Eu nunca tinha levado ela pra escola antes. O trabalho tomava praticamente todo o meu tempo de segunda a sexta, mas na última semana das férias de verão a mãe da minha mulher faleceu. Ela foi pro sul pra apoiar o pai dela e ajudar com os preparativos do funeral. O que me deixou segurando a barra.
Por mais que eu sinta falta dela, tem sido legal passar tanto tempo a sós com a Rosemary. Ela é a cara da mãe, e a semelhança não para por aí. Tem o mesmo senso de humor afiado e uma inteligência emocional muito além dos seus seis anos. Eu suponho que, comigo sempre no trabalho e a Rosemary sendo filha única, faz bastante sentido. Elas passam muito tempo juntas, especialmente nas férias.
A Rosemary ficou feliz em me dar direções enquanto eu dirigia pra escola. Eu sei o caminho, claro, mas eu gostei de fingir que não sabia.
"Então, primeiro dia do segundo ano," eu provoquei.
Ela se virou e fez uma cara de nojo pra mim. Eu conseguia saber exatamente qual expressão ela tava fazendo sem tirar os olhos da estrada.
"O quê?" eu ri.
"É terceiro ano, na verdade," ela disse com toda a naturalidade.
"Não acredito! Quando você ficou velha?"
Ela só sorriu e virou pra olhar pela janela.
"Papai?"
Sempre que ela tinha alguma coisa pra dizer, a Rosemary tinha que falar meu nome primeiro e esperar eu responder. Eu tinha dito pra ela várias vezes que ela podia simplesmente começar a falar e eu ia saber que ela tava falando comigo, mas parecia que nunca entrava na cabeça dela. Era fofo, se não fosse um pouco frustrante às vezes.
"Sim?"
"Era perigoso quando você ia pra escola?"
Isso me pegou de surpresa.
"Perigoso?"
"É. Por causa dos dinossauros!"
Ela explodiu de rir da própria piada; o som era tão contagiante.
"Muito engraçado," eu ri baixinho, "tá animada pro primeiro dia de volta?"
"É."
Crianças — ótimas em manter conversas.
"O que você tá mais animada pra fazer?"
Ela não respondeu na hora. Eu quase conseguia ouvir as engrenagens girando.
"Brincar com os meus amigos. Ah, e a minha professora nova é a Dona Mollie. A Giovanna diz que ela é a melhor!"
A Giovanna é prima da Rosemary, pelo lado da minha mulher. Ela tá no ano acima.
"Você não vai sentir falta da sua professora antiga?"
"Não," ela respondeu, tão rápido que devia ter sentido fortemente sobre isso. "Ela era a pior professora."
Eu senti uma pontada de culpa de repente. Minha própria filha tinha sofrido um ano com "a pior professora" e eu não fazia ideia.
"Por que ela era a pior?" eu instiguei.
"Ela ficava sempre brava. Não gostava de diversão. Ela me repreendeu quando eu chorei."
"Ah, isso não é muito legal."
"No último dia de aula eu preguei uma peça nela."
A Rosemary riu sozinha e me lançou um sorriso malicioso. Essa é a minha garota, eu pensei.
"Foi ideia do Javion," ela continuou, "nós estávamos na cabana de arte, e ela entrou no armário onde ficam as canetas e o papel, e eu tranquei a porta!"
Eu ri. Eu lembrava de ter feito algo parecido nos meus tempos de escola.
"Por ali!" a Rosemary gritou, se inclinando pra frente no banco, apontando pra rua que levava à escola dela. Eu tinha visto isso chegando de longe, mas tinha escolhido fingir que não tinha. A Rosemary tava se sentindo muito orgulhosa de si mesma.
Eu estacionei o mais perto que pude dos portões da escola, que não era perto de nada. Minha mulher tinha reclamado do desembarque na escola antes, mas era ainda pior do que eu imaginava. Eu acompanhei a Rosemary pela calçada até o portão da escola. Eu a abracei forte e beijei na testa.
"Tenha um ótimo dia."
"Vou ter!" ela cantarolou, e depois saiu correndo pra se juntar a uma fila de outras crianças do tamanho dela.
Eu fiquei olhando pra ela por um tempo, encontrando as amigas, conversando sobre o que quer que crianças conversem, sempre sorrindo.
Minha atenção se voltou pros professores. Todos pareciam estressados, nem estavam fingindo estar felizes por voltar ao trabalho. A Rosemary olhou pra mim, eu acenei pra ela e voltei pela calçada.
Um grupo de mães ocupava a calçada à frente, dois carrinhos de bebê formando uma barricada. Elas pareciam absortas numa conversa séria, ou numa fofoca séria, eu não conseguia dizer qual de longe. Quando eu cheguei mais perto, eu ouvi pedacinhos de informação.
"A Dona Elsie não apareceu pra dar aula pros segundos anos, ela não tá atendendo o telefone nem nada."
"Eu ouvi que ela não tava no dia de treinamento dos professores também."
"Uma amiga minha é vizinha dela, e ela diz que não viu ela o verão todo."
Eu parei no lugar, uma onda de pavor me invadiu. Dona Elsie, a professora do segundo ano, a professora da Rosemary no ano passado. Eu me virei de volta pra escola e subi até os portões com as pernas bambas. As crianças já tinham entrado todas. Eu fui até a recepção e tentei acalmar a respiração.
"O-oi, eu sou o pai da Rosemary... Hum, ela deixou o casaco na cabana de arte antes das férias de verão. Minha mulher me pediu pra buscar de volta," eu mal consegui soltar as palavras.
"Sim, claro," a recepcionista alegre respondeu. "É só virar à esquerda do prédio, ainda não foi aberta, então aqui está a chave. Só devolver quando terminar. Pode deixar aberto."
Ela sorriu um sorriso brilhante e excessivamente amigável e voltou ao trabalho.
É uma coincidência, eu ficava me dizendo enquanto caminhava pelo lado esquerdo do prédio.
A cabana de arte era daquelas salas de aula temporárias, quase como um trailer estacionado, mas mais básica. As paredes tinham uma textura áspera, pintadas de azul-marinho, e um teto plano de feltro.
Meu estômago tava embrulhado quando eu me aproximei da porta. As chaves tilintavam na minha mão trêmula. Eu empurrei a porta e entrei.
Partículas de poeira giravam na luz do sol, formando retângulos longos pelo chão. Meus olhos varreram o lugar, então focaram na mesa. Uma bolsa estava sobre a superfície. As palavras da Rosemary ecoavam na minha cabeça.
...eu preguei uma peça nela...
...eu tranquei a porta...
Meu coração acelerou quando eu olhei pro que eu supunha ser o armário de armazenamento. Eu caminhei devagar em direção a ele, os pés mal saindo do chão, minha mente esperando o pior e tentando me tranquilizar ao mesmo tempo.
Eu tentei a porta. Trancada.
"Por favor, não," eu sussurrei pra mim mesmo.
Eu girei a trava. A porta se abriu sozinha.
O som veio primeiro, o baque úmido contra o carpete. Depois o cheiro.
Eu pulei pra trás, engasgando, cobrindo o rosto com as mãos enquanto meu café da manhã jorrava entre os dedos. Por mais que eu não quisesse olhar, eu não conseguia desviar o olhar.
Ela tava enrolada em posição fetal, segurando os joelhos contra o peito. Eu imaginei que ela tinha estado encostada na porta. A pele dela tava marrom e enrugada, bem esticada nos ossos. O vestido branco de verão estava manchado com grandes manchas úmidas de amarelo e marrom.
Ela tava morta, por causa da minha pobre, doce e inocente Rosemary. Uma brincadeira infantil, com consequências severas.
Eu solucei descontroladamente enquanto saía correndo pra fora. O que eu ia dizer? O que isso ia fazer com a Rosemary se ela descobrisse? Se eu contar a verdade, todo mundo vai saber. Se eu mentir, se eu simplesmente "acontecesse" de descobrir o corpo enquanto procurava o casaco da Rosemary, então o quê? Não ia demorar muito pra fazerem perguntas. Quem trancou o armário?
Eu não sei o que fazer.
Eu não sei o que fazer.
Eu não sei o que fazer.


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