O ar quente e úmido de uma noite de início de primavera entrava pelas telas, carregando o cheiro de terra molhada para dentro da casa silenciosa.
Peter e eu estávamos acomodados no sofá; a sala era um cantinho aconchegante de luz âmbar e sombras suaves. Aproveitávamos a primeira oportunidade de abrir as janelas depois de um inverno especialmente rigoroso. Nós tínhamos comprado essa casa juntos recentemente — embora ela fosse dos meus pais, que queriam reduzir o tamanho da casa… mas, com essa economia, a gente seria idiota de recusar a oferta, apesar do trabalho que teríamos que fazer nela. A casa era mais antiga, mas, no geral, tinha sido bem cuidada. Um pouco de esforço e tinta, e a gente estaria com tudo em ordem.
Então era assim: a casa em que eu cresci seria o lugar onde Peter e eu, com sorte, um dia criaríamos nossos próprios filhos. Mas, por enquanto, estávamos dividindo um Cabernet barato, acompanhado de algumas fatias de queijo e linguiça defumada… um agrado para nos recompensar por termos consertado juntos aquele vazamento acima da varanda da frente e economizado uma boa grana por fazer isso por conta própria, com a ajuda de alguns vídeos na internet.
Peter parecia completamente à vontade, afundado nas almofadas de um jeito que deixava claro que ele não planejava se mexer pelo resto da noite. O cabelo escuro estava preso num coque bagunçado na nuca, e o maxilar dele estava escondido sob uma barba cheia, que só recentemente tinha começado a ganhar um toque grisalho.
Ele vestia um moletom enorme de um festival de música de verão a que tínhamos ido anos atrás. A barraca de produtos do festival tinha ficado sem o tamanho dele logo no começo da noite, mas a teimosia brincalhona e a recusa dele em ir embora sem aquela estampa específica fizeram com que ele saísse de lá com uma blusa de lã vários números maior. Praticamente engolia ele — e ele adorava. Era muito confortável, admito. Em mim, parecia uma lona de circo, de tão grande. Como ele não estava com nada por baixo do moletom, a tatuagem tribal no pescoço dele ficava totalmente à mostra: um desenho serrilhado de tinta do primeiro ano da faculdade, que ele diz que fez por pressão dos amigos, e que geralmente virava a piada principal das nossas brincadeiras particulares.
O controle da TV estava entre nós.
A gente estava no meio de um debate sem grandes consequências, tentando decidir se escolhia um filme novo ou se terminava de maratonar a última temporada daquele drama de vampiros — do qual a gente devia estar uns dez anos atrasado, mas amigos tinham recomendado, e acabou virando uma ótima desculpa para passar tempo juntos.
Falávamos com as vozes um pouco mais altas, talvez por causa das taças de vinho que tínhamos dividido, nos empolgando de verdade na discussão sobre a garçonete telepata versus um filme de época ambientado na Grande Depressão, que tinha ótimas críticas dos especialistas, mas que as redes sociais estavam detonando.
— Se for uma merda, a gente troca. Vamos dar uma olhada… você acha mesmo que robôs num algoritmo infinito sabem mais do que um crítico profissional? — Eu sempre gostei do interesse do Peter por filmes, e não consegui pensar em nada para rebater o ponto dele. Eu estava no meio de admitir que ele tinha razão quando…
De repente.
Sem um tremeluzir, sem um som, o mundo simplesmente deixou de existir. Uma explosão silenciosa e apavorante de luz branca detonou no centro da sala, mais intensa do que qualquer coisa que eu já tivesse imaginado. Era aquele tipo de brilho absoluto e cegante que eu associo a uma explosão nuclear — uma luz tão densa e pesada que quase parecia pressionar a minha pele. As paredes, a TV e o próprio ar se dissolveram numa única claridade pulsante, um clarão zumbindo que eu sentia vibrar na raiz dos meus dentes. Apertei os olhos com força, mas não adiantou. A luz atravessava minhas pálpebras, transformando todo o meu campo de visão num branco ardente, sem forma, sem contorno.
Então o mundo simplesmente se encaixou de volta no lugar. A luz sumiu tão instantaneamente quanto tinha surgido. A sala voltou ao seu brilho quente e familiar, exatamente como estava menos de um segundo antes. O abajur continuava aceso. A TV continuava emitindo seu zumbido baixo.
Fiquei imóvel, por um instante confusa e desorientada com a mudança abrupta. Me recuperei rápido, olhando ao redor enquanto as coisas familiares da minha casa me ancoravam de volta na realidade. Nada tinha mudado — mas alguma coisa tinha acontecido.
No impulso, estendi a mão até Peter, procurando o tecido macio e folgado do moletom.
— Amor, você viu isso? Que porra foi ess…?
Meus dedos encontraram apenas o couro frio e vazio do sofá.
Peter tinha sumido.
O pânico explodiu no meu peito. Eu chamei o nome dele, minha voz falhando dentro da casa silenciosa. Não veio resposta nenhuma da cozinha. Não veio som nenhum do corredor. Havia apenas o estalo da casa assentando e a batida frenética do meu próprio coração.
De repente, um som ritmado de batidas ecoou do fundo da casa. Alguém estava batendo na porta de vidro de correr que dava para o deque.
Eu me levantei com as pernas tremendo. Fui em direção à cozinha, com o piso de linóleo gelado sob os meus pés. As cortinas da porta de vidro estavam bem fechadas.
Com uma respiração entrecortada, estendi a mão e puxei o tecido para o lado.
Peter estava lá fora, no deque, como se nada tivesse acontecido — encostado no corrimão de madeira, tragando um cigarro eletrônico e mexendo no celular.
Eu encarei o aparelho na mão dele.
Peter tinha parado de fumar fazia quase cinco anos. Era uma conquista de que ele se orgulhava, algo que comentava com praticamente todo mundo que a gente conhecia. Quando foi que ele decidiu começar de novo?
Uma nuvenzinha de vapor cobriu o rosto dele por um segundo antes de se dissipar.
Eu recuei, minhas costas batendo na bancada. Era o rosto dele — mas o homem no deque era um estranho. A barba grossa tinha desaparecido. A pele estava lisa, recém-barbeada. O cabelo comprido e bagunçado tinha sido cortado bem rente, num corte militar; os fios escuros tinham sido substituídos por um loiro bem claro, quase chocante. Só então reparei que ele vestia uma camisa social azul, bem passada, abotoada, por dentro de um jeans rígido. Eram roupas que eu nunca tinha visto nele.
O mais aterrorizante de tudo era o pescoço. A pele estava pálida e lisa, sem marca nenhuma. A tatuagem tribal tinha sumido.
Eu destranquei e abri a porta só uma fresta. Minha voz saiu num sussurro quando perguntei quem ele era e o que tinha feito com o meu marido, minhas mãos tremendo enquanto eu segurava a porta.
O homem me olhou com confusão genuína. Deu mais uma tragada no cigarro eletrônico e perguntou do que eu estava falando. Disse que só tinha ido levar o lixo até a rua, como eu tinha pedido, antes de a gente começar o próximo episódio da nossa série.
Dando um passo à frente, ele foi até a maçaneta, com movimentos casuais e calmos.
Eu gritei perguntas na cara dele. Exigi saber para onde tinha ido a tatuagem. Perguntei por que o cabelo dele estava amarelo e curto. Eu chorei enquanto descrevia o moletom gigante e a calça de pijama que ele estava usando minutos antes. Acima de tudo, eu apontei para o cigarro eletrônico, lembrando ele dos cinco anos desde que tinha parado.
Colocando a mão entre o batente e o vidro, me impedindo de bater a porta com força, Peter entrou pela porta e veio para a cozinha. Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido. Disse que eu estava falando um monte de absurdo. Afirmou que nunca tinha tido tatuagem na vida. Passou a mão no cabelo loiro raspado e perguntou se eu estava bem. Olhou para o cigarro eletrônico na mão dele como se aquilo fosse tão natural quanto os próprios dedos.
O desespero me empurrou até a mesa de centro. Eu recuei correndo da cozinha e peguei meu celular, abrindo as redes sociais o mais rápido possível. Eu precisava ver a vida que a gente tinha construído. Abri nosso álbum de casamento de sete anos atrás e fui passando freneticamente.
Eu parei de respirar.
Nas fotos, de pé no altar, de smoking, estava o homem loiro, de rosto liso. Passei para a foto do nosso primeiro encontro na feira do condado. Lá estava ele, comendo algodão-doce, o pescoço à mostra e o cabelo curto. Abri uma foto borrada de uma festa de quase dez anos atrás. O homem na foto era exatamente o mesmo homem que estava em pé na cozinha — só que sem os quilinhos a mais que homens casados costumam ganhar.
Não havia nenhum sinal do cabelo escuro. Não havia vestígio de barba. O homem que eu lembrava — o homem que estava sentado no sofá trinta segundos atrás — tinha desaparecido. Eu levantei os olhos da tela, e o estranho loiro deu um passo na minha direção. Os olhos dele estavam cheios de uma pena curiosa e gentil. Ele estendeu a mão, chamando meu nome baixinho; a voz dele vinha carregada de preocupação, não de raiva.
Então eu olhei para as fotos do casamento que a gente tinha emoldurado atrás da TV. Era eu, no meu vestido de sempre — que eu tinha escolhido com a minha melhor amiga depois de um brunch de mimosas sem fim — e lá estava o homem que parecia o Peter, com o cabelo loiro curto, sorrindo ao meu lado. Outra foto mostrava a gente montados a cavalo, quando visitamos o rancho do tio dele no Colorado… um homem loiro, sem barba, sorrindo atrás de óculos escuros enormes, usando um chapéu de aba larga; eu atrás, com os braços em volta da cintura dele… eu nunca tinha montado num cavalo antes daquele dia e insisti para eu e o Peter irmos juntos porque eu estava com medo de cair.
Minha visão começou a girar.
Eu saí disparada. Passei por ele no impulso, minhas meias escorregando no linóleo enquanto eu virava a esquina em direção à escada. Voei para o nosso quarto e bati a porta, girando a trava da maçaneta com um estalo metálico seco. Sentei na beira da cama, ofegante, com a respiração vindo em arrancos, e liguei para a minha mãe.
Minha mãe atendeu no terceiro toque, com a voz pesada de sono.
— Sarah, o qu…
Eu a interrompi, exigindo que ela me dissesse de que cor era o cabelo do Peter.
Houve um silêncio longo e confuso do outro lado. Minha mãe perguntou do que eu estava falando. Disse que era loiro, obviamente. Perguntou se eu estava fazendo uma piada às custas dela, claramente irritada por eu ter acordado ela por causa do que ela achou que era uma pegadinha. Eu amo a minha mãe, mas ela sempre foi um pouco rígida no jeito. Ela nunca faria um truque comigo de propósito, nem se esforçaria para ajudar em brincadeiras desse tipo. Ela não é do tipo que entra em joguinho ou besteira.
Eu encarei a porta do quarto trancada, o celular escorregando da minha mão. Me afastei da porta, a visão embaçando de lágrimas. Do lado de fora, no corredor, as tábuas do assoalho gemeram sob um peso familiar. Em seguida veio o som da maçaneta de metal balançando — um chacoalhar agudo, ritmado.
Meus olhos foram para a foto minha e do Peter na nossa viagem para Saint Maarten: nós dois posando — mal — numa praia, enquanto um avião a jato passava por cima da gente, se preparando para pousar. Eu segurava meu chapéu de sol enorme para ele não sair voando com a força do motor, e lá estava o Peter com a pochete que ele comprou porque tinha medo de batedores de carteira, um braço levantado para o céu, apontando para a barriga do avião, o outro me segurando; sorrindo com cabelo loiro e o rosto barbeado, protetor solar cobrindo o nariz.
A voz do Peter atravessou a madeira, baixa e cheia de gentileza.
— Sarah, por favor — ele disse. — Só me deixa entrar.


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