sábado, 23 de maio de 2026

Espectadora

Já odiou alguém?

Não estou falando sobre aquele ódio mesquinho de hoje em dia; tipo ser obrigada a sentar do lado daquele colega de classe barulhento ou ter inveja do melhor aluno da sua turma. Estou falando sobre ódio de verdade; a raiva fria, profunda e insensível por alguém ou algo que é tão forte que você poderia ver a pessoa morrer bem na sua frente e não sentir nada além de uma satisfação amarga, em vez do horror de ter visto alguém morrer?

Porque eu já senti isso. Quando eu tinha oito anos, minha família se mudou para uma cidade pequena, mas aconchegante, no Texas. Era quase perfeita. Quase. Se não fosse pelos vizinhos que moravam do outro lado da rua.

Gertrude era a mãe; uma mulher de aparência horrenda, com olhos fundos em um rosto esquelético acoplado a um corpo frágil e esguio. Que tinha quatro filhos descontrolados, nenhum marido, e estava presa de corpo e alma em uma vida de miséria, com uma voz que faria uma megera morrer de inveja.

Lembro de pensar que a existência dela era equivalente a uma espinha; uma aberração repugnante que não trazia nada além de dor, cuja única utilidade era produzir gosma nojenta que você tinha que lavar. Ainda assim, algo que você era aconselhado a simplesmente ignorar. A "Deixar em paz."

Como se aquela família demente deixasse alguém em paz.

Como se dois dos filhos mais novos dela não fossem vistos atirando pedras em pássaros, carros ou qualquer outra coisa desgraçada que cruzasse a mira deles.

Como se a filha mais velha, Paula, não fosse vista na casa do Sr. Wilson aos 15 anos "fazendo recados."

Como se o filho mais velho, Connor, não tivesse sido visto cortando os pneus do carro do professor dele por tê-lo reprovado pela terceira vez.

Mas, infelizmente, provavelmente por causa da pobreza da Gertrude (ou do fato de meus pais nunca terem visto pessoalmente o comportamento incorrigível dos filhos dela), isso significava que não podíamos falar mal deles.

"Eles não precisam de decoração de Halloween, era só a Gertrude ficar do lado de fora que eles ganhavam o prêmio de casa mais enfeitada."

Meu irmão soltou essa piada um dia no jantar, antes de minha mãe calá-lo com um olhar matador.

"Não diga isso, a pobre Gertie está passando por dificuldade, ela já tem a vida difícil do jeito que é. Ela não precisa que algum pirralho comece a insultá-la."

Pobre Gertie.

Eu não disse nada, mas concordei com meu irmão. Mesmo sendo uma criança obediente, eu me recusava a ficar perto da Gertrude ou da família dela, apesar de ser gritada por ser "desrespeitosa" milhares de vezes. Tinha algo de muito errado com eles.

Mas, para minha vergonha, eu tinha adotado a mentalidade ingênua dos meus pais de ser uma mera espectadora, estupidamente acreditando que estava isenta da crueldade deles por não ser uma vítima direta.

Eu não apenas estava errada, como também paguei um preço alto por isso.

Quando meu nono aniversário chegou, um dos dias mais felizes da minha vida de criança. Não só porque eu estava cercada de bolo, pizza, família e amigos. Mas porque era o meu primeiro dia com ela.

Uma caixinha foi colocada no meu colo, e dentro estava uma gatinha tabby cinza olhando de volta para mim, que agora tinha nove anos. Uma coisinha minúscula com olhos que tinham uma tonalidade de verde tão linda, que me lembrou na hora das preciosas pedras de Jade, que virou o nome dela.

Jade.

A gente fazia tudo juntas; ela me seguia até o ponto de ônibus para a escola, esperava na porta pela minha volta. Ela dormia na minha cama, sentava do meu lado enquanto eu fazia o dever, mesmo quando mal conseguia manter os olhos abertos.

Jade não era só minha gata. Ela era minha melhor amiga, minha alma gêmea, minha irmã presa num corpinho peludinho.

Eu deveria ter sido mais cuidadosa.

Então um dia, ela não estava em casa. Eu pensei que ela tinha simplesmente saído para ver os peixes num riacho próximo ou brincar no nosso quintal, como fazia direto nos dias quentes de verão. Mas ela não estava lá também.

Aí... eu ouvi.

Risadas. Vindo de trás de um arbusto grande, seguidas por vozes abafadas e o som de gente fugindo. Movida por uma curiosidade cautelosa, fui para trás daquele emaranhado de plantas para investigar de onde vinha o som.

Eu queria poder dizer que era o Connor enfiando bombinhas em formigueiros de novo, ou o irmãozinho dele, John, esmagando caracóis com a bota.

Mas não era.

O que eu encontrei atrás do arbusto era a Jade; o corpo dela retorcido e desfigurado além do que se pode imaginar. A pelagem linda dela toda enlameada e molhada de ter sido pisoteada. Ela tinha sido espancada e depois afogada, as garras dela ainda cheias de terra de quando tentou escapar.

Me desculpa, Jade.

Segurando o corpo da minha gata assassinada, fui até meus pais chorando e gritando. Eles foram solidários, mas dava pra ver que não acreditavam que os filhos da vizinha fossem os culpados.

"Deve ter sido um coiote, ou um carro deve ter atropelado ela." Disseram eles, acariciando meu cabelo gentilmente.

Eles estavam errados, eu sabia que a morte dela não foi acidente, nem foi obra de coiotes que eu nunca vi. Foi o Connor. Ele tinha matado minha gata, minha melhor amiga e minha irmã no corpo de uma gata. Ele nunca ia ser punido, nem pelos meus pais, nem pela mãe dele, aquela desgraçada.

Eu ouvi ele rindo disso na escola no dia seguinte. Ele se deliciando com o fato de ter matado a gata da vizinha de nove anos e se gabando de mais bichos que tinha matado pros irmãos, pros amigos, pra qualquer um que quisesse ouvir. Se gabando de que estava se saindo impune. E ele estava, por causa da inércia deles.

Eu fiquei fervendo de ódio nos dias seguintes. Eu fantasiava com o Connor ou os irmãos dele sendo atropelados por carros ou despedaçados por coiotes. Era tudo conversa de criança; planejar matar, machucar, mas nunca realmente fazer nada. Porque o que uma menina de nove anos poderia fazer pra matar um garoto de 13 anos, que dirá uma família inteira?

Nada. Absolutamente nada.

Quando a pior enchente repentina da minha região atingiu a cidade e eu vi o carro da Gertrude lutando para sair à tona no rio local. Eu não pedi ajuda nem contei a ninguém o que vi.

Eu não fiz nada.

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