quarta-feira, 4 de março de 2026

Para todas as partes de Julia que eu consigo alcançar

Eu te amo, e sinto muito. Eu sei que você tá puta da vida comigo, por isso quis me dirigir a tanto de você quanto eu consigo alcançar pra me explicar. Nossa comunicação sempre foi algo que a gente se orgulhava pra caralho, e eu não pretendo deixar essas circunstâncias fodidas mudarem isso.

Quando a gente se conheceu, eu percebi rapidinho que você era única. Você não era nem um pouco parecida com aqueles outros alunos de escrita criativa sem talento nenhum daquela faculdade, eu incluído. Seu trabalho fazia o meu parecer que inglês era minha quarta língua, quando na real era sua segunda. Sua prosa era tão lindamente sem esforço, tão eloquente sem nunca parecer metida ou enrolada. Além disso, você não tinha nenhuma vontade de se afundar na própria miséria romantizada como eu tinha me convencido que era necessário pra ser grande. Não é como se isso tivesse funcionado alguma vez. Eu não era nenhum Hemingway nem Bukowski, não importava o quanto eu tentasse fingir que era quando estava numa das minhas bebedeiras.

Você, por outro lado, era algo mágico. Você entrava em toda aula como se fosse o evento mais importante do mundo, mas falava com um tom tão naturalmente intoxicante que parecia mais coisa de papo de café do que de oficina de tese de conclusão. Você carregava sua alegria de viver bem na cara todo santo dia, com aquelas leves ruguinhas de sorriso provando que você era assim há muito tempo. Eu só entendi de verdade o que significava a palavra “prodígio” quando te conheci. Era como se criar fosse parte da sua essência, como se sintetizar e botar pra fora os mundos que existiam dentro da sua cabeça fosse tão natural quanto respirar. Você era um gênio sem nenhuma bagagem, alguém com um dom que ficava infinitamente animado pra dividir com o mundo.

Até hoje eu não entendo o que você viu em mim. Eu sempre achei que pessoas tão especiais quanto você naturalmente gravitariam umas pras outras, que vocês iam viver a vida de vocês em algum lugar bem longe de onde eu fosse parar. Acho que, no fundo, eu esperava que você me rejeitasse quando te chamei pra jantar pra falar sobre nossa escrita; fazia tempo demais desde meu último fracasso romântico pra eu conseguir tirar mais alguma poesia melancólica e vomitiva daquilo. Mas você aceitou, e antes que eu percebesse, a gente já tava se mudando pro nosso novo apartamento sem plano nenhum pro futuro e sem dar a mínima pra como a gente ia resolver isso.

Amar você foi uma faca de dois gumes. Por um lado, estar com você tornava absurdamente fácil eu me endireitar. Um único olhar preocupado daqueles seus olhos cor de avelã macios dava mais clareza de como mudar do que qualquer programa de doze passos poderia sonhar. Por outro lado, aqueles primeiros anos cristalizaram uma verdade que eu já sabia lá no fundo desde o primeiro dia que você leu seu texto em voz alta na aula: você era a coisa verdadeira, e eu não passava de uma imitação pálida. Você era uma das futuras grandes, e eu era só um amador derivativo que não reconheceria nuance de verdade nem se ela morasse comigo.

Embora fosse uma verdade amarga pra caralho de engolir, estar com você era milagre suficiente pra eu aguentar o soco no ego. Meu novo propósito virou nutrir o seu dom, garantir que você tivesse tudo pra produzir a arte que eu sabia que ia mudar o mundo. Guardei minhas próprias ambições e arrumei emprego numa agência literária. Era um trabalho com algum sentido, mas no fundo era só um meio pra um fim: manter um teto sobre a sua cabeça pra você poder criar sem nenhuma merda atrapalhando. Você protestou, disse que não era justo, mas eu não cedia. Eu finalmente estava sendo honesto comigo mesmo. Eu sabia que a coisa mais importante que eu podia fazer nesse mundo era deixar você desenvolver seu talento completamente.

Foi por isso que eu desmoronei quando você ficou doente. Você tinha sido minha razão pra continuar numa vida que, fora isso, era monótona e inútil. Eu te amava. Eu precisava de você. Seu declínio podia ser mais visível e doloroso, mas o meu era tão real quanto, e começou no exato momento que o médico leu o diagnóstico em voz alta. Parecia que todo dia me arrastava chutando e gritando pro fim do mundo. Quanto mais energia você perdia, quanto menos coerentes suas frases ficavam, mais eu perdia a vontade de lutar. Eu voltei a beber escondido, escapando pra bares nas raras noites que você conseguia dormir direto. Eu me odiava pra caralho por isso. Eu sabia que era exatamente quando você mais precisava de mim, mas eu perdia toda vez que tentava lutar contra minha natureza. Eu pertencia à sarjeta, e com você indo embora, eu sentia o puxão pra lá mais forte do que nunca.

Numa noite especialmente de merda, me vi numa parte perigosa da cidade, bêbado o suficiente pra começar a desabafar com um estranho sobre minha situação. Ele estava vestido bem demais pro lugar. Os traços dele eram afiados, quase geométricos demais pra um ser humano de verdade. Ele ficou sério me ouvindo, hesitante em interromper ou perguntar qualquer coisa. Esperou pacientemente enquanto eu fungava e chorava falando de você, de como eu tava apavorado de te perder.

Acima de tudo, eu lamentava o tamanho da tragédia que era um prodígio como você morrer antes de conseguir compartilhar seu dom com o mundo.

“Ela estava… ela estava só começando a fazer progresso nos sonhos dela. É que… ela realmente é especial pra caralho. O mundo precisa conhecer ela… eu queria que o mundo pudesse conhecer ela…”

Isso chamou a atenção do cara. Ele olhou direto pra mim, quase atravessando, e falou calmo:

“Eu posso te ajudar. Me segue.”

Eu segui ele até o que eu só podia imaginar que era o apartamento dele. Não foi a decisão mais inteligente, mas não era como se eu tivesse muito a perder. Era um estúdio pequeno com nada além de uma mesa de madeira ornamentada bem no meio. O cara sentou na cadeira e eu fiquei olhando tudo. Nas paredes tinha dezenas de diagramas geométricos estranhos desenhados com caneta preta grossa. Pareciam aquelas formas impossíveis dos livros de ilusão de ótica, me dando dor de cabeça só de olhar mais de dois segundos. Podia ser o álcool, mas aquilo me deixava inquieto pra caralho. Grades entrelaçadas de prismas triangulares, tentativas de formas em 4D, linhas que pareciam paralelas e perpendiculares ao mesmo tempo. Cobriam todas as paredes, algumas até subindo pro teto.

Em cima da mesa tinha vários mapas, desde o bairro onde a gente estava até o mapa-múndi inteiro. Do lado da cadeira dele tinha frascos com líquido multicolorido borbulhante, organizados em fileiras dentro de um recipiente gravado bem chique. O cara girou um dos frascos entre os dedos e começou a falar:

“Eu trabalho dividindo almas. Se o seu desejo é salvar essa mulher da destruição total e ao mesmo tempo compartilhar ela com o mundo, eu posso resolver.”

Eu olhei ele de cima a baixo. Com a mistura da minha concentração de álcool no sangue, aquele cenário esotérico e o jeito super direto dele, eu fiquei estranhamente convencido do que, em qualquer outro momento, seria considerado puro delírio. Mesmo assim, eu precisava saber mais.

“Almas? Como você divide uma alma?”, eu respondi finalmente, tentando (e falhando) não enrolar as palavras.

Ele pareceu um pouquinho irritado com a pergunta. Pausou, respirou fundo, como se fosse dar um discurso decorado:

“A sociedade quer que você acredite que existem coisas que fogem das operações matemáticas. Que certos aspectos da realidade não podem ser pensados em frações ou porcentagens. Que uma memória não pode ser cortada no meio. Isso é uma mentira deslavada. Tudo que existe é quantificável. Tudo no universo é divisível. Não importa o quão complexo ou metafísico seja, existem regras que podem ser aplicadas pra remover partes do todo maior. Através do meu conhecimento íntimo da geometria sagrada que sustenta a realidade, eu consigo explorar essa verdade e praticar a arte da divisão de almas. A alma — a amálgama psíquica de todo aspecto da essência de uma pessoa — é dissolvida na consciência coletiva da raça humana.”

O álcool fez eu demorar ainda mais pra processar aquilo. Fiquei quase um minuto inteiro ali parado. Minha resposta foi só uma palavra:

“Dissolvida?”

Ele largou o frasco que estava mexendo e virou toda a atenção pra mim. A voz continuava monótona, mas agora ele gesticulava:

“Correto. Pensa assim: uma alma é uma coagulação gigantesca de tudo que faz uma pessoa ser ela mesma e não outra coisa. Contém todo pensamento, memória, sentimento e característica física. É um oceano de individualidade. O que eu faço é dividir esse oceano em gotinhas individuais e adicionar uma gota em cada um dos outros oito bilhões de oceanos deste planeta. Todo ser humano vivo hoje vai receber uma fração de um em oito bilhões da alma dela… você incluído.”

Finalmente eu estava acompanhando. Admito que tinha me perdido um pouco nas explicações longas dele, mas quando comecei a juntar as peças, meu motivo pra estar ali voltou com tudo. Enquanto as engrenagens giravam, fiz a única pergunta que importava:

“Ela vai ficar bem?”

Outro olhar irritado, como se estivéssemos no roteiro de sempre.

“Ela vai se perder dela mesma. Todos os componentes individuais que formam quem ela é vão continuar existindo, mas espalhados entre toda a espécie dela. O navio de Teseu ainda existe se cada peça dele for usada pra consertar um navio diferente na Grécia? Ele ‘existe’, mas já não é mais um navio.”

“Por que caralho eu aceitaria isso?!”, eu rebati. Parecia que ele só estava oferecendo matar você antes do câncer. Eu não via vantagem nenhuma em relação a uma morte digna, por mais trágica que fosse.

“Porque a alternativa é obliteração”, ele retrucou. “A morte é absoluta. Tudo dela vai ser destruído. A divisão de almas garante que o que é único nela não se perca pro mundo. Eu estava com a impressão de que essa mulher era especial?”

Aquela resposta me pegou de surpresa. Foi aí que eu entendi de verdade o que ele estava oferecendo. Era assim que o mundo ia conhecer você. Você ia ser entregue pra humanidade inteira, seu gênio preservado e acessível. Você ia continuar vivendo como um milhão de faíscas de inspiração na cabeça de artistas medíocres que nem eu. O presente que você seria pro espírito criativo da humanidade…

“Vamos fazer isso”, eu soltei de repente.

Desculpa, Julia. Eu disse as palavras sem entender direito o que estava fazendo. Tinha dezenas de perguntas que eu deveria ter feito antes de brincar com a sua vida desse jeito. Eu só queria desesperadamente te manter aqui de alguma forma. Eu não aguentava te perder completamente.

O cara acenou com a cabeça, pegou o frasco de novo e começou a murmurar baixinho numa língua que eu nunca tinha ouvido enquanto virava o conteúdo nas mãos e esfregava. Era um líquido viscoso e brilhante que ficava cada vez mais prismático conforme ele espalhava entre os dedos. Depois de uns dez segundos, ele começou a passar as mãos no maior mapa da mesa — o do mundo inteiro. Os desenhos geométricos nas paredes começaram a brilhar fracamente enquanto ele cobria cada centímetro da Terra com aquele líquido agora espumante. O sussurro virou canto mais alto, e eu tinha certeza absoluta de que não era nenhuma língua que eu conhecia. Uns vinte segundos depois, acabou. Ele abriu uma gaveta, pegou uma toalha e limpou as mãos.

“Isso… é só isso? Você não precisa de nada meu?”, perguntei meio sem graça.

“Não. Você já me deu o suficiente no bar. O processo vai levar mais ou menos 24 horas. Pode ir embora.”

Fiquei ali mais um segundo antes de virar pra sair. Quando já estava na metade da porta, uma pergunta que eu deveria ter feito muito antes me veio à cabeça. Eu girei de volta:

“O que você ganha com isso?”

O menor sorriso possível apareceu nos lábios dele.

“Não se preocupa. Eu já fui compensado.”

Eu tentei com todas as forças me convencer de que aquilo não significava nada perigoso pra você. Mas no fundo eu sabia que sim.

“Mais alguma pergunta?”, ele perguntou, deixando claro que eu estava enrolando.

Só consegui pensar numa:

“Quem é você?”

Pela primeira vez o jeito frio dele mudou. Ele pareceu surpreso, como se não esperasse essa pergunta.

Pausou.

“Alguém muito longe de casa.”

Passei o dia seguinte inteiro do seu lado no hospital. Mesmo você tendo dito que estava se sentindo melhor quando acordou, lá pelo meio-dia você já estava delirando. Ficava falando das formas que via toda vez que fechava os olhos, e de como, a cada poucos minutos, um flash do ponto de vista de outra pessoa invadia sua visão. Partiu meu coração ver o medo crescendo devagar enquanto você tentava entender o que estava acontecendo. Você dizia que parecia que você estava sendo rasgada. Eu tentava me convencer de que era normal, que todo mundo via coisas assim antes de morrer. Mas não era luz no fim do túnel nenhum. De noite, as pontas dos seus dedos começaram a ficar borradas, como se a linha entre seu corpo e o quarto estivesse sumindo. Eu queria acreditar que era só minha imaginação, mas não conseguia. Eu sabia que tinha sido eu.

Você desapareceu no dia seguinte. Não morreu. Desapareceu. A equipe do hospital revirou o prédio inteiro, mas você não estava em lugar nenhum. Nenhuma câmera te pegou saindo. Fizeram boletim de desaparecimento, e eu até fui levado pra interrogatório. Mas me soltaram. Não tinha motivo nenhum pra eu fazer mal pra você se você já tinha só algumas semanas de vida.

Eu não saí do nosso apartamento por quase uma semana depois que voltei da delegacia. A culpa e o luto me prenderam na cama por dias. Mesmo se o que o cara fez tivesse funcionado, você ainda tinha sumido da minha vida. Eu nunca mais ia ouvir sua voz. E aquele medo nos seus olhos… eu simplesmente não queria encarar o que eu tinha feito com você. Não queria encarar o mundo que eu tinha jogado você dentro. No final, minha intuição estava certa. Eu tinha todo motivo pra ter medo.

Acabei tendo que sair de casa. A primeira vez foi só pra ir numa loja de conveniência perto, por pura necessidade. Ia pegar comida e bebida suficiente pra ficar mais uns dias trancado. A loja estava cheia — umas dez, quinze pessoas espalhadas pelos corredores.

Fui lá pros fundos pegar bebida. Enquanto olhava as opções, um cara a uns quatro pés de distância se virou pra mim. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundo. Ele se contorceu de leve e sussurrou duas palavras:

“Tenho que.”

Logo em seguida, uma mulher que passava atrás dele fez o mesmo e sussurrou:

“Quero.”

Eu assisti horrorizado enquanto aquilo se espalhava pela loja toda, as vozes se sobrepondo e ficando mais altas:

“Tenho que.”  
“Quero.”  
“Frio.”  
“Frio.”  
“Quero.”

Eu sabia que era você. Sabia que aquela era sua dor. Corri pra saída, mas uma velha frágil me agarrou o braço com uma força absurda. Ela abriu a boca e falou.

A voz dela… não, a sua voz… estava carregada de um veneno que fez meu coração afundar mais do que eu achava possível.

“Eu ia conseguir.”

Desde aquele dia eu não saí mais de casa. Não sei se você só conseguiu falar porque me viu, ou se a raça humana inteira está passando pelo que eu vi. Mas eu sei que você ainda tá aqui, e sei que você tá com raiva. Aquele homem, ou seja lá o que ele fosse, estava errado ou mentiu. Só posso imaginar que a ressonância entre os pedaços da sua alma quando eles se juntam tá criando uma espécie de proto-consciência. Você virou um fantasma incompleto, consciente o suficiente pra saber que algo tá profundamente errado. E mais que isso: você parece saber que a culpa é minha.

Toda noite na última semana eu tenho o mesmo sonho. Nele, estamos cara a cara num vazio completamente escuro. Você tá de camisola de hospital, me fuzilando com o olhar. Seus olhos são um redemoinho de azul, verde e marrom. Tem partes da sua pele na cor errada. Um brilho prismático sai do contorno do seu corpo. Você tá com raiva, mas acima de tudo tá apavorada. Me diz que eu preciso consertar isso, que algo terrível vai acontecer se eu não fizer. Antes de conseguir me contar o que é, seu corpo começa a se desfazer em formas abstratas. Seus ombros viram esferas que se viram do avesso, sua cabeça vira um cubo com ângulos impossíveis. Isso continua até seu corpo inteiro virar um fractal que engole o vazio todo. O fractal começa a gemer e se contorcer de agonia, sacudindo tudo ao meu redor. Antes de eu acordar, ouço a voz do cara do bar dizendo a mesma coisa de sempre:

“O sujeito está instável.”

Julia, por favor, escuta o que eu vou dizer. Eu te amo, e sinto muito. Eu tomei uma decisão no seu lugar que te transformou nisso, e agora você tá sofrendo por minha causa. Tenho pensado muito em nós dois desde que você se foi. Quando eu abandonei meus sonhos pra apoiar os seus, uma parte de como eu lidava com isso era te ver não só como minha parceira, mas como meu projeto. Eu me convenci de que, se conseguisse nutrir seu espírito criativo e deixar ele florescer completamente, de alguma forma eu poderia levar crédito pelos resultados. Acho que foi por isso que eu fiz o que fiz. Foi egoísmo puro, mas eu não conseguia deixar meu esforço ir pro ralo. Eu precisava ver até o fim, não importava o que isso significasse pra você.

Mas eu estava errado. Você nunca foi minha na época, e não pertence à humanidade agora. Você é sua. Desculpa por ter tirado isso de você. Saiba que eu vou consertar. Vou te juntar de novo.

E pra você, alma completa que está lendo isso, saiba que agora você carrega dentro de si um fragmento de alguém extraordinário. Talvez você esteja se perguntando o que significa ter ganhado uma fração de um em oito bilhões de uma alma humana. É impossível saber com certeza. Talvez agora tenha um pontinho cor de avelã nos seus olhos que você nunca notou antes. Talvez você saiba a palavra pra “cadeira” em francês e não tenha ideia de onde aprendeu. Ou talvez, hoje de manhã no banho, você tenha tido uma ideia de romance que acha que vale a pena explorar. Se for esse o caso, eu imploro: não desperdice. Leve até o fim. Por ela, não por mim.

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