Eu estou com medo de ir para casa.
Na verdade, eu acho que nunca mais vou voltar. Não me importo que tudo que eu tenha esteja lá, nem que é a casa da minha infância — eu nunca mais vou voltar. Faz apenas alguns meses que eu recebi a ligação que mudaria minha vida. Eu estava sentada no meu dormitório, estudando para uma prova de psicologia, quando o chiado monótono do meu celular rompeu o silêncio tranquilo.
"Alô?" Eu atendi em branco.
"Sim, estou falando com a Erin?" Uma voz grossa e masculina rompeu pelo alto-falante.
"Hum, sim, sou eu. Com quem estou falando?"
"Bem, senhorita, eu sou o Xerife Waterson, de Centerville. Seu pai é o Roger, correto?"
Minha voz quebrou enquanto eu sussurrava: "Sim. Está tudo bem?"
Um suspiro pesado e dolorido veio pelo telefone.
O funeral do papai foi mais difícil que o da mamãe. O da mamãe era algo que se esperava há muito tempo; o câncer havia saqueado o corpo dela por anos, ele ria de alegria enquanto envenenava o sangue dela e a deixava uma casca oca meses antes do último suspiro. Mas o papai tinha se afogado. Não em um lago, não em uma piscina — dentro da própria casa. Eles me disseram que ele adormeceu na banheira. Três dias depois da ligação do xerife, eu estava na pequena e tradicional capela wesleyana. Enquanto eu ficava em frente ao caixão simples, vestida de preto, eu percebi que agora eu era órfã. Mais tarde naquela noite, o advogado do papai me sentou para me explicar o testamento.
Eu sentei ali no sofá em um choque induzido pelo luto. O jargão jurídico que saía do advogado me sobrecarregava como uma enchente. Muito poucas de suas palavras chegavam à minha mente. Mas uma de suas últimas declarações rompeu meu torpor.
"...E, finalmente, seu pai lhe deixou a totalidade de seu patrimônio, incluindo a casa."
"Espera, o que você disse?" Eu perguntei ao advogado seco.
"Seu pai lhe deixou a casa, assim como a maioria de seus bens terrenos." Ele respondeu como se fosse a declaração mais mundana do mundo.
"Ah" foi tudo que eu consegui dizer.
"Além disso, seu pai lhe deixou isto", ele disse enquanto me entregava um pequeno e simples envelope que trazia meu nome.
"Obrigada", eu disse enquanto o enfiava na minha bolsa.
Os dias se passaram cheios de casseroles (1), abraços e assinaturas desleixadas em documentos legais. Vários membros da família aconselharam que eu vendesse a casa para pagar minha faculdade. Mas como eu poderia? Como eu poderia vender a primeira e única casa que meus pais compraram? Como eu poderia vender a casa que abrigou minha infância? Em vez disso, eu a mantive, tranferi (2) para um programa online e, antes que eu percebesse, eu estava mudando as poucas caixas do meu dormitório para a casa que agora era minha.
Algumas semanas depois, eu me vi sozinha na casa pela primeira vez desde que o papai morreu. Ninguém te diz como é barulhento depois do funeral, nem como é silencioso depois que todos vão embora. O silêncio trouxe à tona cada boa memória do meu papai, embora estivessem manchadas pela perda. Não haveria mais memórias compartilhadas, nem abraços felizes quando eu me formasse na faculdade, nem risos emocionados enquanto ele me levasse ao altar. Eu tinha cada memória do meu papai que eu jamais teria, e, conforme eu envelhecesse, elas desapareceriam, eventualmente sumindo completamente. Então o meu papai estaria realmente morto.
Enquanto lágrimas suaves escorriam pelas minhas bochechas, uma memória de um bilhete escondido na minha bolsa veio à mente. Pegando minha bolsa, eu pesquei a carta que trazia meu nome na caligrafia trêmula, porém elegante, do meu pai. Uma única lágrima umedeceu o envelope enquanto eu o abria delicadamente. Meu coração aguardava ansiosamente pela sabedoria que ele poderia conter, mas, para minha surpresa, ele tinha apenas uma única frase:
"Sempre deixe um copo d'água na mesa de cabeceira"
Eu não sei quanto tempo eu fiquei olhando para aquela frase solitária, mas, enquanto eu olhava, a raiva fervilhou dentro de mim. E, antes que eu percebesse, eu gritei.
"É só isso?? Esse é o melhor conselho de merda que você conseguiu pensar? Nossa, obrigada, papai, eu vou sempre estar hidratada à noite! E quanto a 'eu te amo' ou 'tenho orgulho de você'?" Eu gritei para uma casa vazia enquanto escorregava para o chão e chorava.
"Por que você teve que ir embora? Por que você me deixou?"
Naquela noite eu me embebedei. Um coquetel de raiva e luto abasteceu minha ida até a loja de bebidas local, onde eu comprei álcool suficiente para abastecer qualquer fraternidade (3) por uma semana. Depois de várias rodadas com Jack Daniels, eu finalmente desabei na minha cama em um estupor etílico. Era por volta das 3 da manhã quando eu me acordei tossindo e engasgando; parecia que meus pulmões estavam cheios de água. Eu me sentei rapidamente, com medo de que estivesse engasgando no meu próprio vômito. Mas, quando eu me lancei para cima, a sensação passou. Minha via aérea se abriu e eu aspirei avidamente o máximo de ar que pude. Minhas mãos tremiam descontroladamente enquanto eu tentava me acalmar. Levantando-me, eu caminhei até o banheiro principal e me inclinei sobre a pia para jogar um pouco de água fria no rosto. Olhando para cima, eu vi minha pobre reflexão no espelho, e, por um momento, no reflexo, eu vi movimento.
Foi sutil, mas ali, no reflexo da escuridão boquiaberta que era a porta do meu quarto, havia movimento — o tipo de movimento que seus olhos notam um segundo tarde demais. Os cabelos da minha nuca se eriçaram enquanto as implicações me alcançavam. Lentamente, eu virei e encarei o vazio escuro que costumava ser meu quarto. Armada apenas com uma escova de cabelo, eu entrei cautelosamente no quarto.
"Alô?" Eu disse, tentando disfarçar o medo na minha voz.
"Tem alguém aí?"
O quarto estava vazio; não havia ninguém lá, e logo eu voltei minha atenção para a porta do corredor. Espreitando minha cabeça no corredor, eu olhei para os dois lados, e, enquanto eu fazia isso, por trás de mim eu ouvi o gotejar suave de água. Minha jornada de volta ao banheiro pareceu levar horas; eu ficava esperando que algo me tocasse vindo da escuridão. Mas logo eu estava parada completamente na luz branca baixa do banheiro; diante de mim estava a pia. Um fino fio de água escorria da torneira. Minha mente ofereceu dezenas de explicações, mas a que eu aceitei foi que, no meu medo, eu falhei em fechar a torneira completamente e não percebi até que meu terror tivesse passado.
"Não é nada, só o álcool", eu sussurrei em voz alta para mim mesma enquanto trancava a porta do quarto e voltava para a cama.
Na manhã seguinte, eu acordei em uma estranha mistura de exaustão sonolenta e esperança quieta. Eu me vi de certa forma envergonhada sobre a noite anterior, tanto pela bebedeira quanto pelo medo. E, embora eu ainda estivesse de luto, eu me disse que não deixaria mais a perda me controlar. Naquela manhã eu comecei a desfazer as malas e limpar. O trabalho era bom para mim; mantinha minha mente longe de ficar remoendo a perda. Logo eu voltei aos meus estudos, o que me trouxe algum prazer. Pela primeira vez em dias, eu senti fome. Então eu caminhei alguns quarteirões até a pizzaria, a mesma onde eu trabalhei no ensino médio. Billy, o dono, me cumprimentou calorosamente com um abraço enquanto me dizia como sentia muito pela minha perda.
"Obrigada, Billy, isso significa muito", eu respondi.
"Nós te amamos, garota, e você sempre tem um emprego aqui se quiser."
Eu sorri. "Se você está falando sério, sim, isso seria ótimo; eu poderia realmente usar uma distração agora."
Ele assentiu. "Comece quando estiver pronta; nós te aceitamos a qualquer hora."
"Que tal amanhã?"
Ele deu uma palmadinha nas minhas costas. "Amanhã é ótimo."
Alguns momentos depois minha pizza grande de pepperoni estava pronta, e, enquanto Billy a entregava para mim, ele disse: "Por conta da casa, garota; é o mínimo que podemos fazer."
Eu agradeci e carreguei meu jantar de volta para casa.
Eu gostaria de poder dizer que aquela noite foi normal, mas o que eu achava que era apenas uma reação etílica ao luto acabou sendo algo maior. Todas as noites daquela semana, às 3 da manhã, eu acordava sentindo que estava me afogando; todas as noites a sensação ficava mais intensa e durava mais que a noite anterior. Depois de uma semana inteira de sono inquieto, eu não aguentava mais. Não sabendo o que mais fazer, eu mandei um e-mail para um dos meus professores e perguntei se poderíamos marcar uma videochamada. O Dr. Martin era um dos meus professores favoritos; ele encorajava calorosamente meus desejos de me tornar psicóloga, e, depois de algumas conversas banais, eu me abri com ele. Eu contei sobre a morte do meu pai, como ele se afogou; eu contei sobre meus pesadelos e o terror que eu sentia enquanto meus pulmões enchiam de água imaginária. O tempo todo ele ouviu atentamente.
Quando meu relato chegou ao fim, o Dr. Martin encarou intensamente a câmera, claramente mergulhado em pensamentos; um momento depois ele falou:
"Honestamente, Erin, parece muito com paralisia do sono desencadeada pelo luto."
"Paralisia do sono?" Eu repeti.
"Sim, parece que seu subconsciente tomou esse luto e o internalizou na forma de uma experiência de paralisia que imita os momentos finais do seu pai."
Eu fiquei olhando por um momento enquanto essa notícia afundava em mim. "Bem, tem algo que ajudaria?" Eu perguntei.
"Bem, se você quiser ir pela via da medicação, eu teria que te encaminhar para alguém, mas, se me perguntar, medicação pode não ser necessária. Talvez tudo que sua mente precise seja alguma forma de encerramento."
Eu pensei por um momento antes de assentir. "Obrigada, doutor; você tem sido muito útil."
"Claro, Erin; feliz em ajudar."
Fechando meu laptop, eu sentei ali na ponta da minha cama, tentando o meu melhor para digerir o que eu acabava de ouvir. O que seria um encerramento? Momentos depois me acertou: o bilhete. O bilhete estúpido de uma frase que meu papai me deixou, o bilhete que estava atualmente escondido no fundo da minha gaveta de tranqueiras. Logo eu me vi encarando o pedaço de papel amassado. Tudo que dizia era:
"Sempre deixe um copo d'água na mesa de cabeceira"
Por que ele escreveria isso? O pensamento quicava na minha mente repetidamente, mas, no final das contas, não importa; se ouvir o bilhete daria encerramento à minha mente, eu faria o que quer que ele dissesse. Naquela noite, antes de dormir, eu coloquei um copo alto de água clara na mesa de cabeceira; eu encarei o copo enquanto minhas pálpebras ficavam pesadas e, logo, eu estava profundamente dormindo.
Eu acordei de manhã chocada; não apenas eu tinha dormido a noite toda, mas foi um dos sonos mais revigorantes que eu já tive. Eu me senti relaxada e energizada, pronta para o dia que vinha. Meu sorriso raramente deixou meu rosto o dia todo; mais tarde naquela tarde Billy comentou:
"Você está de bom humor hoje, Erin; fico feliz em ver isso."
Eu ri levemente. "Sim, finalmente parece que eu posso seguir em frente com minha vida."
Ele sorriu e assentiu enquanto voltávamos ao trabalho.
Naquela noite, eu despejei o copo e o enchi até a borda com água fresca. Pulando na cama, eu silenciosamente esperava que aquela noite fosse tão boa quanto a noite anterior. Novamente, a manhã chegou, e, com ela, a energia renovada de uma noite revigorante. Eu acordei com um sorriso no rosto, mas, pelo canto do olho, eu notei que algo estava diferente. Era o copo; estava meio cheio. Eu fiquei olhando para ele por um momento. Eu lembrava vividamente de tê-lo enchido completamente na noite anterior, mas agora não estava cheio. Levou um momento para me convencer de que eu simplesmente tinha bebido um gole no meio da noite e simplesmente não lembrava.
"Estranho", eu disse em voz alta enquanto forçava um encolher de ombros.
Apesar dos meus esforços, uma sensação de desconforto grudou em mim o dia todo. O dia em si foi um borrão; eu não conseguiria te dizer uma coisa sobre aquele dia, apenas que eu passei cada momento me perguntando o que aconteceu com a água. Novamente, a noite chegou, e eu me vi enchendo o mesmo copo com água fresca. Enquanto eu o colocava na mesa de cabeceira, eu tomei um momento para notar a quantidade exata de água que o copo continha. Levou mais tempo para adormecer naquela noite, mas, eventualmente, o sono me levou.
Novamente, eu acordei revigorada e feliz, mas isso durou apenas um momento enquanto eu olhava para a mesa de cabeceira e via que o copo estava um pouco mais que meio cheio, definitivamente menos que na noite anterior. Naquele dia minha mente foi consumida por uma coisa: a água. Será que eu bebi e simplesmente não lembro? Eu devo ter. Mas por que eu não lembro? Para onde mais a água poderia ter ido?
"Tudo bem, garota?" A voz de Billy rompeu através das minhas perguntas.
"Ah, sim, desculpe; só muita coisa na cabeça."
"Bem, se precisar conversar sobre qualquer coisa, é só falar."
Eu assenti enquanto tentava me distrair com o trabalho.
Naquela noite eu tive uma ideia. Depois de encher o copo, eu peguei um marcador vermelho e marquei a linha d'água. De manhã não haveria dúvida sobre quanta água eu tinha colocado. Na manhã seguinte o copo estava completamente vazio. Num acesso de raiva e medo, eu joguei o copo através do quarto; ele se estilhaçou ao bater na parede.
"Que porra está acontecendo?" Eu gritei para a casa vazia.
Naquela tarde, enquanto eu caminhava para o trabalho, eu percebi que, antes de exagerar na reação, eu precisava ter certeza de que eu não estava bebendo a água. Por tudo que eu sabia, eu poderia estar sonâmbula. Se eu pudesse ver que estava bebendo a água, isso poria um fim nisso. Eu sabia que meu celular não gravaria a noite toda, e eu não tinha tempo hoje para dirigir até a cidade vizinha e comprar uma câmera de segurança; então, se eu não podia gravar vídeo, talvez eu pudesse gravar áudio. Eu frequentemente usava um aplicativo de memo de voz para gravar palestras da faculdade para ajudar nos estudos, e eu sabia que não havia limite para quanto tempo o aplicativo gravaria. Quando eu entrei na pizzaria, eu já tinha decidido. Naquela noite, eu gravaria tudo.
Quando a noite caiu, eu tomei outra decisão. Eu decidi encher quatro copos em vez de apenas um; se acontecesse que isso era apenas eu engolindo água enquanto andava dormindo, quatro copos d'água certamente me fariam ter que ir ao banheiro, e o desconforto me acordaria. E então, com quatro copos d'água na mesa de cabeceira e meu celular gravando cada barulho no quarto, não levou muito para eu adormecer.
Quando a consciência retornou de manhã, eu virei rapidamente para a mesa de cabeceira, e um arrepio frio percorreu meu corpo enquanto eu via quatro copos vazios. Com uma mão suada, eu peguei meu celular e comecei a reproduzir a gravação de oito horas. Nas primeiras horas nenhum som além de meu leve ronco foi ouvido. Eu acelerei a reprodução ainda mais, até por volta das 3 da manhã, quando, de repente, um novo som veio pelo celular. Foi um som assustador; o tipo de som que apenas a inalação pesada de água pode criar. Parecia que um cavalo sedento estava violentamente lambendo água de um bebedouro. Durou cerca de 30 segundos, e, tão rápido quanto veio, se foi. O resto da gravação era apenas meu ronco.
Eu estava horrorizada; aquilo não podia ter sido eu, eu não poderia ter feito aqueles sons, mas eu não ousava considerar a outra opção, a opção que dizia que algo mais estava bebendo a água. Eu não tinha ouvido passos, nenhuma outra respiração, nada — apenas o lambido desumano da água. Eu não tinha outra escolha; ouvir não era o suficiente, eu precisava ver o que estava acontecendo. Eu liguei para o Billy e cancelei meu turno naquela tarde; eu disse a ele que estava doente, ele me desejou uma rápida recuperação. Pouco depois eu pulei no meu carro e saí para comprar uma câmera.
Centerville não era grande o suficiente para ter lojas que vendessem o tipo de câmera que eu precisava. A loja mais próxima que tinha ficava a 45 minutos de distância. Eu entrei na loja e rapidamente encontrei a seção de tecnologia. O jovem atrás do balcão de ajuda olhou para cima enquanto eu me aproximava; com um sorriso, ele disse:
"Oi, posso te ajudar?"
"Hum, sim, pode", eu respondi rapidamente. "Estou procurando uma câmera de segurança residencial que tenha visão noturna e que eu possa acessar pelo meu celular."
"Claro, temos algumas opções bem ali, se quiser me acompanhar."
De quatro opções eu escolhi a mais barata.
"Esse é um bom modelo", ele disse. "O aplicativo da câmera funcionará desde que seu celular tenha Wi-Fi."
"Ótimo", eu respondi.
Depois que o funcionário me mostrou a progressão de configuração e as funções do usuário, eu voltei para o meu carro e segui para casa. Quando a casa do meu pai veio à vista, eu fui surpreendida por como ela parecia estranha para mim. Ela não era mais a casa que me protegia quando criança, não era mais a casa que enchia minha mente com boas memórias e paz. Em vez disso, era alguma versão distorcida daquele lugar. Eu queria ir embora e nunca mais voltar; eu realmente queria. Era a casa que matou meu pai, mas, se eu fosse embora, então o papai estaria realmente morto. Quando eu entrei, eu não senti nada: nenhum amor, nenhuma nostalgia, nenhum conforto — apenas medo.
Eu montei a câmera o mais rápido que pude; eu não aguentava mais ficar no quarto. A única coisa que me mantinha indo era o desejo de saber a verdade. Depois de montar a câmera e garantir que estava conectada ao meu celular, eu caminhei até a farmácia local. Eu entrei no lugar pequeno e empoeirado iluminado por luzes fluorescentes fracas que emitiam um brilho verde piscante. Não levou muito para encontrar os comprimidos para dormir que eu estava procurando; eu duvidava que conseguiria adormecer sozinha naquela noite, uma ajuda seria bem-vinda.
Um velho frágil estava atrás do balcão e me ofereceu um sorriso gomoso enquanto eu me aproximava.
"Olá, jovem; encontrou tudo que precisava?"
"Sim, senhor; obrigada."
Ele olhou para os comprimidos enquanto os colocava em uma sacolinha pequena.
"Problemas para dormir, senhorita?"
Com um aceno eu disse: "Sim, acho que pode-se dizer isso."
"Bem, espero que isso ajude; se cuida."
"Você também", eu disse enquanto saía.
A noite caiu. Com mãos trêmulas, eu enchi um copo até a borda com água. Verifiquei mais uma vez que a câmera estava funcionando e apontando tanto para a cama quanto para a mesa de cabeceira, e tomei dois comprimidos. Meu coração batia rápido enquanto eu subia na cama e, com um suspiro, eu apaguei a lâmpada. A manhã chegou e eu posso dizer honestamente que foi a melhor noite de sono que eu já tive. Com um espreguiçar e um bocejo, eu me levantei da cama, feliz e pronta para o dia, mas bastou um olhar no copo vazio para todo o medo e apreensão caírem de volta sobre meus ombros. Eu nem me incomodei em trocar de pijama enquanto eu pegava meu celular e saía para a varanda.
Depois de conectar à câmera, eu vi meu quarto às 23h30 da noite anterior; o infravermelho da câmera iluminava meu quarto com um brilho branco e cinza sinistro. Eu me vi dormindo em velocidade tripla, e, entre 23h30 e 3h da manhã, nada aconteceu; o quarto estava quieto e pacífico. Mas o que eu vi às 3h01 tirou o fôlego dos meus pulmões.
De debaixo da minha cama rastejou uma forma tão quieta e suave quanto a neblina deslizando sobre picos de montanhas; era impossivelmente alto, e, quando finalmente se ergueu, ele teve que se curvar para que sua cabeça e ombros encostassem no teto. Suas costas, que encaravam a câmera, estavam úmidas e nojentamente magras; cada vértebra de sua coluna era visível. Seus braços alcançavam abaixo dos joelhos. Ele não se movia como um predador com pressa. Ele se movia como algo que já possuía o quarto. A coisa lentamente alcançou o copo d'água, que parecia minúsculo em suas mãos massivas. Ele ergueu o copo até os lábios e sugou a água ruidosamente, e, depois que terminou, seu pescoço virou a cabeça para mim, enquanto eu dormia pacificamente na minha cama. Enquanto ele me encarava dormindo, ele ergueu uma mão e gentilmente passou os dedos pelos meus cabelos, e, eventualmente, pelo lado do meu rosto, onde uma de suas garras pressionou contra minha bochecha com força suficiente para romper a pele. Com isso, eu comecei a me mexer; eu murmurei por um momento, então minha boca adormecida falou as palavras:
"Papai? É você?"
A criatura me encarou; então, seu corpo tremeu com uma risada engasgada e úmida. E então, com uma voz rangente e desumana, ele respondeu zombeteiramente:
"Sim, sou eu"
"Sinto sua falta tanto, papai."
Ele então se curvou e beijou minha testa, antes de rastejar silenciosamente de volta para debaixo da cama.
Eu não conseguia respirar. Meu estômago revirou enquanto eu tropeçava da varanda para o quintal. Eu não conseguia me fazer olhar de volta para a casa. Eu só queria ir embora, colocar tantas milhas quanto possível entre eu e aquela coisa. Então, eu entrei no meu carro e dirigi. Estou a horas de distância agora, escrevendo isso de um quarto de hotel em outro estado. Eu nunca mais vou voltar. Eu acho que ele sabe que eu fui embora. Eu tenho assistido a transmissão da câmera, e, trinta minutos atrás, ele rastejou de debaixo da cama. Desde então, ele não se moveu. Os olhos dele estão travados na câmera o tempo todo. São olhos horríveis. Puramente negros, com pupilas brancas minúsculas. Ele não piscou uma única vez.
Está ficando tarde agora; eu não quero dormir, eu tenho medo de que eu me afogue.


0 comentários:
Postar um comentário