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domingo, 3 de maio de 2026

Eu ganho a vida sumindo com corpos

Não é tão macabro quanto você pode imaginar, pelo menos para mim. Veja bem, eu trabalhava num necrotério antes de ser demitido por certas "indiscrições". Encontrar um emprego novo com a minha falta de experiência em qualquer outra coisa — sem falar na mancha enorme no meu currículo — se mostrou praticamente impossível. Com o fantasma de morar na rua batendo à porta, acabei indo parar nesse meu ramo atual, e fiquei surpreso com o quão fácil a coisa fluiu. Não tem tanto assassino psicopata por aí quanto se pensa, então a maioria dos meus bicos era com o pessoal do crime organizado; execuções, tiroteios e tudo mais.

Infelizmente, nenhum trabalho é perfeito. Noites em claro, queimaduras químicas, doenças transmissíveis pelo sangue e a desaprovação do governo estão entre os pontos negativos; mas o pior de tudo, com certeza, são os "esquisitos". 

"Esquisitos" é a gíria para o pessoal que deixa cenas bizarras para trás e depois chama alguém para limpar a sujeira, pelo menos aqui na minha área. Veja, os tais psicopatas que mencionei não entram em contato com gente como eu porque eles querem que o trabalho deles seja encontrado. A menos que algo dê errado, eles não querem saber de nós. Quando o pessoal percebeu a natureza estranha desses serviços, cunharam o termo "esquisito".

Eu não socializo muito com meus "colegas de trabalho", mas ouvi pela rádio peão que esses serviços de "esquisitos" têm aparecido na região desde que o mundo é mundo, e tem gente que até pediu as contas e sumiu da área por causa deles. No começo eu fui cético, mas depois que senti o gostinho do meu primeiro serviço desse tipo, eu mesmo considerei mudar de ares.

Não posso te dar uma data exata por razões óbvias, mas era um dia frio de inverno quando recebi a ligação. A voz do outro lado era o equivalente em áudio daquelas cartas de resgate feitas com recortes de letras de revista e coisas do tipo. Não era exatamente uma prática comum, mas eu não tinha experiência suficiente para saber disso na época. A voz recortada me deu uma hora, um local e avisou que eu receberia uma bolada no ato. Eu estava precisando muito da grana, então, quando chegou a hora, peguei minhas ferramentas e dirigi meu calhambeque por mais de uma hora até um prédio coberto de ferrugem e com as janelas estouradas. Já era tarde da noite quando cheguei lá.

Minhas primeiras impressões da cena foram tranquilas. O prédio era uma antiga fábrica de brinquedos que produzia todo tipo de boneca. A falta de janelas deixava o interior frio e úmido. O lugar cheirava a ferrugem e concreto, com aquele toque familiar de moedas de cobre que eu já tinha aprendido a ignorar. Caminhei entre fileiras de peças de bonecas velhas, abandonadas desde quando a fábrica fechou.

Havia uma ausência estranha de qualquer coisa incomum e, em pouco tempo, fiquei inquieto. Eu conseguia sentir o cheiro de um corpo, mas não conseguia vê-lo. Nada naquele lugar parecia certo. Era discreto demais para ser uma cena de crime; parecia mais um lugar para desovar um corpo. Procurei pelo cadáver por um tempão, e o pânico foi batendo quanto mais eu procurava. Seria uma armadilha? A polícia ia arrombar a porta e me prender? Eu estava participando de algum jogo doentio?

Ainda estava um breu total lá fora quando eu o encontrei. Escondido sob uma das prateleiras, um alçapão quase travado pela ferrugem, com o cheiro de podridão saindo de dentro. O alçapão tinha um pedaço de papel rasgado colado com firmeza. No papel, escrito com uma letra delicada, estava a palavra "olá", junto com um rostinho sorridente. 

Embora perturbado pelo bilhete, relaxei um pouco, pensando que o corpo estaria ali embaixo e eu finalmente estaria livre daquele lugar. Erguendo o pesado alçapão de ferro, apontei minha lanterna de dinamo para um porão de madeira. Sem pensar, escorreguei pelo alçapão, mas o chão de madeira apodrecido cedeu.

Caí com um baque úmido. O chão abaixo de mim estava frio, molhado e fedendo a algo que eu nunca tinha sentido antes. Liguei a lanterna e vi onde estava pisando. O chão estava completamente coberto por carne podre, oxidada e marrom; tudo passado num moedor de carne. Eu estava quase com as pernas enterradas até o quadril naquela imundície, e percebi, num terror súbito, que não estava sozinho ali. Algo estava rastejando na minha direção, como um tubarão sob ondas turvas. 

Comecei a me debater para achar uma saída, agarrando desesperadamente as tábuas podres acima de mim. Conforme a coisa se aproximava, ela sugava os resíduos acumulados no chão, espirrando um purê terrível e pastoso. Eu me puxei para fora daquele fosso podre, rezando desesperadamente para que as tábuas não me deixassem morrer.

Me joguei pelo alçapão, rolando no chão frio da fábrica, metade tentando recuperar o fôlego e metade tentando não vomitar. Coberto de carne podre quase liquefeita e tremendo, vi através dos olhos marejados um braço esguio e decomposto, feito da mesma matéria do poço de carne do qual eu acabara de escapar, estendendo-se pelo porão horrendo. Ele tateou o chão por um tempo, apenas para agarrar o alçapão com seus dedos longos e finos e puxá-lo suavemente para fechar.

De boca aberta, devo ter ficado sentado naquele chão frio por pelo menos meia hora antes de conseguir me mexer de novo.

Cerca de um mês depois, recebi uma carta pelo correio. O envelope estava úmido, estufado e fedia a carne podre, trazendo de volta memórias terríveis. Escrito no envelope, com a mesma letra delicada, estavam as palavras "Até breve". Um rostinho sorridente estava desenhado ao lado. Rasguei o envelope gordo com a unha, apenas para encontrar vinte mil dólares em dinheiro vivo.

Não recebi nenhum serviço parecido desde então, mas acho que ainda não estou rico o suficiente para sair recusando trabalho.

sábado, 2 de maio de 2026

Olhos no Milharal

Eu cresci numa cidade pequena de umas setecentas pessoas, no norte do estado de Nova York. Pra quem não conhece a área ao norte dos boroughs, é na maior parte selvagem: vales e fazendas — e, claro, a população esparsa entre tudo isso.

Pra contextualizar: minha antiga casa ficava à beira da U.S. Route 20, que é a estrada mais longa dos Estados Unidos; vai de Boston, Massachusetts, até Newport, Oregon — cortando Nova York de leste a oeste. O tráfego lá sempre foi intenso, mesmo com a cidade sendo muito rural. Do outro lado da casa havia um milharal que se estendia por milhas.

Os acontecimentos que vou contar aconteceram muitos anos atrás. Acredito que eu devia ter pouco mais de uma dezena de anos quando rolou. Eu não tinha muitos amigos na infância, mas todo mundo se conhecia; ninguém era um estranho. No verão a gente dormia sempre com a porta da frente aberta. Era assim que seguro parecia ser lá em casa; nada jamais faria minha família ou eu nos sentirmos inseguros. Quero deixar claro que o que vou contar não tem correlação alguma com essas coisas.

Um amigo meu estava aqui em casa, e era um dia quente de agosto. Se você cresceu em terras agrícolas — especialmente em milharais — sabe que as plantas de milho liberam muita vapor d’água pra se refrescar no calor; então estava abafado; o ar era pesado e pegajoso. Por privacidade, vou chamar meu amigo de Matt. A gente era bem próximo quando criança e frequentava as casas um do outro. Estávamos nas férias de verão, e ele sugeriu acampar no meu quintal. Tínhamos um bom pedaço com árvores locust e pinheiros no quintal, e uma fogueira improvisada cercada por pedras.

Concordei e começamos a montar nosso acampamento. A maior parte do nosso equipamento tava guardada no sótão do nosso celeiro de gado. Não precisávamos de muito: barraca, cadeiras dobráveis e sacos de dormir. Tínhamos lenha de sobra; provavelmente daria pra noite toda. Enquanto eu desenterrava o resto das coisas, Matt achou dois gravetos e entalhou pontas com seu canivete pra gente tostar marshmallows e cachorros-quentes na fogueira.

Quando começamos, o sol já tinha se posto logo acima da copa das árvores, e a barraca ainda não estava armada. Matt e eu passamos uns dez minutos tentando montá-la com o pouco de luz que restava; sei que metemos tudo meio torto, mas ela permaneceu de pé. Acendemos o fogo com relativa facilidade e quase imediatamente começamos a assar os cachorros-quentes. Não lembro exatamente do que falamos, mas a noite era calma e silenciosa. Uma coisa a notar: à noite o tráfego na 20 some de um jeito incomum. Entre nossa conversa, os grilos e as rãs nas árvores, estava muito quieto.

O que aconteceu depois é meio borrão, mas algumas horas se passaram e as únicas fontes de luz eram a fogueira e a luz do alpendre da casa — que só iluminava parcialmente a entrada e um pedaço do quintal. Matt e eu estávamos cheios de hot dogs e marshmallows. Bocejei; ele também. Perguntei se ele tava pronto pra dormir, ele assentiu e esfregou os olhos. Só então, quando Matt se virou e foi pegar nosso balde d’água pra apagar o fogo que morria, ele congelou.

Não ouvi de primeira, mas na segunda vez que aconteceu senti o couro cabeludo arrepiar e as orelhas aguçarem pro som de algo mexendo lá dentro do milharal. Ficamos os dois petrificados, e eu não conseguia me livrar da sensação de que estávamos sendo observados de todas as direções. Nem um de nós falou nada. Olhando hoje, acho que estávamos apavorados demais pra nos mover, e eu não queria que minhas suspeitas fossem confirmadas. Aquela foi uma das raras vezes que eu implorei pra estar enganado.

O fogo já quase tinha se apagado por completo, mas eu via o Matt remexendo na mochila de dormir enquanto olhava pra direção do campo. A luz da fogueira era fraca demais pra gente enxergar alguma coisa. Depois do que pareceu uma eternidade, ele puxou uma lanterna da mochila e apertou o botão.

Olhos brilhantes. Tantas duplas de olhos brilhando em todas as direções, fixos em nós, que não reagiram quando ele iluminou na direção.

Nem preciso dizer: a gente largou o fogo, desmontou o acampamento e correu o mais rápido que pôde de volta pra casa. Infelizmente, eu tropecei em algo e torci o tornozelo num declive da grama, mas ignorei a dor que queimava até atravessarmos a porta e fechá-la na cara do noite. Passamos o resto da noite no meu quarto, encolhidos debaixo dos cobertores.

Na manhã seguinte, meu tornozelo ainda doía, mas não tanto quanto eu tinha temido. Mancava um pouco, mas dava pra andar. Matt e eu voltamos pro nosso suposto acampamento e encontramos tudo espalhado pelo quintal. A comida que não tínhamos guardado tinha sumido.

No fim do dia, meus pais me disseram que uma grande matilha de coiotes invadiu o pasto de um vizinho fazendeiro e, na noite anterior, matou e devorou um bezerro. Eu nunca teria imaginado que uma matilha de coiotes fizesse uma coisa daquelas, mas não é impossível. Me faz pensar no que poderia ter acontecido se Matt e eu tivéssemos demorado mais pra correr.

Ainda sinto arrepios quando penso nisso.

sábado, 18 de abril de 2026

Por que eu me mudei do Missouri

Eu tinha vivido nessa cidade de merda no Missouri durante a maior parte da minha vida. Tranquila, sem graça, cheia do tipo de gente que acha que caçarola de tater tots é o auge da culinária. Mas, apesar dessa normalidade, minha mãe sempre pensou que havia algum tipo de aura sombria na cidade e, hoje em dia, desde que fui embora, estou inclinada a concordar.

Foi aproximadamente no primeiro mês do meu primeiro ano do ensino médio, ou pelo menos no primeiro trimestre. Naquela época eu fazia parte da orquestra da escola, tocava violoncelo. Não era muito boa nisso, mas tanto faz. Foi então que um garoto que vou chamar de Evan entrou para a orquestra. Eu realmente não conseguia identificar, mas havia algo errado com ele. Nunca o tinha visto antes daquele ano. Alguns dos meus colegas afirmavam que ele já estava lá na oitava série, mas fazia tempo demais para eu me importar. Depois daquele dia, comecei a notá-lo, e incidentes estranhos começaram a acontecer ao redor dele.

Estranhamente, porém, ninguém realmente notava esses incidentes, e as pessoas gostavam muito dele por algum motivo.

Ele era convidado para sair com os veteranos, conseguiu concorrer a rei do baile, apesar de isso não ser permitido para calouros, e parecia conseguir tudo. Evan sempre parecia feliz. Claro que não há nada de errado em ser feliz, mas ele parecia feliz até em momentos realmente estranhos, como aqueles incidentes que mencionei.

Como quando uma das traves do campo de futebol caiu e esmagou a perna de uma criança. Ele estava sorrindo sinceramente. Lembro-me de lançar para ele um olhar de "que porra, a perna dele acabou de ser esmagada", e ele me olhou de volta com o mesmo sorriso. Era quase como se ele tivesse planejado aquilo, ou sentisse prazer com a dor.

Acho que ele começou a me seguir depois disso. Eu sempre o via nos corredores, no meu ponto de ônibus, quando saía para passear com meus amigos. Ele sempre aparecia.

Ficou muito assustador. Ou talvez eu estivesse apenas enlouquecendo por ser uma caloura. De qualquer forma, os incidentes continuaram acontecendo.

O elevador da minha escola quebrou com pessoas dentro antes de cair no térreo. Evan estava esperando o elevador.

A casa do vizinho pegou fogo, e na semana seguinte uma árvore no meu quintal pegou fogo. Quando cheguei à escola no dia seguinte, ele se sentou à minha mesa no almoço, em frente a mim, sorriu e conversou com meu amigo durante todo o período. Isso pode ser exagero, mas houve muito mais incidentes do que apenas esses três.

Realisticamente, eu sei que muitas dessas coisas poderiam ter sido resultado do fato de que o meu eu de 14 anos não era medicado para nada do que precisava, mas ainda assim houve um incidente que aconteceu e me levou a morar com minha tia do outro lado do país.

Era fim de abril e meus três amigos estavam ocupados. Sem problema. Eu estava completamente contente em passar o dia inteiro assistindo YouTube. Então foi isso que fiz, até decidir descer e pegar um copo de limonada. Não havia mais ninguém em casa, então eu tinha uma paz absoluta e agradável.

Até que houve uma batida na porta.

Fui ver quem era.

E, para minha surpresa, era o Evan.

Provavelmente perguntei algo como:

“Como diabos você sabe onde eu moro?”

Porque me lembro dele dizendo:

“Seus amigos me disseram para vir te buscar, para que você não passasse o dia inteiro apodrecendo no seu quarto.”

Eu estava extremamente relutante em sair com ele, de todas as pessoas, mas provavelmente imaginei que essa seria uma forma de descobrir qual era a dele.

Então fomos caminhar, em direção à borda da cidade e aos trilhos do trem. Era um dia muito tranquilo. Na verdade, não vi ninguém andando, dirigindo ou qualquer criança brincando lá fora.

Ele falou muito, mas nunca era nada substancial. Falava sobre como a orquestra estava indo com as peças de fim de ano, como havia algum discurso acontecendo com o comitê de planejamento do baile, como os amigos dele estavam animados para ver algum filme no cinema. Era a conversa mais mundana e chata possível, especialmente para a ansiedade que a presença dele me causava.

Em determinado momento, parei de andar, mas ele continuou falando sobre fosse lá o que fosse. Foi naquele instante que percebi que nunca soube realmente como ele era, e de alguma forma ainda não sabia, apesar do fato de ele estar andando bem na minha frente.

Era como se ele não fosse nada além de um recipiente para alguém inserir uma personalidade desejada. Talvez fosse por isso que eu me sentia tão assustada. Independentemente disso, comecei a andar ao lado dele de novo antes de chegarmos aos trilhos do trem e à encruzilhada.

Evan sentou-se nos trilhos e olhou para mim com o sorriso habitual antes de dar um tapinha no trilho ao lado dele.

Foi quando a luz do cruzamento e o barulho do sinal começaram a tocar.

“Cara, sai dos trilhos!”, eu disse.

Mas não houve resposta, nem reação. Nada além daquele sorriso nojento no rosto dele.

Tentei tirá-lo dos trilhos. Eu realmente tentei. Mas era como se ele estivesse colado. Continuei gritando com ele, implorando para que saísse, quando o trem finalmente chegou e eu pulei para trás.

Havia muito sangue. Muito sangue.

Ainda consigo me lembrar da forma como ele respingou na minha camisa e no ar em movimento rápido do trem, a apenas dois metros do meu rosto. Lembro-me de como brilhava nas minhas mãos e no concreto. Lembro-me de que, quando o trem finalmente foi embora, o cadáver dele ainda estava lá, com aquele sorriso.

Embora eu não me lembre da caminhada de volta para casa, nem do resto daquele dia, nem do resto daquele fim de semana. Tudo ficou em branco até a segunda-feira.

Não contei a ninguém.

Entrei na escola, fui até a sala da orquestra e lá estava ele. Evan, de pé, perfeitamente normal.

Por algum motivo, eu vomitei imediatamente. O vômito parecia demais com o sangue e, segundo a minha mãe, eu desmaiei.

Algo deve ter se quebrado na minha cabeça depois de vê-lo vivo, depois de ver o corpo esmagado nos trilhos do trem. As semanas seguintes foram cheias de faltar à escola e implorar aos meus pais para me deixarem morar com a minha tia na costa leste.

Não havia ninguém com quem conversar sobre isso. Ainda tenho a camisa daquele dia, ainda manchada de sangue. Mas sempre que eu era arrastada para a escola, ele estava lá, sorrindo.

O que eu poderia fazer? Dizer aos meus amigos que foi um sonho? Sonhos não mancham camisas com sangue.

Tudo virou principalmente um borrão de estar em alerta constante e tentar dormir com quantidades nada saudáveis de NyQuil, exceto por uma noite em que eu simplesmente não conseguia dormir.

Talvez porque a casa estivesse muito quente. Talvez porque eu tivesse passado 75% da semana anterior dormindo.

Mas eu não conseguia.

Era como se eu estivesse sendo forçada a ficar acordada, se isso faz sentido.

Em algum momento, desci até a cozinha e peguei um copo de água quando ouvi uma batida do lado de fora.

Pelo que me lembro, deixei o copo cair e ele se estilhaçou no chão.

Por algum motivo, peguei uma faca do bloco de facas no balcão. Não sei exatamente por quê. Talvez para matá-lo. Talvez para me matar.

Fechei os olhos, abri lentamente a porta, pisei na varanda, abri os olhos e vi ele.

Ainda me lembro do som do trem da meia-noite se aproximando da cidade.

Ele estava parado na calçada, sob a luz do poste, a uns dez metros de mim. De certa forma, ele parecia quase fantasmagórico.

ELE DEVIA SER APENAS UM FANTASMA!!!

E era como se, cada vez que eu piscasse em choque, ele ficasse cada vez mais perto, até estar bem na minha frente, olhando para mim com aquele sorriso.

Naquele momento, eu mesma de alguma forma me tornei transparente, como um fantasma. Esse é o único sentimento de que me lembro quando a buzina do trem soou, eu pisquei, e ele desapareceu.

De qualquer forma, naquela manhã, aparentemente meu pai me encontrou desmaiada na calçada com a faca na mão e a ponta da manga ensanguentada, mas eu não tinha nenhum ferimento.

Acho que foi isso que convenceu meus pais a me deixar ir embora, mas provavelmente houve outros detalhes que meu pai omitiu quando falou comigo mais tarde naquela manhã.

Hoje em dia, ainda não entendo exatamente o que aconteceu com ele ou comigo. Só sei que estou feliz por estar fora daquela cidade.

E eu entendo que talvez isso não pareça muito assustador para vocês, mas é algo que me impediu de dormir por anos.

E percebo que vocês podem não acreditar em mim, mas isso aconteceu.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Trabalho como policial de patrulha. Encontrei um homem pregado na parede com parafusos industriais, e o homem que o colocou ali estava esperando no escuro...

Sou policial de patrulha. Trabalho no turno diurno em uma delegacia que cobre uma área fortemente residencial. Recebemos muitas reclamações de barulho, pequenos acidentes de trânsito e disputas por propriedade. Também recebemos um grande número de pedidos de checagem de bem-estar.

Uma checagem de bem-estar geralmente é solicitada por um vizinho ou um membro da família que não tem notícias de alguém há algum tempo. Na maioria das vezes, a pessoa simplesmente está fora da cidade, ou o telefone quebrou, ou ela simplesmente não quer falar com ninguém. Às vezes, nós a encontramos ferida no chão depois de uma queda feia. E, às vezes, descobrimos que ela morreu em silêncio durante o sono.

A chamada entrou pelo rádio logo depois do almoço. A central me informou que um morador havia ligado para a linha não emergencial para relatar um mau cheiro vindo da casa ao lado. O denunciante também mencionou que o proprietário, um idoso que costumava ser médico, não era visto do lado de fora havia mais de uma semana. O doutor era um recluso conhecido. Nunca recebia visitas, nunca recebia correspondência além de contas de serviços públicos e só saía da propriedade para comprar mantimentos.

Confirmei a chamada e dirigi até o endereço.

A casa ficava no fim de uma rua sem saída. A parte externa da propriedade estava em grave estado de abandono. O gramado da frente estava completamente tomado pelo mato, com ervas daninhas chegando até meus joelhos. A tinta do revestimento de madeira estava descascando em grandes faixas cinzentas. As janelas estavam totalmente cobertas por dentro com jornais grossos e amarelados, impedindo qualquer pessoa de olhar para dentro.

Estacionei a viatura na rua e subi a entrada de concreto rachado.

Assim que pisei na varanda da frente, o cheiro me atingiu. Era um odor pesado, denso. Se você trabalha nessa área por tempo suficiente, aprende a reconhecer o cheiro da decomposição humana. Ele tem um aroma específico, doce e enjoativo, que fica agarrado na garganta. Mas esse cheiro era diferente. Tinha o apodrecimento subjacente da decomposição, misturado fortemente com o aroma agudo e ardente de amônia crua, água parada e papel mofando. Cheirava como se um pântano tivesse sido deixado para assar dentro de um recipiente plástico fechado.

Bati com força na porta da frente e anunciei minha presença. Esperei trinta segundos. Nenhuma resposta. Bati de novo, desta vez mais alto. A casa continuou completamente silenciosa.

Estendi a mão e girei a maçaneta de latão. A trava não estava acionada. A porta fez um clique e empurrou para dentro, mas abriu apenas cerca de quinze centímetros antes de a madeira bater em algo sólido do outro lado.

Empurrei a porta com o ombro, usando o peso do meu corpo. A obstrução do outro lado raspou alto contra o piso de madeira, cedendo o bastante para que eu conseguisse enfiar meu corpo pela abertura estreita.

Entrei na casa e imediatamente comecei a me engasgar. A qualidade do ar lá dentro era terrível. A poeira era tão espessa que eu conseguia senti-la na língua. Puxei a lanterna do cinto de serviço e a liguei.

O proprietário era um acumulador severo.

A sala de estar não existia. Do chão até o teto, todo o espaço estava compactado de lixo. Havia torres enormes e inclinadas de caixas de papelão velhas, sacolas plásticas cheias de comida podre e montes de móveis quebrados e irreconhecíveis.

A única forma de atravessar a casa era por um túnel estreito e claustrofóbico escavado no centro da sujeira. O túnel mal era largo o suficiente para uma pessoa andar de lado. As paredes desse túnel eram feitas de pilhas compactadas de jornais amarelados.

Destravei o rádio e informei à central que eu havia entrado, que a casa era uma situação grave de acumulação compulsiva e que eu avançaria devagar para localizar o proprietário.

Entrei no túnel. Tive de virar o corpo de lado, mantendo a mão apoiada no cabo da arma para impedir que o coldre enganchasse nos destroços. O chão sob minhas botas era macio e instável, coberto por camadas de roupas descartadas e lixo úmido.

Chamei o doutor novamente. Minha voz ficou completamente abafada pelo volume de lixo absorvendo o som.

Passei o feixe da lanterna pelas paredes do túnel enquanto avançava com esforço. Espalhados entre as pilhas de jornais e caixas de papelão, havia pedaços de manequins de loja quebrados. Um braço de plástico, da cor da carne, estendia-se atravessado no caminho. Mais à frente, a cabeça careca e sem feições de um manequim me encarava sem expressão de um monte de latas vazias. Os membros de plástico estavam espalhados por toda parte, enterrados aleatoriamente nas paredes de lixo, fazendo parecer que corpos mutilados estavam presos na sujeira.

A planta da casa era impossível de determinar. O túnel serpenteava para a esquerda e para a direita, ignorando completamente a arquitetura original do prédio. Segui mais fundo no labirinto, com o cheiro de amônia e podridão ficando mais forte a cada passo.

A passagem ficou mais apertada. Tive de recolher o abdômen para passar entre dois pilares enormes e inclinados de jornais amarrados. Quando meu cinto de utilidades raspou no papel, um dos pilares cedeu.

A pilha desabou.

Centenas de jornais velhos desceram do teto, enterrando minhas pernas até os joelhos e bloqueando completamente o caminho atrás de mim. Uma nuvem de poeira subiu no espaço estreito, fazendo meus olhos lacrimejarem e me obrigando a tossir com violência.

Fiquei parado por um momento, esperando a poeira baixar, garantindo que o restante da parede de lixo não fosse desabar e me soterrar vivo.

Olhei para minhas botas. O chão estava coberto pelos jornais caídos.

Apontei a lanterna para os papéis ao redor das minhas pernas. O feixe captou a tinta preta em negrito de uma manchete. Olhei para o jornal logo ao lado. Tinha exatamente a mesma manchete.

Agachei um pouco, limitado pelas paredes estreitas do túnel, e movi a luz sobre os papéis espalhados.

Não eram edições diferentes. Cada jornal que havia caído era a cópia exata do mesmo exemplar. Todos estavam abertos na mesma página, todos exibindo o mesmo artigo.

Concentrei o feixe da lanterna no texto do artigo. O papel era velho, frágil e manchado por danos causados pela água, mas a impressão ainda era legível.

O artigo detalhava um julgamento criminal. Contava a história de um médico local que havia sido preso e acusado de homicídio culposo. O doutor havia realizado uma amidalectomia de rotina em uma garotinha. Durante a cirurgia, algo deu errado. A criança sangrou até a morte na mesa de operações. A promotoria argumentou que o médico estava sob efeito de narcóticos durante o procedimento e havia causado uma laceração fatal.

No entanto, o artigo informava que as acusações contra o doutor foram totalmente retiradas. A prova de sangue havia sido manipulada de forma incorreta pelo laboratório e, sem ela, o juiz concluiu que faltavam evidências para prosseguir. O doutor saiu livre.

Li a segunda metade da coluna. Ela detalhava as consequências do julgamento. O pai da garotinha ficou completamente devastado com o veredito. Ele causou uma confusão no tribunal quando a absolvição foi anunciada. Dois dias após a libertação do doutor, o pai enlutado dirigiu sua caminhonete até a borda do grande rio que corta o centro do nosso condado. Deixou a carteira e uma carta de suicídio no banco do motorista. A carta dizia que ele não podia viver em um mundo em que o homem que matou sua filha tivesse permissão para respirar.

O boletim policial no jornal dizia que o pai se jogou nas correntes profundas e velozes do rio. As equipes de busca aquática vasculharam o rio por uma semana, mas nunca encontraram o corpo dele. As correntes eram conhecidas por puxar detritos para as profundezas e arrastá-los em direção ao delta.

Fitei o papel amarelado. O doutor que vivia nesta casa era o homem do artigo. Ele havia se retraído para esse pesadelo de acúmulo por culpa, ou paranoia, reunindo a prova impressa da própria vida arruinada.

Antes que eu pudesse me levantar, ouvi um som.

Veio de mais fundo na casa, além do fim do túnel de papel.

Era um som metálico e úmido arrastando, seguido por um gemido baixo e fraco.

Soltei o jornal na mesma hora. Puxei a arma de serviço com a mão direita e segurei a lanterna com a esquerda, cruzando os pulsos à minha frente.

“Departamento de polícia,” gritei, com a voz áspera no ar empoeirado.

“Fale comigo. O senhor está ferido?”

Houve outro gemido fraco, seguido pelo som de algo pesado se esforçando contra madeira.

Avancei. Chutei a pilha de jornais para fora do caminho e me espremei pelo restante do túnel de lixo. O corredor finalmente se abriu para o que antes fora um quarto principal.

O quarto estava em sua maior parte livre de lixo, empurrado para os cantos do cômodo. O cheiro de carne crua em decomposição era insuportável ali, queimando o interior das minhas narinas.

Apontei a lanterna diretamente à frente.

O doutor idoso estava pregado na parede do fundo do quarto.

Ele usava uma camisa social rasgada e suja e uma calça social. Os braços estavam abertos, e os pés pairavam a alguns centímetros do chão.

Ele havia sido crucificado contra a parede de drywall.

Alguém havia enfiado longos, grossos parafusos metálicos industriais diretamente pelas palmas das mãos dele, fixando-as nos montantes de madeira atrás da parede. Mais parafusos atravessavam os antebraços, os ombros, as coxas e os tornozelos. As cabeças metálicas dos parafusos estavam afundadas fundo na carne dele. Sangue escuro e seco manchava a parede atrás, escorrendo em longas trilhas até se acumular nas tábuas do piso.

Sangue fresco, vermelho vivo, ainda vazava lentamente dos ferimentos no peito. Ele respirava em arfadas curtas e arrastadas. A cabeça pendia para a frente, o queixo repousando no peito. Ele estava vivo, mas completamente inconsciente, o corpo entrando em choque profundo.

Entrei de vez no cômodo, com as botas grudando no sangue seco do chão.

Ativei o microfone preso ao ombro da farda.

“Central, preciso de socorro médico de emergência agora. Tenho uma vítima com trauma grave, múltiplos ferimentos perfurantes, mal consciente. Preciso de uma ambulância com urgência e preciso de unidades de apoio para isolar o perímetro.”

A atendente respondeu imediatamente, confirmando o pedido e dizendo que as unidades estavam a caminho.

Continuei com a arma erguida, varrendo o feixe da lanterna pelos cantos escuros do quarto. As portas do guarda-roupa estavam quebradas. A janela estava tapada com compensado grosso. O cômodo parecia vazio.

Dei um passo em direção ao doutor na parede, com a intenção de verificar o pulso dele e ver se eu poderia aliviar qualquer pressão sobre os membros presos sem fazê-lo sangrar até a morte.

Quando mudei o peso do corpo, ouvi um som bem atrás de mim.

Parecia carne pesada e úmida arrastando pelo piso de madeira.

Congelei. Não me virei imediatamente. Os pelos dos meus braços se eriçaram. Meu treinamento entrou em ação, dizendo ao cérebro para processar o som antes de me mover. O ruído era uma fricção contínua, arrastada.

Então, uma voz falou.

A voz vinha da abertura escura do túnel de lixo por onde eu acabara de sair. Era uma voz grave e rouca. Soava incrivelmente úmida, como se os pulmões de quem falava estivessem completamente cheios de líquido. Cada palavra vinha acompanhada de um som borbulhante, gorgolejante.

“Eu sempre achei que era um bom pai,” disse a voz devagar no escuro.

Apertei o cabo da arma com mais força.

“Que eu não seria como o meu,” a voz continuou, ignorando o fato de que um policial estava parado no cômodo.

“Eu não vou abandonar meu filho. Não vou permitir que o mundo seja cruel com ela. E, ainda assim, aqui estou. Um monstro como ele era.”

Girei rapidamente, erguendo a arma e apontando a lanterna diretamente para a boca do túnel de lixo.

“Mostre as mãos!” eu gritei.

“Agora!”

O feixe da minha lanterna atingiu a figura parada na porta.

A parte racional do meu cérebro, a parte que entende anatomia humana, simplesmente deixou de funcionar.

Era um homem, mas apenas em parte.

Ele estava completamente descalço e usava apenas uma calça destruída, manchada de lama, que se agarrava com força às pernas. Todo o torso estava exposto ao ar frio. A pele não tinha a cor de um humano vivo. Era de um cinza pálido, doentio e translúcido, severamente enrugada e encharcada, parecendo um cadáver que tivesse permanecido submerso em um lago por meses.

O peito e o abdômen estavam cobertos por cortes profundos e irregulares. Os cortes não eram aleatórios. Tinham sido talhados deliberadamente na carne cinzenta dele. Duas fatias grossas e curvas estavam posicionadas no alto do peito, lembrando olhos fechados e sorridentes. Um corte enorme e escancarado curvava-se por todo o abdômen, enrolando-se nas extremidades para formar uma boca sorridente gigantesca e grotesca. Abaixo de um dos cortes do olho, havia sido entalhada nas costelas uma única forma profunda de lágrima.

O torso dele era um rosto sorridente com uma lágrima. Sangue e água espessa escorriam dos ferimentos.

Mas foram os braços que quebraram minha mente.

Os braços dele não pareciam membros humanos. Eram incrivelmente, impossivelmente longos. Estendiam-se dos ombros até o chão, arrastando-se pesadamente na madeira. Os ossos dentro dos braços pareciam ter sido quebrados em dezenas de lugares e deixados cicatrizar em ângulos completamente aleatórios e anormais. Os membros se retorciam e se enrolavam como cordas grossas e cinzentas.

Descendo pela parte interna dos antebraços, dos cotovelos até os pulsos, a carne dele havia se transformado. A pele estava elevada em cristas espessas e circulares. No centro de cada crista havia um buraco escuro e pulsante.

Eram ventosas. Ventosas enormes, carnudas, semelhantes às de um polvo, descendo pelo comprimento dos braços quebrados e alongados. As ventosas se expandiam e contraíam continuamente, produzindo sons úmidos de estalo no cômodo silencioso.

Senti a bile subir no fundo da garganta. Mantive a arma apontada diretamente para o centro do rosto sorridente entalhado no peito dele.

“Pare aí,” ordenei. Minha voz tremia. Eu não conseguia controlar o tremor nas mãos.

“Não dê mais nenhum passo. Você está gravemente ferido. O socorro médico está a caminho. Fique exatamente onde está.”

O homem não olhou para os braços retorcidos e deformados. Não parecia sentir dor alguma. Levantou lentamente a cabeça, permitindo que o feixe da lanterna atingisse seu rosto.

Os traços faciais estavam inchados e distorcidos pelos danos da água, mas eu o reconheci. Reconheci o formato da mandíbula e do nariz pela pequena foto granulada em preto e branco impressa nos milhares de jornais espalhados no corredor atrás dele.

Ele era o pai da garotinha. O homem que havia se jogado no rio anos atrás.

Ele deu um passo lento e pesado à frente, entrando no quarto. Os pés descalços e molhados batiam no chão. Os braços longos e tortos se arrastavam atrás dele, com as ventosas carnudas agarrando e soltando a madeira com sons pegajosos e de rasgo.

“Lá embaixo,” disse o pai. A boca dele se abriu, e água barrenta e escura transbordou do lábio inferior, descendo pelo queixo. “Nas profundezas do rio. Ele me ofereceu uma chance. Uma vingança. E eu aceitei.”

Ele deu mais um passo na minha direção. O cheiro de amônia e lama parada que saía do corpo dele era completamente sufocante.

“Pare!” gritei, apertando o dedo no gatilho.

“Eu vou atirar em você! Pare de andar!”

Ele ignorou completamente minha arma. Olhou além de mim, fitando o doutor inconsciente crucificado no drywall.

“Olha o que isso me fez virar,” sussurrou o pai, a voz se partindo sob uma tristeza profunda e esmagadora.

“Um monstro.”

As ventosas carnudas nos antebraços se contraíram violentamente, agarrando as tábuas do piso e puxando os braços longos para a frente, enrolando-os perto dos joelhos.

Ele voltou os olhos para mim. Os olhos eram brancos e leitosos, completamente cegos, mas ele me encarava diretamente no rosto.

“Se eu morrer," perguntou o pai, com água borbulhando na garganta.

“Se você me matar agora, eu poderia vê-la no lugar para onde ela foi?”

Ele parou de se mover. Os ombros começaram a tremer. Ele estava chorando, mas nenhuma lágrima caía dos olhos brancos. Apenas água suja escorria pelas bochechas.

“Mas... mas...” a voz dele falhou, transformando-se em um pânico desesperado e frenético.

“E se eu for para lá do jeito de monstro que sou agora? Não... não, eu não posso morrer. Não posso deixar ela me ver assim.”

A tristeza no rosto dele desapareceu, substituída instantaneamente por uma pura e feroz desesperança.

Ele se lançou contra mim.

O movimento foi incrivelmente rápido e completamente antinatural. Ele arremessou os braços longos e quebrados para a frente. As ventosas enormes bateram no piso de madeira, grudando instantaneamente. Ele usou os braços para puxar violentamente o torso para a frente, lançando o corpo inteiro pelo ar diretamente contra meu peito.

Não pensei. Apenas reagi.

Puxei o gatilho da arma de serviço.

O disparo foi ensurdecedor dentro do pequeno quarto. O clarão branco do cano iluminou o cômodo por uma fração de segundo.

A bala o atingiu diretamente no centro do peito, bem no meio do rosto sorridente talhado.

O impacto físico interrompeu seu impulso no ar. Ele caiu com violência no chão, aterrissando a poucos centímetros das minhas botas.

Ele não gritou. Apenas ficou ali. Os braços longos e retorcidos se contraíram rapidamente por alguns segundos, as ventosas expandindo e contraindo de forma frenética, tentando se prender na madeira. Então, o corpo dele ficou completamente imóvel.

Uma poça espessa de sangue escuro e lamacento começou a se espalhar rapidamente debaixo do torso cinza e pálido.

Afastei-me até que meus ombros batessem na parede perto do doutor crucificado. Mantive a arma apontada para o pai no chão. Fiquei ali, respirando pesadamente, com o zumbido nos ouvidos diminuindo aos poucos.

Cinco minutos depois, ouvi o som de botas pesadas arrebentando a porta da frente, seguido por policiais gritando para anunciar sua presença. Eles atravessaram o túnel estreito de lixo, encontrando-me parado no quarto, com a arma ainda em punho.

Os paramédicos chegaram pouco depois. Usaram alicates hidráulicos pesados para cortar as cabeças dos parafusos industriais, retirando com cuidado o doutor inconsciente da parede. Conseguiram estabilizar o sangramento dele e o levaram às pressas para a ambulância que esperava.

Os técnicos da cena do crime isolaram o quarto. Colocaram uma lona sobre o corpo do pai.

Fui escoltado para fora pelo meu sargento. Ele me fez as perguntas padrão do protocolo. Perguntou se o suspeito estava armado, se havia avançado contra mim e se eu sentira que minha vida estava em perigo imediato. Respondi sim a todas as perguntas.

Estou atualmente afastado administrativamente enquanto o departamento investiga o tiroteio. É o procedimento padrão quando um policial dispara sua arma. O relatório preliminar diz que atirei em um invasor que havia torturado severamente o proprietário da casa. Eles estão supondo que o suspeito estivesse fortemente sob efeito de alucinógenos sintéticos, o que, segundo eles, explica seu comportamento estranho e seu estado físico.

Disseram-me que o suspeito provavelmente vivia nos canos de drenagem do rio perto da propriedade, completamente isolado e enlouquecido pelo uso de drogas. Explicaram os braços dizendo que o suspeito sofria de uma doença óssea grave e não tratada, além de infecções de pele não tratadas causadas pela água suja.

Estão tentando impor lógica a algo que não tem lógica nenhuma.

Li o relatório preliminar e apenas balancei a cabeça. Não discuti com meu sargento. Não lhe contei o que o homem havia me dito.

Estou sentado aqui, encarando a parede vazia da minha cozinha, tentando processar as últimas palavras dele. Não consigo parar de pensar na implicação brutal e aterrorizante do que ele me contou.

Eu atirei nele. Eu o matei.


Se existe uma vida após a morte, eu o mandei para lá. Fui eu que o obriguei a caminhar para a luz usando aquela pele cinzenta, arrastando aqueles braços quebrados e cheios de ventosas atrás de si.

Eu só queria fazer uma checagem rotineira de bem-estar. Agora não consigo parar de pensar numa garotinha correndo para abraçar o pai, só para encontrar um monstro esperando por ela no escuro.

domingo, 5 de abril de 2026

Algo Quebrou a Quarta Parede da Nossa Realidade

Algo Quebrou a Quarta Parede da Nossa Realidade.

Dizem que um dia de revelação está chegando em breve. Um dia em que o público vai conhecer a verdade sobre alienígenas, sobre UAPs, anjos ou demônios — tudo isso é bonito, mas, honestamente, eu não me importo mais. Eu conheci o Outro. Acho que todo mundo também conheceu.

Em certo momento, pensei que fosse distração. Mas não é.

Quando chega a hora certa, e a lua cheia desliza entre duas estrelas escuras, num instante de alinhamento breve, porém brilhante; é então que o olhar impossível deles atravessa.

Tive minha segunda crise convulsiva do tipo grand mal no meu aniversário de vinte e um anos, outro dia. Estávamos olhando as estrelas, Mel e eu. Procurando confirmação daquela força esotérica que acreditávamos se esconder logo atrás do véu da realidade. Éramos buscadores, nós dois, unidos depois de uma experiência brutal com dimetiltriptamina que arrancou o núcleo dos mundos de ambos. No chão da sala dela, no quieto resplendor que se seguiu à nossa comunhão momentânea com o Abismo Gritante, admiti para ela que eu já tinha estado lá, já tinha feito aquilo, muito tempo atrás.

“Feito o quê, exatamente?”, ela murmurou. “Conheceu os... os elfos? Os alienígenas? O que quer que aquilo, ou aqueles... seres... realmente fossem?” Ela parecia inquieta. Como se já soubesse.

“Você sabe o que quero dizer. Você não sentiu? Sentiu aquilo olhando para você?”

Ela afastou do olho o cabelo ruivo-escuro e encarou o cinzeiro no chão, o cigarro erguido, a brasa fumegando. “Eu não sei exatamente o que você quer dizer. Quer dizer. Acho que sei...”

“É de fora”, eu disse. Fiz um gesto vago para o quarto enevoado ao nosso redor. O nosso universo inteiro. Nosso pequeno abismo particular. Nosso útero temporário, talhado do próprio mundo.

“Você já se perguntou como pode dormir por uma soneca curta, dez minutos ou coisa assim, mas parecer que passou uma vida inteira?”

Ela ergueu os olhos do chão. Os olhos cor de avelã dela estavam arregalados. Vou considerar isso um sim, pensei.

“Porque a mente não é matéria. Como dizem todos os materialistas? — eles estão todos errados, sabe. Não é matéria, e não é espaço nem tempo. Veja. Sua mente é como um corpo. Um que fica do lado de fora desta realidade, mas que, de algum modo, a entorta. Como a massa entorta a gravidade. Este lugar? Esta realidade dentro da qual estamos? Ela pertence à mente dele. A mente dele é o oceano da realidade em que nadamos.”

Foi então que contei a ela a história da minha primeira crise convulsiva grand mal, quando eu era só uma criança. Como eu tinha encontrado algo antes. Algo inexplicável. E desde então, exatamente como aquilo disse que faria, esse algo havia me seguido. Seu olhar impossível, de fato, havia atravessado, repetidas vezes, desde então.

Eu era criança. Meus pais estavam brigando. Gritando um com o outro, atirando coisas pela cozinha da nossa velha trailer. Eu estava deitado na cama, encarando a escuridão do meu quarto, ouvindo-os se despedaçando mutuamente. Eu implorava por alguma coisa que me tirasse do quarto. Que me arrancasse debaixo do cobertor e me levasse embora. E foi então que meus olhos por acaso se desviaram para a janela. Para o bosque de pinheiros jack, tudo mercúrio e sombra, bem na beirada do quintal. E então meus olhos o encontraram: uma estrela. Pairando acima da linha das árvores. E parecia estar olhando de volta.

Fiquei hipnotizado. Esse pequeno olho prateado, carrancudo, ciclópico e horrível, encarando. Eu conseguia sentir, sentir que ele estava me observando.

E então ele começou a tremer. A se expandir. Eu congelei dentro dos cobertores. Não conseguia desviar o olhar.

Foi então que o telefone tocou. Lá fora, na sala de estar, logo depois do corredor estreito. Saí do transe, esperando que meus pais o atendessem. Só que isso não estava certo — porque, na verdade, eu tinha sido arrancado do transe tanto pela ausência dos gritos deles quanto pelo som estridente do telefone.

Fiquei ouvindo. Tocou pela terceira vez. Em cada intervalo entre os toques, não ouvi nada. Um silêncio intersticial e frio. Não apenas meus pais não estavam gritando, como também eu não conseguia ouvi-los se mexendo. Não conseguia ouvir absolutamente nada, a não ser cada novo toque daquele velho telefone sem fio. Como se tivessem sido sugados para fora da trailer.

Por uma razão que não consigo explicar por completo, empurrei o cobertor para longe e me levantei. Então uma perna avançou de repente, desajeitada e fria. A outra veio atrás. Um caminhar estranho e travado. Meu centro de gravidade balançava sem controle, como se eu fosse carregado nas pernas de um recém-nascido cambaleante.

Toca. Agora silêncio.

O corredor já não era o corredor. Uma mente secundária — uma mente que era a minha própria — percebeu as mudanças. Só que a mente que percebia estava escondida em algum outro lugar, talvez em alguma outra parte da trailer e em outra casa inteiramente diferente. (Toca, toca.) Mas a mente que de repente estava guiando os motores do meu corpo, este novo corpo, não tinha medo. Esses novos olhos não se incomodavam com o corredor à medida que ele se esticava, se esticava e se estreitava, telescopando-se como uma cobra em direção ao brilho azul-esfumaçado da sala de estar. Toca. Depois mais silêncio.

Entrei cambaleando na sala de estar. (A nova sala de estar, porque a velha estava escondida, agachada em alguma outra parte do mundo.) Olhei para o sofá. Nele estavam sentados um menino e uma menina que eram meus irmãos. (Mas isso era impossível, porque eu sou filho único... ou eu era filho único?). Um era mais velho do que eu e o outro era mais novo, mas eu não conseguia dizer qual era qual. Estavam encharcados no brilho pálido e azulado da tela de uma TV que mostrava apenas estática. Quando olhei para eles, pararam de sorrir para mim com aqueles dentes horríveis, fileiras e fileiras de dentes de leite pequenos, mastigando, mastigando, e então se viraram de novo para a TV e já não estavam sorrindo.

Quando olhei para a TV, já não era estática coisa nenhuma. Era um homem, um homem que eu conhecia muito bem, mas que eu jamais tinha encontrado. Ele estava deitado na grama úmida da meia-noite, em meio a uma crise grand mal. Ele tinha minha cor de cabelo, pensei, entorpecido. Aquilo parecia com roupas que eu reconhecia, mas eu não sabia como.) Virei o rosto.

Toca. Toca. Toca.

Por fim, aproximei-me da mesinha de cabeceira. Estendi a mão e peguei o telefone. Quando o encostei ao ouvido, ouvi uma voz, ou muitas muitas vozes, vozes horríveis, e todas elas diziam isto:

“Lá fora. Venha para fora e me encontre. Meu nome é O Autor, e O Autor é este lugar inteiro. Tudo dentro dele. Venha para fora e me encontre.”

Então desligaram.

Minhas pernas de recém-nascido cambalearam até a cozinha, onde meus pais estavam esperando de repente. Mas eu não conseguia dizer qual deles era minha mãe e qual era meu pai — pareciam estar usando os traços um do outro, usando os membros do outro. “Vem cá”, diziam. “Sua mente, nossa mente, venha se dissolver de volta em nós.” E, claro, eu sabia mais, mas fui até eles.

Por um pequeno segundo, quando olhei para ela antes de ela me abraçar, ela realmente era minha mãe (mas, de novo, não podia ser, porque estava escondida, escondendo-se em algum outro lugar de outra casa inteiramente diferente). Quando os braços dela se enrolaram em mim tão amplamente, porém, ela não era ela mesma de forma alguma, porque tinha mãos demais, tantas mãos deslizando avidamente sobre meu corpo pequeno, e a maioria delas não parecia humana. Eram as mãos daquelas criaturas sombrias e terríveis que se agachavam tagarelando no escuro da floresta. Havia mãos de marionetes, dedos de madeira me apertando com força. Havia mãos sem pele, quentes e oleosas, os jabs dolorosos de ossos dos dedos. Senti os dedos dos pés de alguém se enroscarem na minha coxa. Um tentáculo estranho, semelhante ao de uma sanguessuga, deslizava úmido pela minha bochecha.

Foi naquele momento que meus pais começaram a cantar para mim uma música que cantávamos juntos, cantávamos juntos na longa estrada aberta durante as férias de verão. Mas era apenas a melodia de This Land Is Your Land. As palavras estavam todas erradas:

“Este mundo é minha terra, não mais sua terra

um dia ele acaba, cara, numa guerra com o Irã

vou te ver convulsionando, descendo do céu

serei sua visão, em dois mil e onze...”

Naquele momento, eu me puxei dela. Senti as mãos escorregarem para longe. Quando olhei de volta para eles, as mãos e os membros tinham desaparecido, e ambos se viraram, de frente para a tela da TV agora, assistindo ao homem convulsionando na grama úmida da meia-noite. Até que o olho na parte de trás da cabeça do meu pai se abriu e piscou enormemente para mim através do cabelo louro e desgrenhado dele. Então o olho abriu a boca e gritou.

Saí pela porta aos tropeços, horrorizado, esperando encontrar alguma sanidade. Ergui os olhos imediatamente, para encontrar O Autor. Mas então vi que eu estava muito dentro de O Autor. A grama úmida da meia-noite fervilhava de vida. Coisas sem corpo se erguiam do solo e uivavam de dor. Mais rápido do que o olho pode piscar, seres sem luz corriam de um lado para o outro numa agitação frenética, como sombras de estrelas cadentes. A terra se contorcia em agonia. Os pinheiros jack se dissolviam em suas próprias raízes e os amanitas haviam formado muitos círculos largos onde o chão se erguia e descia em respirações irregulares. Por fim, olhei para o firmamento mais negro que eu jamais tinha visto.

Já não eram as estrelas que estavam dispostas em suas constelações, mas pingando na terra e explodindo em furiosas nebulosas violetas. Havia apenas uma que permanecia imóvel, apenas uma que eu podia apontar, e ela se chamava O Autor.

“Eu sou a mente que é o oceano no qual você nada”, ela ressoou na minha consciência. “E agora você sabe que eu vejo você. Quando chegar a hora certa, e a lua cheia deslizar entre duas estrelas escuras, num instante de alinhamento breve, porém brilhante; é então que o olhar impossível deles atravessa.”

E, com isso, eu estava de volta ao meu corpo normal, aos sete anos de idade, e estava tendo uma convulsão no chão da cozinha. Não meu corpo real, porque, de algum modo terrível, o Novo Corpo, aquele mundo, parecera mais real do que a própria realidade.

Quando terminei a história, Mel estava pálida como um fantasma. “Então essa foi a sua visão”, disse ela.

Eu assenti.

E, desde aquela viagem estranha em dois mil e onze, aquela viagem em que eu havia me encontrado, mais uma vez, com o guardião deste mundo, chamado O Autor, nós tínhamos esperado a guerra com o Irã. E agora ela estava aí. Quando, na noite da lua cheia, recebi uma mensagem de texto. A princípio pensei que tivesse sido enviada para todo mundo, para a nação inteira. A Casa Branca tinha anunciado que um alienígena real, um UAP verdadeiro, chegaria nesta mesma noite para todos verem, eu liguei para ela naquele instante.

“É O Autor”, eu disse. “Eu sei que é. Este é o seu domínio. Somos atores no palco dele. Ele está sempre observando.”

“Do que você está falando?”

“Você não recebeu a mensagem? A mensagem da Casa Branca?”

Ela me disse que estava preocupada comigo, mas concordou em me encontrar. Eu disse para ela me encontrar no meu quintal, onde as estrelas estariam claramente visíveis.

Mais tarde naquela noite, ficamos de pé, olhando para as estrelas, com os pés plantados na grama úmida da meia-noite. Apontei. “Lá está”, eu disse. Mel tinha ficado muito quieta a noite inteira. Eu tinha uma vaga noção de um ruído vindo de trás de mim, alguma coisa úmida, talvez o estalar de ossos, o rasgar de vísceras. Bem alto, a estrela já tremia. Em sua grande pressa de se expandir, de me engolir em todas as suas vastas mudanças. Mas, quando me virei, Mel havia desaparecido.

No lugar onde ela estava, ele estava agora.

Talvez fosse um inseto. Era difícil olhar para aquilo, como se a criatura estivesse falhando, de algum modo digital e crepitante, uma composição de carne e do que pareciam ser flutuadores prateados do olho. Algum tipo de louva-a-deus, talvez. Talvez fosse Mel, mas rearranjada, todos os traços dela, os membros dela, o corpo dela desmontados e então montados de novo como essa entidade nova e terrível. As pinças de luz e osso dela clicavam e estalavam. As partes horríveis da boca se abriram:

“Este não é o mundo, este mundo é minha terra”, cantou com a voz de mil almas agonizantes e gritando, algumas delas humanas. Então, falando mais baixo, não para mim, mas para eles, para os Outros:

“Então vocês veem a verdade dos seus sonhos sem corpo, seus vislumbres do Outro, seus contos de fadas e conspirações — tudo isso leva de volta a mim? A verdade terrível demais para reconciliar? Não haverá revelação. Não vão pôr fogo em tudo antes de desvelarem a realidade?”

Agora não tenho certeza se havia uma Mel. Acho que ela sempre foi o grande ser, O Autor, me ajudando a guiar até este lugar, até este tempo, enfim. Olhei de volta para a estrela quando a terra começou a recuar, os pinheiros jack começaram a chorar e a ranger os dentes de fúria.

Eu estava apenas parcialmente consciente de que, de algum modo inexplicável, estava ali parado como o Novo Eu, o Segundo Eu, e convulsionando na grama úmida da meia-noite.

Quase pude ouvir os mísseis hipersônicos, provavelmente a caminho daqui.

Então fechei os olhos, senti a brisa fria pousar sobre minha pele como gafanhotos, incontáveis pequenas coisinhas rastejantes, absorvidas pelas minhas vísceras se arrastando.

Com os olhos fechados, vi isto:

Aquela única estrela estava me olhando de volta através da escuridão da minha própria mente, com seu olhar impossível atravessando tudo.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Simulador de Assassino Psicopata

Hoje em dia, pesquisas mostram que há pouca relação entre videogames e comportamento violento. No passado, porém, a ideia de que “videogames causam violência” era bastante comum entre os pais. A principal razão para esse mito era a falta de controle na época, que permitia que jogos com conteúdo extremamente perturbador e narrativas homicidas, como a série Manhunt e os jogos Lucius, circulassem livremente.

Atualmente, por conta de mudanças culturais e de uma censura mais rígida sobre conteúdos de entretenimento, esse gênero de jogos extremamente violentos praticamente desapareceu. A maioria das pessoas não sente falta disso, mas alguns fãs mais dedicados — eu incluso — ainda sentem saudade de experimentar aquela brutalidade crua e sem filtros mais uma vez. Os poucos lançamentos recentes não atenderam às minhas expectativas e, claro, eu poderia simplesmente rejogar Manhunt 2, mas sejamos sinceros: até a execução mais criativa perde a graça depois de ver a mesma coisa pela milionésima vez.

Por esses motivos, fiquei empolgado demais quando descobri um jogo de PlayStation 2 totalmente desconhecido chamado “Simulador de Assassino Psicopata”. Encontrei o jogo em uma venda de garagem, a apenas duas quadras do meu apartamento. O antigo dono era um homem asiático-americano na casa dos quarenta anos, que estava se mudando para outra cidade. Ele me disse que o jogo era exclusivo do Japão e havia sido banido internacionalmente por ser violento demais, então ninguém nos Estados Unidos sequer tinha ouvido falar dele.

Eu fiquei com o pé atrás, claro. O nome parecia aquelas tentativas modernas de chamar atenção que infestam a Steam hoje em dia, e eu não conseguia ler nada da capa. Ainda assim, o cara insistia que era “a experiência definitiva de terror gore” e, como o jogo estava extremamente barato, acabei comprando.

Naquela mesma noite, corri de volta para casa, abri um emulador no meu computador e comecei a jogar imediatamente. O jogo inteiro estava em japonês, mas o vendedor já tinha me explicado os comandos básicos, então não tive muita dificuldade. O jogo era curto, com apenas cinco fases, e a jogabilidade era relativamente simples. Em cada fase, eu controlava um maníaco que precisava descobrir como matar seus alvos em um ambiente aberto. Para ser justo, parecia mais um jogo de quebra-cabeça do que de ação, mas a criatividade e a brutalidade de cada execução eram impressionantes para alguém fã de filmes de assassino em série, como eu.

Na primeira fase, o maníaco perseguia uma funcionária de escritório solitária. Ele descobria seu perfume favorito, sua comida preferida e sua flor favorita; depois, passava-se por um pretendente apaixonado, convidando-a para jantar e drogando sua comida. Após o encontro, o assassino levava a mulher desacordada para casa, fazia coisas indescritíveis com ela, depois cortava seu corpo em pedaços e os enterrava no quintal.

Na segunda fase, meu personagem precisava invadir o necrotério de um hospital local, arrancar a cabeça de um cadáver e deixar algum tipo de marca registrada. O único familiar vivo desse morto, seu irmão, ficava, compreensivelmente, furioso. No entanto, o hospital o impedia de chamar a polícia, pois estava envolvido em atividades ilegais com os corpos dos pacientes. Ao provocar o homem com outra marca, o assassino o atraía até sua casa, o emboscava e o decapitava. Em seguida, dissolvia o corpo da vítima, deixando apenas a cabeça guardada no armário como troféu, ao lado da do irmão.

Nesse ponto, comecei a perceber algo estranho. A casa do assassino era praticamente idêntica à casa do antigo dono do jogo, o que deveria ser impossível para um jogo de 25 anos. Concluí que aquele “jogo desconhecido de PlayStation 2” era, na verdade, um produto totalmente novo se passando por antigo. O cara que me vendeu provavelmente era o desenvolvedor. Talvez estivesse tentando divulgar o jogo, criando uma falsa sensação de nostalgia. Talvez fosse parte de algum tipo de jogo de realidade alternativa de terror que eu desconhecia. De qualquer forma, o jogo ainda era interessante o suficiente para eu continuar.

O jogo começou a mostrar sua verdadeira natureza na terceira fase. Dessa vez, os alvos eram um casal viajante. Meu personagem preparava a casa como se fosse uma hospedagem, os drogava às escondidas e fazia coisas indescritíveis com eles antes de matá-los. Nesse ponto, a violência gráfica e a perversidade da história já tinham ultrapassado meu limite. Eu só queria uma violência mais cartunesca, não algo tão perturbador assim. O desenvolvedor era um completo doente por ter criado cenas tão distorcidas. Pensei em apagar o jogo e até destruir o disco. Ainda assim, como diz o ditado, a curiosidade matou o gato — e eu estava morrendo de curiosidade para saber como aquilo terminava.

Eu não esperava que a próxima fase fosse me assustar ainda mais.

O assassino escolhia como alvo um fã de filmes de assassino em série e vendia a ele um cartucho de videogame. Depois de terminar o jogo, a vítima era tomada pela curiosidade e ia voluntariamente até o matadouro do assassino. Diferente das fases anteriores, essa terminava no momento em que o alvo entrava na casa. Tentei iniciar a quinta fase, mas nada carregava — apenas uma caixa de texto em inglês dizendo: “Venha ver por si mesmo!”

Aquilo era algum tipo de piada de mau gosto? Será que aquele cara esperava que eu fosse até a casa dele depois de jogar esse jogo maldito? Talvez fosse tudo apenas um jogo de realidade alternativa, e eu estivesse exagerando. Mas, apesar de gostar de filmes gore, no fundo eu sempre fui um covarde. Recusei-me a correr o risco e fui direto à polícia na manhã seguinte.

O policial riu de mim no começo, mas seu rosto ficou sério quando ouviu minha descrição das vítimas. Elas batiam exatamente com quatro pessoas desaparecidas nos últimos dois anos. Senti como se minha alma tivesse saído do corpo quando soube que a polícia havia investigado a casa e encontrado quatro corpos — exatamente como eu descrevi.

Acontece que o homem que conheci tinha se mudado para lá dois anos antes, usando um nome falso — e era, de fato, o responsável pelos assassinatos.

A polícia confiscou o jogo como prova e, desde então, nunca mais toquei em jogos violentos. Até hoje fico arrepiado só de pensar no que poderia ter acontecido se eu tivesse ido até a casa dele naquela noite.

Pior ainda… na semana passada encontrei um bilhete na minha caixa de correio:

“Eu achei que você fosse um gato, mas não é. Bom jogo!”

Até hoje, aquele desgraçado ainda está solto — e eu não sei se a polícia algum dia vai capturá-lo.

A única coisa que eu sei com certeza…

é que você nunca deve jogar algo chamado “Simulador de Assassino Psicopata”.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Meu cachorro não foi treinado para lutar contra monstros. Ele era só um bom garoto… que se recusou a me abandonar...

Estou escrevendo isso do banco da frente do meu carro, olhando para a caminha vazia dele no banco do passageiro. Já faz três dias que larguei meu emprego, e eu não dormi mais do que uma hora por vez desde então. Toda vez que fecho os olhos, vejo a luz fria e branca do canil… e ouço o som do corpo dele batendo no chão.

Estou postando isso porque preciso deixar registrado o que aconteceu. Não só como um aviso para quem pensa em aceitar um trabalho de segurança noturno… mas como um memorial para a única família que eu tinha. Meu cachorro salvou minha vida — e fez isso sabendo exatamente no que estava se metendo.

Alguns meses atrás, eu estava completamente sem dinheiro. Estava vivendo no meu carro com meu cachorro — um vira-lata de porte médio, meio terrier, que adotei anos atrás em um abrigo. Ele era o animal mais inteligente e leal que eu já conheci. Nós éramos uma equipe. Quando as coisas ficavam ruins, ele era o único motivo para eu levantar da cama — ou melhor, do banco — todas as manhãs.

Eu passava meus dias me candidatando a qualquer emprego que aparecesse no celular, dando prioridade a turnos noturnos, para poder dormir no carro durante o dia sem ser incomodado pela polícia.

Eventualmente, encontrei um anúncio para uma vaga de monitoramento noturno em um hotel canino de alto padrão. O salário era surpreendentemente bom, e as responsabilidades eram mínimas. Basicamente, eu seria um vigia noturno: ficar na recepção, monitorar as câmeras, limpar qualquer sujeira nos canis e garantir que os cães hospedados dormissem durante a noite.

Mas o que realmente me fez aceitar na hora foi o fato de que o gerente do turno diurno disse que eu poderia levar meu próprio cachorro para me fazer companhia.

O lugar era extremamente sofisticado. Não parecia um abrigo comum. O lobby tinha pisos de azulejo caro e cadeiras de couro. A área principal era um longo corredor com vinte e uma suítes de luxo de cada lado, todas com paredes de vidro. Nada de grades. O piso era aquecido, as paredes eram à prova de som, e música clássica tocava continuamente para manter os animais calmos.

No fim do corredor, havia uma porta metálica pesada com barra de emergência, levando a uma área externa cercada por uma mata densa.

Na minha primeira noite, cheguei às onze. Recebi um tour rápido, um molho de chaves e fiquei sozinho.

Coloquei a caminha do meu cachorro embaixo da mesa da recepção. Ele se acomodou imediatamente.

Ao olhar para o monitor, vi um papel colado na parte inferior da tela. Era uma lista de instruções.

A maioria era normal: verificar água, portas trancadas, anotar o comportamento dos cães.

Mas, no final, havia duas regras, separadas e sublinhadas:

Às 2:00 da manhã, conte os cães. Deve haver exatamente 42.
Se você contar 43, encontre o cachorro que não tem sombra, abra a porta dos fundos e peça educadamente para ele ir embora. Não olhe nos olhos dele.

Eu ri.

Parecia uma piada interna da equipe. Ignorei completamente e joguei o papel fora.

Por duas semanas, o trabalho foi perfeito. Silencioso, previsível.
Toda noite, às 1:55, eu fazia a contagem: 21 de um lado, 21 do outro.

42. 

Sempre 42.

Até a terceira semana.

Era uma terça-feira.

À 1:50, meu cachorro levantou de repente. Não como de costume. Ele ficou rígido.

Começou a me empurrar com o focinho, a circular nervoso, a choramingar. Foi até a porta da frente, voltou, tentou me empurrar para fora.

Ele estava tentando me fazer ir embora.

Eu achei que ele só precisava sair. Pedi que esperasse.

Ele recuou.

Não quis me seguir.

Eu fui sozinho.

1:58.

Entrei no corredor.

Estava mais frio. Mais pesado.

Comecei a contagem.

Do lado esquerdo: vinte e dois.

Eu parei.

Refiz do outro lado: vinte e um.

Quarenta e três.

Fiquei irritado. Achei que fosse erro da equipe.

A iluminação era fraca, então fui até o painel… e liguei todas as luzes.

No instante em que acenderam, o silêncio tomou conta.

Todos os 42 cães estavam acordados — encurralados, tremendo, em pânico absoluto.

Olhei para o corredor.

E lá estava o quadragésimo terceiro.

Solto.

No meio.

Parecia um cachorro… mas não era.

As pernas dobravam ao contrário. O corpo parecia feito de fios enferrujados. Magro, errado.

E não tinha sombra.

Então eu lembrei.

Ele virou a cabeça.

E me olhou.

Olhos amarelos. Sem pupilas. Vazios.

E eu congelei.

Não conseguia me mover. Nem piscar.

O ar ficou pesado.

Ele começou a se erguer. A mandíbula se soltou… cheia de dentes humanos.

Ele ia me atacar.

E então—

Um borrão marrom passou por mim.

Meu cachorro.

Ele bateu no monstro com tudo.

O contato quebrou o olhar.

Eu consegui me mover.

Mas, quando meu cachorro mordeu… a coisa se desfez em formas impossíveis.

Uma delas atravessou o corpo dele.

Ele foi jogado para trás.

Sangue no chão.

Ele não conseguia levantar.

A coisa começou a se recompor.

Eu corri.

Abri a porta dos fundos.

O ar frio entrou.

A criatura recuou.

E fugiu para a floresta.

Eu fechei a porta.

E corri até ele.

O ferimento era profundo demais.

Eu pressionei com minha jaqueta, implorei para que ele aguentasse.

Ele só encostou a cabeça na minha perna.

Olhou para mim.

Lambeu meu pulso.

E parou de respirar.

Eu fiquei ali… segurando-o… por horas.

Até o gerente chegar.

Ele não perguntou nada.

Eu fui embora.

Enterrei-o na floresta, perto da casa onde cresci.

E agora… três dias depois… eu entendi.

À 1:50, ele sabia.

Ele tentou me salvar.

E, quando eu ignorei…

Ele voltou.

Mesmo com medo.

E deu a vida dele por mim.

Eu estou escrevendo isso para que alguém saiba.

Ele era um bom garoto.

O melhor de todos.

E eu devo a ele… cada respiração que ainda tenho.

sábado, 28 de março de 2026

Menina Morta na Parede

A primeira vez que senti aquilo eu tinha seis anos. Minha mãe me levou a um museu para me mostrar retratos de figuras históricas: George Washington, Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt. Eu me divertia passeando pelas salas, olhando os trajes coloridos e os armamentos do fim de século.

Lembro que descia uma das exposições apontando para os homens nos quadros. Passei por cada um e senti algo estranho: um buraco no estômago, uma fome dolorosa — mas não de comida. Era inquietante. Só acontecia quando eu olhava para certos retratos: especificamente fotos de pessoas mortas.

Corri pelo corredor, olhando um a um: morto, morto, morto. No fim, havia um retrato mais moderno — “funcionário do mês”.

Mesmo assim, aquela sensação não passava. Quando minha mãe me pegou, abracei sua perna, apontei para a foto e comecei a chorar, tentando entender.

— Mãe, mãe — disse, apontando. — Tem um homem morto na parede!

— Isso não é um homem morto — respondeu ela. — Ele trabalha aqui.

— Não, ele está morto! Ele está morto, mãe!

Aconteceu que eu estava certo: ele havia morrido num acidente dias antes.

Meus pais me avisaram para não falar sobre aquilo. Acho que nunca acreditaram totalmente que era algo real. Descartavam minhas preocupações e reviravam os olhos quando eu contava. Com o tempo, passei a ver aquilo como algo “feio”, como algo de que não se fala em boa companhia. Até hoje, quando vejo fotos de crianças desaparecidas na parte de trás de caixas de leite e sinto aquele afundamento no estômago, sei com certeza que a história não será boa.

Só quando olhamos para trás é que percebemos quanto algo nos marcou. Por exemplo: nunca moldurei nenhuma foto. Minhas paredes só têm pinturas abstratas ou pôsteres de jogos. Nada com rostos reais. Não quero olhar para fotos e sentir aquele buraco voltar. É desagradável, mesmo quando espero. Mesmo figuras históricas ou celebridades provocam o mesmo sentimento. A morte é a morte. Quanto mais tempo essa sensação persiste, mais demora para eu me recompor.

Pensei em entrar para a polícia, mas nunca acreditei que minha habilidade fosse real. Não parece “real”, sabe? As únicas pessoas que sabiam tentaram esconder isso, e depois de um tempo você para de brigar contra elas. Cheguei a acreditar que era tudo ilusão, que eu estava quebrado por sequer considerar que era verdade.

Mas, no fundo, eu sabia.

Acabei virando ilustrador. Na adolescência descobri que meu “sentimento” não funciona com retratos estilizados ou caricaturas; só com retratos realistas. Então tento evitá-los. Desenvolvi um estilo meio quadrinhos ocidentais, meio realista, e tive uma webcomic bem popular no final dos anos 2010, com cerca de 35 mil leitores regulares. Parei de atualizar quando consegui um emprego em tempo integral numa editora: somos uma equipe de ilustradores que faz uma revista mensal há quase 40 anos.

Tenho muitas bênçãos: moro numa bela casa, conheço gente interessante, vou a convenções pelo país, sou convidado para painéis e não preciso me preocupar todo mês com o salário. Amo meu trabalho e as pessoas com quem trabalho, e não vejo isso mudando tão cedo.

Mas, no fundo da minha mente, aquela coisa continuava me incomodando. Aquilo que me impede de olhar muito para fotos nas paredes ou programas antigos na TV. Sempre que sintonizo uma reprise de game show ou uma sitcom dos anos 90, minhas entranhas gritam algo: morto, morto, morto.

Dois anos atrás eu morava sozinho. Voltando do trabalho, notei alguém se mudando do outro lado da rua: um homem, duas crianças e um caminhão cheio de coisas. Ele lutava para sustentar uma caixa. Vi a etiqueta “frágil” e decidi oferecer ajuda. Ser um bom vizinho faz parte do que se espera por aqui.

— Precisa de ajuda, vizinho? — chamei.

— Acho que sim — respondeu ele.

Peguei o fim da caixa quando ele relaxou os ombros. Ajudei a levá-la e ele me ofereceu a mão para cumprimentar. Os dois filhos, de uns oito a dez anos, corriam subindo e descendo as escadas para buscar coisas. O homem se apresentou como Carl. Ele estava a desfazer caixas o dia todo, mas ainda longe de terminar. Eu tinha uma hora antes de sair, então me ofereci para ajudar com as coisas mais pesadas.

Movemos um sofá, uma mesa, uma estrutura de cama e a mesa da cozinha antes de eu ir embora. Carl me convidou para tomar uma cerveja na cozinha. Não sou fã de cerveja, mas quando oferecem, não se recusa.

— Aproveite — disse ele. — Sério.

— Obrigado, prazer em ajudar — respondi.

— Vou ter que dizer à vizinha do outro lado que ela tem gente boa por aqui — sorriu ele. — Ela deve passar amanhã, dá uma passada lá.

— Não foi nada — disse. — Não se preocupe.

— Não, insisto. O jantar é por nossa conta.

Tomei um gole enquanto ele pendurava uma foto da família na parede: os quatro sorrindo, provavelmente no Grand Canyon.

Mas havia algo na mulher da foto.

À primeira vista, nada fora do comum: cabelos castanhos longos, olhos avelã, bochechas prontas para sorrir. Mas tudo o que senti foi escuridão. Um poço no meu estômago. Sem dúvida: aquela mulher estava morta. Uma menina morta na parede.

Fiquei sem saber o que dizer. Acho que Carl percebeu algo no meu comportamento, mas não comentou. Terminamos as cervejas e seguimos caminhos diferentes enquanto ele pegava outra caixa rotulada “escritório”.

Voltando para casa, não sabia mais no que acreditar. Talvez algo tivesse acontecido com ela e ele não soubesse. Se fosse isso, eu deveria falar ou esperar que ele descobrisse sozinho?

No fim, nada fiz.

No dia seguinte bateram à minha porta por volta das 17h. Abri e vi Carl e a mulher dele. Ela tinha o mesmo sorriso da foto — o mesmo cabelo, só um pouco mais longo.

— Ei, vizinho! — disse Carl. — Obrigado pela ajuda o outro dia.

A esposa apertou minha mão e se apresentou: Allie. Fiquei confuso. Eu tinha certeza de que ela estava morta. Seria a primeira vez que minha intuição falhava. Foi perturbador.

— Pensamos em fazer um jantar — disse Allie. — Que tal?

— Não preparei nada — respondi, gesticulando para a minha cozinha.

— Você é nossa convidada, não se preocupe — disse Carl, dando um tapinha no meu ombro.

Eles eram extrovertidos. Coloquei os sapatos e fui com eles até a casa.

Allie e Carl foram ótimos anfitriões. Os filhos eram barulhentos, mas ficaram nos quartos. Serviram rigatoni ao molho caseiro com bastante parmesão; Carl ralou o queijo à mesa. Elegante.

Sentei na ponta da mesa, com as fotos de família na parede bem à minha frente. Havia uma dúzia delas: Carl e Allie bolando, acampando, casando. Allie havia escrito pequenas anotações com uma caneta azul: “O melhor dia de todos”, “Memórias para a vida”.

Morto, morto, morto. Menina morta na parede.

A sensação voltou em cada imagem. Sentir aquilo no meio do jantar me deixava estranho; eu até disfarçava um pouco. Allie comentou de leve que era bom ver alguém com apetite.

Foi um bom jantar. Conversamos por horas. Carl trabalhava no mercado imobiliário; Allie cuidava de aluguel de carros e organização de eventos. Tinham empregos sazonais, então podiam se mudar e viajar entre as temporadas.

Quando Allie foi verificar as crianças, notei algo no olhar de Carl: um olhar demorado, um sorriso que não chegava. Ele balançou a cabeça e baixou a voz.

— Estou feliz que ela esteja inteira — disse. — Ela sofreu um acidente no ano passado; as coisas têm sido meio... você sabe.

Assenti. Ouvi risos e passos lá em cima.

— O que aconteceu?

— Estourou um pneu entrando numa curva a 120 km/h. Ela foi para fora da estrada. Por sorte, sobreviveu com alguns ossos quebrados. O carro foi destruído, caiu num rio.

Senti um frio. Balancei a cabeça, tentando disfarçar.

— Sinto muito — disse. — Não consigo imaginar.

— Ninguém consegue, até estar ali — respondeu ele.

Eu não conseguia explicar o que via. Allie estava ali em cima, viva, mas tudo gritava que ela estava morta e desaparecida.

Ela voltou para a sala e tomamos vinho, falamos sobre trabalho e a noite acabou. Troquei redes sociais com eles e, antes de sair, pedi para tirar uma foto.

Eles não se importaram. Allie sorriu abraçando o marido; tirei a foto tentando não parecer desconfortável. Sorri o caminho todo para casa, mas assim que fechei a porta, abri a foto. Olhei e olhei até ter certeza: ambos estavam muito vivos.

Tentei cobrir Carl com o polegar, nada mudava. Naquela foto, Allie estava viva. Mas durante o jantar eu havia visto fotos de uma mulher morta. Tinha certeza disso.

Aquela contradição trouxe perguntas que eu não me lembrava de ter feito antes. Tentei me lembrar de uma vez em que eu havia errado, mas faltava-me exemplo. Desde o primeiro homem no museu, eu vinha acertando quem estava morto só olhando fotos. Às vezes duvidei, mas no fim eu estava certo.

Pela primeira vez em anos sentei e pensei no que tudo aquilo significava. Testei algumas fotos online para ver se ainda distinguia vivo de morto: verifiquei notícias e artigos na Wikipédia. Vivo, morto, morto, vivo, morto. Nada me confundiu.

Quando faço esses testes, tenho que me levantar e sacudir o desconforto. É como uma cãibra chegando. Na pior fase, isso já me deixou fisicamente doente: no ensino médio, vi um documentário sobre a Segunda Guerra e fiquei tão mal que tive uma convulsão. Os paramédicos tiveram que me sedar.

Achei que não era grande coisa; que eu estava interpretando errado. Devia haver uma nuance com Allie. Sentei e listei explicações possíveis.

E se ela tivesse uma doença que o acidente aparentemente “corrigiu”? Minha sensibilidade sempre foi binária: vivo ou morto. Não detecta nuances como morrer lentamente. Não podia ser isso.

E se ela tivesse recebido um transplante? O órgão doado estaria morto, o corpo vivo. Pesquisei fotos de receptores de transplante de coração: eles apareciam “vivos”; fotos dos doadores apareciam “mortos”. Eu sentia o estado atual, não o passado.

Fiquei até as duas da manhã bebendo chá gelado na mesa da cozinha, olhando a casa escura do outro lado da rua. Cheguei a uma conclusão:

Estava vendo duas mulheres diferentes. Uma viva, outra morta.

Tentei não pensar muito. Eram quase estranhos para mim; devia haver um mal-entendido. Mas, aos poucos, conheci Carl melhor. Trocávamos cumprimentos e conversas leves sobre trabalho e filhos. De vez em quando seu olhar mudava.

Numa vez, o encontrei no estacionamento do mercado. Parei para dizer oi. Carl estava encostado no carro, parecendo cansado. Quando perguntei como iam as coisas, ele demorou a responder e olhou para o céu.

— Às vezes é difícil — murmurou. — Tem que fazer o melhor que dá.

— Focar nas pequenas coisas — tentei.

Ele sorriu, mas manteve o olhar no ar.

— Desde o acidente tivemos que nos ajustar. Às vezes é cansativo. Coisas com dieta, por exemplo. Allie teve que comer mais proteína. Antes éramos vegetarianos, mas agora virou tudo carne, carne, carne. Às vezes jantamos separados. É muito.

— Vocês eram vegetarianos? — perguntei.

— Éramos — disse ele. — Você não sabe metade.

Com o tempo nos aproximamos. Ele não conhecia muita gente na cidade; eu não tinha muitos amigos por perto. Foi bom ter alguém para tomar uma cerveja.

Nas conversas seguintes ouvi mais coisas: Allie levantava à noite sem voltar para a cama; às vezes ele a encontrava no corredor olhando para o nada. Coisas aparentemente sem importância o incomodavam.

— Ela não soa bem quando canta no chuveiro — disse ele. — É bobo, mas está lá.

Ele não tinha explicação além das mudanças pós-acidente. Agradecia por ela estar com ele, mas admitia que não era fácil.

Notei também comportamentos estranhos. Sempre que via Allie pessoalmente, ela era sol e sorriso, mas às vezes fazia coisas estranhas: parava na garagem sem olhar para nada; atravessava frases no meio e fingia que nada aconteceu. Numa noite, trabalhando até tarde, vi a luz da cozinha deles acesa e Allie de robe: ela abriu a geladeira, pegou comida e comeu direto da embalagem de um jeito feroz, quase animal, mordidas desesperadas. Por um momento ela parou, olhou na minha direção — e acenou, lentamente, dedo por dedo.

Algumas noites depois, fui ao jantar deles de novo. Íamos ver um projeto de animação que eu tinha feito anos antes; acho que Carl só queria companhia “normal”. As crianças ficaram nos quartos; Allie estava contida. Quando Carl foi ao banheiro, fiquei sozinho com ela. Ela segurou a bebida, parou de repente, imóvel, e então virou os olhos para mim.

— Não me olhe assim — disse num tom mais baixo.

— Desculpe — respondi. — Está tudo bem?

— Como você pode olhar para mim assim? — continuou. — O que você vê?

Sua mão tremia. Sem pensar, olhei para um retrato na parede e de volta para ela. Ela ligou os pontos e o sorriso foi embora. Não falou mais; deixou a pergunta no ar enquanto me encarava.

Quando Carl voltou, ela retomou a máscara sorridente.

Depois daquela noite, Allie me olhava diferente. Quando ninguém via, ela deixava cair a fachada: um sorriso frouxo, ombros relaxando, movimentos de pescoço estranhos, quase como um cachorro que tenta entender o ambiente. Ficou quase como um jogo. Chegou a uma noite em que eu estava quase indo dormir: fui apagando as luzes quando senti um arrepio. Eu estava só de cueca e camiseta, virei e vi Allie do lado de fora da janela da cozinha, o rosto pressionado contra o vidro num sorriso enorme.

Caí para trás, derrubando pratos no balcão. Ela bateu levemente na janela e soltou um ruído estridente antes de desaparecer na esquina.

Fiquei sentado no chão da cozinha tentando me acalmar. Fechei todas as cortinas e verifiquei as portas.

Tentei evitar a família depois disso. Não queria ficar sozinho com Allie. Quase contei a Carl, mas não queria me envolver. Havia uma chance de piorar. Então me distanciei e passei a focar na minha vida e no trabalho.

Mesmo assim, sinais começaram a aparecer na cidade: avisos sobre alguém mexendo em armários de armazenamento e lixeiras; pets desaparecidos; pássaros meio comidos no quintal de alguém. Notei que em algumas notas deixadas por aí alguém desenhava rostinhos sorridentes com uma caneta azul.

Eu não sabia o que pensar sobre Allie. Havia algo anormal, mas esperava que me deixassem em paz. Por um tempo achei que tinham ido embora. Então acordei com um pássaro meio comido na minha porta.

Decidi confrontá-los. Fui até a casa e bati. Um dos filhos abriu, o que me fez hesitar.

— Sim? — perguntou o garoto.

— Sua mãe ou seu pai estão? — perguntei.

— Mãe tá lá atrás; pai está na loja.

— Vou esperar pelo pai — disse. — Volto já.

— Espera — pediu o menino, segurando meu braço. — Você pode ver uma coisa? Por favor?

Como dizer não?

Ele me levou até a cozinha e apontou para a porta de vidro da sala. Lá fora, Allie estava de quatro, fazendo um som estranho de engasgo, repetido vezes sem conta.

— Ela faz isso faz tempo — disse o menino. — É estranho.

— Você devia contar ao seu pai — respondi.

— Ele sabe — disse o garoto.

Aquela resposta ficou na minha cabeça. O menino saiu correndo quando a porta de vidro se abriu. Ouvi um murmúrio de discussão. Voltei para casa sem pensar duas vezes.

Minha sensação de segurança acabou. Havia farfalhar nos arbustos; tentaram abrir minha porta. Às vezes encontrava pequenas marcações azuis no canto das correspondências: rostinhos desenhados. Sempre que via Allie, ela me encarava como se soubesse exatamente onde eu estava. Às vezes parava no meio do caminho, e Carl tinha que puxá-la. Numa ocasião deixou cair um saco de compras; limões rolaram até a sarjeta. Ela parecia não se importar.

Pensei em chamar a polícia, mas o que eu diria? Eles não tinham feito nada de ilegal óbvio — e eu não podia provar que ela estava “morta”. Afinal, ela estava viva. Ou estava?

Numa noite, alguém bateu à minha porta. Era Carl.

— Queria pedir desculpas — disse ele. — Posso entrar?

Algo em mim disse “não”. O menino tinha dito “ele sabe”. Quanto Carl sabia, afinal? Tirei a mão da fechadura.

— Queria me desculpar por Allie — continuou ele. — Ela não está bem.

— O que quer dizer com isso? — perguntei.

Ouvi um clang metálico na casa deles. Carl fez uma pausa.

— Temos que fazer ajustes — disse. — Ela está te olhando. É algo que temos que considerar.

— Não quero nada com isso — respondi.

— Então abre a porta — insistiu. — Vamos conversar.

— Não vai acontecer.

Carl foi embora; eu o vi atravessar a rua segurando algo afiado na mão direita. Havia um saco de lixo saindo do bolso dele. Allie olhou na minha direção quando ele saiu.

Decidi que era hora de distância: ia para a cabana do meu pai perto do rio, a oeste. Trabalharia remotamente, tinha Wi‑Fi. Carreguei o carro de suprimentos, olhei para trás para ver se alguém me seguia e entrei em casa só para pegar algumas roupas.

Abri o guarda-roupa e, de repente, uma mão agarrou meu pulso.

Meu coração disparou. Tudo em mim gritou pra correr, mas eu estava preso num aperto de ferro. Era Allie, olhos escuros que não piscavam, com um tom amarelado que eu nunca tinha visto. Ela ofegava como um cão; estava visivelmente agitada e mais forte do que parecia. Quando eu ia gritar, a outra mão dela agarrou meu pescoço e me empurrou contra a parede. Carl entrou na sala.

— Ele me vê — sibilou Allie. — Você prometeu.

— Não temos certeza se ele vê — respondeu Carl, com um sorriso tenso. — Temos que saber, parte da promessa.

Allie revirou os olhos, mas acalmou a mão na minha garganta, pousando um dedo nos lábios. Tinha que ter cuidado.

— O que você sabe? — sussurrou ela.

Pensei rápido. Poderia contar sobre as marcações azuis, os pássaros, as visitas à geladeira, mas olhei para Carl em vez disso.

— Eu sei que ela está morta — disse, com raiva contida. — Isso não é mais Allie.

Ele ergueu uma sobrancelha e olhou para ela, depois para mim.

— O que você quer dizer? — perguntou.

Allie estalou, a mão de volta ao meu pescoço. Ela pediu algo a Carl com um gesto. Ele hesitou, frustrando‑a. Ela bateu minha cabeça na parede; sangue escorreu. Cai no chão, com a visão turva.

Allie agarrou uma faca quando Carl finalmente recuou. Eles discutiam entre si: ele tentava uma explicação, ela buscava a lâmina. Pareceu que tinham um acordo: se alguém descobrisse o que era ela, lidariam com isso. Em meio à briga, consegui balbuciar:

— Allie está morta. Essa não é ela. Não é humana.

— Por que ele está dizendo isso? — perguntou Carl, apontando para mim. — Por que diz que você está morto?

Allie começou a rosnar, como um animal encurralado. Atacou Carl; ele deixou cair a faca. Ela o mordeu na perna, conseguiu a lâmina, ajoelhou-se e colocou-a no meu pescoço.

Carl a empurrou. Algo queimou meu queixo e senti sangue mais uma vez. Allie bateu na parede, seu rosnado ficando mais profundo e estranho.

— Isso é mesmo você? — perguntou Carl. — Ainda há algo aí dentro?

Não houve resposta. Parecia que aquela conversa já tinha acontecido antes, e havia chegado a um ponto de ruptura. A mandíbula de Allie se abriu de um jeito errado, como se esticasse além do humano. Suas articulações se moviam para o lado errado; ela parecia uma coisa com boca desproporcional.

Eles lutaram; ela tentou pegar a faca e morder Carl de novo. Em algum momento ele conseguiu empurrá‑la para longe, pegou o telefone e chamou socorro. Ouvi um operador responder enquanto a cozinha virava um caos: pratos quebrados, talheres espalhados. Allie já não fazia sons humanos, só rosnados.

Fiquei ali, murmurando por ajuda, respondendo o que podia ao operador entre desmaios. Quando recobrei parcial consciência, vi Allie na cozinha rasgando plástico e comendo carne crua da geladeira: um maço de bacon, pedaços de carne. Carl voltou com a faca na mão, tinha marcas de mordida no braço. Ele caiu numa mistura de desculpas e cansaço.

— Como assim ela está morta? — perguntou ele.

— O acidente — respondi. — As fotos.

Ele viu a foto no meu celular e caiu em silêncio. Havia cansaço no rosto dele, algo profundo. Ele teve que puxar Allie da geladeira, segurando‑a como um cachorro solto. Jogado para fora, ela correu atrás de algo e fez aquele som estranho, rindo e cacarejando. Vi Carl fechar minha porta com cuidado e dizer algo no limiar — talvez um pedido de desculpas.

Quando a polícia chegou, a família já tinha ido. Tinham saído de carro e deixado uma placa falsa. Quando perceberam que o alarme havia disparado, haviam incendiado a casa para não deixar rastros; o fogo alcançou parte da rua. Tive de trocar tapetes.

Tive pontos na cabeça e um mês de licença do trabalho. A ocorrência foi registrada como invasão de domicílio. Na investigação, muitas coisas sobre Carl e Allie não batiam: documentos assinados com nomes falsos, cortes de cantos. Um dos nomes que usaram era de alguém que morreu num incêndio meses antes.

Tudo começou porque vi a “garota morta” na parede. Desde então vi muita coisa — e suspeito que verei mais. Não sei se minha intervenção me salvou ou me colocou em perigo, mas ainda respiro, então considero vitória.

Não sei exatamente o que Allie era. Pelo que consegui apurar, ela vinha de uma cidade pequena na Dakota do Sul. Mencionava uma “Jéssica”, irmã ou amiga. O acidente foi perto de um rio. Não sei como tudo se conecta. Não sou detetive nem policial; só um sujeito estranho com uma sensação estranha ao olhar fotos.

Escrevo isso para me convencer de que tudo foi real — que o que sinto é real. Posso olhar uma foto agora e sentir a mesma coisa. E sei, com certeza, que Carl e Allie ainda estão por aí — talvez com outros nomes.

Como sei? 

Tenho a foto deles no meu celular.

E sinto que eles estão vivos.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Cartas

As coisas não têm sido nada fáceis ultimamente. Gastei uma grana absurda num diploma universitário que me levou a um beco sem saída — um trampo de salário mínimo e uma montanha de dívida estudantil — e agora estou morando num apartamento uma merda com um senhorio que todo mundo odeia. Mas minha mãe nunca criou um covarde, então eu persisto, na esperança de que as coisas melhorem. Ela era a única que acreditava que eu ia conseguir, que tudo ia melhorar, e até hoje ela nunca me levou pelo caminho errado.

O dia começou igual a qualquer outro — saí da cama de mau humor, vesti o uniforme do McDonald's e comi uma tigela refrescante de Cheerios puro (o café da manhã dos campeões, sem dúvida), antes de ir pro trabalho. Não tem muita coisa pra contar sobre o dia de serviço: virei alguns hambúrgueres, peguei alguns pedidos e aguentei uns clientes chatos. Mas eu vi uma cliente grossa tropeçar e derramar a bebida dela no estacionamento. Isso me arrancou um sorriso. Depois de um dia exaustivo e sem graça, voltei pro meu apartamento. Quando entrei, vi um pote de rolinhos de canela com um pedacinho de papel escrito "Da Mamãe" com um coraçãozinho desenhado. Ela tinha uma cópia da minha chave, então deve ter passado aqui enquanto eu estava fora. Eu estava destruído e morrendo de fome, então dei uma mordida, sentindo aquele calor de casa e o amor da minha mãe. Me senti um menino de novo, saboreando um docinho e sentindo o abraço dela, e não me envergonho de admitir que chorei ali mesmo, na hora.

Terminei os rolinhos e lavei o pote. De qualquer forma, eu ia visitá-la ainda essa semana, então ia devolver lá. Dei uma última olhada no bilhetinho da minha mãe quando percebi que tinha uma carta do lado. Estranho — devo ter passado batido antes. Peguei e examinei. Não havia nenhum tipo de escrita do lado de fora. Sem "Da Mamãe", sem "Para o Trevion" ou qualquer coisa assim, nem o coraçãozinho que a minha mãe sempre desenha em toda carta que escreve. Talvez eu estivesse exagerando — talvez ela estivesse com pressa.

Resolvi abrir, curioso sobre qual frase inspiracional brega ela tinha escrito dessa vez, mas não havia nenhum bilhete dentro — só uma foto. Uma foto bem estranha. Parecia um porão escuro, iluminado apenas por uma velha lâmpada balançando no teto. No centro da foto havia uma porta de madeira. A imagem era um pouco perturbadora, e meio esquisita pra minha mãe mandar, ainda mais porque o porão dela não tem nada a ver com aquilo. Mas eu estava cansado demais pra pensar nisso, então fui me jogar na cama na esperança de dormir por uma eternidade.

Na manhã seguinte, acordei e saí da cama, seguindo minha rotina normal, até ver outra carta fechada em cima da minha mesa de jantar. A de ontem eu tinha deixado fechada em cima do balcão ao lado do micro-ondas, mas ela tinha sumido. Procurei por todo lado, mas não achei. Olhei de volta pra mesa, fitando a nova carta com curiosidade e uma pontada de pavor. Me aproximei com hesitação, peguei a carta e virei.

"Fique calmo. Deus te aguarda na porta." estava escrito na frente da carta, em letra caprichada. Isso era uma ameaça? Alguém tinha arrombado minha casa e deixado isso aqui? Liguei pro trabalho, expliquei o básico — que eu suspeitava que alguém tinha entrado na minha casa e que não ia aparecer. Não achei necessário mencionar a carta. Minha gerente, coitada, foi muito compreensiva e me deu o dia de folga. Chamei a polícia imediatamente e comecei a vasculhar tudo, tentando achar algum sinal de arrombamento ou se alguém ainda estava ali, mas minha cabeça ficava voltando à curiosidade sobre o que estava dentro da carta. Depois de confirmar que eu estava seguro, por enquanto, meus olhos vagaram pra mesa. Eu sabia que provavelmente não era boa ideia, mas a abri. Em retrospecto, foi uma besteira enorme, mas eu não consegui me controlar. Havia outra foto — dessa vez, a mesma porta do porão escuro, escancarada, revelando apenas escuridão. Fiquei ali sentado encarando a carta, tentando entender tudo aquilo, até a polícia chegar.

Dei meu depoimento enquanto eles vasculhavam a casa. Esperava que encontrassem alguma coisa — qualquer coisa — que pudesse identificar quem teria arrombado o apartamento. Um milhão de perguntas passavam pela minha cabeça enquanto eles investigavam. Quem teria feito isso? Por que eu especificamente? Será que ofendi alguém de alguma forma? Um policial se aproximou e disse que ou o invasor conseguiu esconder qualquer evidência de arrombamento de forma perfeita, ou simplesmente ninguém tinha entrado. O jeito que ele falou parecia que estava irritado comigo por ter desperdiçado o tempo dele. Eles foram embora e eu me joguei no sofá, tentando entender toda essa situação de merda.

A melhor coisa a fazer, pensei, era ligar pra minha mãe. Não sabia o que esperava que ela fizesse, mas achei que ouvir a voz dela me ajudaria a me acalmar um pouco. Com as mãos tremendo, peguei o celular e fui descendo até as informações de contato dela. Não demorou muito — não tinha muitos contatos pra começar. Coloquei o telefone no ouvido e fiquei esperando ela atender. O telefone foi chamando até cair na caixa postal. Não era lá muito surpreendente — minha mãe quase sempre deixava o celular no silencioso porque ele "a distraía de Vampire Diaries" ou alguma outra série dramática vagabunda. Ia tentar de novo quando recebi uma mensagem do número dela. Estranho — ela nunca foi de mandar mensagem, só ligava e escrevia cartas.

Abri o aplicativo de mensagens e li o texto da minha mãe.

"E qualquer um cujo nome não estava escrito no Livro da Vida foi lançado no Lago de Fogo."

Antes mesmo de conseguir processar o que aquilo significava, meus olhos arregalaram de horror e um som sufocado escapou da minha garganta quando recebi uma mensagem em seguida. Era uma foto da minha mãe, amarrada a uma mesa coberta de cortes e hematomas, uma lareira enorme queimando forte atrás dela.

Meu rosto ficou pálido e minha respiração acelerou. Eu precisava fazer alguma coisa — precisava chamar a polícia.

Ouvi uma batida na porta e levei um susto. Corri até a porta, na esperança de que fosse minha mãe. Pelo amor de Deus, que fosse ela. Abri a porta rapidamente e não vi nada. Olhei pros dois lados do corredor, mas não havia ninguém. Só havia mais uma carta no chão. Peguei com hesitação e voltei depressa pra dentro, indo pro sofá. Abri na hora, tirando uma carta manuscrita seguida de uma foto. A foto era do porão escuro de novo, mas dessa vez do chão num canto, em vez das escadas como nas fotos anteriores. Tomei um choque quando vi que era… eu na foto. Eu estava no alto das escadas descendo, claramente sem perceber quem estava tirando a foto. Mas aquilo não fazia sentido algum, já que o único porão onde eu tinha estado era o do próprio prédio, pra lavar roupa, alguns dias atrás.

Foi aí que caiu a ficha como um soco no estômago. Quem tinha sequestrado minha mãe estava aqui, e já estava aqui fazia um tempo. Não me dei nem um segundo pra pensar — saí do quarto correndo, peguei meu taco de beisebol velho e desci direto pro porão. Recebi alguns olhares estranhos no caminho, mas não importava. Minha mãe estava em perigo e eu precisava ajudá-la.

Empurrei a porta com força, encarando o abismo escuro lá embaixo. Toquei no interruptor de luz, mas nada aconteceu. Talvez ele soubesse que eu ia aparecer e tivesse cortado a energia do porão. Liguei a lanterna do celular e desci com cuidado, o taco firme na mão, chamando pela minha mãe.

Cheguei ao último degrau e olhei em volta com a lanterna. Tudo parecia normal, igual às fotos. Algumas máquinas de lavar, uns canos velhos e a porta. Eu sempre achei que fosse um depósito velho dos funcionários de limpeza, mas agora sabia que era algo muito mais sinistro. Corri até a porta e chutei pra abrir.

— Mãe! Você está aí? — gritei no quarto escuro, jogando a luz pra dentro. Era muito maior do que eu tinha imaginado, grande demais pra ser só um depósito de limpeza.

Entrei devagar, o assoalho rangendo levemente a cada passo. Vi a lareira apagada da foto da mensagem. Parecia bem maior do que na foto — como se uma pessoa inteira coubesse ali dentro. Quando me aproximei, vi que quem fez tudo aquilo tinha feito exatamente isso. Havia ossos cobertos de cinzas espalhados por toda a lareira. Muitos braços e pernas, costelas, e o mais arrepiante de tudo: vários crânios humanos, todos enfileirados com capricho. Me estremeci só de imaginar um deles sendo minha mãe. Expulsei o pensamento da cabeça. Ela tinha que estar bem — precisava estar.

Me levantei e caminhei mais fundo naquele cômodo comprido. Outro detalhe que me perturbou foi o quanto tudo estava organizado. Tudo no lugar certo, e não havia uma única teia de aranha em nenhum canto. Vi a mesa onde minha mãe estava presa, mas ela não estava mais lá.

— Merda, merda — murmurei pra mim mesmo enquanto me aproximava da mesa, tentando achar alguma pista ou alguma coisa que me ajudasse a entender o que tinha acontecido ou pra onde ela poderia ter ido. Mas nada — nem uma única gota de sangue em lugar nenhum.

Recuei da mesa, respirando pesado, tentando pensar no que fazer, até ouvir um ronco úmido e baixo mais ao fundo do cômodo. Joguei a lanterna rapidamente pro final do cômodo e vi a cena mais apavorante que já presenciei na vida. Até hoje me mantém acordado à noite enquanto escrevo isso, e acho que nunca vai me largar.

"Não me deixes ser crucificada como meu salvador" estava escrito num papel pregado num cadáver. Minha mãe estava pregada a uma cruz invertida com uma estrela cortada no estômago, sangue escorrendo por ela e cobrindo seu rosto inchado e cheio de hematomas.

Não consegui olhar mais. Saí correndo e não parei até chegar de volta no meu quarto. Bati a porta e dei a chave. Me apoiei contra a porta, respirando pesado e irregular, soluçando e caindo de joelhos.

— Oh… meu Deus… me ajuda… — murmurei entre soluços pesados. Quando me recompus o suficiente, peguei o celular e chamei a polícia.

Eles chegaram logo em seguida e foram direto pro porão. Isolaram o cômodo e examinaram tudo por um tempo que pareceu uma eternidade. De vez em quando eu via alguns policiais entrando e saindo do cômodo enquanto eu ficava do lado de fora. Toda vez que saíam, dava pra ver que eles também estavam profundamente perturbados com o que tinham visto.

Tiraram minha mãe numa maca, mas ela já estava morta fazia tempo. Juntei quase todo o meu dinheiro pra cremá-la e coloquei o vaso com as cinzas na prateleira da minha cabeceira.

Já se passaram 7 meses desde o ocorrido. Me joguei de cabeça no trabalho, pegando todo turno que aparece. Juntei dinheiro pra me mudar pra um prédio diferente, a alguns quarteirões dali — simplesmente não conseguia ficar no mesmo lugar.

Um dia voltei do trabalho e me joguei no sofá, decidindo escrever essa história toda, só pra tirar esse peso do peito. Dizem que é terapêutico, então resolvi tentar. Estava na metade quando ouvi uma batida na porta. Olhei pelo olho mágico e não vi nada, então abri a porta e vi uma carta no chão.

Eu devia ter mais juízo, devia ter deixado pra lá e me mudado de novo, mas não fiz isso. Fiquei tanto tempo sem nenhum tipo de incidente que baixei a guarda. Peguei a carta e fechei a porta.

No envelope estava escrito "Para o Trevion". Isso parecia normal, mas o que me desestabilizou foi que a caligrafia era idêntica à da minha mãe — letra por letra. Abri a carta, a curiosidade me consumindo enquanto rasgava o lacre e tirava duas fotos. Uma delas era de uma cruz de madeira com uma placa escrita "Iesus Nazarenus, Rex Iudaeorum". Virar a foto revelava mais um texto, simplesmente: "Para você". A segunda foto era da minha porta da frente, como se tivesse sido tirada a alguns centímetros dela, com o número do meu apartamento enquadrado na imagem.

Tranquei as portas e chamei a polícia, mas não sei se vai adiantar. Se alguém vir isso e estiver perto da Lake Shore Drive em Chicago, me salva, por favor. Meu número de apartamento é 137. Não tenho muito tempo. Por favor.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon