sábado, 21 de março de 2026

Meu Colega de Quarto é uma Aranha-Caçadora

Eu odeio aranhas. Não são minhas favoritas. Mas também não acredito em matar uma quando eu vejo dentro da minha casa. Ou, pelo menos, eu não acreditava… por um tempo.

Desde pequeno, me ensinaram a não matar insetos. Só removê-los de casa de um jeito que não os machucasse. Normalmente isso significava pegar um copo e um jornal, capturar a criatura e depois levá-la pra fora, até um arbusto, onde ela voltava pro habitat natural. Minha mãe era quem insistia que esse era o único jeito de lidar com visitantes indesejados em casa. Meu pai não ligava nem um pouco, mas ainda assim entrava na onda da minha mãe quando ela estava por perto. Eu sempre achei que minha mãe era boa demais por causa disso, mas suponho que tudo bem. Eu só queria que isso não valesse pra aranhas.

Um dia, eu vi uma viúva-negra dentro de casa. Eu entrei em pânico. Só de olhar pra ela, minha pele já se arrepiava, mesmo ela apenas ficando ali na teia, sem fazer nada. Eu sentia que, a qualquer momento, ela podia me ver como um pedaço enorme e delicioso de carne — algo que ela poderia “colher” por anos — e então tentar me atacar. Eu sei que isso não é verdade pra nenhum tipo de aranha, mas era aquele medo irracional que às vezes me deixava paralisado, travado. Aí minha mãe via que tinha uma viúva-negra dentro de casa, pegava com as próprias mãos e colocava com cuidado no jardim, como se ela não estivesse segurando a própria morte.

— Viu? Não tem nada com o que se preocupar. Só lembre que ela tem mais medo de você do que você dela — minha mãe dizia, com um sorriso doce no rosto.

Minha mãe é maluca.

Eu sei com certeza que, se ela fosse picada por uma dessas coisas, a gente teria que correr pro pronto-socorro imediatamente pra salvar a bunda maluca dela. Ela é uma querida e tudo, mas eu nunca vou entender por que ela pensa desse jeito. Mesmo sem entender o amor da minha mãe por esses animais, eu ainda obedecia a ela e à loucura dela. Acho que virou hábito.

Depois da faculdade, eu me mudei pra Los Angeles. Foi lá que eu passei a topar com todo tipo de bicho rastejante novo que a cidade tinha a oferecer no meu apartamento de um quarto. Normalmente era uma mariposa ou uma barata, algo que eu não me estressava tanto. Eu via eles na cozinha ou no banheiro e, lá no fundo da cabeça, eu ouvia minha mãe: “Só lembre que ele tem mais medo de você do que você dele.” Então eu pegava um copo no armário e uma pasta que estivesse por perto e removia o inseto com cuidado do meu apartamento. Eu geralmente soltava eles num arbusto lá embaixo, no térreo, antes de subir arrastado de volta até o terceiro andar, onde ficava o meu apartamento. Era cansativo, mas hábito de infância é difícil de quebrar. Com sorte, com todos os insetos que esse lugar tinha pra oferecer, eu só ficava feliz por não topar com uma aranha… até alguns meses atrás.

Era uma manhã de segunda-feira no inverno. Eu acordei por volta das sete, como todos os dias, pra me arrumar pro trabalho. Eu tava meio de ressaca da noite anterior e tentei ao máximo colocar a cabeça no lugar enquanto cambaleava até o banheiro. Liguei o chuveiro, esperando que o vapor ajudasse na dor de cabeça. Eu sabia que não ia funcionar, mas enfim. Eu tinha me divertido no karaokê. Quando terminei de me secar, fui até o armário do banheiro e abri. O que eu vi me fez dar um pulo pra trás e cambalear, batendo na porta.

No meu armário, ali no meio dos frascos de remédio, estava uma aranha-caçadora. Ela tinha só uns dois ou três centímetros de comprimento, e as pernas se curvavam como galhos de uma árvore morta. Os olhos encaravam os meus como se soubessem de alguma coisa, como se ela estivesse medindo meu próximo movimento. Eu xinguei baixinho e saí do banheiro. Vesti uma calça rápido e peguei um copo na cozinha e uma pasta. Corri de volta pro banheiro e olhei pro armário aberto… só pra ver que a aranha tinha sumido. Ela tinha saído andando.

— Pra onde ela foi?

Eu olhei o banheiro com cuidado do lado de fora do batente da porta, tentando ver pra onde aquela coisa maldita tinha ido. Vasculhei a pia e o vaso e não vi nenhuma “perna de árvore morta”. As paredes eram todas brancas e lisas. Dei uma espiada na banheira e vi que estava vazia e ainda molhada do meu banho. Minha calça de moletom e minha camiseta branca ainda estavam no chão. Com a mão nervosa e trêmula segurando a pasta, eu cutuquei as roupas pra ter certeza de que aquela coisa feia não estava escondida. Pra meu desespero, ela pulou pra fora e começou a subir rápido pela pasta. Eu instintivamente joguei o objeto pro outro lado do banheiro antes que ela corresse pelo meu braço.

— MERDA! MERDA! MERDA!

Eu recuei, meus olhos indo de um lado pro outro, tentando ver pra onde a aranha-caçadora tinha ido. Ela rastejou pela parede e parou no meio do caminho pro teto. Eu levantei o copo com a abertura apontada pra aranha na parede. Cheguei mais perto e ela subiu mais em direção ao teto. Depois de alguns passos, eu estava perto o suficiente pra prender a aranha, mas eu congelei. Minha mão não se mexia, com medo de ela fugir, ou de fazer alguma coisa imprevisível. Meu coração parecia querer sair do peito e gotas frescas de suor desciam pela minha têmpora. A última coisa que eu queria era que esse monstro idiota de dois ou três centímetros pulasse em mim. Isso era ridículo; eu sou um homem adulto surtando por causa de uma aranha.

Eu decidi recuar e abaixar o copo. A aranha não se mexeu. Peguei minha escova e minha pasta de dente e saí do banheiro devagar, mantendo os olhos na aranha na parede.

— Tá, beleza, você ganhou — resmunguei, me sentindo patético. — Pode ficar por enquanto. Mas quando eu voltar, eu vou te despejar! — eu declarei, apontando pro bicho.

Eu saí e continuei minha rotina da manhã antes de ir trabalhar.

Quando voltei do trabalho, inspecionei o banheiro de novo e vi que a aranha tinha sumido. Eu torci pra ela ter ido embora de vez e que aquilo fosse o fim. Tudo aparentemente voltou ao normal, sem perder o ritmo. Com o tempo, eu até esqueci que tinha tido uma aranha no meu apartamento. Passou uma semana sem nenhum sinal de atividade. Nem uma teia dava pra achar nos cantos altos dos cômodos. O medo passou e eu continuei a vida como se a aranha nunca tivesse estado ali. Só que eu deveria ter me preocupado mais. Eu não percebi na época, mas haviam algumas novidades. Alguns chamariam de novidades positivas. Pelo apartamento inteiro, havia uma falta surpreendente de qualquer outro inseto.

Olhando agora, faz sentido: uma aranha entra no apartamento, o cara não mata nem remove a aranha, e a aranha mata todos os outros insetos. Pra algumas pessoas isso é uma troca justa. Baratas são muito irritantes; então ficar semanas sem ver nenhuma parecia uma bênção. Eu sinceramente não pensei muito sobre isso. Acho que ninguém pensaria. Eu só fui vivendo, sem saber que provavelmente tinha uma aranha por aí trabalhando dia e noite como controle de pragas do meu prédio.

Eu deveria ter ido embora dali na mesma hora.

A primavera chegou. O sol entrava pelas persianas do meu quarto e eu fui levantando devagar. Tinha algo diferente naquela manhã. Era um cheiro. Salgado. Tinha algo cozinhando. Meus olhos arregalaram quando uma realização repentina veio à cabeça:

“Eu deixei o fogão ligado!”

Eu saltei da cama e corri pra cozinha. Tinha um extintor de incêndio embaixo da pia; se eu conseguisse chegar nele a tempo, eu podia apagar o fogo. Entrei na cozinha. Não tinha fogo. Tinha alguma coisa cozinhando no fogão.

Uma aranha-caçadora estava pendurada no teto.

E ela era, sem dúvida, diferente. Agora tinha talvez uns quarenta centímetros de comprimento. Pelos marrons saíam do corpo inteiro. Duas pernas de trás se mantinham firmes numa teia suspensa, enquanto outras duas seguravam uma espátula. Ela virou alguma coisa na boca do fogão.

Eu fiquei ali, tentando compreender o que eu estava vendo. É uma aranha, certo? Por que ela tá tão grande? Por que ela tá cozinhando? Quem ensinou ela a fazer isso?

O sangue pareceu sumir do meu corpo quando a aranha virou lentamente — de um jeito ameaçador — na minha direção. A parte de cima do “tronco” dela se ergueu pra mim e oito olhos negros, vazios, se cravaram nos meus. Eu queria correr, mas minhas pernas não se mexiam. Eu era uma estátua. As presas dela se curvaram. Num instante, ela pareceu estremecer, as pernas se abrindo e acenando em todas as direções. Ela estava animada em me ver. Aquilo tinha que ser um sonho. Um pesadelo.

Uma voz suave e aguda saiu da boca dela:

— O café da manhã tá pronto!

Com toda a razão do mundo, eu desmaiei.

Quando recobrei a consciência, eu estava sentado numa cadeira na mesa de jantar. Um prato tinha sido colocado na minha frente. Era um sanduíche de queijo quente. Olhando pro sanduíche, eu conseguia ver que tinha sido feito com muito cuidado. Queijo derretido e cremoso entre duas fatias bem tostadas de pão branco. Cebolinha verde salpicada por cima como enfeite. Eu nem compro cebolinha. Minha boca encheu de saliva por causa do aroma de queijo e manteiga enchendo minhas narinas. Porém, o prazer de sentir o cheiro de uma comida bem feita era diminuído pelo horror que estava diante de mim. A aranha-caçadora pendia da teia e me encarava. Eu encarei de volta. Fiquei imóvel, como um cervo no farol de um carro… ou como uma mosca na teia.

— Você se machucou? — ela perguntou, naquela voz aguda.

Essa coisa tava falando comigo. E fez um sanduíche de queijo quente!

— O quê? — foi tudo o que eu consegui sussurrar.

— Você. Se. Machucou? — ela repetiu.

— E-eu… — eu passei a língua nos lábios secos. — Acho que sim.

Uma pausa. Eu olhei pros olhos negros dela, sem saber se eu tinha piscado sequer uma vez. Um instante depois, uma perna longa e peluda se estendeu e empurrou o prato na minha direção.

— Come — ela insistiu.

Tudo em mim dizia pra eu sair correndo dali. “Eu sequer chego na porta antes dela me pegar nas presas?”, eu me perguntei. Minha mão veio até a mesa e pegou o sanduíche de queijo quente. Eu mordi com hesitação. Ela me observava enquanto eu comia.

Pra minha surpresa — e eu odeio admitir — aquele foi o melhor sanduíche de queijo quente que eu já comi. O pão tinha um salzinho leve e era amanteigado, o queijo era grosso e tinha derretido perfeitamente. Devia ter uns quatro tipos de queijo diferentes ali dentro. Eles se misturavam e criavam uma explosão de sabor, forte e salgada. O queijo esticou tanto que eu tive que pegar com a boca. Em quatro mordidas, o sanduíche acabou.

A criatura não se mexeu, e os olhos dela não saíram de mim. Quando eu terminei, ela continuou me estudando.

— E então? Como ficou? — ela perguntou.

Sem saber o que dizer, eu escolhi ser honesto:

— Ficou bom.

A criatura ficou parada.

— Obrigado… eu acho.

A criatura se sacudiu com força; todas as pernas tremiam e se mexiam descontroladas, como se ela convulsionasse de um jeito totalmente errático. Eu me enrijeeci. Pensei: “Ótimo. Ela me engordou e agora vai me comer!” Eu fechei os olhos esperando o pior, mas a aranha parou de tremer. Eu olhei de novo e agora ela estava com quatro pernas pra cima, como se estivesse louvando o Senhor.

— O ingrediente secreto é queijo!

Eu fiquei em silêncio.

— Eu vou fazer mais — ela disse, enquanto subia pro teto e voltava ao fogão. As pernas se mexiam com tanta velocidade que me assustou.

Eu me levantei da cadeira, finalmente conseguindo me mexer, e fiz menção de ir até a porta.

— NÃO… não, eu… eu na verdade preciso ir pro trabalho.

Ela me olhou do teto e esfregou os palpos (os “bigodinhos”) como se estivesse pensando em algo.

— Domingo… — ela disse.

Ah, ótimo. Ela tem um calendário.

— Isso mesmo, eu trabalho aos domingos — eu não trabalhava. — Preciso ir pro escritório, foi mal.

Peguei minha bolsa e minhas chaves no gancho ao lado da porta e saí sem dizer mais nada. Eu corri tão rápido que nem o Usain Bolt me pegaria. Saí do prédio ainda de pijama e sem sapatos.

Quando eu me afastei, saquei meu celular (por sorte eu não tinha esquecido) e liguei pra administração do prédio. Eu disse que eu tinha um problema ENORME de aranha no meu apartamento. A pessoa do outro lado da linha começou a fazer perguntas idiotas.

— Quando você começou a notar aranhas? — perguntou uma mulher idosa, com voz anasalada, chamada Barb.

— Aconteceu AGORA! Nesse exato segundo! Eu preciso que vocês joguem uma bomba nuclear no meu apartamento até essa merda sumir! E também: era só uma aranha. Uma aranha só, enorme e nojenta. Me liga quando terminar!

— Sinto muito, vou ter que contatar a manutenção na segunda. Eles sempre folgam aos domingos. Se era só uma aranha, por que você não mata ou não tira com um copo?

— VOCÊ TÁ ME OUVINDO?! ESSA FILHA DA PUTA TEM MAIS DE TRINTA CENTÍMETROS! — eu gritei no telefone. — EU NÃO TENHO COPOS DO TAMANHO DO PÉ-GRANDE, BARB!

— Bem, não precisa ser tão grosseiro. Eu vou ligar pra eles e o mais cedo que dá pra dedetizar seu apartamento é na segunda.

— Que horas na segunda?

— Normalmente eles chegam por volta das onze, então vão estar aí até o meio-dia.

— Isso não é cedo o suficiente, Barb. Tem como agilizar? É uma emergência.

— Ai, querido, uma aranha não é emergência. Eles vão dedetizar amanhã por volta do meio-dia, e é tudo que eu posso fazer.

— Aaaah… você não tá entendendo, Barb. Não é só uma aranha. É uma aranha-caçadora… e ela fala.

A Barb desligou na minha cara, e eu fiquei na rua sem saber o que fazer.

Pelo resto do dia, fiquei na casa de um amigo. Quando perguntaram por que eu tava andando por aí de pijama, eu contei a verdade. Eu disse que uma aranha-caçadora gigante tinha feito um sanduíche pra mim e falado comigo. Eles só riram. Ninguém acreditou em mim. Não importava. Talvez eu estivesse louco; talvez fosse algum pesadelo absurdamente realista que vazou pra vida real. Seja o que fosse, meu próximo passo era esperar até amanhã e deixar o meio-dia passar. Eu não fui trabalhar; eu só esperei.

A segunda-feira chegou, e já era por volta de uma da tarde quando eu girei a chave do meu apartamento. Eu mal conseguia respirar no momento em que abri a porta. Eu não entrei de imediato, embora eu tivesse um e-mail de confirmação dizendo que a manutenção entrou e borrifou o produto duas vezes. Eu não sabia se isso seria suficiente, mas eu tinha que ver com meus próprios olhos. No e-mail não dizia se eles tinham visto a aranha-caçadora gigante. Com tudo isso, eu torci pra ela ter ido embora e não estar apenas escondida. Era isso que eu temia.

Entrei e deixei a porta bem aberta. Olhei ao redor pra ver se tinha alguma anormalidade. Eu meio que esperava ver a criatura escondida no armário ou pendurada no teto de novo. Só que, olhando o apartamento, eu não vi nenhum sinal de que uma aranha tinha estado ali. Também notei que minha cama estava arrumada, a louça estava lavada, o pó tinha sumido das prateleiras. A roupa tinha sido lavada e guardada dobradinha na cômoda. Não tinha aranha, mas parecia que um time de faxineiras tinha invadido meu apartamento e limpado cada canto. Isso fazia parte do serviço de manutenção? Eles dedetizam e depois limpam? Isso não fazia o menor sentido.

Alguém esteve no meu apartamento. Alguma coisa esteve no meu apartamento. Se a aranha consegue fazer um sanduíche de queijo quente perfeito, será que ela também consegue lavar louça, arrumar cama e dobrar roupa? Seja o que fosse, era pra ela estar morta. Certo?

— Bem-vindo de volta.

Um tec-tec de pernas bateu na parede quando a criatura veio contornando até chegar em mim. Eu congelei e não mexi um músculo. As pernas vieram de cima e oito olhos encontraram os meus. Ela cheirava surpreendentemente bem, como se tivesse rolado em tulipas. Os pelos espetavam pra todo lado e os palpos se esfregavam, animados. Meus pulmões pesaram e meu coração disparou. A qualquer momento eu podia desmaiar de novo, mas, surpreendentemente, eu me mantive de pé.

— Como foi o trabalho?

— Trabalho? — eu disse, seco, com a voz rouca.

Ela continuou encarando.

— Ah… sim. O trabalho foi ok. Eu consegui terminar todas as minhas tarefas a tempo.

Ela fez um som de estalo que parecia uma risadinha.

— Fico feliz em ouvir isso.

A criatura subiu e foi até a cozinha. Com as pernas, abriu a geladeira e pegou alguns ingredientes. Pegou um copo do armário e colocou suco nele.

— Bebe. Eu vou fazer o almoço.

Tudo em mim dizia pra eu correr. Sumir daquele monstro gigante e me mudar. Eu não sabia se ela me seguiria ou se tentaria me matar antes que eu conseguisse sair. Era óbvio que a dedetização não tinha funcionado. Se aquilo fosse morrer, talvez tivesse que acontecer de outro jeito. Olhei pro lado e vi uma vassoura perto do armário. Ela estava mexendo no sanduíche de queijo quente no fogão, sem prestar atenção em mim. Eu me imaginei indo até a vassoura e batendo com força nela até ela parar de se mexer.

Só que não foi até eu ter a vassoura na mão que eu pensei no apartamento — ou melhor, no estado em que ele estava. As roupas dobradas e guardadas, a louça lavada, a cama feita. Um monstro não faria tudo isso, ainda mais por um estranho. Mesmo naquele momento, de um jeito sinistro, ela me serviu uma bebida, me deu boas-vindas e estava fazendo um sanduíche de queijo quente. E aquele sanduíche de antes tinha sido o melhor da minha vida. Apesar de todos os perigos possíveis em confiar numa aranha-caçadora gigante, eu sentei à mesa até o sanduíche ficar pronto.

— Foi você que arrumou minha cama e dobrou minhas roupas? — eu perguntei, quando ela colocou o sanduíche num prato limpo.

— Sim.

— Como você aprendeu a fazer tudo isso? E a fazer comida? — eu perguntei.

Ela veio e colocou o prato na minha frente. Eu peguei com cuidado e comecei a comer. A maravilha amanteigada e derretida me levou pro céu de novo.

— Eu vi na TV — ela disse, como se fosse óbvio.

— Faz sentido… — não fazia, mas eu realmente não sabia o que dizer.

Eu “empurrei” o sanduíche com o suco e tentei não olhar nos olhos dela.

— Bom, eu quero agradecer… pela cama, pelas roupas… e também pela comida.

A aranha ficou pendurada no teto à minha frente. Eu via pelo canto do olho. Ela não se mexeu muito, mas respondeu:

— Não. Obrigada a você.

Eu me virei pra ela com uma expressão confusa. Por que me agradecer?

— Você não me despejou. Eu vou ser uma boa colega de quarto.

— Colega de quarto?! — eu falei mais alto do que pretendia.

— Sim. Eu não posso te pagar, mas posso ajudar com os insetos, com as tarefas e com a comida.

O que estava acontecendo… eu não conseguia processar direito. Por algum motivo, essa aranha queria morar aqui e estava oferecendo ajuda no apartamento. Era loucura. Isso nunca daria certo, obviamente. Eu não posso ter uma aranha gigante no apartamento.

— Eu não sei se eu consigo te manter aqui… ahn…

— Mary.

— O quê?

— Esse é meu nome. Mary.

— Mary. Entendi… — eu tomei mais um gole do suco. — Olha, Mary, é só que… eu não tenho espaço e…

Eu tentei não deixar as presas dela entrarem no meu campo de visão; elas distraíam.

— Entende… eu não tô procurando colega de quarto agora. Eu não posso te manter aqui. Eu agradeço pela comida e pela… ahn… ajuda no apartamento, mas eu não posso ter uma colega de quarto.

Ela ficou em silêncio. Olhou pra mim e depois desviou o olhar. Pela primeira vez, os olhos dela não estavam cravados em mim. Ela… ficou envergonhada? Ou tava planejando me matar? Eu falei algo errado?

— Você é a primeira pessoa que não tenta me matar.

Que diabos ela tava dizendo? Eu queria ela morta na primeira vez que vi. Mas eu acho que eu realmente não tentei acabar com a vida dela.

— Eu tava esperando que, se eu fizesse um trabalho bom o suficiente, eu pudesse ficar. Eu não tenho problema nenhum em cozinhar pra você, arrumar sua cama ou dobrar sua roupa.

— Esse não é o problema… — eu respondi. Parecia que eu tava chateando ela. Por que eu me importava?

Ficar um mês inteiro sem baratas era muito bom. E a comida era bem feita. Embora eu tivesse a sensação de que ela só sabia fazer sanduíche de queijo quente. E, sinceramente, não faria mal ter alguém fazendo as tarefas por aqui; Deus sabe que eu quase nunca faço. Mas isso significava que minha colega de quarto seria uma aranha-caçadora. Bom… como dá pra ver pelo título, foi isso que acabou acontecendo. Eu não sei se eu fiquei com pena ou se eu genuinamente achei que seria uma boa ideia, mas no fim eu cedi. Esse foi meu segundo erro; o primeiro foi não ter matado ela desde o começo.

— Eu acho que eu posso deixar você ficar por um tempinho.

— Sério? Você tá falando mesmo? — ela virou pra mim e levantou duas pernas, toda empolgada.

Eu me encolhi, porque parecia que ela ia pular em cima de mim. Ela não demonstrou preocupação nenhuma com o fato de eu ainda estar morrendo de medo dela. Eu olhei pro outro lado e falei:

— Só por um tempo. Pensa nisso como um período de teste. Se você não fizer sua parte, eu vou ter que te despejar… entendeu?

Ela sacudiu as duas pernas no ar ainda mais frenética.

— Eu não vou te decepcionar!

Ela pulou com uma velocidade absurda e correu pra cozinha pra começar a lavar a louça.

Eu não sabia, naquela hora, o que o futuro guardava — e como seria muito pior do que eu poderia imaginar. Mas, por enquanto, tudo o que eu sabia era que eu tinha uma nova colega de quarto.

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