Se você prestar atenção, bem no fundo das florestas das Montanhas Adirondack, talvez ouça a Velha Árvore chorar. É um gemido profundo e rangente, diferente de qualquer soluço ou lamentação que você já tenha ouvido. Como uma porta grande e pesada sendo arrombada, raspando contra o assoalho de madeira dura. Como as vozes de mil pessoas gemendo todas ao mesmo tempo. Parece feito de madeira, mas, se você escutar com atenção, pode ouvir suas tristezas. Pode ouvir sua dor. E, se você a seguir, pode vê-las chorar suas doces lágrimas pegajosas. As lágrimas que correram como rios naquelas florestas no verão passado. Ainda não consigo parar de pensar nisso. Talvez escrever tudo ajude.
Éramos só eu, Hughie e Daphne. Daphne e eu somos amigas desde a primeira série. Ela sentou na minha mesa e me ofereceu os lanches dela quando viu que eu só tinha um sanduíche, e fomos inseparáveis desde então. Hughie se juntou ao nosso grupinho quando a família dele imigrou do México na quinta série. Daphne o convidou pra sentar conosco quando vimos que ele estava sozinho. Fomos todos inseparáveis durante o ensino fundamental e médio, indo em aventuras pela floresta quase todo dia depois da escola. Quando nos aproximávamos da formatura, sabíamos que provavelmente nos afastaríamos. Hughie e eu estávamos nos mudando para cidades diferentes para a faculdade, enquanto a Daphne ia para a mesma faculdade local que o pai dela. Naturalmente, sabíamos que não nos veríamos muito. Por causa disso, começamos a nos encontrar para uma viagem de caminhada todo ano para reviver nossa infância juntos. Era um jeito de mantermos contato.
Normalmente a gente ia pra lugares perto da nossa cidade natal, achando algum terreno público pra fazer uma caminhada de dois dias. No entanto, como era nossa última vez, decidimos fazer algo diferente. Acabamos achando um lugar lá pro norte, mais perto da minha alma mater, porque queríamos explorar algo novo. Acabamos escolhendo um ponto bem no fundo das montanhas como nosso destino. Era lindo, relativamente fácil de achar e tinha um folclore interessante. Estimamos que seria uma caminhada de cerca de dois dias pra ir e voltar do local. Então deveria ter sido um total de quatro ou cinco.
Hughie me buscou primeiro. Nossas cidades ficavam muito mais perto uma da outra do que da nossa cidade natal. Era só uma viagem de 45 minutos. Embora provavelmente fosse mais fácil ele me buscar por último, porque eu sou o mais perto da trilha. Ele só queria me ter por perto na viagem, eu acho. Ele dirigia até mim com frequência durante a faculdade, a gente tinha dificuldade em ficar separado por muito tempo. Nos cumprimentamos com um beijo e um longo abraço. Ficamos falando sobre o quanto sentimos falta um do outro, como esperávamos poder ter um futuro juntos.
— Meu Deus, como eu senti sua falta, meu amor… Você está tão gostoso com essa roupa de trilha, justinha na medida certa. — Ele disse no meu ouvido antes de me beijar. Eu sorri.
— Também senti sua falta, Hughie… Em breve não vamos precisar sentir falta um do outro porque… Fomos aprovados pro apartamento! — Eu disse, sorrindo o máximo que pude. Ele sorriu de volta. Se não fôssemos aprovados, teríamos desistido e achado apartamentos nas cidades onde fizemos faculdade, porque era mais fácil arrumar trabalho. Esse foi o único que conseguimos achar na cidade que não estourasse totalmente nosso orçamento, mesmo que fosse pouco maior que uma caixa de papelão. Nós dois conseguimos empregos encaminhados em Nova York que teríamos que largar se desse errado.
— Não acredito… Você tá falando sério…? Len, meu amor, você é um mágico! Eu achei que você tinha dito que eles não gostaram do seu crédito? — Ele disse.
— Na verdade eles foram super compreensivos quando eu contei sobre… tudo. Além disso, consegui aquele trabalho de laboratório com meu orientador de pesquisa, então eles confiam que eu consigo pagar! Quando essa viagem acabar, a gente finalmente vai poder ser adulto. — Eu disse, com uma mistura de reverência pelo nosso futuro e apreensão em relação ao passado. Nos abraçamos antes de nossos lábios se encontrarem de novo. Depois que nos separamos, ele começou a dirigir. Não conversamos muito, a gente só cantava junto com qualquer música que tocasse na nossa congregação profana de uma playlist compartilhada. Antes que a gente percebesse, estávamos buscando a Daphne. Trocamos cumprimentos enquanto ela cuidadosamente empurrava a montanha de equipamento pro lado e seguimos viagem.
Daphne falou muito sobre a vida dela. Era principalmente ela desabafando sobre o quanto odiava morar na nossa cidade natal. Ela não podia simplesmente ir embora, o pai dela estava doente e ninguém mais queria esse fardo. Então, ela só reclamava. E a gente deixava, claro. Éramos amigos desde a primeira série, queríamos fazer o que pudéssemos por ela. Naquele momento, era só suportar horas de desabafos e monólogos sem dizer uma única palavra acusatória. O assunto parecia mudar toda vez que eu voltava à existência a partir dos meus próprios pensamentos preocupados.
— Sabe o que eu odeio pra caralho? Ter que carregar uma família que não dá a mínima nas minhas costas…
— Eu só queria que eles me escutassem nem que fosse um fodendo pouquinho.
— Eu… eu só não quero perder ele, sabe… vovô foi o único que se importou…
— Meu Deus, Len, o James não para de explodir meu celular… Ele fica tentando voltar comigo…
Aí eu entrava com alguma resposta vazia enquanto o Hughie a animava. Era a fórmula que aperfeiçoamos desde crianças. Ela finalmente colocou tudo pra fora e perguntou como a gente estava. Dissemos que estávamos ótimos, e contamos sobre o apartamento e nossos planos.
— Ai, meu Deus! Isso é foda pra caralho! Vocês finalmente vão poder morar juntos. É melhor me convidarem pro casamento ano que vem. — Ela disse, rindo.
— Puta, claro que você vai ser a dama de honra ou o padrinho ou seja lá que porra chama. Mas ano que vem? Não vamos nos apressar tanto. Que tal… daqui a 2 anos? — Eu disse, olhando pro Hughie. Ele olhou de volta.
— Não sei, dependendo de como for a convivência, a gente pode fugir pra casar mês que vem. — Ele disse, rindo, — Mas falando sério, meu amor, acho que devemos esperar pelo menos alguns anos. A gente precisa juntar uma grana porque meus pais estão quebrados e os do Len são… Você sabe… Os pais do Len… — Ele congelou. Ele não queria reabrir feridas antigas. Digamos que eles me deserdaram no ensino médio quando Hughie e eu começamos a namorar. Eles não ficaram exatamente felizes comigo sendo gay e acabei morando com os pais do Hughie pelo resto do ensino médio. Eles tentaram se reaproximar no ano passado, mas estragaram qualquer chance de relacionamento quando pegaram empréstimos no meu nome e foderam completamente meu score de crédito. Eu obviamente não queria ficar nesse assunto, então interrompi pra poupá-lo do silêncio constrangedor.
— Vamos deixar pra pensar em casamento pelo resto dessa viagem… Do que vocês estão mais animados sobre a viagem? — Perguntei, tentando mudar de assunto. Ainda estávamos a meia hora do local e eu não queria que um dedo ficasse cutucando feridas ainda abertas. Então começamos a discutir a viagem, nossas expectativas. Nada muito substancial. Foi uma boa maneira de preencher o tempo até chegarmos lá.
Na nossa chegada, descarregamos cuidadosamente o carro e dividimos o equipamento. A maior parte das coisas pesadas foi pra mochila do Hughie, as mais leves foram pra da Daphne, e a minha ficou com tudo no meio-termo. Hughie e eu pegamos cada um uma ponta do cooler que levamos e começamos a andar. Só tínhamos cerca de duas horas de sol restantes, então caminhamos só pra procurar um bom lugar pra acampar. Felizmente, como ainda estávamos nos arredores da floresta, havia uma clareira bem cuidada não muito longe de nós. Chegamos lá em apenas uns 15 minutos. Eu montei a fogueira, a Daphne cuidou de fazer o fogareiro funcionar, e o Hughie armou a barraca.
O resto da nossa noite foi simples. Tomamos algumas cervejas ao redor da fogueira, conversamos sobre qualquer besteira que vinha à mente, enquanto a Daphne tocava a música básica de garota branca dela. Taylor Swift, Lana Del Rey, Ariana Grande. Não que eu seja menos branco no meu gosto musical, eu sou mais do tipo punk rock. Então tipo uma marca diferente de branco. A gente normalmente contava histórias de fantasmas, mas a Daphne já estava nervosa por causa da história dessa floresta e não queríamos que ela nos largasse. Então bebemos, falamos sobre besteiras, depois falamos sobre a vida até ficarmos todos um pouco tontos.
— Sinceramente, a lua está linda hoje à noite. Parece que vai estar cheia amanhã. — Daphne disse, olhando pro céu. Todos olhamos pra cima e a contemplamos.
— Sim, com certeza. Não estou acostumado a vê-la tão cheia assim. — Hughie disse, maravilhado. Eu ri.
— Ela? Por que a lua é uma garota? — Perguntei, olhando nos olhos dele antes de provocá-lo. — Achei que você não sentisse atração por garotas, devo me preocupar? — Ele me empurrou de brincadeira.
— Não se preocupe, meu amor, eu só troco de lado pela lua, e até onde sei não posso transar com a lua. — Ele respondeu antes de me beijar. Ele então disse: — Além disso, não me pergunte, pergunte ao meu avô. Ele sempre me disse que a lua era uma deusa segundo meus ancestrais, uma grande guerreira. Embora ele dissesse que isso não é verdade, porque ela era um dos deuses pagãos, e acreditamos no 'Único Deus Verdadeiro'. Mas ainda nos referimos a ela como mulher porque parece certo assim, eu acho.
— Ah, acho que faz sentido. Meus pais nunca me contaram histórias legais assim. Mal me contavam histórias da Bíblia, só me diziam todas as maneiras que eu poderia ir pro Inferno. — Respondi, me aproximando do Hughie. — Eu sei que não deveria me importar mais, mas me afeta, sabe? E se eles estiverem certos…
— Eles estão errados, meu amor. Tenho certeza de que Deus não vai se importar com quem amamos. Ele verá nossos corações no final. — Hughie disse, deixando eu apoiar minha cabeça no ombro dele.
— Deus, Len, seus pais são uns merdas. Os meus não ligam pra nada disso. Eles só me criticam pelo amor ao jogo. — Ela disse, com humor. — Eu te amo, Len. Se você for pro Inferno, eu vou atrás, eu daria meu peito esquerdo por você, sua puta. E minha vida ou tanto faz… — Ela terminou antes de se levantar e me abraçar.
— De qualquer forma, quais filmes vocês viram recentemente? — Hughie disse, sabendo que isso me faria falar sem parar até eu esquecer todo o resto.
Depois de apenas uma hora, Daphne, acostumada a um turno de 12 horas durante o dia, ficou cansada e se recolheu cedo, por volta das 22:00. Naturalmente, Hughie e eu usamos isso como oportunidade pra "nos divertir" na floresta. Não nos víamos há um mês naquela altura e queríamos um pouco de privacidade. Não fomos muito longe, só o suficiente pra Daphne não poder nos interromper. Obviamente vou poupar os detalhes, mas eu estava inclinado de cara contra uma árvore quando ouvimos o barulho. Aquele som de rangido que tremia os ossos e que agora assombra meus sonhos. Ignoramos na primeira vez, depois na segunda, mas algo foi diferente na terceira. De alguma forma soou mais… humano? Eu nem sei como descrever. Não dava mais pra ignorar e Hughie se afastou de mim e eu me virei.
— Hughie, que porra é aquela? — Eu disse, ajustando minha calça pra não sentir mais uma brisa. Hughie parecia já ter se ajustado quando eu me virei.
— Não faço ideia. Provavelmente um animal batendo numa árvore ou algo assim? Não sei mas… provavelmente nada, mas não acho que consigo continuar no clima assim… Agora juro que algumas dessas árvores estão me olhando, juro que tô ficando louco. — Ele disse, visivelmente apavorado. Eu acenei e o beijei.
— É, eu também não consigo. Não conseguia me concentrar… Quer voltar pro acampamento e colocar umas músicas? Tenho certeza que a Daphne não vai acordar. — Eu disse, sorrindo por trás do meu nervosismo.
— Hummm, sim, vamos tentar… você sabe que não resisto a isso… — Ele disse, entre outras coisas. Com isso, voltamos pro acampamento. Estranhamente, levamos uns dez minutos pra realmente encontrá-lo.
— Finalmente! Meu Deus, eu podia jurar que estávamos a só alguns passos fora do acampamento… Acho que devo ter me distraído. — Hughie disse com um sorriso safado enquanto agarrava meus quadris. Eu ri e não disse nada enquanto ele me beijava. Ele me levou para um local atrás da barraca e retomamos as atividades. Não ouvimos o barulho de novo, mas pelo menos pra mim, algo no ar parecia estranho. Eu apenas ignorei a sensação. Hughie obviamente também ignorou, se é que ele sentiu algo. De qualquer forma, terminamos nossos afazeres da meia-noite e entramos na barraca. Nos enrolamos juntos e sussurramos sobre sonhos sem sentido enquanto pegávamos no sono.
— Devíamos ter um bicho de estimação, amor. Sabe, no apartamento. — Hughie disse, sorrindo.
— Acho que não permitem animais, Hughie. — Eu disse, tentando não dormir.
— Não tipo um gato nem nada, mas tipo um bicho legal. Tipo uma tartaruga. Ou uma tarântula. — Ele disse.
— Você teria que me lobotomizar se trouxer uma tarântula. — Eu disse, sorrindo.
— Hummm… Uma tarântula e você falando menos… Não sei… — Ele disse, e comecei a encará-lo com irritação fingida. — Tô brincando! Só te lobotomizaria por um jacaré de estimação.
— Você não precisaria me lobotomizar, isso é do caralho. — Eu disse, rindo baixinho enquanto meus olhos começavam a fechar. Tentei manter os olhos abertos, focando nele, mas ele percebeu. Ele pressionou o dedo contra meus lábios e deixei meus olhos se fecharem. Senti ele me beijar suavemente na bochecha enquanto eu apagava. Pela primeira vez em anos, sonhei com nada. Sem pesadelos, sem repetições abstratas de memórias. Foi bom no momento, mas parecia estranho. Eu já estava acostumado com meus pesadelos.
Quando acordei, Hughie e Daphne já estavam fora da barraca. Me espreguicei, ouvindo minhas juntas estalarem como os galhos das árvores. Esfreguei os olhos e olhei ao lado. Havia uma garrafa térmica de café portátil ao meu lado. Sorri e tomei um gole. Ainda estava quente. Depois de alguns goles, consegui me forçar a sentar e depois a levantar. Saí da barraca e vi Hughie e Daphne conversando onde estavam as cinzas da fogueira de ontem. Hughie se virou pra mim, sorriu e me entregou uma tigela de mingau de aveia. Sorri de volta em silêncio e comecei a comer. Fizemos algumas conversas fiadas, mas nada digno de nota.
Comi rápido, terminei meu café e ajudei Hughie e Daphne a desmontar o acampamento. Demos uma última olhada superficial pra ter certeza de que não deixamos nada e fomos embora. Procuramos a entrada de uma das trilhas. De acordo com o mapa, havia uma com início nessa clareira. Achamos bem rápido, já que Hughie e eu entramos pelo mesmo caminho na noite passada. O estranho é que o mapa tinha a trilha marcada incorretamente. Estava marcada quase no extremo oposto da clareira. Verificamos onde o mapa marcava e estava coberto de vegetação com várias árvores onde a trilha deveria estar. Nós apenas demos de ombros e entramos pelo caminho que entramos na noite anterior. Nos sentimos melhor quando vimos o caminho plano e limpo com um poste de trilha entre as árvores.
Assim começou nossa jornada pela floresta, juntos. A trilha era bem fácil de seguir e parecia surpreendentemente bem cuidada. Hughie disse que essa área era bem antiga e não era mantida por ninguém atualmente, então achei isso estranho. Só presumi que uma das faculdades locais tinha um projeto de voluntariado pra limpar as trilhas. Eles também devem ter substituído as placas de sinalização, porque estavam completamente limpas. Nem um pouco de terra em nenhuma delas. A jornada correu bem, estávamos apenas tagarelando sobre qualquer coisa.
— Sabe que banda que não recebe o amor que merece, Bikini Kill. Sinto que ninguém fala delas do mesmo jeito que falam do Nirvana. — Eu disse em resposta à Daphne falando sobre o quanto ela amava não sei o quê. — Elas foram fundamentais na cena punk feminista dos anos 90 e a Kathleen Hanna literalmente— Eu estava exclamando apaixonadamente antes de ouvirmos novamente aquele rangido baixo e lúgubre. Estava mais alto do que na noite passada. Daphne pulou enquanto Hughie e eu estremecemos.
— Que porra é essa merda? — Daphne disse, com uma mistura de humor e medo.
— A gente não sabe, ouvimos ontem à noite enquanto a gente… Uh… — Eu disse, desviando o olhar constrangido da Daphne enquanto via seus olhos se estreitarem e sua boca se abrir.
— Vocês transaram na floresta? Vocês não conseguem só dar as mãos e dar uns beijinhos? — Ela disse antes de rir. Isso foi então interrompido por mais um rangido. — Caralho! O que está fazendo esse barulho?
— Não faço a menor ideia, puta. Além disso, não é minha culpa, o Hughie é sempre tão mãos-leves e eu não resisto. — Respondi.
— Ei, você é quem está vestindo a roupa de trilha gostosa com uma bunda bonita. Não é minha culpa. — Ele retrucou, sorrindo. — Além disso, tenho medo de que vamos descobrir, parece que vem de mais adiante na trilha. É provavelmente só algum veado batendo numa árvore — Enquanto ele dizia isso, percebi algo. Não vimos nenhum veado, muito menos um esquilo… Vimos alguns pássaros perto do acampamento, mas nenhum tipo de vida mamífera. Definitivamente estranho, mas não inédito. Só estávamos lá fora há algumas horas. Talvez os vejamos mais adiante e provem que Hughie está certo, pensei.
— É, você provavelmente está certo, Hughie. — Eu disse, respirando fundo. Daphne acenou. Continuamos andando sem uma palavra, ouvindo tudo ao nosso redor. Estava silencioso. Não ouvimos nenhum pássaro, não ouvimos nenhum farfalhar de folhas, não ouvimos nada se movendo além de nós mesmos. Eu estava prestes a quebrar o silêncio. Até que, mais uma vez, ouvimos o rangido profundo e reverberante.
Mas era diferente, já não era mais um rangido indistinto pra mim, era o rangido de tudo. O rangido de aço raspando contra asfalto. O rangido de uma grande porta de castelo sendo arrombada. O rangido de membros gigantes se esticando e estalando depois de uma longa soneca. Continuamos avançando. Nenhum de nós sugeriu voltar, porque nenhum de nós estava pensando, muito menos falando. Estávamos apenas nos movendo por uma curiosidade primal que nos impelia a querer saber de onde vinha o som. Essa curiosidade logo seria saciada quando nos deparamos com ele.
Ao nos aproximarmos do fim da trilha, vimos a clareira com galhos esbranquiçados espalhados pelo chão entre grandes raízes brancas e sinuosas que preenchiam a clareira. Espalhados entre eles estavam grandes cogumelos vermelhos e brancos. Quando nos aproximamos da clareira, vimos o tronco com a largura de dez homens adultos colocados em sequência, perfeitamente liso e branco como mármore polido. Tinha sulcos uniformes subindo pela árvore. Olhamos pra cima, vendo os galhos ramificados, anormalmente retos, todos se estendendo em direção ao céu no mesmo ângulo. Estavam todos perfeitamente posicionados entre os sulcos. Esticando nossos pescoços ao limite, vimos a copa de folhas escarlates que se erguia muito acima de nossas cabeças. Então notamos a seiva escorrendo pelo tronco, entre as lacunas dos galhos, acumulando-se nos sulcos. Era vermelho-escuro e parecia endurecer em certas partes da árvore. Enquanto a observávamos, a seiva estava quase totalmente descendo pela extensão da árvore, mas agora permanecia estagnada. Seguindo as linhas de sangue subindo pela árvore, pude distinguir grandes nós elípticos idênticos entre cada galho. Pareciam olhos finos e penetrantes, todos olhando para baixo, em direção à terra.
— Mas o que… — Hughie disse, olhando maravilhado. — Es… Estou acordado? — Ele disse, com uma voz distante e desconfortável.
— Acho que sim. Que porra. — Eu disse, sem entender o que estava diante de mim. Daphne não disse nada, ela apenas olhava com uma mistura de admiração e horror. Ela começou a andar mais perto. Nós a seguimos. Nos aproximamos da árvore, saindo da trilha. Atrás de nós, ouvimos o leve farfalhar de folhas. Ignoramos e seguimos em frente. Quando o fizemos, o grande e terrível rangido soou mais uma vez e, com ele, a Terra tremeu sob nossos pés e caímos. Hughie caiu de bunda pra trás, Daphne caiu com força de cara no chão, e eu caí de mãos e joelhos. Hughie e eu vimos a árvore se abrir das raízes pra cima enquanto Daphne ficava imóvel no chão. Era como se algo a estivesse arrombando por dentro. Quando se abriu, vi apenas o fraco brilho de uma luz pontual.
Comecei a rastejar em direção a ela, sem pensar. A luz era bela. Era uma cor que nunca tinha visto antes, algo que nunca poderia descrever. Enquanto olhava, podia jurar que ouvia ela chamando meu nome. Hughie agarrou minha perna, mas eu resisti a princípio, tentando rastejar pra frente, em direção à luz. Ouvi sua voz, mas era apenas ruído pra mim. Lutei e lutei, me aproximando da luz até que finalmente o ouvi.
— LEN!! Para! A gente não sabe que porra tem aí dentro! Por favor, meu amor, por favor, não quero que você se machuque! — Com essas palavras, parei. Olhei pra trás e comecei a soluçar. Rasguei em sua direção e me enrolei nele, chorando em seu ombro. Ele descansou a cabeça na minha. Brincou com meu cabelo e beijou o topo da minha cabeça. Ficamos ali por um momento até ouvirmos o som de pele raspando na terra.
Olhamos e vimos Daphne, inconsciente, se contorcendo em direção à luz. Seus olhos estavam bem abertos, mas sua expressão era vazia. Seu corpo se contorcia como uma lagarta, sua coluna fazendo uma curva parabólica enquanto seus membros permaneciam flácidos. Sua cabeça estava torcida para o lado, o lado do rosto raspando contra os montes de terra, pedras e folhas, mais perto da saída. Sem pensar, Hughie e eu nos levantamos e a agarramos pelos pés e começamos a tentar arrastá-la de volta. Daphne tinha 1,57m e 50 quilos, mas foi preciso toda a nossa força para puxá-la de volta. Ela lutava com todas as suas forças.
— Daphne, por favor! Acorda! Acorda! — Hughie gritou.
— Daphne! Acorda, caralho, puta! Por favor, só acorda, porra! — Eu disse, lágrimas manchavam meus olhos. Olhei ao redor e vi a trilha atrás de nós. Se conseguíssemos afastá-la, colocá-la na trilha, talvez pudéssemos salvá-la. A arrastamos para longe, passo a passo, o rosto dela raspando no chão, a coluna lutando contra nós. Tive a ideia de tentar agarrá-la pelos braços, mas quando soltei a perna dela, ela se lançou pra frente e Hughie quase caiu. Rapidamente me reajustei e continuei puxando. Tive que desviar o olhar. Não apenas para evitar olhar para a luz, mas para não ver o rastro de sangue e pele raspada que estava sendo deixado. Estávamos tão perto da trilha, a apenas alguns metros. Então o chão começou a tremer enquanto o barulho recomeçava.
Conseguimos manter a pegada nela, mas ela começou a lutar mais. Suas pernas começaram a se debater e ela acabou se soltando do nosso alcance. Suas pernas se contorceram para os lados e ela começou a correr como uma salamandra em direção à luz. Tentamos persegui-la, mas ela era rápida demais. Olhei em direção a ela, em direção à luz, enquanto a via desaparecer na escuridão dentro da árvore. Podia jurar que a ouvi dizer meu nome enquanto a Terra tremia mais uma vez e a árvore se fechava diante de nós. Hughie e eu caímos no chão. Meu rosto ficou em branco por um momento antes de minha respiração começar a acelerar. Hughie me abraçou e começamos a chorar. Assim como aquela grande e horrível árvore.
Através da névoa auditiva de nossos soluços, começamos a ouvir o som de água pingando. Olhamos para a árvore, e os fluxos estagnados de seiva começaram a escorrer, lentamente no início. Começou pelos olhos, nova seiva vermelha escorrendo por cada linha nos fluxos endurecidos. Então começou a dissolver as velhas lágrimas, revitalizando-as. Depois de um tempo, os fluxos começaram a ganhar vida, movendo-se lentamente pela árvore, até alcançarem o chão. Quando os fluxos beijaram as raízes e caíram na terra, a terra tremeu mais uma vez. Começou suavemente, mas à medida que mais e mais seiva alimentava a Terra, mais excitadamente ela tremia. Hughie e eu tentamos nos levantar, mas quanto mais ela tremia, mais não conseguíamos ficar em pé. Especialmente não com o peso ainda em nossas costas. Em vez disso, ambos caímos de joelhos.
Começamos a rastejar para longe, em direção à trilha. Conseguimos avançar alguns metros, o suficiente para que o topo da árvore ficasse encoberto, quando a Terra parou de tremer. Rapidamente nos levantamos e olhamos para trás. Vimos uma poça vermelha se aproximando lentamente de nós. Corremos. Enquanto fugíamos, a trilha à nossa frente estava desmoronando. A fachada bem cuidada foi substituída por terra áspera e coberta de vegetação. Logo, as placas de sinalização recuaram para o chão e as árvores se aproximaram. Hughie continuava olhando para mim, eu continuava olhando para ele. Ficamos mais lentos enquanto manobrávamos entre as árvores, entre a vegetação.
Enquanto avançávamos com dificuldade, comecei a sentir minhas botas grudarem na terra. Olhei pra baixo e o vermelho tinha alcançado. Começamos a nos mover mais rápido, mas senti minhas botas grudarem cada vez mais a cada passo. Eventualmente, tive que tirá-las e correr apenas de meias. Hughie logo teve que fazer o mesmo. A dor piorava a cada passo, mas só acelerávamos. Mesmo enquanto corríamos por teias de aranha, mesmo enquanto sentia aranhas rastejando na minha pele, eu corria. Chorei, ofeguei, quase desmaiei, mas eu corri pra caralho. Através da vegetação, vimos a clareira que usamos como acampamento.
Irrompemos na clareira e congelamos. Vimos Daphne, metade do rosto raspado até o osso, ambos os olhos fixos em nós. Ela estava simplesmente parada, imóvel, com os braços erguidos acima da cabeça. Ela chorava lágrimas de sangue que manchavam sua pele pálida, enquanto sua boca permanecia aberta em choque. Nos aproximamos dela. Olhamos para trás e vimos que não havia seiva. Chegamos mais perto, mas ela não nos dirigiu a palavra de forma alguma. Ela apenas ficou parada, como uma árvore. Chamamos seu nome, mas nada. Vimos o fluxo de seiva atrás de nós e corremos.
Me virei brevemente, em direção à Daphne, e a vi ainda em sua pose. Ao lado dela, estava uma figura humanóide cerca de sessenta centímetros mais alta que ela, com a mão no ombro dela. Seu corpo tinha a forma de um homem alto e magro, mas algo estava errado. Não consegui distinguir com meu olhar rápido. Desviei o olhar e continuei correndo. Atrás de nós, ouvimos o som de líquido se agitando e passos úmidos e indistintos. Não olhamos para trás enquanto corríamos. Não podíamos, estávamos correndo pelo que parecia uma hora através da vegetação. As árvores pareciam estar se fechando sobre nós. Suas folhas começaram a amarelar, depois alaranjar, depois avermelhar.
Eventualmente encontramos o carro e Hughie começou a dirigir. Olhamos para trás enquanto a seiva se aproximava. Vadeando na seiva, pude ver a silhueta da coisa que tocou Daphne. Estava mais alta do que da última vez que a vi. Seus braços estavam estendidos e parecia que mais braços estavam crescendo lentamente de seu torso. De onde seria sua cabeça, havia uma única luz brilhante e intensa no centro. Ao redor dele estavam as silhuetas do que pareciam pessoas com os braços bem abertos, todas voltadas para ele. Hughie acelerou até encontrarmos a estrada. Ficamos verificando atrás de nós, mas não vimos mais nada. Ficamos em silêncio durante toda a viagem. Não conseguíamos suportar ouvir música, então tudo o que ouvíamos era o ronco do carro e, de vez em quando, um distante estrondo da terra.
Já se passou um ano e não conseguimos esquecer. Registramos Daphne como pessoa desaparecida quando voltamos ao apartamento dele. Eu não suportava ficar sozinho. A família dela tem sido tão gentil conosco e temos ajudado com dinheiro quando podemos. Dói mentir, dói saber que sei exatamente onde está a filha deles. Uma semana depois que escapamos, houve uma notícia sobre uma enorme enchente na área e 50 mortes relacionadas. O governo fechou toda a vizinhança ao público no último ano. Só posso imaginar o quão ruim realmente foi. Parte de mim acha que Daphne pode estar viva, ou pelo menos consciente. Sei que é errado, mas simplesmente não consigo compreender que ela se foi. Não consigo compreender que porra aconteceu com ela.
Em notícias melhores, Hughie e eu estamos morando juntos! Acabamos adotando um dragão-barbudo que batizamos de Daphne. Estamos tão felizes quanto podemos ser dadas as circunstâncias. Nenhum de nós fala muito sobre aquela viagem ou sobre a Daphne. Se falamos, são algumas palavras seguidas de lágrimas. Estamos fazendo um progresso incrível com nossas vidas, ambos temos bons empregos, temos um apartamento legal, e nos amamos mais do que qualquer outra coisa. No entanto, isso simplesmente nos assombra. Toda vez que vejo xarope escorrendo em um prato de panquecas, estremeço. Toda vez que estou sozinho, juro que vejo aquela coisa nas sombras. Toda vez que fecho os olhos, vejo o corpo imóvel da Daphne me encarando com um olhar vazio.
Não deveríamos ter sobrevivido. Eu deveria ter sido o que estava na árvore. Eu deveria ter seguido aquela luz horrível e bela. Eles vão reabrir a área na semana que vem, e eu preciso vê-la. Precisamos vê-la. Ou será que só precisamos ver a árvore, mais uma vez?