sexta-feira, 10 de abril de 2026

Minha caneca sumiu da minha mesa. Alguém viu?

Não consigo lembrar exatamente os resultados que apareceram quando pesquisei isso, mas alguma coisa apareceu. Fiquei meio perturbado. Qual era a chance de alguém ter passado pelo mesmo problema?

Não era só um caso de “ah, que burro, eu levei ela pro banheiro e deixei lá depois de cagar”.

Eu dei um gole no café e coloquei a caneca de volta no descanso, bem de leve. Dois segundos depois, quando olhei pra ver se ela estava centralizada, ela tinha sumido.

A mesma coisa tinha acontecido com alguém na internet, ou pelo menos foi o que a pessoa alegou. Tragicamente, ninguém respondeu.

Depois de alguns momentos de descrença, eu me gaslightei e me convenci de que tinha levado a caneca lá pra baixo e simplesmente imaginado aquele último gole.

Procurei na pia, nas mesas, na geladeira… caralho, eu até olhei dentro da lareira. Era uma caneca branca simples, com um adesivo de gato.

A cor dela contrastava com a maioria dos móveis, então eu descartei rápido a ideia. Se não estava lá embaixo, então ela simplesmente tinha desaparecido e não era mais problema meu. Eu tinha que voltar pro trabalho.

Aí eu me vi diante de uma escolha: ou subia pro andar de cima ou fazia outro café primeiro. Escolhi a segunda opção.

Nesse momento, preciso mencionar que todos os copos e canecas que eu tenho são diferentes uns dos outros. Eu nem tenho duas canecas iguais.

Então, quando abri o armário, com certeza não esperava que ele estivesse lotado até o topo com aquelas canecas brancas sem graça. Na verdade, todos os armários estavam assim.

Minha primeira reação foi esfregar os olhos, torcendo pra estar sonhando. Quando percebi que não estava, minha curiosidade foi substituída por algo que eu nunca tinha sentido antes.

Não era medo. Era algo mais primitivo. Uma sensação que revirava o estômago e me dava vontade de arrancar a própria pele.

No meu delírio, comecei a revirar a cozinha inteira. E não era só nos armários. A geladeira que eu tinha checado cinco minutos antes também estava transbordando de canecas. Acho irônico que nenhuma delas era a caneca que eu estava procurando.

Tentei me agarrar a várias esperanças, mas não conseguia deixar de descartá-las. Ninguém estava pregando uma peça em mim; nenhum ser humano conseguiria fazer uma coisa dessas. E eu não estava imaginando.

Eu conseguia sentir fisicamente meu sangue esfriando a cada nova caneca que encontrava. Elas não se limitavam à cozinha. Apareciam em lugares que eu tinha verificado poucos minutos antes. Eu devia parecer um louco tentando acompanhar o ritmo.

Pelo menos a brisa do ar-condicionado roçando no meu pescoço me ancorava na realidade. Respirei fundo e tentei pensar em alguma explicação possível. Como nada veio à mente, decidi que o melhor era me trancar no quarto. Talvez, se eu me sentisse mais seguro, conseguisse descobrir um jeito de superar… fosse lá o que isso fosse.

Antes de fazer isso, desliguei o ar-condicionado. Pelo menos eu ainda tinha controle sobre a conta de luz.

Parecia uma onda de desrealização. Meu coração batia forte contra as costelas, ameaçando quebrá-las. Minha respiração ficou descontrolada e entrecortada. Por um momento, tive a sensação de que estava olhando pro ar-condicionado já desligado em terceira pessoa.

Não tinha nenhuma janela aberta. Nenhuma ventilação. O ar-condicionado estava desligado. Alguém tinha respirado no meu pescoço.

Corri em direção à escada, subindo desesperado de quatro, e quando finalmente cheguei no meu quarto, tranquei a porta sem olhar pra trás.

A falsa sensação de segurança evaporou rápido na forma de inspirações e expirações rápidas e erráticas. Eu tinha acabado de me prender ali. Liguei pras autoridades e disse que alguém tinha invadido minha casa. De jeito nenhum eles iam acreditar na minha história.

Sem saber o que fazer, fiquei andando de um lado pro outro no espaço pequeno, ansioso. Eu me arrependo de ter olhado pra minha janela.

Duas marcas de mão, os vestígios de respiração quente entre elas, e um bilhete. Inconfundível. Caí de joelhos, com os olhos fixos naquela cena brutal. Será que eu tinha enlouquecido?

Minha janela fica uns 6 metros acima do chão. Não tinha parapeito, sacada, nada pra pisar.

A ideia de alguém olhando pra mim pela minha própria janela, impossivelmente elevado acima do chão, foi o suficiente pra me dar vontade de pular.

O bilhete. O bilhete era a pior parte.

“Encontre a caneca, ou você é o próximo.”

Tá de brincadeira, porra? Alguma coisa com habilidades incompreensíveis estava me perseguindo, me colocando numa situação impossível, e a única coisa que ela tinha pra me dizer era pra encontrar uma caneca idiota? E o que diabos significava “você é o próximo”?

Um barulho repentino bem atrás de mim me fez pular pra trás. Precisei de toda a força que eu tinha pra me virar. Uma trilha. Uma trilha de canecas brancas simples, as mesmas que tomaram conta da minha casa. Ela levava pro meu armário.

“É, foda-se, eu não vou fazer isso”, eu lembro de ter dito pra mim mesmo, incrédulo.

Não foi aquela abertura lenta e arrepiante de porta que a gente vê nos filmes. Foi barulhento. Violento. Parecia um chute.

Foi aí que um pensamento me passou pela cabeça.

E se o fim da trilha não fosse no armário, mas bem nos meus pés?

E se eu não fosse o responsável por seguir a trilha, mas sim o que quer que estivesse dentro do meu armário?

O que saiu de lá foi o ser mais visceral que alguém pode imaginar. Era eu mesmo. Uma versão mutilada e grotesca de mim.

Minhas órbitas oculares estavam esticadas à força pra abrigar duas canecas brancas. Meu maxilar estava quebrado e minha boca parecia grande demais pro meu rosto comportar.

A voz dele saiu distorcida e com um tom agudo anormal, dizendo coisas como:

“Dói! Dói pra caralho!”

“Me mata!”

“Meu Deus, como dói!”

Meu peito apertou e o quarto começou a girar. Acho que dei alguns passos pra trás e acabei caindo pela janela, que eu nem lembro de ter aberto.

Fui encontrado pelos policiais quando eles chegaram e depois fui levado correndo pro hospital. Apesar da queda, meus ferimentos foram leves, embora eu tenha sofrido uma parada cardíaca por causa do puro terror do encontro.

Estou escrevendo isso de uma cama de hospital. A polícia me disse que alguém estava morando dentro das paredes da minha casa nos últimos doze anos. Tinha túneis ligando meu armário ao sótão e ao banheiro de baixo.

Eu sei que isso não é algo pra se levar na brincadeira, mas não explica nada do que eu passei. Nenhuma pessoa normal seria capaz de fazer nada daquilo. O que era aquela coisa que eu vi? Aquela versão apavorante de mim ainda está por aí.

Estou tão desesperado por respostas que vou fazer o que o bilhete mandou. Não quero descobrir o que “ou você é o próximo” significa.

Não acho impossível que a caneca esteja do outro lado do mundo agora. É uma caneca branca feita sob medida, com um adesivo de um gato de smoking. Eu sei que a descrição não ajuda porra nenhuma, mas realmente não tem mais nada.

Por favor, me ajudem. Estou desesperado e não sei o que fazer.

Observação: Isso pode ser coincidência, mas todas as pessoas aqui estão bebendo nas mesmas canecas que inundaram meu apartamento. Estou morrendo de medo, porra.

Minha Última Memória

A gente sempre chama de coincidência — aqueles momentinhos comuns e bobos que parecem um pouco errados. Você está tomando seu café e o ar fica frágil de repente, uma geada repentina que não tem nada a ver com o tempo lá fora. Você culpa a corrente de ar. Você sempre culpa. Mas não era corrente de ar. Era o quarto ficando lotado.

Aqui vai um desses incidentes que, quando olho para trás, acho que não foi só uma coincidência qualquer. Ou talvez eu esteja pensando demais.

18 de dezembro de 2016

Era uma noite de inverno bem fria e amarga. Eu estava curvado na cadeira, com a luz azul da tela do laptop vazando para dentro da escuridão do quarto. Tentava forçar uma história de terror a existir; a atmosfera estava perfeita, mas as páginas continuavam teimosamente vazias. Não tinha nada de assustador no que eu escrevia — pelo menos ainda não.

Estiquei a mão para pegar minha garrafa laranja de cobre, mas recuei por um segundo. Ela estava grossa de ferrugem, com uma película escura e opaca cobrindo o metal que eu tinha polido até ficar brilhando só algumas horas antes. Eu até conseguia sentir o cheiro — aquele cheiro forte e metálico de moedas antigas. “Talvez o ar esteja úmido demais”, disse para mim mesmo, uma desculpa fraca para explicar como o metal tinha azedado tão rápido. Ignorei a intuição apertando meu peito e voltei para a tela.

— Mamma, você pode encher isso pra mim? Tô no meio de uma coisa aqui.

Nenhuma resposta.

— Mamma? Você tá aí? — Levantei a voz, mas a casa não deu nem um rangido de tábua do assoalho em resposta. Era um silêncio pesado, sufocante.

“Ela deve estar só assistindo TV com a porta fechada”, pensei. Mas um pensamento gelado não me largava: mesmo com a porta dela fechada, eu deveria estar ouvindo o zumbido abafado do jornal ou o piscar de uma comédia. Em vez disso, só havia... nada. Fiquei na cadeira, usando a preguiça como escudo contra o desconforto que só crescia.

Consegui escrever duas páginas inteiras. De repente, a história começou a fluir, ficando sombria e visceral — tanto que os pelos dos meus braços começaram a se arrepiar. Mas os arrepios não vinham das palavras na tela.

Vinham do som.

Um rangido ritmado, estalando, como botas pesadas pisando em tábuas de madeira antigas. Era inconfundível. Continuei digitando, com os dedos tremendo um pouco enquanto tentava racionalizar aquilo. “Minha cabeça só tá pregando peças por causa da história”, pensei. “Essa casa é toda de piso de mármore. Não tem madeira nenhuma aqui pra ranger.”

Mas o som não parava.

A sede ficou insuportável, uma dor seca na garganta que me tirou da cadeira. Peguei a garrafa enferrujada e me levantei.

— Mamma, sério, que porra tá acontecendo?

Caminhei até a porta. Ela estava um pouco entreaberta, revelando só uma fresta do corredor completamente preto lá fora.

“Espera, o corredor tá escuro demais. Deixa eu só... acender as luzes.”

Eu estava falando sozinho. Eu nunca falo sozinho, a não ser quando tento abafar um silêncio que parece pesado demais. Acionei o interruptor da luz principal do quarto. Por uma fração de segundo, enquanto a lâmpada zumbia e acendia, eu vi — uma mancha de preto absoluto no canto, escondida atrás das dobras grossas das cortinas.

“Só uma ilusão”, sussurrei. “Pareidolia. O cérebro é só uma máquina de reconhecer padrões jogando xadrez às cegas consigo mesmo. Ele vê um rosto numa nuvem; vê um fantasma numa sombra. Nada mais.”

Eu me agarrei àquela explicação, mesmo enquanto uma tensão fria e afiada apertava entre meus pulmões.

Mas então olhei para a porta.

Meu quarto estava inundado de luz, mas o corredor continuava um vazio sólido e impenetrável. Mesmo com a porta bem aberta, nem um único fóton parecia cruzar o limiar. Era como se a escuridão lá fora estivesse faminta, devorando ativamente a luz antes que ela conseguisse escapar do quarto.

Tentei forçar meu cérebro de volta para a zona de conforto. “Fenômenos paranormais não existem”, disse para mim mesmo. “A ciência tem resposta pra tudo. Talvez fosse uma interferência eletromagnética alta (EMI) causando uma alucinação localizada? Ou talvez o ar do quarto tivesse ficado tão incrivelmente denso que eu estava testemunhando uma ocorrência rara de Reflexão Interna Total (TIR), presa dentro do limite da porta.”

Mas a lógica falhou assim que se formou. Para uma TIR acontecer naquela escala, o ar do meu quarto teria que estar denso o suficiente para esmagar meu peito. Eu não conseguiria respirar, muito menos ficar de pé.

Naquele momento, percebi que eu não estava só racionalizando. Eu estava mentindo para mim mesmo para não gritar.

“Tá bom, Avinash! Não é nada. É literalmente nada. Só entrar no corredor, acender as luzes, ir até a cozinha e encher a garrafa. Só isso. Talvez eu dê uma olhada na Mamma no caminho de volta.”

Me forcei a cruzar o limiar. A escuridão não só me cercou; ela parecia pesada, como se eu tivesse mergulhado no oceano e mexido sem querer na lama do fundo. Num vazio turvo daquele tipo, você não consegue ver sua própria mão na frente do rosto. Só precisa confiar na corda de segurança. Minha “corda” era a propriocepção — o mapa interno que meu cérebro tinha da minha própria casa. Eu não precisava de olhos para achar o quadro de interruptores; meus músculos já sabiam o caminho.

Meus dedos encontraram o plástico frio do interruptor. Acionei.

Nada. O corredor continuou um bloco sólido de preto.

“Ah... interruptor errado. Foi mal. Deixa eu tentar de novo.” Eu me ouvi rindo — um som irregular e agudo, que estava a meio caminho de um grito. Eu fazia o maior barulho possível, tentando sufocar o silêncio aterrorizante da casa.

Acionei o próximo interruptor. Ainda nada.

“Acho que as lâmpadas queimaram. São velhas... isso é perfeitamente normal.” Eu falava cada vez mais rápido, com a respiração engasgando na garganta. “Tão normal quanto a temperatura. O corredor só está... naturalmente mais frio que o resto da casa. Termodinâmica. É tudo só física.”

Continuei rindo, mas o som saía oco, ecoando nas paredes de mármore como se pertencesse a outra pessoa.

De repente, eu senti. Uma lufada de bafo gelado contra meu ombro direito.

Cada célula do meu corpo começou a gritar, mas minha garganta era um deserto; eu não conseguia emitir som nenhum. Meu coração não estava só acelerado — ele martelava contra minhas costelas como um animal preso tentando escapar da jaula. Comecei a recuar, um passo trêmulo de cada vez, voltando para o santuário do meu quarto.

Acelerei, com os calcanhares batendo freneticamente no mármore, quando uma mão — morta de fria e impossivelmente forte — agarrou meu pulso esquerdo por trás.

— Socorro! SOCORRO!

O grito finalmente rasgou de dentro de mim. Eu me lancei para frente, arrancando o braço com tanta violência que senti a pele rasgar. Unhas longas e afiadas arranharam minha carne. Não parei para olhar para trás. Mergulhei no quarto e bati a porta, mexendo no trinco até a trava encaixar com um clique.

Desabei contra a madeira, ofegante. Olhei para minha mão. Estava uma bagunça; sangue quente e escuro já pingava das pontas dos meus dedos, manchando os azulejos brancos. Isso não era truque de luz. Era físico.

Eu me arrastei até a janela, desesperado para ver um vizinho, um carro — qualquer coisa que pertencesse ao mundo real. Puxei as cortinas com força, esperando o brilho familiar dos postes de rua.

Nada.

O mundo lá fora era um vazio de escuridão absoluta, preta como tinta. Não havia veículos, nem postes, nem sequer a silhueta da casa do outro lado da rua. Não fazia sentido. Ontem tinha sido lua cheia, mas hoje à noite o céu era uma prisão. Nuvens grossas e antinaturais tinham engolido a lua inteira, devorando até a última gota de luz, como se o próprio universo tivesse sido apagado.

Uma batida ritmada e forte soou contra a madeira. Eu me virei rápido, com a respiração presa na garganta, só para ver o impossível: a porta que eu tinha acabado de trancar estava escancarada.

Não era mais só um corredor lá fora. A escuridão invadia meu quarto como uma maré física, grossa e parecida com tinta, engolindo o piso. Eu recuei desesperado, com as mãos procurando freneticamente na escrivaninha por qualquer coisa — uma caneta, um abajur — algo para usar como arma. Mas antes que eu conseguisse pegar qualquer coisa, a lâmpada do teto piscou uma vez e morreu.

O blecaute foi total.

A única coisa que eu conseguia ouvir era o som molhado e irregular da minha própria respiração e o tum-tum pesado do meu coração. Então lembrei do celular no meu bolso. Minhas mãos tremiam tanto que quase o deixei cair, mas consegui deslizar na tela e apertar o ícone da lanterna.

O feixe de luz cortou um buraco irregular na escuridão. Eu varri o quarto — nada. Virei de volta para a janela — nada. Então eu senti.

Duas mãos, frias como terra de túmulo, cravaram nos meus ombros por trás.

Eu girei a lanterna, e o feixe pegou um rosto a poucos centímetros do meu. Era um pesadelo irregular e esquelético — pele esticada como pergaminho cinza sobre um crânio, olhos afundados em poços podres de sombra. Não gritou; só ficou olhando, com a boca puxada num sorriso largo e sem lábios.

O mundo inclinou. A lanterna caiu da minha mão e tudo ficou preto.

Acordei com o cheiro esterilizado e cortante de antisséptico e o bipe-bipe constante de um monitor cardíaco. Minha cabeça estava pesada, enrolada em camadas grossas de gaze. Segundo a Mamma, ela me encontrou caído no corredor, inconsciente e sangrando muito dos cortes no braço. Ela não tinha ouvido nada — nem gritos, nem passos, nem batidas. Só o som do meu corpo batendo no piso de mármore.

O contraste é o que me assombra. Para a Mamma, a cena foi mundana, quase chata. Sem gritos, sem luta, sem escuridão impossível. Na versão dela da realidade, eu simplesmente escorreguei no mármore polido e bati a cabeça — um acidente rotineiro causado por um corredor escuro e um pouco de desajeito.

Mas conforme a ardência do antisséptico vai passando, meu cérebro científico já está descartando a teoria dela. Ele está procurando uma nova hipótese para explicar os dados. Se eu descarto o paranormal como “não comprovado”, sobra um terror bem mais clínico.

Esquizofrenia. Os sintomas encaixam com uma precisão aterrorizante: alucinações auditivas (o rangido da madeira), distorções visuais (a escuridão “faminta”) e delírios táteis (o bafo frio, as mãos nos meus ombros). Talvez os cortes no meu braço não tivessem vindo de unhas, mas dos meus próprios movimentos frenéticos e inconscientes contra os móveis.

Estou numa encruzilhada do medo. Um caminho leva a um mundo onde fantasmas são reais e as leis da física podem ser quebradas. O outro leva a um mundo onde minha própria mente é uma traidora, uma “prisão de escuridão” da qual eu nunca vou conseguir escapar.

Não sei qual dos dois eu estava rezando para ser verdade.

Fui liberado dois dias depois. A psiquiatra foi clínica, profissional e totalmente desinteressada. Depois de uma bateria de testes, ela disse que meu cérebro estava funcionando dentro de parâmetros perfeitamente normais.

— Não é esquizofrenia, Avinash — disse ela, rabiscando na prancheta. — E com certeza não são fantasmas. Você andou consumindo muita “porcaria de terror” enquanto escrevia sua história. Quando você escorregou e bateu a cabeça, seu cérebro entrou num estado de consciência parcial. Você estava sonhando acordado, alimentado pela própria adrenalina criativa. Sua mente só preencheu as lacunas com os monstros que você já estava pensando.

Eu queria acreditar nela. Cientificamente, fantasmas não têm massa mensurável, nem assinatura de energia, nem lugar nas leis da termodinâmica. Se não estão comprovados, eles não existem.

Naquela noite, meu amigo Abhinav passou lá para ver como eu estava. Contei tudo pra ele — a escuridão, os arranhões, a dispensa da psiquiatra.

— Você deve ter feito alguma coisa que ofendeu eles — disse Abhinav, com a voz baixa. — O que quer que esteja nessa casa... você devia só pedir perdão.

Eu ri, embora tenha soado forçado.  
— Pedir perdão pra quem, Abhinav? Pros meus próprios neurônios? Se eu me desculpar com uma sombra, só vou treinar meu cérebro pra acreditar na mentira. A ciência não comprovou fantasmas, então eu me recuso a reconhecer eles.

Abhinav foi embora pouco depois, parecendo preocupado. Fui dormir cedo, me agarrando às palavras da psiquiatra como se fossem uma boia salva-vidas. Era só um sonho. Uma concussão. Porcaria de terror.

Mas naquela noite, a escuridão voltou.

Dessa vez não veio com batidas. Não teve bafo frio no ombro, nem luta desesperada na porta. Foi muito pior.

Enquanto eu estava deitado, senti o colchão afundar ao meu lado. Foi uma depressão lenta e pesada, como se alguém — ou alguma coisa — tivesse acabado de sentar bem do lado do meu quadril. Eu conseguia sentir o frio irradiando através dos cobertores. Fiquei olhando para o espaço vazio na cama, com o coração vibrando de um terror que nenhum livro didático conseguiria explicar.

No silêncio esmagador, uma memória do meu professor de Física veio à tona, um aviso que eu tinha descartado meses antes:

“Só porque algo não foi comprovado pela ciência, não significa que foi desprovado.”

Percebi então que a ciência não era um escudo. Era só um mapa das coisas que a gente entendia. E eu estava dividindo minha cama com algo que não estava nesse mapa.

Aliás, esse foi o último episódio que aconteceu comigo. Voltando para 2026, não teve mais nenhum. Mas essa história minha, que eu mandei pro meu amigo que literalmente publicou isso nessa plataforma, literalmente me deu uma saída.

Como Avinash, eu ignorei eles demais, e eles cansaram disso. Queriam provar a presença deles pra um cara científico e mal-educado.

Mas enfim, obrigado por ler minha história. Embora talvez eu te encontre em breve, se você não se importar com alguém deitado na sua cama ao seu lado.

Obrigado por ouvir minhas palavras e por me dar permissão pra ficar.

Eu Odeio a Páscoa

Sempre odiei, e sempre vou odiar. Não sei explicar direito o porquê. Talvez fosse a febre que vinha todo maldito primavera, meu nariz entupido de pólen e aquela tosse seca que não queria morrer de jeito nenhum.

Talvez fosse aquela caça aos ovos ridícula pra caralho que toda a minha família estendida voava pra cá pra participar. Aquela massa desajeitada de gente com beijos babados e cheios de cerveja, fazendo as mesmas duas perguntas que queimavam na ponta da língua deles:

“Como você foi naquela prova de matemática?” e “Pode pegar outra cerveja pra mim, campeão?”

Talvez fosse o fato de que eu nunca ganhei aquela merda nem uma vez. Sempre eram os meus primos metidos a besta, com aqueles dentões de coelho e sorrisos bobos de boca aberta — o que parece uma contradição, mas eu não tô nem aí —, eu odiava aqueles olhares presunçosos que eles me lançavam depois que eram declarados vencedores e recebiam o prêmio patético: cinco notas amarrotadas.

Eu me fodia inteiro procurando aqueles ovos de plástico vagabundos e sempre ficava pra trás. Suspeito que eles trapaceavam, combinando com as minhas tias e tios traidores.

Eu sempre fazia um escândalo, aí meu pai me dava um tapa na nuca por ser mau perdedor e a gente marchava pra dentro de casa pra comer um presunto seco pra caralho.

Ah, Páscoa.

Meu irmãozinho filho da puta, com aquela atitude chorona e aquelas mãozinhas sujas, não tinha esse problema. Ele adorava a Páscoa, amava enfiar aquela boca gorda dele com creme de ovo Cadbury e montes de jellybeans. Ele pegava um punhado do cesto dele — misturado com aquele papel picado verde-limão, veja bem — e enfiava tudo na boca, mastigando de um jeito nojento pra caralho. Era como ver um boi comendo. E ele nem engolia. Olhava direto pros meus olhos, abria a boca e deixava um bolo colorido de gosma cair devagar daquele buraco escancarado, cuspindo tudo no chão bem na minha frente.

Depois, com um sorrisinho de quem comeu merda, pegava mais e repetia tudo de novo.

Você já entendeu o quadro: meu irmão é um pentelho chato, mimado, dor na bunda que meus pais babam em cima e deixam ele fazer tudo o que quer. Nem me fala de Natal. Pilhas de brinquedos embrulhados brilhantes pro pequeno Ricky, e pra mim? Um envelope e um abraço mole. Talvez meias, se eles acharem que eu mereci.

Desde que ele tinha idade suficiente pra competir, ele ganhava aquela caça aos ovos idiota. Eu envelheci e saí da brincadeira mais ou menos nessa época, e, francamente, venho fervendo de raiva desde então. Por cinco anos tive que aguentar a quantidade nauseante de elogios que aquele putinho recebia todo ano por ser o melhor em correr pelo quintal. Ajuda o fato de que só tinham tipo três primos ainda novos o suficiente pra competir, e eles eram lentos e reclamavam da umidade.

Você não me ouve reclamando da porra da umidade, e eu moro nesse pântano.

Este ano eu já tinha me resignado ao meu destino e prometido pros meus pais que não ia ficar emburrado pela casa e que ia realmente conversar com os meus primos idiotas em vez de me esconder no quarto com as cortinas fechadas, contando os segundos até recuperar minha solidão.

Este ano acabou sendo o fim de todos nós. Foi o ano em que meu irmãozinho nariz escorrendo, aquele erro bastardo, encontrou o ovo.

A caçada começou como qualquer outra. Minha família estava toda amontoada no quintal dos fundos; o sol zumbia lá em cima. Estava um calor fora de época pro começo da primavera, os pântanos a poucos metros dali borbulhavam e espumavam por causa do calor escaldante. Por mais que eu reclamasse de nunca ganhar, eu ficava feliz de não ter que correr por aquele brejo com lama até o tornozelo e mosca varejeira. Meu pai, com o senso de humor de quem já bebeu demais, sempre escondia pelo menos um ovo lá nos pântanos.

Não muito longe, claro. Ele não era sádico. Eu tinha visto ele tropeçando pra lá meia hora antes, lata de Bud Light numa mão e o ovo enfiado debaixo da outra.

Os competidores estavam alinhados, ansiosos pra deixar a marca deles. Meu irmão se destacava no meio dos outros, e pesava mais ou menos o dobro. Ele tinha cabelo preto ondulado todo engordurado, dava pra sentir o cheiro do couro cabeludo sujo dele lá da varanda — era nauseante.

Ele tinha aquele olhar metido na cara rechonchuda. Meu Deus, eu queria estrangular ele só de olhar. Mas segurei a vontade, me concentrei na respiração e voltei a ouvir minha tia Sally enchendo meu saco sobre o que eu ia cursar na faculdade.

Meu pai cambaleou pra frente, com aquele olhar vidrado e distante. Ele balançava onde estava parado, e a multidão na frente dele dava risadinha da situação dele. Pelo canto do olho, vi minha mãe dando um trago fundo no cigarro. O cabelo preto giz vibrante de antigamente agora estava opaco e cheio de fios grisalhos. Tinha olheiras que derrubariam um camelo.

Era um contraste interessante com o cansaço maníaco do meu pai, se é que isso faz sentido. Enfim, meu pai deu um discurso rápido, embolado e quase incoerente. Como sempre.

“Beleza, rapaziada, bem-vindos à caça aos ovos da família. Cada um de vocês, pequenos caçadores, tem dez minutos pra juntar todos os ovos que conseguir carregar. Vão lá e peguem eles, tomem cuidado se estiverem rastejando pelo brejo, é temporada de acasalamento dos jacarés. BELEZA, VAI LOGO!” Ele berrou enquanto todo mundo aplaudia e os competidores saíam em disparada. As tias, tios e primos meio bêbados rugiam com uma alegria falsa enquanto se embolavam e tropeçavam uns nos outros. Ricky, pra crédito do putinho, era como um raio. Você piscava e: boom-boom-boom — ovo atrás de ovo.

Logo ele tinha desaparecido no meio do mato e uma parte de mim torcia pra ele tropeçar e cair numa areia movediça ou algo do tipo. Não fundo o suficiente pra matar ele, afinal ele era meu irmão e eu o amava... eu acho. Mas tinha algo naquele sorrisinho arrogante dele que me tirava do sério.

Então eu fiquei sentado ali no sol da tarde, absorvendo os raios e balançando a cabeça de vez em quando enquanto minha tia tagarelava sem parar sobre nada. Eu ficava de olho na caçada. Dois já tinham desistido, entediados com a perseguição inútil. Um estava de quatro, arrancando a grama e jogando a cobertura morta pro alto num chilique silencioso.

O brejo ao fundo fazia o barulho de sempre: o gorgolejar de gás de pântano quente, o gemido de uma cegonha pastando, os estalos e chilreios que soltavam cascas de árvore à noite e faziam minha imaginação voar longe. Meu avô costumava me contar histórias loucas sobre as criaturas do brejo, histórias de terror pra assustar um menino e impedir que ele se afastasse demais por tédio.

Ele falava de lagartos terríveis com penas coloridas, mandíbulas que quebravam ossos ao meio e garras que cortavam barrigas macias como manteiga derretida. Histórias maravilhosas pra ouvir quando criança. Eu nunca me aventurava muito no quintal por causa delas.

Queria que o Ricky tivesse ouvido aquelas histórias.

Eu saí do meu devaneio nostálgico quando ouvi ele comemorando com uma alegria maligna. Todas as cabeças se viraram pra ver ele saindo do mato como um furacão, o cesto balançando nos braços flácidos enquanto segurava algo acima da cabeça. Ele estava sem fôlego, ofegando, quando se aproximou do meu pai e apresentou o prêmio. Era um ovo meio grande, de cor clara, com pintas de lama e umidade.

“Eu encontrei eles, pai. Encontrei todos os ovos.” Ricky ofegou. A curiosidade falou mais alto e eu saí da varanda, querendo examinar aquele ovo estranho. Fiquei ao lado do meu pai, envolto no cheiro forte de uísque misturado com coca. O rosto do Ricky estava inchado e vermelho, o suor grudado nele como num porco chafurdando na lama. Ele sorriu pra mim enquanto mostrava o ovo misterioso.

Meu pai franziu a testa e falou calmamente, embolado:

“Desculpa, Rick, esse aí não é nosso. Nunca vi isso antes. Vai lá e coloca de volta antes que—” Um apito soou e todos os competidores se alinharam, cestos na mão. Contra os protestos e choramingos do Ricky pedindo mais tempo, meu pai contou todos os ovos.

No final, o total do Ricky foi vencido por um único ovo. O primo Roger, aquele nerd, abriu um sorriso triunfante enquanto meu pai dava um tapa nas costas dele um pouco forte demais. Admito: eu não consegui deixar de curtir a derrota do Ricky. Isso até ele ter um ataque completo.

O rosto dele ficou de um tom de vermelho que eu nunca tinha visto, a cara gorda se contorceu, ondas febris de raiva atravessando aquela banha toda, como ecos de uma onda rebelde.

“Isso não é justo!” Ele guinchou, furando meus ouvidos e quase me fazendo dobrar. “É a minha casa, eu que tenho que ganhar!” ele choramingou. Ele bateu os pés e jogou o cesto no chão, equilibrando o ovo estranho nas mãozinhas sujas.

“Agora, filho, a gente nem sempre consegue o que quer. Não seja estraga-prazeres.” Meu pai falou calmamente, de repente sóbrio pra caralho por causa dos olhares julgadores e caretas da família estendida.

Eu até fiquei impressionado. Se fosse comigo, ele já teria me dado um tapa na cara. Acho que ele amoleceu com a idade.

Ricky recusou a misericórdia do pai e dobrou a aposta na atitude nojenta dele. Com um urro gutural que só podia ser descrito como o grito de uma baleia furiosa, ele levantou o ovo no ar e cravou ele no chão.

Ele se espatifou no impacto, obviamente, e a multidão reunida soltou um suspiro coletivo e lamentoso. Porque, se contorcendo no chão no meio de gema e gosma, tinha uma coisinha pequena. Parecia um pintinho meio formado, com pele escamosa, duas pernas viscosas e tocos no lugar de braços. Tinha um olho serpentino piscando freneticamente na pobre criatura, enquanto o que eu acho que era o bico tentava gritar chamando pela mãe.

Meu coração se partiu olhando praquela coisinha, e o que o meu irmão sociopata e sádico faz?

Antes que alguém pudesse impedir, ele levantou o pé acima da criaturinha moribunda e cravou o calcanhar nela, espatifando o que restava da pobre criatura.

Uma onda de murmúrios horrorizados explodiu entre a multidão. Os priminhos estavam chorando, e o pobre Roger ficou branco como um fantasma.

“Ovo idiota, perdendo meu tempo.” resmungou Ricky enquanto esfregava o pé. O grito mortificado da minha mãe nos tirou do transe e meu pai rapidamente agarrou o braço do Ricky e puxou ele pra si. Ricky se contorceu e arranhou, mas a pegada do meu pai era de ferro. Ele arrastou ele pra dentro de casa chutando e gritando, batendo a porta de vidro atrás deles.

Mamãe foi rápida em acalmar a multidão dizendo que a comida estava pronta e tentou o melhor que pôde direcionar todo mundo pro prato de carnes na varanda. Teve gente balançando a cabeça e resmungando, e eu ouvi tia Sally dizendo que nunca veria um dos filhos dela agindo daquele jeito.

Mamãe sussurrou pra mim pra me livrar “disso” e apontou um dedo ossudo pro chão. Eu peguei a criaturinha esmagada com cuidado e fui andando pro mato. Acho que ela teria preferido que eu jogasse no lixo, mas pareceu errado. Não fui longe, só na beirada do pântano, bem fora de vista onde o mato encontra o quintal. Cavei uma valinha pequena e, por mais idiota que pareça, pedi desculpas.

Saí rápido do mato, me sentindo vulnerável de repente. Como se as árvores tivessem ouvidos. Durante o resto da tarde, eu juro que vi as árvores chacoalhando e ouvi um latido chilreante, rancoroso e cheio de luto. O resto da minha família seguiu em frente. Meu pai eventualmente desceu de novo e colocou gelo nos nós dos dedos. Ninguém perguntou como o Ricky estava, nem se importaram depois daquela cena.

O sol se pôs numa festa constrangedora. Parte da família tinha ido embora pro fim da tarde, a maioria ficou, bêbada demais pra voltar pra casa. Eu me desculpei quando os vagalumes saíram pra dançar, cansado pra caralho dos eventos do dia. Meu pai estava levando uma bronca séria de um dos irmãos dele, falando alguma coisa sobre disciplina. A cabeça do meu pai balançava e ziguezagueava na noite; provavelmente ele nem ia lembrar o próprio nome de manhã.

Mamãe observava com desprezo, encostada na porta dos fundos com um cigarro aceso na mão. Ela deu um aperto mole no meu ombro quando passei por ela. Subi a escada enorme pra descansar um pouco. Passei pelo quarto do Ricky. A porta estava fechada, mas eu ouvi um choramingo leve e fungadas lá de dentro. Fiquei parado na porta, pensando que talvez devesse entrar e confortar ele. Afinal, ele era só uma criança.

Depois pensei: foda-se, deixa ele tomar o remédio pelo menos uma vez na vida. Eu me arrependo disso agora.

Entrei no meu quarto sem pensar duas vezes e desabei na minha cama macia. Apaguei feito uma luz.

Acordei tonto e confuso, suor frio escorrendo na testa. De fora da minha janela dava pra ouvir algum tipo de comoção. Olhei pra fora e vi sombras correndo pelo quintal. Elas estavam baixas no chão, se movendo com propósito. Ouvi gritos abafados e súplicas. Tinha aquele latido áspero, como um galo chilreando com alguma coisa presa na garganta.

Estava em volta da casa toda. Reconheci algumas vozes. Tia Sally estava chorando até que a voz estridente dela foi cortada de repente. Algumas não faziam sentido. Ouvi a voz tímida do primo Roger, mas parecia errada. Uma imitação zombeteira, quase robótica. Ficava repetindo as mesmas frases sem parar: “Mamãe. Aqui. Eu tô aqui. Me ajuda.” Sem parar. Sentei na cama e tentei entender que porra estava acontecendo lá fora.

Foi quando ouvi um baque no corredor. Virei rápido pra frente do quarto, meus olhos demorando pra se acostumar com a escuridão sombria. A porta do meu quarto rangeu ao abrir, uma sombra enorme passando rápido. Eu vi alguma coisa — um apêndice parecido com um tentáculo na parte de baixo, quase me chamando pra perto.

Fiquei paralisado na cama, me sentindo criança de novo, com medo dos monstros no escuro.

“Stephen.” A voz da minha mãe latiu pra mim com dureza. Estava fraca, mais fundo no corredor. Nem tive certeza se ouvi direito no começo.

“M-mãe?” perguntei com a voz baixa, quase um sussurro engasgado.

“Stephen. Me ajuda. Vem. Me ajuda.” Ela repetiu. A voz era a mesma, mas o tom parecia frio. Saí da cama com cuidado e fui até a porta. Olhei pra fora e não vi nada no corredor úmido. O ar estava gelado, como se as janelas estivessem abertas. Da base da escada, ouvi de novo:

“Stephen. Me ajuda.”

“Mãe, o que aconteceu?” chamei mais uma vez. Fui recebido com silêncio. No topo da escada, eu parei, e vi alguma coisa espreitando lá embaixo. Olhos miúdos com um brilho fraco. De cima dava pra ouvir os gritos de dor da minha família lá fora, junto com latidos e sibilos doentios.

“Stephen. Vem. Aqui.” A coisa usando a voz dela engasgou. Recuei e senti uma mão agarrar meu ombro. Dei um grito e me virei pra ver o rosto ensanguentado da minha mãe. Ela estava sangrando muito, um corte fundo na testa e tufos de cabelo arrancados do couro cabeludo. Mal conseguia ver o resto dela, mas dava pra sentir o cheiro de sangue e ferro com que ela estava coberta. Ela colocou um dedo nos lábios pra me mandar ficar quieto e o olhar dela disparou pro pé da escada.

Teve um gemido, um lamento animalesco de frustração, e a sombra imponente deu um passo mais perto. Era bípede e parecia ter asas no lugar de braços e um rabo longo e coriáceo.

“Stephen.” Mamãe sussurrou rouca ao meu lado. Ela não esperou resposta e simplesmente colocou um molho de chaves na minha mão. “Não consegui entrar por nenhuma das portas. Eles estão em volta de nós. Preciso que você pegue seu irmão e desça pela escada na minha janela. Pega o carro.” Ela ordenou.

“Mãe, o que está acontecendo—” comecei, mas parei quando ela apertou minhas mãos. Elas estavam quentes e molhadas. Não consegui olhar pra baixo. Sem dizer mais nada, ela me empurrou pro corredor e desceu correndo a escada. Ouvi os passos rápidos da criatura quando ela pulou em cima dela, e os dois rolaram escada abaixo. Corri pro quarto do meu irmão, tropeçando no escuro. Finalmente me orientei e praticamente chutei a porta, gritando o nome do Ricky.

Eles tinham chegado primeiro.

Eram dois deles, iluminados por uma luz fraca de um abajur caído. Os olhos deles brilhavam como fósforo branco quando a luz batia. Eram coloridos, vermelhos vibrantes e laranja tropical misturados. Os braços eram longos e magros, penas bonitas cobrindo a pele coriácea. Tinham pernas traseiras carnudas com uma única garra curvada que parecia quase o salto de uma dançarina.

As criaturas estavam em cima do que restava do Ricky. A barriga dele estava aberta, as tripas espalhadas pelo chão num monte fumegante, rasgadas e puxadas como queijo em fio. O esterno estava arrancado, como se as criaturas tivessem forçado ele aberto. Os pulmões esfarrapados ainda ofegavam e chiavam sem motivo, como um lençol ao vento. O rosto dele estava cinza e os olhos opacos. O da esquerda tinha a boca cheia de intestinos, sugando como macarrão. O da direita só tinha carne escorrendo da bocarra. Ele me viu entrar e abriu um sorriso predatório pra mim.

“Ri-Ricky.” gaguejei, sentindo um calor escorrendo pelas minhas calças. Os monstros deram um bote rápido em mim e eu corri. Fui pro quarto dos meus pais, vendo pelo canto do olho a criatura na escada arrastando metade de um objeto mole escada acima. Meu pulso acelerou e eu me choquei contra a porta do quarto dos meus pais, procurando a escada desesperadamente.

Os lagartos terríveis latiam pra mim, carne caindo das bocas glutonas, famintos por algo fresco. Corri até a janela e olhei pra baixo: uma escada estava encostada de qualquer jeito na parede. Dava pra ouvir o que restava da minha família sendo massacrado pelas coisas com mais clareza agora. Ignorei tudo e saí pela janela. Os degraus estavam escorregadios com o que eu acho que era sangue e sujeira. Estava na metade da descida quando ouvi algo latir pra mim.

Olhei pra cima e carne caiu da boca dele rangendo. Uma placa de carne bateu no meu rosto, e eu gritei e soltei a escada. Caí no chão com força, os lados do corpo gritando de dor. Não tinha tempo a perder. Manquei até o carro da minha mãe, um sedã bonito, e entrei engatinhando. Ele engasgou e pegou. Saí acelerado dali. Sem olhar pra trás nem uma vez.

Acho que estava a vários quilômetros de distância quando finalmente parei no acostamento, os pulmões saindo do peito e o coração doendo com o massacre que eu tinha visto. Tão rápido quanto começou, acabou do mesmo jeito. Ao longe, eu juro que ainda conseguia ouvir os gritos.

Eu liderei o grupo de manhã. Encontrei os poucos sortudos que conseguiram chegar no motel e chamamos a polícia. Contamos que um animal selvagem tinha atacado a casa. As criaturas já tinham sumido há muito tempo, assim como vários corpos. Encontramos o torso do meu pai pendurado na varanda, uísque podre fermentando no chão embaixo numa poça sangrenta. Acabamos vasculhando o pântano atrás dos nossos mortos.

Só encontramos o Ricky. Ele estava encostado num tronco caído, o rosto todo arranhado e os olhos já tinham sumido. No fundo do que já foi a barriga dele tinha maços de lama e ovos recém-postos.

A gente deixou ele lá. A lição de respeitar a natureza já tinha sido aprendida da pior forma possível.

Eu fui embora depois. Não conseguia ficar naquele matadouro. Acabei vendendo a casa pra um primo que queria ficar lá e ruminar, talvez atrair as criaturas pra fora. Tenho certeza que ele já virou comida de raptor a essa altura. Evito o mato quando posso, mas às vezes eu juro que ouço aqueles latidos roucos, rondando nas sombras, esperando pra terminar o que começaram.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Anjo na Minha Janela

Esta não é realmente a minha história favorita para contar, mas é a mais fácil de lembrar.

Pra contextualizar, eu nasci doente. Era algo que estava presente desde o primeiro dia, desde que comecei a respirar, como se a falta de vontade da minha mãe de ter um bebê tivesse se transferido para um bebê que não queria viver.

Eu era doente, sou doente e vou morrer doente. É simplesmente o jeito da vida, como fui construída e como vou morrer. Entre os efeitos do alcoolismo do meu pai e a falta de cuidado da minha mãe, logo me vi com uma lista enorme de doenças, todas crônicas e produtos de um sistema imunológico imunodeprimido. MRSA, febre do feno, coisas que ninguém deveria passar nos primeiros dois anos de vida. Eu deveria estar mastigando fios ou algo assim, não conectada a um respirador, saca?

E mesmo assim, minha primeira memória vai estar sempre marcada pelo pesado véu da E. Coli. Não posso dizer com certeza que tipo de problema levou à infecção, pelo que me contaram foi uma combinação de circunstâncias imprevistas e a minha mãe querendo que a filha de dois anos dela comesse um hambúrguer que custava só um dólar. Tudo que posso dizer com certeza, e da melhor forma que me explicaram, é que eu tinha um “tornado dentro de mim que ficava destruindo tudo no caminho”. Era certamente doloroso. Eu me lembro que, quando me levaram para fazer exames, eu sentia como se estivesse deitada em uma nuvem, tão sonolenta. E então, quando voltei pra casa, foi simples assim: eu caí no sono, bem na minha cama.

Mesmo que eu dormisse no quarto da minha mãe, em uma cama separada, eu nunca estendia a mão pra ela à noite. Eu sempre me deitava com o rosto bem encostado na parede abaixo da janela, com a moldura de madeira perfeitamente alinhada acima da minha têmpora. Era frio, e isso me acalmava melhor. Com a janela virada pra rua, se minha mãe abrisse, eu sentia o frio da noite ou, melhor ainda, ouvia qualquer vizinho que estivesse andando em direção à loja da esquina. Se eu tivesse azar, ouvia minha mãe indo à loja sem mim. Naquele dia, por volta da noite, parecia exatamente isso, pela forma como a pessoa andava bem perto da janela.

E mesmo assim, eu ouvi meu nome. Chamaram por mim, pelo meu nome.

Mesmo que eu não vá dizer qual é, por razões de privacidade, era estranho ouvir aquilo. É o apelido carinhoso de um nome de família, e mesmo assim, essa pessoa estava me chamando, não pela minha mãe, não pela minha avó. Eu sabia que era pra mim, porque falavam de um jeito tão, tão gentil. Por isso, abri os olhos para ver quem era que tinha conseguido distinguir minha forma no escuro, tão perto da janela. Mesmo assim, a visão era tão brilhante que eu não conseguia entender direito.

“Vem comigo”, disseram. Eu não conseguia dizer se era um menino ou uma menina. Cabelo longo, leve e esvoaçante, mais brilhante que o poste de luz atrás deles. Soavam tão suaves, tão gentis comigo, enquanto tocavam o vidro da janela com aquela mão linda e pálida, tentando abrir. Tinham olhos lindos, da cor de mel, que pareciam reluzir e brilhar no escuro.

“Não posso”, eu disse, balançando a cabeça, mesmo que isso me deixasse mais tonta. Era o único jeito que eu sabia que minha mãe entendia que eu não queria alguma coisa, tipo ovos ou carne.

“Mas você tem que vir, está na hora”, eles disseram, com o sorriso e a voz suaves enquanto abriam a janela um pouco mais, tentando me tocar. Mesmo que parecessem bons, mesmo que por todos os sentidos eu me sentisse melhor, tinha algo errado. Alguma coisa não fazia sentido, mesmo que tudo parecesse bom.

Eu gritei, o mais alto que consegui, com a voz rouca e insegura. E então, como se nada tivesse acontecido, ela estava gritando comigo, dizendo aos quatro ventos que eu não podia simplesmente gritar com ela daquele jeito.

Não consigo lembrar todos os detalhes, principalmente porque, mesmo naquela hora, tudo que eu conseguia focar era a memória do rosto daquele estranho.

Passaram-se tantos anos. Principalmente desde que eu descobri que não era bem um “tornado” o que estava passando por mim, nem eu deveria falar com estranhos do jeito que falei com aquele estranho naquela noite, mesmo que minha mãe tivesse atribuído tudo a um pesadelo particularmente agradável.

... Pesadelo agradável? Não, não foi nada agradável.

A verdade é que muitos anos se passaram, e entre a minha família querendo que eu fosse uma boa menina católica e o interesse cada vez menor dos meus pais por mim, o nascimento dos meus irmãos, eu fui relegada ao papel de boa irmã mais velha. Permanentemente solteira, claro, mas isso era por escolha. Nada parecia bom pra mim. Todo relacionamento que eu tive deu errado, e é exatamente isso que me abala até o fundo agora que penso nisso.

Não importava o que eu fizesse, não importava o quanto eu cuidasse de mim mesma, fosse sobrevivendo a uma gripe ou a um surto ruim de herpes zóster, não havia um único momento de alívio. Esse tipo de alívio nem mesmo veio quando eu arrumei meu primeiro namorado. Um babaca, na minha opinião. Não seria um babaca se você perguntasse pra quem precisa de um parceiro pra se apoiar, pra mostrar e justificar como o motivo real de você ser descolada e totalmente não uma virgem perdedora.

Enfim. Ele era o disfarce perfeito. Tipo uma cara que você pode exibir e ainda assim alegar que não tem nenhum compromisso real. Ele tinha certa semelhança com o tipo de cara que algumas garotas gostam: vagamente étnico e ainda branco o suficiente pra ninguém duvidar que ele está na mesma liga que você. Olhos pequenos e miúdos, tom de voz eternamente choroso, pele pálida e doentia. Eu não gostava dele de verdade. Ele sabia que eu não gostava dele daquele jeito, e mesmo assim ele se encaixava bem no papel do que meus colegas de classe consideravam um namorado aceitável e totalmente não falso.

O que era bom.

Exceto quando não era. Veja bem, na minha glória infinitamente sábia e cronicamente congestionada, eu não participava de álcool, muito menos de qualquer outro tipo de droga. Não é que eu julgue os outros, só quando gastam dinheiro demais com isso. Então, quando o Sebastian começou a beber mais que o meu pai, eu pensei que não tinha como salvar aquele relacionamento. Não é como se meus amigos o conhecessem, afinal, como eu ia me orgulhar de namorar um bêbado? Assim, antes que eu percebesse, já tinha tomado minha decisão. Eu tinha que terminar com ele.

... Sem saber direito como dar a notícia pros meus amigos de que meu namorado falso agora era um ex-namorado falso, que não tinha evoluído pra namorado de verdade, mas, bem, você entendeu.

“Quando você vai apresentar ele pra gente?” perguntou uma das minhas amigas enquanto almoçávamos, sem fazer ideia da ansiedade que aquela pergunta estava me causando.

“Ah, ufa, em breve. Em breve, espero”, eu disse, balançando a cabeça. Afinal, com sinais físicos e linguagem não verbal as pessoas sempre entendiam melhor, né? Com certeza elas sabiam que não deviam me pressionar mais enquanto eu estava tão—

“Como ele é fisicamente?” A mesma amiga se virou pra mim, toda animada... Como ele é, ela pergunta pra quem definitivamente não quer admitir que o namorado é um bêbado que parece que o nome do meio é Hennessy.

“Ele é loiro, alto e bonito. Muito bonito”, eu disse, tentando soar segura, como se não estivesse inventando e descrevendo algum cara bonito que eu tinha visto uma vez num anúncio da Calvin Klein.

Claro que ninguém acreditou em mim. Quem acreditaria?

E aquilo foi só o começo! Algumas semanas depois de todo esse dilema, minha avó ficou gravemente doente. Nem era algo que eu tinha planejado, ou melhor, ninguém poderia ter previsto. Sabe quando as pessoas usam a desculpa de que a avó morreu pra serem dispensadas do trabalho ou da faculdade? Isso aconteceu comigo, só que, claro, nos dias antes do primeiro dia do meu terceiro semestre da faculdade. Como se já não fosse ruim o suficiente, como se eu não tivesse sido obrigada a ir na segunda-feira, ontem, e ainda...

Ontem à noite, eu sonhei outro pesadelo. Eu fui pra faculdade, mas não conseguia encontrar meu caminho, nem uma forma de me defender enquanto andava por aqueles corredores escuros, com o cheiro de formol e antisséptico quase gelado no meu nariz enquanto eu caminhava, quase sem fim. Minhas pernas doíam, sem falar de como eu estava com frio no sonho. E então eu o vi. Ou quem eu achei que devia ser uma saída. Era só um sonho, eu sabia, enquanto corria atrás de alguma figura nos meus sonhos, um amarelo brilhante rompendo a serenidade dos azuis até que ele se virou, estendendo os braços antes que eu corresse direto pra ele. Ele me pegou, ele me pegou, mesmo que eu tivesse acordado. Ele me pegou e eu acordei. Quem era ele, afinal?

... O que eu tinha sonhado? Só a cor de ouro e o cheiro de morte pareciam grudados nos meus ossos. Talvez só um lembrete, um eco do que eu tinha vivido no funeral da minha avó.

Hoje foi um bicho completamente diferente.

Eu ainda me lembro bem do meu raciocínio idiota. Nem me dei ao trabalho de pegar a mochila de manhã, sabendo que eu só tinha uma aula e que iríamos fazer um debate, então não precisava dos meus cadernos. Pensei: já que eu tenho um histórico bem pesado de desmaios, vou tomar café da manhã. Café da manhã dos campeões: burritos e uma garrafa de Coca. Meia litro de Coca e três burritos depois, eu estava feliz da vida. Sério, você nunca sabe o quão feliz e tranquila você está até comer sua comida favorita e sair toda animada pra aula. Nem me lembrei onde tinha deixado o celular, só fui entrando na sala de aula e me sentei pro meu terceiro dia de aula.

Uns vinte minutos depois de a aula começar, fui tomada por aquela sensação, aquele sentimento estranho de o estômago dar cambalhotas, quase uma bronca por ter comido comida pra alguém duas vezes o meu tamanho, quase doía dentro de mim. Deixa pra lá, talvez eu precise ir com calma. Nem preciso dizer que não foi fácil, porque acabei desmaiando. Por causa de uma dor de barriga! Só uma dor de barriga! A ida até a enfermaria não foi nada divertida, me levaram de maca pra fora da sala e me trouxeram pra enfermaria, com os estudantes de medicina fazendo treinamento e tudo mais. No meio de tudo, perguntaram se deviam ligar pra alguém pra me buscar. Mesmo sabendo que eu mesma era meu contato de emergência, eu não estava lúcida o suficiente pra protestar e explicar, nem conseguia reclamar enquanto vomitava sem botar nada pra fora.

Eu me sentei, pensando nas minhas opções, porque nem conseguia lembrar de nada. Será que podiam ligar pra minha mãe se ela não tinha como me contatar? Algum dos meus irmãos tinha me visto sendo levada pra enfermaria? Pior ainda, o que eu deveria fazer pra justificar toda a sequência de eventos que tinham me levado até a enfermaria? Então lá estava eu, na sala da enfermeira, bebendo água com eletrólitos e sendo tratada como uma princesa, tudo por causa de um simples desmaio e um mal-estar geral. E então, enquanto eu encostava o rosto na parede fria da enfermaria, ouvi uma batida na porta.

“Ah, ele veio! Achei que ele não fosse atender”, disse a enfermeira-chefe, saindo da sala dela pra abrir a porta, enquanto eu nem me dei ao trabalho de virar a cabeça, sem me mexer do meu lugar, olhando fixamente pra porta. E lá estava ele, com o sol brilhando atrás das costas, um estranho lindo, alto, com cabelo loiro longo, uma mão segurando meu celular e a outra minha mochila, enquanto a enfermeira apontava com a cabeça pro lado, pro estranho bonito que entrava na sala. Olhos brilhantes romperam a luz fria da enfermaria enquanto ele me encarava intensamente, justo quando a enfermeira disse toda animada: “Seu namorado chegou.”

Eu nem conseguia me mexer, só olhando pra ele de baixo, sem conseguir dizer uma palavra.

Estava na hora, afinal.
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Minha caneca sumiu da minha mesa. Alguém viu?

Não consigo lembrar exatamente os resultados que apareceram quando pesquisei isso, mas alguma coisa apareceu. Fiquei meio perturbado. Qual e...