sábado, 14 de março de 2026

O homem de azul...

Eu me lembro do velho; bengala retorcida, usando uma capa com o capuz abaixado sobre os olhos. Tinha certeza de que já o tinha visto num sonho antes: um sobre um vírus que se espalhava pelo contato visual com os infectados — bobo, não é?

Quando ele bateu na minha velha porta de madeira, achei estranho; nenhuma sombra se infiltrava por baixo da porta como sempre acontecia. Mesmo assim, abri pra vê-lo. O velho, aquele do meu sonho de algumas noites atrás. Ele não projetava sombra alguma, mas deu várias respiradas fundas e trêmulas antes de falar:

"Eu sou Walter Woods."

"Ã... tá bom." eu disse surpreso. Pedi pro homem entrar mas ele não disse nada. Pedi de novo e dessa vez ele entrou.

"Sou cego, veja bem" ele disse com um leve tom de incerteza.

"E surdo, ao que parece" eu murmurei baixinho.

Ele pendurou a capa: azul-oceano com estrelinhas amarelas; igualzinha a de um mago de livro. Ofereci um chá, mas ele recusou. Ofereci comida, mas de novo ele declinou.

"Então, o que diabos você quer!?" eu gritei com ele, alto o suficiente pra fazer o cachorro do vizinho soltar um latido frenético.

"Quero ficar um tempo." Ele respondeu com calma.

"De jeito nenhum!" eu respondi.

"Eu nem te conheço… VAI EMBORA!" eu berrei, claramente em pânico. E com isso, ele foi. Enquanto saía pela minha porta, meu vizinho — Edward — veio correndo pro meu apartamento.

"Em nome de Jesus, o que tá acontecendo?" ele me perguntou.

"Aquele velho maluco que acabou de sair" eu respondi.

"Tá falando o quê?" ele perguntou no sotaque britânico carregado dele.

"Cara! Você acabou de ver ele sair… Ele saiu agora!" eu disse assustado. Com isso, ele balançou a cabeça e foi embora.

Todas as noites depois disso, eu sonhava com ele; o homem cego, aparentemente invisível pra todo mundo menos pra mim.

Uma semana depois, eu já tava de saco cheio. Sentei no computador e fui fuçar: Walter Woods, morto em combate na guerra América-Inglaterra. Isso não pode estar certo, pensei. Aquela guerra foi... há 60 anos atrás!

Muitas noites sem dormir se seguiram. Um dia, acordei de um sono curto e sem sonhos; olhei pela janela suja, passando pelas garrafas vazias de um álcool qualquer sem rótulo, e vi um homem me encarando de volta: curvado, com uma capa azul com uma estrela aqui e outra ali.

"Meu Deus" eu disse incrédulo.

"Posso entrar?" ele perguntou com calma. Como um idiota, eu disse que sim. Enquanto o deixava entrar, ele me olhou; mesmo sabendo que ele não podia ver.

"Chá, por favor." Ele disse.

"O quê... eu." Preparei o chá pra ele e sentei do lado dele no sofá manchado e perguntei:

"O que você quer?" eu perguntei no tom mais firme que consegui.

"Só ficar um tempo, tô procurando minha filha Jenna, veja bem..." ele respondeu.

"Olha. Você não pode ficar, e eu não sei quem é Jenna, tá?" eu disse a ele. E com isso, ele tomou o chá e foi embora.

Não dormi bem naquela noite; meus sonhos cheios do vírus e do homem... Agora com olhos fundos e dentes amarelados.

Acordei cedo pra ir pro trabalho — um emprego de escritório típico, com uma terapeuta que eu visitava quase todo dia.

Quando cheguei, percebi que estava atrasado; ótimo.

"Favor Holden Alston comparecer ao escritório do Sr. J. Armstrong" a voz saiu pelo alto-falante interno fazendo meu sangue gelar. Meu chefe.

"Pois não, senhor? O senhor queria falar?" eu disse hesitante.

"Holden, você está conosco há 10 anos; mas recebemos algumas reclamações de que sua saúde mental está... escorregando. Você não consegue prestar atenção no trabalho. Infelizmente, vou ter que te dispensar." Ele disse com uma falsa piedade.

Fui embora naquele dia, e quando cheguei em casa, fui atingido pelo cheiro de um cadáver em decomposição; ou algo parecido. Procurei de onde vinha o cheiro, mas sem sucesso. Sentei no velho sofá e bebi. Bebi uísque barato até o amanhecer, e depois até o anoitecer.

Toc toc. O barulho me assustou o suficiente pra eu levantar os olhos pra porta; lá estava o homem. Ele não tinha olhos, nem a capa azul. Apenas uma figura encoberta de preto.

"O quê... O QUE VOCÊ QUER!?" eu berrei com ele.

"O tempo acabou, Holden." Ele respondeu numa voz fria e sem emoção.

Ele me levou pela noite; estávamos viajando pelo que pareceu horas, eu amarrado em algum espaço escuro, sem saber onde ao certo.

Finalmente chegamos, alguma floresta em algum lugar. Ele me jogou no chão e mandou eu correr naquela voz dele; minhas mãos ainda estavam presas por correntes, e eu ainda usava a venda nos olhos, mas corri mesmo assim.

Corri pelo que pareceu horas, quando cheguei a ela: uma pequena cabana de madeira numa grande clareira, encostada perto de uma pedra enorme que dava pra colinas onduladas e vales. A venda tinha caído em algum momento nos últimos minutos.

Enquanto me virei devagar, o vi caminhando em minha direção, silencioso e calmo. Não tentei correr; já tinha feito isso o suficiente. Em vez disso, fiquei parado ali, igual a um cervo paralisado pelos faróis de um carro.

Ele estendeu uma mão fina e enrugada, e eu a peguei. Então tudo ficou escuro.

Percebo agora que deveria ter deixado ele ficar um tempo. Quando tudo escureceu, o conhecimento me invadiu — uma torrente: a filha dele, Jenna, baleada e morta na Rússia; os segredos de Einstein; minha cadela Daisy, esquartejada pelo meu irmão George, que se tornou um assassino com outro nome.

Minha vida antes de tudo isso era chata. Nunca acontecia nada. O homem pode ter sido meu fim, mas talvez também tenha sido meu salvador, me arrancando de uma vida de marasmo silencioso e me jogando em algo que ainda não consigo explicar.

Se alguém me encontrar, onde quer que eu esteja -deixa ele ficar um tempo. Talvez você não sofra o mesmo destino que eu.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon