Pra ser bem sincero, o túnel em si não tinha nada de especial e era um desperdício total (isso é o que se espera na exploração urbana). Ele terminava num beco sem saída bem no fundo e não tinha absolutamente nada pra explorar além de entulho e destroços. Nem sei direito o que eu esperava encontrar lá, mas... bom, fiquei surpreso, embora não de um jeito bom. Nada nessa obsessão é agradável, nada mesmo. Melhor eu parar com essa merda logo.
O túnel era tipo uma garganta de concreto engolida pelo mato. Eu já estava uns oitocentos metros pra dentro quando o ar ficou visivelmente mais pesado e começou a cheirar a pedra molhada. A lanterna tava tendo dificuldade pra acompanhar, mas eu tinha bateria reserva suficiente e me sentia confortável o bastante pra avançar um pouco mais.
Numa reentrância na parede, encontrei uma porta pesada bem discreta. Parecia industrial, pintada naquele cinza-esverdeado feio pra caralho. No começo fiquei meio desconcertado, porque era uma coisa estranha demais pra achar num lugar daqueles. Mesmo assim, como eu estava ali pra explorar, resolvi dar uma olhada e empurrar ela. Levava pra uma sala suja com uma escada espiral de metal numa das extremidades.
Assim que entrei, fui recebido pelo cheiro de mofo nas paredes e musgo no chão molhado. Água pingava do teto, que parecia prestes a desabar bem na minha cabeça. Eu não tinha mais certeza do que estava fazendo naquele momento (nem de por que tinha ido até ali, pra começo de conversa).
Numa das paredes tinha uma pintura de um homem sombrio com olhos brancos e brilhantes. Parecia uma tentativa de assustar os covardes, mas eu não era um deles. Enquanto descia a escada enferrujada, meus ouvidos começaram a captar um disco de jazz arranhado tocando em loop em algum lugar distante, mas não tão longe de onde eu estava.
Embaixo tinha uma sala maior, que por sua vez tinha um corredor cheio de outras salas que não faziam o menor sentido. As paredes eram cinza sujo e o chão tava molhado com uma água turva. Tinha uma ventilação grande cortada numa das paredes. A música parecia vir de uma sala mais adiante no corredor, talvez até de algum lugar mais embaixo.
Curioso do jeito que eu sou, comecei a dar uma olhada rápida nas salas do corredor. A maioria estava completamente vazia, sem porra nenhuma dentro. Que diabos esse lugar podia ter sido? Algumas, porém, tinham uma mobília leve. Uma sala que chamou minha atenção tinha uma televisão antiga de tubo chiando com estática morta e um sofá colocado bem na frente dela, convenientemente.
O sofá tinha um padrão floral desbotado no tecido rasgado, e o fedor dele era insuportável. Só de ficar parado na porta da sala eu já fiquei enjoado. Senti vontade de cair fora, mas tinha alguma coisa naquele disco tocando em loop ali perto que me chamava pra ir mais fundo.
Outra sala, quase em frente à da televisão, tinha uma mesa de jantar vintage com seis cadeiras espalhadas em posições assustadoramente precisas. Uma dessas cadeiras balançou sozinha e caiu no chão, se contorcendo como se alguma coisa estivesse mexendo nela. Não acreditei no que meus olhos viram.
Eu não sou crente em paranormal, mas pode apostar que meu cérebro cético não conseguiu inventar uma explicação decente pro que aconteceu. Assustado, saí da sala pro corredor, e aí ouvi outra cadeira cair no chão. Não tive coragem de olhar de volta pra sala nem de voltar pelo mesmo caminho que entrei, não era seguro (e se tivesse um ocupante ilegal me seguindo?).
Eu sabia que podia ter ocupantes ilegais me observando, e tinha trazido um spray de pimenta bem forte pra me defender. Não podia carregar arma nem faca, porque isso podia me ferrar feio no lugar e hora errados. Decidi atravessar o corredor, mais perto de onde o disco estava tocando.
Eu estava bem perto. Quando virei a esquina da parede à minha esquerda, a lanterna bateu nele primeiro. Um homem, ou uma figura com forma de homem, sentado perfeitamente imóvel numa cadeira de jantar simples, de frente pra parede cinza de concreto. Ele estava olhando pro nada. O gramofone ficava numa mesinha baixa no canto oposto.
Eu congelei. Não conseguia entender direito o que estava vendo. O cara parecia não ter nenhuma característica humana e não se mexia nem um milímetro. Quanto mais eu focava na silhueta dele, mais o disco começava a desacelerar — distorcendo até o silêncio, como se estivesse lutando pra continuar tocando. Minha cabeça parecia fora do corpo quanto mais tempo eu ficava perto.
O silêncio foi seguido imediatamente por um apito agudo e ensurdecedor saindo de uma das ventilações grandes da sala. Parecia um daqueles apitos da morte usados pelos astecas. Soava como cem almas torturadas cantando uma canção de agonia amaldiçoadas a nunca chegar aos nossos ouvidos.
SKRREEEEE--------
Eu não queria olhar pra porta atrás de mim, mas também não queria tirar os olhos da figura na cadeira.
Mas meu corpo se mexeu sozinho. Meus olhos encontraram a silhueta de outro homem imóvel que estava meio escondido atrás da parede que ele tentava se ocultar. Apontei a lanterna pra ele. O cara estava pelado, e a pele parecia taxidermizada. Os olhos dele estavam virados de cabeça pra baixo em órbitas que pareciam vazias.
O apito gritou e soprou de novo, dessa vez mais perto. Senti um surto de pânico percorrendo o corpo inteiro. Desviei o olhar e me joguei na ventilação grande da sala pra escapar (foi o melhor que consegui fazer pra salvar minha pele). Mergulhei literalmente, ralando os ombros no metal serrilhado. Começaram a sangrar. Minha palma esquerda cravou num caco de metal aberto também, abrindo um corte que dificultou pra caralho eu continuar engatinhando.
Reuni todas as minhas forças. Eu tinha que sair daquele lugar. Atrás de mim, ouvi um barulho que parecia couro molhado batendo no chão. Logo depois veio um tapa-tapa-tapa frenético e ritmado de alguém, ou alguma coisa, engatinhando na ventilação atrás de mim.
Passei o que pareceu horas dentro daqueles dutos. No final, caí rolando numa sala que cheirava a carne morta e antiga. Tinha uma maca branca simples. Em cima dela, uma forma deitada coberta por um lençol fino e amarelado. Nem parei pra ver se o corpo estava fresco... só corri.
Dessa vez, na saída, encontrei uma saída diferente — um portão enferrujado que cedeu com o meu peso. Não parei de correr até bater na linha das árvores, mais perto da periferia da cidade. Fui correndo pra um pronto-socorro que não ficava longe, pra tratar os ferimentos que já tinham sangrado até secar.
Foi arriscado, mas consegui ajuda mais rápido do que esperava. Depois de algumas horas, eu estava em casa. Os cortes na minha pele ficaram cinza, e eu cheirava a poeira e podridão, mesmo tendo me lavado com várias soluções de sabonete.
Tenho notado que, de vez em quando, escuto o arranhar fraco de uma agulha de disco alternando nos meus ouvidos. Ontem à noite, depois do jantar, me peguei sentado tempo demais na mesa de jantar, perdendo a noção do tempo, só olhando pra parede vazia na minha frente. Não me sinto mais eu mesmo. Sinto que estou esperando alguma coisa chegar, mas não sei o que é.


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