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segunda-feira, 16 de março de 2026

Cartas

As coisas não têm sido nada fáceis ultimamente. Gastei uma grana absurda num diploma universitário que me levou a um beco sem saída — um trampo de salário mínimo e uma montanha de dívida estudantil — e agora estou morando num apartamento uma merda com um senhorio que todo mundo odeia. Mas minha mãe nunca criou um covarde, então eu persisto, na esperança de que as coisas melhorem. Ela era a única que acreditava que eu ia conseguir, que tudo ia melhorar, e até hoje ela nunca me levou pelo caminho errado.

O dia começou igual a qualquer outro — saí da cama de mau humor, vesti o uniforme do McDonald's e comi uma tigela refrescante de Cheerios puro (o café da manhã dos campeões, sem dúvida), antes de ir pro trabalho. Não tem muita coisa pra contar sobre o dia de serviço: virei alguns hambúrgueres, peguei alguns pedidos e aguentei uns clientes chatos. Mas eu vi uma cliente grossa tropeçar e derramar a bebida dela no estacionamento. Isso me arrancou um sorriso. Depois de um dia exaustivo e sem graça, voltei pro meu apartamento. Quando entrei, vi um pote de rolinhos de canela com um pedacinho de papel escrito "Da Mamãe" com um coraçãozinho desenhado. Ela tinha uma cópia da minha chave, então deve ter passado aqui enquanto eu estava fora. Eu estava destruído e morrendo de fome, então dei uma mordida, sentindo aquele calor de casa e o amor da minha mãe. Me senti um menino de novo, saboreando um docinho e sentindo o abraço dela, e não me envergonho de admitir que chorei ali mesmo, na hora.

Terminei os rolinhos e lavei o pote. De qualquer forma, eu ia visitá-la ainda essa semana, então ia devolver lá. Dei uma última olhada no bilhetinho da minha mãe quando percebi que tinha uma carta do lado. Estranho — devo ter passado batido antes. Peguei e examinei. Não havia nenhum tipo de escrita do lado de fora. Sem "Da Mamãe", sem "Para o Trevion" ou qualquer coisa assim, nem o coraçãozinho que a minha mãe sempre desenha em toda carta que escreve. Talvez eu estivesse exagerando — talvez ela estivesse com pressa.

Resolvi abrir, curioso sobre qual frase inspiracional brega ela tinha escrito dessa vez, mas não havia nenhum bilhete dentro — só uma foto. Uma foto bem estranha. Parecia um porão escuro, iluminado apenas por uma velha lâmpada balançando no teto. No centro da foto havia uma porta de madeira. A imagem era um pouco perturbadora, e meio esquisita pra minha mãe mandar, ainda mais porque o porão dela não tem nada a ver com aquilo. Mas eu estava cansado demais pra pensar nisso, então fui me jogar na cama na esperança de dormir por uma eternidade.

Na manhã seguinte, acordei e saí da cama, seguindo minha rotina normal, até ver outra carta fechada em cima da minha mesa de jantar. A de ontem eu tinha deixado fechada em cima do balcão ao lado do micro-ondas, mas ela tinha sumido. Procurei por todo lado, mas não achei. Olhei de volta pra mesa, fitando a nova carta com curiosidade e uma pontada de pavor. Me aproximei com hesitação, peguei a carta e virei.

"Fique calmo. Deus te aguarda na porta." estava escrito na frente da carta, em letra caprichada. Isso era uma ameaça? Alguém tinha arrombado minha casa e deixado isso aqui? Liguei pro trabalho, expliquei o básico — que eu suspeitava que alguém tinha entrado na minha casa e que não ia aparecer. Não achei necessário mencionar a carta. Minha gerente, coitada, foi muito compreensiva e me deu o dia de folga. Chamei a polícia imediatamente e comecei a vasculhar tudo, tentando achar algum sinal de arrombamento ou se alguém ainda estava ali, mas minha cabeça ficava voltando à curiosidade sobre o que estava dentro da carta. Depois de confirmar que eu estava seguro, por enquanto, meus olhos vagaram pra mesa. Eu sabia que provavelmente não era boa ideia, mas a abri. Em retrospecto, foi uma besteira enorme, mas eu não consegui me controlar. Havia outra foto — dessa vez, a mesma porta do porão escuro, escancarada, revelando apenas escuridão. Fiquei ali sentado encarando a carta, tentando entender tudo aquilo, até a polícia chegar.

Dei meu depoimento enquanto eles vasculhavam a casa. Esperava que encontrassem alguma coisa — qualquer coisa — que pudesse identificar quem teria arrombado o apartamento. Um milhão de perguntas passavam pela minha cabeça enquanto eles investigavam. Quem teria feito isso? Por que eu especificamente? Será que ofendi alguém de alguma forma? Um policial se aproximou e disse que ou o invasor conseguiu esconder qualquer evidência de arrombamento de forma perfeita, ou simplesmente ninguém tinha entrado. O jeito que ele falou parecia que estava irritado comigo por ter desperdiçado o tempo dele. Eles foram embora e eu me joguei no sofá, tentando entender toda essa situação de merda.

A melhor coisa a fazer, pensei, era ligar pra minha mãe. Não sabia o que esperava que ela fizesse, mas achei que ouvir a voz dela me ajudaria a me acalmar um pouco. Com as mãos tremendo, peguei o celular e fui descendo até as informações de contato dela. Não demorou muito — não tinha muitos contatos pra começar. Coloquei o telefone no ouvido e fiquei esperando ela atender. O telefone foi chamando até cair na caixa postal. Não era lá muito surpreendente — minha mãe quase sempre deixava o celular no silencioso porque ele "a distraía de Vampire Diaries" ou alguma outra série dramática vagabunda. Ia tentar de novo quando recebi uma mensagem do número dela. Estranho — ela nunca foi de mandar mensagem, só ligava e escrevia cartas.

Abri o aplicativo de mensagens e li o texto da minha mãe.

"E qualquer um cujo nome não estava escrito no Livro da Vida foi lançado no Lago de Fogo."

Antes mesmo de conseguir processar o que aquilo significava, meus olhos arregalaram de horror e um som sufocado escapou da minha garganta quando recebi uma mensagem em seguida. Era uma foto da minha mãe, amarrada a uma mesa coberta de cortes e hematomas, uma lareira enorme queimando forte atrás dela.

Meu rosto ficou pálido e minha respiração acelerou. Eu precisava fazer alguma coisa — precisava chamar a polícia.

Ouvi uma batida na porta e levei um susto. Corri até a porta, na esperança de que fosse minha mãe. Pelo amor de Deus, que fosse ela. Abri a porta rapidamente e não vi nada. Olhei pros dois lados do corredor, mas não havia ninguém. Só havia mais uma carta no chão. Peguei com hesitação e voltei depressa pra dentro, indo pro sofá. Abri na hora, tirando uma carta manuscrita seguida de uma foto. A foto era do porão escuro de novo, mas dessa vez do chão num canto, em vez das escadas como nas fotos anteriores. Tomei um choque quando vi que era… eu na foto. Eu estava no alto das escadas descendo, claramente sem perceber quem estava tirando a foto. Mas aquilo não fazia sentido algum, já que o único porão onde eu tinha estado era o do próprio prédio, pra lavar roupa, alguns dias atrás.

Foi aí que caiu a ficha como um soco no estômago. Quem tinha sequestrado minha mãe estava aqui, e já estava aqui fazia um tempo. Não me dei nem um segundo pra pensar — saí do quarto correndo, peguei meu taco de beisebol velho e desci direto pro porão. Recebi alguns olhares estranhos no caminho, mas não importava. Minha mãe estava em perigo e eu precisava ajudá-la.

Empurrei a porta com força, encarando o abismo escuro lá embaixo. Toquei no interruptor de luz, mas nada aconteceu. Talvez ele soubesse que eu ia aparecer e tivesse cortado a energia do porão. Liguei a lanterna do celular e desci com cuidado, o taco firme na mão, chamando pela minha mãe.

Cheguei ao último degrau e olhei em volta com a lanterna. Tudo parecia normal, igual às fotos. Algumas máquinas de lavar, uns canos velhos e a porta. Eu sempre achei que fosse um depósito velho dos funcionários de limpeza, mas agora sabia que era algo muito mais sinistro. Corri até a porta e chutei pra abrir.

— Mãe! Você está aí? — gritei no quarto escuro, jogando a luz pra dentro. Era muito maior do que eu tinha imaginado, grande demais pra ser só um depósito de limpeza.

Entrei devagar, o assoalho rangendo levemente a cada passo. Vi a lareira apagada da foto da mensagem. Parecia bem maior do que na foto — como se uma pessoa inteira coubesse ali dentro. Quando me aproximei, vi que quem fez tudo aquilo tinha feito exatamente isso. Havia ossos cobertos de cinzas espalhados por toda a lareira. Muitos braços e pernas, costelas, e o mais arrepiante de tudo: vários crânios humanos, todos enfileirados com capricho. Me estremeci só de imaginar um deles sendo minha mãe. Expulsei o pensamento da cabeça. Ela tinha que estar bem — precisava estar.

Me levantei e caminhei mais fundo naquele cômodo comprido. Outro detalhe que me perturbou foi o quanto tudo estava organizado. Tudo no lugar certo, e não havia uma única teia de aranha em nenhum canto. Vi a mesa onde minha mãe estava presa, mas ela não estava mais lá.

— Merda, merda — murmurei pra mim mesmo enquanto me aproximava da mesa, tentando achar alguma pista ou alguma coisa que me ajudasse a entender o que tinha acontecido ou pra onde ela poderia ter ido. Mas nada — nem uma única gota de sangue em lugar nenhum.

Recuei da mesa, respirando pesado, tentando pensar no que fazer, até ouvir um ronco úmido e baixo mais ao fundo do cômodo. Joguei a lanterna rapidamente pro final do cômodo e vi a cena mais apavorante que já presenciei na vida. Até hoje me mantém acordado à noite enquanto escrevo isso, e acho que nunca vai me largar.

"Não me deixes ser crucificada como meu salvador" estava escrito num papel pregado num cadáver. Minha mãe estava pregada a uma cruz invertida com uma estrela cortada no estômago, sangue escorrendo por ela e cobrindo seu rosto inchado e cheio de hematomas.

Não consegui olhar mais. Saí correndo e não parei até chegar de volta no meu quarto. Bati a porta e dei a chave. Me apoiei contra a porta, respirando pesado e irregular, soluçando e caindo de joelhos.

— Oh… meu Deus… me ajuda… — murmurei entre soluços pesados. Quando me recompus o suficiente, peguei o celular e chamei a polícia.

Eles chegaram logo em seguida e foram direto pro porão. Isolaram o cômodo e examinaram tudo por um tempo que pareceu uma eternidade. De vez em quando eu via alguns policiais entrando e saindo do cômodo enquanto eu ficava do lado de fora. Toda vez que saíam, dava pra ver que eles também estavam profundamente perturbados com o que tinham visto.

Tiraram minha mãe numa maca, mas ela já estava morta fazia tempo. Juntei quase todo o meu dinheiro pra cremá-la e coloquei o vaso com as cinzas na prateleira da minha cabeceira.

Já se passaram 7 meses desde o ocorrido. Me joguei de cabeça no trabalho, pegando todo turno que aparece. Juntei dinheiro pra me mudar pra um prédio diferente, a alguns quarteirões dali — simplesmente não conseguia ficar no mesmo lugar.

Um dia voltei do trabalho e me joguei no sofá, decidindo escrever essa história toda, só pra tirar esse peso do peito. Dizem que é terapêutico, então resolvi tentar. Estava na metade quando ouvi uma batida na porta. Olhei pelo olho mágico e não vi nada, então abri a porta e vi uma carta no chão.

Eu devia ter mais juízo, devia ter deixado pra lá e me mudado de novo, mas não fiz isso. Fiquei tanto tempo sem nenhum tipo de incidente que baixei a guarda. Peguei a carta e fechei a porta.

No envelope estava escrito "Para o Trevion". Isso parecia normal, mas o que me desestabilizou foi que a caligrafia era idêntica à da minha mãe — letra por letra. Abri a carta, a curiosidade me consumindo enquanto rasgava o lacre e tirava duas fotos. Uma delas era de uma cruz de madeira com uma placa escrita "Iesus Nazarenus, Rex Iudaeorum". Virar a foto revelava mais um texto, simplesmente: "Para você". A segunda foto era da minha porta da frente, como se tivesse sido tirada a alguns centímetros dela, com o número do meu apartamento enquadrado na imagem.

Tranquei as portas e chamei a polícia, mas não sei se vai adiantar. Se alguém vir isso e estiver perto da Lake Shore Drive em Chicago, me salva, por favor. Meu número de apartamento é 137. Não tenho muito tempo. Por favor.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Ficar bêbado no trabalho foi uma ideia realmente péssima

Nada é pior do que estar longe de casa em noites de inverno com neblina. Ou pelo menos era o que eu achava. Ser um universitário que largou o curso, beber demais e ainda ficar com dor de cabeça com certeza piorava toda a desgraça. Ah, e eu odiava aqueles chuviscos de monção de inverno. A cada passo que eu dava, minha roupa ficava mais nojenta porque a lama espirrava nas minhas calças. Rajadas de vento gelado cortavam os galhos acima da minha cabeça, me fazendo tremer de frio, junto com aquele barulho de chocalho que as árvores faziam.

Enquanto eu seguia a pé pro meu destino, fiquei lembrando do meu tempo curto na faculdade. Ainda me recordo da última aula que assisti. Era sobre a Gaiola de Faraday. Ah, Sr. Faraday. É impressionante como você conseguiu fazer tanta coisa com os recursos limitados que tinha. Cresceu na pobreza, trabalhou como encadernador de livros e aprendeu tudo só lendo os livros ao redor. Eu tinha esperança de conseguir fazer o mesmo. Mas, infelizmente, a faculdade era cara demais. Agora eu estava preso trabalhando como assistente do meu tio nas investigações particulares dele. Mesmo assim, isso era melhor do que ser garçom ou lavador de pratos. Tinha um pouco de dignidade nisso, embora às vezes eu me sentisse só um menino de recados.

E o recado que eu tinha que fazer naquele dia era coletar informações com os moradores dos Apartamentos Greenville, que ficavam em Providence. Providence era uma parte bem isolada da cidade que, ultimamente, tinha ficado famosa por uma série de desaparecimentos. Meu tio estava trabalhando num caso específico e precisava de algumas informações diretas dos locais.

Tenho que admitir: mesmo se você ignorasse as manchetes sobre Providence, o bairro tinha um ar estranho pra caralho. As casas eram muito espaçadas umas das outras, e só algumas tinham luz acesa. Estranhamente, a mesma coisa acontecia com os postes de rua. A maioria piscava, e alguns nem funcionavam. O bairro inteiro parecia congelado no tempo — indiferente a qualquer progresso material que a cidade tinha feito na última década.

Meu celular vibrou. Era uma ligação do meu tio.

“Você já chegou no prédio?”, ele perguntou.  

“Quase lá.”  

“Ótimo, anda logo. Você já devia ter terminado isso tudo até o meio-dia. Você sabe como as coisas podem ficar feias em bairros desse tipo.”  

“É, eu volto a tempo. Aliás, que tipo de gente eu vou encontrar nesse gueto? Casais falidos, viciados em crack? Ouvi falar que os drogados se enfurnam em lugares assim. E se você tá tão preocupado com esse lugar, me mandar pra cá como parte do meu trabalho me parece uma violação de ética profissional.”  

“Tá bom, meu erro. Só pega os depoimentos das pessoas em Greenville e vaza. Não fica criando caso. Ninguém vai te encher o saco enquanto você ficar na rua principal. Os viciados geralmente ficam longe dela.”  

“É, eu sei. Mas mesmo assim, tem alguma coisa nesse lugar que tá me dando arrepios.”  

“Pô, garoto, é inverno.”

Revirei os olhos pro comentário do meu tio e encerrei a ligação, dizendo que talvez eu estivesse exagerando. Guardei o celular no bolso porque a bateria já estava quase no fim e eu queria guardar o que restava pra alguma ligação de emergência caso essa sessão de perguntas desse merda.

Continuei andando pela rua detonada até que um prédio caindo aos pedaços apareceu na minha frente, com a sombra cobrindo metade da rua. As janelas batiam com força no vento, e entre as vidraças escuras, só a do quinto andar tinha luz acesa. A placa no portão aberto de par em par dizia “Greenville”. Entrei e vi que a recepção estava vazia. Gritei chamando o segurança, mas não veio resposta nenhuma. Andei devagar pro corredor, pensando no estado deplorável do prédio. Dentro tinha uma fileira de quartos com portas trancadas. No final do corredor ficava a porta enferrujada do elevador. Tinha uma marca de amassado pra fora. Parecia que alguma coisa tinha batido com força de dentro pra fora.

“Devem ter sido uns golpes bem fortes”, murmurei pra mim mesmo e me arrependi de ter bebido tanto, porque parte do meu cérebro começou a ver o formato do amassado como um rosto em agonia.

Afastando esses pensamentos loucos e sem fundamento, apertei o botão de SUBIR e a porta de metal abriu. O elevador era apertado pra caralho, nem cabia direito uma pessoa. Do lado oposto da porta tinha um espelho sujo e rachado que ia até o teto. “Parece que ninguém se preocupa mais em limpar aqui. Foda-se. Só preciso acabar logo com isso.” Apertei o botão do quinto andar pra ver quem morava lá. A luz do elevador piscava enquanto ele lutava pra subir com meu peso. Parou com um tranco, a grade abriu e eu respirei aliviado ao sair daquela porra de caixão de metal sufocante.

Surpreendentemente, os quartos desse andar não tinham trancas nas portas. Examinei o corredor procurando quartos com gente. Bati em todos, mas ninguém respondeu, até chegar na porta mais afastada do elevador. Assim que meu nó do dedo encostou, a porta abriu sozinha de par em par. Meu nariz foi invadido por um fedor podre que vinha de dentro do quarto. Cheirava a coisa morta e me obrigou a tirar o lenço do bolso pra cobrir o nariz. Quando entrei, um mal-estar tomou conta de mim e eu senti que estava invadindo território hostil. O quarto estava completamente escuro e eu tropeçava nos móveis tentando encontrar quem morava naquele buraco negro de podridão. Quando saí das teorias malucas que minha cabeça estava criando, percebi um rangido contínuo vindo do fundo do corredor. Fui andando devagar, com passos hesitantes e leves, respirando o mais devagar possível, já que eu já estava morrendo de medo.

Entrei num quarto novo onde o fedor horrível estava no auge. Vi que o rangido sinistro vinha de uma cadeira de balanço perto de uma janela de vidro meio aberta, com uma figura sombria sentada nela. Chamei com relutância, mas não tive resposta. A curiosidade venceu e decidi usar a lanterna do celular pra ver quem estava sentado do outro lado do quarto. Exatamente quando estiquei a mão pro celular, um raio caiu no chão lá fora. O clarão atravessou as vidraças e iluminou o quarto inteiro por um segundo. Meu coração parou naquele exato momento quando vi um rosto grotesco olhando direto pra mim. Era uma visão nojenta de carne podre toda retorcida num formato que mal lembrava um rosto. Dei um grito e juntei toda a força que eu tinha pra correr pra saída. Enquanto eu me debatia no corredor escuro, ouvi um rugido atrás de mim, forte como um trovão, que me deu um calafrio na espinha. “Será que aquela aberração me viu? Tá me perseguindo? Ou só chamou por mim?” Eu não sabia de porra nenhuma. Minha cabeça e meu coração estavam disparados. Meu único objetivo era sair vivo daquele prédio.

De alguma forma cheguei no elevador e fiquei apertando o botão de DESCER sem parar, ofegando. Assim que a porta abriu, eu pulei dentro daquela merda de caixão de metal. Fiquei apertando o botão do Térreo, mas não registrava. Nenhum outro botão funcionava também. No final, admitindo a derrota, apertei o botão do estacionamento subterrâneo e ele funcionou. A porta de metal finalmente fechou e a descida começou. Peguei o celular e liguei pro meu tio. Contei tudo de qualquer jeito, mas, estranhamente, não ouvi nada do lado dele. Nem um som. “Eu tô fodido?”

A porta do elevador abriu e eu caí pra fora, me vendo no meio do estacionamento abandonado. Mesmo longe daquela coisa, ainda achei melhor ficar o mais quieto possível. Enquanto eu andava na ponta dos pés em direção à escada, notei alguma coisa. Estava agachada nas quatro patas. Pálida. Careca. Pelada. Não parecia humana de jeito nenhum. Segurei o grito que quase escapou. Me movi com o máximo de cuidado e subi as escadas — por sorte eram de concreto, não de madeira, senão o barulho teria alertado a criatura. Quando cheguei na entrada do prédio, saí correndo em disparada e corri o mais rápido que consegui até meu peito começar a doer.

Meus pulmões queimavam. Minha visão embaçou. Caí no chão gelado da calçada. Tudo ficou preto. Quando finalmente abri os olhos, meu tio estava em pé em cima de mim. Ele me contou que, quando eu liguei, não ouviu nada do meu lado, mas sentiu que alguma coisa estava errada. Trouxe uma ambulância e a polícia junto. Eles me disseram que a aberração que eu vi no quinto andar era só o cadáver de uma velha que morava naquele quarto. Ela não tinha parentes conhecidos e, depois que morreu, ninguém soube. O corpo tinha ficado lá apodrecendo por semanas. Explicaram que o rugido que eu ouvi foi só o trovão que veio depois do raio que iluminou o quarto. E que encontraram outro cadáver no estacionamento subterrâneo que tinha sido roído por cães. A carne tinha sido mastigada fora das duas palmas das mãos.

O que eles não me contaram foi sobre a criatura no subsolo. Perguntei sobre ela e eles disseram que provavelmente era fruto da minha imaginação bêbada. Encontraram marcas de mãos no chão do estacionamento. Mas se aquelas marcas eram da vítima ou do agressor, não dava pra saber porque não tinha outras pra comparar.

Desisti do trabalho do meu tio. Preciso ficar longe de prédios abandonados, elevadores e subsolos. Já vejo eles nos meus sonhos. E vejo Ele também. Vejo ele virando pra mim, com um sorriso malicioso grudado num rosto deformado. Sibilando e rosnando, ele vem andando devagar na minha direção. Por sorte, eu acordo antes que qualquer coisa aconteça. Mas esses sonhos malditos estão durando cada vez mais, e algumas noites eu fico apavorado demais pra dormir.

Estou apavorado só de pensar no que um sonho prolongado pode guardar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

À Beira do Abismo: O Pesadelo com a Substância

Não faz muito tempo que consegui um pouco de MDMA para mim e para a minha ex-namorada. Era nossa primeira vez experimentando essa substância. Nosso plano era apenas relaxar juntos, ter uma noite tranquila e agradável.

Porém, cerca de uma semana antes, ela decidiu não participar. Disse que não queria envolver-se com drogas mais pesadas. Respeitei sua decisão, mas, mesmo assim, decidi seguir em frente. Tomei a dose pouco antes de ela chegar em casa. O vendedor foi bem claro: tomar apenas um quarto. Mas eu, na minha ignorância, tomei metade.

Trinta minutos depois, minha ex chegou. Eu ainda não sentia quase nada. Quinze minutos depois, tudo mudou: estava hiperativo, alerta e o mundo parecia mais vibrante, mais claro. Pensei que tudo estava perfeito.

Então, em vez de continuar subindo, veio a queda. Um cansaço intenso e pegajoso me engoliu. Sentia-me esgotado, como se tivesse sugado minha alma. Parecia mais o efeito de um opioide do que qualquer outra coisa. O MDMA deveria despertar o desejo, deixar o corpo em chamas. Mas o meu simplesmente apagou. Não consegui fazer absolutamente nada com ela.

Acabamos apenas assistindo a um filme, imóveis, por uns vinte minutos - pelo menos acho que foram vinte. O tempo se tornou algo pegajoso, escorregadio, impossível de medir. Mal conseguia acompanhar o ponteiro do relógio.

Foi quando comecei a desmaiar. Meus olhos pesavam como chumbo. Adormeci lentamente, com os braços erguidos até o rosto, as mãos curvadas numa posição grotesca. A única coisa que lembro é acordar de sobressalto dizendo "não está batendo" e engolir o resto de MDMA.

Depois disso, devo ter desmaiado novamente. Quando abri os olhos, já era noite fechada. Meu maxilar estava travado como se tivesse sido soldado com ferro, o suor escorria frio pelo meu corpo e um pânico selvagem me rasgou por dentro. No fundo da minha mente, sabia exatamente o que tinha feito.

Tentei vomitar. Nada saiu. Mal sentia as mãos. Enfiei os dedos garganta abaixo e quase não senti nada - como se o corpo já não me pertencesse mais.

Corri desesperado para o quarto da minha mãe. Devia ser umas oito da noite, talvez um pouco mais. Minha ex, ao ver o estado em que eu estava, simplesmente desapareceu. Contei tudo para minha mãe. Ela, Deus a abençoe, reagiu com uma calma que ainda me assusta.

E então o verdadeiro pesadelo começou.

Entrei num estado de hiperatividade selvagem. Não conseguia descruzar os braços. Minha cabeça rolava para trás sozinha, como se uma força invisível a puxasse. Falei coisas profundamente íntimas para minha mãe - segredos que nem eu mesmo lembrava ter guardado. A única frase que ficou gravada foi quando revelei, sem hesitar, onde escondia meus cogumelos mágicos. Falava num ritmo insano, gaguejando quase todas as palavras, a língua tropeçando na própria velocidade.

Não lembro quase nada desse período. Quando voltei a mim, uma hora e meia havia se passado - e para mim pareceram apenas cinco minutos. Foi aí que percebi: eu tinha estragado tudo.

Aos poucos o corpo foi voltando ao normal. Minha mãe foi dormir e me pediu para fazer o mesmo. Não obedeci. Fumei quatro doses seguidas e saí para caminhar, tentando acalmar a tempestade que ainda rugia dentro de mim.

Foi quando vi o homem. Jaqueta azul, calça de moletom preta. Não tinha rosto - apenas um vazio negro, um buraco sem fim onde deveria haver olhos, boca, vida. Ele estava parado, olhando diretamente para mim. Quando me aproximei, tremendo, era apenas um poste solitário à beira da rua.

Voltei correndo para casa. Ao girar a chave na fechadura, uma velha pulou em cima de mim, as mãos estendidas como garras. Foi nesse momento que a realidade me atingiu: eu estava alucinando demais, muito além do suportável.

Entrei no quarto. Havia uma grande mancha negra sobre a minha cama. Uma coisa viva, respirando devagar, pulsando. Percebi que era uma ilusão. Só precisava dormir. Me preparei para deitar, mas tomei cuidado para nunca olhar para o espelho enquanto escovava os dentes e lavava o rosto - olhava fixamente para o chão, como se o reflexo pudesse me engolir.

Deitei-me. As vozes surgiram quase imediatamente. A cama se mexia sozinha, rangendo. Alguém estava deitado bem ao meu lado, respirando quente e úmido contra meu rosto. Em certo momento, dedos frios e longos deslizaram devagar pelo meu cabelo, acariciando minha cabeça com uma intimidade doentia, possessiva.

De alguma forma, contra todas as probabilidades, consegui dormir.

Acordei na manhã seguinte arrasado. A ressaca foi brutal, impiedosa. Abri os olhos já chorando histericamente, soluçando sobre minha namorada ter ido embora, sobre ela não se importar, sobre um monte de outras besteiras que eu mesmo havia plantado e agora colhia em forma de facadas no peito.

Ainda tinha uma entrevista de emprego marcada para aquela mesma manhã. Fui assim mesmo. Mal conseguia articular as palavras. Estraguei tudo.

Minha ex tirou fotos minhas durante o "rolê". Nas fotos, apareço deitado na cama, completamente apagado, braços esticados para trás numa posição bizarra, como se estivesse em plena overdose.

Meu coração doeu fisicamente por quase duas semanas depois disso. Batia irregularmente, como se quisesse lembrar a cada segundo o quanto esteve perto de parar.

Só consigo agradecer por ainda estar aqui, vivo. Mas, sinceramente, não sei direito o que aconteceu naquela noite. Mal consigo lembrar pedaços. É como se parte de mim tivesse ficado presa lá, nas sombras.

Agora é fevereiro de 2026. Tudo isso aconteceu em março de 2025. Sinto que não aprendi a lição como deveria, porque depois disso fiquei ainda mais obcecado por substâncias. Comecei a usar muita cocaína, a brincar com Xanax e me tornei meio alcoólatra em muito pouco tempo. Aos vinte anos, já sei mais sobre drogas do que qualquer pessoa deveria saber. Mas é o que é.

Tudo faz parte da vida... ou da morte que quase me arrastou para o outro lado.

Acabei de assistir a um vídeo na antiga filmadora do meu pai. Nunca deveria ter retornado para a casa da minha infância, trazendo junto minha esposa e meu filho

Minha esposa, Melissa, e meu filho, Sean, estão arrumando as malas enquanto eu escrevo isso. Eles acham que eu estou ficando louco, e eu vou deixar que continuem a acreditar nisso, porque de maneira alguma eu vou deixar que eles assistam a esse vídeo. Claro, não sei se isso vai protegê-los do que eu acabei de ver no vídeo... e além dele.

Meu pai se matou no dia do meu sétimo aniversário, por isso existem vazios na minha memória; na verdade, ela só voltou a funcionar corretamente depois que eu saí daquela casa. Disseram-me que isso é normal. Disseram-me que a tempestade ensurdecedora que ruge incessantemente dentro da minha cabeça é apenas um mecanismo de defesa contra o trauma. Disseram-me que as lembranças não desapareceram de verdade - elas estão apenas trancadas pela minha própria mente.

Acho que a fita acabou de arrombar essa fechadura.

Minha mãe morreu no ano passado e me deixou a casa da família. Sean estava animado para morar na antiga casa da avó, talvez para segurar o último pedaço dela que ainda restava. Eu concordei. Porque eu não sabia das coisas que estavam naquela fita.

Ou porque eu havia esquecido.

Estamos aqui há apenas algumas semanas. Hoje eu estava no sótão, ainda separando as coisas antigas da minha mãe em pilhas de "vender" e "guardar", quando encontrei a velha filmadora da família. Eu a liguei e fiquei abismado ao vê-la funcionar, depois de quase trinta anos parada.

O vídeo começava em 1995, no meu sexto aniversário. Onze amigos estavam reunidos em volta da mesa da cozinha, babando por um bolo com "Feliz Aniversário, Philip" escrito em glacê. Minha mãe estava filmando enquanto meu pai cortava o bolo e...

Acho que a câmera estava quebrada, afinal.

Foi o primeiro pensamento que tive, porque, espiando por trás do meu pai, repetindo cada movimento dele enquanto ele cortava o bolo, havia um segundo pai.

Parecia que ele estava diante de um espelho infinito, com um reflexo dele se projetando para a esquerda e para trás. Imaginei que poderia haver um terceiro pai, um quarto, e assim por diante... mas eram apenas dois: um atrás do outro. O efeito de duplicação tinha que ser um defeito; afinal, a câmera passou décadas dentro de uma caixa de papelão, cobrindo-se de poeira enquanto as partes internas enferrujavam.

Mas quando foquei no rosto do clone, percebi que não era uma cópia exata. Os membros do clone se moviam em sincronia com os do meu pai, mas o rosto daquele fantoche era completamente diferente. Estava amassado, e não de um jeito humano - parecia papel amassado; as dobras da carne eram pesadas demais, antinaturais, francamente impossíveis. Todos os traços faciais estavam soterrados, exceto os lábios, que tremiam de raiva. O segundo pai estava distorcido, nada parecido consigo mesmo, mas havia definição e clareza demais naquele rosto para ser apenas um erro de gravação.

Meus próprios membros ficaram pesados, como se estivessem ganhando dobras próprias, e o medo me prendeu ao carpete do corredor. Fiquei paralisado ali, incapaz de fazer qualquer coisa além de continuar assistindo.

A gravação pulou para dezembro. Eu estava sentado ao pé da árvore de Natal, de macacãozinho vermelho com desenhos de renas, abrindo presentes com meu irmão mais novo. Meu coração saltou para a garganta quando algo se mexeu entre os pinheiros, mas o eu de seis anos estava alheio; estava muito encantado com os presentes para notar uma manga vermelha com renas - idêntica à dele - estendendo-se em sua direção entre os galhos. Aquilo queria se prender a mim, exatamente como a cópia do meu pai havia se prendido a ele.

"O que é iss—" ouvi minha mãe começar a dizer por trás da câmera.

Quando a gravação avançou, meu coração não desceu; estava batendo na minha língua e dentro dos meus ouvidos. Era 1996. Eu estava sentado em uma mesa de piquenique no parque com meus pais, a câmera apoiada em algo na mesa, filmando nós três. Eu me lembrava disso. Por que eu me lembrava exatamente disso, se eu não me lembrava de mais nada da minha infância?

Meu pai estava estranho. Só havia um dele dessa vez, mas ele estava tão pálido. Parecia doente. O pequeno Philip estava ocupado demais comendo o sanduíche para notar, mas minha mãe parecia nervosa. Ela sabia que havia algo errado com ele.

Ela tentou disfarçar, é claro, sorrindo sem convicção para nós dois. "É o sétimo aniversário do Philip." Meu Deus. "Diga algo engraçado para a câmera, papai."

Ele olhou diretamente para a lente, quase como se estivesse vendo o eu de hoje, trinta anos no futuro. Mas ele não disse nada. O sorriso da minha mãe vacilou; ela se recostou no banco e olhou atrás do meu pai, como se procurasse algo; aquilo que costumava se esconder atrás dele, talvez. Aquele segundo rosto.

"Você está bem?", ela perguntou baixinho. "Você disse que ia melhorar se saíssemos de casa. Você disse que ia voltar a ser... você mesmo."

Meu pai agiu tão rápido que quase deixei a câmera cair de susto. Ele enrolou as mãos no pescoço da minha mãe e eu gritei - tanto no presente quanto no passado.

De trás de uma árvore próxima, disparou um braço de manga curta, idêntico ao que o pequeno Philip usava. Era a coisa da árvore de Natal. A mão clonada passou o indicador pelo ar e conduziu o meu eu mais novo a enxugar os olhos e ficar quieto. Ele obedeceu, tornando-se tão frio e vazio quanto o papai que estava estrangulando a mamãe. Mas momentos antes de a vida deixar completamente o corpo dela, meu pai parou, como se uma nova vontade o tivesse hipnotizado.

Eu sei por que me lembro disso.

Ele se levantou. Minha mãe estendeu os braços quase sem força e puxou o eu criança para si. Então meu pai remexeu na cesta de piquenique e pegou uma faca de cozinha que provavelmente trouxera para cortar o bolo. Ele não a usou na torta. Nem na mamãe. Nem no pequeno Philip.

Ele levou a lâmina ao próprio pescoço.

Eu deixei a câmera cair. Um peso desabou sobre meus ombros, braços, costas e pernas - mas não era um peso que você pode sacudir. Mesmo me levantando, sentia algo me puxando de volta para baixo. Algo que estava à espreita logo atrás do meu ombro desde que trouxe Melissa e Sean para a casa da minha infância. Algo que eu havia esquecido daqueles dias enevoados da infância, antes de ir embora.

Antes de ir embora.

Percebi tarde demais que minha família não estava segura ali. Virei-me para o espelho pendurado na parede atrás de mim e olhei, como meu pai havia olhado, para o começo do infinito; logo atrás do meu ombro direito, ali estava uma cópia de mim com o rosto amassado. Eu não me lembrava de aquilo nunca ter grudado tão pesado em mim antes... mas, claro, eu não me lembrava de quase nada da minha juventude.

Abri a boca para gritar, mas a mão da coisa cobriu meus lábios e senti uma dor escaldante quando o Segundo Philip pressionou sua pele de argila contra a minha, tentando se fundir a mim.

Eu puxei aquela mão e gritei, tropeçando pelo corredor de cima justo quando Sean apareceu no pé da escada. Num instante, o clone de mim desapareceu. Mas eu vi o que vi nos olhos do meu menino de dez anos: puro terror. Ele deve ter vislumbrado, talvez por menos de um segundo, algo atrás do meu ombro.

"Pai... O que foi..."

"Arrumem as coisas", interrompi, com a metade inferior do rosto ainda queimando do aperto daquela coisa. "AGORA."

E aqui estamos. Estou parado na porta da frente, um pé já do lado de fora, apressando minha família. Mal consigo respirar. Precisamos sair.

Minha esposa não para de perguntar sobre as queimaduras de segundo grau em volta da minha boca, mas não há como explicar. Meu menino só fica me olhando com aqueles olhos assombrados. Só preciso tirá-los daqui. Espero que aquela coisa se solte de mim assim que estivermos longe o suficiente, como aconteceu quando eu era menino e fui embora; minha cabeça vai clarear e isso vai acabar.

Eu não vou acabar como meu pai.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Vi Dois Cachorros de Rua na Floresta Hoje

Eu estava fazendo uma trilha na minha mata favorita, cheia de árvores caducifólias e coníferas, criando uma paleta de cores que agradava tanto minha mente quanto minha alma. Admirava as folhas outonais quando um movimento chamou minha atenção para a trilha à minha frente. Olhei e vi dois cachorros de rua me encarando, a uns cem metros de distância. Um era branco, o outro marrom, mas não dava pra identificar a raça daquela distância. Me aproximei devagar, com jeitinho, tentando despertar neles aquele lado domesticado... mas os dois saíram trotando pela trilha e sumiram do outro lado de uma elevação. Acelerei o passo e fui atrás deles. Um vento fresco soprava em meu rosto e agitava meu cabelo. Raios de sol atravessavam os galhos quase nus e batiam direto nos meus olhos. O sol já se punha. “Talvez eu deva ligar pro controle de animais”, pensei na hora. Se eu tivesse feito isso, com certeza não estaria escrevendo isto agora.

Passei por cima da elevação e vi os dois cachorros de novo — mais perto dessa vez, lá embaixo na trilha. Vislumbrei-os por um instante antes que desaparecessem do caminho, entrando no mato. Apesar de só ter visto as costas deles fugindo, foi tempo suficiente pra reconhecer a raça... e pra ver sangue grudado no pelo deles. Eram dois buldogues grandes. Mesmo assim, achei que conseguiria levá-los de volta pro meu carro sem muito esforço. Dei uma olhada nos raios oblíquos do sol que iluminavam o chão da floresta e decidi arriscar. “Conheço essas matas”, pensei comigo mesmo. Só que eu não conhecia aquelas matas — nem o que havia nelas — tão bem quanto imaginava.

Seguindo os cachorros, percebi que não seriam difíceis de rastrear: sangue pingava deles, manchava galhos baixos e caía sobre a camada de folhas secas. Tinha que me apressar. Era sangue demais pra andar devagar. Segui a trilha por alguns minutos até encontrar o cachorro mais escuro. Graças a Deus, ele tinha se deitado num emaranhado de arbustos e ofegava pesadamente. Me aproximei com calma, fazendo sons suaves pra acalmá-lo. Daquele ângulo, vi logo que o sangue não era dele — mas cobria todo o corpo dele. Peguei minha garrafa d’água, e, como ele me deixou chegar mais perto, pinguei um pouco na focinha dele. Ele lambeu com avidez. Derramei um pouco mais, e ele bebeu no ar, lambendo cada gota. Dei a ele metade do que ainda restava na garrafa, depois me agachei e afaguei sua cabeça. Seus olhos cansados e tristes disseram mais do que qualquer conversa que já tive com uma pessoa de verdade. Disseram que ele estava exausto, desgastado. Disseram que estava farto de correr... e grato por esse descanso. Mas também disseram que estava preocupado — preocupado com o amigo lá fora — e queria que eu fosse procurá-lo. Rasguei um pedaço do punho da minha camisa vermelha e amarrei nas ramas logo acima dele. Não esperava que ele fugisse.

Continuei seguindo o rastro de sangue sob a luz que se apagava. Caminhei por muito tempo — tempo demais, se o cachorro que perdia aquela quantidade absurda de sangue ainda estivesse vivo. Quase desisti. Pensei em cortar minhas perdas e ficar satisfeito por ter achado ao menos um dos cachorros... quando um som estranho chamou minha atenção. Liguei a lanterna do celular e forcei a vista na escuridão. Fiquei ouvindo, esperando ouvir aquele chamado de novo... mas não veio nada. Um silêncio absoluto preenchia os espaços entre as árvores que iam escurecendo. Troncos outrora acolhedores tinham virado colunas sustentando um teto negro que me engolia — e engolia toda a floresta junto comigo. Foi então que ouvi o outro cachorro ganir.

Comecei a me mover na direção do som, e o ganido foi ficando mais alto, mais urgente. Quanto mais perto eu chegava, pior soava — como se a garganta dele estivesse cheia de líquido. Quase pisei no coitado, porque ele tinha se escondido tão bem. Afastei os galhos espinhosos ao redor dele e me ajoelhei. Ele nem sequer reagiu à minha presença. Mal podia acreditar que ainda estivesse vivo. Suas costas eram tiras de carne, filets rasgados pendurados na espinha, expondo os ossos ao ar gelado. Dava pra ver os músculos das costas dele tremendo. Sangue — e outros cortes menores — cobriam todo o corpo. Embaixo dele, as folhas onde repousava estavam encharcadas, formando uma poça vermelha. Toquei-o com delicadeza, e ele continuou sem reação. Coloquei minhas duas mãos nas partes da carne com menos feridas e empurrei, virando-o de lado. Foi aí que vi uma abertura cavernosa na barriga dele. Arfei, reconhecendo os pontos rompidos de uma cirurgia anterior. “Como você veio parar aqui?”

Ouvi aquele chamado estranho de novo — agora mais perto. Tentei levantar o pobre animal do chão, mas ele estava escorregadio demais... e aquele barulho continuava se aproximando, cada vez mais, e eu mal conseguia enxergar! Tentei de tudo pra agarrar aquela criatura inocente e levá-la embora, pelo menos pra dar um enterro decente. Soltei meu fraco aperto, e seus membros caíram de volta no chão frio. O guincho agora era ensurdecedor — não devia estar a mais de seis metros de distância. Me levantei, ergui a lanterna e tentei vislumbrar o que diabos poderia estar fazendo aquele som.

Na borda do feixe de luz, havia a sugestão de uma forma. Forcei a vista, tentando percebê-la, definir qualquer contorno significativo... mas não consegui. E não era por causa da escuridão. Era porque aquela coisa não tinha traços discerníveis. À medida que se aproximava, tudo o que eu via era uma forma longa e tubular, segmentada como uma lagarta gigante e grotesca, peluda, com pelos finos e afiados cobrindo as costas e a barriga. Avançava em minha direção, com olhos negros enormes refletindo minha própria luz de volta pra mim. Guinchou de novo — um som tão alto que me deixou tonto — e revelou dentes absurdamente longos e afiados, como milhares de palitos de madeira saindo de suas gengivas verdes e nojentas. Me preparei quando a criatura ergueu a metade dianteira no ar, pronta pra saltar...

Mas, naquele exato momento, nós dois ouvimos um latido fraco, patético.

Ela me esqueceu na hora e se moveu muito mais rápido do que eu esperava. Correu entre as árvores e os arbustos com uma agilidade assustadora, deslocando aquele corpo bulboso com tanta velocidade que parecia vibrar. Saí correndo atrás dela, desviando de galhos baixos, pulando moitas e emaranhados, arrebentando através de espinheiros. Nesse instante, a luz da lua cheia irrompeu pelas nuvens, banhando a floresta com um brilho pálido e frio. Dava pra ver a besta correndo ao meu lado. Seus movimentos ridículos quase pareciam cômicos naquela penumbra. O cachorro latiu de novo, desviando o rumo do monstro — e o meu também. Agora ela vinha mais perto de mim enquanto corríamos. Estávamos quase lado a lado, ambos correndo em direção ao mesmo objetivo: chegar primeiro ao cachorro.

Tentei pensar no que fazer — qualquer coisa que impedisse aquela coisa de machucar e matar outro animal inocente. Olhei à frente e agradeci às estrelas ao ver minha solução: um galho grosso de carvalho tinha caído de uma altura imensa e se enterrado pela metade no chão, deixando a outra ponta — lascada e afiada — inclinada precariamente na nossa direção. Bem antes do galho, me joguei contra aquele verme gigante no meio do movimento, batendo meu ombro com força naquela carne mole. Desviei sua trajetória, e o próprio impulso dela a lançou direto contra aquela lança de madeira. A carne da besta cedeu como papel higiênico molhado. Um líquido viscoso — rosa, verde e roxo — jorrou da ferida e da boca dela, junto com vísceras. Ela uivou de dor, tão alto que quase me arrependi de ter causado aquilo. Mas aproveitei a chance.

Continuei correndo em direção ao outro buldogue. Iluminei os arredores com a lanterna e encontrei o pedaço de pano vermelho que eu tinha deixado — e, embaixo dele, o docinho de cachorro. Seus olhos diziam que ficaram felizes em me ver. Sorri com compaixão e, com o máximo de delicadeza possível, levantei-o nos braços.

Barulhos úmidos e quentes interromperam nossa fuga. Sob a tênue luz da lua, aquele verme gigante voltou, espalhando seu sangue multicolorido e suas entranhas por todo o chão abaixo dele. As feridas eram fatais, mas ele insistia, resistindo à morte até o último suspiro. Endireitei os ombros na direção dele, e ele parou. Por um instante fugaz, ficamos nos encarando. Me perguntei o que diabos era aquilo, de onde tinha vindo e por que raios queria machucar cachorros. Ergueu sua forma grotesca no ar e inspirou fundo pra soltar seu último grito. Berrou um guincho ensurdecedor que reverberou entre as árvores, fazendo os troncos tremerem, soltando as últimas folhas e fazendo meus ossos vibrarem dentro do meu corpo machucado. Fiquei firme e reuni todo o ar e força que consegui. Gritei de volta, berrei com toda a potência dos meus pulmões, permitindo-me mergulhar no primordial. Gritei pra aquela coisa com toda a raiva e desespero que meus ancestrais me legaram. Quando meu fôlego acabou e minha visão turvou, meu grito cessou. A criatura imensa recuou lentamente, arrastando sua carne fedorenta de volta para as trevas. Não fiquei pra ver ela ir embora.

Agora estou na sala de espera do hospital veterinário, enquanto cuidam do cachorro. Acabei de contar a eles que um animal selvagem nos atacou durante a caminhada — e isso pareceu satisfazer a curiosidade deles. Disseram que ele vai ficar bem; não levou tantos ferimentos quanto o amigo. Mal posso esperar pra brincar com ele e levá-lo pra passear... lá no quarteirão.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ser pai não deveria terminar assim...

É difícil explicar pra quem não tem filhos como o amor que você sente pelo seu filho é diferente de qualquer outra emoção. Como, lá no fundo do seu estômago, você sabe que morreria por ele, que sacrificaria qualquer coisa — e qualquer um. Até uns dias atrás, eu nunca tinha parado pra pensar nas consequências de sentimentos desse tipo.

— Você não devia acordá-lo — disse minha esposa da cama.  

Na verdade, eu não ia acordar meu filho. Eu sabia — de onde, não sei — que você não acorda alguém que está sonâmbulo.

Eram 3 da manhã. Sullivan, nosso filho, estava parado feito uma estátua na porta do nosso quarto, uma espécie de manequim infantil vestindo pijama de beisebol. Quanto tempo ele já estava ali, eu não fazia ideia — só sei que, quando me levantei pra fazer minha visita noturna ao banheiro, lá estava ele. Silencioso. Na soleira da porta. Observando.

— Tá tudo bem, campeão? — sussurrei, passando a mão na frente dos olhos dele. Ele nem piscou, nem pareceu enxergar nada. Coloquei a mão no ombro dele pra guiá-lo de volta à cama quando a voz de Penelope me interrompeu:  

— Você acha mesmo que ele devia dormir com aquilo pendurado no pescoço? Pode se enforcar.

Aquela “coisa” era o pingente que eu tinha comprado pro meu filho mais cedo naquele dia.

Sully tinha uma peneira importante de beisebol na sexta-feira, pra ver se entrava no time da escola. Já era um garoto ansioso por natureza, e nos últimos sete dias virou um novelo de nervos. Então, quando esbarrei naquele pingente com trevo de quatro folhas na barraca lá fora da feira de quarta-feira, achei que tinha ganhado na loteria da paternidade. Beisebol é um esporte cheio de superstição — algo que Sully já tinha percebido.

— Ele disse que o pingente o faz se sentir com sorte, e a gente precisa de todos os bons pressentimentos que conseguir agora — falei, apontando pro Sully e fazendo uma cara de “tá vendo só?”.

Penelope franziu a testa.  

— Pelo menos a corrente é fina — murmurou, virando-se de lado.

Na manhã seguinte, quinta-feira, Sullivan não lembrou de nada. Durante o café da manhã de sempre — corn flakes e banana —, estava sendo o típico garoto de onze anos. Deixei ele na fila de carros da escola e rezei pra que, como minha pesquisa na internet sugeriu, o sonambulismo fosse só um episódio isolado causado pelo estresse.

Não foi. Naquela noite, foi Pen quem acordou primeiro. Ela me sacudiu (com força demais, na minha opinião) e lá estava Sully: de novo com aquele rosto em branco, mas dessa vez mais perto — aos pés da nossa cama.

Com delicadeza, como a internet orientava, Penelope disse:  

— Tá tudo bem, amor.

Sully, dormindo mas não exatamente, não respondeu.

— Que legal — sussurrou Penelope. — Acho que isso virou rotina agora.  

Tentou soar descontraída, mas eu conheço minha mulher e dava pra ver que ela tava estressada com aquilo. Pra falar a verdade, eu também tava. Não tanto pelo sonambulismo em si, mas mais porque nem eu nem ela conseguimos voltar a dormir fácil depois que a luz acende.

Na manhã seguinte, eu tava exausto; Penelope, ainda mais. Dizem que a juventude é desperdiçada nos jovens. Pois então, o sono também é desperdiçado neles. Nos nossos vinte e poucos anos, a gente não ligava pra dormir. Agora, na meia-idade, poucas coisas importam mais. Uma delas, claro, era o Sully. Tinha chegado a hora de procurar ajuda profissional. Pen disse que ligaria pro pediatra, mas que estaria em audiência o dia todo — será que eu podia marcar? Claro, respondi.

A única pessoa descansada em casa era o meu garoto. Nervoso com a peneira, sim — mas pulava pela casa feito um chihuahua cheio de cafeína. Ficava passando os dedos no pingente que usava por fora da camiseta. Gostei disso. Gostei de imaginar que aquele pingente era a fonte da energia e do bom humor dele.

Depois que deixei Sully na escola e me acomodei no escritório, liguei pro médico dele. A primeira consulta disponível era na segunda de manhã. Disse à atendente que minha esposa estava muito preocupada (desculpa, Pen!). A moça não ligou. “Crianças fazem esse tipo de coisa o tempo todo”, falou. Nada do que eu contei soou alarmante pra ela.

Quando fui buscar Sully na escola, eu tava mais preocupado com a peneira de beisebol do que com o sonambulismo — e fiquei aliviado ao vê-lo saltitando até o carro. Ele tinha dado um home run! Soltei um grito de comemoração: “Isso aí! Sensacional!”  

O que não foi tão sensacional foi que, em casa, ele ficou ainda mais hiperativo — tipo um chihuahua dopado em Red Bull. Penelope, que teve um dia infernal no tribunal, não tava no seu melhor momento e, por algum motivo, focou de novo no pingente, que Sully nem tirara no banho. Ela queria que ele tirasse aquela droga do pescoço.  
Sully respondeu que foi o pingente que o ajudou a acertar o home run.  

Eu concordei: achei que realmente tinha ajudado.  
E assim, aquela pequena bugiganga — aquele mimo de pai pra filho — virou motivo de discussão.

Pen saiu batendo o pé e foi dormir. Às 22h30, duas horas depois do horário normal de Sully ir pra cama, as luzes do quarto dele estavam apagadas e tudo estava quieto. Quando voltei pro nosso quarto, Pen já tinha acordado de novo, preocupada com o julgamento, preocupada com o nosso filho, e agora preocupada por não estar conseguindo dormir. Pediu que eu desse uma olhada em Sully. Fui lá. Estava totalmente apagado. De volta ao quarto, senti a tensão se dissipar — e, em vinte minutos, os dois estávamos, finalmente, dormindo.

A próxima coisa que lembro é o grito agudo de Penelope.  

Levantei num pulo.  

Sully estava ali, ao lado da cama, com as mãos pousadas no braço da mãe.

É uma sensação horrível sentir arrepios ao ver seu próprio filho. Mas vê-lo ali, com o rosto em branco e as mãos na pele dela, foi assustador.

Não disse nada enquanto repetia o ritual de guiá-lo de volta à cama.

— O pediatra só consegue nos atender na segunda? 

— perguntou Penelope quando voltei.  

O cobertor estava puxado até o pescoço dela.

— Disseram que não tem com o que se preocupar. Que isso é normal.  

Falei com convicção — tanto pra convencer a mim mesmo quanto a ela.

Nenhum dos dois ficou convencido, mas o que mais dava pra dizer? Não pensei em nada… até que pensei.

— Que tal a gente pegar um hotel amanhã à noite? Tipo, umas férias só pra dormir. Uma noite só. Minha irmã pode vir cuidar dele, se estiver livre.

Esperei Pen rebater a ideia, dizer que tava preocupada demais com Sully pra deixá-lo. Em vez disso, ela respondeu:  

— Acho uma ótima ideia.

As coisas começaram a se encaixar, quase como se fosse destino. Minha irmã estava disponível. Contei a ela sobre o sonambulismo, e ela nem se abalou. Sully ficou eufórico só de pensar em passar a noite vendo filmes e comendo porcaria com a tia Summer. Penelope e eu jantamos no nosso restaurante italiano favorito. De sobremesa, pedimos tiramisu — o preferido dela.

Pen adormeceu às sete da noite.

Antes de apagar também, dei uma olhada no celular. 

Tinha uma mensagem da minha irmã:  

“Tudo tranquilo por aqui. Sully deve tá tão cansado quanto vocês — desmaiou antes mesmo da metade de ‘The Sandlot’. Já coloquei ele na cama. Posso abrir aquela garrafa de Turley que você tá guardando?”

Sem hesitar, mandei um joinha.

Em minutos, eu estava tão inconsciente quanto minha esposa e meu filho.

Algum tempo depois, acordei com um clique suave — que agora percebo ter sido o som da porta do hotel se abrindo. Voltei a dormir, só pra despertar de novo segundos depois com o grito de Penelope.

O que vi na penumbra: uma silhueta pequena e escura com o braço erguido. O brilho de metal. Penelope ao meu lado, de costas, uma mancha escura se espalhando pela camiseta dela.

Sem pensar, rolei por cima da minha mulher e me lancei contra o agressor. O corpo era pequeno. E familiar.

Sully perdeu o equilíbrio, e, mesmo com minhas pernas enroscadas nos lençóis, meu peso foi suficiente pra prendê-lo no chão. Gritei o nome da minha esposa enquanto esmagava o braço do meu filho contra o carpete. Penelope calada. Sully calado. A faca saltou e deslizou pelo tapete.

Fui até os joelhos, sem soltar meu garoto, e olhei pra Penelope. A camiseta branca dela agora estava preta de sangue. Os olhos e a boca abertos, imóveis.

Sully tentou se soltar do meu aperto. Joguei ele no chão com mais violência do que jamais usei contra outra pessoa. Ele se encolheu e começou a berrar — o primeiro som que fazia desde que entrara no quarto.

Por mais insano que pareça, por um instante pensei em ir até ele, consolá-lo, fazer tudo voltar ao normal.

Mas Penelope…

Liguei a luz do criado-mudo. Enquanto virava a cabeça na direção dela, algo brilhou no chão. Era o pingente, arrancado do pescoço de Sully durante a luta. Tinha se partido ao meio, soltando o trevo de dentro do vidro.

O trevo não tinha quatro folhas. Tinha cinco.  
E, desenhadas nessas folhas, havia cinco linhas rabiscadas formando uma estrela.  
Um pentagrama.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Os Portadores de Câncer

Às vezes, existem certas pessoas que precisam desaparecer. Há uma infinidade de indivíduos que desejam, do fundo do coração, que alguém que odeiam esteja morto. Pode ser um cônjuge tóxico, um chefe autoritário e insuportável, um amigo que passou dos limites uma vez a mais, e assim por diante. Na minha linha de trabalho, eu posso ajudar — desde que o preço seja o correto. Sou um assassino profissional. Tenho um sistema simples e ele funcionava perfeitamente.

Possuo uma linha telefônica não rastreável, presente de um amigo extremamente generoso. A maioria das pessoas fala comigo por telefone e despeja suas mágoas. Por pura cortesia, permito que me digam exatamente como desejam que o serviço seja executado. Alguns clientes não se importam com os detalhes: jogam o dinheiro na minha conta e mandam eu resolver do meu jeito. Houve casos extremamente diretos, com instruções tão simples quanto “apenas atire na cabeça dele”. Por outro lado, existem aqueles que planejam cada mínimo detalhe.

Um exemplo marcante foi uma mulher tímida, de voz quase inaudível, que me ligou dizendo que queria o marido fora do caminho. Antes que você pergunte: aquele filho da puta merecia. Ele espancava ela e a filha delas, era alcoólatra violento e, por tudo que se sabia, um verdadeiro monstro. Ela queria que eu o espancasse até a morte com um taco de beisebol enquanto ela assistia. Enquanto a criança estava na escola, nós o acorrentamos a um radiador no porão. Ela se sentou numa cadeira dobrável, acendeu um cigarro e falou comigo numa voz completamente monocórdia:

“Comece pelos dedos dos pés e vá subindo.”

Eu assenti. Apesar dos choramingos patéticos e das súplicas por misericórdia daquele merda, comecei: esmaguei os dedos dos pés, depois as canelas, os joelhos, esmaguei os testículos… você já entendeu o resto. A última informação que tive foi que ela agora vive sozinha com a filha e parece estar, enfim, feliz.

Eu pretendia continuar fazendo isso até ficar velho demais, e então simplesmente parar. Mas esse último trabalho me deixou marcado. Sinto nojo só de ter aceitado. Eu costumava me considerar um assassino com algum código moral — sei que é uma afirmação irônica, mas achava que era “um dos bons”. Agora, enquanto escrevo isso, sinto apenas vergonha profunda e arrependimento amargo pelo dia em que descobri que eles existem.

Em setembro do ano passado recebi uma ligação de um homem que queria várias pessoas mortas. Ele se recusou a falar detalhes pelo telefone e disse que precisávamos nos encontrar pessoalmente. Como profissional, aceitei. Dirigi por cerca de quatro horas para o norte até o local combinado. Cheguei à noite. Não havia postes de luz. Era um bairro abandonado: casas esvaziadas e em ruínas, gramados crescidos invadindo calçadas quebradas e entradas de veículos rachadas, carros enferrujados sem peças e com vidros estilhaçados. Continuei dirigindo até encontrar uma casa com luz acesa. Estacionei na frente, coloquei a pistola no coldre ao lado do corpo e entrei.

O interior estava tão ruim quanto o exterior: piso estilhaçado, papel de parede descascando, cheiro forte de mofo. À minha frente, um homem magro, calvo, segurando a mão direita enfaixada. Estava sentado numa cadeira de madeira, extremamente pálido, com olheiras profundas e suor escorrendo pela testa.

“Boa noite”, ele disse.

“Boa noite”, respondi.

Ele apontou para outra cadeira dobrável.

“Sente-se, por favor. Vamos conversar.”

Sentei-me e o encarei com curiosidade.

“Você está com uma aparência—”

“De merda, eu sei. Meu nome é Ted.”

Ele tentou rir, mas um acesso de tosse o interrompeu. Fez uma careta e rangeu os dentes.

“Merda. Desculpe.”

“Não tem problema. Já convivi com muita gente doente. Você não é nem de longe o pior que já vi.”

Ele me deu um sorriso breve antes de voltar ao assunto.

“Até onde sua imaginação consegue ir?”

Senti um frio na espinha por um segundo. Já fui colocado em caçadas absurdas antes: Pé Grande, Homem-Mariposa, o “verdadeiro” assassino de JFK, esse tipo de coisa. Na maioria das vezes, eu não sabia como proceder e acabava enviando uma foto adulterada no Photoshop mostrando o “serviço concluído”. Eles eram tão loucos que acreditavam. Engoli em seco e assenti.

“É, o mundo é estranho mesmo.”

“Hm. Você não faz ideia da metade.”

“Então qual é o seu problema?”

Ele tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto, claramente tirada de longe, de um homem. Aparência comum, um pouco gordinho, cabelo castanho, óculos de armação fina. A única coisa estranha eram as sobrancelhas inexistentes.

“É esse o cara?” perguntei.

“Sim. Ele… ele é maligno.”

Levantei as sobrancelhas, surpreso com um sujeito tão banal, mas monstros frequentemente assumem as aparências mais inofensivas. Havia um nerd patético em Wisconsin que comia pessoas, e um empreiteiro desleixado de Chicago que era um palhaço assassino e escondia crianças no forro da casa. Tudo era possível. Mas o que saiu da boca dele me deixou genuinamente chocado:

“Esse homem… ele dá câncer nas pessoas.”

“…como é?”

“Não sei quem ou o que ele é, mas ele é um portador de câncer. Parece que está no toque dele, sei lá que porra é essa! Começou quando o vi passando pela nossa rua. Ele parou minha esposa, que estava cuidando do jardim. Perguntou que flores ela estava plantando. Begônias, ela respondeu. Ele estendeu a mão e disse que era um prazer conhecê-la.”

Ele parou, tentando segurar as lágrimas, mas não conseguiu. Elas escorreram enquanto ele continuava, com voz rouca e entrecortada:

“Naquele mesmo dia, ela desabou no quintal. Pensei que era cansaço… mas era leucemia. Ela nunca — nunca mesmo — teve nada disso. Ela era obcecada por saúde! Caminhava todo dia, nunca fumou, nunca bebeu, era até vegana, cara!”

Ele desmoronou em choro, mas a tosse voltou. Cuspiu uma golfada de catarro no chão. Olhei: havia fiapos de sangue misturados no muco. Ele se recompôs e limpou a garganta.

“Aquele filho da puta. Perguntei quem ele era. Com o último fôlego dela, ela disse o nome: ‘Carson’. E sabe o que é mais triste? Eu roubei o significado das últimas palavras dela. Sabe o que eu teria dado para ouvir um ‘eu te amo’ ou ‘vou sentir sua falta’? Em vez disso, só o nome daquele desgraçado.”

“Carson… o tal ‘homem do câncer’?”

“Sim.”

“Onde eu encontro ele?”

Ele me entregou um endereço escrito à mão.

“Ele é fácil de reconhecer. Usa a mesma roupa todos os dias. Não se aproxime diretamente. Talvez seja melhor matá-lo de longe.”

Guardei o papel no bolso da camisa e perguntei:

“Como você sabe tanto sobre ele?”

Ele levantou a mão enfaixada.

“Tentei fazer eu mesmo. Tentei cortar a garganta dele enquanto ele corria de manhã. Ele me deu um aperto de mão…”

Desenrolou as bandagens. O que restava era uma mão retorcida, deformada, grotesca — mais parecia um porrete do que uma mão.

“Câncer nos ossos”, ele disse. “Raro. Doloroso.”

Enquanto ele enrolava novamente a bandagem, perguntei:

“Quanto tempo você tem?”

“Não sei. Pelo que vejo, eu tinha duas opções: gastar o que me resta em cuidados paliativos e deixar uma pilha de contas médicas para a minha família, ou contratar você e morrer sabendo que esse desgraçado não está mais por aí espalhando morte.”

Olhei nos olhos dele. Não estava mentindo. Sempre sei quando alguém mente. Havia verdade absoluta naquele desespero. Não importava se eu acreditava ou não; ele acreditava piamente.

“Como você quer que seja feito?”

“Não me importa. Rifle de precisão, escopeta, um puta bazuca — eu não dou a mínima. Só faça.”

Assenti e me levantei para ir embora.

“Volto aqui depois que terminar. Combinado?”

“Combinado… e obrigado.”

Depois do encontro, dirigi até o bairro onde o tal “Portador de Câncer” supostamente morava. Era um fundo de saco com casas quase idênticas, diferenciadas apenas por enfeites de jardim. A casa de Carson era particularmente sem graça: sem bandeiras, sem decoração, sem jardim — mas impecavelmente limpa. Parecia artificial. Dirigi devagar, procurando pontos estratégicos. Matar em público estava fora de questão por causa de testemunhas. Além disso, Ted havia dito para fazer de longe. Enquanto rodava pelo bairro, um apito de trem ensurdecedor soou à frente. O universo tinha me dado a solução: um viaduto ferroviário elevado, perfeito como um ninho de atirador.

No dia seguinte, observei os movimentos de Carson. Aluguei um carro e o segui. Ele não conversava com quase ninguém, não fazia nada suspeito. Parecia uma pessoa comum. Parei num cruzamento, mas mantive os olhos nele. Vi quando ele esbarrou numa mulher; a mão dele roçou brevemente no seio dela. Baixei o vidro para ouvir:

“Desculpe muito! Não foi minha intenção—” ele disse.

“Tudo bem, essas coisas acontecem!” ela respondeu.

“Olha, isso é tão constrangedor… tem alguma coisa que eu possa fazer?”

“Está tudo bem, sério.”

“Desculpe mesmo… tenha um bom dia. De novo, desculpe.”

Eles seguiram caminhos opostos.

Olhei pelo retrovisor. A mulher de repente levou a mão ao peito, como se procurasse algo. Seu rosto empalideceu. Ela havia encontrado algo que não estava lá antes. Ignorei e olhei para a frente. A cena inteira me deixou inquieto. A história de Ted era absurda… mas a voz dele não mentia. Será que eu tinha acabado de ver aquele homem dar câncer naquela mulher?

Segui Carson por mais um quilômetro. Ele virou e voltou correndo para casa. Não parou, não esbarrou em mais ninguém, nem suou. Dei meia-volta e fui para o viaduto.

Levei um rifle sniper simples com silenciador. Ao entardecer, mirei pela luneta. Ele não tinha cortinas nem persianas. Acendeu a luz do quarto, sentou na cama e ficou olhando para o vazio, com expressão abatida. Esperei que se despisse e vestisse o pijama. Mas ele permaneceu sentado, imóvel, olhando pela janela. Ficou assim por horas. Do entardecer até altas horas da noite, como uma estátua. Comecei a sentir um mal-estar crescente. A expressão vazia, fixa, sem piscar… parecia que ele estava me encarando através da escuridão. Perdi a paciência e decidi que era a hora.

Carreguei a bala, mirei, segurei a respiração. Sem vento, sem obstáculos, sem testemunhas. Tiro perfeito. Atirei.

A bala acertou exatamente no olho.

Carson caiu para trás na cama. Observei para ver se tinha errado ou se, por algum milagre, ainda estava vivo. Sangue escorria do crânio, mas algo mais saía da cavidade ocular: massas grossas de tecido, tumores brotando e rolando sobre os lençóis. Tumores vazando. Fiquei nervoso. Já tinha visto de tudo em cadáveres — último suspiro, espasmos, olhos abertos após a morte… mas nunca isso. Fiz algo que nunca havia feito antes: atirei novamente. A bala abriu o abdômen. Não havia órgãos internos… só mais tumores. Eles escorriam como pedras numa avalanche. Eram tantos, saindo em ritmo constante e desumano. O primeiro tiro passou despercebido. O segundo foi ouvido. Luzes começaram a acender nas casas vizinhas. Pessoas saíram olhando em volta, nervosas. Peguei minhas coisas e corri.

Liguei para Ted e disse que o serviço estava concluído. Voltei ao ponto de encontro no bairro abandonado. A luz da casa estava acesa. Estacionei na entrada. Respirei fundo e tentei manter a postura profissional apesar do que tinha visto. Ao chegar na varanda, notei que a porta estava arrombada. Empurrei-a.

Lá estava Ted, ou o que restava dele, apoiado na cadeira dobrável como uma boneca quebrada. Cobertura de carne disforme, pus e sangue escorrendo de vários orifícios na pele. Era… antinatural. Os tumores cobriam tanto o rosto que demorei a enxergar os olhos. Dois pontos brilhantes enterrados em carne endurecida. Estavam abertos, mas não havia nada além de dor neles. Lágrimas escorriam enquanto ele gemia e ofegava. Havia um bilhete no peito dele. As mãos — agora duas massas inchadas — não conseguiam mais segurá-lo. Aproximei-me e peguei o papel. Virei-o e li:

‘VOCÊ ACHOU QUE ELE ERA O ÚNICO?’

Um calafrio percorreu meu corpo. Larguei o bilhete e corri para o carro. Uma voz fraca e chorosa me parou:

“Por favor!” gritou. “Só… mata… m…”

Ele não terminou. Mas eu sabia o que queria. Peguei o revólver e atirei na cabeça dele. Saí correndo da casa, entrei no carro e dirigi sem parar. Só parei para abastecer. Não comi, não dormi. Só dirigi.

Voltei para minha vida normal — a vida que eu mantinha separada do trabalho. Minha filha Janice e minha esposa Wendy são meu mundo. Depois daquele serviço, fiquei aliviado ao revê-las. Pensei que aquilo seria o fim. Desativei minha linha secreta, vendi as armas anonimamente e, com o passar dos meses, achei que tudo ficaria bem.

Até esta semana.

Janice brincava no quintal enquanto eu lia no alpendre. Uma mulher de uns 40 anos passou correndo. Ela tropeçou num desnível da calçada e caiu. Minha filha correu para ajudá-la. A mulher sorriu para ela. Senti orgulho.

“Ela é uma boa menina”, disse a mulher, olhando para mim.

“É sim”, respondi.

A mulher pegou a mão dela, bagunçou o cabelo e continuou correndo. Janice voltou a brincar, mas de repente levou as mãos à cabeça.

“Minha cabeça dói, pai.”

E desabou.

Era câncer no cérebro. Estágio quatro, agressivo. Os médicos ficaram chocados e tentaram de tudo. Fizeram o possível… e ela se foi. Wendy não aguentou e foi morar com a irmã. Eu também não estou lidando bem, para ser honesto. Afundei na garrafa e comecei a tentar descobrir como identificar essas… coisas. Elas parecem exatamente como nós. Vivem vidas normais, agem como pessoas comuns. Mas estão por aí espalhando dor e luto em massa. Estão caminhando entre nós, à vista de todos. Um único toque e você está acabado.

O que mais me aterroriza é que elas fazem isso quando querem, como querem. Não sentem remorso, não têm piedade, não escolhem quem será a vítima.

Elas são os Portadores de Câncer. Estão em toda parte, são malignas e há muito mais delas do que você imagina.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que caralhos eu vi?

Eu sou um garoto normal do norte de Minnesota. Aqui em cima é bem tranquilo, na real. Mas eu moro na margem do Lago Superior, então o turismo é super normal. Tem uns idiotas por aí, mas isso provavelmente é o único problema de verdade que eu enfrento. Normalmente eu não sou o tipo de cara que posta ou fica falando sobre histórias assustadoras, assombradas ou lendas urbanas. Porém, hoje mesmo eu vi uma coisa tão perturbadora e estranha que tá me deixando genuinamente preocupado com o lugar onde eu moro.

Isso não é história inventada. É tudo real pra caralho, e é exatamente isso que torna tudo pior. Eu me sinto louco só de falar sobre isso, mas tá me incomodando tanto que eu precisava botar esses pensamentos em algum lugar. Tudo começou no sábado de manhã. Meu pai e eu estávamos nos preparando pra ir pescar um pouco ao norte da rodovia 61. Entre as cidades de Two Harbors e Duluth fica Knife River. É um vilarejo pequeno, com um restaurante antigo fechado, uma loja de doces e um defumador de peixes pescados no lago (os dois são grandes atrações turísticas), além de uma marina pra quem mora por perto. Chegamos no lago por volta das 14h e planejávamos pegar o movimento da tarde/noite pra tentar uns walleyes, mas só conseguimos uns percas miúdos e um walleye minúsculo (literalmente uns 12 cm). Não foi um dia ruim, só tranquilo e divertido. Saímos do lago, pegamos a Fox Farm Road, que ainda fica um pouco ao norte de Knife River.

Viramos da Fox Farm pra Knife River Road, que fica logo ao norte do vilarejo de Knife River e da rodovia 61. Deviam ser umas 19h30. Só eu e meu pai no carro, conversando sobre qualquer coisa que vinha na cabeça, sabe como é. Foi aí que as coisas tomaram um rumo perturbador e esquisito pra caralho. Estávamos descendo a Knife Road, no meio de uma conversa, quando meu pai avistou alguma coisa bem na vala ao lado da estrada. Alta, muito alta, ele disse que uns 3,6 metros, tão alta quanto o carro do chão até o teto, mesmo estando numa valeta de uns 1,2 metro de profundidade na lateral da estrada. Eu não vi ela parada ali do lado da estrada, porque estava no meio da conversa. Mas o que eu vi foi a criatura cair de quatro e começar a correr na direção do carro, bem na estrada. E ele não estava mentindo. Eu tive uma visão clara, que tá queimada na minha cabeça há umas 8 horas, e não passou um minuto sem eu pensar nisso. Era comprida, de quatro, correndo de um jeito muito estranho, quase como um cachorro. As duas patas da frente impulsionando pra frente, bem juntas, e as de trás em sincronia também, pra dar estabilidade e propulsão. Era branca. Pelagem espessa no corpo principal, e quase pele lisa nas extremidades daqueles membros esquisitos. O que era ainda mais preocupante é que ela não estava atravessando a estrada como um cervo faria. Ela cortou em ângulo. Como se quisesse ser atropelada. Essa foi a parte mais bizarra e assustadora. E quase aconteceu. Ficou literalmente a uns 1,5 ou 1,8 metro do carro antes de sumir da nossa vista.

No primeiro momento eu fiquei confuso. Virei pra olhar pelo retrovisor e soltei em voz alta: “Que porra foi essa?”. Repeti isso mais umas vezes. Fui tomado por uma onda gigante de curiosidade, mas com um toque de medo também. Achei que estava enlouquecendo. Vendo coisas. Não falei nada sobre o que eu tinha visto. Até que, poucos segundos depois, meu pai começou a falar sobre isso também. Foi a prova que eu precisava pra saber que não estava ficando louco. Ele descreveu a coisa com detalhes quase idênticos ao que eu vi. Fiquei muito confuso. Era absurdamente estranho, ainda mais numa hora tão esquisita do dia. Você pensaria que veria algo assim mais tarde, de noite. Mas não, às 19h30. Mil pensamentos passaram pela nossa cabeça. Tentando usar lógica pra entender o que tínhamos visto. O que, de novo, só confirmava que eu não estava pirando. “Não pode ser um urso. É janeiro, eles estão hibernando”. “Não é lobo, era branco puro, sem nenhuma outra cor”. Pensamos em todos os animais de porte médio a grande que conhecíamos, tentando juntar as peças do que formava aquela coisa profana. Mesmo assim, continuamos dirigindo normalmente, com só uns poucos minutos até chegar em casa.

A gente ainda ficou tentando dar sentido àquilo. Ele disse que foi quem viu ela parada na vala. Alta, desengonçada, com olhos pretos e miúdos. E a parte mais assustadora, segundo ele (eu pessoalmente não vi isso, mas depois da precisão com que ele descreveu tudo quando perguntei se ele também tinha visto, eu acredito que não estava inventando), foi que ela tinha mãos parecidas com mãos humanas. Não patas, não cascos, nada disso. Mãos. Absolutamente aterrorizante. Até agora a gente não faz a menor ideia do que era, e eu não tenho nada na cabeça que explique como ela se movia, como era a aparência ou por que parecia daquele jeito.

Aqui estou eu deitado na cama. 2h30 da manhã, sem conseguir dormir. Como eu disse, cada pedaço dessa história é completamente real. Nada foi inventado pela minha cabeça, e tudo aconteceu na mesma sequência que eu contei. Se você não acredita em mim, foda-se. Eu sei o que vi, sei que não estou louco. Eu nem presto atenção nessas coisas de criaturas criptidas ou qualquer merda do tipo. Mas hoje foi diferente. Pode apostar que eu não vou entrar na mata por um tempo depois do que aconteceu. Se você souber de qualquer coisa, por favor me conta. 

Mas não espero que saiba.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Sou paraplégico. Algo conhece a minha casa melhor do que eu

Um acidente de esqui me roubou os sentidos da cintura para baixo, e, pra ser sincero, me sinto um idiota por causa disso. Enquanto algumas pessoas nascem assim ou ficam doentes, eu me diverti demais e fui descuidado o suficiente para perder o que outros rezam todos os dias para ter.

Isso aconteceu há uns nove anos. Desde então, o desespero e o luto pela perda da minha mobilidade diminuíram. Você nunca supera de verdade. Só aprende a viver a vida em torno dessa sensação horrível, como se estivesse andando pela sala contornando um pedregulhão gigante que você não consegue mover. Sempre no canto do olho, mas você só aceita que é assim que vai ser. A pior parte era que eu sempre descobria coisas novas que havia perdido. No começo, você pensa que ser paraplégico significa não poder andar ou dançar, mas, com o passar dos meses, dos anos, você descobre dezenas de pequenas perdas e percebe que, basicamente, está perdendo uma vida inteira. Depois de um tempo, eu já tinha trabalhado o suficiente com a minha terapeuta, então hoje eu diria que estou bem mentalmente.

Eu odiava depender de alguém e me sentia humilhado se alguém tentasse me dar banho ou me ajudar no banheiro, mas graças a Deus pela tecnologia moderna — meus pais conseguiram investir uma grana pesada para tornar a minha casa acessível. Não tenho um andar de cima, só um sótão que praticamente nunca uso e um porão onde lavo roupa e guardo outras tranqueiras.

Nos últimos meses, algo estranho começou a infiltrar no meu bem-estar mental. Nunca tinha pensado no lado sinistro de ser deficiente.

Sabe aquele medo que você tinha de dormir com as pernas de fora ou penduradas para fora da cama? Pensando que algo poderia agarrá-las no escuro? Pois é, no meu caso, às vezes me pergunto se isso aconteceu e eu simplesmente não senti. Se algo passou por elas e eu não percebi.

Contei isso para uma amiga e ela riu, dizendo: "É, e se algum maluco lamber os seus pés no meio da noite e você não sentir? Ele pode até achar que você gostou."

Ela foi de uma ajuda incrível, é claro, mas a minha preocupação também era meio ridícula desde o início.

Certo?

Nos últimos meses, também comecei a me preocupar com o meu bem-estar físico. E se eu estiver ficando mais fraco? Como será a minha vida daqui a dez anos, se já percebo que, aos incríveis 27 anos, fico mais cansado só de passar da cama para a cadeira de rodas todos os dias?

Sério. Você sabe como eu me levanto de manhã: a minha cama se inclina e eu me transfiro para a cadeira de rodas. Como acontece com paraplégicos, as minhas mãos ficaram mais fortes, e isso não costuma ser difícil. Ou pelo menos não era. Comecei a ter dificuldade para sair da cama de manhã. Como se aquilo não fosse a coisa mais fácil do mundo.

Minha confiança levou um baita baque quando percebi isso, mas, há algumas semanas, me levantei meia hora depois de ter ido para a cama e foi tão fácil quanto eu lembrava. Isso me fez pensar. Então comecei a prestar atenção na posição da minha cadeira de rodas pela manhã.

E notei que ela estava um pouco mais longe da cama.

Não o suficiente para eu perceber de imediato, mas o suficiente para me fazer lutar. Será que eu a empurrava sem querer enquanto dormia? Não, ela é bem estável. Brinquei comigo mesmo que alguém estava mexendo nela para me sacanear.

Essa piada foi tão engraçada que ficou na minha cabeça o dia todo.

Outra coisa estranha aconteceu enquanto eu tomava banho. Ouvi um barulho no corredor e passei o resto do tempo tentando entender o que era. Já estava no meio do banho quando aconteceu, e não é como se eu pudesse sair correndo do chuveiro e jogar uma toalha para verificar. Então, depois que terminei, saí do banheiro e não encontrei nada fora do lugar. Mesmo assim, não me senti aliviado.

Ontem, a minha faxineira veio aqui. Ela subiu no sótão para pegar os produtos de limpeza e desceu completamente em silêncio, sem falar comigo o dia todo. Perguntei o que tinha acontecido, e ela me deu uma resposta passivo-agressiva do tipo: "Sei que você não pode facilitar o meu trabalho, mas eu agradeceria se não jogasse todas as suas tranqueiras no sótão." Achei engraçado, já que o sótão não tem um IPL (achamos que seria caro demais instalar um), então a única pessoa que sobe lá é ela. A única forma de eu subir seria escalando as escadas com as mãos, e não sou fã dessa ideia.

Ela vive reclamando, então não levei muito a sério. Ela fica irritada comigo por eu ser deficiente, como se fosse culpa minha. São as duas coisas que as pessoas sentem por você: pena e irritação, quando você está no caminho delas.

Dei um jeito de ignorar. Ela foi embora sem se despedir, então imaginei que estava só tendo um dos seus piripaque. Ainda não sei que tipo de bagunça a irritou tanto no sótão.

Sinceramente, sinto que estou ficando maluco. Hoje acordei com as meias tiradas, e tenho certeza de que estava com elas quando fui dormir. Sinto o sangue latejando nos ouvidos por causa da tensão, e a tontura do medo me dominou completamente. Ainda estou tentando me lembrar se as tirei, mas não consigo.

Tenho mais do que certeza de que não tirei.

Tão certo quanto estou do barulho na minha casa.

Tão certo quanto estou do fato de que não ouvi a minha faxineira sair ontem.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Skinwalker

Eu faço trilha nessas montanhas desde moleque, quase sempre sozinho, nada muito louco, só pra sumir do mundo por uns dias. Em julho passado, eu peguei uma rota circular lá nas North Cascades que praticamente ninguém faz mais. Começa numa estrada de extração de madeira antiga, depois é só mato fechado subindo a crista. Sem marcação, sem gente, só eu e os insetos.

No segundo dia eu tava me sentindo bem. Montei acampamento cedo perto de um riachinho, comi uma merda de chili desidratado e resolvi subir um pouco o morro antes de escurecer pra ver como era a vista do próximo platô. O sol tava baixando, tudo dourado e silencioso. Foi aí que eu vi o cara.

Ele tava a uns cem metros de distância, num valezinho entre as árvores. Pelado que só, alto e magrelo, pele bem branca. No começo pensei que ele tinha se separado do grupo ou perdido a roupa, hipotermia começando, sabe como a cabeça vai logo pro lado prático. Abri a boca pra gritar “Ei, tá tudo bem?”, mas as palavras morreram na garganta. O cara tava dando cambalhotas pra trás.

Não era tipo corredor fazendo acrobacia pra se exibir. Era só parado ali, se curvando pra trás bem devagar, mãos tocando o chão atrás dele, depois jogando as pernas por cima e caindo de pé de novo. Perfeito toda vez. Sem impulso, sem salto. Cambalhota. Pouso. Pausa de meio segundo. Cambalhota de novo.

Eu fiquei lá feito um idiota vendo ele repetir isso umas dez, doze vezes. Mesmo movimento exato, mesmo lugar exato. Sem barulho nenhum: nem respiração ofegante, nem folha rangendo embaixo dos pés. Nada.

Finalmente me toquei e dei uns passos pra frente, tentando ver o rosto dele. Ele nunca ergueu a cabeça. Sempre olhando reto ou pro chão, como se estivesse dando cambalhota só pra si mesmo e nem soubesse que eu existia.

Em algum momento a luz mudou, as sombras alongaram, e eu percebi que tinha ficado parado ali tempo demais. Minha pele arrepiava toda. Recuei devagar, mantendo ele na vista até as árvores bloquearem, aí virei e meti o pé de volta pro acampamento. Não corri — não queria que ele ouvisse —, mas andei rápido pra caralho. Naquela noite deixei a faca do lado de fora da barraca e mal preguei o olho. Todo estalo de galho me fazia sentar de uma vez. Nada chegou perto do acampamento, porém.

Na manhã seguinte arrumei tudo correndo e desisti da rota circular. Peguei o caminho mais longo pra sair, acrescentei um dia inteiro de caminhada só pra pegar uma trilha que eu conhecia. Cheguei no carro um dia antes, dirigi direto pra casa, tomei um banho demorado. Não contei pra ninguém durante semanas. Achei que iam pensar que eu tava louco ou que tinha visto algum nudista iogue doido, sei lá.

Aí uma noite eu tava fuçando num fórum local de trilha e um cara posta uma foto borrada — mesma drenagem, mesma época do ano. Legenda só: “Que porra é essa?”

Os comentários tavam cheios de gente que tinha visto exatamente a mesma coisa. Um sujeito disse que ficou olhando vinte minutos seguidos. Outro falou que voltou no fim de semana seguinte com uma câmera melhor e o cara ainda tava lá, ainda dando cambalhota. Chegou perto o suficiente pra gritar e o cara simplesmente… sumiu. Tipo, desapareceu no segundo em que você decidia se aproximar.

Eu nunca mais voltei praquela crista. Às vezes, quando tá bem quieto à noite, eu penso nisso — como aquelas cambalhotas eram suaves, como ele nunca cansava, nunca olhava pros lados. Só dando cambalhota.

Sem parar.

Como se fosse a única coisa que ele faz. A única coisa que ele vai fazer pra sempre.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Cítrico e Tomilho

Enquanto me sento na frágil cadeira de madeira, os olhos fixos no menino, sinto, por um fugaz momento, que talvez o que estamos fazendo seja errado. Mas, com a mão firme de Zachary apertando meu ombro, eu me lembro: quem sou eu para negar a vontade de Deus? Respiro fundo. Ela sempre aparece com esse cheiro, como cítrico, mas com um toque de algo mais terroso que eu não consigo identificar direito. Aperto a mão que está no meu ombro.

O menino parece assustado, o que é decepcionante. Passamos a última semana dando a ele as melhores frutas do pomar, reduzimos o dia de trabalho dele pra nove horas e deixamos ele ler por trinta minutos por dia. E pra quê? Pra ele enfrentar esse momento como um covarde?

Não foi assim que ele foi criado. Eu e todas as outras criadas o educamos pra encarar esse momento com coragem e dignidade, com respeito pelas nossas tradições. Do jeito que Deus quer. Não com lágrimas escorrendo pelo rosto, olhos inchados e ranho no beiço.

Ele dá um passo pequeno, lento e sofrido atrás do outro. As outras criadas começam a cantarolar baixinho e devagar, sentadas nas cadeiras de madeira atrás de nós, enquanto os homens ficam em silêncio, em formação ao longo do corredor, completamente nus, a área marcada por cicatrizes, estranhamente curada e, em alguns casos, vermelha e pulsando onde deveriam estar os genitais deles distraía algumas das criadas, que tropeçavam nas palavras.

O menino solta um soluço baixinho ao perceber que faltavam só mais uns passos pra encontrar Ela. Ele se vira pro público e cruza o olhar comigo. “Mamãe”, ele articulou sem som. Eu levanto a mão num gesto que diz pra ele ir logo com isso, e um último soluço abafado, mas gutural, sai da boca aberta e cheia de muco dele enquanto ele sobe até o altar.

Como criada, não me é permitido saber quem Ela é, de onde Ela vem ou qualquer coisa além do fato de que Ela leva uma oferenda de cada ninhada que eu e as outras criadas produzimos. Normalmente um macho forte, alto e de preferência não castrado, mas o único requisito absoluto é que tenham exatamente 12 anos e sejam do sexo masculino. Por mais que isso decepcione Deus, eu sou a única que conseguiu dar à luz machos de forma contínua e bem-sucedida. Toda temporada que passo sob os cuidados de Zachary, eu produzo um e mando outro embora. Essa taxa de sucesso mantém ele na palma da minha mão: não me preocupo com comida, produtos de higiene ou livros pra ler, e só preciso cuidar das plantações a cada quinze dias. Sou realmente abençoada pelo meu útero. Levo a mão à barriga ao pensar nisso, dói ao tocar e eu recuo um pouco, torcendo pra que Zachary não tenha percebido.

Quando Ela — eu a chamaria de mulher, mas não tenho certeza se é isso que Ela é — se abaixa e pega a mão do menino com aqueles dedos longos, parecidos com tentáculos, ele olha pra Ela com nojo. Nunca vi o rosto Dela; Ela é alta demais pra eu conseguir enxergar, e a barriga protuberante e inchada me distrai. A pele estava tão esticada em alguns lugares que as costelas ondulavam contra ela; em certos pontos dava pra ver o branco onde a pele se esticava fina sobre o osso, e em outros era vermelha e doente, escorrendo pus e sangue. A barriga era tão grande que me impressionava aquelas pernas magricelas conseguirem sustentar o peso — não eram mais grossas que um lápis, mas longas demais pra compreender; às vezes levava um minuto inteiro pra acompanhar as pernas do pé até a pelve.

Ela se curva e fala no ouvido dele, todas as mãos Dela estão sobre ele, apalpando, sentindo. As criadas param o canto silencioso e começam a zunir, enquanto Ela solta um grito agudo que vai aumentando de volume aos poucos. Eu me junto ao zunido quando Ela chega ao clímax; os ouvidos do menino já estão sangrando, eu sabia que ele era fraco.

Quando o menino cai de joelhos, tentando em vão tapar os ouvidos enquanto todos os braços, mãos e tentáculos Dela seguram os braços dele abertos, erguendo-o no ar numa crucificação de mentira. A vida simplesmente abandona o corpo dele, e Ela solta um grito triunfante enquanto o invólucro do menino murcha como fruta podre, braços ainda esticados, cabeça caída de lado; se ele não fosse tão pequeno e patético, daria um bom espantalho pros campos.

Quando os braços e tentáculos se retraem, o invólucro cai no chão e Ela contorce o corpo o suficiente pra passar pela porta lateral.

Zachary caminha confiante até o invólucro, passando a mão pelas regiões genitais lisas de todos os homens no caminho; um homem de aparência particularmente doente se contorce, o que faz Zachary apertar a virilha dele até o homem desabar no chão. Ao pegar o invólucro e erguê-lo pro público, o canto recomeça. Será mais um ano de frutas abundantes no pomar, mais um ano de grandes profecias sendo reveladas a nós através de Zachary.

Eu forço um sorriso, embora a dor crescente na minha barriga lateje; está sensível ao toque e, ontem à noite, descobri que estava vazando um líquido verde brilhante e viscoso que cheirava levemente a cítrico e tomilho.

domingo, 4 de janeiro de 2026

O ponto mole na cabeça do meu irmão era mais do que parecia...

Quando o meu irmãozinho nasceu, eu tinha nove anos. Minha mãe tinha acabado de se casar de novo depois de um divórcio longo, mas silencioso. Meu pai biológico nunca tinha aparecido muito desde que eu me entendia por gente, e, pra mim, nós quatro éramos a única família que importava.

Meu irmão caçula, carinhosamente batizado de Amir, era a coisinha mais fofa do mundo. Nos encontros de família, minhas primas e tias faziam fila pra ficar perto dele. Até eu, que era uma menininha louca por atenção, não resistia àquele sorrisinho dele, aos olhos castanhos enormes e curiosos que pareciam gritar: “Olha pra mim! Não sou o bebê mais lindo que você já viu na vida?”.

Numa noite de verão em que eu não conseguia dormir, fui na ponta dos pés até o quarto dele, tomando cuidado pra não pisar nos lugares do chão que rangiam. A porta estava entreaberta o suficiente pra eu ver o luar entrando pela cortina e iluminando o corpinho dele. Ele dormia profundamente, o peitinho subindo e descendo devagarinho, no ritmo da respiração.

Resolvi que queria ele comigo. Peguei ele no colo, tirei do berço e saí correndo o mais rápido que consegui sem acordar a minha mãe com o sequestro do bebê. Ele se mexeu um pouquinho, eu parei, depois deslizei pra dentro do meu quarto e deitei ele com cuidado do meu lado na cama. Os olhinhos do Amir se moviam rápido atrás das pálpebras, e o ponto mole na cabeça dele subia e descia no compasso da respiração.

Eu já estava quase pegando no sono quando percebi que o relevo se mexeu de um jeito... estranho. Parecia que alguma coisa se contorcia logo abaixo da pele por uma fração de segundo. Meus olhos semicerrados se abriram de vez, eu me sentei um pouco na cama e foquei ali, concentrada. Como se tivesse sido pega no flagra, o movimento parou e voltou ao ritmo normal. Fiquei olhando mais um tempinho, depois deitei de novo e finalmente dormi.

Se eu tivesse entendido o que era aquilo na época, talvez as coisas fossem diferentes.

Quando eu fiz 14 anos, o Amir tinha virado um perigo ambulante. Ele sempre estava roxo de tanto se aventurar, e por mais que eu tentasse trancar ele fora do meu quarto, o moleque dava um jeito de entrar com aqueles dedinhos grudentos e os cachos selvagens e indomáveis. Aquele ponto mole nunca tinha endurecido totalmente por causa do que os médicos chamavam de ossificação óssea atrasada. Resumindo: aquela área simplesmente nunca virou osso. Ele vivia normalmente, então o problema ficou lá no fundo do armário.

Claro que a minha mãe ainda tomava cuidado. Numa noite em que ela saiu, me fez prometer que eu ia impedir ele de fazer qualquer besteira e que ficaria de olho nele o tempo todo. Quando ela foi embora, liguei os Teletubbies pro Amir na sala, joguei papel e giz de cera no chão e me tranquei no quarto.

Não demorou muito pra eu ouvir um estrondo daqueles. Corri pra sala e vi panelas e frigideiras espalhadas pra todo lado. Meu irmão olhou pro estrago que tinha feito, depois olhou pra mim, procurando uma desculpa decente. “Guarda essa, vai”, eu disse, levantando a mão e começando a empilhar as panelas de volta com a outra. Terminei aquilo e voltei pro quarto, não sem antes dar um aviso bem sério pra ele sentar a bunda de novo no lugar.

Depois de mais ou menos uma hora fuçando no quarto, ouvi outro baque pesado. Dessa vez não eram só panelas. Saí do quarto resmungando e desci as escadas torcendo pra bagunça não ser grande. Não era bagunça.

O Amir estava tendo uma convulsão violenta no chão da sala. Um som gutural saía do corpinho dele, seguido de gritos agudos. Corri até ele, levantei a cabeça dele do chão com as mãos. O corpo inteiro tremia como vara verde. Contra tudo o que eu queria, larguei ele no chão e voei pro meu quarto pra pegar o celular, ligando pra emergência enquanto corria de volta pro meu irmão. Meu coração batia tão forte que quase saía pela boca, e no meio do caos eu mal percebi o ponto mole na cabeça dele tremendo e se abrindo até começar a sangrar... e depois sair outra coisa.

Alguma coisa cutucava a superfície do relevo, procurando a saída. Eu gritei, apertando meu irmão mais forte contra mim. O corpo dele sacudia ainda mais, como se tentasse expelir aquilo sozinho. Um caroço, parecendo um pedaço de carne jogada fora, rasgou a pele e deslizou pra fora, mal tinha uns dois centímetros e meio. Não atravessou o crânio; passou por um espaço que era só dele, uma casa feita dentro da cabeça do meu irmãozinho.

Num instante de puro horror, larguei o corpo do meu irmão e rastejei pra trás, gritando com um terror que rasgava a minha garganta enquanto a criatura terminava o próprio nascimento. Ela escorreu pelo rosto do Amir, que agora estava desacordado, e caiu no chão. Foi ali que ela se abriu, bem no meio, e virou do avesso pra revelar um par de pernas de inseto que se desenrolaram pra fora como uma borboleta saindo do casulo.

Foi aí que eu apaguei.

Acordei numa cama de hospital, com uma bolsa de soro pingando no meu braço. O silêncio era bom, só o gotejar frio do soro fisiológico e a minha respiração. Até que as memórias daquela noite me atingiram de novo, e eu me sentei de uma vez. Minha mãe, que estava sentada do meu lado o tempo todo, levantou correndo e veio até mim. Eu puxei ela pra um abraço apertado e desabei chorando nos braços dela.

“Tá tudo bem! Tá tudo bem!”, ela repetia, passando a mão nas minhas costas pra tentar me acalmar.

“O Amir tá bem? Cadê ele?!”, perguntei entre lágrimas.

“Ele tá em outro quarto. Ele vai ficar bem”, minha mãe respondeu, a voz cheia de medo e preocupação que ela tentava esconder mal e mal.

Respirei fundo e soltei ela, minha cabeça repassando tudo o que tinha acontecido.

“Quando te encontraram, vocês dois estavam desmaiados no chão. Eu vim o mais rápido que consegui. O que aconteceu???”, ela perguntou, me apertando.

“Eu não sei, eu só... alguma coisa saiu de dentro dele, cadê aquilo? Estava na cabeça dele, naquele ponto. Não era osso, era aquela coisa.” Minha voz tremia enquanto eu finalmente tentava explicar o que tinha visto.

As sobrancelhas da minha mãe se franziram. “Como assim? O Amir teve uma convulsão. Aconteceu muita coisa numa noite só. Só... descansa, tá bem?”, ela disse, me deu um beijo na testa e me deixou sozinha pra ir ver o meu irmão.

Os dias seguintes foram passados tentando explicar que uma criatura tinha passado pela cabeça do meu irmão. Meus apelos caíam em ouvidos moucos. O próprio Amir não lembrava de nada além do programa de TV e depois o hospital. A rachadura na cabeça dele foi explicada como ferimento da queda. Eu sei que não foi isso, mas é a minha palavra contra a lógica e tudo o que qualquer pessoa acreditaria.

Não sei o que eu espero colocando minha história aqui. Já se passaram anos, e o Amir, depois de ficar internado um tempo, se recuperou rápido com nada além de uns pontos. Toda vez que vejo aquela cicatriz, eu penso naquela coisa que fez morada dentro dele... e no que ela pode ter virado.
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