quinta-feira, 14 de maio de 2026

Algo aconteceu no túnel B da fábrica de frango

Está doendo de novo.

Ainda consigo sentir. Apertando. Enroscando.

Aquele aperto frio e viscoso.

Meus amigos me dizem pra falar sobre isso, mas, honestamente, todos me olham como se eu fosse louco.

Eu não sou louco.

Aconteceu há três dias. Eu trabalho numa fábrica de frango local como funcionário de manutenção. Eles processam toneladas de carne todo dia, do início ao fim. Normalmente, esses tipos de lugares dividem os processos em fábricas menores, mas não aqui.

Desde a suspensão das aves vivas, desossa, corte em cubos, preparo e até algumas linhas cozinhando frango que você mesmo pode ter comido em alguma lanchonete local de fast food. Eles faziam tudo. Mas veja, não é só eficiência limpa.

Tem trabalhos sujos também.

A maioria das miudezas, pedaços e outros restos vira ração pra cachorro, mas isso não significa que ainda não haja toneladas de carne desperdiçada que é jogada no sistema de drenagem da empresa. Uma série de grades, canos e canais entrelaçados que desembocam num grande lago de águas residuais.

É, eu sei o que você tá pensando, não pode ser muito bom pro meio ambiente local, mas eu acho que quando a parada chega nos canos de drenagem já tá praticamente estéril e diluída o suficiente pra ser liberada no mundo.

É um pesadelo no verão. A cidade inteira odeia. Mas isso não impede eles de deixar os adolescentes, amigos e familiares trabalharem lá. Afinal, quase não tem mais nada por perto.

É por isso que eu tô aqui, no fim das contas. Paga melhor do que trabalhar nas linhas e é basicamente trabalho de faz-tudo.

Um parafuso solto aqui, um cabo de energia trocado ali. Na verdade, tudo que você tinha que fazer era prestar atenção no que os caras mais velhos faziam e talvez assistir a alguns vídeos no YouTube aqui e ali nos intervalos pro almoço. No entanto, tinha um trabalho que você nunca pegava nenhum dos veteranos fazendo.

Desobstrução de canos. De vez em quando, alguma grande massa de pele, gordura e talvez uma sacola plástica ou duas ficava presa em algum lugar e causava algum refluxo ou começava a se aglomerar perto de um dos túneis que desembocavam no lago de drenagem. Geralmente era um trabalho bem simples.

E você sempre voltava cheirando a carne podre. É por isso que eles fazem os caras mais novos fazerem. Caras como eu e o Mikey, que fez da última vez que teve um problema, então, aparentemente, era a minha vez. Ótimo.

Eu optei por almoçar antes de descer pro poço, imaginando que eu não estaria exatamente com vontade depois. O relatório falava sobre drenagem mais lenta, algumas das grades levando uma hora pra escoar completamente quando deveriam levar minutos, e um odor persistente de podridão subindo do túnel B.

Isso significava verificar cada grade e canal desde o piso da fábrica até a saída de concreto que se projetava sobre o lago por uns bons seis ou sete pés.

Então eu me pus a trabalhar. Peguei um rádio, algumas das luvas de borracha grandes que usávamos pra limpezas, e um cultivador de jardim de três pontas que a manutenção tinha começado a usar pra dragar torrões teimosos das águas cheias de gordura.

Verificando as grades que eles relataram, não encontrei sinais óbvios de obstrução além do refluxo. Ainda assim, eu tirei as tampas de metal e tentei peneirar pelo líquido vermelho-acastanhado. A ponta do cultivador raspou contra o concreto e só conseguiu puxar alguns pedaços de gordura e uma pena meio despedaçada.

Eu segui a linha pra baixo e repeti esse processo algumas vezes antes de pensar que seria mais fácil encontrar onde a água não estava acumulada.

Então, desci pelas escadas de manutenção, entrei no túnel B e fui andando. Quanto mais eu descia, mais funda a água ficava. Nada perigoso. Bem, além do risco de perder meu almoço por causa do cheiro. Só uma polegada ou duas de água suja.

O chapinhar dos meus passos virou um barulho de chafurdar quando a água chegou na altura do tornozelo. Eu nunca fiquei tão agradecido por aquelas botas de borracha feias e desconfortáveis que eles faziam todo mundo usar enquanto eu arrastava os pés pelaquela parada.

Aí, finalmente, na altura da canela. Nessa altura eu já tava começando a ficar nervoso. Minhas botas iam bem alto, mas se a água ficasse mais funda eu acabaria precisando voltar e pegar um par de calças de água ou algo assim. Felizmente, parecia se manter bem consistente quando eu cheguei no último trecho do túnel de drenagem. Eu gostaria de poder dizer o mesmo do cheiro.

O fedor tava aumentando rapidamente, não era mais o cheiro velho de aves esterilizadas mas podres.

Isso era quase como esgoto ou como naquela vez que eu tive que puxar um gambá morto do galpão do vizinho.

Doce, mas errado, como fruta podre até o ponto em que aquele músculo gorduroso te atinge e fica preso no fundo da sua garganta.

A caminhada me levou até a saída. Um bueiro quadrado que levava direto à descarga. Eles mantinham os túneis bem iluminados, mas eu ainda conseguia ver o reflexo da luz do sol vindo pela grade grande que separava o túnel do mundo exterior.

Eu podia dizer mesmo de longe que a água não estava escoando direito.

O fluxo uniforme de sempre era algo mais parecido com uma espiral lenta e preguiçosa, como se estivesse engasgada e mal escoando por algum buraco perto do fundo da grade. O som de um fluxo constante de água agora era um gotejar seguido de um respingo ocasional enquanto o lixo ocasionalmente escoava sobre o que quer que fosse a obstrução.

E o som de zumbido.

Meu Deus, as moscas deviam estar se divertindo pra caralho com isso.

Eu andei pelas beiradas onde a passarela se mantinha nivelada apesar do próprio túnel de drenagem descer em declive. Isso significava que o que quer que estivesse causando a obstrução era grande o suficiente pra cobrir vários pés de grade.

Isso ia ser uma merda. Não tinha como não ser alguma grande massa de pele, gordura e penas que de alguma forma tinha escapado pelo processamento. Acontecia. Talvez não tão ruim, mas acontecia de vez em quando.

A poça aqui tinha começado a turvar, parecendo mais com o lago lá fora do que com o líquido marrom-avermelhado de costume que eu estava acostumado a ver escoar por essas grades. Estava tão espessa que eu nem conseguia ver o fundo.

Então, naturalmente, eu peguei o cultivador e enfiei a cabeça fundo na água, arrastando a ponta do mais fundo que eu conseguia e começando a raspar pra cima.

E definitivamente tinha algo ali, uma espécie de resistência borrachenta entre o cultivador e a grade de metal. O que quer que fosse, eu não conseguia pegar tração nele. Quando eu puxei a cabeça de volta, ela foi seguida por uma massa de lodo verde tipo algas.

Eu quase vomitei. O fedor piorou quando eu puxei a massa pra fora da água. Um cheiro como lama de lago misturado com carne pútrida.

Foi o suficiente pra me distrair do fato de que a água ao redor dos meus pés não estava apenas se movendo com meus próprios movimentos.

O fato de eu ter vomitado, aquele solavanco repentino enquanto eu sentia a refeição de frango barata fornecida pela empresa me deixar e se juntar à água embaixo, me fez fechar os olhos por tempo suficiente.

Algo apertou.

Forte.

Ainda não doía. Como se alguém tivesse estendido a mão da lama turva pra tentar me puxar pra baixo. Um aperto forte o suficiente pra que, em todo o meu debater, eu nem conseguisse sair da minha bota pra fugir.

Um aperto que se encontrou no meu outro pé, me fazendo cair de costas na grade.

A coisa toda tremeu com o impacto. O som de metal sacudindo ecoando pelos túneis.

Eu diria que eu respirei fundo, me acalmei e tentei meu rádio.

Mas eu não fiz isso. Não, em vez disso eu gritei, me debati e enfiei meus dedos na grade atrás de mim. Eu tentei desesperadamente me alavancar pra cima e pra fora da água, longe do que quer que estivesse me tocando, me empurrando de costas contra a grade.

Quanto mais eu puxava, mais apertada a sensação ficava. Toda vez que eu era puxado pra baixo enquanto puxava freneticamente minhas pernas, o que quer que fosse subia mais uma polegada ou assim.

Eu não parei de me debater até que não estava mais apenas segurando minhas botas, mas dentro delas, derramando nelas e esfregando contra meus pés.

Você já segurou pele de frango crua? Sentiu aquela textura fria e borrachenta? É tudo o que eu conseguia imaginar naquela hora, minhas botas enchendo de pele solta se contorcendo.

O cheiro. Eu nunca vou esquecer aquele cheiro. Não importa o quanto eu esfregue minhas pernas, eu juro.

Às vezes, quando eu estou sozinho. Quando não tá acontecendo nada.

Eu sinto aquele cheiro encharcado e doentio de podridão.

Em algum lugar do meu pânico, o clipe barato do rádio deve ter quebrado, ou talvez ele só tenha sido empurrado pro lado errado quando eu bati na grade. Não sei. Eles nunca o recuperaram.

Então ali estava eu, hiperventilando e segurando naquele metal gorduroso como se minha vida dependesse disso enquanto algo subia lentamente pelas minhas pernas. Parecia que quanto menos eu lutava, mais devagar a coisa se movia.

Foi quando eu consegui ver ela, ou pelo menos parte dela. A parte que tava subindo por mim era principalmente um limo transparente com manchas amarelo-brancas que eu eventualmente identifiquei como pedaços de gordura junto com algumas manchas de líquido descolorido borbulhando retido na sua forma.

Quando encontrava a água embaixo, eu via uma mistura de manchas vermelho-ferrugem que se moviam preguiçosamente, suspensas no que quer que estivesse mantendo essa coisa junta.

E mais fundo na água, mal visível sob a superfície, haviam torrões pretos mais concentrados que ocasionalmente boiavam perto o suficiente pra ver enquanto a coisa se deslocava pelo meu corpo.

Eu gritei, chorei, berrei. Tão fundo nos túneis, provavelmente ninguém ia me ouvir. Claro, talvez se entrassem na escada de manutenção, mas como eu disse.

Ninguém descia aqui a menos que tivesse que descer.

A pior parte? Eu conseguia ver a cidade. Através da grade, ali na distância eu mal conseguia ver a estrada levando pra longe da fábrica e até a cidade em si.

Nenhum dos meus gritos importava. Os carros continuavam dirigindo, a cidade continuava se movendo enquanto eu tinha que ficar ali parado e esperar essa coisa me matar.

Eu acho que foi uma hora depois que eu vomitei de novo. Não estava exatamente com pressa depois que eu parei de lutar. Naquele ponto eu estava esperando que alguém simplesmente notasse que eu tinha sumido e viesse me buscar. O lodo tinha subido lentamente até meu estômago e ainda tava apertando. Isso, junto com o fato de que eu conseguia distinguir o que parecia muito com larvas de mosquito se contorcendo naquelas pequenas bolsas de água amarelada presas dentro do lodo, tornou a vontade difícil de resistir.

Isso foi um erro.

Eu não conseguia me inclinar pra frente exatamente, então uma boa parte simplesmente escorreu pelo meu macacão de trabalho.

E quando fez contato com a coisa, eu pude ver o movimento parar. A coisa toda pareceu congelar.

Começou a beber. É a única forma que eu consigo descrever. Ela sugou o fio de vômito pra dentro de si. Eu podia ver os pedaços de branco e marrom da refeição de frango empanado sendo sugados pra uma das partes mais escuras da massa fedida.

Ela se movia em contrações, como uma garganta engolindo repetidamente.

Eu ainda vejo. Ainda vejo o momento em que começou a seguir o rastro de vômito.

Ainda lembro da sensação pegajosa entre meus dedos enquanto eu arrancava ela, jogava pedaços de gosma pra longe só pra ela reagir prendendo meus dedos tão apertado que eu ouvi algo estalar.

Ela tava me prendendo na grade. Não mais rastejando pra cima, mas se movendo em surtos curtos e pulsantes, apertando, esmagando.

Eu senti minha cabeça ficando leve. Tentei mover minha perna de novo, mas a coisa respondeu apertando minha perna direita com uma força esmagadora. Eu senti algo ceder seguido por uma dor cegante que me fez gritar.

A última coisa que eu lembro é algo frio, molhado e viscoso subindo pelo meu queixo e o gosto de mofo e bolor enfiando na minha boca.

E aí nada. De acordo com os médicos, eu devo ter caído na água enquanto tentava limpar uma obstrução, o que aparentemente eu fiz, porque quando alguém finalmente foi verificar como eu tava, a água já tava escoando normalmente.

Comigo deitado, espalmado, encostado na grade.

Eu não sei por que ela me deixou vivo.

O que eu sei é que quando eu acordei, eu tentei vomitar. Ainda conseguia sentir aquele gosto de podridão velha na minha boca, cheirar no meu nariz, sentir na minha pele. Era demais.

Água. Principalmente, de qualquer forma, espessa e morna com um fedor que era muito familiar.

Os médicos me mandaram pra casa com um gesso e alguns antibióticos, me disseram pra ligar se sentisse algum sintoma tipo gripe.

Agora eu tô preso aqui sentado, me perguntando enquanto tento esquecer a dor latejante na minha perna e aquele gosto que não some não importa o que eu coma.

Ela parou na minha boca?

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