As maiores mudanças na vida costumam acontecer de formas inesperadas. Na época em que tudo isso aconteceu, eu não esperava que nada fosse impactar minha rotina. Eu estava preocupado com coisas do tipo: será que a Marissa vai responder minhas mensagens ou vai me deixar no vácuo pelo quarto dia seguido? Será que eu vou ter que fazer um extra na semana que vem, ou consigo folga pra ir num show? Era esse tipo de coisa que eu tava pensando, não sei lá o que tava rolando com as bancadas da minha cozinha.
Deixa eu explicar.
Naquela época, eu morava num apartamento. O dono tava reformando, mas teve atraso na entrega de umas coisas. Tipo, uma pia nova pro banheiro. O proprietário trocou enquanto eu tava fora. A próxima era a bancada da cozinha.
Antes era aquele negócio barato, esbranquiçado, de madeira prensada tipo cortiça. Agora tinham trocado por lajes de pedra. Nem pensei nisso até chegar do trampo e ver o bilheto na porta.
"Instalação concluída. Agradecemos sua paciência!"
Mal dei bola. Bancada de cozinha é uma daquelas coisas que a gente nem nota. Só percebi quando fui fazer um sanduíche e vi que, pô, essas paradas eram bem daoras. Lisa, polida, de pedra. Gostosa de encostar. Um pouquinho quente. Cada pedaço era diferente, com formas e desenhos variados na pedra.
A bancada tinha quatro partes retas e uma de canto. Passei a mão em cada uma. O micro-ondas e o porta-facas ainda tavam lá, então eles devem ter arrumado tudo na mão. Foi gentileza da parte deles.
Quando cheguei na parte do fundo, meu polegar pegou em alguma coisa. Não sei direito o que era, mas parecia um farpa. Coloquei o dedo na boca, mas não fui rápido o suficiente. Algumas gotas de sangue caíram na bancada. Tinha acabado de instalar e já tava manchada de sangue. Isso tinha que ser azar.
Nunca descobri no que meu polegar pegou.
Não dei muita bola nos dias seguintes. Passava por aquelas bancadas quando fazia janta, escovava os dentes, essas coisas do dia a dia que a gente nem pensa. Faz parte do ambiente. Pedra, madeira, plástico; tanto faz. É só mais uma coisa, e coisas não importam muito quando você tá atrasado pro trampo ou finalmente recebe resposta da Marissa sobre se encontrar no domingo que vem.
Um dia, tava lá cortando uma laranja, espetei o dedo indicador. Mais umas gotas caíram na bancada. Enquanto enrolava o dedo num papel, vi o sangue acumulando no meio da bancada. Nunca tinha reparado, mas tinha uma leve inclinação. Qualquer líquido derramado naturalmente ia pro meio, e se fosse muito escorria como se fosse um bico. Nenhuma outra parte fazia isso, só a do canto.
Limpei e comi minha laranja, sem pensar muito. Tem muita coisa por aí superengenhosa que a gente nem conhece metade das funções. Tipo aqueles copinhos de papel branco de ketchup em fast food. Sabia que eles abrem? Ficam duas vezes maiores. É uma daquelas coisas que dá pra passar a vida inteira sem notar.
Por umas duas semanas, tudo normal. Trabalho, tomar um café com a Marissa, dormir cedo. Só a rotina. Mas reparei que tava numa fase de azar. Sempre tinha alguma coisa me incomodando, mas era coisa leve. Corte de papel, escovar os dentes com força demais, morder o canto da unha até sair um sanguezinho. Coisas assim. Mas toda vez que acontecia, não conseguia deixar de notar duas coisas.
Primeiro, que quase sempre acontecia perto daquela bancada.
E segundo, que qualquer gotinha de sangue derramada sempre acumulava tão naturalmente no centro, como se a bancada tivesse sido feita pra isso.
Lembro do pensamento me pegando de surpresa, que nem um gato de rua. Tava comendo um sanduíche na cozinha depois de uma noitada. Enquanto esperava o celular vibrar, pensei em quantas vezes tinha sangrado naquela bancada sem querer. A resposta, quando parei pra contar, me surpreendeu.
Eu tinha sangrado nela todo dia desde que ela chegou.
Parecia improvável, mas quando coloquei na cabeça, era a verdade. Sempre passava fio dental andando pela cozinha, e minha gengiva não tava lá essas coisas. Um sanguezinho ali. Tinha uma caspa no braço que, quando coçava, sangrava um pouco. Mais umas gotas ali. Corte de papel aqui, escorregão da faca ali, um bife bem sangrento... de um jeito ou de outro, por umas duas semanas, tinha sangue naquela bancada todo santo dia.
Atribuí a azar, e mesmo assim era só uma curiosidade. Assim que o celular vibrou, o pensamento sumiu que nem pássaro assustado voando pro céu.
Mas comecei a prestar mais atenção. Tava sendo mais cuidadoso. Parei de andar enquanto escovava os dentes, passei a sentar e contar os segundos. Comecei a preparar comida em outra parte da bancada, como se privar aquela do canto me desse algum controle. Mas mesmo assim, umas gotas acabavam chegando lá, de um jeito ou de outro. Às vezes quando nem tava prestando atenção.
Por exemplo, um dia matei um mosquito grandão nela, deixando uma manchinha de sangue. Outra vez tive um sangramento nasal, e só percebi quando já tava na minha mão. Apesar da minha resistência (modesta), umas gotas sempre chegavam naquela bancada de qualquer jeito. Foi aí que aquele pensamento estranho me atingiu pela primeira vez.
Sempre tem sangue na bancada.
Sempre fui meio supersticioso. Evito quebrar espelhos ou passar debaixo de escadas. Pô, nem falo "obrigado" quando alguém diz "saúde" depois de um espirro. Ouvi dizer que isso dá azar também. Não é que eu acredite que o universo vai virar contra mim se eu deixar de fazer certos rituais, mas é mais um conjunto de comportamentos que foram marcando em mim ao longo dos anos. Acho que todo mundo tem coisas assim que precisa fazer. Pequenos equívocos e superstições que nos fazem acreditar que as coisas funcionam de jeitos que não funcionam.
Comecei a considerar a possibilidade de que, de alguma forma, tinha que ter sangue na bancada. Não questionei como, nem por quê, mas a ideia em si fazia sentido. Tinha tido um sanguezinho ali todo dia, isso era verdade. Tudo tinha sido por uma série de pequenos azares, mas isso não mudava o fato.
Mas acho que o que me deixou inquieto era aquele sulco. Aquela leve inclinação, fazendo toda gota de líquido acumular no meio. Era tão perfeito. Simétrico. Como se a própria pedra tivesse sido feita pra esse propósito.
Eu só teria que esperar pra ver. Ia viajar por uns dias, então não ia ter sangue na bancada de qualquer forma.
Fiquei fora uns dias. A Marissa e eu távamos nos vendo, e eu fiquei na casa dela. Também tinha uma viagem de trabalho na segunda seguinte, então fiquei fora de casa por uns dias. Quando voltei, tava tão exausto que nem pensei na bancada. Pô, quem em sã consciência ia pensar nisso?
Só prestei atenção quando ouvi um barulho estranho. Vinha da cozinha. Deixei a mala e notei dois sons distintos e reconhecíveis bem antes de atravessar a porta. Um era o sibilo de um vento súbito. O outro era o zumbido de moscas.
Tinha um pássaro morto no chão. Tinha arrebentado a janela, batido na minha cozinha e morrido. As moscas já tavam festejando nele. Dava pra ver elas rastejando por todo lado, as asas tremulando. De longe parecia estática; aqueles pontinhos pretos espalhados num padrão aleatório, a única constante sendo o movimento delas.
E como sempre, tinha sangue na bancada.
O proprietário, um cara alto e magricela nos seus 40 e poucos, me fez colocar um papelão na janela enquanto esperávamos o vidro novo. Quando veio inspecionar o estrago, passou o dedo na beira do vidro quebrado. Naturalmente, se cortou um pouco. Enquanto corria pra lavar, umas gotas de sangue caíram na bancada, porque claro que caíram. Qual é a dessa mania de tocar em coisas que a gente sabe que vai se machucar?
"Vai demorar uns dias," ele resmungou. "Tá curtindo as bancadas? Bem daoras, né?"
"É, daoras," falei, concordando. "Bem mais lisa."
"E mais resistente," ele acrescentou, dando um toque nelas. "Vai precisar de um marreta pra fazer um amassado nisso aqui."
"Sabe do que é feito?"
"Algum tipo de pedra? Calcário, acho."
Ele deu uma batidinha na pedra e foi embora feliz da vida, virando só quando chegou na porta.
"Vou arrumar a janela até semana que vem. Desculpa pela inconveniência."
Embora o pássaro morto tenha sumido, as moscas ficaram. Elas se aglomeravam naquela bancada, como se ainda sentissem alguma coisa nos seus sulcos. Ou talvez soubessem que ia ter mais sangue. De qualquer forma, elas vieram pra ficar. Tive que comprar uma raquete de matar mosca e pendurar do lado da geladeira. Peguei uma azul, com um girassol no cabo.
Numa manhã, indo pro trampo, sabia que ia voltar tarde. Ia encontrar a Marissa depois do trabalho, e provavelmente ia dormir lá. Isso me fez parar. Se eu fosse embora, outro pássaro ia arrebentar a janela? Que outra absurdidade poderia acontecer?
Mas pensando bem, nada podia acontecer. Não tinha prova nenhuma de que isso fosse coisa além da minha mente supersticiosa inventando história de fantasma. E mesmo assim o zumbido das moscas contava outra história. Elas não tavam ali por imaginação. Elas queriam sangue.
Não sei o que me fez estender a mão sobre a bancada. Tinha um corte pequeno no polegar e fazendo uma pressãozinha deixei uma gota de sangue escorrer. Não senti nada quando ela caiu no sulco, centralizando-se perfeitamente na bancada. Não sei por que fiz isso, mas senti um alívio no peito. Como se tivesse colocado as coisas nos eixos.
Podia ir embora com a consciência tranquila.
No fim de semana seguinte, a Marissa tava fazendo uma reuniãozinha com umas amigas. Eu tinha planejado ir, mas de última hora ela teve que cancelar. Tinha um vazamento no banheiro dela. De impulso ofereci pra ela vir pra minha casa. Não távamos namorando fazia tanto tempo, mas seria uma boa hora de conhecer umas amigas dela e quebrar o gelo. Deu um trabalho convencer, mas ela acabou topando.
A Marissa chegou cedo. Fizemos uns aperitivos juntos e preparamos uns drinks. Ela passou pelo menos duas horas montando uma playlist. Fiz um cartaz e coloquei no corredor, avisando pros vizinhos que ia ter uma reuniãozinha. Tudo bem casual, normal. Foi legal, parecia coisa de casal. A gente não tinha feito muito disso antes.
A gente esperava umas dez pessoas, mas algumas trouxeram acompanhante. Uns jovens de 20 e poucos anos misturados com amigos de trabalho já nos 30 e poucos. Uns trouxeram vinho, outros ficaram só com sorrisos e salgadinhos. Meu corredor era pequeno demais pra caber todos os casacos.
A gente se divertiu razoavelmente. A Marissa ia de um grupo pro outro, fofocando e conversando, me deixando pra cuidar dos detalhes práticos. Tirar coisa do forno, encher tigelas, botar copos, abrir garrafas de vinho, esse tipo de coisa. Enquanto isso ela tava flutuando por aí, fazendo as pessoas admirarem o vestido novo dela. Não era tão chique assim; custou menos de 30 pila. Mas convenhamos, ela usava bem.
Eu tava, admito, meio de mau humor. A Marissa mal tinha me apresentado pra alguma amiga, e não ouvi ela me chamar de namorado pra nenhuma delas. Era uma coisa que a gente já tinha conversado; a relutância dela em assumir o relacionamento de vez. Em vez disso ela só me apresentava pelo primeiro nome e saía correndo pra próxima aventura. Me frustrava. É um sentimento feio.
Mas a gente se divertiu. Teve umas brincadeiras de festa, drink pra caramba, e aquele tipo de filosofia de madrugada aos gritos meio particular que só surge de vinho em abundância e uma cadeira de cozinha confortável. Não aprendi um nome sequer de quem veio aquela noite, mas lembro das nossas conversas sobre assuntos absurdamente profundos. Espera, acho que tinha um cara chamado Kibble. Ele tinha uma teoria toda sobre probabilidade.
Por volta da meia-noite, as coisas tavam meio embaçadas. Tinha bebido demais, e metade dos convidados já tinha ido embora. Quem ficou se dedicou a terminar o que sobrou nas garrafas. A Marissa tava meio dormindo no sofá, agarrada numa amiga e quase cochilando no ombro dela. Enquanto isso, eu tava na cozinha, lavando uma taça de vinho. Uma das convidadas tinha mania de não querer reencher a taça; tinha que limpar entre um gole e outro. Não me incomodava, era bom sair daquela sala um pouco.
Não lembro o nome dela, mas era uma das convidadas mais novas. Ela entrou, pegou a taça e encostou na bancada. Segurou a garrafa de vinho e fazia conversa fiada enquanto balançava ela. Tinha muitas ideias grandiosas e palavras rebuscadas, fazendo o balanço da garrafa ir cada vez mais longe. Finalmente, enquanto espantava uma mosca que zumbia perto do rosto, ela quebrou a taça. Por instinto, tentou pegar os cacos. Fechou os dedos nas bordas afiadas e paralisou.
Ela sangrou das mãos. Os outros correram pra ver o que tava acontecendo. Acho que não notaram que as moscas tavam ali o tempo todo.
Enquanto olhava pros outros, percebi algo inquietante. Enquanto o sangue acumulava no centro da bancada, ninguém parecia preocupado. Ninguém gritava, chamava, ou corria pra ver o que tava rolando. Era como se já soubessem. Só ficaram parados, olhando, enquanto o sangue escorria das mãos dela.
Ela também não parecia se importar. Nenhuma urgência, nenhum pedido de band-aid, nada. Podia dar um passo pro lado e passar a mão na torneira de água fria, mas em vez disso ficou parada, deixando o sangue acumular na bancada. Enquanto olhava pro quarto, fui o primeiro a falar.
"Será que eu chamo uma ambulância?"
Não teve resposta. Em vez disso ela apertou as mãos um pouco, forçando mais um fio de sangue. Os outros só observavam.
"Você tá bem?"
De novo, nada. Só o zumbido das moscas.
Depois de uns minuto, ela se moveu e passou a mão na torneira. A Marissa pegou uma toalha limpa no banheiro enquanto eu fui varrer o vidro. Não cinco minutos depois, todo mundo já tinha dado tchau e ido embora — até a Marissa. Ela devia ficar a noite, mas saiu de fininho que nem o resto, me deixando pra limpar a bagunça sozinho.
E sim, ela era meio atrapalhada. Um pouco irresponsável. Mas acho que não era questão de descuido — tinha algo estranho no ar. O sulco na bancada tava cheio, que nem copo transbordando. O sangue tinha chegado no bico, fazendo pingar no chão.
Fiquei ali um tempo, só observando. A coisa toda parecia errada, como se eu tivesse sido cúmplice de um crime. Era como se o ar do quarto tivesse sido sugado, deixando todo mundo fatigado e com medo. Como se a animação da festa tivesse escorrido pro chão.
Quando peguei o mop com sabão, perto das duas da manhã, as moscas já tavam se aglomerando. Não importa o que eu achava que aconteceu, o sangue na bancada era real. Podia lavar, mas isso não mudava o fato de que aconteceu.
Resolvi que ia fazer alguma coisa. Liguei pro proprietário e tentei fazer ele trocar, apontando o sulco como erro de construção. Não era ruim o suficiente pra fazer um copo tombar ou derramar, mas era uma imperfeição clara. Ele concordou que era ruim, mas trocar tudo ia sair caro. Em vez disso chegou num acordo; ele viria com ferramentas e alisaria ele mesmo. Ele era um cara habilidoso, conseguia fazer. Fiquei meio cético, mas era melhor que nada.
Ele veio no mesmo fim de semana, caixa de ferramentas na mão. Eu tava meio distraído. A Marissa e eu tavamos brigando, mas ela demorava quinze minutos pra responder minhas mensagens, e as respostas que eu recebia eram geralmente de uma a três palavras. Enquanto isso eu tava digitando feito louco, tentando achar a combinação certa de palavras só pra fazer ela se importar. Tava perdendo.
"É essa aqui, né?" o proprietário chamou da cozinha. "Vou começar com a esmerilhadeira."
Ele apontou pra seção certa, e eu acenei. Ele espantou umas moscas e me avisou. Ia fazer barulho.
Fui pro quarto e fechei a porta. Tava tão focado na telinha que mal prestei atenção no que tava acontecendo no outro cômodo. Ela tinha me deixado no vácuo em três mensagens, e já fazia vinte minutos. Tava me deixando maluco. Quando finalmente larguei o celular, percebi que o barulho da máquina tava meio... estranho. Abafado. Não só por causa da porta fechada, mas algo mais também.
Mesmo de fora da cozinha, dava pra ver um filete de sangue. Tinha espirrado o suficiente pra quase chegar no corredor.
Não vou especular sobre o que aconteceu, ou por quê. Mas o proprietário tava parado junto à bancada com a ponta do dedo indicador serrada. A esmerilhadeira ainda tava girando, beijando a ponta do osso do dedo dele com uma lâmina de diamante industrial. Dava pra ver fumaça saindo enquanto a máquina gritava. O proprietário, por outro lado, não disse uma palavra.
Ele só ficou parado, observando o sangue transbordar.
Puxei o plugue da esmerilhadeira. Ele lentamente voltou à realidade, mas nunca entendeu a urgência que uma situação dessas exige. Nenhum surto de adrenalina ou chamados desesperados por ajuda. Ele só assentiu, pediu desculpas pela bagunça, pegou as ferramentas e foi embora. Não tinha consertado absolutamente nada.
Enquanto espantava umas moscas percebi que ele tinha deixado a ponta do dedo na bancada. Mal dava pra ver por causa da massa de pontinhos pretos se aglomerando nela, esfregando as asas uma na outra.
Acho que foi nesse momento que finalmente caiu a ficha. Eu não tava lidando com algo normal ou racional. Pra todos os efeitos, tinha algum tipo de vontade e jeito agindo por conta própria, empurrando um fato além de uma ficção estranha.
Sempre ia ter sangue na bancada.
Passei um tempo pesquisando o que podia. Não tinha muito o que dizer. A bancada era de calcário, cortada e preparada no México. Foi importada e montada aqui nos States. Era basicamente isso, a empresa ainda tava super ativa e não tinha sinal de nada de estranho sobre ela. Tinham montes de bancadas de calcário, e todo mundo parecia feliz com elas. Nenhum maluco nos comentários reclamando de sangue.
Caí em algumas tocas de coelho. Por exemplo, muitos templos maias antigos eram feitos de calcário também. Construíam tudo de templos a altares nesse mesmo material. Não é tão estranho, na real. Dá pra fazer um monte de coisa com calcário.
Lembro de ouvir um documentário curto sobre os maias enquanto passava o mop na cozinha pela segunda vez em menos de uma semana. Meu mop tava tomando uma cor rosada meio enjoada de ter sido mergulhado num vermelho intenso de novo e de novo. Tentei lavar umas vezes, mas ainda conseguia ver o vermelho nele muito depois de ter sumido.
Acabei sentado na cozinha, completamente esquecido de ver a resposta da Marissa. Em vez disso olhei pra minha bancada, tentando entender qual era a parada. Veio essa ideia maluca na cabeça.
Talvez ela quisesse ser outra coisa, do mesmo jeito que eu queria ser um cowboy quando era criança. Talvez isso fosse um jeito de se rebelar ou realizar algum potencial não explorado. Era impossível saber com certeza.
As moscas seguiram a ponta do dedo até o lixo.
Nos dias seguintes, as coisas com a Marissa pioraram cada vez mais. Brigamos de novo, e quando ela disse abertamente que não tinha certeza se a gente tava namorando de verdade, eu terminei tudo. Não ia aguentar isso. Passei um tempo com meus amigos, fiz uns extras, e tentei me manter ocupado. Ou talvez eu só não quisesse ir pra casa.
Só de passar pela cozinha me dava uma sensação de afundamento, como se eu tivesse na presença de alguma coisa. Como se tivesse perdendo algum detalhe chave ou esquecido de fazer algo importante. Às vezes considerava dar uma gotinha de sangue pra bancada só pra me sentir mais calmo. Um toque no dedo não é tão ruim — é muito pior antecipar um acidente que você sabe que vai vir. Se você não sangrou na bancada, você não vai começar a picar cenouras, ou cortar peitos de frango. Você sabe o que vai acontecer.
Mas as coisas chegaram num ponto crítico quando fiz um duplo turno e dormi no trabalho. Fiquei fora um dia inteiro, e quando voltei pra casa, tinha um rato morto na bancada. Não faço ideia de onde veio, ou como chegou lá. Moro no segundo andar, então deve ter subido de algum jeito. Nunca tinha ouvido ou visto sinal de roedores antes.
Já tinha aguentado o suficiente.
Peguei um martelo e um ponteiro de ferro grande. Tinha visto um lá fora, deve ter sido usado pra segurar a cerca da entrada. Agora eu ia usar como cinzel. Corri pra cozinha, minhas botas ainda molhadas de lama, e coloquei o ponteiro na bancada; preparando um golpe do martelo.
Aí, soltei o ponteiro.
Não foi um movimento consciente; minha mão só deu uma trêmulinha. Teve esse impulso de colocar a palma da mão aberta na bancada, espalhando os dedos pra todos os lados. Eu ainda tava preparando o martelo. Com a mesma sensação que tive na festa, me perguntei por que não tava largando o martelo. Por que tava deixando isso acontecer?
O que eu tava, exatamente, prestes a fazer?
Pisquei e soltei o martelo, deixando ele rachar um dos azulejos da cozinha. Eu tava totalmente preparado pra esmagar minha própria mão na bancada sem motivo aparente. Parecia a coisa certa a fazer. Tinha tido uma vontade imposta em mim.
Peguei o ponteiro, e o martelo, e tentei de novo. Mais rápido dessa vez. Ponteiro erguido, martelo erguido, um grito. No último segundo me virei e joguei o martelo pro outro lado da sala. Ele bateu na parede oposta, fazendo um amassado no gesso.
Minha mão tava quente, e quando me virei pra olhar, percebi que tava segurando o ponteiro num ângulo estranho. A ponta dele tava cravada na palma da minha mão.
E tinha sangue na bancada.
Meu polegar tava dolorido, então não consegui ficar acordado a noite toda no celular. A Marissa já tava saindo pra conhecer gente nova, postando nas redes. Ela nem diminuiu a velocidade. Nem uma carranca no story dela. Não que eu conseguisse ficar rolando muito tempo, minha mão tava me matando.
Fiquei acordado até tarde aquela noite, pensando no que fazer com isso. Ia ter que limpar a bancada de novo, mas qual era o sentido? Não importava quantas vezes eu limpasse, acabava do mesmo jeito. Sempre ia ter sangue na bancada, não importava o que eu fizesse, nem o quanto tentasse lutar contra. Podia ficar ali todo dia, borrifando com aquele negócio de limão de merda, e teria que fazer de novo no dia seguinte. Que nem tomar banho, ou escovar os dentes. Era essa minha vida agora?
Eu não tava imaginando isso. Tava piorando. Tava exigindo mais, e mais. Ninguém precisava me explicar, mas eu sentia.
Ela queria tirar uma vida.
Voltei pra cozinha no dia seguinte. Coloquei três pares de luvas, peguei aquele ponteiro de ferro e o martelo, e dei outro golpe na bancada. Dessa vez acertei, rachando parte da vedação de baixo. Levou umas tentativas, e acertei meu próprio polegar uma vez, mas foi progresso. Parei pra ver meu polegar, aí voltei.
Levou nove horas pra quebrar vedação suficiente da bancada pra soltar a pedra inteira. Nessa altura minhas mãos tavam destruídas, e tinha marcas de mãos ensanguentadas por toda a maldita coisa, mas consegui. Arranquei e joguei no chão, rachando outro azulejo. Não era tão pesada, mas minhas mãos pareciam que tavam queimando. Resolvi ligar pro proprietário de novo. Pagava os danos de bom grado só pra se livrar daquela desgraça.
Ele veio com o dedo enfaixado. Ele tava, admito, bem cansado de toda essa história. Vendo a bagunça que eu fiz, só suspirou.
"Eu pago," falei. "Tudo."
Ele assentiu pra mim. Sem outra palavra, pegou a laje de pedra. Mas em vez de ir pra porta, parou por um momento.
Tinha algo no olhar dele que me deixou inquieto. A cabeça dele tava a mil. Ele tava olhando pra nada. Estalei os dedos na cara dele, mas ele nem piscou. Em vez disso levantou a laje de pedra como se fosse Moisés segurando um Mandamento.
"O que você tá fazendo?" perguntei. "Ei?"
Ele olhou pra mim, aí balançou a cabeça. Olhou pra baixo, pra pedra, soltando um grunhido de frustração. E num acesso de raiva, deu um passo pra trás, e arremessou a laje inteira pela janela.
Vidro pra todo lado. A desgraça saiu voando pelo ar, caindo com um baque molhado. O proprietário deu de ombros pra mim, ofegante. Aquilo tinha sido mais cansativo do que parecia.
"Vamos buscar ela no caminhão," ele disse. "Eu me livro dela."
Descemos as escadas juntos, mas algo não tava certo. Não só por causa do ato de jogar alguma coisa pela janela, mas parecia fácil demais. Eu tinha lutado pra tirar aquela coisa, mas ele jogou fora sem pensar duas vezes. Não fazia sentido.
Chegando lá fora, vi que tava certo.
Acontece que um vizinho passou pela minha janela bem na hora que o proprietário arremessou a laje. Aquele baque molhado não foi um pedaço de pedra batendo no gramado, e não era questão de estragar o jardim comunitário. Era um homem adulto tendo a cabeça estourada contra o chão.
Parecia tão irreal, ver um corpo inteiro numa jaqueta esportiva colorida com metade da cabeça rachada no chão. Ainda tinha movimento. Um pulso sumindo. Gente vinha saindo de todo lado. Parecia descer num pesadelo, e eu não sabia se corria, chorava, ou gritava. No final não fiz nenhum dos três. Só fiquei parado, que nem os convidados na minha festa.
Olhando em volta, todo mundo tava assim. Ficaram em reverência silenciosa. O bairro inteiro saiu pra ver o homem morto na rua. Era menos um assassinato, e mais uma... reunião comunitária. Ninguém tava feliz, ou comemorando, ou sequer expressivo; só ficaram parados, como se isso fosse a coisa mais normal do dia. Como se isso fosse pra acontecer. Como se fosse esperado.
"Ninguém vai chamar ajuda?" eu ofeguei. "Ninguém?"
Um cachorro tava pirando perto, latindo que nem louco, e eu não conseguia parar de olhar pra bancada de calcário. Ela ainda tava intacta, caída de lado. Absolutamente encharcada de sangue.
Ninguém movia um músculo.
Eventualmente, veio uma ambulância, e polícia, e depoimentos de testemunhas. Pessoas me perguntavam em vozes muito cuidadosas sobre o que aconteceu, me oferecendo um salgadinho de máquina de vez em quando. Provavelmente pra compensar por me manter numa sala de interrogatório por horas a fio. Bom policial, mau policial.
Não sabia o que dizer. Contei a verdade que podia, que tinha tido um problema com a bancada e pedi pro proprietário me ajudar a tirar. O resto era questão de impulso, acaso aleatório, e algo que eu não conseguia explicar direito.
O tempo todo, minha cabeça tava girando. Isso aconteceu por causa de alguma paranoia compartilhada, ou tinha sido a vontade de alguma terceira parte invisível? No final das contas, éramos responsáveis?
Quando terminaram, eu tinha visto as anotações deles. Tinha rabiscos sobre a montagem, o fabricante, horário do ataque, tudo. O desenho de um olho. Não consegui explicar minha teoria; não fazia sentido mencionar. Não conseguia pensar num jeito de dizer sem parecer um lunático.
Coisas não desejam coisas. Elas não querem ser outras coisas, porque não podem querer. E mesmo assim, parece haver essa inclinação, essa inclinação divina pra uma coisa agir como outra. Era o único jeito que eu conseguia pensar.
Era uma bancada de cozinha, querendo ser um altar de sacrifício. E nós éramos obrigados a ajudar, sabendo ou não.
Antes de ir pra casa naquele dia, resolvi fazer uma última pergunta pros policiais.
"O que vai acontecer com ela?"
"Vai ser arquivada como evidência," explicaram.
"Tecnicamente é uma espécie de arma do crime."
Quase ri. Eles iam arquivar junto com as facas, e armas, e canos de ferro. Iam deixar em alguma prateleira num depósito e esquecer. Ia ficar lá enquanto outras coisas fossem empilhando por cima. Coisas ruins. Coisas horríveis manchadas de impulsos odiosos.
Seria um lugar de descanso onde desespero e má intenção repousariam sobre ela por décadas.
E enquanto a pedra era trancada, selada e impura, eles tinham garantido que sempre haveria sangue na bancada.


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