quinta-feira, 12 de março de 2026

A Poça

Um buraco na rua. Feio. Redondo. Irregular. E miasmático. Bem no centro do beco estreito que eu atravessava todo santo dia voltando do trabalho pra casa. No escuro, cercado de sujeira, latas de lixo transbordando, cães vira-latas e bosta de vaca mofada espalhada por todo lado, a poça quase se camuflava na planura do asfalto. Se a pessoa fosse míope ou tivesse qualquer problema de visão, mal dava pra desviar o pé e não cair dentro dela, virando vítima na hora. Eu apostaria que ninguém além de mim usava aquele beco maldito. Eu tropeçava nela todo dia desde a primeira vez que a vi, o que calculo que foi há cerca de três semanas. Quando a encontrei pela primeira vez, ela mal tinha cerca de quatro polegadas de diâmetro.

Qualquer um pensaria, e com razão, que eu sou louco. Mas não sou, fica entendido. Não estou inventando romance nem alimentando fantasia nenhuma. Só estou confessando a verdade pura quando digo que a poça parecia crescer. Ela ficava cada vez mais larga conforme os dias passavam. A borda dela se estendia mais e mais a cada hora que sumia no poço do tempo. A água parada e mofada que nadava embaixo — aquele foco nojento de casulos pestilentos — ficava mais grossa e mais fedida quanto mais olhares eu lançava pra dentro dela. Aquilo me fascinava pra caralho. Eu sonhava com ela. Sonhava que criaturas celestiais, não infernais — ninfas e fadas — subiam dela pra me convencer a mergulhar junto e morar com elas num lugar onde eu podia me empanturrar de néctar e ambrosia.

Todo dia, quando passava pelo beco, eu parava na beirada da poça e ficava olhando o reflexo distorcido do meu próprio rosto na superfície da água antes de seguir em frente. Nos primeiros dias eu simplesmente dava um passo por cima. Depois, quando ela foi abrindo a borda, eu tinha que contornar. E quando finalmente cresceu tanto que engoliu o beco inteiro nas asas dela, pronta pra engolir o céu também, eu era obrigado a me esgueirar grudado nas paredes dos dois lados. Eu sabia que tinha outro caminho até minha casa — um atalho —, mas nunca pegava porque, olha só, eu estava fascinado pela poça.

Então, no fim da segunda semana, quando entrei no beco e vi que ele estava completamente engolido pela poça, senti um cheiro estranho. Um cheiro que eu não conseguia pescar de jeito nenhum na minha memória. Mesmo assim, vou tentar descrever com palavras, por mais fracas que sejam: tinha um toque de bicho-da-seda cozido, com um leve salgado; mas o principal era o cheiro de uma garota. Eu conseguia imaginar. Uma garota linda, virgem, de cabelo preto como carvão e pele morena dourada, com no máximo dezessete anos. Dei dez passos pra frente, parei na borda irregular da poça e fiquei olhando a água embaixo. A água borbulhava e fervia por todo lado, como se tivesse fogo se mexendo debaixo dela, soltando colunas de vapor que batiam direto no meu rosto. Fiquei ali, pregado no lugar, com a fala roubada pelo que estava acontecendo.

Não sei quantos minutos ou horas se passaram até eu perceber um movimento fraco na superfície. Uma leve saliência pra cima. Um tremor. Depois vi uma cabeça, preta como carvão, emergindo devagar, com uma testa morena e lisa. A cabeça subiu mais e logo me mostrou um rosto mais feio que uma gárgula. Ela me encarava com aqueles olhos feios, sem fundo, vazios, de coruja. Vazios. Literalmente vazios. Não tinha pupila, não tinha íris, não tinha retina, só uma bacia escura e profunda de cada lado da cara.

Meu corpo tremeu inteiro. Meus dentes batiam. Mas eu continuei ali. Olhando. Só olhando. Os braços escaldados da criatura dispararam de dentro da água e agarraram meus tornozelos. Por um minuto eu não fiz nada, só fiquei parado com os olhos bem fechados. Depois abri os olhos e comecei a chutar as pernas contra a coisa. Bati na cara e nos braços dela, esmaguei com minhas botas até pedaços de carne sujarem a barra da minha calça e a água ficar vermelha no meio do marrom. Aí me soltei com força, girei o corpo e saí correndo pelo mesmo caminho que tinha vindo.

Corri e corri, pingando suor, ofegando até a garganta doer, olhando pro céu estrelado acima de mim, e cheguei em casa pelo atalho que eu já devia ter começado a usar há muito tempo. Me joguei na cama. O sono me pegou quase na hora, e depois, eu acho, desmaiei dormindo, porque no dia seguinte acordei meio-dia. Nem lavei o rosto, nem escovei os dentes, só ajeitei o sobretudo e saí correndo de casa direto pro mesmo beco e pra mesma poça que tinham causado meu delírio. Por que corri pra lá? Não sei dizer. Minha mente puxava minhas pernas por conta própria.

Eu manquei, escorreguei, tropecei e cambaleei enquanto o sol fraco de fim de janeiro suavizava suavemente as minhas veias trêmulas, e finalmente cheguei no lugar do meu tormento. A poça estava isolada por uma fita amarela por todos os lados, policiais espalhados em volta, e vários moradores murmurando e lotando o beco inteiro. A poça tinha encolhido de volta pro tamanho original, a água não borbulhava nem fervia mais; e uma garota, de no máximo dezessete anos, estava enrolada na beirada, vestindo um vestidinho rosa de seda rasgado, com os braços escaldados e o rosto esmagado tão brutalmente que mal dava pra reconhecer. Mas eu reconheci. Reconheci sim. Era minha filha. Desaparecida há meses. Agora murcha e encolhida. Morta. Com um monte de moscas domésticas zumbindo em cima das feridas em decomposição.

Fim

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