segunda-feira, 11 de maio de 2026

Tem Algo de Errado com Todo Mundo Lá Fora

Cheguei em casa tarde do meu trabalho por volta das quatro da manhã, depois de um longo turno em um dos bares locais da nossa cidade. Eu tinha o dia todo de folga amanhã planejado: dormir até a tarde, depois pizza e filmes até ter que ir pra cama, mas quando acordei com o som de um alerta no meu celular que era muito mais potente do que o meu despertador padrão poderia ser, eu me sentei alerto na cama, como se estivesse esperando ser arrancado debaixo dos cobertores e levado pra fora da porta. Eu limpei o sono dos meus olhos pra ver que porra o meu celular tava fazendo tanto barulho, então, quando minha visão focou pra ver a enorme mensagem escrita em vermelho na tela inicial, meu coração começou a bater mais rápido ao ver "FIQUE DENTRO DE CASA".

Saí da cama, meu coração acelerando. Não conseguia deixar de pensar nas milhares de implicações diferentes que essa mensagem tinha. A solução mais óbvia pra mim, pra saber o que tava acontecendo, era simplesmente abrir as cortinas e olhar lá fora. Mas não conseguia deixar de me atrasar. Na minha cabeça, naqueles poucos segundos entre ver a mensagem e acordar, minha percepção daquelas cortinas mudou drasticamente — de simplesmente impedir a entrada do sol pra impedir qualquer ameaça que pudesse estar apenas rondando atrás delas.

Decidi que preferia checar nas redes sociais pra ver o que tava acontecendo, como se isso fosse fazer diferença. Era como se eu pudesse fingir que tava acontecendo com outra pessoa. Eu já era praticamente um recluso, tirando ir pro trabalho, então isso podia ser o empurrãozinho final pra uma crise completa de ermitão paranoico. Tudo que eu tentava procurar sobre o que a mensagem significava tava sendo derrubado na minha frente. Cada postagem que ousava perguntar "O que tá acontecendo lá fora?!" ou "Você viu o que aconteceu com eles?" era prontamente removida por violar alguma regra que eu tenho certeza que eles inventaram na hora. A única pequena evidência que consegui ver foi uns cinco segundos de um vídeo, que eu consegui dizer que foi gravado no centro da cidade. Naqueles poucos segundos, vi o que parecia ser algum tipo de pó acinzentado caindo suavemente sobre as pessoas que aproveitavam o fim de semana no festival de verão, que apontavam nervosamente pra cima naquela visão estranha.

O vídeo foi derrubado antes que qualquer coisa mais acontecesse, mas aquilo sozinho já tava me deixando mal. Me enrolando na cama pra tentar recuperar o aconchego que foi perdido, eu fiquei sentado ali encarando a janela, me preparando psicologicamente pra simplesmente ir lá e dar uma olhada de uma vez. Mas aquele medo do desconhecido já tinha feito uma bela casinha nova dentro da minha amígdala, agindo como um conjunto de correntes pra me manter seguro do que quer que estivesse espreitando lá fora.

Precisava falar com a minha colega de quarto, esperando que ela me dissesse o que eu queria ouvir. Alguma besteira de tranquilização que acabasse com essa parada toda. Então quando bati na porta dela e andei pelo resto do apartamento escuro pra encontrá-la, só acendi a luz da cozinha pra ver o bilhete que ela tinha deixado:

Ei

Ouvi que você ainda tava dormindo, então vou buscar comida. Me manda mensagem se precisar de alguma coisa!

Volto logo!

Sara

Meu celular vibrou: "Tô voltando agora. Por favor, abre a porta, esqueci minhas chaves". Agora, nos últimos quinze minutos, eu tinha visto e ouvido praticamente nada do mundo lá fora, então minha paranoia tava a mil, enquanto outras partes do meu cérebro tentavam apagar o incêndio que o primeiro alerta tinha começado. TOC TOC O som rompeu o silêncio frágil, me sobressaltando. A Sara tava de volta.

Fiquei parado encarando a porta da frente como se nunca tivesse visto ela antes. Por que eu tava esperando? Ela tá bem ali atrás daquela porta, com respostas sobre o mundo lá fora, então só preciso destrancar a porta e deixar ela entrar. Então por que eu tava tremendo tanto? TOC TOC "Pode me deixar entrar?" Era a voz dela. Foi um pensamento estúpido que eu tive. Por que não seria? Mas ainda assim, tinha algo de errado, sutilmente, na voz dela. Tinha um leve rouquidão, como se ela tivesse dificuldade pra falar. Chamei ela nervosamente: "Desculpa, tô com dificuldade de achar minhas chaves, que engraçado, como foi a cidade, aconteceu alguma coisa enquanto você tava lá fora?" Eu tava segurando minhas chaves contra o peito tão apertado que achei que iam perfurar minha pele enquanto esperava pela resposta dela. "Tava tudo bem," a voz dela veio seca, com mais um toque de raiva dessa vez.

"Você viu o alerta?" perguntei desesperadamente, tentando impedir que minha própria voz desmoronasse. Pareceu uma eternidade antes que ela respondesse: "Ah, aquilo foi só um teste, você ouviu no noticiário que eles tavam fazendo isso, né?" A atitude dela tinha mudado drasticamente, como se ela estivesse colocando tudo nessa performance. Não conseguia descrever o medo que senti naquele momento. Tudo isso simplesmente parece errado. Encostei na porta pra ver pelo olho mágico, mas só tinha escuridão. Ela tava cobrindo.

Tava me preparando pra fazer uma última pergunta que eu sabia que ia mudar tudo. Essa situação não ia embora, não até eu perguntar: "Por que você tá cobrindo o olho mágico?" Silêncio. Um silêncio horrível, de morte. Os segundos passavam como horas antes que a Sara respondesse num tom de raiva mal contida. "Por que você tá tentando me olhar? Não tem nada de errado comigo. Eu não sou como os outros". Dando alguns passos trôpegos pra trás, ouvi as palavras dela caírem pra um sussurro quase inaudível: "Tô bem. Tô bem. Tô bem." Ela fez isso pelos próximos minutos repetidamente, enquanto eu ficava parado no corredor com toda a cor sumindo do meu rosto, e antes que eu tivesse outra chance de fazer uma pergunta, ela começou a bater na porta.

BANG! Era aterrorizante de ouvir, mas a porta era forte e não mostrava sinais de ser arrombada. Eu esperava, pelo menos, não querendo colocar isso à prova. O que a Sara tava fazendo era desesperado; se ela não fosse deixada entrar, ela ia tentar com tudo que tinha arrombar aquela porta. Enquanto isso, eu peguei cadeiras e outros móveis pra colocar contra a porta, enquanto hiperventilava. Pouco tempo depois, os golpes e gritos dela contra a porta inflexível cessaram; logo depois, soluços podiam ser ouvidos. Lágrimas escorriam pelo meu rosto pelo estresse e pela traição que nós dois provavelmente sentíamos um pelo outro.

Supliquei a ela em desespero: "Por favor, só me fala o que tá acontecendo lá fora!?" Os soluços da Sara diminuíram. "Só vai lá fora" foi tudo que ela disse antes que eu pudesse ouvi-la ir embora soluçando alto de novo, intensificando a culpa que eu sentia em dez vezes. Depois que não consegui mais ouvi-la, fui sentar na sala na única cadeira que eu não tinha forçado contra a porta da frente, então lentamente deixei meus olhos vagar até as janelas e as cortinas que me mantinham selado aqui dentro. Era hora de olhar lá fora.

No começo, puxo o tecido macio de volta sutilmente. Eu sei perfeitamente que tô piorando as coisas pra mim mesmo, mas não posso mais adiar isso. Abro as cortinas de lado pra revelar nada além da visão normal da cidade abaixo, exceto... cadê todo mundo? Eu moro no segundo andar de um complexo de apartamentos com vista perfeita dos lugares mais movimentados da cidade. Com minhas noites tardias e acordares ainda mais tardios, o barulho que eles faziam a toda hora do dia me mantinha acordado por horas. Então por que tava tão quieto agora?

Escaneei lá embaixo pra ver se alguém tava andando lá fora, mas nada. A única coisa que consegui entender foi que algo tinha acontecido pra fazer todo mundo correr pra dentro. Aí eu vi, quase derretendo fora de vista: a rua tava coberta por algum tipo de pó rosa escuro. Tentei dar um sentido pra isso, só pra me agarrar em qualquer coisa. Talvez fosse algum tipo de pétalas que colocaram pra um festival, ou era só lixo que tinha sido jogado lá, todas essas teorias caíram por terra quando avistei uma pessoa dando um passo corajoso lá fora.

Pelo que consegui dizer, ele era um homem na casa dos quarenta e tava saindo de uma loja de conveniência com alguns passos cautelosos, da mesma forma que você se esgueiraria pela casa tentando não acordar seus pais voltando de uma noite fora. Eu tava tão desesperado pra falar com alguém, pra ajudar a dar um sentido nisso, que tava prestes a abrir minha janela pra gritar pedindo ajuda, quando o céu começou a escurecer, e começou a nevar pó cinza escuro de novo.

Ele se virou rápido, tentando recuar pra segurança do ambiente fechado, mas quando suas mãos alcançaram a porta, descobriu que tava trancada. Eu conseguia ver outro homem do outro lado da porta, balançando a cabeça com medo da vista do tempo lá fora. Eu conseguia ouvir o homem gritando daqui de cima: "Só me deixa voltar! Ainda não me tocou. Olha!" Era o mesmo tipo de súplica desesperada que a Sara tinha feito, e, como ela, ele começou a bater na porta desesperadamente, mas nesse ponto, o pó tinha caído em pequenos torrões dançando no ar, então aterrissou suavemente na cabeça, braços e costas dele, e foi aí que ele começou a gritar, e eu também, enquanto eu via ele se transformar.

O pó parecia se enterrar na pele dele, o corpo dele ficou rígido como se estivesse em posição de sentido, mas enquanto o corpo dele estava duro, eu conseguia ver nos braços descobertos dele que a pele começou a se mexer como se alguma força invisível tivesse puxando ela pra trás, tratando o corpo dele como um brinquedo pra satisfazer sua diversão doentia. A pele nos braços dele apertou e puxou pra trás, tanto que os ossos dos dedos começaram a furar a pele das mãos dele, como se a carne dele fosse um tipo de luva e o esqueleto dele tivesse apenas tirando elas, os ossos dos dedos dele estavam cobertos de restos de tendões e sangue enquanto ele rasgava o caminho pra fora do próprio corpo, então ele se virou pra encarar a direção do meu prédio em agonia e medo, possivelmente pra parar os olhares horrorizados que ele tava recebendo dos outros atrás das janelas dentro da loja. Em seguida, eu consegui ver o que tinha acontecido com o rosto dele.

Onde o pó tinha se depositado no topo do crânio dele, parecia puxar com desespero pra fora da parte de trás da cabeça dele. Uma bolha grossa de carne tinha começado a se formar onde toda a pele tava sendo girada como uma manivela que tava sendo torcida e virada, então a cada torção, todas as partes do rosto dele puxavam pra trás, os olhos dele estavam mais arregalados do que nunca, sua capacidade de piscar foi tirada, então ele não tinha escolha a não ser assistir o que acontecia consigo mesmo. As narinas dele se dividiram e quebraram, fazendo a cartilagem dele um bico branco translúcido que empurrava a frente do rosto dele pra fora como uma camiseta sendo rasgada, os dentes de cima dele rasgaram os lábios enquanto as laterais da boca dele eram puxadas pra trás num sorriso de pesadelo no qual ele não tinha voz.

Depois que pareceu que a torção tinha parado, a bolha de sangue que ficou na cabeça dele, que tinha acumulado todos os músculos puxados, escorregou lentamente, pingando no chão. Seu trabalho feito, caiu no chão e, pelo que eu consegui dizer, tava se banqueteando com sua recompensa. A massa rosa escura se desfez em segundos, consumindo a si mesma como um parasita faminto e derretendo como sorvete de morango no sol quente, deixando o que restava do homem agora um pesadelo parado ali na rua sem nada mais pra fazer além de gritar de dor e se olhar com as pálpebras forçadamente abertas nos reflexos das janelas ao redor dele.

Recuando da janela em horror, tentei desesperadamente limpar a vista do corpo grotesco dele da minha mente. Será que tinha sido isso que aconteceu com a Sara? Será que ela tava vagando por aí agora, com a mesma expressão de surpresa constante no rosto? Enquanto me levantava do chão da sala, o som de vidro quebrando podia ser ouvido, eu nem precisava olhar pra saber que ele tinha arrombado de volta pela janela da loja. Olhei mesmo assim.

O fato de que ele não entrou em choque e desmaiou depois de sofrer tava fazendo minhas entranhas se revirarem. Mas eu imagino que a única coisa que restava pra ele sentir além da dor óbvia era a raiva e traição que ele sentia em relação àqueles que o abandonaram lá fora nas nuvens de pó. Gritos horrorizados podiam ser ouvidos de dentro da loja, ecoando pelas ruas vazias. Ninguém ia salvar eles, muito menos eu. Tudo que eu podia fazer era assistir enquanto ele arrastava as poucas pessoas pra fora na tarde nublada e elas ficavam cobertas pelo mesmo pó.

Me escondi envergonhado atrás da porta da sala, enrolando meus braços em volta das pernas, ouvindo os gritos de todas aquelas pessoas enquanto se transformavam em algo que você contaria numa fogueira. Mais tarde, quando começou a diminuir, me forcei a olhar atrás das cortinas mais uma vez pra ver se finalmente a nuvem de pó tinha passado, só pra ver que todos os monstros de olhos semicerrados lá embaixo tinham desaparecido, todos exceto um que ainda podia ser visto correndo em direção às portas da frente do meu complexo de apartamentos, o som dos sapatos molhados deles cheios do próprio sangue batendo no concreto, todos com olhos impossivelmente arregalados fixos em mim.

Os passos apressados deles podiam ser ouvidos pelo corredor, enquanto eu não podia fazer nada além de me armar com uma faca de cozinha e segurá-la firme. A expressão no rosto deles me aterrorizava. Eu conseguia ver aqueles olhos injetados de sangue deles que agora só continham a faísca de um louco. O que quer que os tivesse afligido, nem sequer tinha deixado a sanidade deles, quase como se eles fossem compelidos a levar mais pessoas lá fora pro pó. A porta do corredor nesse andar se abriu e bateu contra a parede.

Outros já estavam dentro do prédio, batendo nas portas dos meus vizinhos numa busca falsa por santuário. Eles batiam nas portas com súplicas: "Tem alguma coisa aqui fora, meus filhos estão em perigo!" ou mentiras: "Você precisa tirar sua família daqui! Por favor, só sai lá fora!" Isso vinha das bocas quebradas deles e dos sorrisos puxados pra trás e era só uma artimanha pra fazer alguém abrir a porta, e a horda de pesadelos cuidaria do resto. Não demorou muito antes que ao meu redor eu ouvisse os gritos de pessoas que eu mal conhecia. Olhei de novo pelo meu olho mágico pra ver algumas pessoas que tinham feito a escolha infeliz de abrir as portas na esperança de fazer a coisa certa ou escapar de qualquer outro monstro que tinha sido criado. Em vez disso, elas foram levadas rapidamente, quase desfiladas pelo corredor e descendo as escadas. Ou se tudo mais falhasse, eles recorriam a arrombar a porta, esmagando os ossos e músculos expostos contra a madeira maciça, enquanto todo mundo, incluindo as pessoas no corredor, uivavam. Então, atravessando o corredor, um rosto quase irreconhecível voltou pra me cumprimentar: Sara.

Diferente da última vez, ela não cobriu o olho mágico, me deixando ver o que se tornou dela. Ela era como os outros, uma coisa feral e louca cujo único propósito era fazer outras pessoas se juntarem à agonia dela. A pior parte é que ela não disse uma palavra, apenas encarou com os olhos dela, agora completamente expostos, diretamente no buraco como se soubesse que eu tava encarando de volta. Não faço ideia de quanto tempo ela ficou assim. Meu corpo tava tremendo, e meus pés estavam grudados no lugar. Ela sabia que era só uma questão de tempo antes que eles entrassem. Pra onde eu ia ir?

Era como assistir uma execução acontecer toda vez que eles empurravam outra pobre alma lá fora pra ser puxada, esticada e moldada em outra besta. Mas depois que o processo cruel terminava, eles iam pro prédio mais próximo pra encontrar mais. As nuvens ativavam como um sensor toda vez que outra pessoa que não tinha sido rasgada e esticada pisava no aberto.

Eu checava compulsivamente, frequentemente esperando que a Sara tivesse seguido em frente, mas ainda assim ela ficava ali esperando. Os olhos dela deviam estar numa dor infernal, todos eles deviam estar. Nas últimas horas, eles estavam achando cada vez mais difícil de se locomover; eles eram como morcegos se lançando em qualquer pequeno ruído que ousasse fazer sua presença conhecida. Já tarde da noite, Sara e alguns outros devem ter ficado cansados de esperar que as pessoas saíssem, então começaram a arremessar seus corpos assombrosos ainda mais forte contra a porta. O som de ossos quebrando e carne espirrando contra a madeira me fazia estremecer a cada tentativa. Em algum momento, aquela porta vai ceder.

É por isso que tô tentando postar isso agora. Não sei por que isso tá acontecendo, ou por que toda vez que alguém tentava divulgar a notícia em qualquer lugar, era derrubado. Então essa é a minha tentativa. Tô preso aqui dentro com nada além de uma faca de cozinha. Nunca machuquei ninguém antes, e ainda não quero, porque só algumas horas atrás, aquelas coisas lá fora eram pessoas. Tô escrevendo isso agora de dentro de um dos meus armários, esperando que eu fique escondido deles tempo suficiente pra que eles vão embora.

Eles estão dentro.

Vou atualizar isso assim que eles forem embora, então até lá, por favor, se você tá lá fora, você precisa encontrar um lugar pra se esconder o mais rápido possível.

Boa sorte.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon