Que a boa fortuna me acompanhe, eu te suplico
Mas se meus pensamentos se perderem
Eu permito que você me leve
Para sua fenda desbotada.
Recitei essas palavras no crepúsculo, exatamente como a lenda mandava. Sozinho, em pé na ponte de madeira que cortava o pântano do parque perto de casa. Pássaros-preto-de-asa-vermelha pousando nas taboas, rãs-touro coaxando na lama. Ar perfumado de madressilva e lavanda. O mundo despertando para a primavera.
Eu tinha ouvido o mito pela primeira vez como todo mundo, no pátio da escola, algum contador de histórias em formação aperfeiçoando seu talento nos colegas de classe. Já ouviu falar do Homem Monocromático? Não? Chega perto, vou te contar.
A história sempre era alguma variação disso: ninguém sabe quem descobriu ele e as palavras que rasgam um portal para o reino preto e branco dele. Mas se você falar elas com intenção nos minutos depois do pôr do sol, você firma um pacto com o Homem Monocromático. Ele vai realizar seu desejo mais profundo, com uma condição. Se sua alegria de viver diminuir, ele volta para pegar sua alma e arrastar ela de volta para o mundo sem cor dele. Ninguém consegue te dizer exatamente o que acontece lá, porque ninguém visitou e voltou. Mas alguns dizem que viram o homem, o rosto pálido, a túnica preta, olhos escuros como a meia-noite, uma expressão ao mesmo tempo solene e cruelmente indiferente.
Ele mora num reino sem alegria, povoado por ingratos que falharam em agradecer seu presente.
Bobeira, né? Foi o que eu achei, por vinte anos descartando a história como nada mais que uma lenda urbana. Passada de adolescente para adolescente em festas do pijama, em volta de fogueiras, um clássico bicho-papão, um mito divertido mas sem dente.
Mas aí os trinta me pegaram como um caminhão. A vida deu as boas-vindas à minha quarta década com uma série de tragédias esmagadoras. A morte do meu pai de um AVC fulminante. Substituído por inteligência artificial no trabalho. A morte prematura, e voluntária, de um amigo próximo. Um assalto no meu apartamento que levou tudo de valor que eu tinha. E pra coroar essa merda toda, o diagnóstico de uma condição crônica de saúde. Não vou te entediar com os detalhes, basta dizer que me deixa com muito sono e sem vontade de sair da cama de manhã.
Então eu embarquei numa espécie de busca espiritual por respostas. Aquela fase do "qual é o sentido" que muitos de nós passam em algum momento da vida. Me levou por várias soluções decepcionantes, nenhuma das quais amenizou meu pessimismo.
Aí, tomando umas com uma amiga de longa data, fui lembrado da lenda urbana. "Você podia pedir ajuda pro Homem Monocromático", ela sugeriu de bobeira.
Eu ri. "Você já tentou?"
Minha amiga balançou a cabeça. "Mas alguém que eu conhecia da igreja tentou. Claro, ela morreu de causas desconhecidas logo depois."
Eu olhei pra ela incrédulo. "Mentira."
Ela levantou três dedos juntos. "Palavra de escoteira."
Foi só isso que falamos sobre o assunto. Breve, mas o suficiente pra plantar a semente. Dias depois, enquanto me afundava em outro surto de autocomiseração, comecei a pesquisar a história. Não tinha muita informação online, um post perdido em fóruns de terror, uma referência ocasional nas redes sociais. Encontrei uma imagem da fantasia de Halloween de um universitário interpretando o Homem Monocromático como uma espécie de mímico de pesadelo.
Mas nenhuma discussão substancial, nem mesmo um relato de terceira mão contando como o primo da vizinha da namorada do irmão de alguém morreu logo depois de recitar a incantação no crepúsculo.
Tolo como fui, interpretei isso como pouco risco envolvido no experimento. Ausência de notícias é boa notícia, né? Eu podia invocar a generosidade do Homem Monocromático sem consequências, além da minha própria humilhação particular. Da qual eu já tinha passado por montes. Basicamente tinha me tornado insensível a vergonha.
Foi assim que me encontrei naquela ponte depois do pôr do sol, falando aquelas palavras na escuridão como uma oração desesperada, me achando um idiota mas ao mesmo tempo esperando, Deus, por favor, esperando...
Silêncio. Ninguém nunca explicou essa parte da lenda. Eles davam as instruções, explicavam o propósito do ritual, mas sempre omitiam o cronograma. Fiquei ali, no meio do barulho do pântano, esperando um sinal. Qualquer coisa indicando que meu pedido tinha sido recebido.
Nenhum sinal se apresentou e voltei pra casa como previsto, cabisbaixo e envergonhado.
Mas nos dias seguintes, notei melhorias sutis. Começou com uma boa noite de sono. Nada dramático, mas um benefício perceptível. Uma peça de dominó, caindo contra uma fila de peças maiores, derrubando cada uma por vez.
Teve o encontro casual com uma colega de classe há muito esquecida e a faísca romântica que brilhou no encontro. Uma leva de entrevistas de emprego, resultando num emprego de escritório num escritório de advocacia. Depois um sonho com meu pai falecido me dando palavras de encorajamento, quando antes suas únicas aparições póstumas tinham sido pesadelos terríveis.
Foi meu erro grave não atribuir esses presentes ao meu pacto com o Homem Monocromático. Pois se eu tivesse, talvez nunca tivesse chegado um momento em que minha gratidão vacilasse.
A fraqueza chegou num momento de dúvida. Minhas dificuldades passadas me incutiram um senso persistente de indignidade. Às duas da manhã, enquanto uma tempestade sacudia a cidade, ouvi aquela voz, o pequeno desgraçado que vive pra estragar a alegria. Depois de rejeitar o sono, passei horas na companhia dele, aguentando seus discursos escoriantes.
Quando finalmente me cansei, abri a janela e gritei pra noite.
Como se envergonhado, a chuva cessou.
O quarteirão ficou em silêncio.
A lua se libertou das nuvens e coloriu o mundo em tons prateados.
No silêncio veio um som terrível, que minha mente exausta comparou ao rasgar de carne, ecoando pela avenida. Esticando o pescoço pela janela, avistei uma figura na esquina, estranhamente alongada, sua forma escura produzindo um efeito curioso: como se coberta de lantejoulas, ele cintilava, mas cada lampejo branco era opaco e acinzentado, como a estática de uma televisão antiga sintonizada num canal sem sinal.
Quando ele se virou, vi que seu rosto era branco-giz, olhos envoltos em sombra. Não conseguia ter certeza se ele tinha olhos, honestamente, mas quando relatei esse detalhe pra minha amiga, ela insistiu que eu tinha apenas sonhado o encontro.
"Você não devia ter feito aquela incantação idiota", ela me disse. "Você sempre faz isso, fica paranoico, se fixa no negativo até ele dominar sua vida."
Debatimos esse ponto por algum tempo, depois voltamos ao assunto do Homem Monocromático. Talvez porque a visão me roubou o sono, minha defesa estridente beirou agressão aberta. Terminamos aquela conversa de mal. Faz uma semana. O ego me proibiu de pedir desculpas.
Naquela noite, o Homem Monocromático voltou, dessa vez direto pro meu apartamento. Inquieto na cama, meu olhar fixo no canto do meu quarto, um lugar onde a sombra se acumulava pra formar um não-espaço. Algumas noites, eu imaginava me aventurar naquela escuridão e cair num infinito negro. Achava a noção estranhamente reconfortante.
Mas enquanto observava aquele canto, algo branco e bulboso apareceu ali. Meu corpo travou e embora o terror percorresse minhas veias, não conseguia me mover, não conseguia desviar meu olhar do que logo se revelou ser uma cabeça. Branco-giz, olhos vazios me encarando, como se me convidando a cair pelo vazio deles.
Tentei gritar pra ele ir embora, me deixar em paz, mas minha garganta estava seca demais pra falar. Então ficamos naquele impasse até o amanhecer afastar a sombra que o envolvia.
Frio me percorre em momentos curiosos agora. Calafrios febris apesar do clima quente da primavera. Cor sangra na minha periferia, um desbotamento lento para o cinza. Às vezes, quando giro pra pegar, vejo uma paisagem preto e branco substituir a cidade, um deserto plano e dessaturado se estendendo até o horizonte. Uma árvore solitária se ergue em todo aquele vazio, galhos nus escuros e retorcidos como os dedos nodosos de uma mão artrítica.
E fazendo guarda debaixo daqueles galhos pelados, um homem-sombra alto com rosto branco-pálido, encarando de volta sem olhos, acompanhado da promessa tácita de me arrastar pra sua fenda desbotada.


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