domingo, 3 de maio de 2026

O Labirinto do Sono

Encontramos outros sobreviventes. Ninguém consegue sair. Acho que sei o porquê...

Não sei por quanto tempo a gente estava dirigindo.
A Amara estava no banco do passageiro, com os pés no painel, naquele estado entre dormindo e em outro mundo. Eu estava sobrevivendo com três horas de sono e aquele tipo de foco que aparece quando o pânico dura tanto tempo que vira parte da sua personalidade. A rodovia estava deserta há horas. Tudo estava deserto há dias.

A gente não falava sobre o que tinha visto. Chega um ponto em que falar sobre o assunto é o mesmo que viver tudo de novo.

Encontramos a instalação por acaso. A estrada saía da rodovia principal sem nenhum sinal, descendo numa curva, como se estivesse tentando se esconder. A Amara viu primeiro. Ela pôs a mão no meu braço sem dizer nada; eu reduzi a velocidade e nós duas ficamos olhando.

Uma luz branca vinha de algum lugar debaixo da terra. Estável, elétrica e completamente impossível, considerando tudo o que estava rolando na superfície.

Olhamos uma para a outra e entramos.

Tinha umas trinta mulheres lá dentro.

Elas estavam paradas em silêncio quando a gente encostou, e o olhar no rosto delas me deu um nó no peito. Não era alívio, nem boas-vindas. Era algo mais próximo do terror, e, por baixo do terror, algo que parecia luto.

Várias delas estavam armadas.

Eu abaixei o vidro. — Ei, a gente só está procurando por...

— Apaga isso.

Uma mulher já vinha correndo na nossa direção, sussurrando tão forte que parecia que ela estava raspando as palavras no fundo dos dentes.

— O carro. Desliga agora. Você tem noção do que fez?

Saímos devagar. O motor dava aqueles estalos enquanto esfriava.

— É barulhento demais — ela disse. As mãos dela tremiam. Ela olhava para a gente do jeito que você olha para alguém que acabou de cometer um erro terrível por você e não tem como voltar atrás. — Eles ouviram. Eles vão vir agora. Vocês têm que se esconder. Todo mundo. Agora!

E todas as mulheres se mexeram ao mesmo tempo.
Elas se espalharam e cada uma já sabia exatamente para onde ir. Atrás de prateleiras de equipamentos, entre painéis na parede, nos cantos. Elas deitavam ou se encostavam e fechavam os olhos, ficando completa e perfeitamente imóveis.
A mulher agarrou meu pulso antes de se jogar no chão.

— Parede. Olhos fechados. Não se mexa. Não abra os olhos ou você VAI morrer.

Ela fechou os olhos.

Segurei a mão da Amara, achamos um vão entre dois painéis, nos esprememos ali e eu fechei meus olhos.

Eu os ouvi antes de senti-los.

Não parecia barulho de passos, parecia uma mudança na pressão. O ar na instalação ficou pesado, abafado, e então veio um som que eu não sabia dar nome, vindo de várias direções ao mesmo tempo. Portas de metal se escancararam em algum lugar do salão. Tinha um movimento rápido e irregular; de repente parava, e depois corria de novo.
Algo chegou perto de mim. Senti a temperatura cair antes de ouvir qualquer coisa. Uma onda de ar frio e depois algo na minha garganta, depois na minha clavícula. Sem pressa. Eu estava preparada para ser atacada.

Mas a coisa seguiu em frente.

Não sei quanto tempo fiquei ali parada, mas foi o suficiente para as minhas pernas começarem a formigar.

Então, a mulher à minha esquerda fez um som.

Algo baixo e involuntário. O tipo de barulho que o corpo faz quando fica rígido por tempo demais e algo cede sem permissão.

Eles pularam nela instantaneamente.

No caos, a mão dela encontrou minha perna e agarrou, os dedos fechando no meu tornozelo com toda a força que restava, e o impacto do que estava acontecendo com ela me arrastou de lado. Caí com força, com o rosto no concreto frio, algo quente respingou na minha cara, e eu fiquei ali de olhos fechados e não me mexi. Eu não conseguia me mexer. Apertei o rosto contra o chão, fiquei ali, senti a mão dela relaxar no meu tornozelo e não me mexi.
Eventualmente, os sons se afastaram. As portas se fecharam em algum lugar. A pressão aliviou e o ar voltou.

A mulher à minha esquerda não levantou.

O nome dela era Priya. Descobri depois. Ela estava na instalação há duas semanas antes de a gente chegar. Tinha uma filha cuja foto ainda estava no celular, em cima do beliche onde a Priya dormia.
O celular estava lá de manhã, mas a Priya não. O beliche estava arrumado, as coisas organizadas. Ela simplesmente tinha sumido e ninguém disse nada, e eu passei o resto do dia sem pensar nela de novo.
A Sera parecia ser quem mandava no lugar.
Tinha cabelo curto, voz calma e aquele tipo de quietude de quem já sobreviveu a tanta coisa que não parece mais sobrevivência, parece só existência. Ela nos sentou e explicou as regras do jeito que se explica algo que já foi dito vezes demais e não se espera mais que mude nada.

As coisas vinham quando algo era súbito ou barulhento demais. Elas presumiam que eles não tinham olhos. Se você ficasse parado e quieto o suficiente, não tinha "gosto" para eles.

Tinha um alarme. Uma luz vermelha que acendia do nada, sem um padrão que alguém tivesse conseguido descobrir, mas sempre na mesma hora da noite quando acontecia. Quando a luz ficava vermelha, as coisas vinham junto. Trinta segundos, talvez menos, para achar seu lugar e fechar os olhos antes de eles entrarem. No começo, algumas mulheres tentaram desativar o alarme. O que quer que fizessem, não adiantava. O alarme tocava do mesmo jeito e, quando tocava, as coisas vinham mais rápido, como se a própria interferência fosse algo que eles pudessem rastrear.

Armas pioravam tudo. Alguém tentou no início, mas o barulho deixou as coisas em um estado além do frenesi e custou a vida de quatro mulheres até parar.
E a saída. A Sera mencionou isso do jeito que se fala de algo que não vale mais a pena sentir nada a respeito. Não importava o que tentassem, não conseguiam voltar pelo caminho que entraram. Ela não explicou mais nada, e o jeito que ela falou me fez não perguntar.

Os dias entraram num ritmo. Entre as noites, tinha comida, conversas baixas e uma versão de rotina que quase parecia uma vida. Nos movíamos devagar. Falávamos baixo. Existíamos naquela instalação do jeito que se existe em um lugar onde você não tem certeza se pode estar.

Mas algo parecia errado com o meu corpo já naquela época, e eu não me permitia encarar isso de frente.

Eu estava sempre com fome. Não a fome normal que a comida resolve. Uma fome mais profunda, como se algo estivesse sendo tirado de mim em um nível que eu não conseguia localizar. Estava cansada de um jeito que o sono não curava. Eu dizia para mim mesma que era o estresse. Que era tudo o que tínhamos passado antes de achar aquele lugar.
Todas estávamos percebendo, mas nenhuma de nós dizia nada.

Com três semanas, a Amara veio me procurar.

Ela estava quieta há dias, daquele jeito específico de quando está desmontando algo e finalmente tem todas as peças na frente dela. Ela sentou perto e falou baixo.

— Preciso que você faça uma coisa agora, sem pensar antes — disse ela. — Olhe para as suas mãos e conte os seus dedos.

Eu olhei para ela.

— Só faz.

Olhei para as minhas mãos e contei.

Onze.

Contei de novo. Dez. Contei uma terceira vez, me perdi no meio e tive que recomeçar.

— Sabia que, quando você está sonhando, não consegue contar os dedos? — Amara disse baixinho. 

— Seu cérebro não consegue manter o número parado. Ele fica mudando.

Olhei para as mãos de novo. A contagem saía errada de um jeito que eu não conseguia explicar.

Parte de mim quis dizer que ela tinha pirado. Contei meus dedos de novo.

— E aquelas coisas que vêm à noite? — perguntei.

— Elas só existem aqui. Nesta camada.

— E as pessoas que elas matam?

— Morrem aqui e não voltam.

Pensei na Priya. Em como eu não tinha pensado nela nem uma vez desde aquela primeira manhã. Em como o celular dela ainda estava no beliche e nenhuma de nós tinha tocado nele, nem falado o nome dela desde então.

— Amara. Se a gente estiver sonhando o tempo todo... — Parei. — Onde estão os nossos corpos?

Ela não respondeu de imediato.

— O que quer que esteja acontecendo com os nossos corpos no mundo real está vazando para o sonho — disse ela, por fim. — A mente faz isso. Quando o corpo está em perigo, ele não desliga simplesmente. Ele traduz. Ele transforma o que está acontecendo em algo que o cérebro sonhando consiga processar. — Ela me olhou. — Aquelas coisas que vêm à noite... acho que são a versão do sonho para algo que está realmente acontecendo com a gente agora. Em algum lugar real. E a fome que sentimos. O jeito que nossos corpos parecem errados. Isso é real também. São nossos corpos mandando informação pelo único canal que sobrou.

— Então as que morrem aqui... — eu disse.

— Algo está alcançando elas no mundo real — disse ela. — E o sonho é como estamos descobrindo.

Levamos isso para a Sera.

Ela ouviu tudo sem interromper. Quando a Amara terminou, a Sera ficou em silêncio por um longo tempo e eu olhei para o rosto dela, mas não consegui ler nada.

— Conte seus dedos — eu disse.
Sera olhou para mim. Depois olhou para as próprias mãos. Algo mudou na expressão dela e sumiu antes que eu pudesse identificar. Ela não contou.
Ela pegou o caderno, abriu numa página logo no início e colocou na mesa.

— Tenho mantido uma lista — disse ela. — Cada nome que consegui lembrar. Cada mulher que passou por aqui. — Ela virou para nós. Quarenta e sete nomes enchiam a página com uma letra pequena e cuidadosa. — Eu não reconheço um único nome desta lista, exceto os de quem ainda está aqui e o da Priya. — Ela fez uma pausa. — Eu mesma escrevi tudo isso. Eu sei que escrevi. E não consigo lembrar de uma única delas.
Ninguém falou nada.

— Tem que ter um jeito de acordar de propósito — eu disse. — Se a gente se treinar para fazer isso durante o ataque. Quando eles vierem, a gente grita a palavra "acorda" dentro da cabeça, de novo e de novo, até algo quebrar. O problema é que não podemos abrir os olhos para conferir nada sem nos revelarmos. Então, escrever a palavra na pele é o último recurso, algo para olhar se gritar não funcionar. Mas no momento em que você abre o olho, você fica visível para eles. Então tem que ser a última coisa.

— Por que só durante o ataque? — perguntou Sera. — Se estamos sonhando agora, por que não podemos simplesmente acordar agora?

— Porque agora parece completamente real — disse Amara. — Não tem contra o que empurrar. O sonho está estável demais. Mas durante o ataque, o medo cria uma fenda entre as duas camadas. Esse é o único momento em que a borda fica acessível. É a mesma razão pela qual você consegue acordar de um pesadelo, mas quase nunca acorda de um sonho normal. A intensidade é o que abre a porta.
Sera ficou em silêncio por um bom tempo.

— No começo, a gente tentou lutar — disse ela. — Fazer barulho. Resistir. Toda vez que fazíamos isso, vinham mais deles. Mais rápido. Como se algo estivesse se ajustando. — Ela cruzou as mãos sobre a mesa. — Eu achava que eles estavam nos caçando. Não tenho mais tanta certeza.

Ninguém perguntou o que ela achava que era, então.
Escrevemos a palavra ACORDA no lado de dentro dos nossos pulsos esquerdos com caneta preta, por precaução. Amara passou os dias praticando, tentando descobrir como era segurar duas coisas ao mesmo tempo: o sonho e a consciência do sonho, para que, quando chegasse a hora, ela não se perdesse.

Duas noites depois, o alarme tocou e as luzes ficaram vermelhas.

Achei meu lugar entre os painéis. Encostei as costas na parede. Fechei os olhos. Segurei a palavra na mente e esperei.

Eles entraram rápido.

O frio bateu primeiro e depois o som deles se movendo pela sala, e o medo veio junto, puro e total, do tipo que não deixa espaço para mais nada. Gritei a palavra "acorda" na minha cabeça repetidamente e nada aconteceu. Do outro lado da sala, alguém estava sendo atacada, eu ouvia, e o grito que se seguiu foi cortado de um jeito que não vou descrever. Algo mudou. O chão tremeu. Mais sons. Mais de uma pessoa. O quarto estava desabando ao meu redor e eu ainda não estava acordando e não tive escolha, abri os olhos só um pouco para olhar para o meu pulso, as letras estavam se mexendo, e eu gritei a palavra de novo na minha cabeça com tudo o que eu tinha.

Nada aconteceu.

Algo estava vindo na minha direção. Rápido e ficando mais rápido. Meu tempo tinha acabado e eu ainda estava dormindo e ia morrer ali e...

A mão da Amara fechou no meu pulso de algum lugar que não era o sonho.

Frio. Real. Tremendo.

Eu estava acordada.

O ar viciado foi a primeira coisa que notei.

Abri os olhos.

Eram as mesmas paredes, mas detonadas, escuras e velhas. Metade das luzes queimadas. O resto jogava um brilho amarelo pálido sobre tudo, o que fazia a sala parecer algo abandonado no meio de um pensamento.

Havia cápsulas alinhadas nas paredes, organizadas em fileiras pelo chão. Cada uma larga o suficiente para um corpo. Tubos entrando e saindo. A maioria dos monitores acima delas estava apagada. Alguns ainda funcionavam com a pouca energia que restava.

Algumas cápsulas tinham rachado sozinhas. O que estava acontecendo dentro daquelas já rolava há muito tempo antes de a gente acordar, e o que quer que tivesse chegado nelas ainda não tinha nos ouvido, ainda estava focado no que já estava na frente dele, e eu desviei o olhar antes de ver mais do que já tinha visto.

Amara estava do meu lado, com a mão ainda no meu braço, mal conseguindo ficar de pé. Ela estava a pessoa mais magra que eu já tinha visto. Os olhos estavam encovados e "acordados" de um jeito que parecia ter custado tudo o que restava dela.
Olhei para mim mesma e não reconheci o que vi.
A pele dos meus braços estava flácida. Ossos que eu nunca tinha visto antes. Toquei meu rosto e senti o crânio perto demais da superfície, e entendi de uma vez o que a fome estava nos dizendo o tempo todo.

Ao nosso redor, as outras cápsulas estavam seladas. As mulheres ainda lá dentro, ainda apagadas, olhos fechados, monitores rodando. Ainda na instalação, ainda se escondendo da luz vermelha, ainda acreditando que o sonho era o único mundo que existia. Fomos até a cápsula mais próxima e tentamos abrir, mas não conseguimos. Não tínhamos força e não havia nenhum mecanismo por fora que a gente achasse, e o que quer que estivesse na sala com as cápsulas rachadas começou a notar que algo mais estava acordado no prédio. Ouvimos a coisa se ajustando.
Não tinha tempo. Não tinha jeito. A única coisa que podíamos fazer era sair e voltar com ajuda ou com alguma coisa, e esse foi o pensamento que segurei enquanto Amara me puxava para a saída. Tinha um carro lá fora, estacionado com as chaves dentro. Entramos o mais rápido que nossos corpos permitiram. Eu dirigi porque as mãos da Amara não paravam de tremer.

Não sei exatamente quando começou a acontecer.

Não foi em um momento só. Foi como ver uma fotografia desbotar enquanto você a segura. Num minuto eu ainda via as cápsulas claramente; no seguinte, quando buscava a imagem, ela estava mais embaçada. Os detalhes ainda estavam lá, mas tinham parado de parecer algo que aconteceu comigo e começaram a parecer algo que eu ouvi falar uma vez.

Quando chegamos na rodovia principal, eu não saberia dizer como era o interior daquele prédio.
Quando o céu começou a ficar cinza, eu não saberia dizer por que meus braços estavam daquele jeito, ou por que minhas mãos não paravam de tremer, ou por que toda vez que eu olhava para a Amara sentia algo próximo do luto, mas não conseguia achar a que ele pertencia.

Eu sabia que algo tinha acontecido. Conseguia sentir o contorno da coisa. Mas quando tentava pegar os detalhes, não tinha nada lá.
De repente, percebi que estava correndo demais no carro e não lembrava por que estava com tanta pressa. Achei o mapa no banco de trás. Três rotas marcadas com caneta vermelha. Duas delas riscadas com um X com a minha própria letra.

Eu não lembrava de ter riscado aquilo.

Fiquei olhando para os X por um longo tempo e senti algo atrás de uma porta que eu não queria abrir; então dobrei o mapa e o guardei.

A mão da Amara tocou meu braço.

Eu olhei para frente.

Lá na frente na rodovia, onde a estrada fazia a curva e a linha das árvores acabava, uma luz branca vinha de algum lugar debaixo da terra.

Estável. Elétrica.

Olhei para a luz.

Algo em mim disse não. Algo em mim disse para seguir em frente. Tentei segurar esse sentimento, mas ele já tinha ido embora. Olhei para as minhas mãos e parecia que eu tinha dois dedos a mais por algum motivo. Rapidamente, culpei o cansaço.

Amara e eu olhamos uma para a outra e entramos.

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