sexta-feira, 6 de março de 2026

Os Pinheiros

Éramos três nessa viagem: meu amigo Marcus, minha prima Elena e eu. Fazia semanas que só falávamos em dar o fora da cidade, então acabamos escolhendo um parque estadual bem isolado, escondido no meio das montanhas. Era aquele tipo de lugar onde as árvores crescem tão juntas que o sol quase não toca o chão da floresta, deixando o ar com cheiro permanente de terra molhada e agulhas de pinheiro. Na hora, a ideia parecia tranquila pra caralho; hoje, olhando pra trás, queria que a gente nunca tivesse colocado o pé lá.

Dia Um

Chegamos no fim da tarde, depois de pegar uma estrada que serpenteava por quilômetros de mata fechada. Quando chegamos no acampamento, o céu já estava um laranja arroxeado atrás das colinas. Tinha só uns poucos campistas espalhados pelo lugar, e a maioria parecia que já estava recolhendo as coisas pra ir embora. Marcus brincou dizendo que praticamente a gente tinha o parque inteiro só pra nós.

Escolhemos uma vaga bem na beira da linha das árvores, onde a floresta parecia apertada demais. As árvores ficavam tão coladas umas nas outras que os galhos se embolavam como dedos esqueléticos tentando tampar o céu. Enquanto montávamos a barraca, Elena parou de repente e apontou pra dentro da mata.

“Vocês estão ouvindo isso?”, ela perguntou.

Marcus e eu paramos tudo pra escutar, mas não tinha porra nenhuma — nenhum pássaro, nenhum inseto, nem o barulho das cigarras. Só o assobio baixo do vento. A floresta estava completamente muda. Marcus tentou desconversar, dizendo que era só o horário, mas quando o sol afundou atrás das montanhas e a escuridão começou a preencher os espaços entre as árvores, o silêncio continuou lá.

Mais tarde, à noite, a gente estava sentado em volta da fogueira comendo miojo e batendo papo. Foi aí que ouvimos o primeiro barulho estranho: um som pesado lá no fundo da mata. Alguma coisa estava se mexendo, mas não parecia cervo nem galho balançando com o vento. O barulho era lento, pesado e intencional… exatamente como passos. Jogamos o facho das lanternas entre as árvores, mas só vimos troncos infinitos sumindo na escuridão. Marcus deu uma risada nervosa e falou que devia ser um guaxinim, mas no fundo todo mundo sabia que guaxinim não fazia barulho daqueles.

No fim o som parou e tentamos ignorar o desconforto pra dormir. Mas eu acordei no meio da noite com alguma coisa andando em volta do nosso acampamento. Ouvi passos leves circulando a barraca — crunch, crunch, crunch. Depois, uma voz falou.

“Marcus?”

Soava exatamente como a Elena, mas a Elena estava dormindo pesado bem do meu lado. Eu prendi a respiração e escutei a voz de novo, bem do lado de fora do tecido da barraca.

“Marcus… vem cá.”

Marcus sussurrou do outro lado da barraca, com a voz tremendo: “Isso não é a Elena.” Nenhum de nós mexeu um músculo. Depois de uns minutos que pareceram uma eternidade, os passos pararam e a coisa voltou devagar pro meio da mata.

Dia Dois

Nenhum de nós dormiu direito depois disso. De manhã, tentamos nos convencer de que era só outro campista de sacanagem, mas quando saímos da barraca o Marcus congelou. Tinha pegadas rodeando o acampamento inteiro… mas não faziam o menor sentido. Pareciam humanas, só que erradas pra caralho: os dedos eram compridos demais, o calcanhar era estreito de um jeito impossível e os passos estavam espaçados demais, como se a criatura tivesse uma passada que nenhum humano conseguiria dar.

Elena ficou branca e falou que talvez fosse alguém andando descalço, mas o Marcus só balançou a cabeça e apontou pro formato das pegadas. A gente seguiu a trilha por uns metros até ela sumir no mato. Foi quando vimos um cervo parado entre as árvores. Ele estava olhando fixo pra gente — sem se mexer, sem piscar, só observando. Marcus acenou a mão pra espantar ele, mas o bicho não reagiu.

Aí, bem devagar, o cervo se levantou nas patas traseiras. Os membros dele dobraram em ângulos que davam nojo, e o corpo parecia magro demais pra ser normal. Quando virou a cabeça pra nós, soltou um som que não era de cervo nenhum — parecia uma pessoa tentando imitar um cervo e saindo um barulho engasgado, quebrado. Elena agarrou meu braço e falou que a gente precisava voltar pro acampamento agora.

O resto do dia ficou estranho pra porra. A gente não parava de ouvir movimento na mata — galhos estalando, folhas farfalhando — e uma ou duas vezes escutamos nossos próprios nomes sendo chamados das árvores. As vozes soavam quase certas… mas nunca perfeitas. A gente decidiu que ia embora logo de manhã cedo, mas a floresta tinha outros planos.

Dia Três

A terceira noite foi a pior coisa que já vivi na vida. Por volta das 2h da madrugada, o Marcus me sacudiu pra acordar e mandou eu prestar atenção. Tinha alguma coisa do lado de fora da barraca de novo, mas dessa vez eram vários conjuntos de passos circulando a gente. Lentos. Pacientes.

Aí começaram os sussurros. A gente ouvia “Elena”, “Marcus” e meu nome sendo chamados nas nossas próprias vozes — cópias perfeitas. Um deles até soava igualzinho à minha mãe.

“Elena, abre a barraca”, a voz implorava.

Elena começou a chorar baixinho. De repente, alguma coisa encostou no lado da barraca e a gente viu dedos longos arrastando pelo tecido: scratch, scratch, scratch. Apavorado, o Marcus pegou a lanterna, abriu o zíper de uma vez e apontou pra fora.

Estava lá. Parado na beira das árvores. Alto pra caralho, com braços e pernas finos e tortos, como se tivessem sido montados do jeito errado. A pele parecia esticada direto nos ossos. E o rosto… ainda não sei descrever direito. Parecia que estava usando uma máscara feita de pele humana. A boca abriu devagar num sorriso largo e falou na minha própria voz:

“Não vão embora.”

Marcus gritou pra gente correr. A gente nem parou pra pegar nada — só agarrou as chaves e saiu correndo pro carro. Atrás da gente dava pra ouvir alguma coisa pesada arrebentando a mata numa velocidade absurda. A coisa corria paralelo a nós entre as árvores, acompanhando fácil.

A gente se jogou dentro do carro e o Marcus trancou as portas no exato segundo que alguma coisa pesada bateu na lateral do veículo. Elena gritou. Por uma fração de segundo eu vi aquele rosto colado no vidro, sorrindo pra mim. Marcus pisou fundo e a gente desceu a estrada de terra voando, fugindo do parque o mais rápido que o carro aguentava. No retrovisor, vi a coisa parada no meio da estrada. Não estava mais correndo atrás. Só olhando.

A gente nunca voltou pra pegar o equipamento de camping. Nunca contou pra polícia. Nem falamos sobre isso entre nós desde aquela noite. Mas às vezes, tarde da noite, eu juro que escuto passos lentos e pesados andando do lado de fora da minha casa. Toda vez que penso naquele parque estadual, lembro daquele sorriso… e tenho certeza de uma coisa:

Eu nunca mais volto lá.

Nós estamos doentes, pode acreditar, não tem cura nenhuma...

Eu sentia meus olhos abrindo bem devagar. Uma crosta amarela de icor grudava minhas pálpebras uma na outra. Forcei pra abrir elas. Deitado na cama do hospital, eu só conseguia ouvir minha própria respiração pesada e arrastada. Fiquei ali daquele jeito por um tempo — minutos, talvez até horas. Não lembro direito.

Tentei com tudo virar a cabeça. Sentado ali na cama, uma espécie de raiva foi crescendo dentro de mim. Raiva por não conseguir me mexer. Tentei de novo com toda a força que consegui juntar. Finalmente consegui mover a cabeça. Mas não sem um estalo alto e doentio. Olhei pra parede. Poeira cobria quase todos os equipamentos médicos que eu estava plugado. Soltei um gemido baixo enquanto examinava o monitor cardíaco morto.

Enquanto olhava o quarto inteiro, uma onda de confusão absurda explodiu na minha cabeça. Eu não fazia a menor ideia de onde caralho eu estava. Comecei o processo de eliminação. Tinha ladrilhos brancos no teto, cheiro forte de produtos de limpeza. Puxei os braços e percebi que estava amarrado na cama.

Eu estava num hospital. Mas por quê? Não fazia ideia. Puxei com toda a força pra tirar meu pulso da contenção de couro. Finalmente senti e ouvi meus ossos estalarem. Nenhuma dor… Devagar, tirei a mão. Estudei minha mão. Estava numa cor de argila pálida, com veias marrons-escuras espalhadas por dentro.

Isso não parece certo… Forcei meu pulso deslocado de volta no lugar usando a estrutura da cama. Liberei a outra mão.

Sentei, percebendo que nenhuma dor acompanhava meus movimentos — uma surpresa bem-vinda, considerando onde eu estava e a merda da situação. Conseguia mexer os braços e a cabeça. Cada vez que movia alguma parte do corpo, saía um som de cascalho molhado nas juntas. Crepitações doentias escapavam dos meus braços e pernas enquanto eu tentava ligar o motor de novo.

Esfreguei a cabeça — era a única coisa que doía pra caralho. Parecia que eu tinha uma enxaqueca latejante que trovejava como uma tempestade sem nenhum sinal de acalmar. Ouvi um barulho alto e molhado de algo batendo no chão. Espiei pela lateral da cama. Parte do meu couro cabeludo?

Cutuquei o pedaço de músculo e vísceras agora exposto na minha cabeça.

“Aaaahhh…” soltei quase sem querer.

A ferida coçava… Então eu cocei, sentindo o músculo molhado e fibroso se enroscar entre minhas unhas mal presas.

“Que horas são…” falei pra ninguém.

Olhando do outro lado do quarto, tinha um relógio preso pra sempre em 1:43. Então olhei pela janela do hospital. Parecia meio-dia? Talvez exatamente meio-dia.

Joguei as cobertas pra fora das pernas. O cheiro me acertou direto no nariz. Uma ferida enorme e aberta na minha panturrilha, toda apodrecida de gangrena. Um fedor forte de carne podre subia da minha perna. Larvas se contorciam e cavavam fundo na carne morta.

“Oh, caralho.” falei, olhos arregalados.

Tirei as larvas da minha perna. Elas esticavam e algumas quebravam no meio, ainda grudadas na pele que tinham na boca. Passei a mão por cima sem o menor cuidado. Quando ficou mais ou menos limpo, rasguei o cobertor e enrolei o buraco aberto. Fiz o mesmo com a cabeça.

Balancei as pernas pra fora da cama e tentei ficar de pé. Surpreendentemente, consegui. Dei uns passos de teste da cama até a parede. Não sentia dor nenhuma na perna. Nada. Conseguia andar, mas com uma mancada bem feia. A única coisa que ainda doía pra valer era a cabeça.

“Talvez todos os meus nervos estejam completamente fodidos.” falei olhando pra minha perna.

Arrastei meu corpo até o banheiro pra dar uma boa olhada em mim no espelho. Quando entrei, abri a torneira, dei um gole grande de água e bochechei.

“Queria ter uma escova de dente”, pensei comigo mesmo.

Cuspi. Olhei pra pia e vi uma mistura preta e marrom. Eu não sentia gosto nenhum, mas o cheiro… um fedor metálico misturado com decomposição.

“Eca…” falei pra mim mesmo.

Cheirei meu bafo e estava exatamente igual àquela mistura nojenta que agora estava na pia.

Apertei os olhos pra me ver direito no espelho. Claro que não dava pra ver muita coisa. A energia estava desligada por algum motivo. Consegui distinguir um arranhão na minha bochecha e um corte grande no lábio. Fora isso, meu rosto até que parecia bem normal.

Passei a mão no meu cabelo preto desgrenhado, jogando ele pra trás da testa. Segurando o topo da cabeça, me arrastei de volta pro quarto. Achei a porta da frente, girei devagar a maçaneta e puxei.

Estava aberta, graças a Deus. Puxei e passei como se estivesse empurrando o corpo inteiro através de um véu de pele oleosa e fina. Quando saí da minha prisão, ouvi umas vozes frenéticas falando baixo.

“Tem alguém… Tem alguém aí?” falei com a voz rouca.

“Você ouviu isso?” uma mulher sussurrou.

“Hã? Não?” um homem respondeu.

Por que eles estão tentando ficar tão quietos?

“Eu te disse que a gente não devia ter saído, você nem sabe usar uma porra de arma.” a mulher falou com raiva, acompanhado de um baque.

“Ai! Não precisava me dar porra de soco. Você mesma disse que a gente ia morrer de fome se não saísse pra procurar alguma coisa.” o homem sussurrou de volta.

Eu só fiquei parado no corredor ouvindo essa discussão. Eu precisava de ajuda, mas por algum motivo não conseguia soltar mais nenhuma palavra.

“É, eu disse que a gente ia morrer de fome, então por que caralho a gente tá procurando num hospital, seu mongoloide? Ainda por cima o pior lugar possível pra gente ter vindo. Como a gente sabe que não tem nenhum aqui dentro?” a garota falou.

“Eu fiquei vigiando esse lugar, não teve nenhum movimento nem nada aqui. Além disso, se a gente ficar doente, a gente precisa de remédio ou pode morrer. Então pensei: remédio primeiro, depois a gente pode ir pra um Walmart ou sei lá, não tô nem aí. Então cala a boca, para de falar comigo e fica de porra de vigia.” o cara falou firme.

Andei devagar na direção da luz que entrava no corredor. Conseguia ver sombras se mexendo no chão. Então me aproximei devagar, só tentando não cair de cara no chão.

Finalmente cheguei na porta, virei a esquina e vi um homem menor, com cabelo castanho, cachecol vermelho e boné. Ele estava revirando uma das gavetas. Ao lado dele tinha uma mulher de cabelo loiro, curto igual ou até mais curto que o do cara.

Agora o que aconteceu em seguida… não tenho orgulho nenhum. Nem sei direito por que fiz o que fiz. Mas vou explicar da melhor forma que consigo. Quando virei aquela esquina e vi eles…

Analisando cada parte do corpo deles, quanto mais eu olhava, mais raiva eu sentia. Nem sei de onde vinha aquela raiva. Senti meu peito subir mais rápido. Minha respiração acelerou e minhas mãos fecharam tão forte que as unhas quebraram nas palmas.

Eu vi vermelho. Um véu vermelho literal cobriu meus olhos e eu explodi pra frente com uma força nova que eu não tinha segundos antes. Agarrei a mulher e bati ela com toda a força contra a parede do lado.

Quando a cabeça dela bateu, ouvi um estalo alto e molhado e o corpo inteiro dela ficou mole. Soltei, virando minha raiva pro homem que agora estava recuando desesperado, procurando alguma coisa no bolso.

“Não. Não não não não.” ele falou implorando pra alguma coisa — não pra mim, eu acho.

Eu pulei pra frente. Eu e o cara brigamos um pouco. Agarrei o colarinho dele, empurrando todo o peso do meu corpo contra ele. Caímos no chão. Por cima dele, ele tinha as mãos no meu peito fazendo tudo que podia pra me tirar de cima.

Empurrei a mão dele que segurava minha camisola de hospital e agarrei o maxilar. Quando minha mão achou apoio, puxei. O primeiro puxão deslocou o maxilar do cara, fazendo ele gritar de dor. O segundo puxão forte arrancou o maxilar inteiro do homem. Ele começou a engasgar com o próprio sangue. Lágrimas escorriam pelo lado do rosto dele, convulsionando e olhando nos meus olhos com puro terror. Levantei ele e comecei a bater ele repetidamente no chão.

Ele já estava morto muito antes da minha surra acabar. Minha respiração desacelerou e meus pensamentos finalmente voltaram. Soltei ele. Um baque alto e molhado encheu o quarto quando a pilha de carne que antes era um homem caiu no chão.

“Por quê… por que eu fiz isso…” falei confuso e culpado.

Era como se alguma força desconhecida tivesse tomado conta de mim… Eu não quis, juro pela minha vida que não queria fazer isso. Depois disso, achei o celular dele… E é por isso que tô postando isso aqui… Nós não somos mais humanos.

Eu penso como humano e ajo como um quando tô sozinho, mas no segundo em que a gente vê outra pessoa… Se você me vir ou qualquer um como eu… Por favor, pelo amor de Deus, mata a gente na hora.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Ficar bêbado no trabalho foi uma ideia realmente péssima

Nada é pior do que estar longe de casa em noites de inverno com neblina. Ou pelo menos era o que eu achava. Ser um universitário que largou o curso, beber demais e ainda ficar com dor de cabeça com certeza piorava toda a desgraça. Ah, e eu odiava aqueles chuviscos de monção de inverno. A cada passo que eu dava, minha roupa ficava mais nojenta porque a lama espirrava nas minhas calças. Rajadas de vento gelado cortavam os galhos acima da minha cabeça, me fazendo tremer de frio, junto com aquele barulho de chocalho que as árvores faziam.

Enquanto eu seguia a pé pro meu destino, fiquei lembrando do meu tempo curto na faculdade. Ainda me recordo da última aula que assisti. Era sobre a Gaiola de Faraday. Ah, Sr. Faraday. É impressionante como você conseguiu fazer tanta coisa com os recursos limitados que tinha. Cresceu na pobreza, trabalhou como encadernador de livros e aprendeu tudo só lendo os livros ao redor. Eu tinha esperança de conseguir fazer o mesmo. Mas, infelizmente, a faculdade era cara demais. Agora eu estava preso trabalhando como assistente do meu tio nas investigações particulares dele. Mesmo assim, isso era melhor do que ser garçom ou lavador de pratos. Tinha um pouco de dignidade nisso, embora às vezes eu me sentisse só um menino de recados.

E o recado que eu tinha que fazer naquele dia era coletar informações com os moradores dos Apartamentos Greenville, que ficavam em Providence. Providence era uma parte bem isolada da cidade que, ultimamente, tinha ficado famosa por uma série de desaparecimentos. Meu tio estava trabalhando num caso específico e precisava de algumas informações diretas dos locais.

Tenho que admitir: mesmo se você ignorasse as manchetes sobre Providence, o bairro tinha um ar estranho pra caralho. As casas eram muito espaçadas umas das outras, e só algumas tinham luz acesa. Estranhamente, a mesma coisa acontecia com os postes de rua. A maioria piscava, e alguns nem funcionavam. O bairro inteiro parecia congelado no tempo — indiferente a qualquer progresso material que a cidade tinha feito na última década.

Meu celular vibrou. Era uma ligação do meu tio.

“Você já chegou no prédio?”, ele perguntou.  

“Quase lá.”  

“Ótimo, anda logo. Você já devia ter terminado isso tudo até o meio-dia. Você sabe como as coisas podem ficar feias em bairros desse tipo.”  

“É, eu volto a tempo. Aliás, que tipo de gente eu vou encontrar nesse gueto? Casais falidos, viciados em crack? Ouvi falar que os drogados se enfurnam em lugares assim. E se você tá tão preocupado com esse lugar, me mandar pra cá como parte do meu trabalho me parece uma violação de ética profissional.”  

“Tá bom, meu erro. Só pega os depoimentos das pessoas em Greenville e vaza. Não fica criando caso. Ninguém vai te encher o saco enquanto você ficar na rua principal. Os viciados geralmente ficam longe dela.”  

“É, eu sei. Mas mesmo assim, tem alguma coisa nesse lugar que tá me dando arrepios.”  

“Pô, garoto, é inverno.”

Revirei os olhos pro comentário do meu tio e encerrei a ligação, dizendo que talvez eu estivesse exagerando. Guardei o celular no bolso porque a bateria já estava quase no fim e eu queria guardar o que restava pra alguma ligação de emergência caso essa sessão de perguntas desse merda.

Continuei andando pela rua detonada até que um prédio caindo aos pedaços apareceu na minha frente, com a sombra cobrindo metade da rua. As janelas batiam com força no vento, e entre as vidraças escuras, só a do quinto andar tinha luz acesa. A placa no portão aberto de par em par dizia “Greenville”. Entrei e vi que a recepção estava vazia. Gritei chamando o segurança, mas não veio resposta nenhuma. Andei devagar pro corredor, pensando no estado deplorável do prédio. Dentro tinha uma fileira de quartos com portas trancadas. No final do corredor ficava a porta enferrujada do elevador. Tinha uma marca de amassado pra fora. Parecia que alguma coisa tinha batido com força de dentro pra fora.

“Devem ter sido uns golpes bem fortes”, murmurei pra mim mesmo e me arrependi de ter bebido tanto, porque parte do meu cérebro começou a ver o formato do amassado como um rosto em agonia.

Afastando esses pensamentos loucos e sem fundamento, apertei o botão de SUBIR e a porta de metal abriu. O elevador era apertado pra caralho, nem cabia direito uma pessoa. Do lado oposto da porta tinha um espelho sujo e rachado que ia até o teto. “Parece que ninguém se preocupa mais em limpar aqui. Foda-se. Só preciso acabar logo com isso.” Apertei o botão do quinto andar pra ver quem morava lá. A luz do elevador piscava enquanto ele lutava pra subir com meu peso. Parou com um tranco, a grade abriu e eu respirei aliviado ao sair daquela porra de caixão de metal sufocante.

Surpreendentemente, os quartos desse andar não tinham trancas nas portas. Examinei o corredor procurando quartos com gente. Bati em todos, mas ninguém respondeu, até chegar na porta mais afastada do elevador. Assim que meu nó do dedo encostou, a porta abriu sozinha de par em par. Meu nariz foi invadido por um fedor podre que vinha de dentro do quarto. Cheirava a coisa morta e me obrigou a tirar o lenço do bolso pra cobrir o nariz. Quando entrei, um mal-estar tomou conta de mim e eu senti que estava invadindo território hostil. O quarto estava completamente escuro e eu tropeçava nos móveis tentando encontrar quem morava naquele buraco negro de podridão. Quando saí das teorias malucas que minha cabeça estava criando, percebi um rangido contínuo vindo do fundo do corredor. Fui andando devagar, com passos hesitantes e leves, respirando o mais devagar possível, já que eu já estava morrendo de medo.

Entrei num quarto novo onde o fedor horrível estava no auge. Vi que o rangido sinistro vinha de uma cadeira de balanço perto de uma janela de vidro meio aberta, com uma figura sombria sentada nela. Chamei com relutância, mas não tive resposta. A curiosidade venceu e decidi usar a lanterna do celular pra ver quem estava sentado do outro lado do quarto. Exatamente quando estiquei a mão pro celular, um raio caiu no chão lá fora. O clarão atravessou as vidraças e iluminou o quarto inteiro por um segundo. Meu coração parou naquele exato momento quando vi um rosto grotesco olhando direto pra mim. Era uma visão nojenta de carne podre toda retorcida num formato que mal lembrava um rosto. Dei um grito e juntei toda a força que eu tinha pra correr pra saída. Enquanto eu me debatia no corredor escuro, ouvi um rugido atrás de mim, forte como um trovão, que me deu um calafrio na espinha. “Será que aquela aberração me viu? Tá me perseguindo? Ou só chamou por mim?” Eu não sabia de porra nenhuma. Minha cabeça e meu coração estavam disparados. Meu único objetivo era sair vivo daquele prédio.

De alguma forma cheguei no elevador e fiquei apertando o botão de DESCER sem parar, ofegando. Assim que a porta abriu, eu pulei dentro daquela merda de caixão de metal. Fiquei apertando o botão do Térreo, mas não registrava. Nenhum outro botão funcionava também. No final, admitindo a derrota, apertei o botão do estacionamento subterrâneo e ele funcionou. A porta de metal finalmente fechou e a descida começou. Peguei o celular e liguei pro meu tio. Contei tudo de qualquer jeito, mas, estranhamente, não ouvi nada do lado dele. Nem um som. “Eu tô fodido?”

A porta do elevador abriu e eu caí pra fora, me vendo no meio do estacionamento abandonado. Mesmo longe daquela coisa, ainda achei melhor ficar o mais quieto possível. Enquanto eu andava na ponta dos pés em direção à escada, notei alguma coisa. Estava agachada nas quatro patas. Pálida. Careca. Pelada. Não parecia humana de jeito nenhum. Segurei o grito que quase escapou. Me movi com o máximo de cuidado e subi as escadas — por sorte eram de concreto, não de madeira, senão o barulho teria alertado a criatura. Quando cheguei na entrada do prédio, saí correndo em disparada e corri o mais rápido que consegui até meu peito começar a doer.

Meus pulmões queimavam. Minha visão embaçou. Caí no chão gelado da calçada. Tudo ficou preto. Quando finalmente abri os olhos, meu tio estava em pé em cima de mim. Ele me contou que, quando eu liguei, não ouviu nada do meu lado, mas sentiu que alguma coisa estava errada. Trouxe uma ambulância e a polícia junto. Eles me disseram que a aberração que eu vi no quinto andar era só o cadáver de uma velha que morava naquele quarto. Ela não tinha parentes conhecidos e, depois que morreu, ninguém soube. O corpo tinha ficado lá apodrecendo por semanas. Explicaram que o rugido que eu ouvi foi só o trovão que veio depois do raio que iluminou o quarto. E que encontraram outro cadáver no estacionamento subterrâneo que tinha sido roído por cães. A carne tinha sido mastigada fora das duas palmas das mãos.

O que eles não me contaram foi sobre a criatura no subsolo. Perguntei sobre ela e eles disseram que provavelmente era fruto da minha imaginação bêbada. Encontraram marcas de mãos no chão do estacionamento. Mas se aquelas marcas eram da vítima ou do agressor, não dava pra saber porque não tinha outras pra comparar.

Desisti do trabalho do meu tio. Preciso ficar longe de prédios abandonados, elevadores e subsolos. Já vejo eles nos meus sonhos. E vejo Ele também. Vejo ele virando pra mim, com um sorriso malicioso grudado num rosto deformado. Sibilando e rosnando, ele vem andando devagar na minha direção. Por sorte, eu acordo antes que qualquer coisa aconteça. Mas esses sonhos malditos estão durando cada vez mais, e algumas noites eu fico apavorado demais pra dormir.

Estou apavorado só de pensar no que um sonho prolongado pode guardar.

Eu perco mais uma parte de mim mesmo toda vez que acordo

A primeira coisa que encontrei foi o globo ocular.

Eu estava fazendo minha caminhada matinal de sempre pela floresta atrás da minha fazenda antiga quando vi aquilo. Brilhando num branco leitoso sob o sol, ele se destacava fácil no chão escuro da mata. Não consegui identificar de que animal era, mas era bem pequeno e quase não mostrava sinal de decomposição.

Na verdade, estava em uma condição absurdamente boa. Não estava esmagado, não tinha marcas de rasgo, nada do que você esperaria de uma luta. Parecia que tinha simplesmente rolado para fora do crânio de alguma pobre criatura poucos minutos antes.

Por mais estranho que fosse, achar animal morto não é exatamente raridade no mato. Continuei meu dia normalmente.

Só à noite percebi que minha gata não estava em lugar nenhum. E ela nem era de sair de casa. Eu nunca deixava ela sair.

Dormir ficou quase impossível aquela noite. Moro bem isolado no interior. Se ela tivesse fugido, não tinha controle de animais por perto pra resgatar. Talvez até fosse melhor assim. Mesmo assim, aquele globo ocular deixou um buraco no meu estômago.

Na manhã seguinte eu acordei grogue pra caramba. Precisei de café mais do que nunca. Levantei, me espreguicei e desci pra cozinha.

Foi só quando peguei a jarra de café com a mão direita que percebi: meu mindinho tinha sumido.

A jarra escorregou e se espatifou no chão, virando um monte de cacos afiados que refletiam a luz. Fiquei parado olhando pra minha mão, atordoado, contando os dedos várias vezes. Com certeza eu estava vendo coisa.

Não estava. Realmente restavam só quatro dedos na mão direita.

Virei a mão de todos os lados e parecia que nunca tinha existido dedo nenhum ali. Sem ferida, sem sangue, sem inchaço, sem vermelhidão, nem cicatriz. Nada.

Quando finalmente me controlei, peguei o telefone com dificuldade e liguei pro hospital mais próximo.

Uma mulher com voz de quem já estava exausta atendeu:  
— Obrigada por ligar pro Warrington Medical, em que posso ajudar?

— Oi. Preciso marcar uma consulta urgente pra um ferimento.

— Qual a natureza do ferimento?

— Meu dedo… ele sumiu.

— Sumiu… o dedo se soltou? Como aconteceu? — ela respondeu mais rápido, mudando pra um tom mais interessado.

— Eu… não sei direito. Meu mindinho simplesmente não estava mais lá quando acordei hoje de manhã.

Silêncio do outro lado.

— Também não tá sangrando… a ferida já tá completamente fechada.

Ela respirou fundo, quase falou alguma coisa e parou. Depois continuou:  
— Senhor, vou transferir você pro nosso setor de triagem. Só um instante.

Música jazz de elevador.

Depois de quase um minuto, outra mulher atendeu. Fez as mesmas perguntas e finalizou:

— Consigo marcar pra sexta-feira às duas da tarde. Serve pra você?

Sexta-feira? Cinco dias de espera?

Aceitei mesmo assim.  
— Tá bom… acho que serve. Obrigado — falei e desliguei rápido, voltando a encarar minha mão.

Depois de varrer o vidro, procurei meu dedo pelo quarto inteiro. Fiquei de quatro no chão de madeira empoeirado por mais de uma hora. Nada. Revirei os lençóis também. Zero. Não estava em lugar nenhum.

Acabei voltando pras tarefas idiotas de sempre pra tentar não pensar no que estava acontecendo. Uma delas era comprar comida.

Por causa de onde eu moro, o supermercado mais perto fica uns trinta minutos pela rodovia. Já tinha rodado uns quinze minutos quando, quase esquecendo do dedo que faltava, alguma coisa me trouxe de volta à realidade. Um vulto marrom passou rápido na beira da estrada vazia. Em qualquer outro dia eu ignoraria um animal atropelado, mas dessa vez foi diferente. Lembrei do olho na floresta. Da minha gata. Do meu dedo. Pisei fundo no freio e dei ré.

Não era minha gata.

O cervo estava de lado, cabeça e pescoço torcidos num ângulo doloroso pra caralho. A língua dele apontava pra fora como se estivesse gritando algo horrível. E era horrível mesmo.

Não tinha pernas nem patas. Só tronco e cabeça, moles, sem conseguir se mexer.

Não que fosse se mexer. A língua esticada e os olhos vidrados deixavam claro que estava morto. O buraco no meu estômago ficou ainda maior. Desci do carro pra olhar de perto.

Se não fossem esses detalhes, até poderia parecer vivo. A carne da língua estava rosada e fresca. Quase não tinha cheiro. E não tinha uma mosca sequer. A coisa devia ter morrido há pouquíssimo tempo.

Não havia nenhuma cicatriz ou abertura na parte de baixo do tronco, onde deveria ter pele e músculo rasgados. Era como se o cervo nunca tivesse tido membros. Eu quase teria acreditado nisso se não fosse pela minha própria mão de quatro dedos enfiada no bolso.

A cena me deixou enjoado e confuso. Voltei correndo pro carro e fiquei olhando pra minha mão de novo.

Apertei o volante com força e voltei pra casa.

Fui dormir naquela noite com fome e sem conseguir relaxar.

Quando acordei, parecia que tinha saído do sono mais profundo da minha vida. Olhei pro relógio.

13h.

Esfreguei os olhos sem acreditar e olhei de novo. Tinha dormido catorze horas seguidas.

Sentei na cama e bocejei. Meus lábios se fecharam pra dentro, sentindo falta da parede dura dos dentes e encostando só em carne macia e irregular. Minha respiração travou. Levantei a mão trêmula e apalpei dentro da boca.

Todos os dentes tinham sumido.

Engasguei e procurei desesperado pela cama. Nada. Nenhum dente em lugar nenhum. Só uma mancha enorme de baba ensopada no travesseiro.

Tentei xingar baixo e as palavras saíram emboladas, babadas, um monte de som mole e sem sentido. Corri pro banheiro e abri a boca no espelho. As gengivas vazias tinham pequenas depressões onde os dentes costumavam ficar.

Exatamente como meu dedo e o cervo, não havia nenhum sinal de trauma. Era como se eu sempre tivesse sido sem dentes. Meu estômago embrulhou. Minha boca se fechou num esgar mais fundo do que nunca.

Meu cachorro também não tinha se dado bem. Era um labrador preto grandão, sempre feliz, sempre abanando o rabo. Mas naquela manhã, quando o encontrei deitado lá embaixo, ele mal se mexia. Parecia dopado. Mas o que mais chamava atenção não era o cansaço.

O crânio dele afundava pra dentro em volta de duas órbitas grandes e vazias acima do focinho. O pelo curto e preto cobria perfeitamente o formato dos buracos.

Aquilo me fez chorar feito criança. Procurei pela casa inteira durante horas.

Não achei os olhos dele em lugar nenhum.

Ainda abalado, lembrei do globo ocular que tinha encontrado na floresta. Deviam estar lá fora.

Quando abri a porta da frente, ela só girou até a metade e bateu em alguma coisa que eu não conseguia ver. Ouvi um ganido grave e dolorido de animal. Reconheci o som de urso e fechei a porta na hora.

Fui até a janela ao lado pra olhar atrás da porta.

Apesar do ângulo ruim, dava pra ver uma massa marrom felpuda perto do chão. Resolvi investigar.

Era algo que eu nunca tinha visto na vida. Os nós no meu estômago viraram puro caos.

A cabeça gigante do urso-pardo estava de lado no piso de madeira da varanda, completamente separada do corpo. Dois tubos pálidos e carnudos saíam da base da cabeça por uns trinta centímetros e se conectavam a uma rede de órgãos internos perfeitamente arrumados e limpos. Dava pra ver dois pulmões rosados e cheios de veias se expandindo e contraindo. No meio deles, um coração vermelho e musculoso batendo rápido pra caralho.

Os olhos desesperados do urso se viraram pra mim e ele soltou um gemido grave e gutural. A cabeça rolava de um lado pro outro. Engasguei, cambaleei pra trás, corri pra dentro de casa e bati a porta com força.

A noite caiu mais rápido do que eu esperava. Eu tinha me trancado dentro de casa, sem sair do lado do meu cachorro. Quando ficou tarde, nem fui pra cama. Fiquei na sala com ele.

Logo quando meus olhos começaram a pesar, um flash de luz branca cegante invadiu a janela. Apertei os olhos e me virei.

Além do quintal, atrás das árvores, alguma coisa emitia uma quantidade absurda de luz. Levantei num pulo, corri até a porta, peguei uma faca na cozinha e saí pro ar frio da noite, tentando ignorar a cabeça do urso à minha direita.

Agora mais perto, consegui distinguir uma silhueta oval enorme, quase tão alta quanto os pinheiros. A luz saía em grandes círculos pela frente dela.

De repente o chão tremeu. Um chiado agudo e ensurdecedor veio na minha direção e um único feixe de luz me acertou direto no corpo, me cegando. Levantei a mão pra proteger os olhos enquanto meus pés formigavam.

Um som grave, parecido com tuba, me atingiu como uma onda. Me virei e corri de volta pra casa o mais rápido que consegui.

Tranquei a porta e subi as escadas em disparada. Parei congelado no topo da escada.

A luz que entrava pela janela do fim do corredor iluminava a silhueta de uma figura.

Era magra demais pra ser humano, com braços e pernas compridíssimos. Dava pra ver uma pele cinza-clara. A cabeça, que quase encostava no teto, parecia grande demais pro pescoço fino. Ela deu um passo na minha direção.

Meus pés me lançaram porta adentro do meu quarto. Fechei e tranquei a porta com as mãos dormentes.

Ouvi passos pesados passando pelo corredor e descendo as escadas.

Fiquei ali parado, sem mexer um músculo, apertando a faca e suando frio até o sol nascer.

Só juntei coragem pra abrir a porta quando meu relógio marcou 9h. Desci as escadas devagar, olhando pra todos os lados.

Meus olhos pararam numa longa mecha de pelo preto esticada no meio da sala. Me aproximei.

Era o rabo do meu cachorro. Cobri a boca com a mão e solucei, os sons saindo moles e fracos.

Não precisei de mais nada. Entrei no carro sem levar nada e dirigi sem parar até quase 18h.

Mesmo sem conhecer a cidade onde parei, senti um alívio enorme. Aluguei um quarto de motel e tentei me acalmar.

Eu tinha escapado daquela coisa.

Hoje de manhã acordei na cama do motel. Olhei pro relógio.

Meio-dia.

Tentei sentar, mas alguma coisa me impediu de fazer força. Caí de lado na cama. Confuso, joguei as cobertas pro lado.

As duas pernas tinham sumido.

Sem cicatrizes. Sem feridas abertas. Sem sangue. Nada.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

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