Não sei como começar isso a não ser dizendo logo de uma vez: alguma coisa no meu apartamento tem estado aprendendo minha voz, e eu acho que está ficando cada vez melhor nisso.
Fico digitando e apagando porque toda maneira que eu tento explicar isso soa insana. Mas eu preciso escrever isso antes que eu perca a cabeça completamente, e, honestamente, eu preciso saber se mais alguém já passou por algo assim. Porque eu não posso ir à polícia. O que eu diria? "Alguém está me imitando dentro da minha própria casa?" Eles perguntariam se eu moro sozinho. Moro. Eles me olhariam do mesmo jeito que minha irmã me olhou quando eu dei uma deixada sobre isso, e aí eles sugeriariam terapia.
Talvez eu precise mesmo de terapia. Mas terapia não explica as gravações no meu celular.
Beleza. Vou escrever tudo do começo.
Eu tenho 28 anos, trabalho em casa como designer gráfico freelancer, e moro sozinho num apartamento pequeno de um quarto há cerca de dois anos. Último andar de um prédio mais antigo, no final do corredor. É quieto. A maioria dos outros apartamentos é ocupada por pessoas mais velhas que trabalham durante o dia, então é quase silencioso a maior parte do tempo. Eu gostava disso nesse lugar. Agora eu odeio.
A primeira coisa que eu notei foi há cerca de três semanas. Era uma terça-feira, eu acho. Eu estava na minha mesa na sala trabalhando num projeto por volta das 11:30 da noite, e ouvi uma tosse vindo do corredor. Não de fora da minha porta, de dentro do meu apartamento, do corredor curto que leva ao quarto e ao banheiro. Só uma tosse única, discreta. O tipo que você dá quando está limpando a garganta.
Fiquei sentado olhando para a entrada do corredor por provavelmente um minuto inteiro. Aí eu levantei e fui verificar. Quarto vazio. Banheiro vazio. Armário vazio. Eu até olhei atrás da cortina do chuveiro, o que foi idiota porque a cortina é transparente. Não tinha ninguém. Eu me disse que eram os canos. Prédio antigo, acústica esquisita. Às vezes eu ouço meus vizinhos através das paredes, abafados. Provavelmente era isso.
Voltei a trabalhar e esqueci daquilo.
Aí na quinta-feira, eu estava na cozinha fazendo jantar, e ouvi a mim mesmo dizendo alguma coisa vindo da sala. Essa é a única maneira que eu consigo descrever. Soava como eu. Era a minha voz, vindo da sala, dizendo "É." Só isso. Só "É." Do jeito que eu diria se alguém me fizesse uma pergunta e eu estivesse ouvindo pela metade.
Eu na verdade disse "O quê?" em voz alta, pensando que de alguma forma eu tinha uma ligação no viva-voz que eu tinha esquecido. Mas meu celular estava no balcão do meu lado, sem chamadas ativas. Andei até a sala e nada. TV desligada, notebook fechado. Ninguém lá.
Aqui é onde eu deveria explicar que eu moro sozinho. Eu não tenho colega de quarto, não tenho parceiro que fica a noite, eu nem tenho bicho de estimação. Sou só eu.
Fiquei parado na sala por um tempo me sentindo muito inquieto, mas também meio idiota. Eu me disse que eu estava cansado, tinha estado trabalhando horas extras, meu cérebro estava me pregando peças. Você sabe como às vezes você ouve um barulho aleatório e seu cérebro tenta fazer parecer uma palavra? Eu imaginei que era só isso. A TV de algum vizinho ou algo assim, filtrando pelas paredes, e meu cérebro preencheu o resto com a minha própria voz.
Essa explicação funcionou por cerca de quatro dias.
Na segunda-feira da semana seguinte, eu estava na cama. Era por volta de 1:15 da manhã, eu estava apenas deitado ali tentando pegar no sono, e ouvi de novo. Vindo da sala. Minha voz. Dessa vez ela disse "Espera aí." Duas palavras. Minha voz, meu ritmo, o jeito exato que eu digo essa frase quando alguém me interrompe e eu preciso de um segundo.
Eu não levantei. Fiquei apenas deitado ali com meu coração batendo tão forte que eu conseguia senti-lo na minha garganta. Porque dessa vez eu tinha certeza. Não estava abafado. Não estava distante. Estava claro, como alguém parado na minha sala falando em volume normal. E era inegavelmente a minha voz. Não parecida com a minha. A minha.
Fiquei deitado ali por talvez vinte minutos antes de finalmente reunir coragem para levantar e verificar. Nada. Portas trancadas. Janelas fechadas. Tudo exatamente onde deveria estar.
Foi aí que eu comecei a gravar.
Baixei um aplicativo de gravador ativado por voz no meu celular, do tipo que só grava quando detecta som. Comecei a deixar meu celular na sala durante a noite enquanto eu dormia no quarto com a porta fechada. Nas primeiras duas noites, o aplicativo só capturou sons ambientes normais, a geladeira funcionando, um carro passando lá fora. Nada de estranho.
Na terceira noite, acordei por volta das 3 da manhã para usar o banheiro. Enquanto eu estava lavando as mãos, ouvi alguma coisa vindo da sala. Era minha voz de novo, mas dessa vez não era uma palavra ou uma frase. Era risada. Minha risada. Aquela risada esquisita, ofegante que eu dou quando alguma coisa me pega de surpresa. Estava perfeita. Idêntica. Cada nuance.
Peguei meu celular e verifiquei a gravação. Lá estava. Clara como o dia. Minha risada, com registro de hora às 3:02 da manhã. Mas eu estava no banheiro. Eu não tinha rido. Eu não tinha feito nenhum som.
Ouvi cerca de quinze vezes, e fiquei tentando encontrar alguma explicação. Talvez eu tivesse rido dormindo e a acústica fez parecer que veio da sala. Talvez eu tenha algum tipo de coisa de sonambulismo. Mas eu nunca sonambulei na minha vida. E a qualidade da gravação, a distância do celular, não foi gravada de perto. Soava como se tivesse vindo do meio da sala, a cerca de dois metros de onde o celular estava sentado.
Durante a semana seguinte, piorou. Toda noite, as gravações capturavam algo novo. Minha voz dizendo coisas que eu digo comumente. "Sem problemas." "Eu faço isso depois." "Tudo bem." Frases únicas no início, depois mais longas. "Acho que vou deitar." "Será que eu deixei o fogão ligado?" Coisas que eu tinha realmente dito naquele dia, coisas que eu tinha dito para clientes em ligações, coisas que eu tinha murmurado para mim mesmo.
Era como se alguma coisa estivesse me ouvindo o dia inteiro, colecionando pedaços, e aí repetindo eles de volta à noite.
Parei de dormir bem. Comecei a ir para a cama às 8 da noite só para tentar estar dormindo antes que os barulhos começassem, mas não adiantava. Eu acordava às 2 ou 3 da manhã com o som da minha própria voz vindo do outro cômodo, tendo uma conversa com ninguém. Só juntando minhas frases de formas que quase faziam sentido, mas não faziam exatamente.
"Eu faço isso depois. Sem problemas. Será que eu deixei o fogão ligado? Tudo bem."
De novo e de novo, ligeiramente diferente cada vez.
O ponto de virada foi na quarta-feira passada. Eu estava numa videochamada com uma cliente, compartilhando a tela, passando por um design. Eu estava com meu fone de ouvido com microfone ligado, e no meio de uma frase, minha cliente parou e disse: "Tem mais alguém aí com você?" Eu disse que não. Ela disse: "Eu achei que tinha ouvido outra pessoa falando. Soou como você, mas você não estava movendo os lábios."
Eu congelei. Perguntei para ela descrever o que ela ouviu. Ela disse que soou como eu dizendo "É, tudo bem," mas baixinho, como se estivesse vindo de algum lugar atrás de mim. Eu estava sentado de costas para a sala. A porta estava aberta.
Ela ouviu também. Não era só eu. Alguma coisa no meu apartamento falou na minha voz alto o suficiente para ser captado pelo meu microfone durante uma videochamada.
Depois daquela ligação, fiquei sentado na minha mesa tremendo por cerca de uma hora. Aí eu fiquei com raiva. Revirei cada centímetro do meu apartamento. Procurei por câmeras escondidas, alto-falantes, qualquer coisa que pudesse explicar isso. Olhei atrás dos móveis, dentro dos armários, debaixo do fogão, em todo lugar. Nada. Verifiquei meu WiFi por dispositivos conectados, mudei todas as minhas senhas, rodei varreduras de malware no meu computador e celular. Nada. Não havia dispositivo, não havia pegadinha, não havia explicação.
Naquela noite eu configurei meu celular para gravar vídeo em vez de só áudio. Apoiei ele no balcão da cozinha, apontando para a sala, e fui dormir com a porta do quarto fechada. Na manhã seguinte, passei por oito horas de filmagem. Durante as primeiras cinco horas, nada. Só uma sala vazia no escuro. Aí às 3:47 da manhã, o áudio capta alguma coisa. Minha voz. Mas dessa vez é diferente. Não é uma frase que eu reconheço. Não é algo que eu já tenha dito.
Ela diz: "Você está dormindo?"
Três palavras. Na minha voz. Mas o ritmo estava errado. Ligeiramente fora. Como alguém que só me ouviu falar algumas vezes tentando adivinhar como eu diria aquela frase. A voz era a minha, mas o ritmo estava quase certo, mas não exatamente.
Tocu de volta umas trinta vezes. E quanto mais eu ouvia, mais eu notava alguma coisa que fez meu estômago revirar. A voz estava ficando melhor. Gravações anteriores tinham aquela mesma qualidade de quase-certo. Essa estava mais próxima. Muito mais próxima.
Está aprendendo. Seja lá o que for isso, está aprendendo como eu falo. E está ficando mais preciso.
Ontem à noite foi o pior. Eu estava deitado na cama, porta fechada, luzes apagadas, por volta das 2:13 da manhã. Eu estava olhando para o teto, tentando me convencer a simplesmente pegar no sono, quando ouvi passos na sala. Não os sons que eu ouço dos vizinhos, não canos ou assentamento. Passos. Lentos, deliberados, no carpete. Aí ouvi minha voz, bem do lado de fora da porta do quarto, sussurrando: "Eu sei que você está acordado."
Eu não me movi. Não respirei. Fiquei apenas deitado ali com os olhos arregalados no escuro, olhando para a porta. Eu conseguia ver o brilho fraco da luz da rua entrando por baixo da fresta. E aí eu vi. A sombra de pés, bloqueando a luz por baixo da porta. Só parado ali.
Não sei quanto tempo fiquei deitado ali. Parecia uma hora, mas provavelmente foram cinco minutos. Aí a sombra se moveu, e eu ouvi os passos recuarem de volta para a sala. Alguns minutos depois, ouvi minha voz de novo, de mais longe dessa vez, dizendo: "Amanhã."
Não dormi. Fiquei sentado na cama com todas as luzes acesas até o sol nascer. Liguei para avisar que não ia trabalhar no meu freelance. Fiquei sentado aqui o dia inteiro tentando descobrir o que fazer.
Pensei em ir embora. Ir para um hotel, ficar na casa da minha irmã, qualquer coisa. Mas e se me seguir? E se seja lá o que for isso não estiver ligado ao apartamento? E se estiver ligado a mim? É a minha voz que está usando. Minhas palavras. Aprendeu elas comigo.
Estou sentado no meu apartamento agora escrevendo isso. São 7:48 da noite. O sol está se pondo. Deixei todas as luzes acesas, mas o apartamento parece errado. O ar parece denso, como a atmosfera antes de uma tempestade. E fico ouvindo sons minúsculos do outro cômodo. Um passo. Uma limpeza de garganta. Minha limpeza de garganta. Meu passo.
Fico olhando para a entrada do corredor e fico vendo alguma coisa na beirada da minha visão. Só uma forma. Só uma escuridão que é ligeiramente mais escura que o resto. E toda vez que eu viro para olhar diretamente para ela, não está lá.
Acho que está se preparando para hoje à noite. Acho que é isso que "Amanhã" quis dizer.
A pior parte, a parte que eu não consigo parar de pensar, é aquela última gravação. Eu ouvi tantas vezes agora, e eu percebo o que tem me incomodado nela. Quando ela disse "Eu sei que você está acordado," não soava mais como quase-certo.
Soava exatamente como eu.
Não sei o que vai acontecer hoje à noite. Não sei o que ela quer. Mas eu consigo sentir ela me observando agora, esperando, e eu acho que terminou de praticar.
Se alguém já passou por algo assim, por favor me diga o que fazer. Vou verificar os comentários enquanto puder.
Mas se eu parar de responder, não é porque eu fui embora.
É porque ela finalmente acertou a voz.


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