Quando eu tinha 12 anos, durante uma excursão, o motorista do ônibus perguntou se a gente queria que ele contasse a história mais assustadora do mundo. A história que ele contou foi tão aterrorizante que fez todo mundo desmaiar. Depois, ninguém queria dizer do que se tratava. Só que era a coisa mais assustadora que qualquer um deles já tinha ouvido na vida. As crianças falavam disso aos sussurros. Em boatos. Mas ninguém nunca repetia pra mim, não importava o quanto eu implorasse ou suplicasse.
Eu era o único garoto no ônibus usando fone de ouvido, então não ouvi nada.
Eu tinha um Walkman novinho em folha (é, eu sou velho pra caralho). E enquanto todas as outras crianças estavam trocando histórias de terror, eu coloquei meu fone. Nem lembro mais pra onde era a excursão — museu de ciências? Enfim, era uma viagem longa pra uma dúzia de crianças.
O que eu lembro é de ver o motorista do ônibus (não era o nosso motorista normal, era um substituto só pra essa excursão) olhando pra nós pelo retrovisor e perguntando se a gente queria ouvir “a história mais assustadora do mundo”. Todo mundo gritou “SIM!!!” bem alto. E o motorista ficava insistindo que era assustadora demais pra gente. Acho que revirei os olhos, e lembro dele dizendo: “Essa história começa numa estrada municipal…”
Aí eu desliguei dele, aumentei o volume do Walkman e, quando a fita acabou, percebi que o ônibus inteiro ao meu redor estava em silêncio absoluto. Levantei a cabeça. Todas as crianças estavam boquiabertas, olhos arregalados. Virei no banco pro meu melhor amigo, Isaiah, que estava na fila de trás, e perguntei: “Ei, que porra tá acontecendo?”
Os olhos dele subiram e encontraram os meus. Ele fechou a boca, mas não disse nada.
“Tá tudo bem? Por que ficou tão quieto?”
Em algum lugar do ônibus, um sussurro. Algumas crianças da frente conversavam em tom nervoso. Acho que ouvi elas dizendo: “Não conta pra ele.”
Isaiah falou, com a voz completamente sem emoção: “Ele nos contou uma história assustadora.”
“Do que era?” perguntei, virando minha atenção pro motorista, que agora também estava calado, mãos no volante, sem dizer uma palavra, embora tivesse uma expressão estranha no rosto. Os olhos meio vidrados.
“Não posso te contar”, disse Isaiah.
“Por quê?”
Ele não respondeu. Ninguém respondeu. Era como se o que eles tinham ouvido tivesse aterrorizado tanto que os deixou travados no trauma. Congelados ali por essa experiência compartilhada, coletiva e horrível que eu, de alguma forma, tinha perdido. Não sei se você já andou num ônibus cheio de crianças em idade escolar, mas nunca fica quieto. Sempre tem falação. Mas naquele momento, fora o ronco do motor, dava pra ouvir um alfinete caindo no chão.
“Do que era?” repeti, mais alto.
Naquele exato segundo uma buzina tocou. Todo mundo agarrou os bancos quando um caminhão veio voando na nossa direção. Depois me contaram que o ônibus tinha desviado pra pista contrária. Os reflexos rápidos do motorista do caminhão e a manobra salvaram a gente de um acidente pior, mas o impacto matou o motorista do ônibus, deixou um aluno em coma, rodou o ônibus inteiro e derrubou vários de nós. Depois o boato se espalhou de que o motorista e os alunos tinham desmaiado por causa da história e foi isso que causou a batida. Enfim, lembro de voltar a mim no banco, me sentando, e vendo o céu azul lá fora. O dia parecia tão normal, exceto pelo vapor, ou fumaça, saindo do ônibus e do caminhão. Ouvi choro dos meus colegas de classe.
Alguns de nós foram pro hospital. O resto foi pra casa.
Dias depois, quando todo mundo já tinha voltado pras aulas, exceto o garoto que caiu em coma, perguntei pra uma colega: “Ei, Maria, você ouviu a história no ônibus, né?”
Ela estava rabiscando num caderno da aula de matemática, mas a caneta parou. Ela falou baixinho: “Sim…”
“Era realmente assustadora?”
Ela fez que sim com a cabeça.
“A história mais assustadora que você já ouviu?”
Ela fechou o caderno e mudou pra outra carteira, falando alto: “Não quero falar com você, Joshua.”
Vários outros garotos deram risadinha. Acho que minhas bochechas ficaram vermelhas. Eu não era exatamente um rejeitado social, mas também não era um dos populares. Tentei com outras crianças que tinham ido na excursão, mas nenhuma queria falar comigo sobre isso, nem meu melhor amigo Isaiah. Ele só ficava repetindo: “Não, cara, é assustador demais.”
Eu explodi: “Porra, cara, só resume se for tão assustador! Do que era, afinal?”
“Eu te conto quando eu tiver cinquenta e cinco anos.”
“CINQUENTA E CINCO?”
“Eu não quero nem pensar nisso! Mano, só deixa pra lá!”
A recusa dele quase destruiu nossa amizade. Mas no fim eu aceitei que ninguém ia me contar o que tinha traumatizado eles tanto assim.
É um mistério que me atormentou por décadas.
Só no ano passado eu encontrei uma nota no meu calendário do Google que eu aparentemente tinha feito como lembrete pra mim mesmo: “Aniversário do Isaiah — cinquenta e cinco.”
Eu entrei em contato, em parte pra desejar feliz aniversário, mas também pra perguntar se a gente podia se encontrar. A gente não se via desde o reencontro do ensino médio, e marcamos um café.
Quando cheguei, fiquei surpreso de ver os olhos dele vidrados e amarelados. Ele parecia bem mais velho que 55. Tentei esconder o choque, mas ele só sorriu e disse: “Câncer de pâncreas. Tenho uns poucos meses, provavelmente.”
“Ah”, eu disse. “Ah. Porra, me desculpa—”
“Você tá com cara boa, hein.” Ele levantou a xícara de café pra mim. “Parece que ainda tem quarenta anos. Como a vida tá te tratando?”
Puxei uma cadeira e contei que tinha casado e divorciado (“Igual eu”, ele disse), que era eletricista e às vezes escritor autônomo. Ele falou de reciclagem, hortas comunitárias, dos dois netos e de como tinha fundado uma organização sem fins lucrativos porque queria um mundo melhor pra eles. E quando eu comecei a relembrar dos tempos de escola, ele levantou a mão.
“Antes que você pergunte, não vou te contar aquela história do ônibus.”
“Mas—”
Ele balançou a cabeça. Me disse que todos os alunos que ouviram desejaram nunca ter ouvido — cada um deles.
“Confia em mim quando eu te digo — tô falando com amor — não pergunta. Se você ouvir, vai desejar que não tivesse ouvido. Irmão, deixa pra lá.”
Apesar da decepção, foi bom ver ele e botar o papo em dia. Também foi um dos adeuses mais tristes que eu já dei na vida, porque só de olhar pra ele eu sabia que seria o último.
Depois daquela conversa, finalmente aceitei que o mistério ia ficar sem solução.
Até ontem…
Ontem aconteceu por puro acaso.
Eu finalmente ouvi.
A história que o motorista de ônibus contou.
Eu estava num barzinho local e, de uma mesa ali perto, ouvi uma mulher dizendo: “… todo mundo contando histórias de terror, e o motorista falou: ‘Querem que eu conte a história mais assustadora de todas?’”
Na hora eu parei minha própria conversa e estiquei o pescoço pra ver quem estava falando. Era uma mulher de meia-idade, e no começo não reconheci ela na luz fraca do bar, mas conforme ela continuou falando eu percebi — Maria! Era a nossa Maria. Da última vez que eu tinha visto ela, tinha 12 anos. Ela tinha ido pra outra escola fundamental e médio que eu e o Isaiah. Mas naquele cabelo castanho cacheado e no jeito que a boca dela se torcia de lado quando falava… era ela com certeza. Ou ela tinha voltado pra nossa cidade natal ou, como eu, nunca tinha saído. Mundo pequeno!
A falação no bar estava alta. Perdi as próximas palavras dela.
“— você tá falando sério?” ofegou uma garota na mesa dela.
“É tudo verdade. O Shinji caiu em coma. O padrasto do Devon esfaqueou ele. A Mitsuko morreu no casamento dela quando o bolo foi esmagado na cara dela e uma das varetas atravessou o olho—”
Mais suspiros chocados.
“— tudo aconteceu exatamente como o motorista disse. O Isaiah tinha cinquenta e cinco anos quando o câncer pegou ele, e ele e eu fomos os últimos dois. Ah, mas a coisa mais louca: tinha um outro garoto no ônibus que não estava escutando.” A voz dela baixou, e eu tive que chegar mais perto, andando perto da mesa dela. “O motorista guardou ele pro final e disse: ‘O Joshua morre três dias depois que ouvir essa história.’ E aí o caminhão bateu, exatamente como o motorista tinha dito que ia acontecer logo no começo. E o coitado do Shinji caiu no coma dele. E aquele pobre garoto, Joshua… Joshua nunca parou de perguntar. Perguntava O TEMPO TODO. A gente brincava que se nunca contássemos pra ele, talvez ele nunca morresse—”
Um som engasgado escapou da minha garganta. A Maria levantou a cabeça e eu saí correndo, e acho que ela falou meu nome.
Isaiah, que descanse em paz, estava certo. Ele e os outros me protegeram todos esses anos.
Porra, irmão, você estava certo!
Queria nunca ter ouvido…


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