domingo, 17 de maio de 2026

Eu Saí em Busca da Mina de Ouro do Holandês Perdido. Queria Nunca Tê-la Encontrado...

Eu fui criado ouvindo a lenda da Mina de Ouro do Holandês Perdido a vida inteira. Meu pai era obcecado. Ele lia todas as histórias, fazia trilha em cada caminho, e encontrava todo mapa que conseguia. Ele acreditava de verdade que seria ele quem encontraria o ouro. Eu duvidava que alguém um dia encontrasse. Agora eu queria nunca ter encontrado.

Mesmo depois que meu pai se foi, eu voltava para as Superstition Mountains todo ano para procurar o ouro. Chame de hábito, chame de loucura, chame do que você quiser. Eu fazia isso por ele. Pra honrar a memória dele. Sempre que eu estava lá fora, sozinho no deserto, olhando pro céu noturno, eu quase conseguia sentir que ele estava bem ali do meu lado e talvez, só talvez, uma partezinha de mim acreditasse que eu ia encontrar o ouro e ficar rico além dos meus sonhos mais malucos.

Tudo começou num outono, quando eu estava me preparando pra fazer minha viagem anual. Eu tinha conseguido uma pista sobre uma cópia de um mapa usado por um garimpeiro que tinha desaparecido procurando o ouro. Eu já tinha participado de dezenas de buscas, e meu pai, de umas cem antes de mim.

Eu tinha me afastado muito de qualquer trilha, até ficar bem perdido. O sol estava começando a se pôr e eu estava quase sem água. Eu não percebi o desnível na escuridão até ser tarde demais. De repente, eu estava despencando de um penhasco, rolando por entre arbustos e cactos. Eu nem tinha entendido o que tinha acontecido até recobrar a consciência no fundo de um barranco. Milagrosamente, eu sobrevivi, mas fiquei todo ralado e minha cabeça doía pra caralho. O sol já tinha sumido completamente e a temperatura tinha caído rápido. Minhas únicas companhias eram as estrelas lá em cima.

Eu tentei me levantar, só que meu tornozelo cedeu. Tinha torcido feio — talvez até quebrado. Eu puxei minha lanterna e consegui achar um dos meus bastões de caminhada que tinha rolado lá pra baixo comigo. Apoiei todo o peso nele. E consegui começar a andar. Em que direção? Eu não tinha como ter certeza.

Ao longe, entre as silhuetas dos cactos e das árvores de ironwood, eu vi uma forma humana e assumi na hora que era outro trilheiro — ou talvez busca e salvamento vindo me procurar. Tentei gritar, mas minha voz saiu surpreendentemente rouca e a pessoa não pareceu me ouvir. Ela começou a se afastar e, desesperado por qualquer saída daquele barranco, eu fui atrás.

Quando cheguei mais perto, percebi que era uma mulher — e bem jovem, inclusive. Ela usava um short velho de trilha e uma camisa de flanela. Parecia vestida leve demais pra aquele horário da noite, mas não tremia. Eu tentei chamar de novo, mas ela ainda não respondeu. Só que, pra mim, ela parecia saber pra onde estava indo e, no meu delírio de concussão, eu decidi continuar seguindo.

Ela me guiou pra fora do barranco e pra dentro de um leito seco de enxurrada. Nós seguimos por ele por um bom tempo. Eu esperava encontrar água — talvez um riacho que, por algum milagre, ainda estivesse correndo — mas não tinha nada. Minha guia era tão silenciosa quanto a noite, e eu comecei a sentir que tinha algo errado. Ela nunca virava a cabeça pra olhar pra mim, nunca falava, nunca sequer diminuía o passo. E a luz da minha lanterna nunca parecia bater nela. Eu comecei a ter medo de que ela estivesse me levando ainda mais pra longe da civilização — pra onde eu queria voltar desesperadamente.

Justo quando eu estava prestes a dar meia-volta e tentar achar meu próprio caminho pra sair, minha luz passou por cima de algo no leito seco que chamou minha atenção. Era mais circular e mais achatado do que qualquer pedra natural. Eu me aproximei e peguei. Levantei na luz e meus olhos quase não acreditaram no que viram: um velho dobrão espanhol de ouro, ali sabe-se lá há quanto tempo. Algumas lendas diziam que, antes mesmo do Holandês encontrar a mina, mineradores espanhóis já tinham trabalhado aqueles veios.

Todo o medo e a suspeita foram jogados fora ao pensar em encontrar a mina do Holandês, e eu continuei atrás da mulher, tentando alcançá-la. Não importava o quão rápido eu corresse, ela sempre parecia, de algum jeito, ficar à minha frente. Apesar do quão estranha aquela mulher era, nada conseguia me incomodar enquanto eu sentia a moeda na mão. Ela estava fria, mas parecia muito mais leve do que eu tinha imaginado. Tinha que haver mais.

Ela continuou seguindo por um tempo, sem nunca olhar pra trás. Por fim, saímos do leito seco e chegamos a um afloramento de rochas na base de uma colina. O ar estava pesado. Nenhum grilo cantava, nenhum animal chamava. Eu senti como se olhos estivessem sobre mim. Olhei em volta tentando achar a origem, mas não vi nada. Quando olhei de novo na direção da mulher, ela tinha sumido. Eu examinei as rochas tentando entender pra onde ela foi, até encontrar uma entrada estreita de caverna.

Eu presumi que ela tinha entrado na caverna e que talvez o ouro estivesse lá dentro, então eu fui atrás. A entrada era apertada e eu tive que me espremer de lado pra passar, mas, uma vez lá dentro, eu consegui ficar em pé normalmente sem problema. Era surpreendentemente quente e úmido lá dentro, depois do frio do deserto. Ainda assim, eu percebi que, na mesma hora, eu sentia falta do frio. Eu passei a luz ao redor. A caverna era enganadoramente comprida, curvando e entrando fundo na montanha. O quanto ela ia longe eu não fazia a menor ideia.

No chão, havia fragmentos antigos de equipamento de trilha e de mineração. Uma lanterna velha, estilo anos 50, a cabeça de uma picareta enferrujada e uma bota de trilha mais nova — mas nada de ouro. Ainda não, pelo menos. Meu coração disparou só de pensar.

Ainda não havia sinal da garota, mas não parecia que ela estava me esperando. Eu ainda não fazia ideia do que ela estava fazendo lá fora nem por que tinha me levado até ali. Eu achei que conseguia ouvir o arrastar de passos mais pra dentro da caverna. Presumi que fosse ela, então eu andei mais fundo.

Eu caminhei por um tempo, ouvindo aquele arrastar e seguindo os artefatos ocasionais de viajantes de outros tempos. O arrastar parecia estar só um pouco mais adiante quando eu tropecei em alguma coisa. Apontei a lanterna pra baixo e congelei. Era um esqueleto humano, quase todo reduzido a osso. Pedacinhos de carne cinzenta, seca, ainda se agarravam aos membros, e havia cabelo na cabeça. Aí eu reparei nas roupas. Velhas e apodrecendo também — mas eu reconheci. Era a mesma flanela e o mesmo short que a garota estava usando.

A compreensão veio de uma vez, imediata. Era ela. Ou o corpo dela. Podia existir outra explicação, mas eu não conseguia pensar em nenhuma. Ela estava morta, mas alguma coisa dela ainda permanecia naquele escuro.

Os pelos da minha nuca se arrepiaram, e eu já estava praticamente pronto pra ir embora quando minha luz bateu em algo refletivo logo à frente. Eu precisava ver o que era. Entrei numa câmara grande. Minha boca caiu. Espalhados por todo o chão, havia pepitas de ouro e moedas. Na parede da caverna, havia um veio de ouro tão grosso quanto a minha coxa, e ele seguia pra além do alcance do brilho da minha lanterna. Tinha ouro mais do que suficiente pra deixar um homem rico e confortável pelo resto da vida.

Então eu ouvi o arrastar.

Eu esperava ver a garota — ou o fantasma dela — mas eu só ouvi uma respiração no escuro. Funda e áspera.

Eu congelei.

Devagar, eu ergui a lanterna e apontei pra origem. Eu mal consegui ver antes de recuar num salto. Era mais pálido que a lua, não tinha olhos, e tinha orelhas enormes. Eu me encostei na parede da caverna e, quando apontei a luz de novo pra onde aquilo estava, não havia nada ali. Aí eu senti uma gota cair em cima de mim e ouvi um rosnado cruel.

Eu mirei a luz rápido e vi aquela coisa no teto da caverna, bem acima de mim. Ela escalava como uma aranha e, assim que minhas botas rasparam no chão, ela se lançou direto em mim. Eu atingi a criatura com a parte pesada da lanterna e derrubei no chão. Saí correndo, mais fundo na caverna.

Eu conseguia ouvir aquela coisa me perseguindo. Ela se movia aos pulos, raspando pela parede. E então, de repente, eu parei.

Eu ouvi mais respirações ásperas e mais arranhões, mais fundo. Tinha mais deles. Eu não tive coragem de ir adiante. Eu ouvi um raspar no teto acima de mim. Aquele de trás tinha alcançado. Eu fiquei completamente imóvel, sem nem respirar. Apontei a luz pra ele e vi a criatura inclinar a cabeça como se estivesse escutando. Eu tateei os bolsos atrás de qualquer coisa que eu pudesse jogar. Senti algo frio e redondo no bolso.

O dobrão de ouro.

Eu arremessei o mais longe que consegui e ouvi ele rolando caverna adentro. A criatura acima de mim correu atrás do som, e eu corri na direção oposta, de volta, rumo à saída. Eu quase atravessei a câmara do ouro em disparada quando ouvi uma voz baixa:

— Espera.

Eu parei na hora. A voz vinha logo além da câmara. Havia um brilho suave.

Eu me aproximei e, de pé bem na frente dos ossos, estava a mulher que eu tinha visto antes. Pela primeira vez eu conseguia ver o rosto dela. Ela era linda, mas parecia tão cansada.

Ela disse: — Este não pode ser meu descanso final. — A voz dela era pouco mais que um sussurro. — Por favor, tira meus ossos daqui. Eu quero dormir onde eu possa ficar ao sol.

Lá do fundo da caverna eu ouvia o arrastar se aproximando. Parecia que eram dezenas. Meus olhos correram pro ouro e depois pros ossos. Eu só tinha tempo de pegar uma coisa ou a outra. Eu hesitei só por um instante, então me ajoelhei diante dos ossos. Esvaziei minha mochila e enchi com os ossos da mulher. Eu ouvi quando eles entraram na câmara do ouro, bem na hora em que eu me virei pra disparar.

Eu me espremei pra fora pela entrada e continuei correndo. Eu corri e corri até não sobrar ar nos meus pulmões. Minha garganta estava seca e eu não conseguia recuperar o fôlego. Enquanto eu puxava o ar chiando, olhei pra trás com a lanterna. Eu não vi nenhuma daquelas coisas, mas eu não ia ficar esperando elas me encontrarem.

Eu caminhei a noite inteira, ignorando o frio. Ignorando o cansaço. Ignorando a sede. Existiam coisas piores na noite.

Por fim, uma luz surgiu no horizonte e eu encontrei um riacho ainda correndo, mesmo tão tarde no ano. Eu caí de joelhos, fiz concha com as mãos, levei a água até a boca e bebi. Bebi até me satisfazer.

Depois disso, eu achei meu caminho até a estrada e peguei carona de volta pro meu carro. Os ossos chacoalharam na mochila o caminho todo. Eu dirigi pra longe da escuridão daquela caverna, onde aquelas coisas viviam entre riquezas sem fim.

Às vezes eu ainda penso no ouro. Mesmo agora, eu quase consigo sentir aquela moeda na minha mão — mas eu não conseguiria achar aquela caverna de novo nem se tentasse. Eu sei que é melhor que o ouro do Holandês continue perdido. Eu escrevo isso pra me lembrar de que alguns segredos são melhores quando ficam guardados no escuro.

Naquela noite, eu dirigi até um lugar que eu conhecia. Uma colina tranquila com um único pé de mesquite, de frente pra um campo de algodão. Ali, ela poderia ver o sol nascer.

Sob a cobertura da escuridão, eu cavei uma cova e deitei os ossos dela lá dentro. Quando terminei de cobrir com terra, o céu já cintilava dourado, enquanto o sol começava a subir. Eu me afastei e encarei o túmulo. Por um breve momento, eu vi o semblante dela. A escuridão que eu tinha visto no rosto tinha desaparecido, e eu achei que conseguia ver um sorriso. Então ela se foi.

Tem algo errado com a nova amiga da minha esposa

É difícil colocar em palavras quando e como esse pesadelo começou.

Me mudei com minha esposa, Sarah, para o outro lado do país, o que acabou com a nossa vida social e com o nosso casamento.

Porra, eu queria não ter aceitado esse emprego desde o início.

Nós éramos do tipo sociável. Ela trabalhava num escritório de advocacia e eu era soldador. Do nada, recebi uma proposta para me mudar e me estabelecer em outro local por três vezes o meu salário. Depois de conversar com a Sarah, decidimos que eu aceitaria o emprego e ela encontraria qualquer trabalho que conseguisse por aqui.

Tudo estava bem nos primeiros meses, mas a vida começou a ficar monótona. Esse lugar é meio pequeno e não tem muita coisa para fazer por aqui que não fique chata depois de um tempo. A falta de novidade acabou com o nosso casamento. Eu comecei a odiar voltar do trabalho e fazia horas extras só para atrasar o máximo possível a volta para casa.

Todo dia, eu ficava sentado por uma hora na minha caminhonete numa parte isolada da estrada, só fumando e pensando. Quando eu chegava em casa, rezava para que ela estivesse dormindo, para não ter que lidar com o seu tratamento frio e seus comentários sarcásticos.

E eu achava que aquilo era ruim.

Alguns meses atrás, conversamos e ela decidiu entrar num clube artístico que uma das amigas do trabalho frequentava. Fiquei feliz que isso finalmente a tiraria de casa e talvez a acalmasse por enquanto. Como eu queria que as coisas fossem como antes. Como eu queria que nunca tivéssemos vindo para cá.

Então ela entrou nesse "clube".

No começo, ela parecia genuinamente feliz e eu fiquei contente que ela tinha conseguido fazer algumas amigas. Ela ficava cada vez mais feliz, até que começou a ficar mais desdenhosa e secretista sobre o que estavam fazendo.

Uma vez, perguntei: "Ei, o que vocês realmente fazem?" e ela só me deu um olhar zangado e amargo, antes de mudar subitamente de humor e dizer: "Eu vou te inscrever e você vai ver."

Isso me pegou de surpresa.

A partir daquele ponto, ela voltou a ser alegre e calorosa. Pelo menos, foi o que pensei. Ela me ligava no trabalho e perguntava como tinha sido o meu dia, o que ela não fazia há anos. Eu chegava em casa e encontrava jantares grandes e bem-feitos. Meus filmes favoritos estavam passando na TV. Eu pensava num presente para o meu aniversário e ela me dava exatamente o que eu tinha imaginado, sem eu nunca ter contado a ela.

De repente, minha vida virou de um inferno para um paraíso, aparentemente sem motivo. Eu ainda parava na estrada deserta, só para chorar de alegria e me perguntar que porra tinha acontecido. Não que eu estivesse ofendido ou com raiva por ter acontecido.

A intimidade dela também virou algo de outro mundo.

Eu aceitei um corte enorme no meu salário para poder passar mais tempo com ela. Eu juro, cada dia que eu chegava em casa, ela estava cada vez mais bonita. E essas não eram mudanças sutis. Num dia, o cabelo dela de repente crescia e ficava exuberante e forte. No outro, eu podia jurar que ela estava mais magra e mais musculosa.

Ela passava muito tempo no escritório fazendo estatuetas estranhas para o clube de arte dela. Elas pareciam sombrias, com runas estranhas entalhadas nelas. Supostamente, era para algum mundo de arte que estavam construindo. Pelo menos, esse era o cerne do projeto.

Não sei com que material ela fazia aquelas estatuetas, mas minha cabeça começava a ficar estranha sempre que eu passava tempo em casa. Eu tinha essa sensação esquisita de que elas estavam me olhando. Às vezes eu ouvia sussurros fracos. Às vezes elas de alguma forma se moviam de um lugar para outro, mesmo eu estando sozinho em casa e nunca tendo tocado nelas.

Meu mundo ficou perfeito até desabar há uma semana.

Um dia, eu segurei a mão dela e perguntei o que tinha acontecido. Eu ficava dizendo a ela o quanto eu estava feliz e o quanto a nossa vida tinha melhorado. Ela só sorriu e disse: "Talvez seja hora de você conhecer a minha amiga Thilia."

O nome soou de alguma forma estranho.

Eu concordei e sugeri sairmos para algum lugar, mas a Sarah insistiu que ela viesse até a nossa casa para jantar, já que ela supostamente era uma pessoa extremamente reservada. Na época, não achei estranho. Que idiota eu fui.

Então marcamos o jantar para a noite de sexta-feira à meia-noite, o que, por algum motivo, não me pareceu estranho. Alguém vindo até a nossa casa no meio da noite para jantar deveria ter me alarmado, mas eu estava tão investido na minha felicidade que tinha perdido todo o senso.

Sexta-feira chegou e a Sarah não me deixava chegar perto da cozinha. Quero dizer, nem perto. Passei o dia inteiro fora de casa. Eu tinha tirado o dia de folga, nada menos, e a Sarah só me deu esse sorriso perturbador e disse: "Eu vou preparar tudo. Você vai para a cidade e se diverte."

Não importava o quanto eu insistisse, ela queria que eu saísse de casa. De novo, eu fui burro demais para perceber.

Fui para bares e me diverti como uma criança com dinheiro quase infinito. Cheguei em casa pouco antes da meia-noite e a Sarah abriu a porta para mim.

Meu queixo caiu.

Ela parecia pelo menos vinte anos mais jovem. Não quero dizer que ela estava bem vestida ou usando uma boa maquiagem. Não, parecia que o envelhecimento dela de alguma forma tinha se revertido. Algo me fez estremecer de desconforto.

"Entra, ela está quase chegando!" ela gritou quase histérica de excitação.

A casa estava arranjada como se estivéssemos tendo uma festa romântica. Ela mandou entregar flores. Incensos estavam acesos por toda parte e a mesa de jantar estava transbordando de comida.

Um pequeno detalhe me chamou a atenção entre toda essa anormalidade. A Sarah tinha um dente faltando que de repente estava lá de novo.

Antes que eu pudesse pressioná-la por respostas, alguém bateu suavemente na porta da frente. Não havia carro lá fora e moramos longe de qualquer transporte público.

"Ela chegou!" Sarah pulou de excitação e me arrastou até a porta.

No momento em que ela abriu aquela porta, eu me senti mal. Aquela sensação de náusea no estômago quando tudo parece normal, mas no fundo você sabe que algo está muito, muito errado.

"Thilia, bem-vinda!" Sarah disse com um sorriso largo.

A mulher parecia linda. Anormalmente linda. Eu não conseguia imaginar alguém mais atraente aos olhos.

"Olá, Sarah," ela disse enquanto me encarava.

Agora eu sei que os olhos dela eram azul-claros quando ela entrou.

"Posso entrar?" ela perguntou numa voz charmosa e feminina.

Eu murmurei: "Claro," e notei o seu sorriso largo enquanto ela entrava. Naquele momento, tudo ao meu redor pareceu ficar sem brilho, como se eu estivesse severamente intoxicado.

Nos sentamos à mesa de jantar e a Sarah, por algum motivo, sentou ao lado dela em vez de ao meu lado. Meus joelhos tremiam. Havia algo muito vil e repulsivo sobre essa mulher. Ela usava um vestido vermelho estranho e ornamentado, com joias pretas cravejadas com o que pareciam gemas de valor inestimável. O cabelo dela era o mais escuro que eu já tinha visto, perfeitamente arrumado.

Ela mal prestava atenção na Sarah, focando-se em vez disso em mim, o que me deixou desconfortável.

A Sarah colocou a comida na nossa frente em bandejas de servir cobertas que não tínhamos antes. Ela levantou as tampas de metal, revelando um prato requintado feito de algum tipo de carne e cogumelos raros.

Meus olhos se arregalaram. A Sarah nunca cozinhava carne vermelha e isso estava muito além das habilidades dela. Parecia algo preparado pelos melhores chefs do mundo. O aroma forte, doce e terroso me atingiu imediatamente.

Sarah e Thilia encararam a carne com expressões quase famintas antes de devorá-la. Elas comiam como se não comessem há dias.

Minhas mãos tremiam enquanto eu colocava um pedaço de carne na boca. A textura era incrível, o sabor diferente de tudo que eu já tinha experimentado.

"Como está, querido?" Sarah perguntou, quase zombeteiramente.

"Está... adorável," eu murmurei, e ambas riram.

Embora tivesse um gosto incrível, eu não conseguia engolir uma única mordida. Era como se meu corpo se recusasse a deixar. Eu mastigava e mastigava, depois cuspiria discretamente sempre que elas não estavam olhando. Parecia errado.

Elas comiam como animais. As porções delas faziam a minha parecer minúscula. Elas eram como leões famintos, não seres humanos.

Eu me sentia ansioso e fora de lugar. Cada parte de mim estava me dizendo para correr, mesmo que estivéssemos supostamente nos divertindo.

Depois que terminaram, Sarah disse: "Deveríamos pegar mais carne da próxima vez."

Isso soou errado. Ela mal tocava em carne há anos.

Thilia produziu uma garrafa de vinho, que Sarah abriu e serviu. Ela gesticulou para nos movermos para a sala de estar e sentarmos perto da lareira.

Para minha surpresa, as poltronas tinham sumido, sobrando apenas o sofá.

Ela serviu três copos de um vinho tinto denso, quase oleoso. Agora eu juro que os olhos da Thilia eram verde-escuros. As pupilas dela não reagiam à luz, como se fossem decorativas.

Elas beberam rapidamente e me pressionaram a fazer o mesmo.

O vinho não tinha gosto de vinho. Era extremamente doce, diferente de tudo que eu já tinha provado.

Depois disso, eu fui entrando e saindo de consciência. Não me lembro de mais nada daquela noite, exceto que Thilia me deu um dos seus anéis pretos, que não consigo tirar de jeito nenhum.

Acordei na manhã seguinte com uma dor lancinante. Meu corpo inteiro parecia estar cheio de brasas ardentes. Eu mal conseguia chegar ao banheiro.

Não importava o quanto eu exigisse respostas, a Sarah não me contava o que tinha acontecido.

Eu nunca me recuperei totalmente. Fico mais fraco a cada dia. Tenho pesadelos constantes e sempre vejo aquela mulher no canto da minha visão. Ouço vozes na minha cabeça me provocando, me dizendo que vou para o inferno, perguntando se eu aproveitei o meu jantar.

Eu tinha marcas de mordidas por todo o corpo. Elas eram profundas e ensanguentadas, mas a Sarah as ignorou.

Toda noite, sofro de paralisia do sono.

Finalmente, a Sarah saiu de novo. Custou toda a minha força chegar ao ponto de táxi e ir a um hospital particular em outra cidade.

A coisa mais estranha é que os médicos não encontraram vestígios de drogas, álcool ou qualquer lesão grave. Disseram que nunca tinham visto um caso como o meu. Tentei mostrar a eles as marcas de mordidas, mas eles não conseguiam vê-las.

Meu exame de sangue mostrou que estou tão saudável quanto um homem de noventa anos. E pareço estar envelhecendo rapidamente.

Essa porra desse anel não sai. Três lâminas quebraram quando tentaram cortá-lo.

Os médicos acham que eu sou esquizofrênico e estou lutando para convencê-los do contrário.

Eu juro que algumas das enfermeiras são ela. Eu reconheço aqueles olhos, mesmo atrás das máscaras. Uma delas sorriu para mim hoje. Os olhos dela não eram da mesma cor de ontem.

E eu sei que o anel estava na minha outra mão quando eu dormi da última vez.

A Sarah não me ligou nem uma vez.

Talvez ela consiga outra chance de desfazer a vida desperdiçada dela, como ela a chamava.

Ela negou ter sido casada comigo quando o hospital a ligou.

sábado, 16 de maio de 2026

Eu Moro Sozinho, Mas Minha Cliente Acabou de Ouvir Outra Pessoa No Meu Microfone

Não sei como começar isso a não ser dizendo logo de uma vez: alguma coisa no meu apartamento tem estado aprendendo minha voz, e eu acho que está ficando cada vez melhor nisso.

Fico digitando e apagando porque toda maneira que eu tento explicar isso soa insana. Mas eu preciso escrever isso antes que eu perca a cabeça completamente, e, honestamente, eu preciso saber se mais alguém já passou por algo assim. Porque eu não posso ir à polícia. O que eu diria? "Alguém está me imitando dentro da minha própria casa?" Eles perguntariam se eu moro sozinho. Moro. Eles me olhariam do mesmo jeito que minha irmã me olhou quando eu dei uma deixada sobre isso, e aí eles sugeriariam terapia.

Talvez eu precise mesmo de terapia. Mas terapia não explica as gravações no meu celular.

Beleza. Vou escrever tudo do começo.

Eu tenho 28 anos, trabalho em casa como designer gráfico freelancer, e moro sozinho num apartamento pequeno de um quarto há cerca de dois anos. Último andar de um prédio mais antigo, no final do corredor. É quieto. A maioria dos outros apartamentos é ocupada por pessoas mais velhas que trabalham durante o dia, então é quase silencioso a maior parte do tempo. Eu gostava disso nesse lugar. Agora eu odeio.

A primeira coisa que eu notei foi há cerca de três semanas. Era uma terça-feira, eu acho. Eu estava na minha mesa na sala trabalhando num projeto por volta das 11:30 da noite, e ouvi uma tosse vindo do corredor. Não de fora da minha porta, de dentro do meu apartamento, do corredor curto que leva ao quarto e ao banheiro. Só uma tosse única, discreta. O tipo que você dá quando está limpando a garganta.

Fiquei sentado olhando para a entrada do corredor por provavelmente um minuto inteiro. Aí eu levantei e fui verificar. Quarto vazio. Banheiro vazio. Armário vazio. Eu até olhei atrás da cortina do chuveiro, o que foi idiota porque a cortina é transparente. Não tinha ninguém. Eu me disse que eram os canos. Prédio antigo, acústica esquisita. Às vezes eu ouço meus vizinhos através das paredes, abafados. Provavelmente era isso.

Voltei a trabalhar e esqueci daquilo.

Aí na quinta-feira, eu estava na cozinha fazendo jantar, e ouvi a mim mesmo dizendo alguma coisa vindo da sala. Essa é a única maneira que eu consigo descrever. Soava como eu. Era a minha voz, vindo da sala, dizendo "É." Só isso. Só "É." Do jeito que eu diria se alguém me fizesse uma pergunta e eu estivesse ouvindo pela metade.

Eu na verdade disse "O quê?" em voz alta, pensando que de alguma forma eu tinha uma ligação no viva-voz que eu tinha esquecido. Mas meu celular estava no balcão do meu lado, sem chamadas ativas. Andei até a sala e nada. TV desligada, notebook fechado. Ninguém lá.

Aqui é onde eu deveria explicar que eu moro sozinho. Eu não tenho colega de quarto, não tenho parceiro que fica a noite, eu nem tenho bicho de estimação. Sou só eu.

Fiquei parado na sala por um tempo me sentindo muito inquieto, mas também meio idiota. Eu me disse que eu estava cansado, tinha estado trabalhando horas extras, meu cérebro estava me pregando peças. Você sabe como às vezes você ouve um barulho aleatório e seu cérebro tenta fazer parecer uma palavra? Eu imaginei que era só isso. A TV de algum vizinho ou algo assim, filtrando pelas paredes, e meu cérebro preencheu o resto com a minha própria voz.

Essa explicação funcionou por cerca de quatro dias.

Na segunda-feira da semana seguinte, eu estava na cama. Era por volta de 1:15 da manhã, eu estava apenas deitado ali tentando pegar no sono, e ouvi de novo. Vindo da sala. Minha voz. Dessa vez ela disse "Espera aí." Duas palavras. Minha voz, meu ritmo, o jeito exato que eu digo essa frase quando alguém me interrompe e eu preciso de um segundo.

Eu não levantei. Fiquei apenas deitado ali com meu coração batendo tão forte que eu conseguia senti-lo na minha garganta. Porque dessa vez eu tinha certeza. Não estava abafado. Não estava distante. Estava claro, como alguém parado na minha sala falando em volume normal. E era inegavelmente a minha voz. Não parecida com a minha. A minha.

Fiquei deitado ali por talvez vinte minutos antes de finalmente reunir coragem para levantar e verificar. Nada. Portas trancadas. Janelas fechadas. Tudo exatamente onde deveria estar.

Foi aí que eu comecei a gravar.

Baixei um aplicativo de gravador ativado por voz no meu celular, do tipo que só grava quando detecta som. Comecei a deixar meu celular na sala durante a noite enquanto eu dormia no quarto com a porta fechada. Nas primeiras duas noites, o aplicativo só capturou sons ambientes normais, a geladeira funcionando, um carro passando lá fora. Nada de estranho.

Na terceira noite, acordei por volta das 3 da manhã para usar o banheiro. Enquanto eu estava lavando as mãos, ouvi alguma coisa vindo da sala. Era minha voz de novo, mas dessa vez não era uma palavra ou uma frase. Era risada. Minha risada. Aquela risada esquisita, ofegante que eu dou quando alguma coisa me pega de surpresa. Estava perfeita. Idêntica. Cada nuance.

Peguei meu celular e verifiquei a gravação. Lá estava. Clara como o dia. Minha risada, com registro de hora às 3:02 da manhã. Mas eu estava no banheiro. Eu não tinha rido. Eu não tinha feito nenhum som.

Ouvi cerca de quinze vezes, e fiquei tentando encontrar alguma explicação. Talvez eu tivesse rido dormindo e a acústica fez parecer que veio da sala. Talvez eu tenha algum tipo de coisa de sonambulismo. Mas eu nunca sonambulei na minha vida. E a qualidade da gravação, a distância do celular, não foi gravada de perto. Soava como se tivesse vindo do meio da sala, a cerca de dois metros de onde o celular estava sentado.

Durante a semana seguinte, piorou. Toda noite, as gravações capturavam algo novo. Minha voz dizendo coisas que eu digo comumente. "Sem problemas." "Eu faço isso depois." "Tudo bem." Frases únicas no início, depois mais longas. "Acho que vou deitar." "Será que eu deixei o fogão ligado?" Coisas que eu tinha realmente dito naquele dia, coisas que eu tinha dito para clientes em ligações, coisas que eu tinha murmurado para mim mesmo.

Era como se alguma coisa estivesse me ouvindo o dia inteiro, colecionando pedaços, e aí repetindo eles de volta à noite.

Parei de dormir bem. Comecei a ir para a cama às 8 da noite só para tentar estar dormindo antes que os barulhos começassem, mas não adiantava. Eu acordava às 2 ou 3 da manhã com o som da minha própria voz vindo do outro cômodo, tendo uma conversa com ninguém. Só juntando minhas frases de formas que quase faziam sentido, mas não faziam exatamente.

"Eu faço isso depois. Sem problemas. Será que eu deixei o fogão ligado? Tudo bem."

De novo e de novo, ligeiramente diferente cada vez.

O ponto de virada foi na quarta-feira passada. Eu estava numa videochamada com uma cliente, compartilhando a tela, passando por um design. Eu estava com meu fone de ouvido com microfone ligado, e no meio de uma frase, minha cliente parou e disse: "Tem mais alguém aí com você?" Eu disse que não. Ela disse: "Eu achei que tinha ouvido outra pessoa falando. Soou como você, mas você não estava movendo os lábios."

Eu congelei. Perguntei para ela descrever o que ela ouviu. Ela disse que soou como eu dizendo "É, tudo bem," mas baixinho, como se estivesse vindo de algum lugar atrás de mim. Eu estava sentado de costas para a sala. A porta estava aberta.

Ela ouviu também. Não era só eu. Alguma coisa no meu apartamento falou na minha voz alto o suficiente para ser captado pelo meu microfone durante uma videochamada.

Depois daquela ligação, fiquei sentado na minha mesa tremendo por cerca de uma hora. Aí eu fiquei com raiva. Revirei cada centímetro do meu apartamento. Procurei por câmeras escondidas, alto-falantes, qualquer coisa que pudesse explicar isso. Olhei atrás dos móveis, dentro dos armários, debaixo do fogão, em todo lugar. Nada. Verifiquei meu WiFi por dispositivos conectados, mudei todas as minhas senhas, rodei varreduras de malware no meu computador e celular. Nada. Não havia dispositivo, não havia pegadinha, não havia explicação.

Naquela noite eu configurei meu celular para gravar vídeo em vez de só áudio. Apoiei ele no balcão da cozinha, apontando para a sala, e fui dormir com a porta do quarto fechada. Na manhã seguinte, passei por oito horas de filmagem. Durante as primeiras cinco horas, nada. Só uma sala vazia no escuro. Aí às 3:47 da manhã, o áudio capta alguma coisa. Minha voz. Mas dessa vez é diferente. Não é uma frase que eu reconheço. Não é algo que eu já tenha dito.

Ela diz: "Você está dormindo?"

Três palavras. Na minha voz. Mas o ritmo estava errado. Ligeiramente fora. Como alguém que só me ouviu falar algumas vezes tentando adivinhar como eu diria aquela frase. A voz era a minha, mas o ritmo estava quase certo, mas não exatamente.

Tocu de volta umas trinta vezes. E quanto mais eu ouvia, mais eu notava alguma coisa que fez meu estômago revirar. A voz estava ficando melhor. Gravações anteriores tinham aquela mesma qualidade de quase-certo. Essa estava mais próxima. Muito mais próxima.

Está aprendendo. Seja lá o que for isso, está aprendendo como eu falo. E está ficando mais preciso.

Ontem à noite foi o pior. Eu estava deitado na cama, porta fechada, luzes apagadas, por volta das 2:13 da manhã. Eu estava olhando para o teto, tentando me convencer a simplesmente pegar no sono, quando ouvi passos na sala. Não os sons que eu ouço dos vizinhos, não canos ou assentamento. Passos. Lentos, deliberados, no carpete. Aí ouvi minha voz, bem do lado de fora da porta do quarto, sussurrando: "Eu sei que você está acordado."

Eu não me movi. Não respirei. Fiquei apenas deitado ali com os olhos arregalados no escuro, olhando para a porta. Eu conseguia ver o brilho fraco da luz da rua entrando por baixo da fresta. E aí eu vi. A sombra de pés, bloqueando a luz por baixo da porta. Só parado ali.

Não sei quanto tempo fiquei deitado ali. Parecia uma hora, mas provavelmente foram cinco minutos. Aí a sombra se moveu, e eu ouvi os passos recuarem de volta para a sala. Alguns minutos depois, ouvi minha voz de novo, de mais longe dessa vez, dizendo: "Amanhã."

Não dormi. Fiquei sentado na cama com todas as luzes acesas até o sol nascer. Liguei para avisar que não ia trabalhar no meu freelance. Fiquei sentado aqui o dia inteiro tentando descobrir o que fazer.

Pensei em ir embora. Ir para um hotel, ficar na casa da minha irmã, qualquer coisa. Mas e se me seguir? E se seja lá o que for isso não estiver ligado ao apartamento? E se estiver ligado a mim? É a minha voz que está usando. Minhas palavras. Aprendeu elas comigo.

Estou sentado no meu apartamento agora escrevendo isso. São 7:48 da noite. O sol está se pondo. Deixei todas as luzes acesas, mas o apartamento parece errado. O ar parece denso, como a atmosfera antes de uma tempestade. E fico ouvindo sons minúsculos do outro cômodo. Um passo. Uma limpeza de garganta. Minha limpeza de garganta. Meu passo.

Fico olhando para a entrada do corredor e fico vendo alguma coisa na beirada da minha visão. Só uma forma. Só uma escuridão que é ligeiramente mais escura que o resto. E toda vez que eu viro para olhar diretamente para ela, não está lá.

Acho que está se preparando para hoje à noite. Acho que é isso que "Amanhã" quis dizer.

A pior parte, a parte que eu não consigo parar de pensar, é aquela última gravação. Eu ouvi tantas vezes agora, e eu percebo o que tem me incomodado nela. Quando ela disse "Eu sei que você está acordado," não soava mais como quase-certo.

Soava exatamente como eu.

Não sei o que vai acontecer hoje à noite. Não sei o que ela quer. Mas eu consigo sentir ela me observando agora, esperando, e eu acho que terminou de praticar.

Se alguém já passou por algo assim, por favor me diga o que fazer. Vou verificar os comentários enquanto puder.

Mas se eu parar de responder, não é porque eu fui embora.

É porque ela finalmente acertou a voz.

Incubus

Encontrei o diário enquanto limpava o sótão da casa em que acabei de me mudar. As entradas só têm datas incompletas, mas quando o encontrei, o livro estava coberto de poeira e seu couro estava arranhado e até rasgado em alguns pontos, fazendo com que parecesse muito antigo. Quem sabe há quanto tempo está aqui em cima. Parte de mim suspeita que os antigos donos do lugar o deixaram aqui, mas não há como saber, realmente. A casa está vazia há cerca de vinte anos agora.

Eu também nunca fiz nenhuma pergunta sobre as pessoas que moraram aqui antes de mim. Eu estava apenas feliz por ter conseguido comprar um prédio tão bonito por um preço tão baixo. Agora que li o diário, no entanto, estou começando a pensar que talvez eu devesse tê-lo feito. Copiei todas as entradas que considerei relevantes e corrigi a maioria dos erros de ortografia. Talvez alguns de vocês consigam entender tudo isso.

9/9

"Querido Diário, hoje é meu décimo aniversário. Mamãe diz que esta é a hora certa de começar um diário, então é exatamente isso que vou fazer. Meu nome é Constance, Connie para os íntimos. Minha cor favorita é roxo e eu não tenho nenhum irmão, mas eu quero alguns.

Acho que Mamãe também quer que eu tenha, porque agora mesmo, ela e Papai estão na cozinha brigando justamente sobre isso. Eles me mandaram ir para o meu quarto para que eu não os ouvisse, mas eles estão muito altos, então eu consigo. Mamãe diz que quer outro bebê, mas Papai fica dizendo não e que eles já têm trabalho demais só comigo. Ele também diz que não vai 'fazer isso', então Mamãe deveria apenas aceitar. Mamãe está chamando ele de uns nomes muito feios. Está tarde, então vou dormir agora. Espero que amanhã eles se entendam de novo."

9/10

"Querido Diário! Algo realmente estranho aconteceu ontem à noite. Acordei muito cedo porque tive um pesadelo. Essa não é a parte estranha, no entanto. Levantei e fui até o quarto da Mamãe e do Papai porque eu sempre posso dormir na cama deles quando estou com medo. Isso ajuda na maioria das vezes e me impede de ter outro pesadelo quando adormeço. Abri a porta bem devagar. Afinal, eu não queria acordá-los. Foi então que eu vi.

Havia essa névoa preta estranha pairando sobre a Mamãe. Havia luz de lua suficiente entrando pela janela para eu conseguir distinguir. Ela estava dormindo, no entanto, e o que quer que fosse, ela não tinha percebido. A névoa... se moveu. Quase parecia que havia algo debaixo dela. Eu nunca vi nada parecido antes. Isso me assustou e eu corri de volta para o meu quarto. Passei a noite inteira deitada acordada, estava com tanto medo de que a coisa tivesse me visto. Pensei em acordar meus pais, mas isso provavelmente teria deixado ela furiosa ou algo assim.

Eu não contei para a Mamãe e o Papai sobre isso e também não estou planejando fazê-lo. Ou eles vão me dizer que foi parte do meu pesadelo ou simplesmente não vão acreditar em mim. Para ser honesta, eu mesma não tenho muita certeza se não sonhei tudo isso. Mas eu vou entrar no quarto deles de novo esta noite. Se estiver lá de novo, eu vou saber com certeza que é real."

9/11

"Querido Diário, voltei ao quarto da Mamãe e do Papai ontem à noite, e como não poderia deixar de ser, estava lá. Mas desta vez, era diferente. Não era mais apenas a névoa preta pairando sobre a Mamãe, estava claramente se movendo desta vez. Ela... fez algo com ela. Eu não consigo descrever direito. Mamãe estava dormindo de novo e eu acho que ela não sabe de nada disso que está acontecendo. Ela mencionou um sonho estranho que teve esta manhã, mas eu não sei se isso tem alguma coisa a ver com a coisa. Acho que tenho que fazer algo contra ela. Preciso espantá-la... mas não faço ideia de como."

9/12

"Querido Diário, voltei ao quarto dos meus pais de noite de novo. Abri a porta apenas uma fresta para poder espiar por ela. O que posso dizer? Sumiu. A névoa não estava mais lá. Eu fiquei muito aliviada. A princípio pensei que talvez ela voltasse, então fiquei parada na porta um pouco mais. Nada de estranho aconteceu, no entanto. Isso significa que o problema se resolveu sozinho, não é?"

10/2

"Querido Diário! Finalmente vou ter um irmãozinho! Mamãe está grávida! A barriga dela já está toda grande e redonda. Ela e o Papai não estão muito felizes sobre isso, no entanto. Acho que tem alguma coisa a ver com o Papai dizendo que não queria outra criança. Ele está muito bravo com ela agora. Ele diz que ela traiu ele com outro homem e que a criança não é dele. Mamãe diz que ele está errado e que ela nunca faria uma coisa dessas, mas eu acho que ele não acredita nela.

Eles também estão muito confusos. Eu ouvi a Mamãe dizer algo sobre isso não ser normal, e que geralmente leva muuuito, muuuito mais tempo para um bebê crescer dentro da barriga de uma mulher. A barriga de grávida só começou a aparecer há pouco tempo. Eles estiveram no hospital mais cedo hoje, mas o médico disse que tudo parecia uma gravidez normal, exceto por estar tudo indo tão rápido, é claro. Pelo menos foi isso que eu entendi. Não tenho muita certeza do que pensar, mas estou muito ansiosa para ter um irmãozinho! Espero que seja uma menina."

A próxima entrada foi a última do livro inteiro. Desde o momento em que pus os olhos nela, eu soube que algo estava errado. Ela não começava com o habitual "Querido Diário" e a caligrafia estava ainda mais bagunçada do que a das outras entradas. A princípio imaginei que Constance devia estar com pressa, mas quanto mais eu lia, mais preocupado eu ficava.

10/24

"Domingo. Eu estava sozinha com a Mamãe, o Papai estava no trabalho. Ela ainda estava dormindo no quarto dela e eu estava assistindo TV lá embaixo quando, de repente, ouvi ela gritar. Corri escada acima e a encontrei na cama dela, os lençóis estavam molhados e cobertos de sangue. Ela gritou para eu chamar uma ambulância e eu chamei. Chegou cerca de dez minutos depois e trouxe a Mamãe e eu para o hospital. Mamãe estava deitada numa daquelas macas de hospital e a levaram para uma sala que eu não tinha permissão de entrar. Eu tive que sentar do lado de fora e esperar.

Quando finalmente me deixaram vê-la, ela tinha o bebê com ela. Meu irmãozinho, ela disse. Não sei bem como dizer isso, mas tem alguma coisa errada com o bebê. Ele não parece certo. É o rosto dele... não parece humano. Mais parecido com o de um gato, mas com pele humana em vez de pelo. O médico disse que nunca tinha visto nada parecido com ele antes e que esse bebê era um 'Milagre Médico'. Eles tiraram tantas fotos dele. Eu pensei que o Papai viria se juntar a nós, mas ele não veio. Tivemos que passar a noite no hospital.

O Papai estava esperando por nós, no entanto, quando chegamos em casa no dia seguinte. Eu pude perceber imediatamente que ele estava furioso. O olhar que ele deu para a Mamãe me fez sentir um arrepio na espinha. Quando ele se levantou, notei que ele estava segurando uma arma. Ele mandou a Mamãe entregar a criança. Ela recusou, disse a ele que ligaria para a polícia. O Papai se lançou sobre ela e tentou arrancar o bebê das mãos dela, mas apenas um segundo antes de ele conseguir alcançar meu irmãozinho, ele de repente tropeçou alguns passos para trás. Ele nos encarou confuso.

Sangue começou a escorrer do nariz dele. Ele levantou a mão para tocá-lo, depois deixou a mão vagar até a orelha. Voltou manchada de sangue. Enquanto seus olhos se arregalavam de terror, lágrimas vermelhas começaram a jorrar e quando ele abriu a boca para gritar, nada além de um gorgolejo baixo saiu, enquanto gotas de sangue se formavam nos lábios dele e escorriam pelo queixo. Ele caiu no chão e não se levantou mais. Ele ainda está deitado ali enquanto eu escrevo isso. Ele não se move. Mamãe está encolhida num canto e não para de chorar. Meu irmãozinho, no entanto, não emitiu um único som, não desde que voltamos do hospital. Tenho quase certeza de que eu -"

Eu franzi a testa. Simplesmente... acabou ali, no meio da frase. Comecei a virar freneticamente as páginas até que a visão familiar da letra rabiscada de Constance me saudou novamente. Mas o que eu vi não era uma entrada de diário, apenas palavras escritas por toda a página sem qualquer respeito pelas linhas do papel. Algumas delas estavam completamente ilegíveis, outras, no entanto, eu mal conseguia distinguir. Nenhuma delas fazia muito sentido, no entanto.

Consegui decifrar algo como "Lilu" e "Ardat Lili". A jovem garota tinha arranhado elas no papel várias vezes, traçando as linhas de cada letra repetidamente, com tanta força que tinha rasgado em alguns lugares. Mas havia uma, apenas uma única palavra que eu reconheci. Eu tinha ouvido ela antes.

"Incubus"

Engoli meu pavor e com dedos trêmulos, virei a página mais uma vez. Ali, num papel de resto em branco, numa caligrafia que claramente não pertencia a Constance, eu li as palavras:

"O filho nasceu."

Eu deixei o livro cair. Não preciso dizer que saí correndo do sótão. Não tenho certeza se alguém deixou o livro aqui para me sacanear. Pode muito bem ser que os eventos relatados no diário que acabei de ler sejam inteiramente fictícios, mas eu não vou ficar aqui para descobrir. Vou ter que fazer algumas ligações agora. Eu não quero mais essa casa.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

Eu Saí em Busca da Mina de Ouro do Holandês Perdido. Queria Nunca Tê-la Encontrado...

Eu fui criado ouvindo a lenda da Mina de Ouro do Holandês Perdido a vida inteira. Meu pai era obcecado. Ele lia todas as histórias, fazia tr...