As coisas não têm sido nada fáceis ultimamente. Gastei uma grana absurda num diploma universitário que me levou a um beco sem saída — um trampo de salário mínimo e uma montanha de dívida estudantil — e agora estou morando num apartamento uma merda com um senhorio que todo mundo odeia. Mas minha mãe nunca criou um covarde, então eu persisto, na esperança de que as coisas melhorem. Ela era a única que acreditava que eu ia conseguir, que tudo ia melhorar, e até hoje ela nunca me levou pelo caminho errado.
O dia começou igual a qualquer outro — saí da cama de mau humor, vesti o uniforme do McDonald's e comi uma tigela refrescante de Cheerios puro (o café da manhã dos campeões, sem dúvida), antes de ir pro trabalho. Não tem muita coisa pra contar sobre o dia de serviço: virei alguns hambúrgueres, peguei alguns pedidos e aguentei uns clientes chatos. Mas eu vi uma cliente grossa tropeçar e derramar a bebida dela no estacionamento. Isso me arrancou um sorriso. Depois de um dia exaustivo e sem graça, voltei pro meu apartamento. Quando entrei, vi um pote de rolinhos de canela com um pedacinho de papel escrito "Da Mamãe" com um coraçãozinho desenhado. Ela tinha uma cópia da minha chave, então deve ter passado aqui enquanto eu estava fora. Eu estava destruído e morrendo de fome, então dei uma mordida, sentindo aquele calor de casa e o amor da minha mãe. Me senti um menino de novo, saboreando um docinho e sentindo o abraço dela, e não me envergonho de admitir que chorei ali mesmo, na hora.
Terminei os rolinhos e lavei o pote. De qualquer forma, eu ia visitá-la ainda essa semana, então ia devolver lá. Dei uma última olhada no bilhetinho da minha mãe quando percebi que tinha uma carta do lado. Estranho — devo ter passado batido antes. Peguei e examinei. Não havia nenhum tipo de escrita do lado de fora. Sem "Da Mamãe", sem "Para o Trevion" ou qualquer coisa assim, nem o coraçãozinho que a minha mãe sempre desenha em toda carta que escreve. Talvez eu estivesse exagerando — talvez ela estivesse com pressa.
Resolvi abrir, curioso sobre qual frase inspiracional brega ela tinha escrito dessa vez, mas não havia nenhum bilhete dentro — só uma foto. Uma foto bem estranha. Parecia um porão escuro, iluminado apenas por uma velha lâmpada balançando no teto. No centro da foto havia uma porta de madeira. A imagem era um pouco perturbadora, e meio esquisita pra minha mãe mandar, ainda mais porque o porão dela não tem nada a ver com aquilo. Mas eu estava cansado demais pra pensar nisso, então fui me jogar na cama na esperança de dormir por uma eternidade.
Na manhã seguinte, acordei e saí da cama, seguindo minha rotina normal, até ver outra carta fechada em cima da minha mesa de jantar. A de ontem eu tinha deixado fechada em cima do balcão ao lado do micro-ondas, mas ela tinha sumido. Procurei por todo lado, mas não achei. Olhei de volta pra mesa, fitando a nova carta com curiosidade e uma pontada de pavor. Me aproximei com hesitação, peguei a carta e virei.
"Fique calmo. Deus te aguarda na porta." estava escrito na frente da carta, em letra caprichada. Isso era uma ameaça? Alguém tinha arrombado minha casa e deixado isso aqui? Liguei pro trabalho, expliquei o básico — que eu suspeitava que alguém tinha entrado na minha casa e que não ia aparecer. Não achei necessário mencionar a carta. Minha gerente, coitada, foi muito compreensiva e me deu o dia de folga. Chamei a polícia imediatamente e comecei a vasculhar tudo, tentando achar algum sinal de arrombamento ou se alguém ainda estava ali, mas minha cabeça ficava voltando à curiosidade sobre o que estava dentro da carta. Depois de confirmar que eu estava seguro, por enquanto, meus olhos vagaram pra mesa. Eu sabia que provavelmente não era boa ideia, mas a abri. Em retrospecto, foi uma besteira enorme, mas eu não consegui me controlar. Havia outra foto — dessa vez, a mesma porta do porão escuro, escancarada, revelando apenas escuridão. Fiquei ali sentado encarando a carta, tentando entender tudo aquilo, até a polícia chegar.
Dei meu depoimento enquanto eles vasculhavam a casa. Esperava que encontrassem alguma coisa — qualquer coisa — que pudesse identificar quem teria arrombado o apartamento. Um milhão de perguntas passavam pela minha cabeça enquanto eles investigavam. Quem teria feito isso? Por que eu especificamente? Será que ofendi alguém de alguma forma? Um policial se aproximou e disse que ou o invasor conseguiu esconder qualquer evidência de arrombamento de forma perfeita, ou simplesmente ninguém tinha entrado. O jeito que ele falou parecia que estava irritado comigo por ter desperdiçado o tempo dele. Eles foram embora e eu me joguei no sofá, tentando entender toda essa situação de merda.
A melhor coisa a fazer, pensei, era ligar pra minha mãe. Não sabia o que esperava que ela fizesse, mas achei que ouvir a voz dela me ajudaria a me acalmar um pouco. Com as mãos tremendo, peguei o celular e fui descendo até as informações de contato dela. Não demorou muito — não tinha muitos contatos pra começar. Coloquei o telefone no ouvido e fiquei esperando ela atender. O telefone foi chamando até cair na caixa postal. Não era lá muito surpreendente — minha mãe quase sempre deixava o celular no silencioso porque ele "a distraía de Vampire Diaries" ou alguma outra série dramática vagabunda. Ia tentar de novo quando recebi uma mensagem do número dela. Estranho — ela nunca foi de mandar mensagem, só ligava e escrevia cartas.
Abri o aplicativo de mensagens e li o texto da minha mãe.
"E qualquer um cujo nome não estava escrito no Livro da Vida foi lançado no Lago de Fogo."
Antes mesmo de conseguir processar o que aquilo significava, meus olhos arregalaram de horror e um som sufocado escapou da minha garganta quando recebi uma mensagem em seguida. Era uma foto da minha mãe, amarrada a uma mesa coberta de cortes e hematomas, uma lareira enorme queimando forte atrás dela.
Meu rosto ficou pálido e minha respiração acelerou. Eu precisava fazer alguma coisa — precisava chamar a polícia.
Ouvi uma batida na porta e levei um susto. Corri até a porta, na esperança de que fosse minha mãe. Pelo amor de Deus, que fosse ela. Abri a porta rapidamente e não vi nada. Olhei pros dois lados do corredor, mas não havia ninguém. Só havia mais uma carta no chão. Peguei com hesitação e voltei depressa pra dentro, indo pro sofá. Abri na hora, tirando uma carta manuscrita seguida de uma foto. A foto era do porão escuro de novo, mas dessa vez do chão num canto, em vez das escadas como nas fotos anteriores. Tomei um choque quando vi que era… eu na foto. Eu estava no alto das escadas descendo, claramente sem perceber quem estava tirando a foto. Mas aquilo não fazia sentido algum, já que o único porão onde eu tinha estado era o do próprio prédio, pra lavar roupa, alguns dias atrás.
Foi aí que caiu a ficha como um soco no estômago. Quem tinha sequestrado minha mãe estava aqui, e já estava aqui fazia um tempo. Não me dei nem um segundo pra pensar — saí do quarto correndo, peguei meu taco de beisebol velho e desci direto pro porão. Recebi alguns olhares estranhos no caminho, mas não importava. Minha mãe estava em perigo e eu precisava ajudá-la.
Empurrei a porta com força, encarando o abismo escuro lá embaixo. Toquei no interruptor de luz, mas nada aconteceu. Talvez ele soubesse que eu ia aparecer e tivesse cortado a energia do porão. Liguei a lanterna do celular e desci com cuidado, o taco firme na mão, chamando pela minha mãe.
Cheguei ao último degrau e olhei em volta com a lanterna. Tudo parecia normal, igual às fotos. Algumas máquinas de lavar, uns canos velhos e a porta. Eu sempre achei que fosse um depósito velho dos funcionários de limpeza, mas agora sabia que era algo muito mais sinistro. Corri até a porta e chutei pra abrir.
— Mãe! Você está aí? — gritei no quarto escuro, jogando a luz pra dentro. Era muito maior do que eu tinha imaginado, grande demais pra ser só um depósito de limpeza.
Entrei devagar, o assoalho rangendo levemente a cada passo. Vi a lareira apagada da foto da mensagem. Parecia bem maior do que na foto — como se uma pessoa inteira coubesse ali dentro. Quando me aproximei, vi que quem fez tudo aquilo tinha feito exatamente isso. Havia ossos cobertos de cinzas espalhados por toda a lareira. Muitos braços e pernas, costelas, e o mais arrepiante de tudo: vários crânios humanos, todos enfileirados com capricho. Me estremeci só de imaginar um deles sendo minha mãe. Expulsei o pensamento da cabeça. Ela tinha que estar bem — precisava estar.
Me levantei e caminhei mais fundo naquele cômodo comprido. Outro detalhe que me perturbou foi o quanto tudo estava organizado. Tudo no lugar certo, e não havia uma única teia de aranha em nenhum canto. Vi a mesa onde minha mãe estava presa, mas ela não estava mais lá.
— Merda, merda — murmurei pra mim mesmo enquanto me aproximava da mesa, tentando achar alguma pista ou alguma coisa que me ajudasse a entender o que tinha acontecido ou pra onde ela poderia ter ido. Mas nada — nem uma única gota de sangue em lugar nenhum.
Recuei da mesa, respirando pesado, tentando pensar no que fazer, até ouvir um ronco úmido e baixo mais ao fundo do cômodo. Joguei a lanterna rapidamente pro final do cômodo e vi a cena mais apavorante que já presenciei na vida. Até hoje me mantém acordado à noite enquanto escrevo isso, e acho que nunca vai me largar.
"Não me deixes ser crucificada como meu salvador" estava escrito num papel pregado num cadáver. Minha mãe estava pregada a uma cruz invertida com uma estrela cortada no estômago, sangue escorrendo por ela e cobrindo seu rosto inchado e cheio de hematomas.
Não consegui olhar mais. Saí correndo e não parei até chegar de volta no meu quarto. Bati a porta e dei a chave. Me apoiei contra a porta, respirando pesado e irregular, soluçando e caindo de joelhos.
— Oh… meu Deus… me ajuda… — murmurei entre soluços pesados. Quando me recompus o suficiente, peguei o celular e chamei a polícia.
Eles chegaram logo em seguida e foram direto pro porão. Isolaram o cômodo e examinaram tudo por um tempo que pareceu uma eternidade. De vez em quando eu via alguns policiais entrando e saindo do cômodo enquanto eu ficava do lado de fora. Toda vez que saíam, dava pra ver que eles também estavam profundamente perturbados com o que tinham visto.
Tiraram minha mãe numa maca, mas ela já estava morta fazia tempo. Juntei quase todo o meu dinheiro pra cremá-la e coloquei o vaso com as cinzas na prateleira da minha cabeceira.
Já se passaram 7 meses desde o ocorrido. Me joguei de cabeça no trabalho, pegando todo turno que aparece. Juntei dinheiro pra me mudar pra um prédio diferente, a alguns quarteirões dali — simplesmente não conseguia ficar no mesmo lugar.
Um dia voltei do trabalho e me joguei no sofá, decidindo escrever essa história toda, só pra tirar esse peso do peito. Dizem que é terapêutico, então resolvi tentar. Estava na metade quando ouvi uma batida na porta. Olhei pelo olho mágico e não vi nada, então abri a porta e vi uma carta no chão.
Eu devia ter mais juízo, devia ter deixado pra lá e me mudado de novo, mas não fiz isso. Fiquei tanto tempo sem nenhum tipo de incidente que baixei a guarda. Peguei a carta e fechei a porta.
No envelope estava escrito "Para o Trevion". Isso parecia normal, mas o que me desestabilizou foi que a caligrafia era idêntica à da minha mãe — letra por letra. Abri a carta, a curiosidade me consumindo enquanto rasgava o lacre e tirava duas fotos. Uma delas era de uma cruz de madeira com uma placa escrita "Iesus Nazarenus, Rex Iudaeorum". Virar a foto revelava mais um texto, simplesmente: "Para você". A segunda foto era da minha porta da frente, como se tivesse sido tirada a alguns centímetros dela, com o número do meu apartamento enquadrado na imagem.
Tranquei as portas e chamei a polícia, mas não sei se vai adiantar. Se alguém vir isso e estiver perto da Lake Shore Drive em Chicago, me salva, por favor. Meu número de apartamento é 137. Não tenho muito tempo. Por favor.


1 comentários:
Por favor, me fala que tem parte 2 ou que você tá pensando em transformar isso num universo maior (tipo, quem é esse doido religioso? Tem mais vítimas?). Eu quero MUITO mais. Se quiser eu leio de novo com lupa e te mando feedback cena por cena, ou até ajudo a divulgar em algum fórum ou Instagram de terror.
Tô orgulhoso pra caralho de acompanhar sua evolução, cara. Você não escreve terror… você faz a gente viver o terror. 🔥
Manda a próxima logo, tô viciado e com medo de apagar a luz agora kkkk. Me salva, por favor! 👀
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