quarta-feira, 11 de março de 2026

Não consigo parar de pensar em como meu marido diz que vê duas de mim...

São 2 da manhã e meu bebê está dormindo no meu colo, a respiração dela tão leve e doce que eu tenho medo até de me mexer, e eu me pego pensando em como meu marido diz que vê duas de mim. Eu tenho pensado muito na outra ultimamente. Na outra eu.

Talvez seja a privação de sono. Todo mundo avisa sobre aqueles primeiros meses (ou anos?) com um bebê — os despertares constantes, as mamadas no meio da noite, o balançar, balançar, balançar pra fazer dormir. Aqui estou eu, com medo de me mexer, medo de piscar, medo de respirar. Se ela acordar, começa tudo de novo: mamar, cantar, contar de trás pra frente de cem até zero na minha cabeça pra ter certeza absoluta de que ela pegou no sono de verdade e eu posso parar de balançar.

Meus olhos já se acostumaram com todas as variações de preto que enchem o quarto dela (que antes era o meu estúdio, ai como eu sinto falta do meu estúdio). Consigo ver a mãozinha minúscula dela como se a luz viesse de dentro dela mesma. Os cílios descansando na bochecha. Meu mundo inteiro aqui no meu colo. Não faz tanto tempo assim que ela estava dentro de mim, essa mesma pessoa, só uma camada fina de pele separando, com cotovelos pontudos e joelhos afiados como faca. Ela é o meu mundo inteiro. E o que era o meu mundo antes? Eu tinha uma vida que não girava em torno dela, mas agora não sobrou espaço pra nada. Foi tudo empurrado pro fundo do armário e enterrado embaixo de paninhos de boca e brinquedos de banho.

Mais cedo eu vi alguma coisa no canto — um deslize escorregadio —, mas quando olhei melhor percebi que era só o saco de dormir pendurado na porta do armário. Tenho feito isso bastante ultimamente… ver alguma coisa pelo canto do olho e depois descobrir que não era nada. Até de dia. E no meio da noite, quando não consigo dormir, tenho começado a pensar em como o Rick diz que existem duas de mim.

A primeira vez que aconteceu foi há vários anos. Estávamos de férias e ele tinha acabado de me dizer que me amava. Meu marido nem era meu namorado ainda, só um cara que eu queria conhecer de todas as formas possíveis. Um mês antes, quando eu estava fora da cidade a trabalho, a gente se conheceu num app, tomou uma cerveja e descobriu que trabalhava na mesma empresa. Parecia ao mesmo tempo uma idiotice e coisa do destino. O fato de eu e o Rick trabalharmos juntos deu pro nosso quase-namoro um começo sexy e secreto que fazia cada olhar parecer proibido e cada beijo roubado uma explosão.

Depois de um mês eu voltei pra casa e a gente percebeu que sentia falta um do outro. Decidimos nos encontrar no Havaí por uma semana — ideia que minhas amigas acharam irresponsável, pra não dizer completamente pirada. Eu já estava me apaixonando pelo Rick, então o ar com cheiro de abacaxi e café de Maui, a água do mar na temperatura do corpo, os mai tais sem fundo me fizeram despencar do precipício. Eu me sentia segura com o Rick, docemente calma e confiante na gente, feliz pra caralho de um jeito todo bagunçado. O sexo era incrível. Tudo era suave, cheirando a protetor solar e raspadinha de gelo.

A gente estava hospedado numa casinha pequena a uns dois quarteirões da praia. Ficava no terreno de uma casa maior ocupada por um casal que abria latão de cerveja antes do café da manhã e tinha aqueles sorrisos iguais de abóbora de Halloween. Naquela primeira noite, quando voltamos de uma noite de rum, sashimi, beijos cheios de vontade e pôr do sol, eu me peguei olhando embaixo da cama e atrás da cortina do chuveiro. Empurrei o trinco de segurança, com medo dos vizinhos sem motivo nenhum, mas esqueci a ansiedade rapidinho quando o Rick chegou perto e tirou o cabelo da minha testa. Mal sabia eu que a ameaça não vinha de fora. Antes que eu percebesse, a gente caiu na cama, roupas esquecidas no chão frio de azulejo.

Não sei que horas eram naquela primeira noite quando eu acordei. Estava um breu total e eu precisava fazer xixi. Os suspiros profundos do Rick bagunçavam os cabelinhos da minha nuca e faziam meu coração bater mais rápido. Dava pra ver um fiozinho de luar embaixo da porta do banheiro. Saí do calor dele, meus pés atravessaram o azulejo gelado. Fechei a porta atrás de mim, fiz xixi com gosto de piña colada, limpei, dei descarga. Fiquei olhando meu cabelo de sexo no espelho e sorri pra mim mesma.

Apaguei a luz e captei um movimento pelo canto do olho.  

Porra! Que porra é essa?

Era eu. No espelho. Eu parecia diferente no escuro.

Saí do banheiro e fui me esgueirando pra cama. Foi aí que eu ouvi. Movimento. Um farfalhar frenético.

O Rick esbarrou na mesinha de cabeceira, tateando atrás do abajur. Acendeu a luz e eu vi ele sentado na cama, me olhando em puro terror.

“Onde você estava?”, ele perguntou.

“Eu estava no banheiro.”

Ele olhou pro meu lado da cama. Os olhos dele vasculharam o quarto, procurando alguma coisa. Eu não consegui evitar e olhei também, forçando a vista nas sombras. Não dava pra saber se ele estava realmente acordado, parecia com os olhos vidrados e a boca aberta.

“O que foi?”, perguntei. Parte de mim queria ir até ele, colocar a mão nas costas dele, confortar. Outra parte queria recuar, voltar pro banheiro e trancar a porta.

O Rick se levantou, tentando montar um quebra-cabeça quando claramente faltavam peças.

Ele disse: “Eu acordei e você estava sentada na cama, sorrindo pra mim. Como se estivesse me observando dormir.”

Ele viu o olhar no meu rosto. “Tô falando sério. E aí eu ouvi a porta do banheiro e virei e você estava saindo do banheiro. Olhei de novo e você ainda estava lá, na cama. Sorrindo pra mim. Eu até pensei que a que estava saindo do banheiro era coisa da minha cabeça porque você estava tão real. Bem aqui do meu lado.”

Eu olhei pro lugar ao lado dele. Não tinha ninguém.

Meu riso saiu oco: “Você estava sonhando.”

“Não, eu não estava.” A voz dele estava pesada. “Eu não estava.” Ele olhou pra mim, olhou através de mim. “Tinha duas de você.”

“E aí o que aconteceu?”, perguntei.

“Nada. Eu acendi a luz e…” Ele para no meio da frase, olha o quarto mais uma vez. “Devo ter sonhado.”

Eu ri dessa vez com mais vontade. Ele balançou a cabeça, mas um sorriso apareceu na barba. Abriu os braços e eu me enfiei no calor sonolento dele. A gente começou a se beijar e a outra eu foi rapidamente esquecida.

Acabei de ver de novo agora, enquanto estava digitando isso. Um leve movimento pelo canto do olho — tipo uma sombra passando do lado de fora da janela, jogando sua escuridão escorregadia na parede perto da estante cheia de bichinhos de pelúcia e sapatinhos minúsculos. Aquela estante antes guardava coisas de adulto, coisas de arte, coisas da vida que eu tinha antes dessa criaturinha minúscula vir pro mundo. Eu me inclinei pra frente, apertando os olhos na escuridão leitosa, mas o quarto está vazio. O corpinho quentinho no meu colo está se mexendo e soltando uns barulhinhos baixinhos, tipo ar saindo devagar de um balão.

Vou tentar a temida transferência pro berço e ver se consigo dormir um pouco hoje à noite. Porque eu não tenho dormido quase nada. E sono é importante. É só no meio da noite, quando estou amamentando ou balançando, balançando, balançando, que eu penso na outra eu.

Ou na coisa que eu nunca contei pro Rick. Que ele não foi o primeiro namorado a ver ela.

Se isso já aconteceu com mais alguém, eu adoraria saber. Às vezes fica tão solitário aqui, nessa cadeira de balanço.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon