demorou uns 30 minutos pra gente chegar aqui… pelo menos 30 pro Dylan voltar pro acampamento… quer dizer, ele deve ter ficado lá mais de uma hora”, eu disse, girando a faca entre os dedos.

“O Rusty vai ficar puto pra caralho!” Os dedos dele afundaram na terra.

Eu não consegui parar de olhar pras mãos do Kurt. “Acho que os dois devem ter encontrado um ovo de aranha gigante. Um deles abriu, os dois piraram e o Dylan não aguentou.”

Ele apertou os olhos pra mim. “Então… o quê? Você acha que ele foi comido pelas aranhas? Sério?”

Snap!

A gente virou a cabeça pro escuro. As lanternas iluminaram só mato vazio.

“Você ouviu isso, né?” disse o Kurt, coçando o tornozelo de novo.

“Ouvi.” Minha voz saiu baixa. “Por que você tá se coçando assim?”

Ele abaixou a meia. “Eu… acho que uma me mordeu. Nojento, né?” O tornozelo tava inflamado e rosado, com um pontinho vermelho no meio vazando sangue fresco.

“Caralho. A gente resolve isso quando voltar”, eu sussurrei, olhando pros dedos finos dele. Eram tão longos.

A gente ficou em silêncio uns minutos, tentando se recuperar depois das aranhas. Quando ficou mais confortável, apagamos as lanternas pra ver melhor o céu.

Eu vi um movimento pelo canto do olho.

Olhei direto pro Kurt. No escuro, mal dava pra ver uma coisa grande, enorme, bem atrás dele. Minha nuca formigou. Peguei minha lanterna, acendi e apontei pra ele.

“Porra! Que merda foi essa?!” gritou o Kurt, levantando a mão pra proteger os olhos da luz.

A figura pulou pra longe da luz e do barulho, revelando só uma perna preta e peluda antes de sumir.

Eu pulei de pé. “Você viu aquela coisa?!” Minhas mãos tavam tremendo. “Que porra era aquela?”

O Kurt virou, não viu nada. “O quê? Ver o quê?” Ele acendeu a própria lanterna e vasculhou atrás. “Você tá me zoando? Eu te mato, cara!”

“Não tô brincando! Tinha alguma coisa atrás de você. Correu quando acendi a luz”, eu disse, notando os pelinhos pretos finos saindo do dorso das mãos do Kurt.

Ele não acreditou. Achou que eu tava só zoando ele, do mesmo jeito que ele faria comigo. Mesmo assim, isso nos colocou de pé e andando de novo.

A escuridão lá fora parecia opressiva. Invasiva. Como se pudesse nos engolir inteiros a qualquer momento. Eu imaginava o Joey sendo puxado pro escuro por uma mão invisível. Pro nada. Como se ele nunca tivesse existido de verdade. Eu estremeci.

De repente, a lanterna do Kurt apagou. A escuridão engoliu ele.

“Merda!” ele berrou, batendo a lanterna com a palma da mão.

Eu virei minha lanterna pra ele. Meu estômago deu um nó doente.

Seis olhos pretos, bulbosos e brilhantes refletiram a luz, olhando direto pra baixo pro Kurt. Um par de presas pretas e peludas mirava bem atrás dos ombros dele, prestes a atacar. A coisa tava pendurada na árvore atrás dele.

Eu gritei.

Os olhos do Kurt se arregalaram e ele olhou pra cima bem na hora de ver as mandíbulas se fecharem, perfurando as costas dele e saindo pelo peito, jorrando sangue em mim. O corpo dele foi erguido do chão e puxado pra cima da árvore num piscar de olhos.

“Argh! Jesus, meu Deus, ME AJUDA!” As palavras saíram pra mim em explosões curtas e gritadas da escuridão lá em cima. “ME AJU—”

Os gritos pararam. O som de mastigação molhada tomou o lugar. Por mais alto que eu apontasse a lanterna, a luz sumia antes de achar a fonte.

Alguma coisa caiu da árvore e bateu no chão na minha frente com um baque nojento.

A cabeça pálida e horrorizada do Kurt, sem corpo. Tinha sido arrancada do pescoço. Tiras de carne e gosma se espalhavam pra fora por baixo, tipo tentáculos de água-viva.

Meu mundo girava. Eu ia vomitar. Corri o mais rápido que consegui. Não importava pra onde.

Não sei quanto tempo corri até achar. As agulhas de pinheiro deram lugar a uma trilha estreita de terra e pedra. Achei um marcador reflexivo neon numa árvore. Diminuí o passo e recuperei o fôlego.

Alívio.

Enquanto andava, repassei os eventos da noite na cabeça. Imaginei que o Joey tinha acabado do mesmo jeito que o Kurt. Pensei na lanterna dele. Morta. Foi o que aconteceu com a do Kurt também. Pensei no ovo. Como elas saíram quando eu acendi a luz.

Tava em algum lugar, me esperando, na escuridão. Esperando minha luz apagar. Pra eu perder minha tábua de salvação.

Parei de repente. Olhei pra frente na trilha, pro breu além da minha lanterna. Opressivo. Invasivo. Uma mão invisível…

Girei nos calcanhares, olhando pro outro lado da trilha e iluminando.

Era enorme.

Oito pernas grossas, peludas e monstruosas saíam pra todos os lados de um tronco absurdamente pesado. Os seis olhos pretos me encaravam sem um pingo de consciência. As mandíbulas ensanguentadas tavam prontas pra atacar. O corpo era largo o suficiente pra bloquear mais que a trilha inteira.

Tava perto o bastante pra eu ver o muco vermelho-escuro pingando da boca.

A lanterna caiu da minha mão. A besta pulou pra frente e eu agarrei a faca de bolso do short.

Caí no chão e mergulhei na escuridão total.

Sem ver nada, balancei a faca e senti ela afundar em carne macia e peluda. A criatura soltou um guincho horrível e agudo. O peso do corpo era imenso enquanto as pernas com espinhos prendiam meus outros membros no chão. Um líquido podre pingava no meu rosto.

Esfaqueei de novo e de novo. Senti o bafo quente da criatura chegando perto do meu rosto. Uma dor queimando irradiou na minha bochecha quando uma mandíbula atravessou a pele fina, o espinho duro quebrando meus dentes. Puxei a faca do esterno e cortei a cabeça numa última tentativa, sentindo a morte bater na porta.

De repente, um jorro de líquido quente caiu em cima de mim, encharcando minha roupa e os poros da pele. Tinha gosto de sangue. Metal. Cobre. Quente e nojento. Cuspi, junto com pedaços de dente. Senti as pernas dela ficarem moles.

Me arrastei pra fora de baixo da massa, as unhas quebrando enquanto cravava no cascalho. Peguei minha lanterna e levantei nas pernas cansadas.

O corpo enorme da aranha tava amassado e sangrando. Os olhos tavam turvos e sem vida. As pernas todas esticadas pra fora feito uma estrela de oito pontas. Foi só então que reparei.

Uma faixa longa de tecido amarelo, pendurada numa das pernas da frente.

Um suéter amarelo?

Não. Não podia ser. Corri direto pro acampamento, com a boca destruída e doendo pra caralho.

Eram 5h20 da manhã quando voltei. O Rusty tinha sido acordado pelo Dylan mais ou menos uma hora depois que a gente não voltou. Ele tava com medo que algo tivesse dado errado. Depois disso, o acampamento inteiro acordou enquanto os boatos se espalhavam entre a tropa sobre onde a gente tava, ficando cada vez mais desesperadores e apavorantes conforme as horas passavam.

O Rusty não saiu do acampamento pra procurar a gente, mas ligou pro telefone de emergência dos guardas florestais pra reportar nosso desaparecimento. Eles ainda tavam varrendo a floresta quando eu voltei.

Tentei contar pra ele o que realmente aconteceu, mas tudo saiu embolado e sem sentido por causa dos dentes quebrados. Não que importasse. Ele não teria acreditado na história mesmo.

Já faz uns dias. O psicólogo designado pro meu caso me pediu pra escrever tudo isso porque eu ainda não consigo falar. A polícia estadual entrou no caso depois que acharam a cabeça do Kurt. Não encontraram o Joey. Eu sei que não vão encontrar.

Eles não acreditam na minha história. Ainda não. Mas vão acreditar. Eu vou ser a prova viva.

Já consigo ver os pelinhos pretos crescendo no dorso das minhas mãos.

Eu recentemente cheguei a uma realização

Eu estava com trinta e seis horas de jejum. Tinha terminado de me arrumar pra missa e fui até o quarto da minha colega de quarto Rowan, batendo forte na porta pra garantir que ela me ouvisse por cima dos cantos gregorianos que ela estava tocando. Ela abriu a porta, com o cabelo já coberto por um véu azul escuro. “Pronta?”, perguntou. Normalmente minhas colegas de quarto e eu íamos juntas pro culto da noite, mas a Rue não estava em lugar nenhum. Achando que ela ia nos encontrar lá, nós duas fomos andando.

Sentamos na ponta do nosso banco de sempre, enquanto outros alunos começavam a ocupar os lugares restantes. O sino tocou e nós nos levantamos. Redemoinhos de arco-íris opacos dançavam sob minhas pálpebras. Agarrei a madeira na minha frente, tentando fazer a tontura passar. Quando abri os olhos, vi de relance o que com certeza era o cabelo loiro-branco da Rue passando correndo por mim. Quando consegui virar a cabeça direito, vi a porta do banheiro se fechando devagar. Depois de trinta minutos e ela ainda não ter voltado, eu saí de fininho do banco enquanto as pessoas começavam a encher os cestos tecidos com dólares.

Dentro do banheiro, as luzes fluorescentes hostis me engoliram quando me aproximei da cabine que escondia um par de sapatilhas de balé de cetim. Soluços baixos ecoavam. “Rue?”, chamei. “Você tá bem?” Como resposta, ela escancarou a porta, me acertando bem na cara; minhas mãos foram direto pro ponto na testa onde eu sabia que um hematoma ia nascer. Antes que eu conseguisse formar um xingamento na cabeça, meus olhos caíram no teste de gravidez que ela estava me estendendo.

Positivo.

Levantei o olhar pro rosto molhado de lágrimas da Rue. “Caralho”, foi tudo que consegui dizer.

Antes que ela pudesse explicar a situação, a Rowan entrou no banheiro. Os olhos dela se arregalaram quando viram o teste na mão da Rue; um entendimento sombrio tomou conta dela.

Eu segurei firme os ombros da Rue e aproximei meu rosto do dela. “Você precisa explicar essa merda agora.”

Ela assentiu freneticamente. “Mês passado, meus pais viajaram pra uma reunião de negócios nas férias, então eles me mandaram ficar com o Wes. Ele disse que se eu obedecesse ele, ia falar bem de mim pros amigos dele em Dartmouth”, ela fungou.

O Padre Wesley comandava o culto de domingo; a pele do pescoço dele caía até os joelhos enquanto ele falava. Só de imaginar aquelas mãos roxas tocando nela...

Meus dedos traçaram o contorno da minha clavícula; as luzes ficaram ofuscantes enquanto eu tentava pensar no que fazer. As leis do Maine e da Igreja Católica não permitiam aborto legal. De todos os remédios que eu sabia como conseguir, nenhum era misoprostol. Mas eu tinha uma coisa que podia oferecer, algo que eu normalmente não recomendava pra quem não estava predestinado à grandeza.

Nós nos entreolhamos enquanto ignorávamos a palestra gaguejada da Rowan sobre pureza. “Chega”, eu interrompi, depois que a Rowan perguntou o que o futuro marido da Rue ia pensar. “Vai ficar tudo bem. Eu tô no controle dessa porra.” Eu esperava que tivesse soado convincente.

O sol já tinha se posto e todo mundo tinha ido embora. As estrelas espiavam pelas janelas, lançando seus julgamentos sobre nós. Rue e eu estávamos no altar no escuro, os dedos dela brincando com meu cabelo enquanto eu tirava um maço de cigarros. Entreguei um pra ela.

“Eu não fumo”, ela disse com aquele jeitinho coquete. Ela sempre ficava tão bonita de noite.

“Nem eu”, respondi, colocando um cigarro aceso na boca, tragando por um momento antes de soprar a fumaça pra cima, na cara de Deus. “De agora em diante, você faz exatamente o que eu mandar.”

“Quando foi que eu não fiz?”

Meses de corridas diárias de oito quilômetros e jejuns de vinte horas não estavam dando conta do inchaço duro na barriga da Rue. Toda manhã ela vomitava tantas vezes que fazia as meninas que sigo no Tumblr ficarem no chinelo. Linhas vermelhas nos peitos e na barriga dela protestavam contra o estiramento anormal da pele. Tornozelos inchados a carregavam enquanto íamos pra aula e pros cultos da noite. Era um milagre ninguém ter notado. Ela estava se transformando bem na nossa frente e eu não fazia ideia de como impedir.

As dores de cabeça de nicotina e os sermões constantes da Rowan sobre a santidade da vida também não ajudavam em nada. O altar na nossa sala de estar normalmente tinha santos rotativos. Desde aquela noite, todo dia a gente era recebido por Santa Gianna Beretta Molla, Madre Teresa e fotos ridículas de anjos da guarda chorando ao lado de berços vazios. Os olhos deles me seguiam enquanto eu fazia minha pesagem noturna.

Depois da aula, Rue e eu normalmente terminávamos o trabalho na biblioteca, mas um dia a Rowan decidiu nos arrastar pra uma das reuniões semanais dela do Estudantes pela Vida. Quando entramos na sala, grupos de freiras distribuíam panfletos de recursos pra gravidez. Estava muito claro. Tinha gente demais — mulheres demais. A esperança no futuro da nossa comunidade escorreu de mim enquanto eu olhava aquele mar de colegas fiéis e iludidos. O Padre Wesley estava no púlpito da frente, os olhos nos seguindo enquanto sentávamos na fila do meio.

“Boa tarde”, ele começou, com aquela voz rouca cortando minha pele. Era o primeiro dia da vigília deles dos Quarenta Dias pela Vida. Fileiras de velas ficavam atrás da figura curvada dele. “Vamos começar com nossa oração de intercessão: Obrigado, Senhor, por termos sido criados à tua imagem. Busca as mães que estão pensando em acabar com a vida de seus filhos. Tira elas da confusão e ilumina elas sobre o dom que é a criação da vida. Que o coração que bate no ventre dela seja sustentado. Bendito sois Vós, que crias e sustentas a vida. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

As orações seguintes pareciam ruído branco. Rue segurava o terço com os dedos azulados. Eu conseguia ver a tensão no maxilar dela aumentando a cada palavra que ele dizia. Como ele ousava respirar perto dela? Como a Rowan ousou trazer a gente aqui?

A hora passou; alunos e funcionários começaram a sair da sala aos poucos. O Padre Wesley nos deu um sorriso nojento antes de se arrastar embora. Rowan olhou pra gente cheia de expectativa. “O que vocês acharam?”

A pergunta dela escureceu ainda mais as olheiras ao redor dos meus olhos. “Você tá de brincadeira, né?”, eu zombei.

“Eu sou muito séria quando o assunto é salvar a vida de crianças pré-nascidas.” O cabelo ruivo fino dela estava numa trança que descansava em cima da coluna protuberante. A cada vértebra que aparecia na pele, ela achava que ficava mais próxima Dele.

Abri a boca pra falar, mas fui interrompida.

“Talvez a Ro tenha razão”, suspirou Rue. “Talvez o que estamos fazendo seja errado.” Ela colocou a mão na barriga. “Talvez isso seja uma coisa boa, na verdade. Tipo, talvez signifique que eu tô destinada a algo maior.”

Senti uma pontada de traição no peito. “Você acha que ser mãe é uma conquista maior do que estudar em Dartmouth?”, eu ironizei, sentindo o pouco sangue que circulava no meu corpo ferver.

“Sonhos não são motivo válido pra esquartejar um ser humano”, Rowan retrucou com cara feia. Ela abriu o panfleto. Uma mulher de desenho animado abraçava a barriga grande, com um feto também de desenho dentro. O texto embaixo dizia: ‘Ame os Dois.’

Que porra de merda era essa.

“Eu não preciso ficar com ele. Posso dar o bebê pra adoção.”

Rowan assentiu com aprovação.

“Você pulou dois anos. Tá entre os cinco por cento melhores da turma. A Sarah-Beth foi suspensa só por ter cartas de tarô. Imagina o que ia acontecer se todo mundo descobrisse sobre você. Eu não vou deixar você destruir sua vida.” Os pés da minha cadeira rangeram quando eu levantei. Empurrando o cansaço e a raiva, saí pisando duro e caminhei até o primeiro lugar que achei: a loja de bebidas mais próxima.

Cigarros não estavam mais dando conta, e eu tinha quase certeza que a Rowan estava esmagando vitaminas pré-natais no shake de proteína da Rue. Embora eu tivesse vontade de jogar a Rue escada abaixo do nosso prédio, eu sabia que tinha um jeito melhor de resolver isso. Tinha que ter.

Agora um manto de neve cobria o campus. Já tinha se passado um mês de vodca cranberry sem açúcar. O preço extra por eu ser obviamente menor de idade, além das discussões que a Rue começava e a Rowan defendia, não eram nada agradáveis, mas eu não tinha escolha.

Estávamos todas na sala de estar quando aconteceu. Rue estava no sofá de short cinza; eu estava do lado dela atualizando meu blog quando ouvi ela gritar. Ela se levantou trêmula e rios de sangue escorreram pelas pernas dela. Pedaços e coágulos de matéria vermelha e roxa grudavam na pele.

“Tá tudo bem”, eu disse pra acalmá-la, abraçando ela enquanto ela se debatia nos meus braços. “Você vai ficar bem. É assim que tem que ser.” Eu a guiei até o banheiro pra ela expelir o resto do tecido em paz.

Quando voltei, Rowan estava chorando, apertando o terço com força na mão. “É pro bem dela”, eu disse balançando a cabeça, pegando umas toalhas pra limpar o sangue que manchava o piso de madeira. “É o que ela realmente queria.”

“Você não é Deus”, ela rebateu. “Não cabe a você decidir quem vive ou morre.”

Ela não podia estar mais errada.

Era tarde, horas depois do toque de recolher. O sol tinha se posto, mas os postes de luz iluminavam meu caminho até o lago. Eu precisava de no mínimo quinze mil passos, e não estava a fim de ficar andando de um lado pro outro no quarto ouvindo a Rue chorar através das paredes finas como papel. A neve estalava debaixo dos meus pés como ligamentos se partindo.

Quando finalmente cheguei na água prateada e parada, fiquei olhando meu reflexo por um tempo. Apesar das bochechas fundas e dos ossos do peito visíveis, eu não reconhecia o que via. Acendi um cigarro devagar e dei uma tragada lenta. Passos se aproximavam atrás de mim, mas eu não conseguia desviar o olhar do meu reflexo distorcido.

“Dorian!” Virei a cabeça rápido e vi a última pessoa que eu queria encontrar. O Padre Wesley descia a colina na minha direção. “Que surpresa agradável”, ele disse animado.

“Queria poder dizer o mesmo”, eu respondi com desprezo.

Ele riu. “Você sempre foi uma rebelde.” Tirou um maço de Newports. “Me empresta fogo?” Meu isqueiro cinza combinava com o tom dos olhos injetados dele. Ele deu uma tragada casual no cigarro, fechando os olhos enquanto soltava a fumaça. “Tentei parar no seminário. Tentei mais cinco vezes depois. Acho que essa é uma tentação que nunca vai me deixar.”

“Quando sois tentados, Ele também vos dará um escape.”

Ele murmurou. “Primeira aos Coríntios.” Deu outra tragada. “Todos nós cedemos à carne. O que importa é que nos arrependamos.”

Cerrei o maxilar. “E você se arrependeu?”

“Claro.”

“Então está tudo perdoado?”

“Essa é a beleza do nosso Deus. Ele é misericordioso. Ele estende Sua graça pra todo mundo que a aceitar.”

Balancei a cabeça e joguei o cigarro meio fumado na neve. “Como Deus pode perdoar o que você fez?”

“Do mesmo jeito que Ele te perdoa pelo que você fez com a Rue.”

O tempo parou. “Você... você sabia? Esse tempo todo?” Minha garganta começou a fechar.

“Não exatamente o tempo todo”, ele corrigiu. “Eu tive algumas suspeitas depois da nossa noite juntos. Depois a Rowan ficou estranhamente envolvida nas reuniões do clube. Eu via ela discutindo o assunto com a Irmã Grace nos corredores. Só quando ela veio confessar que tinha testemunhado o assassinato de uma criança que eu juntei as peças.”

“Qual foi a penitência dela?”

“Ela já se sentia culpada o suficiente. Eu não quis torturá-la. Aconselhei ela a deixar uma oferenda no nosso memorial pros não-nascidos.”

O interior da minha boca sangrou de tanto que mordi a língua. “Não foi assassinato”, eu rosnei.

“O coração do bebê começa a bater com seis semanas.”

O dela estava batendo há dezesseis anos. “Não foi assassinato.”

Foi um sacramento.

Ele jogou a pontinha acesa no chão, onde apagou quase instantaneamente. Suspirou, soltando uma nuvem de fumaça. “Eu rezo pra que o Senhor revele pra você a brutalidade do aborto.”

Uma onda de náusea me acertou. Meus olhos tremeram enquanto eu imaginava a brutalidade do que ele fez com ela.

“Aqui”, ele remexeu no bolso do casaco e me entregou um crucifixo prateado, “entrega isso pra Rue, por favor? Um presente pro momento difícil dela.”

Eu nem registrei o movimento do meu braço nem o arquejo que saiu da boca dele. Ele levou a mão pro buraco no pescoço onde o metal entrou. Eu não consegui parar. Os pés de Cristo entravam e saíam da jugular dele, um tossido grotesco escapando a cada estocada. As luzes amarelas dos postes piscaram e apagaram até a lâmpada e o vidro em volta estourarem. Sangue quente e fino cobriu minhas mãos enquanto ele caía no chão. Meu peito subia e descia; gotas de suor escorriam pelo meu rosto.

A caminhada de volta pro dormitório foi silenciosa. O vento gelado soprava flocos brancos que grudavam nas minhas roupas como o vermelho que me manchava.

Rowan estava rezando quando entrei no quarto. Os hematomas verdes nos joelhos dela não eram nada comparados ao peso do pecado dela. Ela olhou na minha direção, os olhos se arregalando e as pernas se levantando pra correr até mim. “Que porra você fez?”, ela exigiu. Pegou meu pulso e subiu a manga do meu suéter, uma coisa que ela fazia nos dias que eu ficava mais distante. Não era por preocupação. Pelo menos não com meu bem-estar. “Por que você tá coberta de sangue?” Os olhos azul-escuros dela estavam arregalados de raiva e frustração. Por trás disso, tinha outra coisa. Medo.

Eu puxei meu braço com força. “Você estava errada”, sussurrei.

Eu decido quem vive ou morre.

Ela me seguiu enquanto eu andava até o altar. Coloquei o crucifixo ao lado de uma foto do nosso suposto salvador. Observei as engrenagens girando na cabeça dela. Ela arquejou, as mãos magras se agarrando na parede pra se equilibrar. “Você não fez isso...”, ela disse quase implorando.

As luzes começaram a piscar. “Você estava errada”, eu disse.

Eu sou Deus.

“COMO VOCÊ FOI CAPAZ?”, ela gritou.

Eu me virei pra encarar ela. “Como eu não seria?”, retruquei. “Ninguém nessa porra dessa escola se importa com nada que realmente importa. Vocês fazem jejuns de trinta dias, vão pras reuniões e fingem que isso resolve alguma coisa enquanto sua amiga de verdade sofre. Meu Deus, você é tão egoísta pra caralho.”

“Eu sou egoísta?”, ela debochou. “A Rue não queria nada disso, mas você não deu a mínima pro que ela queria porque só se importa com o seu próprio orgulho.”

Ela ainda não tinha entendido. “Tinha que ser feito.”

Porque toda vez que eu olhava pra ela, via a língua preta e nojenta dele na pele dela, os dedos desabotoando a camisa dela. Via o rosto manchado de idade dele enquanto desenganchava o sutiã dela e forçava as coxas dela abertas. Quando eu olhava pra ela, eu parava de ver uma pessoa. Só via trauma.

Nossa atenção foi roubada pelo barulho de um baque pesado vindo do quarto da Rue. Corremos pra abrir a porta e fomos atingidas por um ar grosso com cheiro de metal. Rowan acendeu a luz do teto com uma careta.

Sangue cobria o chão, a cama e até partes das paredes.

Rue estava no chão, membros contorcidos, o rosto enfiado no carpete bege áspero. As pernas pálidas dela estavam pintadas de vermelho.

Um zumbido encheu meus ouvidos enquanto eu me ajoelhava pra sentir a pulsação dela.

Nada.

Pelo canto do olho, vi Rowan correr pra fora do quarto. Eu me levantei.

Eu sabia dos riscos; só presumi estupidamente que isso não ia acontecer.

Foi culpa minha. A pessoa que eu amava mais que tudo estava morta. E mesmo assim eu não sentia nada.

Paramédicos invadiram o quarto inutilmente. Eles cercaram ela como urubus bicando os restos de um cervo. Uma deles falou: “Ela deve ter ficado hemorrágica por horas”, disse triste.

Eu observei enquanto eles levavam ela embora num saco preto como se fosse lixo.

Pra essa escola, era só isso que ela era.

Era só isso que qualquer uma de nós era.

Rowan e eu sentamos na cama dela. Senti o tecido frio manchando minhas roupas. Fechei os olhos e desejei que a escuridão tomasse conta.

Eu costumava achar que era especial. Achava que tinha uma disciplina que ninguém mais tinha. Tinha seguidores pra provar. Tinha o peso pra provar. Percebi que, no fundo de tudo, nós não éramos nada. Não tinha nada de único no nosso peso, na nossa fé ou no cheiro de sangue que nos cobria. Era tudo tão perturbadoramente normal.
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