segunda-feira, 18 de maio de 2026

Sem Rastro

Abro os olhos com a luz que se infiltra pelas minhas cortinas. Não importa quanto tempo fiquei deitado ali, nem quanto tempo passei bebendo — eu estava com medo demais de dormir e descobrir que pesadelos minha mente poderia conjurar. Todos os meus pensamentos estavam nele. No meu filho. Parei de me afundar na própria miséria, me arrastei para fora da cama e me preparei para voltar lá fora.

Naquela manhã, quando ele foi embora, eu não fazia a menor ideia de que poderia ser a última vez que eu o veria. Ele estava tão animado — tinha planejado aquela viagem com os amigos durante meses, se dedicou nos estudos, arrumou um emprego de meio período pra ajudar com as contas. Ele era, é, um bom garoto. E eu sou um pai horrível por ter deixado ele ir lá fora. Para dentro da floresta.

Ele só tinha sumido por uma noite quando aquele aperto no estômago começou. Tentei me convencer de que era só o nervosismo falando mais alto. Eu devia ter ouvido esse instinto. Se tivesse ouvido, talvez eu não estivesse parado aqui no corredor agora, engolindo seco, olhando pras fotos dele na parede. Todas elas parecem diferentes agora. Manchadas. Quando olho nos olhos dele em cada foto, sinto julgamento, culpa, tristeza — tudo misturado numa bola enorme de ódio por mim mesmo. Se eu não voltar lá fora, não terei como me chamar de pai. Muito menos de homem. Mas antes de ir, preciso deixar alguma coisa registrada. Por precaução.

Meu filho saiu numa viagem de acampamento com os amigos depois de terminar o ensino médio. Era o assunto de semanas. Acampamos juntos quando ele era pequeno, e depois que pegou gosto pelo ar livre, eu mal conseguia botar o pé em casa quando a gente voltava — ele já estava perguntando: "Quando a gente vai de novo, pai?" Mas com o tempo, fui ficando sem tempo livre pra passar com ele. Isso nunca foi cobrado de mim. Eu nem o culparia se fosse, mas depois de trabalhar a madrugada toda, ele já estava saindo pra escola quando eu desabava na cama. Ainda assim, me esforcei pra todo aniversário a gente ir lá pra fora juntos — só pra ver ele sorrir.

Naquela manhã, antes de ele ir, eu dei um presente pra ele. Não era grande coisa, mas tinha mais valor sentimental do que qualquer outra coisa. Era um relógio que meu pai me deu há muito tempo, mais ou menos na idade dele — estava deteriorado pelos anos, mas depois de gastar um dinheiro, fui lá e mandei consertar, fazendo ele brilhar pela primeira vez em décadas. Então, justo antes de ele sair, eu o surpreendi com o relógio, e a expressão no rosto dele não tinha preço. Ele me abraçou, agradecendo pelo presente, enquanto eu passava as regras com ele mais uma vez. "Lembra de—" ele me cortou com a lista mental que eu tinha preparado com ele: "Acampar num lugar seguro com sinal, deixar o celular ligado e te ligar pelo menos uma vez por dia." "Isso. E tenta não beber muito, tá? Não quero você voltando aqui fedendo o lugar todo." "Não vai ter bebida, pai", ele disse com uma cara meio convincente. "É, é isso mesmo. Vai com calma, tá bom?" Ele deu aquele meio sorriso. "Pode deixar, pai." Passei a mão no cabelo dele e o mandei embora pela porta.

Eu não contei pra ele.

Eu devia ter contado.

Quando o sol começou a se pôr naquele sábado ensolarado, meu celular tocou."E aí, filho, tudo bem?" Eu conseguia sentir o entusiasmo dele irradiando pelo telefone. "Tá ótimo, pai, só ligando pra avisar que cheguei bem e as barracas tão montadas. Você tinha que ver isso aqui — a floresta tá incrível, fez fresco o dia todo." Ele devia ter achado um lugarzinho e tanto lá no meio das árvores. "Apostei. Toda essa sombra deve ser ótima — eu tava suando os colhões aqui o dia inteiro!" Ouvi ele dar uma risada. "Bom, obrigado pelo aviso. Olha, amanhã eu chego no fim da tarde. Tava pensando em pedir comida?" "Ótimo. Pode ir se divertir. Se diverte muito, filho." "Tchau, pai."

Tchau, filho.

Na manhã seguinte, levantei e comecei a resolver tudo que tinha deixado de lado no dia anterior, enquanto ficava pensando no que pedir pra jantar mais tarde — cogitei passar na pizzaria quando ele chegasse. Horas se passaram enquanto eu esperava o celular tocar, alguma atualização sobre quando exatamente ele estaria de volta. Mas quando aquele fim de tarde foi avançando e virando o início da noite, aquele nó no estômago foi apertando até que eu cedi ao sentimento e liguei pra ele.

Existe um ponto entre quando algo terrível já aconteceu e um ponto quando você ainda está vivendo na ignorância. Se eu soubesse que fiquei nessa ignorância por horas, teria ido lá antes. Talvez eu pudesse ter… O sinal chamou, pedindo pra eu deixar uma mensagem. Deixei uma dizendo pra me avisar quando ele chegasse. Uma hora se passou. "Por favor, deixe uma mensagem." Vinte minutos se passaram. "Por favor, deixe uma mensagem." Os segundos pareciam dias. "Por favor, deixe uma mensagem."

Liguei para os outros pais cujos filhos também estavam lá, perguntando se tinham recebido algum contato. Cada um com quem falei tinha a mesma situação que a minha. "Por favor, deixe uma mensagem." Os outros pais tentavam me tranquilizar tanto quanto tentavam se tranquilizar. "Eles tão bem, são bons garotos — provavelmente pararam pra jantar em algum lugar no caminho de volta." Mas o tom, algo escapava quando falavam — eu conseguia ouvir a fachada que estavam erguendo. A mesma que eu estava erguendo, com piadas e sorrisos sobre como eles provavelmente não queriam ser incomodados pelos pais velhos nem por uma vez. Mas todos nós sentíamos. Algo estava errado.

Liguei pra polícia pra registrar pessoas desaparecidas à meia-noite.

Por que a gente faz isso — esperar até o último momento possível pra tentar resolver alguma coisa? Até a polícia da minha cidade tem aquela regra idiota. "Sinto muito, senhor, só podemos registrar um desaparecimento depois de quarenta e oito horas." Tentaram me dar as mesmas garantias — que ele é um adolescente, acabou de fazer dezoito anos, deixa ele se divertir um pouco, ele vai ficar bem.

Entrei no carro, sentindo o nó no estômago apertar. Ignorando a dor, saí na madrugada em direção ao acampamento, tentando afastar da cabeça os piores cenários. Mas no final, não adiantou nada.

Minha mente nem chegou perto.

Ao chegar na beira da floresta, parei num espaço ao lado de um carro que reconheci muito bem. Ele só tinha carteira há alguns meses, mas estava cheio de confiança desde que passou no teste. Então, ao olhar pro carro que comprei pra ele, minha armadura de confiança, minha fachada de que tudo ia ficar bem, foi se despedaçando — rasgando como um tecido gasto. Eu estava me desfazendo só de olhar pro carro dele.

Saí do carro de um salto com minha lanterna, me arrastando como um bicho pela trilha, chamando por ele repetidamente na mata, ligando pra ele sem parar no celular. Não sei quanto tempo se passou antes de ouvir. Fraco, mas ainda lá. O som de um celular tocando. Corri em direção ao barulho, me permitindo deixar a esperança entrar um pouco. Mas quando atravessei as árvores, aquela fração de esperança de que meu filho estava bem explodiu em pó — me deixando aqui, na chuva, encarando o celular do meu filho. "Por favor, deixe uma mensagem."

Fiquei lá por horas, gritando o nome dele, procurando por ele. Implorando a algum poder maior que o trouxesse de volta pra mim. Procurando um sinal.

Sem rastro.

Os dois policiais de plantão praticamente deram um salto quando eu chutei a porta, exigindo uma equipe de busca — assim como todos os outros pais que liguei no caminho de volta. Estávamos todos com raiva, apavorados e exigindo tudo o que podíamos. Pela manhã, a história estourou nos noticiários. Se espalhou rapidamente pelo país, e nos dias seguintes, a pequena equipe de busca cresceu para centenas de pessoas vasculhando a floresta atrás de qualquer vestígio dos rapazes e do meu filho.

Sem rastro.

Com o passar das semanas, a história parecia "sem mais o que explorar" — esse foi o termo que ouvi um repórter usar de passagem. Precisou de dois homens pra me arrancar dele. Sem mais o que explorar. Como se não houvesse mais nada a retirar da história do meu filho — nada sobrando além dos ossos dele. Parasitas, todos eles — sugando nossa dor e desespero. Menos gente foi aparecendo nas buscas por causa disso. Outros perderam a esperança conforme as semanas viraram meses. E assim que a última família me disse que era "hora de enterrar meu filho", me virei e fui embora, deixando-os de luto.

Eu não conseguia fazer isso. Enterrar o quê? Uma caixa vazia? Não. Vesti minha capa de chuva e voltei a entrar.

Onde eu finalmente encontraria um rastro do meu filho.

O acampamento estava completamente pisoteado — a essa altura os policiais tinham parado de se preocupar com a cena do crime, o caso tinha esfriado oficialmente na semana passada, e a estação também esfriara. Uma névoa fria e fantasmagórica começou a rastejar enquanto eu entrava hoje, tornando a busca ainda mais difícil, afastando as últimas famílias e esmagando os restos de esperança que ainda tinham — me deixando exatamente de onde eu havia partido. Na floresta. Sozinho.

Examino os mesmos lugares que já examinei mil vezes antes. Só que dessa vez, eu me sentia diferente. Os pelos da nuca estavam arrepiados.

Algo estava me observando.

Eu não era estranho a essa sensação — ela tinha me acompanhado em cada busca. A sensação de ser zoado à distância, como se alguém soubesse algo que você não sabia, uma piada doentia da qual você não fazia parte. Mas agora que eu estava de volta aqui sozinho, aquela sensação de escárnio se transformou em algo mais sombrio. Maligno. Algo fundo no meu cérebro que estava lá há milhões de anos de evolução — aquele instinto de luta ou fuga, a sensação de ser caçado.

Estalo.

Me virei de supetão e vi uma sombra disparar de volta pelas árvores. "Ei!" foi tudo que consegui gritar antes de sair no encalço. Correndo pelas árvores da melhor forma que conseguia, vi a figura lá na frente parar de vez. Ao me aproximar, comecei a entender o que estava vendo. Meus ombros baixaram quando a realidade bateu. Um veado. Era só um veado. Eu provavelmente assustei o bicho pra caralho quando fui atrás dele. Me aproximei devagar, pensando em como, quando eu era criança, meu pai me levava pra caçar. Pensei em ensinar meu filho também, mas dava pra ver claramente que ele não conseguia machucar nem uma mosca, e eu não ia forçar. Em vez disso, pegamos uma abordagem diferente — trouxemos binóculos pra observar a floresta ao invés de fazer mal a ela.

Tirei os binóculos, já que estava tão perto, só pra sentir algo diferente daquele nó por um momento. Olhei por eles, com zoom no veado, e ele ainda estava na mesma posição. Estava tão perto que conseguia ver nos olhos dele. Aqueles olhos pobres e inocentes. As pupilas estavam dilatadas — ele estava apavorado. Abaixei os binóculos bem na hora de ver os longos fios escuros de cabelo descendo pela névoa com um pescoço se estendendo junto. Um rosto mais comprido que o de um cavalo atravessou o cabelo negro, olhos brancos e pequenos no alto do crânio, focando sua intenção assassina pura e horripilante numa das coisas mais inocentes que já vi.

Devagar, a mandíbula desencaixou com um estalo, e o queixo inferior saltou pra frente, engolindo o veado inteiro como uma cobra, em menos de um segundo. Os gritos que o bicho soltou foram uma paulada no estômago. Nenhum osso estalando, nenhum sangue — era como se o veado nunca tivesse existido. E assim que ela fechou a boca, os gritos do veado cessaram também.

Minhas mãos estavam tremendo. Ver algo que não cabe na sua realidade é suficiente pra mandar qualquer homem pro limite. Sem tirar os olhos dela, dei pequenos passos pra trás — mas no meu tropeco desajeitado, senti minhas costas empurrarem um galho fraco, estalando-o, fazendo o menor barulho do mundo soar como uma bomba explodindo. Encolhi com o barulho, vendo que agora os olhos brancos dela tinham caído sobre mim. Só de encarar de frente, dava pra ver que a linha reta da boca tinha puxado levemente pra cima, dando a ela um ar de prazer. Num piscar de olhos, o rosto comprido se recolheu, subindo de volta pras copas das árvores, onde eu o perdi de vista. Mas logo acima, ouvi galhos quebrando — era quase ensurdecedor conforme os sons avançavam rapidamente em minha direção. Virei e corri.

Com o medo e a confusão, eu mal conseguia distinguir onde estava ao correr pela névoa densa — tinha apenas as poucas marcas de trilha espalhadas pra me guiar. Minhas pernas bombeavam como pistões, gritando de dor, mas tudo o que eu conseguia ouvir eram os barulhos lá em cima e o sangue trovejando nos meus ouvidos — e tudo isso veio a um brusco fim quando colidi com um galho atravessado na trilha, me jogando de costas no chão. Foi então que eu vi. Vi tudo.

Primeiro vi os braços de preguiça que ela usava pra se mover pela floresta — suas garras longas envolviam cada árvore grande com facilidade, se mantendo suspensa acima do chão. O corpo era mais uma bolsa de fluidos do que qualquer outra coisa, com a barriga transparente, me deixando ver seus conteúdos repugnantes. Conseguia ver o veado lá dentro, flutuando inerte, sufocado nos sucos do estômago dela, sendo absorvido lentamente. Toda essa informação horrorosa foi sendo gravada na minha mente enquanto olhei pra ela por apenas alguns segundos — antes de rolar pro lado e desviar da boca em forma de cobra que desceu pra me pegar e me mergulhar naquele saco escuro. Depois de rolar, me empurrei do chão e dei uma última corrida desesperada em direção à beira da floresta, que agora estava à vista, enquanto tentava expulsar da cabeça aquele último detalhe condenatório.

Mas eu vi.

Atravessei a beira da floresta e me joguei contra o carro, mãos tremendo com as chaves, lágrimas escorrendo pelos olhos. Mas agora não importava mais — o monstro tinha ficado sem espaço pra se mover. Tudo o que restava era ir embora. Mas fiquei parado ali ao perceber que não estava em perigo. Me virei pra encarar a floresta de novo e olhei alto pras copas das árvores. Conseguia ver ela, mal e mal. Dois olhos brancos me olhando lá de cima. Senti a raiva fervendo no peito. O último clarão que vi quando olhei pra dentro dela. Meu último presente pro meu filho.

O relógio que dei a ele estava flutuando na bile dela.

Gritei.

Gritei e chorei o caminho todo pra casa, socando o volante — mãos roxas, nós dos dedos sangrando. Minha mente fica repetindo todas aquelas viagens lá fora com todo mundo. Todo esse tempo.

Por que eu não olhei pra cima?

Escrevo isso agora porque planejo voltar lá fora, e quero que as pessoas saibam o que aconteceu com aqueles rapazes, com o meu filho. Toda vez que fecho os olhos, vejo aquele sorriso maligno da coisa. Ela sabe quem eu sou. Essa criatura não mata só pra sobreviver — ela sente prazer nisso, e leva seu tempo porque consegue digerir a comida devagar. Ela é paciente. Mas eu não sou. Vou atualizar quando voltar, mas por enquanto, estou pegando meu rifle de caça e voltando pra recuperar a última coisa que ainda consigo tirar dela.

Um pedaço do meu filho.

Um rastro.

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