domingo, 17 de maio de 2026

Eu Saí em Busca da Mina de Ouro do Holandês Perdido. Queria Nunca Tê-la Encontrado...

Eu fui criado ouvindo a lenda da Mina de Ouro do Holandês Perdido a vida inteira. Meu pai era obcecado. Ele lia todas as histórias, fazia trilha em cada caminho, e encontrava todo mapa que conseguia. Ele acreditava de verdade que seria ele quem encontraria o ouro. Eu duvidava que alguém um dia encontrasse. Agora eu queria nunca ter encontrado.

Mesmo depois que meu pai se foi, eu voltava para as Superstition Mountains todo ano para procurar o ouro. Chame de hábito, chame de loucura, chame do que você quiser. Eu fazia isso por ele. Pra honrar a memória dele. Sempre que eu estava lá fora, sozinho no deserto, olhando pro céu noturno, eu quase conseguia sentir que ele estava bem ali do meu lado e talvez, só talvez, uma partezinha de mim acreditasse que eu ia encontrar o ouro e ficar rico além dos meus sonhos mais malucos.

Tudo começou num outono, quando eu estava me preparando pra fazer minha viagem anual. Eu tinha conseguido uma pista sobre uma cópia de um mapa usado por um garimpeiro que tinha desaparecido procurando o ouro. Eu já tinha participado de dezenas de buscas, e meu pai, de umas cem antes de mim.

Eu tinha me afastado muito de qualquer trilha, até ficar bem perdido. O sol estava começando a se pôr e eu estava quase sem água. Eu não percebi o desnível na escuridão até ser tarde demais. De repente, eu estava despencando de um penhasco, rolando por entre arbustos e cactos. Eu nem tinha entendido o que tinha acontecido até recobrar a consciência no fundo de um barranco. Milagrosamente, eu sobrevivi, mas fiquei todo ralado e minha cabeça doía pra caralho. O sol já tinha sumido completamente e a temperatura tinha caído rápido. Minhas únicas companhias eram as estrelas lá em cima.

Eu tentei me levantar, só que meu tornozelo cedeu. Tinha torcido feio — talvez até quebrado. Eu puxei minha lanterna e consegui achar um dos meus bastões de caminhada que tinha rolado lá pra baixo comigo. Apoiei todo o peso nele. E consegui começar a andar. Em que direção? Eu não tinha como ter certeza.

Ao longe, entre as silhuetas dos cactos e das árvores de ironwood, eu vi uma forma humana e assumi na hora que era outro trilheiro — ou talvez busca e salvamento vindo me procurar. Tentei gritar, mas minha voz saiu surpreendentemente rouca e a pessoa não pareceu me ouvir. Ela começou a se afastar e, desesperado por qualquer saída daquele barranco, eu fui atrás.

Quando cheguei mais perto, percebi que era uma mulher — e bem jovem, inclusive. Ela usava um short velho de trilha e uma camisa de flanela. Parecia vestida leve demais pra aquele horário da noite, mas não tremia. Eu tentei chamar de novo, mas ela ainda não respondeu. Só que, pra mim, ela parecia saber pra onde estava indo e, no meu delírio de concussão, eu decidi continuar seguindo.

Ela me guiou pra fora do barranco e pra dentro de um leito seco de enxurrada. Nós seguimos por ele por um bom tempo. Eu esperava encontrar água — talvez um riacho que, por algum milagre, ainda estivesse correndo — mas não tinha nada. Minha guia era tão silenciosa quanto a noite, e eu comecei a sentir que tinha algo errado. Ela nunca virava a cabeça pra olhar pra mim, nunca falava, nunca sequer diminuía o passo. E a luz da minha lanterna nunca parecia bater nela. Eu comecei a ter medo de que ela estivesse me levando ainda mais pra longe da civilização — pra onde eu queria voltar desesperadamente.

Justo quando eu estava prestes a dar meia-volta e tentar achar meu próprio caminho pra sair, minha luz passou por cima de algo no leito seco que chamou minha atenção. Era mais circular e mais achatado do que qualquer pedra natural. Eu me aproximei e peguei. Levantei na luz e meus olhos quase não acreditaram no que viram: um velho dobrão espanhol de ouro, ali sabe-se lá há quanto tempo. Algumas lendas diziam que, antes mesmo do Holandês encontrar a mina, mineradores espanhóis já tinham trabalhado aqueles veios.

Todo o medo e a suspeita foram jogados fora ao pensar em encontrar a mina do Holandês, e eu continuei atrás da mulher, tentando alcançá-la. Não importava o quão rápido eu corresse, ela sempre parecia, de algum jeito, ficar à minha frente. Apesar do quão estranha aquela mulher era, nada conseguia me incomodar enquanto eu sentia a moeda na mão. Ela estava fria, mas parecia muito mais leve do que eu tinha imaginado. Tinha que haver mais.

Ela continuou seguindo por um tempo, sem nunca olhar pra trás. Por fim, saímos do leito seco e chegamos a um afloramento de rochas na base de uma colina. O ar estava pesado. Nenhum grilo cantava, nenhum animal chamava. Eu senti como se olhos estivessem sobre mim. Olhei em volta tentando achar a origem, mas não vi nada. Quando olhei de novo na direção da mulher, ela tinha sumido. Eu examinei as rochas tentando entender pra onde ela foi, até encontrar uma entrada estreita de caverna.

Eu presumi que ela tinha entrado na caverna e que talvez o ouro estivesse lá dentro, então eu fui atrás. A entrada era apertada e eu tive que me espremer de lado pra passar, mas, uma vez lá dentro, eu consegui ficar em pé normalmente sem problema. Era surpreendentemente quente e úmido lá dentro, depois do frio do deserto. Ainda assim, eu percebi que, na mesma hora, eu sentia falta do frio. Eu passei a luz ao redor. A caverna era enganadoramente comprida, curvando e entrando fundo na montanha. O quanto ela ia longe eu não fazia a menor ideia.

No chão, havia fragmentos antigos de equipamento de trilha e de mineração. Uma lanterna velha, estilo anos 50, a cabeça de uma picareta enferrujada e uma bota de trilha mais nova — mas nada de ouro. Ainda não, pelo menos. Meu coração disparou só de pensar.

Ainda não havia sinal da garota, mas não parecia que ela estava me esperando. Eu ainda não fazia ideia do que ela estava fazendo lá fora nem por que tinha me levado até ali. Eu achei que conseguia ouvir o arrastar de passos mais pra dentro da caverna. Presumi que fosse ela, então eu andei mais fundo.

Eu caminhei por um tempo, ouvindo aquele arrastar e seguindo os artefatos ocasionais de viajantes de outros tempos. O arrastar parecia estar só um pouco mais adiante quando eu tropecei em alguma coisa. Apontei a lanterna pra baixo e congelei. Era um esqueleto humano, quase todo reduzido a osso. Pedacinhos de carne cinzenta, seca, ainda se agarravam aos membros, e havia cabelo na cabeça. Aí eu reparei nas roupas. Velhas e apodrecendo também — mas eu reconheci. Era a mesma flanela e o mesmo short que a garota estava usando.

A compreensão veio de uma vez, imediata. Era ela. Ou o corpo dela. Podia existir outra explicação, mas eu não conseguia pensar em nenhuma. Ela estava morta, mas alguma coisa dela ainda permanecia naquele escuro.

Os pelos da minha nuca se arrepiaram, e eu já estava praticamente pronto pra ir embora quando minha luz bateu em algo refletivo logo à frente. Eu precisava ver o que era. Entrei numa câmara grande. Minha boca caiu. Espalhados por todo o chão, havia pepitas de ouro e moedas. Na parede da caverna, havia um veio de ouro tão grosso quanto a minha coxa, e ele seguia pra além do alcance do brilho da minha lanterna. Tinha ouro mais do que suficiente pra deixar um homem rico e confortável pelo resto da vida.

Então eu ouvi o arrastar.

Eu esperava ver a garota — ou o fantasma dela — mas eu só ouvi uma respiração no escuro. Funda e áspera.

Eu congelei.

Devagar, eu ergui a lanterna e apontei pra origem. Eu mal consegui ver antes de recuar num salto. Era mais pálido que a lua, não tinha olhos, e tinha orelhas enormes. Eu me encostei na parede da caverna e, quando apontei a luz de novo pra onde aquilo estava, não havia nada ali. Aí eu senti uma gota cair em cima de mim e ouvi um rosnado cruel.

Eu mirei a luz rápido e vi aquela coisa no teto da caverna, bem acima de mim. Ela escalava como uma aranha e, assim que minhas botas rasparam no chão, ela se lançou direto em mim. Eu atingi a criatura com a parte pesada da lanterna e derrubei no chão. Saí correndo, mais fundo na caverna.

Eu conseguia ouvir aquela coisa me perseguindo. Ela se movia aos pulos, raspando pela parede. E então, de repente, eu parei.

Eu ouvi mais respirações ásperas e mais arranhões, mais fundo. Tinha mais deles. Eu não tive coragem de ir adiante. Eu ouvi um raspar no teto acima de mim. Aquele de trás tinha alcançado. Eu fiquei completamente imóvel, sem nem respirar. Apontei a luz pra ele e vi a criatura inclinar a cabeça como se estivesse escutando. Eu tateei os bolsos atrás de qualquer coisa que eu pudesse jogar. Senti algo frio e redondo no bolso.

O dobrão de ouro.

Eu arremessei o mais longe que consegui e ouvi ele rolando caverna adentro. A criatura acima de mim correu atrás do som, e eu corri na direção oposta, de volta, rumo à saída. Eu quase atravessei a câmara do ouro em disparada quando ouvi uma voz baixa:

— Espera.

Eu parei na hora. A voz vinha logo além da câmara. Havia um brilho suave.

Eu me aproximei e, de pé bem na frente dos ossos, estava a mulher que eu tinha visto antes. Pela primeira vez eu conseguia ver o rosto dela. Ela era linda, mas parecia tão cansada.

Ela disse: — Este não pode ser meu descanso final. — A voz dela era pouco mais que um sussurro. — Por favor, tira meus ossos daqui. Eu quero dormir onde eu possa ficar ao sol.

Lá do fundo da caverna eu ouvia o arrastar se aproximando. Parecia que eram dezenas. Meus olhos correram pro ouro e depois pros ossos. Eu só tinha tempo de pegar uma coisa ou a outra. Eu hesitei só por um instante, então me ajoelhei diante dos ossos. Esvaziei minha mochila e enchi com os ossos da mulher. Eu ouvi quando eles entraram na câmara do ouro, bem na hora em que eu me virei pra disparar.

Eu me espremei pra fora pela entrada e continuei correndo. Eu corri e corri até não sobrar ar nos meus pulmões. Minha garganta estava seca e eu não conseguia recuperar o fôlego. Enquanto eu puxava o ar chiando, olhei pra trás com a lanterna. Eu não vi nenhuma daquelas coisas, mas eu não ia ficar esperando elas me encontrarem.

Eu caminhei a noite inteira, ignorando o frio. Ignorando o cansaço. Ignorando a sede. Existiam coisas piores na noite.

Por fim, uma luz surgiu no horizonte e eu encontrei um riacho ainda correndo, mesmo tão tarde no ano. Eu caí de joelhos, fiz concha com as mãos, levei a água até a boca e bebi. Bebi até me satisfazer.

Depois disso, eu achei meu caminho até a estrada e peguei carona de volta pro meu carro. Os ossos chacoalharam na mochila o caminho todo. Eu dirigi pra longe da escuridão daquela caverna, onde aquelas coisas viviam entre riquezas sem fim.

Às vezes eu ainda penso no ouro. Mesmo agora, eu quase consigo sentir aquela moeda na minha mão — mas eu não conseguiria achar aquela caverna de novo nem se tentasse. Eu sei que é melhor que o ouro do Holandês continue perdido. Eu escrevo isso pra me lembrar de que alguns segredos são melhores quando ficam guardados no escuro.

Naquela noite, eu dirigi até um lugar que eu conhecia. Uma colina tranquila com um único pé de mesquite, de frente pra um campo de algodão. Ali, ela poderia ver o sol nascer.

Sob a cobertura da escuridão, eu cavei uma cova e deitei os ossos dela lá dentro. Quando terminei de cobrir com terra, o céu já cintilava dourado, enquanto o sol começava a subir. Eu me afastei e encarei o túmulo. Por um breve momento, eu vi o semblante dela. A escuridão que eu tinha visto no rosto tinha desaparecido, e eu achei que conseguia ver um sorriso. Então ela se foi.

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