quinta-feira, 12 de março de 2026

Eu criei um jogo que destruiu o mundo...

Estamos todos condenados. Vocês só ainda não sabem. Nosso mundo está se desmoronando devagarinho, igual ao fígado de um velho alcoólatra.

Não importa se vocês acreditam em mim ou não, esse processo já não pode mais ser parado. Mas se ainda precisam de prova, é só prestar mais atenção.

Os sinais estão em todo lugar, e qualquer pessoa atenta já consegue ver a confirmação das minhas palavras no mundo ao redor.

As erupções solares estão acontecendo com mais frequência, a flutuação da ressonância de Schumann está ficando mais intensa e eventos estranhos e inexplicáveis estão aparecendo cada vez mais. Tenho medo de que eu seja o responsável por ter começado todo esse processo.

Desde criança eu amava histórias de terror, filmes de terror, tudo que tinha a ver com horror.

Nem sei direito por que eu era tão atraído por isso, ainda mais porque eu nem ficava com medo! Pelo contrário, eu encontrava um certo conforto e alívio naqueles mundos melancólicos, sombrios e apavorantes.

Por um tempo eu tentei achar o filme, o jogo ou a história mais assustadora que existia, mas sem sucesso. Mesmo assim, eu curtia demais o processo, só que nada nesse mundo conseguia me assustar de verdade. Até eu parar na UTI.

Aí sim foi terror de verdade. Era um hospital perdido no meio do nada, os médicos eram praticamente analfabetos e o lugar não tinha um puto de dinheiro. Eu estava cercado por paredes caindo aos pedaços e a comida era uma papa de batata cheia de barata.

Os pacientes andavam pelos corredores arrastando sacos cheios de sangue; eles tentavam usar ultrassom pra esmagar pedras nos rins, mas os enfermeiros locais, que pareciam lobisomens, acabavam esmagando os rins inteiros.

E o meu colega de quarto tinha um cateter improvisado com torniquetes e seringas porque não tinha os de verdade.

Enfim, nem sei como eu saí vivo daquele hospital. Provavelmente tive sorte porque não tinha nada grave comigo e as pedras saíram sozinhas. Mas essa experiência me marcou tão fundo que eu decidi que era hora de fazer alguma coisa na vida, de deixar uma marca nesse mundo.

Eu já tinha feito jogos de terror antes, mas nada em grande escala. Eram historinhas pequenas com uma audiência pequena, mas agora eu queria criar algo realmente significativo, algo que refletisse todo o meu amor pela cultura do horror.

O horror definitivo, que juntasse todos os elementos de diferentes gêneros!

Mas como diabos eu ia combinar tudo isso?

Aí eu entendi: eu precisava criar um sistema operacional de terror que contivesse jogos diferentes, histórias e arquivos de mídia. Um portal pro inferno de verdade.

Pro design, comecei a usar símbolos reais de magia antiga. Na área de trabalho, a Chave de Salomão girava, um círculo pra invocar demônios.

O logo principal é o Dingir. O símbolo sumério pra “deus”, e virou o nome oficial do meu jogo.

Dingir OS.

Nesse ponto, esse nome já estava queimado no meu subconsciente.

Dingir OS… Dingir OS… Dingir OS… Eu repetia isso todo dia que nem um mantra.

Eu preciso terminar o Dingir OS. Virou minha obsessão.

Dia e noite eu ficava grudado no computador, criando os arquivos amaldiçoados, as imagens e os sons que iam encher esse sistema.

Sem IA. Tudo tinha que ser real. Por trás de cada arquivo amaldiçoado tinha uma história escrita por mim.

Eu ficava no PC até ficar tonto. Doze horas por dia, moldando os órgãos desse monstro digital com meu sangue e meu suor.

Eu também criei outros personagens — pessoas que supostamente estavam jogando o Dingir OS. Escrevi as histórias e biografias delas, tentando fazer parecerem reais pra caralho.

De noite eu acordava a cada duas horas e anotava ideias novas, que eu já começava a implementar de manhã.

Até que um dia… eles vieram até mim.

Em um sonho, os personagens do Dingir OS que eu ainda nem tinha escrito apareceram na minha frente. Almas presas dentro do sistema. Começaram a me dar dicas de como organizar as coisas, que novas funções eu devia adicionar.

Seis meses se passaram e eu lancei a primeira demo.

Não muita gente jogou. Foram só umas cem downloads, mas já foi o suficiente…

Uma semana depois, quando abri o Dingir OS de novo, vi que tinham sido adicionadas histórias novas, anomalias novas, retratos que eu nunca tinha colocado.

Naquele momento, claro, achei que eu estava enlouquecendo de tanto trabalhar.

De noite, os espíritos do Dingir OS voltaram. Eles me pressionavam, me forçavam a trabalhar ainda mais no jogo.

Não, eu não aguentava mais. Precisava descansar. Decidi reservar um dia só pra descansar, pra limpar a cabeça desses pensamentos infinitos sobre o Dingir OS… mas não tinha pra onde fugir.

No noticiário, nos fóruns, em vídeos aleatórios do YouTube — em todo lugar apareciam mensagens do meu jogo. Eventos descritos no jogo estavam acontecendo no mundo real. Arquivos que eu tinha criado dentro do jogo estavam surgindo em vários fóruns.

As erupções solares estavam piorando. Voltei pro computador e descobri que o jogo já tinha sido lançado. Lançado sem eu saber.

Youtubers já estavam começando a fazer vídeos sobre o meu jogo.

Um jogo que eu não terminei e não lancei.

Por enquanto só alguns milhares de olhos viram, mas já é o suficiente.

A caixa de Pandora foi aberta.

Comecei a repassar freneticamente o enredo do meu jogo na cabeça.

Um grupo de stalkers da rede cria um sistema operacional pra encontrar e organizar objetos anômalos dentro da rede profunda.

Aos poucos, processando todos esses arquivos, eles realizam um ritual de sobrecarga de informação pra viajar pra outra dimensão e se fundir com o fluxo de informações.

Isso faz o sistema ganhar vida própria e existir em várias formas diferentes — seja como jogo, história assustadora, vídeo do YouTube — ele vive e se espalha, recolhendo almas das pessoas.

O criador do jogo escreve uma postagem no Blogger sobre o jogo dele, convencido de que começou o fim do mundo.

Depois disso, desastres naturais começam aos poucos, as erupções solares se intensificam, a flutuação da ressonância de Schumann muda, e imagens do meu jogo aparecem em fóruns de creepypasta. Youtubers que fizeram vídeos sobre ele desaparecem sem deixar rastro ou ficam assustados demais pra continuar falando.

O jogo vira um vírus de informação e se espalha cada vez mais.

O princípio é simples: a pessoa entra em contato com esse jogo, esse sistema operacional, com os arquivos dele ou até só com uma história sobre o jogo… e de noite, enquanto dorme, eles vêm até ela… Aqueles que agora atormentam, forçando a pessoa a continuar pensando no Dingir OS. E quanto mais eu penso nisso, mais ele cresce, ganhando novas habilidades.

Essas entidades levam a pessoa praquela dimensão infernal onde elas continuam alimentando o sistema.

Se você leu até aqui, já entendeu que pra você já era. Eles vão te buscar no sono, exatamente como vieram atrás de mim.

Desculpa. Eu criei o jogo que destruiu o mundo.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon