Antes, ele nos obedecia, se curvava à nossa vontade. Trabalhamos duro, de forma ritualística, para encher seu barro com nossos mártires locais. Isso, sim, é superioridade. Me mostra qualquer outra cultura que consiga pôr um homem de volta na terra e mandar ele agir. Você não consegue.
Nós conseguimos.
Nós não somos maus. Isso é papo liberal de merda. Só queríamos garantir empregos para o nosso condado. E que se dane se a câmara acha que pode impedir o fracking de sair da cidade. Homem precisa de trabalho, e, se vocês não vão deixar a gente minerar carvão, pelo menos deixem a gente trabalhar em algum lugar. Fechem as minas, as fábricas, os shoppings, a faculdade. O que é que os homens vão fazer? A gente não queria isso.
Bom, a gente fez alguma coisa. Um monte de nós. Por aqui, sempre foi assim. A Klan tomou as rédeas em 1924, por causa da Lei Seca, e agora estamos fazendo de novo. Alguém tem que acabar com o perigo por aqui. Alguém tem que tornar tudo seguro outra vez. Alguém tem que construir um mundo para os nossos filhos.
Não nos chamam de feiticeiros à toa. Queime cruz suficiente, leia livro suficiente, fale com Deus o bastante, e, mais cedo ou mais tarde, você aprende a fazer alguns milagres. Foi isso que Grant fez por nós. É só assim que eu o conheço, e nem sei se esse era o nome dele, o primeiro ou o último. A gente só se via por baixo do capuz, só olhos sem rosto, mas dava para ver pelas mãos gastas e enrugadas que ele era velho.
Muito velho. Tipo, uma geração a mais do que os homens que salvaram nossa cidade cem anos atrás. O pai dele talvez tivesse lutado naquela cruzada. Ele esteve na Klan a vida inteira, o que é admirável. É por isso que ele é o grão-ciclops. É também o homem que trouxe Deus de volta para a minha vida.
Isso pode soar piegas, mas é verdade. Quando você vê um homem ressuscitar os mortos, começa a acreditar no Deus dele muito rápido.
Foi fascinante. As línguas que ele conhecia, os textos que citava. Não é à toa que ele é o Grão-Ciclops. Livros pareciam jorrar da boca dele enquanto ele comandava os ventos.
Queria ser inteligente o bastante para citar alguma coisa aqui, mas o hebraico sempre soou para mim como um monte de “shalalá” e improviso. Não vou pedir desculpa se isso for racista. Eu vi a verdade, e estou em paz com a minha cultura, com a minha tribo. Vocês não são nada perto de nós; temos o poder de condenar o mundo.
Ouvi falar dos serviços pela primeira vez quando eu estava no fundo do poço. Afundando garrafas no único boteco de quinta da cidade. Um homem veio falar comigo, mais ou menos da minha idade. Disse que havia um lugar para gente como nós, homens descartados, masculinos demais num mundo feminino.
Desde o primeiro instante em que ouvi Grant falar, soube que ele era um profeta.
“Eu olho para vocês todos e meu coração se parte. Tantos jovens sem onde ser homens. Sem dinheiro para levar para casa, para suas esposas ou filhos. Sem mulheres para casar! Elas nem querem mais ser mulheres!”
Os ventos se ergueram, roçando o topo do milho e da grama inútil, dando vida a um coro de juncos.
“Deus diz basta. A árvore da vida está quebrada, e nós vamos consertá-la, um galho de cada vez.”
Ele se curvou até a terra e vomitou palavras primitivas e profundas que nos fizeram cair de joelhos. Não reconheci nenhuma delas, mas reconheci quando ele trocou o latim pelo grego e depois pelo hebraico. Esse homem fez a lição de casa.
A cruz se acendeu sozinha. O céu noturno, o firmamento, ficou completamente preto, como se uma cortina tivesse caído. O cadáver que eu não tinha notado antes se arrastou para fora da cruz, tomado pelo fogo, e saiu disparado pelo campo. Um estado entre a vida e a morte, deixando só cinzas no rastro.
O incêndio saiu no noticiário no dia seguinte, mas nada sobre um corpo. Acho que a maioria de nós pensou em ir embora da cidade, largar a própria vida, encontrar religião. Mas todos nós voltamos na semana seguinte. Na verdade, havia ainda mais gente. Tantos picos brancos naquela noite vazia.
Grant estava sempre vestido em roxos ricos, quase sacerdotais. Coragem repousava sobre os ombros dele. Pureza. Confiamos a esse homem tudo. Ele nos mostrou a verdade. Uma fera. Um golem.
Estávamos de joelhos, moldando um homem de barro de três metros e meio à luz tremulante da nossa cruz. Nossas vestes estavam pesadas e duras de tanta terra. Os grilos começaram a se calar, e o cheiro de cabelo queimado ficou cada vez mais forte.
As mãos do homem em chamas cortaram a grama enquanto ele a apartava, entrando no nosso clareiro de sempre. Ele se ajoelhou na altura da virilha da figura de barro e se encolheu como um bebê. Minha mente ficou afiada e distorcida, meus olhos lacrimejaram e minhas gengivas arderam de medo. Os acontecimentos seguintes são um borrão, mas vou tentar descrevê-los.
Todos os nervos de um corpo, desfeitos e incendiados pelo fervor religioso, rastejando para dentro do sistema circulatório de um homem de barro. Eu senti aquilo, eu também estava dentro. Um pedaço de todos nós gravado na simples escrita na testa da fera. Quando meus sentidos começaram a voltar do retrocesso, vi Grant enfiando um bilhetezinho dobrado na boca dele.
Deixamos aquilo para a noite, e ele agiu imediatamente. Na manhã seguinte, um dos conselheiros estava morto, e logo seria substituído por um dos nossos. A entidade não estava lá quando nos reunimos na semana seguinte. Só pegadas chamuscadas e um círculo carbonizado, como se um barril de queima tivesse sido arrastado dali.
Nosso enigma de barro executou nossa vontade por cerca de um mês antes de tudo azedar. A gente resolveu boa parte dos problemas que afligiam a cidade, substituindo aquelas pessoas horríveis que estavam deixando comida longe das nossas casas. Mas precisava parar. Alguém ia sacar toda a sequência de assassinatos. As portas da frente destruídas. As pegadas da força imparável que estava salvando nossa cidade.
Mas isso não vai parar. Não parou. Nem vai parar até arrancarmos esse papel da boca fria e sem vida dele. Nem até alterarmos a escrita na testa dele. Ele ainda está em fúria. E está ótimo. Nem precisamos enforcar mais nenhum ilegals ou da nossa própria terra; ele faz isso por nós. Quando o FBI vem à cidade, ele amassa os carros e entorta os rifles ao meio. Um Super-Homem de verdade. Isso tem que acabar em algum momento.
Infelizmente, ele só aparece para aqueles que vai matar, imediatamente antes de matá-los. Nenhum de nós consegue descobrir para onde ele vai quando termina o serviço, nem quando vai agir de novo. Ele já matou alguns de nós até agora, mas o número só aumenta. Outro dia ele saiu da cidade para matar o xerife. Vai continuar matando os que se opõem a nós até o mundo ficar vazio. A violência se perpetua sozinha, eu acho.
Ele matou Grant na semana passada. Então, agora eu nem sei mais o que podemos fazer a respeito. Ele o ergueu, drenou a vida dele bem diante de nós, na luz ardente da nossa própria cruz. Tentamos invocá-lo, domá-lo. Mas ele não quer ser domado. Se você for alto o bastante para alcançar a testa dele, já pode se considerar sortudo se conseguir passar só um borrão antes que ele quebre seu antebraço em dois, talvez três pedaços. A lama é surpreendentemente firme e inflexível. Ele é forte o suficiente para estourar a cabeça de um homem como se fosse uma melancia. Confie em mim, eu vi isso.
É como a singularidade. A IA que meio que sente quando você está prestes a desativá-la, e luta com todas as forças para não ser desativada. Não sobra milagre nenhum que possa impedir isso.
Deus nos ajude.


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