Sempre odiei, e sempre vou odiar. Não sei explicar direito o porquê. Talvez fosse a febre que vinha todo maldito primavera, meu nariz entupido de pólen e aquela tosse seca que não queria morrer de jeito nenhum.
Talvez fosse aquela caça aos ovos ridícula pra caralho que toda a minha família estendida voava pra cá pra participar. Aquela massa desajeitada de gente com beijos babados e cheios de cerveja, fazendo as mesmas duas perguntas que queimavam na ponta da língua deles:
“Como você foi naquela prova de matemática?” e “Pode pegar outra cerveja pra mim, campeão?”
Talvez fosse o fato de que eu nunca ganhei aquela merda nem uma vez. Sempre eram os meus primos metidos a besta, com aqueles dentões de coelho e sorrisos bobos de boca aberta — o que parece uma contradição, mas eu não tô nem aí —, eu odiava aqueles olhares presunçosos que eles me lançavam depois que eram declarados vencedores e recebiam o prêmio patético: cinco notas amarrotadas.
Eu me fodia inteiro procurando aqueles ovos de plástico vagabundos e sempre ficava pra trás. Suspeito que eles trapaceavam, combinando com as minhas tias e tios traidores.
Eu sempre fazia um escândalo, aí meu pai me dava um tapa na nuca por ser mau perdedor e a gente marchava pra dentro de casa pra comer um presunto seco pra caralho.
Ah, Páscoa.
Meu irmãozinho filho da puta, com aquela atitude chorona e aquelas mãozinhas sujas, não tinha esse problema. Ele adorava a Páscoa, amava enfiar aquela boca gorda dele com creme de ovo Cadbury e montes de jellybeans. Ele pegava um punhado do cesto dele — misturado com aquele papel picado verde-limão, veja bem — e enfiava tudo na boca, mastigando de um jeito nojento pra caralho. Era como ver um boi comendo. E ele nem engolia. Olhava direto pros meus olhos, abria a boca e deixava um bolo colorido de gosma cair devagar daquele buraco escancarado, cuspindo tudo no chão bem na minha frente.
Depois, com um sorrisinho de quem comeu merda, pegava mais e repetia tudo de novo.
Você já entendeu o quadro: meu irmão é um pentelho chato, mimado, dor na bunda que meus pais babam em cima e deixam ele fazer tudo o que quer. Nem me fala de Natal. Pilhas de brinquedos embrulhados brilhantes pro pequeno Ricky, e pra mim? Um envelope e um abraço mole. Talvez meias, se eles acharem que eu mereci.
Desde que ele tinha idade suficiente pra competir, ele ganhava aquela caça aos ovos idiota. Eu envelheci e saí da brincadeira mais ou menos nessa época, e, francamente, venho fervendo de raiva desde então. Por cinco anos tive que aguentar a quantidade nauseante de elogios que aquele putinho recebia todo ano por ser o melhor em correr pelo quintal. Ajuda o fato de que só tinham tipo três primos ainda novos o suficiente pra competir, e eles eram lentos e reclamavam da umidade.
Você não me ouve reclamando da porra da umidade, e eu moro nesse pântano.
Este ano eu já tinha me resignado ao meu destino e prometido pros meus pais que não ia ficar emburrado pela casa e que ia realmente conversar com os meus primos idiotas em vez de me esconder no quarto com as cortinas fechadas, contando os segundos até recuperar minha solidão.
Este ano acabou sendo o fim de todos nós. Foi o ano em que meu irmãozinho nariz escorrendo, aquele erro bastardo, encontrou o ovo.
A caçada começou como qualquer outra. Minha família estava toda amontoada no quintal dos fundos; o sol zumbia lá em cima. Estava um calor fora de época pro começo da primavera, os pântanos a poucos metros dali borbulhavam e espumavam por causa do calor escaldante. Por mais que eu reclamasse de nunca ganhar, eu ficava feliz de não ter que correr por aquele brejo com lama até o tornozelo e mosca varejeira. Meu pai, com o senso de humor de quem já bebeu demais, sempre escondia pelo menos um ovo lá nos pântanos.
Não muito longe, claro. Ele não era sádico. Eu tinha visto ele tropeçando pra lá meia hora antes, lata de Bud Light numa mão e o ovo enfiado debaixo da outra.
Os competidores estavam alinhados, ansiosos pra deixar a marca deles. Meu irmão se destacava no meio dos outros, e pesava mais ou menos o dobro. Ele tinha cabelo preto ondulado todo engordurado, dava pra sentir o cheiro do couro cabeludo sujo dele lá da varanda — era nauseante.
Ele tinha aquele olhar metido na cara rechonchuda. Meu Deus, eu queria estrangular ele só de olhar. Mas segurei a vontade, me concentrei na respiração e voltei a ouvir minha tia Sally enchendo meu saco sobre o que eu ia cursar na faculdade.
Meu pai cambaleou pra frente, com aquele olhar vidrado e distante. Ele balançava onde estava parado, e a multidão na frente dele dava risadinha da situação dele. Pelo canto do olho, vi minha mãe dando um trago fundo no cigarro. O cabelo preto giz vibrante de antigamente agora estava opaco e cheio de fios grisalhos. Tinha olheiras que derrubariam um camelo.
Era um contraste interessante com o cansaço maníaco do meu pai, se é que isso faz sentido. Enfim, meu pai deu um discurso rápido, embolado e quase incoerente. Como sempre.
“Beleza, rapaziada, bem-vindos à caça aos ovos da família. Cada um de vocês, pequenos caçadores, tem dez minutos pra juntar todos os ovos que conseguir carregar. Vão lá e peguem eles, tomem cuidado se estiverem rastejando pelo brejo, é temporada de acasalamento dos jacarés. BELEZA, VAI LOGO!” Ele berrou enquanto todo mundo aplaudia e os competidores saíam em disparada. As tias, tios e primos meio bêbados rugiam com uma alegria falsa enquanto se embolavam e tropeçavam uns nos outros. Ricky, pra crédito do putinho, era como um raio. Você piscava e: boom-boom-boom — ovo atrás de ovo.
Logo ele tinha desaparecido no meio do mato e uma parte de mim torcia pra ele tropeçar e cair numa areia movediça ou algo do tipo. Não fundo o suficiente pra matar ele, afinal ele era meu irmão e eu o amava... eu acho. Mas tinha algo naquele sorrisinho arrogante dele que me tirava do sério.
Então eu fiquei sentado ali no sol da tarde, absorvendo os raios e balançando a cabeça de vez em quando enquanto minha tia tagarelava sem parar sobre nada. Eu ficava de olho na caçada. Dois já tinham desistido, entediados com a perseguição inútil. Um estava de quatro, arrancando a grama e jogando a cobertura morta pro alto num chilique silencioso.
O brejo ao fundo fazia o barulho de sempre: o gorgolejar de gás de pântano quente, o gemido de uma cegonha pastando, os estalos e chilreios que soltavam cascas de árvore à noite e faziam minha imaginação voar longe. Meu avô costumava me contar histórias loucas sobre as criaturas do brejo, histórias de terror pra assustar um menino e impedir que ele se afastasse demais por tédio.
Ele falava de lagartos terríveis com penas coloridas, mandíbulas que quebravam ossos ao meio e garras que cortavam barrigas macias como manteiga derretida. Histórias maravilhosas pra ouvir quando criança. Eu nunca me aventurava muito no quintal por causa delas.
Queria que o Ricky tivesse ouvido aquelas histórias.
Eu saí do meu devaneio nostálgico quando ouvi ele comemorando com uma alegria maligna. Todas as cabeças se viraram pra ver ele saindo do mato como um furacão, o cesto balançando nos braços flácidos enquanto segurava algo acima da cabeça. Ele estava sem fôlego, ofegando, quando se aproximou do meu pai e apresentou o prêmio. Era um ovo meio grande, de cor clara, com pintas de lama e umidade.
“Eu encontrei eles, pai. Encontrei todos os ovos.” Ricky ofegou. A curiosidade falou mais alto e eu saí da varanda, querendo examinar aquele ovo estranho. Fiquei ao lado do meu pai, envolto no cheiro forte de uísque misturado com coca. O rosto do Ricky estava inchado e vermelho, o suor grudado nele como num porco chafurdando na lama. Ele sorriu pra mim enquanto mostrava o ovo misterioso.
Meu pai franziu a testa e falou calmamente, embolado:
“Desculpa, Rick, esse aí não é nosso. Nunca vi isso antes. Vai lá e coloca de volta antes que—” Um apito soou e todos os competidores se alinharam, cestos na mão. Contra os protestos e choramingos do Ricky pedindo mais tempo, meu pai contou todos os ovos.
No final, o total do Ricky foi vencido por um único ovo. O primo Roger, aquele nerd, abriu um sorriso triunfante enquanto meu pai dava um tapa nas costas dele um pouco forte demais. Admito: eu não consegui deixar de curtir a derrota do Ricky. Isso até ele ter um ataque completo.
O rosto dele ficou de um tom de vermelho que eu nunca tinha visto, a cara gorda se contorceu, ondas febris de raiva atravessando aquela banha toda, como ecos de uma onda rebelde.
“Isso não é justo!” Ele guinchou, furando meus ouvidos e quase me fazendo dobrar. “É a minha casa, eu que tenho que ganhar!” ele choramingou. Ele bateu os pés e jogou o cesto no chão, equilibrando o ovo estranho nas mãozinhas sujas.
“Agora, filho, a gente nem sempre consegue o que quer. Não seja estraga-prazeres.” Meu pai falou calmamente, de repente sóbrio pra caralho por causa dos olhares julgadores e caretas da família estendida.
Eu até fiquei impressionado. Se fosse comigo, ele já teria me dado um tapa na cara. Acho que ele amoleceu com a idade.
Ricky recusou a misericórdia do pai e dobrou a aposta na atitude nojenta dele. Com um urro gutural que só podia ser descrito como o grito de uma baleia furiosa, ele levantou o ovo no ar e cravou ele no chão.
Ele se espatifou no impacto, obviamente, e a multidão reunida soltou um suspiro coletivo e lamentoso. Porque, se contorcendo no chão no meio de gema e gosma, tinha uma coisinha pequena. Parecia um pintinho meio formado, com pele escamosa, duas pernas viscosas e tocos no lugar de braços. Tinha um olho serpentino piscando freneticamente na pobre criatura, enquanto o que eu acho que era o bico tentava gritar chamando pela mãe.
Meu coração se partiu olhando praquela coisinha, e o que o meu irmão sociopata e sádico faz?
Antes que alguém pudesse impedir, ele levantou o pé acima da criaturinha moribunda e cravou o calcanhar nela, espatifando o que restava da pobre criatura.
Uma onda de murmúrios horrorizados explodiu entre a multidão. Os priminhos estavam chorando, e o pobre Roger ficou branco como um fantasma.
“Ovo idiota, perdendo meu tempo.” resmungou Ricky enquanto esfregava o pé. O grito mortificado da minha mãe nos tirou do transe e meu pai rapidamente agarrou o braço do Ricky e puxou ele pra si. Ricky se contorceu e arranhou, mas a pegada do meu pai era de ferro. Ele arrastou ele pra dentro de casa chutando e gritando, batendo a porta de vidro atrás deles.
Mamãe foi rápida em acalmar a multidão dizendo que a comida estava pronta e tentou o melhor que pôde direcionar todo mundo pro prato de carnes na varanda. Teve gente balançando a cabeça e resmungando, e eu ouvi tia Sally dizendo que nunca veria um dos filhos dela agindo daquele jeito.
Mamãe sussurrou pra mim pra me livrar “disso” e apontou um dedo ossudo pro chão. Eu peguei a criaturinha esmagada com cuidado e fui andando pro mato. Acho que ela teria preferido que eu jogasse no lixo, mas pareceu errado. Não fui longe, só na beirada do pântano, bem fora de vista onde o mato encontra o quintal. Cavei uma valinha pequena e, por mais idiota que pareça, pedi desculpas.
Saí rápido do mato, me sentindo vulnerável de repente. Como se as árvores tivessem ouvidos. Durante o resto da tarde, eu juro que vi as árvores chacoalhando e ouvi um latido chilreante, rancoroso e cheio de luto. O resto da minha família seguiu em frente. Meu pai eventualmente desceu de novo e colocou gelo nos nós dos dedos. Ninguém perguntou como o Ricky estava, nem se importaram depois daquela cena.
O sol se pôs numa festa constrangedora. Parte da família tinha ido embora pro fim da tarde, a maioria ficou, bêbada demais pra voltar pra casa. Eu me desculpei quando os vagalumes saíram pra dançar, cansado pra caralho dos eventos do dia. Meu pai estava levando uma bronca séria de um dos irmãos dele, falando alguma coisa sobre disciplina. A cabeça do meu pai balançava e ziguezagueava na noite; provavelmente ele nem ia lembrar o próprio nome de manhã.
Mamãe observava com desprezo, encostada na porta dos fundos com um cigarro aceso na mão. Ela deu um aperto mole no meu ombro quando passei por ela. Subi a escada enorme pra descansar um pouco. Passei pelo quarto do Ricky. A porta estava fechada, mas eu ouvi um choramingo leve e fungadas lá de dentro. Fiquei parado na porta, pensando que talvez devesse entrar e confortar ele. Afinal, ele era só uma criança.
Depois pensei: foda-se, deixa ele tomar o remédio pelo menos uma vez na vida. Eu me arrependo disso agora.
Entrei no meu quarto sem pensar duas vezes e desabei na minha cama macia. Apaguei feito uma luz.
Acordei tonto e confuso, suor frio escorrendo na testa. De fora da minha janela dava pra ouvir algum tipo de comoção. Olhei pra fora e vi sombras correndo pelo quintal. Elas estavam baixas no chão, se movendo com propósito. Ouvi gritos abafados e súplicas. Tinha aquele latido áspero, como um galo chilreando com alguma coisa presa na garganta.
Estava em volta da casa toda. Reconheci algumas vozes. Tia Sally estava chorando até que a voz estridente dela foi cortada de repente. Algumas não faziam sentido. Ouvi a voz tímida do primo Roger, mas parecia errada. Uma imitação zombeteira, quase robótica. Ficava repetindo as mesmas frases sem parar: “Mamãe. Aqui. Eu tô aqui. Me ajuda.” Sem parar. Sentei na cama e tentei entender que porra estava acontecendo lá fora.
Foi quando ouvi um baque no corredor. Virei rápido pra frente do quarto, meus olhos demorando pra se acostumar com a escuridão sombria. A porta do meu quarto rangeu ao abrir, uma sombra enorme passando rápido. Eu vi alguma coisa — um apêndice parecido com um tentáculo na parte de baixo, quase me chamando pra perto.
Fiquei paralisado na cama, me sentindo criança de novo, com medo dos monstros no escuro.
“Stephen.” A voz da minha mãe latiu pra mim com dureza. Estava fraca, mais fundo no corredor. Nem tive certeza se ouvi direito no começo.
“M-mãe?” perguntei com a voz baixa, quase um sussurro engasgado.
“Stephen. Me ajuda. Vem. Me ajuda.” Ela repetiu. A voz era a mesma, mas o tom parecia frio. Saí da cama com cuidado e fui até a porta. Olhei pra fora e não vi nada no corredor úmido. O ar estava gelado, como se as janelas estivessem abertas. Da base da escada, ouvi de novo:
“Stephen. Me ajuda.”
“Mãe, o que aconteceu?” chamei mais uma vez. Fui recebido com silêncio. No topo da escada, eu parei, e vi alguma coisa espreitando lá embaixo. Olhos miúdos com um brilho fraco. De cima dava pra ouvir os gritos de dor da minha família lá fora, junto com latidos e sibilos doentios.
“Stephen. Vem. Aqui.” A coisa usando a voz dela engasgou. Recuei e senti uma mão agarrar meu ombro. Dei um grito e me virei pra ver o rosto ensanguentado da minha mãe. Ela estava sangrando muito, um corte fundo na testa e tufos de cabelo arrancados do couro cabeludo. Mal conseguia ver o resto dela, mas dava pra sentir o cheiro de sangue e ferro com que ela estava coberta. Ela colocou um dedo nos lábios pra me mandar ficar quieto e o olhar dela disparou pro pé da escada.
Teve um gemido, um lamento animalesco de frustração, e a sombra imponente deu um passo mais perto. Era bípede e parecia ter asas no lugar de braços e um rabo longo e coriáceo.
“Stephen.” Mamãe sussurrou rouca ao meu lado. Ela não esperou resposta e simplesmente colocou um molho de chaves na minha mão. “Não consegui entrar por nenhuma das portas. Eles estão em volta de nós. Preciso que você pegue seu irmão e desça pela escada na minha janela. Pega o carro.” Ela ordenou.
“Mãe, o que está acontecendo—” comecei, mas parei quando ela apertou minhas mãos. Elas estavam quentes e molhadas. Não consegui olhar pra baixo. Sem dizer mais nada, ela me empurrou pro corredor e desceu correndo a escada. Ouvi os passos rápidos da criatura quando ela pulou em cima dela, e os dois rolaram escada abaixo. Corri pro quarto do meu irmão, tropeçando no escuro. Finalmente me orientei e praticamente chutei a porta, gritando o nome do Ricky.
Eles tinham chegado primeiro.
Eram dois deles, iluminados por uma luz fraca de um abajur caído. Os olhos deles brilhavam como fósforo branco quando a luz batia. Eram coloridos, vermelhos vibrantes e laranja tropical misturados. Os braços eram longos e magros, penas bonitas cobrindo a pele coriácea. Tinham pernas traseiras carnudas com uma única garra curvada que parecia quase o salto de uma dançarina.
As criaturas estavam em cima do que restava do Ricky. A barriga dele estava aberta, as tripas espalhadas pelo chão num monte fumegante, rasgadas e puxadas como queijo em fio. O esterno estava arrancado, como se as criaturas tivessem forçado ele aberto. Os pulmões esfarrapados ainda ofegavam e chiavam sem motivo, como um lençol ao vento. O rosto dele estava cinza e os olhos opacos. O da esquerda tinha a boca cheia de intestinos, sugando como macarrão. O da direita só tinha carne escorrendo da bocarra. Ele me viu entrar e abriu um sorriso predatório pra mim.
“Ri-Ricky.” gaguejei, sentindo um calor escorrendo pelas minhas calças. Os monstros deram um bote rápido em mim e eu corri. Fui pro quarto dos meus pais, vendo pelo canto do olho a criatura na escada arrastando metade de um objeto mole escada acima. Meu pulso acelerou e eu me choquei contra a porta do quarto dos meus pais, procurando a escada desesperadamente.
Os lagartos terríveis latiam pra mim, carne caindo das bocas glutonas, famintos por algo fresco. Corri até a janela e olhei pra baixo: uma escada estava encostada de qualquer jeito na parede. Dava pra ouvir o que restava da minha família sendo massacrado pelas coisas com mais clareza agora. Ignorei tudo e saí pela janela. Os degraus estavam escorregadios com o que eu acho que era sangue e sujeira. Estava na metade da descida quando ouvi algo latir pra mim.
Olhei pra cima e carne caiu da boca dele rangendo. Uma placa de carne bateu no meu rosto, e eu gritei e soltei a escada. Caí no chão com força, os lados do corpo gritando de dor. Não tinha tempo a perder. Manquei até o carro da minha mãe, um sedã bonito, e entrei engatinhando. Ele engasgou e pegou. Saí acelerado dali. Sem olhar pra trás nem uma vez.
Acho que estava a vários quilômetros de distância quando finalmente parei no acostamento, os pulmões saindo do peito e o coração doendo com o massacre que eu tinha visto. Tão rápido quanto começou, acabou do mesmo jeito. Ao longe, eu juro que ainda conseguia ouvir os gritos.
Eu liderei o grupo de manhã. Encontrei os poucos sortudos que conseguiram chegar no motel e chamamos a polícia. Contamos que um animal selvagem tinha atacado a casa. As criaturas já tinham sumido há muito tempo, assim como vários corpos. Encontramos o torso do meu pai pendurado na varanda, uísque podre fermentando no chão embaixo numa poça sangrenta. Acabamos vasculhando o pântano atrás dos nossos mortos.
Só encontramos o Ricky. Ele estava encostado num tronco caído, o rosto todo arranhado e os olhos já tinham sumido. No fundo do que já foi a barriga dele tinha maços de lama e ovos recém-postos.
A gente deixou ele lá. A lição de respeitar a natureza já tinha sido aprendida da pior forma possível.
Eu fui embora depois. Não conseguia ficar naquele matadouro. Acabei vendendo a casa pra um primo que queria ficar lá e ruminar, talvez atrair as criaturas pra fora. Tenho certeza que ele já virou comida de raptor a essa altura. Evito o mato quando posso, mas às vezes eu juro que ouço aqueles latidos roucos, rondando nas sombras, esperando pra terminar o que começaram.