O cachorro morre no final dessa história, e eu odeio chamar aquela coisa de cachorro, mas era o que era. Um cachorro. Um bom menino. Eu o encontrei numa caixa do lado da lixeira onde eu estava catando trem naquele dia. Não tinha notado a caixa antes, mas quando saí com os braços cheios de comida "vencida" que ainda prestava, ouvi um latidinho fraco lá embaixo. Olhei pra baixo e vi o bichinho. Abanando o rabo com a língua pra fora, ofegante. Não era exatamente um filhote, era um vira-lata grandão, e ele foi logo esfregando a cabeça na minha mão.
Bom, eu não tava nem um pouco a fim de assumir um bicho inteiro quando mal conseguia me virar sozinho, mas ele me seguiu até em casa. Com a língua ainda pra fora e o rabo ainda abanando como se me conhecesse a vida toda. Quando chegamos no meu barraco quase em ruínas, ele disparou por entre as minhas pernas assim que a porta abriu. Farejou tudo e soltou aquele barulhinho suave e abafado. Não era exatamente um ofego normal, parecia mais com uma risadinha. Dava pra ver que ele tinha passado por muita coisa, com a pelagem arrepiada na maior parte do corpo e com a orelha esquerda quase toda destruída, aí eu joguei na conta de algum dano no focinho. Sei lá. Animais não eram exatamente permitidos nos apartamentos, mas nosso ganancioso senhor feudal não enchia o saco desde que o bicho ficasse quieto e você catasse a merda. Quando entrei atrás da coisa, tive que chutar um monte de lixo pra escanteio. Caixinhas de comida pra viagem, latas de cerveja, frascos de remédio, tigelas de papel, cara, minha vida é uma bagunça. Mas o cachorro não pareceu se importar, subiu de imediato no meu sofá e se instalou como se fosse a casa dele. Lembro de dar um sorriso torto e falar "Bom menino". Isso mandou o rabo dele numa frenesi de felicidade.
Ele era um cachorro tão bom, até hoje me dá aquele aperto no peito só de pensar e eu odeio isso. Mas ele era o mais bom dos meninos. Porra, isso eu odeio ainda mais. Mas não tem como minha cabeça enquadrar o que aquilo era de outro jeito. Era um Bom Menino. Um Bom Menino assustador, que te deixava ansioso até a medula. Quero acreditar que ele já foi um cachorro normal algum dia, e que alguém simplesmente tomou o corpo dele ou algo assim. Mas sempre que eu olhava nos olhos dele — olhos que definitivamente não pertenciam a nenhum cachorro — eu tinha a sensação de que ele era assim fazia décadas. Talvez mais, mas deixa eu voltar à história agora.
Ele me acordava lambendo a minha boca com aquele bafo horroroso enchendo meu nariz, bem mais cedo do que eu era acostumado. Só pra eu poder deixá-lo sair pra mijar. Eu ficava sentado nos degraus do prédio vendo aquela coisa farejar o pequeno pedaço de grama alta enquanto tomava um café irlandês horrível. Não importava o quão horrível fosse tudo ao redor, ele ficava contente. Contente porque era dele, era assim que ele via, tudo era dele. Agia e se movia como um cachorro normal, na maior parte do tempo. O primeiro sinal de que algo tava muito errado foi quando ele mordeu uma mina que eu tava afim na época. Ela já tinha vindo antes, não se importava muito com a bagunça, e pareceu animada em ver o cachorro. Ela foi acariciá-lo e ele desencaixou a mandíbula, ou a boca dele se abriu na vertical em vez de na horizontal, foi difícil dizer de onde eu tava. O maldito vira-lata arrancou dois dos dedos dela. Levei ela pro pronto-socorro. Ela nunca mais quis me ver.
Foi aí que as coisas realmente começaram a desandar. Cheguei em casa e encontrei o bicho do inferno tendo rasgado o saco de ração que eu tinha tão generosamente "emprestado". Joguei os restos na geladeira e fui dormir, cansado demais, me dizendo que limparia tudo de manhã. Ele ficou cutucando minha mão naquela noite, choramingando por algum motivo. Mal acordei, só registrei meio que no automático o narizinho frio dele esfregando nos meus dedos.
— Vai dormir — consegui resmungar, empurrando levemente a cabeça dele antes de virar de lado. Naquele dia ele ficou bem, talvez um pouco murcho, provavelmente porque não podia se empanturrar de ração de novo, e eu o levei pra passear. Ele latiu pra todo mundo que a gente passou, eu não aguentei. O passeio durou só tempo suficiente pra ele fazer as necessidades e eu o arrastei de volta pra casa. Adormeci olhando pra abrigos de animais no celular. Fui arrancado do sono de um jeito nada agradável mais tarde naquela noite. Barulho alto vindo da cozinha. Cara, ele tá na geladeira de novo, pensei, desesperado por aquela ração. Quando cheguei na entrada da cozinha fui recebido pela visão daquela coisa de pé com as patas pra trás, curvada à luz da geladeira aberta, enfiando ração pela goela escorrendo. Que porra mais eu poderia fazer além de gritar feito um louco? Doía olhar pra aquilo, tipo aquela dorzinha rápida que você sente quando pisca depois de ficar encarando o computador por tempo demais. Ele inclinou a cabeça na minha direção, me observando com olhos vazios até meu grito se transformar num engasgo rouco.
— Vai. Dor. Mir. — A voz não saiu exatamente da coisa, mas dava pra saber que era ela falando. Mesmo que fosse a minha própria voz que ela estava usando. Eu estava aterrorizado, eu estava impotente. Voltei pro quarto e deitei, na esperança de lembrar daquela noite como nada mais que um pesadelo ruim.
Ele me acordou na manhã seguinte lambendo meu rosto inteiro de novo. Com bafo de ração pesado no hálito. Comecei aquele dia batendo na porta do meu vizinho mais próximo com a intenção de me desculpar pelos meus gritos da noite anterior. Não gosto muito nem vejo muito os meus vizinhos nesse prédio, mas esse cara era gente boa e eu não queria que ele pensasse que eu tinha morrido ou coisa assim. Achei estranho ninguém ter vindo falar nada, nem mesmo o proprietário que uma vez me deu uma bronca por estar rindo alto demais. Quando conversamos, meu vizinho disse que não tinha ouvido nada na noite anterior. Então devia ter sido um pesadelo, né?
Mesmo assim, eu queria esgotar todas as possibilidades. Tentei pesquisar coisas tipo possessão em cachorro, mas ficava aparecendo só informação sobre alguma história da internet chamada "Long Dog" ou algo do tipo. Nada útil. O cachorro não reagiu a nada de exorcismo. Ele bebeu água benta de lambida, achou que minha cruz era um osso de brinquedo, não se abalou com nada. Mas eu via como ele ficava me espreitando pelos cantos ou de baixo da minha cama. Aqueles olhos malditos, aquela risadinha idiota, eu sabia que isso não era mais um cachorro normal. Sabia que precisava fazer alguma coisa antes que ele me matasse.
Esperei ele tirar um cochilo. Com a faca de cozinha na mão. A coisa estava roncando quando me aproximei com cuidado, passando por tudo na minha cabeça uma vez atrás da outra. Precisava ter certeza de que era isso que eu queria. Quer dizer, quem esfaqueia cachorro? Eu não queria esfaquear o meu cachorro, mas não — era exatamente isso que ele queria que eu pensasse. Ele queria que eu achasse que era um bom menino, um cachorrinho doce que raramente latia dentro de casa e só mexia na própria ração. Minha mão tremia, meu corpo querendo largar a arma pra eu cair de joelhos e dar uns afagos nele. Eu não podia deixar aquilo ganhar.
A lâmina afundou entre as omoplatas dele. Ele não acordou de imediato, e as costas dele não pararam de subir e descer com respirações tranquilas. Fiquei paralisado, me xingando mentalmente por ter machucado um animal indefeso, até que ele abriu os olhos. Minha mão soltou o cabo da faca imediatamente enquanto eu recuava tropeçando, meus medos se confirmando enquanto ele se levantava. Sua cabeça girou pra trás pra puxar a faca do próprio corpo, cada giro e inclinação arrancando um estalo úmido dos ossos, e então ele largou a lâmina aos meus pés.
Imediatamente chutei a faca pra longe enquanto o cachorro se espreguiçava no lugar dele no sofá. Se moveu quase como uma sanfona com a pele toda se alongando antes de estalar de volta no lugar. Meu corpo tremia enquanto ele trotava ao meu redor pra lamber minha bochecha, com a língua chegando até o meu ouvido, antes de ir até a porta. As costas estralaram quando ele se levantou pra desbloquear e girar a maçaneta. Na luz difusa do corredor ele olhou pra trás pra mim. Eu queria que aquilo simplesmente acabasse, queria que aquela porra simplesmente fosse embora. E foi. Ele saiu do meu apartamento, mas não sem antes me dizer duas últimas e repugnantes palavras de despedida: "Mau Menino."
Naquela manhã meu vizinho decente veio dar os pêsames. Perguntei por quê e ele me contou que viu meu cachorro atropelado por um carro.
— Do que você tá falando? — perguntei, minha cabeça incapaz de processar completamente o que ele estava me dizendo.
— Seu cachorro, cara, tava estirado no meio da rua quando fui jogar o lixo fora. Cena horrorosa demais. Você precisa ter mais cuidado com as portas, esses bichinhos disparam assim que têm chance. Que pena também. Ele parecia um menino tão bom. — Ele me desejou um dia melhor antes de voltar pro apartamento dele. Corri pra fora pra ver com meus próprios olhos, mas só encontrei uma poça de sangue seco. Qualquer corpo, se é que tinha realmente existido um, não estava em lugar nenhum.
Já faz algumas semanas. Juro que tenho ouvido latidos no meio da madrugada, mas não sei de onde estão vindo. No fim ficou grande demais e decidi quebrar o contrato e ficar na casa de um amigo até juntar dinheiro suficiente pra conseguir um apartamento melhor em algum lugar bem longe daqui. Meu vizinho me pegou no corredor enquanto eu estava mudando minhas coisas pro carro do meu colega. Ele tinha um cachorro no colo, tipo um Lulu da Pomerânia ou coisa assim. Jogamos conversa fora. Ele me contou que encontrou o cachorro atrás do prédio. Ficou com pena do vira-lata e trouxe pra dentro.
— Ele deve ter brigado ou algo assim — disse ele enquanto acariciava o bicho — a orelha esquerda dele sumiu e tem um corte feio nas costas.


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