Meu pai não era lá muito bom em ser pai.
Não tô dizendo que ele era o próprio Satanás encarnado, ele só tinha um mau gênio, só isso. Éramos cinco irmãos, e depois que a mãe morreu ele ficou preso criando a gente sozinho, então ele tinha que manter a ordem com mão de ferro. Do contrário a gente não seria nada além de vagabundos encrenqueiros.
Eu era a segunda mais velha, minha irmã Naomi era a mais velha, e aí tinha a Abby, a Caroline e o Liamzinho. No momento em que a Naomi entrou no ensino médio ela ficou responsável por cuidar da casa e garantir que todo mundo estivesse em ordem até o pai chegar em casa.
Ela era super mandona com isso, mas ela só não queria ver o Pai bravo. E ele era bem assustador quando ficava bravo — jogava coisas contra as paredes, gritava que a gente era tudo um bando de pirralhos egoístas que não respeitavam ele, às vezes a gente levava uns tapas, mas era mais os gritos mesmo. Naomi ficou bem aliviada quando eu entrei no ensino médio — significava que ela não era mais a única que tinha que ser mandona.
A gente se esforçava, sabe — limpávamos a casa, fazíamos a lavanderia, todo mundo fazia o dever de casa e quando o pai atravessasse a porta o jantar melhor estiver pronto ou quase pronto e a mesa posta.
Como eu disse, a gente se esforçava. Nem sempre a gente conseguia, porque as crianças ficavam mal-humoradas ou não queriam limpar ou escondiam o dever de casa da gente. Não dava pra esconder dever do pai, porém. Ele quase conseguia cheirar o negócio.
Foi nas férias do Dia de Ação de Graças que eles apareceram na nossa porta.
A gente se saiu bem naquele dia, o Pai nem parecia bravo quando a gente sentou pra jantar. E aí a campainha tocou.
Dava pra ver a veia saltar na testa dele do outro lado da mesa. Eu quase afundei no chão, a gente tinha se saído tão bem naquele dia e alguém tinha que interromper o jantar do pai. Pouca coisa o deixava mais puto do que isso.
Inicialmente ele ignorou, resmungando algo sobre vendedores, mas a gente todo mundo ficou tenso. A Caroline ficava empurrando as ervilhas pelo prato em vez de comer e o Liam chupava o dedão, aos quatro anos ele já era velho demais pra isso, mas era um hábito nervoso que a gente ainda não tinha conseguido tirar dele. Eu rezei em silêncio pra que as pessoas na porta entendessem a deixa e fossem embora.
Outro ding-dong depois e eu soube que a gente não tinha tanta sorte assim.
O Pai empurrou o prato pra longe e saiu pisando forte até a porta enquanto xingava pra caralho. A Naomi gemeu e enterrou o rosto nas palmas das mãos. Todo o nosso esforço tinha sido arruinado agora por uns babacas interrompendo o jantar.
Já que a gente já tava fodido, eu imaginei que não podia piorar se eu esgueirasse atrás do Pai e espiasse pela parede pra ver quem tava na porta.
Meu pai abriu a porta e soltou um "O QUÊ?!" furioso pros de fora.
Obviamente não eram vizinhos, a maioria sabia que não era bom vir na nossa casa, mas também dava pra perceber que não eram vendedores. Era um casal, um homem e uma mulher. A mulher tinha cabelo castanho cacheado e um sorriso largo, o homem tava ficando careca precocemente e era mais sério. A mulher ofereceu a mão pro meu pai, completamente perdida pro fato de que ele parecia prestes a explodir. "Oi, eu sou a Ann, esse é meu marido Kennen. A gente veio da igreja lá da frente. Podemos entrar?"
Eu jurei que o rosto do Pai ficou mais vermelho que um tomate, antes de ele simplesmente rir na cara deles. "Caiam fora da minha varanda, não vou comprar porra nenhuma dos seus livros malditos nem ir em porra nenhuma de reunião maldita." Ele foi bater a porta na cara deles... ou teria batido, se o Kennen não tivesse enfiado o pé na porta.
A porta bateu de volta aberta e o Kennen conseguiu disfarçar a careta com uma tosse. A Ann ainda tava sorrindo, oferecendo um panfleto pra frente. "Entendo que o senhor provavelmente é um homem ocupado, mas ninguém não tem tempo pra verdade. A que horas o senhor vai estar disponível pra uma conversa?"
Meu pai arrancou o panfleto, amassou e jogou no lixo bem do lado da porta. "Nunca. Eu trabalho em tempo integral e tenho cinco pirralhos pra criar sozinho," ele rosnou.
"Ah, sinto muito ouvir isso, mas se o senhor estiver procurando apoio, a igreja oferece creche e tem serviços de aconselhamento pra quem precisa de uma ajudinha no dia a dia —"
Meu pai bateu a porta de novo, dessa vez o Kennen não tentou impedir. Eu escorreguei de volta pra sala de jantar pra não ser pega longe da mesa, mas não adiantou. O Pai voltou furioso, gritou com a Caroline por brincar com a comida e mandou todo mundo ir pros quartos, agora mesmo. Eu não tinha dado mais que uma mordida no bolo de carne, mas não importava — ninguém merecia jantar agora.
O negócio com um pai rígido é que você aprende a dar um jeito nele. Mesmo que o preço fosse alto a pagar, eu sabia como me esgueirar pelo meu pai pra roubar alguma coisa pra comer. Eu não conseguia dormir com meu estômago roncando daquele jeito.
Depois de me empanturrar com o bolo de carne frio e gorduroso que ainda tava na mesa, eu voltei pro meu quarto só pra parar na lata de lixo.
Eu quase voltei pro meu quarto, sabendo que se o meu pai acontecesse de perceber que eu roubei o panfleto do lixo eu ia levar uma surra e ficar de castigo. Mas minha curiosidade pesou mais que meu medo e eu cuidadosamente levantei o papel amassado do lixo antes de correr pro meu quarto, cuidadosa pra não pisar em nenhum piso que rangia. Eu tinha aprendido onde cada um ficava ao longo dos meus anos de esgueirar por aí.
Antes que você faça uma suposição, isso não era dos Testemunhas de Jeová. Ou de qualquer outra igreja que eu já tivesse ouvido falar antes.
Essas pessoas eram dos Iluminados. O panfleto não era nada demais, papel branco com impressão preta e uma figura cartunesca de uma lâmpada na frente, provavelmente algum tipo de arte de clipart sei lá. Mas as palavras de dentro... elas fizeram algo por mim. Eu ainda tenho as primeiras frases decoradas... "A era da iluminação está sobre nós. A razão por trás de tudo existe conosco."
Eu devorei as poucas páginas por dias, escondendo o panfleto no meu travesseiro pra poder ler toda noite antes de dormir. Eles diziam tudo que eu queria ouvir — como a gente tá todo mundo aqui pra se ajudar, como a vida deveria ser sobre amar e respeitar os outros... era verdadeiramente iluminador.
Eu desejei tanto que a Ann e o Kennen voltassem, eu tinha tantas perguntas que queria fazer pra eles. Eu ainda tava um pouco cética, naquela época, mas logo depois que a gente chegou da escola teve aquela batida na porta. Eu atendi e lá estavam eles. O Kennen agora tava com uma muleta, aparentemente o Pai quebrou o pé dele, mas não tinha mágoa.
"Eu li o panfleto," eu soltei antes que eles pudessem dizer alguma coisa. A Ann piscou algumas vezes antes de sorrir de orelha a orelha.
"Eu esperava que alguém lesse," ela disse, pegando minha mão na dela e apertando com força, "Podemos entrar? Só por alguns minutos."
Eu os convidei pra entrar, servi limonada e a gente conversou. Eles explicaram tudo.
Os Iluminados reverenciavam algo chamado Seres. Eles não deviam ser adorados, apenas respeitados e consultados por orientação. Os Seres estavam aqui quando a gente chegou pela primeira vez, depois que a gente nadou pelas estrelas como peixes. O inferno de fato ficava no sol, ou bem, um portal pro inferno ficava. A gente teve sorte de ter conseguido e não ter sido distraído pelo calor.
O Ser que o Kennen e a Ann reverenciavam mais se chamava Riesis, e Riesis pediu pra eles virem na minha casa. Eles sabiam que alguém ia se interessar em ouvi-los falar. E embora sim, naquela época a parada dos Seres parecesse boba, o Kennen e a Ann eram legais. A gente todo mundo gostava deles, até a Naomi, que ficou ainda menos impressionada pelos Seres do que eu. O Liam praticamente tava enrolado no colo da Ann quando o Pai chegou em casa.
Nem uma tarefa tinha sido feita, o dever de casa nem tinha sido tocado, e a Naomi tinha esquecido completamente de começar o jantar quando a porta bateu aberta. Isso significava que o dia do Pai no trabalho tinha sido uma merda, então a gente melhor tinha feito tudo que precisava ser feito. O que. A gente não tinha feito.
Quando ele viu a Ann e o Kennen na nossa sala, o rosto dele foi do branco pro vermelho pro roxo tão rápido que eu pensei que ele tinha tido um derrame.
"Que porra eles tão fazendo na nossa casa?" A raiva dele imediatamente se virou pra Naomi, que começou a tremer.
Eu não podia deixar ela levar a culpa, não dessa vez, então eu levantei e falei a verdade. "Eu convidei eles, Pai, eles são legais —"
Eu não consegui contar pra ele tudo que eu sabia agora, como eu tinha me tornado iluminada. Antes que eu pudesse, ele me deu um tapa tão forte na cara que eu acho que quase perdi um dente.
"Você é burra?!" Cuspitinho voou dos lábios enfurecidos dele enquanto ele apontava pro casal. "Esses malucos nem são de uma igreja de verdade!"
Pela primeira vez, eu vi a Ann parecer levemente irritada. Os lábios dela se apertaram numa linha firme enquanto ela se levantava. "A princípio eu pensei que o senhor fosse só cínico, mas agora eu vejo que o senhor é tão mente-fechada quanto a maioria do mundo. A iluminação tá chegando, senhor, queira o senhor ou não."
"Voltem pras suas histórias de peixe, sua vadia louca," meu pai escarneceu, "E saiam da minha casa antes que eu chame a polícia e diga que vocês e seu marido tavam fazendo umas merdas esquisitas com meus filhos."
Meu rosto ficou vermelho com a implicação e a Ann gaguejou de raiva antes de respirar fundo e o sorriso voltar pro rosto dela, um sorriso que não chegava nem perto de parecer feliz. "Tudo bem. Bom dia, senhor," ela andou até a porta, o marido mancando logo atrás dela.
Depois que eles saíram de casa eu levei a pior surra da minha vida. Meu pai me fez devolver o panfleto e ele o rasgou em pedacinhos minúsculos. Eu nunca mais seria capaz de lê-lo. Eu nem conseguia deitar de costas na cama naquela noite de tão dolorida que eu tava. Meus irmãos foram ameaçados com coisa pior se alguém mencionasse os Iluminados de novo.
Eu dormi chorando porque nunca mais seria capaz de sentir aquela felicidade que eu senti com a Ann.
No meio da noite eu acordei com alguém desabando contra a minha porta. Me caguei de medo, quase caí da cama.
Eu ouvi um gorgolejo e contra o meu bom senso, eu me levantei e fui até a porta e abri.
Lá estava meu pai, caído no chão, a frente toda encharcada de sangue jorrando de um ferimento irregular na garganta. A Naomi tava parada bem atrás dele, segurando uma faca de carne tão apertada na mão manchada de vermelho que tava tremendo.
Eu olhei em branco pro meu pai morrendo, que levantou a mão pra mim num gesto silencioso de socorro. Eu olhei pra minha irmã. Algumas gotas de sangue estavam secando nas bochechas pálidas como osso dela. Eu estendi a mão. "Mano, me dá a faca," eu disse.
Não precisei pedir duas vezes, ela entregou tão fácil. Eu olhei pro meu pai, que parecia tão aliviado porra... até que eu levantei a faca e enfiei bem no peito dele com tanta força que a lâmina quebrou do cabo.
Meu pai conseguiu um último suspiro antes de desabar morto. Eu olhei pra cima, pra Naomi, que deu uma fungada e enxugou as lágrimas das bochechas. "Ele... ele veio até mim no meu sonho. O Riesis. Ele me disse... que isso era o que eu precisava fazer pra que a gente todo mundo pudesse se juntar aos Iluminados." Pela primeira vez que eu me lembro, ela sorriu. Minha irmã mais velha era sempre tão séria, tão mal-humorada e mandona. Agora ela finalmente parecia livre.
"Vai ligar pra polícia e se limpar. Não se preocupa, eu vou limpar a faca pra não ficar suas digitais. Vai."
Minha irmã levou toda a culpa. Disse que tava de saco cheio da merda do meu pai e finalmente explodiu. Acho que ajudou que todo mundo na comunidade sabia que meu pai era um babaca e ela tinha só dezesseis anos. Ela vai sair da prisão daqui a mais ou menos sete anos, a gente tá planejando fazer uma festona quando ela sair.
Ajudou que o Kennen era um ótimo advogado também. Acontece que apesar de raramente dizer uma palavra fora do tribunal, uma vez que entrava nele ele era um mestre das palavras. Ele representou a Naomi pro bono, não foi gasto um centavo na defesa dela e a gente deve a ele pra sempre por isso. E pra adicionar a esse final feliz, a gente foi adotado pelo Kennen e pela Ann.
O Riesis disse a eles que eles eram pra ser nossos pais, acontece. A Ann não podia ter filhos, mas ele veio nos sonhos deles e disse pra eles irem na minha casa, e voltarem quando nosso pai não tivesse em casa. Originalmente o plano era convencer a gente a ir junto antes que ele chegasse em casa, mas desse jeito ainda funcionou. A Ann é uma mãe quase perfeita.
Eu agora tenho dezoito anos. Muito melhor do que eu estaria se meu pai ainda estivesse vivo. Hoje à noite eu vou me dedicar ao serviço de Riesis.
Em troca ele vai me ensinar como sussurrar nos ouvidos das pessoas enquanto elas dormem, pra dizer às pessoas o que ele manda. Eu vou ser a voz dele agora, junto com o Kennen e a Ann.


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