Éramos três nessa viagem: meu amigo Marcus, minha prima Elena e eu. Fazia semanas que só falávamos em dar o fora da cidade, então acabamos escolhendo um parque estadual bem isolado, escondido no meio das montanhas. Era aquele tipo de lugar onde as árvores crescem tão juntas que o sol quase não toca o chão da floresta, deixando o ar com cheiro permanente de terra molhada e agulhas de pinheiro. Na hora, a ideia parecia tranquila pra caralho; hoje, olhando pra trás, queria que a gente nunca tivesse colocado o pé lá.
Dia Um
Chegamos no fim da tarde, depois de pegar uma estrada que serpenteava por quilômetros de mata fechada. Quando chegamos no acampamento, o céu já estava um laranja arroxeado atrás das colinas. Tinha só uns poucos campistas espalhados pelo lugar, e a maioria parecia que já estava recolhendo as coisas pra ir embora. Marcus brincou dizendo que praticamente a gente tinha o parque inteiro só pra nós.
Escolhemos uma vaga bem na beira da linha das árvores, onde a floresta parecia apertada demais. As árvores ficavam tão coladas umas nas outras que os galhos se embolavam como dedos esqueléticos tentando tampar o céu. Enquanto montávamos a barraca, Elena parou de repente e apontou pra dentro da mata.
“Vocês estão ouvindo isso?”, ela perguntou.
Marcus e eu paramos tudo pra escutar, mas não tinha porra nenhuma — nenhum pássaro, nenhum inseto, nem o barulho das cigarras. Só o assobio baixo do vento. A floresta estava completamente muda. Marcus tentou desconversar, dizendo que era só o horário, mas quando o sol afundou atrás das montanhas e a escuridão começou a preencher os espaços entre as árvores, o silêncio continuou lá.
Mais tarde, à noite, a gente estava sentado em volta da fogueira comendo miojo e batendo papo. Foi aí que ouvimos o primeiro barulho estranho: um som pesado lá no fundo da mata. Alguma coisa estava se mexendo, mas não parecia cervo nem galho balançando com o vento. O barulho era lento, pesado e intencional… exatamente como passos. Jogamos o facho das lanternas entre as árvores, mas só vimos troncos infinitos sumindo na escuridão. Marcus deu uma risada nervosa e falou que devia ser um guaxinim, mas no fundo todo mundo sabia que guaxinim não fazia barulho daqueles.
No fim o som parou e tentamos ignorar o desconforto pra dormir. Mas eu acordei no meio da noite com alguma coisa andando em volta do nosso acampamento. Ouvi passos leves circulando a barraca — crunch, crunch, crunch. Depois, uma voz falou.
“Marcus?”
Soava exatamente como a Elena, mas a Elena estava dormindo pesado bem do meu lado. Eu prendi a respiração e escutei a voz de novo, bem do lado de fora do tecido da barraca.
“Marcus… vem cá.”
Marcus sussurrou do outro lado da barraca, com a voz tremendo: “Isso não é a Elena.” Nenhum de nós mexeu um músculo. Depois de uns minutos que pareceram uma eternidade, os passos pararam e a coisa voltou devagar pro meio da mata.
Dia Dois
Nenhum de nós dormiu direito depois disso. De manhã, tentamos nos convencer de que era só outro campista de sacanagem, mas quando saímos da barraca o Marcus congelou. Tinha pegadas rodeando o acampamento inteiro… mas não faziam o menor sentido. Pareciam humanas, só que erradas pra caralho: os dedos eram compridos demais, o calcanhar era estreito de um jeito impossível e os passos estavam espaçados demais, como se a criatura tivesse uma passada que nenhum humano conseguiria dar.
Elena ficou branca e falou que talvez fosse alguém andando descalço, mas o Marcus só balançou a cabeça e apontou pro formato das pegadas. A gente seguiu a trilha por uns metros até ela sumir no mato. Foi quando vimos um cervo parado entre as árvores. Ele estava olhando fixo pra gente — sem se mexer, sem piscar, só observando. Marcus acenou a mão pra espantar ele, mas o bicho não reagiu.
Aí, bem devagar, o cervo se levantou nas patas traseiras. Os membros dele dobraram em ângulos que davam nojo, e o corpo parecia magro demais pra ser normal. Quando virou a cabeça pra nós, soltou um som que não era de cervo nenhum — parecia uma pessoa tentando imitar um cervo e saindo um barulho engasgado, quebrado. Elena agarrou meu braço e falou que a gente precisava voltar pro acampamento agora.
O resto do dia ficou estranho pra porra. A gente não parava de ouvir movimento na mata — galhos estalando, folhas farfalhando — e uma ou duas vezes escutamos nossos próprios nomes sendo chamados das árvores. As vozes soavam quase certas… mas nunca perfeitas. A gente decidiu que ia embora logo de manhã cedo, mas a floresta tinha outros planos.
Dia Três
A terceira noite foi a pior coisa que já vivi na vida. Por volta das 2h da madrugada, o Marcus me sacudiu pra acordar e mandou eu prestar atenção. Tinha alguma coisa do lado de fora da barraca de novo, mas dessa vez eram vários conjuntos de passos circulando a gente. Lentos. Pacientes.
Aí começaram os sussurros. A gente ouvia “Elena”, “Marcus” e meu nome sendo chamados nas nossas próprias vozes — cópias perfeitas. Um deles até soava igualzinho à minha mãe.
“Elena, abre a barraca”, a voz implorava.
Elena começou a chorar baixinho. De repente, alguma coisa encostou no lado da barraca e a gente viu dedos longos arrastando pelo tecido: scratch, scratch, scratch. Apavorado, o Marcus pegou a lanterna, abriu o zíper de uma vez e apontou pra fora.
Estava lá. Parado na beira das árvores. Alto pra caralho, com braços e pernas finos e tortos, como se tivessem sido montados do jeito errado. A pele parecia esticada direto nos ossos. E o rosto… ainda não sei descrever direito. Parecia que estava usando uma máscara feita de pele humana. A boca abriu devagar num sorriso largo e falou na minha própria voz:
“Não vão embora.”
Marcus gritou pra gente correr. A gente nem parou pra pegar nada — só agarrou as chaves e saiu correndo pro carro. Atrás da gente dava pra ouvir alguma coisa pesada arrebentando a mata numa velocidade absurda. A coisa corria paralelo a nós entre as árvores, acompanhando fácil.
A gente se jogou dentro do carro e o Marcus trancou as portas no exato segundo que alguma coisa pesada bateu na lateral do veículo. Elena gritou. Por uma fração de segundo eu vi aquele rosto colado no vidro, sorrindo pra mim. Marcus pisou fundo e a gente desceu a estrada de terra voando, fugindo do parque o mais rápido que o carro aguentava. No retrovisor, vi a coisa parada no meio da estrada. Não estava mais correndo atrás. Só olhando.
A gente nunca voltou pra pegar o equipamento de camping. Nunca contou pra polícia. Nem falamos sobre isso entre nós desde aquela noite. Mas às vezes, tarde da noite, eu juro que escuto passos lentos e pesados andando do lado de fora da minha casa. Toda vez que penso naquele parque estadual, lembro daquele sorriso… e tenho certeza de uma coisa:
Eu nunca mais volto lá.


0 comentários:
Postar um comentário