terça-feira, 19 de maio de 2026

Eu consigo ver a Morte

A primeira vez que a gente se encontrou eu estava no segundo ano. A escola que eu estudava tinha dividido o refeitório em duas salas extras, então todo mundo almoçava nas salas de aula mesmo. Eu estava sentado numa mesinha redonda pequena com dois dos meus amigos, trocando salgadinhos e combinando qual brincadeira a gente ia fazer no recreio no parquinho. Eu estava prestes a morder um dos meus salgadinhos quando outro garoto veio correndo.

“Esses são biscoitos de pasta de amendoim?!”

Eu pisquei uma vez de surpresa e dei um aceno pequeno com a cabeça.

“Quer trocar? Eu tenho Starburst!”

Esse moleque não fazia ideia do que estava fazendo. Starburst por uns biscoitinhos de pasta de amendoim? Era tipo trocar um diamante por um pedaço de carvão. Sendo o esperto do segundo ano que eu era, enfiei o pacotinho na mão dele todo animado enquanto ele jogava quatro Starburst na minha lancheira. Fiquei sorrindo praquela pilhadinha colorida enquanto ele saía saltitando pra mesa dele. Desembrulhei um rosa — o meu favorito — e enfiei na boca. Mal tinha dado duas mastigadas quando um grito explodiu pela sala inteira. As crianças da mesa do canto estavam de pé, todas amontoadas em volta de um menino que tinha caído no chão.

O garoto que tinha trocado comigo.

Ele estava estirado no chão se contorcendo igual minhoca que acabou de ser jogada no sol. As mãozinhas arranhavam a garganta vermelha enquanto lágrimas escorriam pelas bochechas que já estavam inchando. A professora atravessou a sala correndo e se ajoelhou do lado dele enquanto todo mundo se aproximava formando um círculo.

“James!” ela gritou, envolvendo ele com as mãos pra tentar levantar. “O que aconteceu? O que você comeu?”

Um gemido sufocado saiu da garganta do James enquanto uma mãozinha tremendo apontava na direção da mesa. A professora olhou por cima do ombro, segurando ele no colo com uma mão enquanto a outra pegava o pacotinho de biscoitos que ele estava comendo. Leu o rótulo e a cara dela ficou branca que nem papel.

“Meu Deus do céu”, ela sussurrou, levantando o James contra o peito enquanto se colocava de pé. “Ele é alérgico a amendoim!”

E saiu voando dali; correu porta afora com o menino nos braços gritando pela enfermeira. A sala ficou em silêncio, só com alguns soluços de crianças chorando. Exatos dois minutos depois outra professora entrou e começou a mandar todo mundo de volta pras salas. Eu fiquei no fundão da fila só pra olhar mais um pouco pra mesa. Pra olhar pro pacotinho de biscoitos que eu tinha dado pro James.

Eu me virei. Ia me esconder atrás da minha mochila no escaninho. Eles não iam chamar a polícia por causa de uma criança do segundo ano, mas na hora eu não sabia disso. Eu só sabia que o James podia estar morrendo e que a culpa era toda minha. Parei no meio do caminho quando minha mão já estava empurrando a mochila pro lado.

Tinha outra pessoa ali.

Cabelo preto igual tinta arrastava devagar pelo piso de linóleo. Pele branca que parecia quase transparente debaixo das luzes fluorescentes. Ela usava um terno todo preto, exceto pela camisa cinza-escura por baixo e a gravata vermelho-sangue. Formal. Séria. Sapatos sociais brilhantes batiam ritmadamente no chão enquanto ela dava a volta na mesa do canto. Uma mão pálida pegou um dos biscoitos, levantando pra inspecionar a mordida que tinha sido dada. A mordida que o James tinha dado. A mordida do biscoito que eu dei pra ele.

Em pânico, eu corri e puxei a barra da calça dela.

“Eu… eu sinto muito!” eu engasguei, a voz saindo chorosa e entrecortada enquanto minha mão apertava mais o tecido. “Eu… eu não sabia!”

Ela não olhou pra mim de imediato. Estava concentrada na mordida do biscoito, o polegar traçando devagar a borda da marca. Não fez nenhum som.

Finalmente, depois de um minuto inteiro de eu chorando e fungando no tecido da calça dela, ela colocou o biscoito de volta na mesa e se agachou pra colocar as mãos nos meus ombros. Levantei a cabeça e dei um pulo pra trás com o que vi.

Ela não tinha boca. Nem nariz. O rosto era só um par de olhos escuros. Não estou falando só das pupilas — os olhos inteiros eram pretos. Não tinha nem pupila! Eram buracos negros sem alma, sem emoção. Só… coisas. Espaços vazios. Como se fosse uma boneca que ainda não tinha recebido pintura.

Nenhum de nós falou nada por um tempo longo. Ela me segurava firme pelos ombros e eu era obrigado a encarar. Só quando comecei a me remexer querendo soltar que ela me soltou e se levantou. Os “olhos” dela varreram a sala uma vez, como um predador procurando presa, antes de ela se dirigir pra porta aberta. Ela abaixou a cabeça e curvou o corpo pra passar pela porta. Quando conseguiu ficar de pé lá fora, seguiu pelo corredor.

Eu fui atrás.

Encontrei ela parada na porta da enfermaria. Estava olhando pela janelinha pequena, os olhos acompanhando os movimentos das pessoas lá dentro. Eu conseguia ouvir a professora chorando do outro lado da porta, se culpando por não ter prestado mais atenção. Mas não era culpa dela. Os pais do James nunca tinham falado da alergia; ninguém tinha como saber que isso ia acontecer.

Eu me escondi embaixo de um banco quando a porta abriu.

“Vou fazer mais uma ligação pros pais.” A professora fungou, secando os olhos com um lenço. “A ambulância deve chegar logo pra buscar ele.”

Um murmúrio veio de dentro, provavelmente a enfermeira, antes dela sair pelo corredor com o telefone na mão. A mulher entrou no quarto bem na hora que a porta ia fechar e eu saí rastejando debaixo do banco pra correr atrás. A porta fechou com um clique suave. Encontrei a mulher parada ao lado do leito onde o James estava sentado com as costas encostadas na parede.

A respiração dele estava pesada, mas mais calma do que antes. Uma das mãos descansava numa parte da coxa, o polegar esfregando o lugar. Os olhos dele estavam grudados na mulher. Ele também conseguia vê-la.

James tentou se afastar quando ela chegou mais perto; uma mão com unhas afiadas tocou de leve a bochecha inchada dele. A outra mão foi pro cabelo, enroscando nos fios num carinho lento. Pra minha surpresa, ele relaxou e se encostou no toque carinhoso. Uma lágrima rolou pela bochecha enquanto ele piscava.

“Eu quero”, uma pausa. Ele lutou pra falar. “minha mamãe.”

Ela respondeu se inclinando. A parte onde a boca deveria estar encostou de leve no meio da testa dele. Um beijo. O peito dele subiu e desceu num suspiro longo.

Eu fiquei ali, olhando enquanto ela acariciava o cabelo dele e o mantinha calmo até os paramédicos chegarem. Vi quando levaram ele embora pela sala e pelo corredor. Vi quando ela entrou na ambulância junto e sentou perto dele.

O James nunca voltou.

A segunda vez foi no quinto ano. Eu estava no meio de um círculo de crianças em cima do trepa-trepa onde duas irmãs estavam discutindo quem era a mais corajosa. As duas viviam se desafiando. Na semana passada tinha sido quem aguentava comer a mistura mais nojenta que o Tyler conseguia inventar. Teve muito vômito naquele dia.

Agora uma das irmãs, Tanya, estava de mãos na cintura com um sorrisinho convencido na cara.

“Eu consigo ficar em pé no topo das barras!”

“Prova!” a irmã dela, Marjorie, gritou.

Tanya, fiel à palavra, subiu a escadinha das barras e se arrastou até o topo. Depois de andar até o meio, ela parou na barra central com as pernas tremendo. Todo mundo começou a bater palma, impressionado com o equilíbrio dela naquela barra escorregadia. O pé da Marjorie bateu com força nas aparas de madeira do chão, braços cruzados enquanto Tanya descia.

“É?! Pois então”, ela olhou em volta, os olhos varrendo o campo até que de repente brilharam. “Eu consigo subir a fera!”

Um “ooooh” coletivo passou pela galera. A “fera” era um carvalho gigante de uns doze metros lá no canto mais afastado do campo. O tronco era grosso e impossível de escalar. Quem tentava geralmente escorregava, mas se a Marjorie conseguisse ao menos alcançar o primeiro galho, ela entraria pra história da escola.

Tanya deu uma risadinha debochada. “Aposto que não consegue!”

“Aposto que sim!”

E com isso Marjorie saiu correndo morro abaixo em direção à árvore. Demorou um segundo pra galera entender e todo mundo correu atrás. Ninguém queria perder isso!

Todo mundo se juntou em volta do tronco. Algumas meninas torciam pela Marjorie enquanto ela se preparava pra subir, alguns meninos gritavam que ela não ia conseguir. O pé esquerdo dela testou o tronco duas vezes. Quando achou um ponto de apoio, ela amarrou o cabelo num coque e pulou na árvore. A gente ficou olhando enquanto ela subia devagar, sapatos e mãos cravando na casca toda vez que começava a escorregar. Quando ela estava na metade do tronco, um arrepio subiu pela minha nuca. Olhei por cima do ombro.

A mulher estava parada no fundo da multidão, braços cruzados atrás das costas, olhos fixos na Marjorie. Engoli em seco, olhei rápido pra árvore e abri caminho pela multidão. Quando cheguei na frente dela, fiz um barulho de pigarro pra chamar atenção. Não funcionou. Tentei de novo. Nada. Estiquei a mão e puxei de leve a barra do paletó.

“Oi.”

A cabeça dela abaixou e eu tremi quando aqueles buracos pretos encontraram meus olhos. Minha mão caiu e ficou batendo desajeitada na minha própria coxa.

“Gostei da sua… gravata.”

Nada; nem um leve movimento de cabeça. Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, decidi virar de volta pra árvore bem na hora que a Marjorie estava esticando o braço pro primeiro galho. As pontas dos dedos dela roçaram a parte de baixo. Um suspiro coletivo passou pela galera. Ela bufou e se jogou pra frente. As duas mãos agarraram o galho e ela ficou pendurada ali por exatos dez segundos antes de se puxar pra cima e sentar no galho. Outro suspiro. Todo mundo começou a gritar, pular e comemorar que ela tinha conseguido. Marjorie era a primeira criança a subir a fera.

Com uma risada cheia de orgulho, ela olhou feio pra Tanya, que estava fervendo de raiva.

“Eu disse que conseguia. Na verdade…”

Ela se ajeitou pra ficar de pé e a mulher do meu lado deu um passo à frente. Eu olhei de canto pra ela enquanto Marjorie pegava o próximo galho, depois o próximo. Tanya ficou mais brava ainda, gritando pra ela descer. Ela estava gritando tão alto que um professor finalmente percebeu pra onde todo mundo tinha ido e parou no topo do morrinho.

“O que vocês estão fazendo aí embaixo? Subam aqui agora mesmo, faltam cinco minutos pro recreio acabar!”

Alguns tentaram argumentar, mas o professor balançou a cabeça.

“Eu disse pra sair de perto da árvore!”

Algumas crianças resmungaram e reclamaram, mas como ninguém queria levar bronca, todo mundo começou a subir o morro devagar. Eu mantive os olhos na mulher que ainda estava olhando a Marjorie subir cada vez mais alto.

Algo estava errado.

“Marjorie!” eu gritei, jogando a cabeça pra trás pra ver ela alcançar outro galho. “Você tem que descer!”

“De jeito nenhum!” ela se puxou com um grunhido. “Vou chegar no topo!”

Pensei em subir na árvore pra buscar ela, mas não sabia se eu ia me machucar ou pior no processo. Se eu gritasse pro professor, ia demorar muito pra ele descer e impedir antes que acontecesse alguma coisa. Então, num impulso desesperado, agarrei o braço da mulher e puxei.

“Você tem que parar ela, por favor!”

Ela olhou pra mim.

“Você… você tem que fazer alguma coisa!”

O outro braço dela subiu, a palma virada na minha direção. Os dedos pálidos foram se fechando devagar. Cinco, quatro, três, dois…

Marjorie bateu no chão com um baque nauseante.

Uma série de gritos explodiu do grupo no morro enquanto eu virava a cabeça pra olhar o corpo. Uma das pernas estava torcida pro lado errado e um osso do antebraço esquerdo tinha furado a pele rasgada. Sangue escorria devagar de uma das orelhas e uma folha parecia grudada num dos olhos ainda abertos.

Minhas mãos caíram ao lado do corpo. A mulher ao meu lado se moveu, agachou do lado do corpo da Marjorie e deixou a mão deslizar pela bochecha ainda quente. Ficou ali um tempo enquanto a cabeça dela baixava e os olhos escuros se fechavam. Era como se estivesse dando um momento de paz pra morte dela. Uma aceitação. E parecia que o tempo tinha desacelerado pra não permitir interrupções.

Depois do que pareceu uma eternidade (mas provavelmente não passou de um minuto inteiro), os olhos dela se abriram devagar e ela se levantou completamente. A cabeça virou na minha direção. Minha respiração travou quando ela abaixou só um pouquinho antes de voltar a subir. Um aceno. Reconhecimento. Quis falar alguma coisa, fazer alguma coisa. Mas fiquei pregado no lugar e só consegui olhar enquanto ela passava por trás da árvore grande e desaparecia.

Fecharam a escola por duas semanas pra cortar a árvore. Não queriam arriscar outro acidente.

A gente continuou se encontrando ao longo dos anos enquanto eu ia ficando mais velho. O quarterback estrela morreu num acidente de carro bêbado na noite do baile de formatura. Presenciei um acidente de carro no caminho pra faculdade. Alguém foi desafiado a pular do telhado da fraternidade numa festa; ainda lembro do som do crânio batendo na borda da piscina.

Uma noite, poucos dias antes da formatura, meu pai me ligou. Minha avó estava doente e internada há algumas semanas. Ele disse que ela estava piorando. Mais pálida, mais fraca, uma casca da mulher vibrante que ela já tinha sido. Ele não precisou falar muito; eu já estava arrumando uma mala.

Fiquei de lado enquanto meus pais conversavam com o médico, pegando pedaços da conversa. “Ela não está melhorando.” “Não falta muito.” “Não criem muita expectativa.” Eu sempre soube que esse dia ia chegar. Minha avó tinha 92 anos, o sistema imunológico era frágil e a força quase não existia mais. Ela simplesmente não aguentava. Minha mãe começou a chorar. Saiu correndo pelo corredor com meu pai gritando pra ela voltar enquanto ia atrás. Eu entrei no quarto. A porta fechou com um rangido suave enquanto meus olhos encontravam o leito.

Ela já estava lá.

A mulher, sentada numa cadeira ao lado da cama da minha avó, observava o rosto adormecido dela. Os polegares batiam um no outro no mesmo ritmo das respirações lentas do corpo. Parei do outro lado da cama, ombros tensos.

“Ela tem que ir mesmo?”

Os polegares pararam por uma fração de segundo antes de continuarem.

“Quanto… tempo ainda?”

Não tive resposta; embora eu já esperasse isso. Era raro ela responder minhas perguntas ou sequer dar um oi de volta. Normalmente minhas palavras só recebiam um olhar fixo.

Ao longo dos anos eu tinha criado várias teorias sobre quem ela poderia ser. Talvez fosse um fantasma preso na Terra que escolhia passar o tempo observando quem estava morrendo. Uma vez eu até pensei que podia ser uma alucinação. Um truque da minha mente pra tentar se confortar toda vez que eu via uma morte. Parecia a teoria mais óbvia já que eu era o único que conseguia vê-la, mas sempre voltava pro primeiro encontro.

O James tinha visto ela. Tinha falado com ela. Ela era real.

Minha avó começou a tossir. A mulher ao lado dela foi rápida, levantou da cadeira e pegou a ponta do cobertor fino que cobria as pernas dela. Puxou até os ombros, ajeitando os lados pra manter ela aquecida. Uma mão limpou o suor da testa enquanto a outra alisava o cabelo grisalho pra trás. Cada gesto era feito com um cuidado extremo, como se a pessoa sendo cuidada fosse feita da porcelana mais frágil do mundo.

A mão esquerda dela desceu e parou em cima do coração da minha avó. Os ombros dela caíram por um instante antes de voltarem pra postura séria de sempre. Eu já tinha visto aquela expressão antes. Era a única vez rara que eu via qualquer emoção nela, um vislumbre de como humana ela podia ser.

Agora eu estava vendo de novo. Agora eu via a percepção de que o tempo estava acabando.

A cabeça da mulher baixou, a parte de baixo do rosto roçando a testa da minha avó naquele beijo silencioso de sempre. O queixo subiu e desceu; quase como se estivesse falando. Mas não tinha som. Só o bipe ocasional do monitor cardíaco. A respiração da minha avó começou a falhar. Os dedos da mão direita se fecharam apertando o tecido do cobertor. O peito se expandiu com uma inspiração funda antes de desabar devagar enquanto o último suspiro escapava pelos lábios entreabertos. Ela ficou imóvel. Silenciosa.

O bipe contínuo do monitor foi ensurdecedor.

Abaisei a cabeça pra acompanhar o breve momento de silêncio que a mulher sempre fazia depois de cada morte. Quando finalmente levantei os olhos, ela estava de pé me encarando. Meu lábio inferior tremeu.

“Obrigado.”

Saí do quarto, mas não fui longe. Sentei na guia da entrada do hospital com um cigarro entre os lábios. Acendi o isqueiro bem na hora que a mulher sentou do meu lado. Minha mão congelou no ar, os olhos indo dela pra chama. Baixei o isqueiro.

“Obrigado”, tirei o cigarro da boca e fiquei girando ele entre os dedos, “de novo.”

As mãos dela se dobraram direitinho sobre um dos joelhos, os polegares batendo três vezes antes de formarem um “x”. Foquei no rosto dela; no jeito que os olhos estavam fixos nas estrelas lá em cima. Ela não tinha envelhecido um dia desde a primeira vez que nos vimos. O cabelo ainda era longo, saudável. Até o terno estava impecável. Sem uma dobra sequer; nunca. Era quase impossível imaginá-la desarrumada. Meu polegar passou pelo isqueiro que agora estava na guia.

“Por que eu consigo te ver?”

O queixo dela abaixou. As mãos se apertaram uma vez antes de relaxarem.

“Você… tem um nome?”

Bat. Bat. Bat.

Meu Deus como eu odiava quando ela me ignorava.

“Por favor?”

Os dedos dela se soltaram. Uma mão flexionou, os ossos do pulso estalando enquanto dobrava pra trás demais, depois apontou um dedo longo pra cima. Levantei a cabeça pra olhar o céu. Estava escuro como breu, só com poucas estrelas; tipo espinhas na pele.

“Lua?” Olhei de canto pra ela. A mão dela desceu e eu sorri. “Gostei desse nome.”

Silêncio conhecido. Não tentei preencher. Na verdade eu tinha começado a gostar desses momentos breves que a gente dividia. Momentos que não eram cobertos por morte e sangue; mas uma paz calma.

Mas eu tenho a boca grande e tinha que estragar tudo.

“Então… quantos anos eu vou tirar da minha vida se fumar um cigarro?” Dei uma risadinha com a piada horrível.

Ela não riu. A mão subiu de novo mostrando três dedos. Meu sorriso caiu.

“Entendi.” Olhei pro estacionamento. “Vou morrer por causa de cigarro?”

Os olhos dela se estreitaram na minha direção. Dei de ombros. “Só perguntando.”

Fiquei em silêncio por exatos um minuto.

“E acidente de carro?”
“Assassinato?”
“Incêndio em casa?”

Parei. “Combustão espontânea?”

Ela apertou a pele entre os olhos e eu ri. “Que foi? É uma possibilidade real.”

Deixei os ombros relaxarem enquanto a burrice das minhas perguntas se dissipava no ar. Não era como se eu estivesse esperando respostas de verdade; ela nunca falava. Nem podia, na real; não tinha boca. Mas era bom conseguir algum tipo de emoção da mulher que basicamente me assombrava desde o primário. Ela virou pra mim de novo com um olhar que não era exatamente irritação. Era mais… diversão. Me fez sentir um calorzinho gostoso por dentro; como se tivesse ganhado um tapinha de aprovação nas costas. Ela estava se acostumando comigo, dava pra sentir.

Por isso eu não entendi essa sensação estranha de pavor que começou a coçar a nuca. Era insistente, tentando forçar caminho até a frente da minha mente. Era algo que já tinha acontecido várias vezes antes. Todo mundo tem aquela vozinha na cabeça que faz a gente pensar no pior. Era só precaução. Não era nada.

Então por que doeu tanto quando eu perguntei—

“Eu vou me matar?”

O silêncio que veio depois foi diferente. Ensurdecedor. A mulher ficou completamente imóvel. Nem os dedos estavam batendo do jeito que costumavam quando eu esperava resposta. Era quase um código Morse particular dela; a linguagem dela. Era o jeito dela falar comigo sem usar palavras. Mas agora não tinha nenhum som.

As sobrancelhas dela se juntaram no meio da testa. A cabeça inclinou só um centímetro pro lado esquerdo e o corpo se curvou pra frente o suficiente pra ser perceptível. Era o olhar que se dá pra uma criança que caiu de repente no chão e está procurando consolo. Como se a pessoa estivesse esperando um sinal pra se aproximar, pra fazer “psiu” e acolher.

E isso, por si só, já foi toda a resposta que eu precisava.

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon