Pra contextualizar: minha antiga casa ficava à beira da U.S. Route 20, que é a estrada mais longa dos Estados Unidos; vai de Boston, Massachusetts, até Newport, Oregon — cortando Nova York de leste a oeste. O tráfego lá sempre foi intenso, mesmo com a cidade sendo muito rural. Do outro lado da casa havia um milharal que se estendia por milhas.
Os acontecimentos que vou contar aconteceram muitos anos atrás. Acredito que eu devia ter pouco mais de uma dezena de anos quando rolou. Eu não tinha muitos amigos na infância, mas todo mundo se conhecia; ninguém era um estranho. No verão a gente dormia sempre com a porta da frente aberta. Era assim que seguro parecia ser lá em casa; nada jamais faria minha família ou eu nos sentirmos inseguros. Quero deixar claro que o que vou contar não tem correlação alguma com essas coisas.
Um amigo meu estava aqui em casa, e era um dia quente de agosto. Se você cresceu em terras agrícolas — especialmente em milharais — sabe que as plantas de milho liberam muita vapor d’água pra se refrescar no calor; então estava abafado; o ar era pesado e pegajoso. Por privacidade, vou chamar meu amigo de Matt. A gente era bem próximo quando criança e frequentava as casas um do outro. Estávamos nas férias de verão, e ele sugeriu acampar no meu quintal. Tínhamos um bom pedaço com árvores locust e pinheiros no quintal, e uma fogueira improvisada cercada por pedras.
Concordei e começamos a montar nosso acampamento. A maior parte do nosso equipamento tava guardada no sótão do nosso celeiro de gado. Não precisávamos de muito: barraca, cadeiras dobráveis e sacos de dormir. Tínhamos lenha de sobra; provavelmente daria pra noite toda. Enquanto eu desenterrava o resto das coisas, Matt achou dois gravetos e entalhou pontas com seu canivete pra gente tostar marshmallows e cachorros-quentes na fogueira.
Quando começamos, o sol já tinha se posto logo acima da copa das árvores, e a barraca ainda não estava armada. Matt e eu passamos uns dez minutos tentando montá-la com o pouco de luz que restava; sei que metemos tudo meio torto, mas ela permaneceu de pé. Acendemos o fogo com relativa facilidade e quase imediatamente começamos a assar os cachorros-quentes. Não lembro exatamente do que falamos, mas a noite era calma e silenciosa. Uma coisa a notar: à noite o tráfego na 20 some de um jeito incomum. Entre nossa conversa, os grilos e as rãs nas árvores, estava muito quieto.
O que aconteceu depois é meio borrão, mas algumas horas se passaram e as únicas fontes de luz eram a fogueira e a luz do alpendre da casa — que só iluminava parcialmente a entrada e um pedaço do quintal. Matt e eu estávamos cheios de hot dogs e marshmallows. Bocejei; ele também. Perguntei se ele tava pronto pra dormir, ele assentiu e esfregou os olhos. Só então, quando Matt se virou e foi pegar nosso balde d’água pra apagar o fogo que morria, ele congelou.
Não ouvi de primeira, mas na segunda vez que aconteceu senti o couro cabeludo arrepiar e as orelhas aguçarem pro som de algo mexendo lá dentro do milharal. Ficamos os dois petrificados, e eu não conseguia me livrar da sensação de que estávamos sendo observados de todas as direções. Nem um de nós falou nada. Olhando hoje, acho que estávamos apavorados demais pra nos mover, e eu não queria que minhas suspeitas fossem confirmadas. Aquela foi uma das raras vezes que eu implorei pra estar enganado.
O fogo já quase tinha se apagado por completo, mas eu via o Matt remexendo na mochila de dormir enquanto olhava pra direção do campo. A luz da fogueira era fraca demais pra gente enxergar alguma coisa. Depois do que pareceu uma eternidade, ele puxou uma lanterna da mochila e apertou o botão.
Olhos brilhantes. Tantas duplas de olhos brilhando em todas as direções, fixos em nós, que não reagiram quando ele iluminou na direção.
Nem preciso dizer: a gente largou o fogo, desmontou o acampamento e correu o mais rápido que pôde de volta pra casa. Infelizmente, eu tropecei em algo e torci o tornozelo num declive da grama, mas ignorei a dor que queimava até atravessarmos a porta e fechá-la na cara do noite. Passamos o resto da noite no meu quarto, encolhidos debaixo dos cobertores.
Na manhã seguinte, meu tornozelo ainda doía, mas não tanto quanto eu tinha temido. Mancava um pouco, mas dava pra andar. Matt e eu voltamos pro nosso suposto acampamento e encontramos tudo espalhado pelo quintal. A comida que não tínhamos guardado tinha sumido.
No fim do dia, meus pais me disseram que uma grande matilha de coiotes invadiu o pasto de um vizinho fazendeiro e, na noite anterior, matou e devorou um bezerro. Eu nunca teria imaginado que uma matilha de coiotes fizesse uma coisa daquelas, mas não é impossível. Me faz pensar no que poderia ter acontecido se Matt e eu tivéssemos demorado mais pra correr.
Ainda sinto arrepios quando penso nisso.


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