segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma Noite, Quando Eu Era Adolescente, o Diabo Me Atacou num Cemitério Enquanto Eu Tentava Salvar um Fantasma

Uma névoa densa cobria o velho cemitério, as lápides cobertas de musgo tomadas por mato e grama alta. O ar da primavera estava frio, mas agradável, as folhas só começando a brotar nas árvores altas que pendiam sobre a cerca toda quebrada. Eu percebia que o Quincy estava ficando nervoso. Ele apertava o Rosário que eu tinha dado pra ele bem junto do peito, enquanto a respiração pesada dele virava fumaça no ar.

“Não sei não, cara.” A voz dele era um sussurro que escondia o medo por trás de um véu de preocupação.

“Relaxa, mano.” Eu disse calmamente, me apoiando de boa na pá que tinha trazido. Nós dois éramos adolescentes mais velhos na época. Eu sempre agia como se tivesse tudo na mão. Só quando você fica mais velho é que começa a ver o quanto, na real, você não sabe porra nenhuma.

Sob a luz da lua cheia, um espectro começou a se formar. No começo ela apareceu como névoa no vento, algo que qualquer cético podia facilmente falar que era truque de luz. Mas devagar a forma dela foi aparecendo. Cabelo longo, vestido vitoriano e aqueles olhos que pareciam tão desesperadamente vivos, mesmo sendo de fantasma.

“Puta merda.” Quincy tremia nos joelhos, apertando o crucifixo na ponta do Rosário com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. “Você não tava mentindo. Ela é de verdade.”

A primeira vez que eu vi a dama de branco eu tinha treze anos. Eu cresci com meus avós depois que meus pais morreram num acidente de carro. Nem preciso dizer que não rolava supervisão nenhuma na minha criação. Eu saía escondido de casa de madrugada pra encontrar meus amigos delinquentes. Uma noite eu peguei um atalho pra casa pelo meio do mato e acabei tropeçando nesse cemitério antigo que guardava aquela figura misteriosa.

No começo eu fiquei de longe, observando a aparição andar de um lado pro outro no cemitério através dos galhos das árvores retorcidas. Ela chorava com o rosto nas mãos, mas nenhuma lágrima saía dos olhos dela. Eu voltava noite após noite, me aproximando aos poucos da cerca dilapidada. A primeira vez que ela me viu, eu corri, mas quando olhei pra trás tinha um olhar triste pra caralho no rosto dela. Ela estava sozinha. Eu me aproximei com cuidado. Os olhos dela cravaram em mim com uma tristeza profunda, impossível de descrever. Eu não fazia a menor ideia de como algo tão morto podia ter olhos que queimavam com tanta emoção.

“Claro que ela é real.” Eu me virei pra pegar a bolsa que tinha deixado atrás de mim. Os ossos lá dentro chacoalharam quando eu joguei no ombro. “Lembra do plano. Pelo amor de Deus, não fode tudo.”

Eu comecei a andar na direção da dama, a forma transparente dela flutuando suave na minha direção. Um sorriso quente se abriu nos lábios dela enquanto a mão se estendia pra tocar meu rosto. Estava gelada pra porra. Eu fiz o meu melhor pra retribuir o sorriso. Os dedos dela entraram flutuando no meu crânio de qualquer jeito, mandando calafrios ricocheteando pelas minhas entranhas.

“Que tipo de rolo você tem com essa morta, cara?”

A pergunta do Quincy era chata, mas não era inesperada nem sem razão. Com o tempo eu tinha criado um relacionamento estranho pra caralho com a aparição. A dama olhou pro Quincy com desconfiança.

“Tá tudo bem.” Eu disse. “Ele veio pra ajudar.”

“Você tá tranquilizando um fantasma pra ele não achar que eu sou problema?”

Eu não tinha energia nem saco pra responder a preocupação do Quincy. A dama flutuou mais pra dentro do cemitério e nós fomos atrás.

Levou um tempão pra eu descobrir quem era a dama. Passei horas da minha adolescência fuçando os arquivos locais da biblioteca. Não era exatamente o que a gente imagina pros anos de adolescente. Mas no final eu descobri a identidade dela e o que precisava fazer pra ela descansar em paz. Foi por isso que levei o Quincy naquela noite. Ele não era exatamente a pessoa mais esperta do mundo, mas era o único amigo de verdade que eu tinha. Pensando agora, se ele fosse um pouquinho mais esperto não teria me seguido até lá naquela noite. Por outro lado, se eu fosse um pouquinho mais esperto não teria levado ele.

Quincy olhou pra bolsa que eu carregava no ombro. “Isso aí é o que eu tô pensando?”

“É.” Eu disse na boa, usando a pá como bengala enquanto a gente andava.

“Como você achou o filho dela?”

Eu suspirei. “Nem pergunta.”

No final chegamos no túmulo. O fantasma olhou pra própria lápide. Tanto tempo tinha passado que o nome dela tinha corroído e agora era só uma placa de pedra coberta de musgo. Eu me virei pro Quincy.

“Quando eu começar a cavar, você começa a rezar o Rosário. Não para por nada, não importa o que aconteça. Sacou?”

“É, cara, saquei.”

“Promete?”

“Prometo, cara.” Eu comecei a cavar e o Quincy começou a rezar.

O nome da morta era Abigail Witherspot. Até hoje eu não sei a história inteira. O filho dela foi assassinado e ela morreu logo depois. Por motivos que eu só posso imaginar que eram malignos pra caralho, ela foi enterrada absurdamente longe do filho. Eu tive que dirigir até outro estado pra pegar o corpo dele. Foi foda explicar pros meus avós, eu tive que usar o carro deles.

Alguém realmente maligno se esforçou pra cacete pra manter os dois separados. A alma dela não conseguia descansar tão longe do filho e eu senti que era meu dever ajudar. Eu entrei nessa de cabeça, sem fazer a menor ideia do mal de verdade que espreitava naquele cemitério antigo.

O maior erro que eu cometi naquela noite foi fazer o Quincy rezar o Rosário. Ele não era um crente de verdade, eu era. Eu pensei que assim que ele visse o fantasma ia ter que acreditar, simples assim. Acho que fé não funciona desse jeito. Puta que pariu, os apóstolos continuaram duvidando de Cristo mesmo depois de ver ele andando sobre as águas. Nós humanos somos volúveis pra caralho, duvidamos de tudo, menos das mentiras que contamos pra nós mesmos.

Não sei quanto tempo levou pra eu chegar no corpo. A pilha de terra do lado do túmulo estava ridiculamente grande e, apesar da noite fria, o suor encharcava minha roupa. A voz do Quincy já estava rouca de tanto rezar sem parar. Ele não tirava os olhos da Abigail, que flutuava em círculos em volta do túmulo enquanto eu trabalhava. No final os ossos dela apareceram. Eu limpei a terra e arrumei do jeito mais respeitoso que consegui. Fico imaginando como deve ter sido pra ela olhar pros próprios ossos.

As coisas deram errado quando eu ouvi o Quincy tropeçar na oração. Eu virei a cabeça rápido e gritei: “Eu te falei pra não parar!”

Sem eu saber, ele tinha visto uma figura bem longe no mato. Ela tinha um sorriso mais escuro que a noite, com dentes brancos o suficiente pra refletir o luar pálido. Dizem que o Maligno toma muitas formas. A forma que ele assumiu naquela noite fica gravada na minha cabeça até hoje.

O Quincy tentou voltar a rezar, mas já era tarde. Eu estiquei a mão rápido pra pegar a bolsa com os ossos que tinha deixado na beira do túmulo, mas uma raiz enorme brotou da terra e enrolou no meu tornozelo. Acho que a mesma coisa rolou com o Quincy, porque ouvi ele gritar.

A forma fantasmagórica da Abigail mostrou pânico, mas ela estava completamente impotente. Eu cravei as unhas na borda gramada do buraco enquanto as raízes começavam a me puxar. O Maligno pairava acima de mim como se fosse parte do céu, a boca um buraco escancarado mais escuro que os cantos mais negros da noite mais profunda. A risada dele era sedosa e sobrenatural, tipo o eco infinito de sinos numa caverna gigantesca.

Eu consegui agarrar a ponta da bolsa e arrastei ela pro túmulo junto comigo. Os ossos se espalharam na terra enquanto meus tornozelos afundavam no solo. A risada continuava enquanto a forma encurvada do Maligno pairava sobre o buraco aberto. A manifestação dele era realmente indescritível, parecia meio humano mas totalmente desencarnado. Minhas mãos procuravam freneticamente dentro do túmulo aberto enquanto meus joelhos entravam na terra que devorava tudo. Meus dedos passaram por cima dos restos da Abigail e do filho dela até eu achar o pequeno frasco de vidro. Eu tinha colocado ele na bolsa junto com os ossos. Era água benta, essencial pra última parte do ritual.

Antes que eu conseguisse tirar a tampa, mais raízes brotaram e se enrolaram nos meus dois pulsos. A risada chegou no auge enquanto meus braços eram puxados pro chão, minha coluna arqueando pra trás. Com toda a força que eu tinha, apertei o frasco e quebrei o vidro.

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!” Eu joguei a água benta em cima dos ossos. Alguns cacos de vidro voaram junto, outros ficaram cravados na minha palma. Houve um silêncio ensurdecedor enquanto as raízes pararam imóveis. Eu ofegava, a adrenalina ainda correndo solta no meu corpo.

“Ron!” Eu ouvi o Quincy gritar. “Me ajuda!”

Eu me livrei das raízes que agora estavam paradas. Ignorando o vidro cravado na mão, saí engatinhando do buraco. O Quincy estava quase com o pescoço enterrado, um braço visível arranhando a grama desesperado. Apesar de tudo, eu ri da cena.

“Isso não tem graça nenhuma!” Ele reclamou enquanto conseguia tirar o outro braço da terra e lutava pra subir.

“Obrigada.”

As palavras doces e suaves me pegaram de surpresa. Eu me virei e vi a Abigail. Cor tinha voltado pro que agora parecia mais carne do que fantasma. Ao mesmo tempo, a forma dela estava sumindo, como névoa se dissipando numa manhã de nevoeiro. Os lábios vermelhos dela sorriram com uma alegria tão grande enquanto ela segurava a mão do filhinho. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eles desapareciam de vista, os dois acenando tchau.

“Eu nunca mais vou sair com você.” Quincy ofegava enquanto finalmente ficava de pé.

“É,” eu disse, fazendo careta enquanto tirava os cacos de vidro da palma da mão. “Não te culpo.”

Muitos anos já se passaram desde aquela noite. Hoje eu sou caçador de fantasmas e exorcista, especializado em espíritos que não conseguem descansar. Eu penso naquela noite com frequência. Meu maior arrependimento foi ter levado o Quincy junto. O conhecimento do sobrenatural pesou demais na consciência dele. Ele começou a beber e acabou morrendo num acidente de carro que, estranhamente, foi igualzinho ao dos meus pais. Às vezes eu me pergunto se essas coincidências esquisitas são o Maligno zoando comigo, tentando me tirar do caminho. Mas eu não vou vacilar. Assim como os apóstolos, eu tenho meus momentos de dúvida, mas depois que você viu o mal de verdade, não tem outra escolha senão colocar toda a sua fé no bem.

Vem Dançar, É Só Natural...

Eu estava sentado num estacionamento antigo, vendo as chamas consumirem o que restava desse lugar maldito, com meu namorado maravilhoso, o Dan, bem do meu lado, me puxando pra perto dele. Os bombeiros deram tudo de si pra apagar o que tinha sido incendiado, os policiais tagarelando sem parar enquanto o Dan fazia sua mágica conversando com eles.

Eu ficava olhando a fumaça preta subindo, dançando como um vazio sem forma... bem parecido com o vazio sem forma que eu tinha visto lá dentro daquele lugar.

A escuridão... Isso tudo começou mais ou menos quatro semanas atrás. O Dan me falou: “Lonny, a gente precisa de mais emoção nas nossas vidas.” Eu ri e comecei a pensar se ele não tinha razão — e caralho, ele tinha mesmo. O Dan trabalha no hospital da cidade e eu trabalho de casa num suporte técnico.

A gente tinha caído naquela rotina chata que quase todo casal de longo tempo acaba caindo, ficando confortável demais e sem graça pra porra.

Eu e o Dan somos viciados assumidos em histórias de fantasma e filme de terror, então naturalmente nossos interesses vão pras coisas mórbidas e pros lugares assombrados que esse mundo tem pra oferecer. Eu comecei a pesquisar lugares curiosamente sombrios pra fazer um bate-volta, porque nossos dias de folga são poucos e bem espaçados.

Infelizmente, as únicas opções eram uma biblioteca creepy duas cidades pra lá e um centro recreativo no condado vizinho onde uns moleques tinham sido atacados no começo dos anos 90.

Eu adoraria ter ido pra cabana do massacre de Wood Creek, mas isso ficava lá pro norte do estado, longe pra caralho. Achei que não tinha mais jeito até tropeçar num lugar bem no nosso quintal: um nightclub abandonado chamado The Royal Club.

Eu nunca tinha ouvido falar, mas fiquei imediatamente fisgado enquanto fuçava a história do lugar. Começou como um acampamento de lenhadores nos anos 1850, onde um dos caras pirou uma noite e cravou um machado na cara de outro só porque ele trapaceou no carteado. Eles enforcaram o doido na hora.

Avança uns 60 anos e vira um speakeasy nos anos 20. Nada demais, só uns overdoses acidentais de heroína e morfina, nada muito violento.

Nos anos 30 virou ponto de parada pra criminosos e contrabandistas exibirem suas mercadorias sujas e fecharem negócios. Aparentemente rolou uns desaparecimentos de gangue.

Aí por volta de 1960 mudou de dono por uma mixaria e foi reformado num point bombado chamado Royal Club, que bombou até 1967. Numa noite quente de verão estourou um incêndio depois que alguém jogou um cigarro aceso num vaso sem ver que estava cheio de plantas de plástico.

O fogo se espalhou rapidinho, incendiando as decorações secas que pegaram como palha, e sem sistema de sprinklers moderno o interior virou cinza. Quando acabou, trinta pessoas tinham assado que nem peru de Ação de Graças. Mais uma vez o clube mudou de dono, e em 1981 outro cara reformou tudo e deixou funcionando de novo.

Tudo parecia tranquilo até 1996, quando a tragédia bateu de novo: um ex-funcionário pegou uma espingarda calibre 12 e surtou, metralhou o lugar, matou doze pessoas e depois se matou. Depois disso o lugar foi fechado pra sempre e abandonado completamente assim que a polícia terminou de recolher as provas e tirar os corpos.

O estranho pra caralho é que mal se falava de qualquer uma dessas coisas. A maioria dos artigos era curtinha, sem nada na mídia nacional. Alguém tinha grana pesada ou chantagem nas pessoas certas pra manter tudo abafado. De qualquer jeito, eu estava completamente vidrado nisso. Liguei pra minha irmã mais velha, que é millennial raiz, e perguntei se ela tinha ouvido falar do clube.

Depois que eu terminei de falar sem parar no telefone, ela ficou quieta um segundo: “Lonny, só você mesmo pra pensar na coisa mais mórbida possível e sair correndo atrás.” Eu respondi: “Me processa, eu gosto dessa merda. Então, você lembra desse lugar ou não?”

Ela ficou mais um tempinho em silêncio e falou: “A gente era novo demais pra entrar quando estava aberto, mas depois de toda aquela merda a gente ficava bem longe. Tinha uma vibe tão sinistra não importava o que acontecia. Só me promete que vai tomar cuidado quando for, tá? Por mim?” Eu suspirei: “Claro, mana, valeu pela info! Vou levar o Dan comigo, então a gente deve ficar de boa. Te amo, mana!”

Na noite seguinte, comendo comida chinesa, contei tudo pro Dan e joguei minha ideia. “Parece divertido, mas eu só quero olhar, nada de invasão que nem aqueles urbex do YouTube.” Eu sorri enquanto enchia a colher de arroz frito com porco: “Claro que sem invasão, mas eu quero tirar umas fotos boas por lá.”

Eu tinha guardado dinheiro o ano inteiro pra comprar uma câmera top de linha, mas ainda não tinha usado direito. Achei que não tinha hora melhor que esse final de semana que a gente planejou. Escolhemos o sábado seguinte porque o Dan finalmente tinha folga, embora aquela frase da minha irmã tivesse me deixado um pouco inquieto.

Mesmo assim, o dia chegou e a gente saiu no fim da manhã, câmera na mão, prontos pra uma aventura de verdade. Eram só uns vinte minutos de carro até o Royal Club, na saída da cidade, mas a gente estava bem relaxado.

Paramos pra pegar um almoço cedo pra encher o tanque e eu ainda tirei umas fotos saindo da cidade. Peguei mais umas da paisagem rural enquanto a gente se aproximava do lugar.

A gente pegou um caminhozinho de terra esburacado saindo da estrada principal, mas não demorou até aparecer o estacionamento antigo do clube, o asfalto todo rachado e esburacado de tanto abandono. “Tá pronto pra isso?”, perguntou o Dan. “Tô, só me dá um segundinho...” Precisei trocar o cartão SD por um vazio.

Quando desci do carro, dei uma boa olhada no Royal Club: um prédio baixo, cinza desbotado, com uns detalhes art déco, mas fora isso bem sem graça.

As janelas estavam cobertas de compensado, mas algumas tinham caído, deixando ver o vidro quebrado. Dava pra ver a placa de neon escrito “ROYAL”, só que o Y e o A tinham despencado, os pedaços jogados no chão bem na frente das portas principais.

Eu comecei a fotografar com calma, pegando ângulos diferentes, luzes diferentes, tentando capturar a alma daquele lugar.

Enquanto eu chegava mais perto, um vento forte subiu e me deu um calafrio que desceu até a espinha. Ele soprou as portas da frente abrindo, com as fitas de isolamento da polícia rasgadas balançando na brisa. “Ei Dan, olha isso.” O Dan se virou: “Foi você que abriu essas, Lon?”

Eu olhei pra ele: “Não, o vento veio e elas se abriram sozinhas.” A gente se aproximou pra espiar lá dentro: só um vórtice negro onde a luz morria.

Eu e o Dan trocamos um olhar. “A gente deve...?” “Você disse que...” O Dan deu mais um passo: “Eu sei, mas tá tentador demais pra não entrar, né?” Eu assenti e a gente entrou. Assim que cruzamos a porta, uma sensação ruim apertou meu estômago.

Quando os olhos acostumaram com a escuridão, a gente viu o lugar direito: um monte de cadeiras empilhadas em cima das mesas, algumas caídas no chão.

Tinha uma pista de dança enorme com luzes penduradas em cima, um bar vazio à direita e duas portas marcadas MEN e WOMEN — obviamente os banheiros. O ar estava meio mofado, com um leve cheiro de pólvora e álcool velho.

O lugar tinha a cara e a vibe dos anos 90 com certeza, tipo uma cápsula do tempo sinistra congelada em 1996. “Lonny, esse lugar é... puta merda, esse lugar é louco.”

Eu comecei a tirar fotos: “Eu sei, eu sei, e tem uma energia pesada pra caralho, bem... opressiva.” O Dan foi até uma porta à esquerda da pista marcada STAFF ONLY e espiou: “Parece a cozinha aqui.”

Eu me aproximei da pista de dança gasta, curioso pra ver como estava depois de trinta anos de abandono. Surpreendentemente não parecia estragada, até parecia... polida.

Tirei umas fotos enquanto o Dan foi pro bar, pegou um livrinho de fósforos antigo: “Olha só isso.” Eu baixei a câmera e pisei por cima de um pedaço de carpete com uma mancha enorme — provavelmente sangue.

“Bem, é um livrinho de fósforos, Dan. O que tem de especial?” Ele virou nas mãos: “Tá quase novinho. Depois de trinta anos você esperaria que tudo aqui estivesse bem mais... acabado, né?”

Eu peguei da mão dele e olhei de perto. O nome ROYAL CLUB em letras brilhantes parecia recém-saído da caixa. “Você pensaria que pelo menos teria poeira...” O Dan passou o dedo no balcão e levantou: “Aqui também não tem...” Achei estranho pra caralho não ter nem poeira, mas coisas mais estranhas já aconteceram.

Olhei ao redor do salão inteiro e não conseguia parar de sentir que tudo ali parecia... montado, sabe? Como se estivesse esperando alguém chegar pra usar o espaço pra dançar e se divertir como era pra ser, mas tinha algo errado, tipo cenário de peça de teatro, tudo certinho demais.

Meu arrepio não passava nem com o Dan ali. Normalmente eu vivo pra esse tipo de coisa, mas meus alarmes internos estavam tocando baixinho no fundo da cabeça. Distraidamente guardei o livrinho de fósforos no bolso e tirei mais umas fotos.

O Dan andava pela sala absorvendo tudo e eu juro que ouvi uns sons fracos de música, talvez até risada. “Dan, você tá ouvindo isso?”

Ele se virou pra mim, já parado no meio da pista. Olhou ao redor confuso e me deu um olhar estranho. “Acho que sim... pode ser o vento? Tipo aquele de antes?”

Eu olhei ao redor nervoso, a inquietação já batendo forte: “Quero tirar mais umas fotos e vazar daqui.” O Dan, sentindo meu desconforto, tentou aliviar o clima fazendo uma pose idiota de He-Man: “Aqui uma foto de gostosão premiada pra você, amor!”

Eu ri e respondi seco: “Tão gostoso, mal posso esperar pra comer essa delícia mais tarde.” O Dan riu, se endireitou e veio andando na minha direção quando parou de repente no meio da pista, o olhar mudando totalmente.

“Antes de ir embora, você dança um pouquinho comigo, Lonny?” Eu fiquei olhando pro Dan, pronto pra dizer não, vamos cair fora... mas algo bem lá no fundo de mim foi puxado de repente pra pista, de um jeito demoníaco.

Meus pés me levaram pra frente sozinhos, não por minha vontade, mas por algo maior, algo sobrenatural e irresistivelmente sedutor. Quando minhas mãos se entrelaçaram com as dele, as luzes de cima acenderam sozinhas, banhando a gente num brilho estranho e suave.

Eu ouvia a música de antes, só que bem mais alta agora — uma mistura louca de melodias e letras diferentes se sobrepondo, mas ainda assim estranhamente agradável.

A gente começou devagar, mas logo entrou num ritmo que batia certinho com aquela música esquisita. Olhar nos olhos do Dan e ele nos meus nesse transe estranho era eufórico pra caralho, parecia um cobertor quentinho nos envolvendo enquanto dançávamos.

Pelo canto do olho eu via outras pessoas dançando também, todos compartilhando a pista sem nunca se esbarrar.

Eu e o Dan continuamos assim por não sei quanto tempo até a música virar um caos total e os movimentos ficarem frenéticos. Foi quando ouvi um toque agudo e estridente. Era meu celular, graças a Deus — aquilo nos arrancou do transe na hora. Tudo parou de repente.

As luzes ainda nos banhavam naquele brilho sinistro enquanto eu via direito nossos parceiros de dança ao redor.

Pessoas de todos os tipos, roupas de quase cem anos de moda diferentes, uma parada macabra de rostos fantasmagóricos e ferimentos horríveis.

Eu soltei um grito quando vi uma flapper com seringa pendurada no braço dançando com um lenhador que tinha um machado cravado na cabeça. Um cara de jeans folgados dos anos 90 com um terço da cabeça faltando dançava com uma mina de botas go-go cujo lado direito inteiro do corpo estava carbonizado.

Tinha um monte de cadáveres furados de bala e queimados ao nosso redor, sentados nas mesas e no bar. Um homem de terno risca-de-giz com a garganta cortada me deu um sorriso que sabia demais. Meu estômago despencou e um calafrio gelado subiu pela minha coluna enquanto eu falava o mais calmo que consegui: “Dan, vamos dar o fora daqui agora, porra.”

A gente saiu da pista correndo pras portas da frente, mas elas bateram com tudo e algumas mesas voaram na nossa frente, bloqueando o caminho. A gente se virou e viu a multidão inteira nos encarando, olhos mortos nos chamando pra entrar na festa do inferno.

Foi aí que eu vi de relance aquela coisa preta sem forma no canto — um vazio do mal mais profundo e escuro, e estava “olhando” pra gente. “Dan... que porra é essa?” O Dan olhou na mesma direção: “Caralho...”

A gente ficou paralisado. Meu corpo inteiro gelou, pele arrepiando sem controle. A coisa sombra se retorceu e se moldou até virar um rosto demoníaco que nos deu um sorriso que eu nunca mais vou esquecer.

Meu instinto de luta ou fuga ligou no talo. Olhei desesperado pra qualquer saída daquele buraco do inferno. Agarrei o Dan e corri pras portas da cozinha enquanto garrafas vazias e cadeiras voavam passando por nós, quebrando tudo.

A gente irrompeu pela porta e tentou barricar na hora, mesmo sabendo que aquelas coisas entrariam se quisessem.

O Dan viu a porta dos fundos antes de mim e me puxou pra lá. Estava bloqueada por um armário pesado: “Empurra, Lonny!” “Tô tentando!” O barulho lá fora virou um caos de risadas, gritos, música berrando — puro som do inferno solto.

Eu me virei e vi as portas da cozinha chacoalhando, luz vazando pelas frestas e tentáculos pretos se enfiando por baixo.

Olhei pra tudo desesperado, procurando qualquer coisa. Vi uma janela acima da pia suja, corri, subi, mas a porra da janela estava emperrada. O Dan veio correndo com um extintor velho.

“Sai da frente!” Com um smash perfeito ele estourou o vidro e limpou o caminho. Estendeu a mão: “Vem!” Não sei de onde veio o pensamento — se era meu ou não —, mas só conseguia pensar: QUEIMA, QUEIMA TUDO!

“Lonny, que porra você tá fazendo?!” Eu corri pro armário, procurando qualquer coisa inflamável. Achei uma garrafa de licor de alta prova. Peguei uma toalha nojenta, fui pro fogão industrial, abri todas as válvulas de gás (ainda estava ligado, graças a Deus).

Corri pro Dan, subi na pia enquanto o cheiro forte de gás tomava a cozinha. O Dan pulou primeiro e me puxou pra baixo. Eu escorreguei e caí de costas. Ele me levantou na hora e eu peguei o livrinho de fósforos do bolso.

Transformei a toalha velha e a garrafa num molotov improvisado. Acendi aquela filha da puta e, com um grito desesperado final, joguei aquela bola de fogo de volta pela janela aberta, torcendo pra acabar com aquele lugar horrível de uma vez por todas.

Ouvi o vidro quebrar e um “whoosh” quando o álcool pegou fogo. Tudo pareceu ficar em câmera lenta enquanto o Dan me agarrou e a gente correu pra caralho antes da explosão inevitável nos derrubar. Ainda bem que estávamos longe o suficiente pra não virar picadinho.

A gente ouviu um grito sobrenatural de raiva que me fez olhar pra trás. Atrás da gente as chamas subiram enlouquecidas, uma luz forte subindo pro céu. Juro que vi pessoas... subindo direto pro céu.

Eu quase desmaiei, mas segurei firme. A gente tinha que voltar pro carro, ligar pras autoridades e combinar nossa história.

A gente cambaleou de volta pro carro, sem fôlego e mentalmente destruídos. “Que porra a gente conta pros policiais? Que a gente cometeu incêndio criminoso porque viu fantasma?”

O Dan pegou o celular e começou a discar: “Eu conheço um cara na delegacia do xerife. Vou falar que a gente estava fazendo trilha, tirando fotos da natureza, viu fumaça e tentou ajudar. Tomara que engulam...”

Eu abri a porta do carro e troquei o cartão SD de novo — pelo menos as fotos que tirei antes podiam ajudar na história.

E agora a gente voltou pro começo: sentado no mesmo estacionamento, vendo o resto desse lugar maligno ser consumido pelo fogo. Só chegamos em casa de noite. Os policiais engoliram nossa história furada de “passeio na natureza”. Pensando bem, um passeio na natureza teria sido bem melhor.

Eu não consegui dormir direito nos dias seguintes, nem o Dan. A gente ainda estava assombrado pra caralho por aquele lugar. Estávamos tentando voltar à normalidade, então enquanto eu fazia roupa suja achei o cartão SD que tinha enfiado no bolso.

Com o coração na mão, coloquei no laptop e comecei a ver as fotos do Royal Club.

As fotos pareciam normais até eu olhar melhor. Todas as fotos tiradas lá dentro tinham uma mancha escura. Todas, porra. Em algum canto do quadro, sempre ali, escondida à vista de todos.

Isso me fez pensar que aquela coisa estava esperando a gente o tempo todo, esperando pra levar a gente e nos manter lá como todos aqueles pobres coitados.

Depois que apagaram o fogo e começaram a investigar, concluíram que foi um “vazamento acidental” de gás que iniciou o incêndio. O que realmente me aterroriza é que, enquanto tiravam os escombros, levantaram o chão da pista de dança e acharam pilhas de ossos embaixo.

Eram ossos ligados a desaparecimentos da região nos últimos 30 anos. Então essa coisa deve ter ficado protegida dentro do clube abandonado, sugando almas por sabe-se lá qual motivo.

Acho que perdi isso na minha pesquisa. Ultimamente tenho tido uma sensação horrível de que seja lá o que morava lá agora está solto por nossa causa.

Está livre pra vagar por onde quiser e se instalar num lugar novo. Então se você tiver vontade de explorar um prédio abandonado ou uma casa velha, toma cuidado.

Se seus amigos te chamarem pro clube pra curtir, redobre a atenção. Você nunca sabe quando vão te chamar pra entrar na dança...

Minha namorada começou a fazer um barulho que só cachorros conseguem ouvir

Três semanas atrás, minha namorada começou a fazer esse barulho absurdamente agudo. Pelo menos, três semanas atrás foi quando eu me lembro de ter notado pela primeira vez que tinha algo errado. Pode ter começado antes, mas como eu não consigo realmente ouvir o barulho, só consigo chutar. No começo eu nem percebi que ela estava fazendo algum som — só parecia que ela tinha desenvolvido esse hábito estranho de abrir a boca como se fosse dizer alguma coisa, só pra depois fechar de novo. Mas toda vez que ela fazia esse novo tique, coisas estranhas pareciam acontecer por perto.

A primeira vez que aconteceu, a gente estava na cozinha. Minha namorada estava lavando a louça enquanto eu terminava umas coisas no meu laptop na mesa da cozinha. Aos poucos, eu notei que o cachorro do vizinho estava pirando no quintal ao lado. Eu estava tentando ignorar o barulho passivo-agressivo que ela fazia batendo os pratos, então não reparei nos latidos logo de cara. Mas quando chegou num nível maníaco, como se o cachorro estivesse sendo espancado ou algo assim, eu levantei os olhos.

Minha namorada não reagiu ao barulho nem um pouco. Ela estava curvada sobre a pia, com os braços enfiados na água com sabão, os olhos meio vidrados. Estranhamente, ela estava só parada ali, congelada, sem nem esfregar mais a louça. A boca dela aberta que nem um peixe lutando pra respirar.

“Ei, amor?” eu perguntei. “Você tá bem?”

Ela não reagiu. Só quando eu fui até lá e dei um tapa brincalhão na bunda dela que ela olhou pra cima e fechou a boca. No instante que ela fez isso, o cachorro parou de latir.

“Você finalmente vai me ajudar com a louça?” ela perguntou.

“Eu te disse que ia quando terminasse as coisas do trabalho”, eu falei. “Se você puder só esperar eu acabar.”

“A pia tá cheia faz quase três dias.” Ela começou a levantar a voz, depois parou e respirou fundo. Fechou os olhos e soltou um suspiro dramático de resignação, pra deixar bem claro que ela era a mártir da história. “Só... me dá um espaço”, ela disse.

Ainda bem que eu tenho trabalhado com meu terapeuta pra reconhecer e não reagir às tentativas dela de manipulação emocional, então consegui deixar isso passar e voltar pro meu trabalho. Pra ser sincero, eu já tinha terminado a parte real do “trabalho” meia hora antes, e agora estava montando meu time de fantasy football. Mas eu nem sou muito fã de futebol americano, e só estava fazendo isso porque meu amigo me pressionou pra entrar na liga dele, então pra mim era basicamente trabalho.

Logo eu estava tão mergulhado vasculhando o Reddit atrás de informações sobre jogadores e estatísticas que esqueci completamente do surto do cachorro e do comportamento estranho da minha namorada.

Então veio um grito horrível. Parecia alguém sendo torturado pra caralho. Demorou um segundo pra eu perceber que era o cachorro de novo, porque nem parecia mais um cachorro, o uivo dele estava tão cheio de terror. Na hora, foi o pior som que eu já tinha ouvido.

Minha namorada não estava em lugar nenhum, acho que eu estava tão focado que nem notei ela sair da sala. Eu pulei da cadeira e corri pra porta dos fundos, achando que o vizinho devia estar abusando do coitado do cachorro. Mas bem quando eu saí correndo pra fora, com o celular já na mão pronto pra ligar pro 911, eu vi uma coisa que fez meu sangue gelar ainda mais.

Minha namorada estava parada de frente pra cerca de madeira que separa nosso quintal do do vizinho. Eu tentei me convencer que ela devia estar tentando acalmar o cachorro, mas tinha alguma coisa errada no jeito que ela estava parada. Ela estava bem ereta e os braços pendiam completamente soltos ao lado do corpo. Eu só conseguia ver as costas dela, mas pelo jeito que os ombros subiam e desciam, ela estava respirando pesado. Enquanto eu me aproximava, o choro do cachorro virou gemidos roucos, como se as cordas vocais do pobre animal tivessem se esgotado.

Eu conseguia ver agora, de lado, que a boca da minha namorada estava aberta do mesmo jeito que quando ela estava lavando louça. Parecia que ela estava gritando, principalmente pela maneira como ela puxava aqueles fôlegos enormes, como se estivesse berrando com toda a força dos pulmões. Mas ela não estava fazendo nenhum som. Só tinha o gemido agonizante do cachorro e o arranhar das unhas dele na madeira — como se ele estivesse tentando quebrar a cerca pra vir pro nosso lado.

“Ei, amor?” eu disse. “Que porra tá acontecendo?”

Ela virou pra mim, na hora voltando pra uma expressão totalmente normal no rosto. A mudança foi tão brusca que me assustou mais do que o comportamento estranho dela. Ela fez uma cara feia.

“Eu te disse pra me dar espaço”, ela cuspiu. “O que é tão difícil de entender nisso? Tipo, isso é tão fodidamente difícil assim?”

“Uau”, eu disse, e comecei a recuar. Meu terapeuta tinha me ensinado uma coisa chamada “gray rocking”. Sempre que minha namorada ficava agressiva, eu tinha que manter distância e não reagir. Mas o cachorro ainda estava surtando, e alguma coisa no comportamento dela estava muito errada. E não tô falando do “errado” normal de ela ser uma vaca, mas tipo, errado sinistro.

“Ei, amor...” Eu não consegui evitar perguntar. “Desculpa, isso vai soar estranho, mas... você fez alguma coisa com o cachorro?”

Ela me deu um olhar vazio e depois explodiu: “Que porra você tá falando?”

Eu senti pena do cachorro, mas até onde eu podia ver, não tinha ninguém do outro lado da cerca abusando dele, ele aparentemente só estava surtando sem motivo. E se minha namorada queria... sei lá o que ela estava fazendo (tentar acalmar ele? provocar? ficar olhando pra porra da cerca?), bom, é um país livre.

As coisas já estavam complicadas entre a gente, e depois do lance do cachorro ficaram piores. Minha namorada basicamente parou de falar comigo, enquanto isso eu tive que aguentar uma conversa raivosa com o vizinho, que queria saber o que a gente estava fazendo pra mexer com o cachorro dele. Depois de mais ou menos uma semana, eu tentei fazer as pazes oferecendo pra gente dar uma volta pelo bairro juntos, como a gente fazia durante a Covid quando tudo estava fechado. Pra minha surpresa, ela aceitou, mas aí não falou uma palavra a viagem inteira, só ficou andando encurvada com a boca aberta feito uma idiota.

Todo cachorro que a gente passava, fosse na coleira, no quintal ou dentro de casa olhando pela janela, começava a latir e se rolar no chão como se estivesse sentindo uma dor incrível.

Quando a gente voltou pra casa, eu estava tão perturbado que fui pro meu quarto, barricadei a porta por dentro e liguei pra um terapeuta de casais.

Meu terapeuta tinha me aconselhado contra terapia de casal. Ele disse que pra pessoas em relacionamentos abusivos, isso pode acabar habilitando o abusador. Disse que mesmo se minha namorada não fosse abusiva propriamente dita, algumas coisas que eu contei pra ele sobre ela eram preocupantes o suficiente pra ele não recomendar terapia de casal naquela hora. Mas alguma coisa inquietante estava acontecendo com ela, e eu não conseguia descobrir se ela nem falava comigo, então decidi morder a bala e marcar uma sessão pra gente.

Minha namorada tentou me fazer cancelar, dizendo que a gente não devia gastar dinheiro com nada depois que ela perdeu o emprego. Mas embora eu não seja rico de jeito nenhum, eu recebo um salário bem generoso como engenheiro júnior na Lockheed Martin, então o dinheiro não era realmente problema. Ela finalmente cedeu quando eu ameacei cancelar a viagem de aniversário dela pro Glass Flowers Gallery (e eu quase desejei que ela não tivesse cedido, porque eu não estava nem um pouco ansioso pra dirigir até Boston só pra ver uns porras de dentes-de-leão de Swarovski).

Eu pretendia perguntar pro terapeuta sobre o lance do cachorro, pensando que talvez fosse sinal de alguma doença mental que afetasse os animais via comportamento ou até feromônios ou algo, mas antes mesmo de eu conseguir dizer uma palavra, minha namorada começou a reclamar sem parar de como eu não escutava ela, que nada do que eu fazia era bom o suficiente pra ela, que eu “weaponizava a incompetência”. Engraçado, meu terapeuta tinha dito exatamente a mesma coisa sobre ela!

“Então o que eu tô entendendo”, o terapeuta disse, depois de ouvir minha namorada tagarelar por mais de meia hora, “é talvez uma diferença de expectativas em torno da comunicação. Seria justo dizer isso?”

“Não”, minha namorada retrucou. “Eu não acho que seria justo dizer isso. Porque me diz por que alguém consideraria não se comunicar de jeito nenhum uma expectativa válida pra comunicação?”

“Isso é uma distorção”, eu disse, “eu me comunico o tempo todo. Literalmente eu que marquei essa sessão pra gente poder se comunicar. Você é a que tá me dando gelo—”

“Comunicação envolve escutar”, minha namorada disse. “Quando eu percebo que você não tá escutando, eu penso: qual é o ponto?”

“Tipo, só essa manhã”, eu continuei como se ela não tivesse me interrompido. “Você surtou comigo, dizendo que eu não estava prestando atenção quando você estava me contando sobre sua consulta no médico, só porque a TV estava ligada no fundo.”

“Você estava assistindo futebol.”

“Eu te disse, eu preciso estudar como funciona — amor —” Eu me peguei reagindo, e respirei fundo. “Você tá me gaslighting de novo”, eu apontei calmamente.

“Não é isso que gaslighting porra nenhuma significa!”

O terapeuta levantou as mãos, “Ok, vamos desacelerar um segundo e pensar no que vocês estão ouvindo um do outro até agora, ok?”

“Eu tô ouvindo ela dizer que eu não presto atenção”, eu disse, “mas se eu não tivesse prestado atenção quando ela estava me dizendo a hora pra buscar ela na consulta do médico, eu não teria chegado bem na hora pra pegar ela, né?”

Minha namorada me encarou com uma raiva completamente injusta nos olhos.

“Que foi?” eu perguntei. “Eu sinto que tenho o direito de me defender. Tipo, vamos lá. O que mais você quer que eu faça? O quanto mais difícil eu poderia escutar? Escutar é escutar.”

“Por que eu fui no médico?”

“Que?”

“Por que eu fui no médico, Brian?”

Isso não foi justo. Ela definitivamente não tinha me dito por que estava indo no médico. Porque caralho, eu tinha prestado atenção. Eu sou um cara. Eu consigo prestar atenção pra caralho numa conversa e num jogo de futebol ao mesmo tempo.

“Você tá me gaslighting”, eu disse de novo, a ficha caindo. Eu virei pro terapeuta. “Ela nunca me disse por que ia no médico.”

“Oh meu Deus do céu”, minha namorada gritou. “Exatamente. Eu te falei que tinha uma consulta de emergência no médico e você nem perguntou por quê!”

Eu fiquei em silêncio, chocado. Não conseguia acreditar que o terapeuta ia só ficar sentado ali e deixar ela gritar comigo. Eu achei que isso era pra ser um espaço seguro. Fazia todo sentido agora por que meu terapeuta pessoal tava tão hesitante com a gente fazendo uma sessão de casais.

“Eu acho que acabamos aqui”, eu disse, levantando do sofá. “Se você não consegue falar comigo sem levantar a voz, a gente não vai falar nada. Eu tô pronto pra tentar de novo quando você estiver pronta pra falar com respeito.”

A boca da minha namorada caiu aberta, do mesmo jeito que eu tinha visto ela fazer na pia e na cerca com o cachorro. Como se ela estivesse gritando, mas sem nenhum som saindo.

Teve um POP fraco. O terapeuta arfou em choque. Os óculos dele tinham estilhaçado na armação.

Você pode estar se perguntando por que eu ainda tava com minha namorada nesse ponto.

Qualquer um pode adivinhar os motivos dela ainda estar comigo — eu era dono da casa e do carro, pagava todas as contas (pelo menos enquanto ela ainda procurava emprego novo), e até eu entrar em terapia, era um pouco capacho. Também, apesar de eu ser jovem, eu infelizmente tenho disfunção erétil por ter feito muita coca na faculdade. Não tenho orgulho das escolhas que fiz, mas eu contei pra minha namorada sobre minha condição no nosso primeiro encontro porque acredito que é importante acabar com o estigma. Ela pareceu bem aceitando na época, mas agora eu vejo como ela basicamente achou que ganhou na loteria — uma carona grátis de um cara que ela raramente ia ter que cavalgar. Então se eu tinha percebido que tava com uma cavadora de ouro e ela me tratava tão mal, por que eu não tinha dado um pé na bunda dela até agora?

Bem, pra começo de conversa, ela era gostosa pra caralho. O corpo dela era um dez. Não só um dez, mas tipo um dez elevado à décima potência. Se ela não estivesse namorando comigo, ela provavelmente poderia ter ganhado muito dinheiro só entrando no OnlyFans em vez de procurar emprego de verdade. E quando ela não tava usando pra me encher o saco sobre merda nenhuma, ela conseguia fazer coisas absolutamente irreais com a boca.

Depois de compartilhar isso, eu sei que alguns de vocês provavelmente vão estar pensando “ai meu bife tá muito amanteigado, minha lagosta tá muito suculenta”, e eu concordo. Foi por isso que eu ainda tava com ela. Eu não queria terminar, só queria que as coisas voltassem ao normal. E porque eu sou engenheiro, descobrir o que tinha de errado com minha namorada virou uma obsessão. Terapia de casais não parecia que ia funcionar, e de qualquer forma, eu tava começando a achar que ela precisava mais de um exorcista do que de um terapeuta.

Eu contei o que aconteceu com os óculos do terapeuta... Bem, no último fim de semana foi o aniversário da minha namorada, e... vamos só dizer que a Harvard não conseguiu provar nada, mas a gente tá banido permanentemente da Flores de Vidro.

Então isso me traz pra hoje. Na última semana, minha frustração com o comportamento dela honestamente derreteu, substituída por entusiasmo enquanto meu cérebro de engenheiro se acendeu pra resolver o problema. Eu trouxe pra casa um medidor de nível sonoro do trabalho e confirmei o que eu suspeitava: de alguma forma, ela está gerando um som impossivelmente mais alto e agudo do que humanos conseguem ouvir, ou deveriam conseguir fazer. Isso é só uma coisa que mulheres mais novas fazem? Ela tá possuída? Tem alguma coisa na água? No ar? Por que isso afeta ela e não eu?

Eu preciso descobrir logo. Tenho começado a ter umas dores de cabeça terríveis, e hoje de manhã acordei e encontrei sangue seco dentro dos meus canais auditivos. Também parece que estou desenvolvendo um zumbido no ouvido. Ainda tá fraco, mas já é o pior som que eu já ouvi, tipo um grito infinito dentro do meu cérebro, que ninguém mais consegue ouvir. Até quando eu tô dormindo, eu escuto ele através dos meus sonhos.

Enfim, se algum cara aí já passou por algo parecido com a namorada de vocês, ou se algum cientista tiver alguma ideia do que pode estar acontecendo, tô ouvindo. Sem trocadilho.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Paralisia do Sono

Então, eu não tenho certeza absoluta se foi realmente o que aconteceu ou se eu só imaginei tudo no estado em que eu estava naquela época, mas eu só queria compartilhar essa história da minha infância enquanto ainda tento entender isso sozinho e não consigo decidir se acredito que foi algo sobrenatural ou não.

Minha infância foi difícil, pra dizer o mínimo. Eu nunca cheguei a conhecer minha mãe porque ela morreu no parto, e por isso fui criado pelo meu pai, que aparentemente achava que a morte dela tinha sido culpa minha e fazia questão de que eu nunca esquecesse disso.

Ele não me batia propriamente dito, mas era extremamente negligente e abusivo psicologicamente. Em algum momento, quando eu ainda era bem pequeno, ele começou a beber, e eu não tenho nenhuma memória dele que não seja a de um cara gritando ou chorando feito um trapo. Hoje, depois de todos esses anos, eu até sinto um pouco de pena dele, mas na época eu odiava as tripas dele.

Se vocês estão se perguntando como isso pôde durar tanto tempo sem intervenção da assistência social ou do conselho tutelar, é só lembrar que foi há uns 20 anos numa aldeia do Leste Europeu, e isso não era nada incomum na época.

Enfim, o vício do meu pai acabou matando ele quando eu tinha 12 anos. Era inverno e ele ficou tão bêbado que desmaiou numa vala e morreu congelado.

Minha avó, mãe dele, que morava não muito longe, me acolheu. E pra qualquer um de vocês que quiser falar mal dela porque ela deixou meu pai me abusar todos aqueles anos — nem tentem. A mulher era um anjo e a única pessoa boa na minha infância inteira. As coisas simplesmente eram assim naquela época e as pessoas não sabiam fazer diferente.

Ela era uma alma bondosa e se esforçava pra caramba pra compensar todos aqueles anos de negligência que eu vivi.

Cerca de seis meses depois de eu me mudar pra casa dela, os pesadelos começaram. Eu sonhava que estava preso num lugar frio pra caralho, congelante. Não conseguia ver nada, não conseguia ouvir nada. Só sentia aquele frio que gelava até os ossos. Era tão vívido que, mesmo depois de acordar, eu continuava tremendo e batendo os dentes, mesmo no meio do verão.

Os pesadelos eram tão ruins e aconteciam com tanta frequência que minha avó finalmente decidiu me levar num psicólogo — o que era uma decisão bem incomum naqueles tempos, porque uma coisa dessas podia te marcar como louco pro resto da vida. Mas eu não conseguia dormir, não queria comer nada, então ela realmente não tinha outra escolha.

O diagnóstico do médico foi bem óbvio: um trauma resultante de um longo período de abuso psicológico, e as circunstâncias da morte do meu pai fizeram meu subconsciente me punir na forma de sonhos. Por que punir?, vocês podem perguntar. Bom, porque eu senti alívio depois da morte dele. Não tinha dúvida nenhuma sobre isso. Além do mais, eu tinha só 12 anos — por que eu questionaria as palavras dele?

Ele disse pra minha avó me levar regularmente pras sessões de terapia pra trabalhar o trauma, e foi o que ela fez. Durante as sessões, além das coisas normais, ele me falou que eu precisava aprender a reconhecer um sonho pelo que ele era: só um sonho. Assim, uma vez que eu fizesse esse reconhecimento, eu deveria conseguir tomar controle do sonho e ou mudar ele pra algo agradável ou simplesmente acordar.

Eu queria que ele nunca tivesse me dito isso.

Não vou fingir que sei se foi realmente isso que piorou as coisas, porque não faço a menor ideia. Só sei que, assim que comecei a colocar a teoria em prática, as coisas escalaram.

Eu aprendi a reconhecer que era sonho bem rápido. A segunda parte, porém, estava totalmente além das minhas capacidades. Eu não conseguia mudar porra nenhuma. Não conseguia me forçar a acordar. E assim eu ficava preso nessa escuridão, congelando, sabendo que estava sonhando, mas completamente incapaz de fazer qualquer coisa a respeito. E o fato de saber que era “só um sonho” de alguma forma tornava tudo ainda pior. Eu me sentia preso, impotente e morrendo de medo. E o pior é que eu não conseguia voltar pros ajustes originais, então agora cada pesadelo era muito, muito pior.

E se tivesse parado por aí… Aos poucos, os pesadelos viraram episódios de paralisia do sono. Eu não estava mais numa escuridão fria e vazia. De vez em quando eu “acordava”, ou sentia como se tivesse acordado — e aí a linha entre sonho e realidade começou a ficar cada vez mais difícil de distinguir — e eu estava no meu quarto, na minha cama, completamente paralisado. Eu ficava encarando o teto pelo que parecia horas, incapaz de mexer um único músculo. E o frio? O frio continuava lá. Aquele calafrio no ar que parecia tão pesado, tão palpável, que quase me sufocava.

E nem era o fim. Foi piorando aos poucos.

Cada episódio era pior que o anterior. Pareciam durar mais tempo. Às vezes meus pulmões simplesmente se recusavam a respirar e eu ficava lá em pânico puro, sentindo a dor dos músculos se contorcendo pela falta de oxigênio, sem ter controle nenhum sobre meu corpo. Eu sei que não podia durar pra sempre, mas parecia uma eternidade. (Aliás, tô colocando isso aqui só pra manter minha própria sanidade — escrever isso tá me fazendo reviver esses momentos e eu preciso de uma distração agora.) É por isso que eu nunca consegui terminar de assistir Deadpool. Sabe aquela cena em que colocam ele no aparelho e regulam o oxigênio pra ele sufocar? Era exatamente assim que eu me sentia. Não ganhei superpoder nenhum, infelizmente.

Enfim, voltando pra essa merda pesada.

Em algum momento eu comecei a sentir uma presença no quarto durante os episódios. Vocês conhecem aquela sensação de estar sendo observado? Você não consegue apontar quem nem de onde, mas simplesmente sabe que tem alguém te vigiando?

Eu sentia isso. Tinha alguém, ou alguma coisa, no quarto comigo em cada episódio. A presença — e não consigo explicar como eu sabia — era maligna. A aura de maldade era quase palpável, e eu juro que sentia ela queimando minha pele com o ódio que tinha por mim, e isso era ainda pior que o frio.

Tentei falar sobre isso com o psicólogo, mas ele não tinha respostas prontas além de “encontrar a origem dos problemas e trabalhar neles”, e isso, obviamente, levava tempo.

E eu não tinha tempo. Todo dia parecia cinza pra mim. Eu passava dias inteiros só deitado na cama sem fazer nada. Via minha avó chorando quando ela achava que eu não estava olhando, e saber que era por minha causa me destruía ainda mais. Ela era a única coisa que me segurava e me impedia de acabar com meu sofrimento ali mesmo. Eu teria feito isso sem pestanejar se não fosse por ela.

Os episódios estavam ficando mais frequentes e mais aterrorizantes. Em algum ponto eu comecei a ver uma silhueta escura aos pés da minha cama. Só conseguia ver pela visão periférica, porque meus olhos estavam sempre grudados no teto, então não dava pra identificar direito. Só sabia que não era minha avó.

Aí a coisa… e vou continuar chamando de “coisa” pra manter a consistência (além do mais, silhueta é uma palavra complicada pra caralho) começou a se aproximar cada vez mais…

Uma noite eu fui “acordado” — bem, não exatamente acordado, porque ainda não conseguia me mexer — por um peso enorme pressionando meu peito. A coisa, fosse lá o que fosse, estava sentada em cima de mim. Eu ainda não conseguia ver direito, mas na minha cabeça eu estava gritando e chorando desesperado. Sentia como se minha mente estivesse prestes a se despedaçar. Não sei como não enlouqueci completamente naquela época… foi a pior experiência da minha vida inteira.

A coisa esticou o braço e agarrou meu pescoço. Os dedos eram ásperos e extremamente frios. E então eu senti o cheiro…

Uma coisa que eu não tinha contado sobre meu pai. Ele era alcoólatra, sim. Mas era bem específico na escolha da bebida. Só bebia um tipo de schnapps de hortelã-pimenta que tinha um cheiro bem característico… E era exatamente esse cheiro que eu sentia na coisa que estava me sufocando.

Depois do que pareceu horas, recuperei um pouco do controle e comecei a gritar com toda a força dos meus pulmões. Como sempre, a coisa desapareceu na hora. Eu ainda sentia o frio, mas conseguia me mexer de novo e, mais importante, conseguia respirar.

Minha avó entrou correndo, me abraçou forte e tentou me consolar. Passamos o resto da noite rezando e eu finalmente consegui dormir lá pelo amanhecer.

Teve muitos episódios e muitas coisas que eu poderia contar, mas eu realmente não quero voltar pra isso tudo agora. Só queria dar uma ideia geral do que eu passei. A história já está longa o suficiente.

Então minha vida era um pesadelo. Eu não era feliz e, mesmo assim, Deus, ou seja lá que força rege esse universo, ainda não tinha terminado comigo.

Minha avó ficou doente. Diagnosticaram câncer em estágio IV e ela morreu oito meses depois. Eu fiquei completamente sozinho.

O serviço social me levou pra uma instituição temporária. Nesse ponto, sozinho e ainda sofrendo com a paralisia, eu teria me matado se tivesse chance, mas eles sabiam disso e me monitoravam muito de perto.

Alguns meses depois, meu psicólogo disse que queria me transferir pra uma família acolhedora. Era uma fazenda enorme e a família que morava lá era muito gentil e já cuidava de outros três órfãos. Ele achou que ter trabalho pra fazer (ajudando na fazenda) poderia me ajudar e arranjou a transferência.

Bom, não foi a melhor ideia que ele teve. Na primeira oportunidade que tive, eu arrombei a gaveta de remédios e engoli o máximo de comprimidos que consegui. Fui pro meu quarto e fiquei esperando morrer.

Eu voltei a mim no meio de outro episódio de paralisia do sono. A coisa estava me sufocando, o cheiro de hortelã forte no pouco ar que eu conseguia puxar. Dessa vez, porém, eu recebi de braços abertos. Me sentia em paz… sentia a vida escapando de mim… e então uma brisa quente repentina entrou pela janela. Senti outra presença. Essa era totalmente oposta à coisa que me sufocava. Não conseguia olhar pra ela, mas sentia ela parada do meu lado. E então eu ouvi ela falar:

“Olek, sai de perto do meu menino!”. Juro por Deus que era a voz da minha avó. E Olek era o nome do meu pai…

A pressão no meu pescoço diminuiu e então veio um grito agudo. Nenhum ser humano conseguiria emitir um som tão estridente. Mas depois disso, o peso no meu peito simplesmente sumiu. E o frio desapareceu. Senti uma mão passando de leve no meu cabelo. “Agora está tudo bem.”

Eu estava prestes a responder, mas de repente tinha alguma coisa se forçando pra dentro da minha boca. Eu vomitei. E vomitei de novo. E de novo.

Quando abri os olhos, tinha gente ao meu redor. Eu estava deitado no chão e um paramédico estava iluminando meus olhos com uma lanterna.

Eles me levaram pro hospital, onde passei alguns dias me recuperando.

E desde aquele dia eu nunca mais tive um episódio de paralisia do sono.

Agora que tenho mais de 30 anos, não sei o que pensar sobre tudo isso. Na época parecia tão real. Eu gosto de me ver como uma pessoa racional.

Eu até criei uma teoria que explicaria por que os episódios pararam.

Talvez quando eu desmaiei e meu coração parou (eu sei que parou, os médicos me disseram), uma parte do meu cérebro responsável pelos episódios não recebeu oxigênio suficiente e simplesmente morreu. É uma teoria forçada e eu teria sido muito sortudo se tivesse sido isso, mas pelo menos é lógico, né? A outra explicação? O espírito da minha avó me salvou do fantasma do meu pai.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon

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