Eu sentia meus olhos abrindo bem devagar. Uma crosta amarela de icor grudava minhas pálpebras uma na outra. Forcei pra abrir elas. Deitado na cama do hospital, eu só conseguia ouvir minha própria respiração pesada e arrastada. Fiquei ali daquele jeito por um tempo — minutos, talvez até horas. Não lembro direito.
Tentei com tudo virar a cabeça. Sentado ali na cama, uma espécie de raiva foi crescendo dentro de mim. Raiva por não conseguir me mexer. Tentei de novo com toda a força que consegui juntar. Finalmente consegui mover a cabeça. Mas não sem um estalo alto e doentio. Olhei pra parede. Poeira cobria quase todos os equipamentos médicos que eu estava plugado. Soltei um gemido baixo enquanto examinava o monitor cardíaco morto.
Enquanto olhava o quarto inteiro, uma onda de confusão absurda explodiu na minha cabeça. Eu não fazia a menor ideia de onde caralho eu estava. Comecei o processo de eliminação. Tinha ladrilhos brancos no teto, cheiro forte de produtos de limpeza. Puxei os braços e percebi que estava amarrado na cama.
Eu estava num hospital. Mas por quê? Não fazia ideia. Puxei com toda a força pra tirar meu pulso da contenção de couro. Finalmente senti e ouvi meus ossos estalarem. Nenhuma dor… Devagar, tirei a mão. Estudei minha mão. Estava numa cor de argila pálida, com veias marrons-escuras espalhadas por dentro.
Isso não parece certo… Forcei meu pulso deslocado de volta no lugar usando a estrutura da cama. Liberei a outra mão.
Sentei, percebendo que nenhuma dor acompanhava meus movimentos — uma surpresa bem-vinda, considerando onde eu estava e a merda da situação. Conseguia mexer os braços e a cabeça. Cada vez que movia alguma parte do corpo, saía um som de cascalho molhado nas juntas. Crepitações doentias escapavam dos meus braços e pernas enquanto eu tentava ligar o motor de novo.
Esfreguei a cabeça — era a única coisa que doía pra caralho. Parecia que eu tinha uma enxaqueca latejante que trovejava como uma tempestade sem nenhum sinal de acalmar. Ouvi um barulho alto e molhado de algo batendo no chão. Espiei pela lateral da cama. Parte do meu couro cabeludo?
Cutuquei o pedaço de músculo e vísceras agora exposto na minha cabeça.
“Aaaahhh…” soltei quase sem querer.
A ferida coçava… Então eu cocei, sentindo o músculo molhado e fibroso se enroscar entre minhas unhas mal presas.
“Que horas são…” falei pra ninguém.
Olhando do outro lado do quarto, tinha um relógio preso pra sempre em 1:43. Então olhei pela janela do hospital. Parecia meio-dia? Talvez exatamente meio-dia.
Joguei as cobertas pra fora das pernas. O cheiro me acertou direto no nariz. Uma ferida enorme e aberta na minha panturrilha, toda apodrecida de gangrena. Um fedor forte de carne podre subia da minha perna. Larvas se contorciam e cavavam fundo na carne morta.
“Oh, caralho.” falei, olhos arregalados.
Tirei as larvas da minha perna. Elas esticavam e algumas quebravam no meio, ainda grudadas na pele que tinham na boca. Passei a mão por cima sem o menor cuidado. Quando ficou mais ou menos limpo, rasguei o cobertor e enrolei o buraco aberto. Fiz o mesmo com a cabeça.
Balancei as pernas pra fora da cama e tentei ficar de pé. Surpreendentemente, consegui. Dei uns passos de teste da cama até a parede. Não sentia dor nenhuma na perna. Nada. Conseguia andar, mas com uma mancada bem feia. A única coisa que ainda doía pra valer era a cabeça.
“Talvez todos os meus nervos estejam completamente fodidos.” falei olhando pra minha perna.
Arrastei meu corpo até o banheiro pra dar uma boa olhada em mim no espelho. Quando entrei, abri a torneira, dei um gole grande de água e bochechei.
“Queria ter uma escova de dente”, pensei comigo mesmo.
Cuspi. Olhei pra pia e vi uma mistura preta e marrom. Eu não sentia gosto nenhum, mas o cheiro… um fedor metálico misturado com decomposição.
“Eca…” falei pra mim mesmo.
Cheirei meu bafo e estava exatamente igual àquela mistura nojenta que agora estava na pia.
Apertei os olhos pra me ver direito no espelho. Claro que não dava pra ver muita coisa. A energia estava desligada por algum motivo. Consegui distinguir um arranhão na minha bochecha e um corte grande no lábio. Fora isso, meu rosto até que parecia bem normal.
Passei a mão no meu cabelo preto desgrenhado, jogando ele pra trás da testa. Segurando o topo da cabeça, me arrastei de volta pro quarto. Achei a porta da frente, girei devagar a maçaneta e puxei.
Estava aberta, graças a Deus. Puxei e passei como se estivesse empurrando o corpo inteiro através de um véu de pele oleosa e fina. Quando saí da minha prisão, ouvi umas vozes frenéticas falando baixo.
“Tem alguém… Tem alguém aí?” falei com a voz rouca.
“Você ouviu isso?” uma mulher sussurrou.
“Hã? Não?” um homem respondeu.
Por que eles estão tentando ficar tão quietos?
“Eu te disse que a gente não devia ter saído, você nem sabe usar uma porra de arma.” a mulher falou com raiva, acompanhado de um baque.
“Ai! Não precisava me dar porra de soco. Você mesma disse que a gente ia morrer de fome se não saísse pra procurar alguma coisa.” o homem sussurrou de volta.
Eu só fiquei parado no corredor ouvindo essa discussão. Eu precisava de ajuda, mas por algum motivo não conseguia soltar mais nenhuma palavra.
“É, eu disse que a gente ia morrer de fome, então por que caralho a gente tá procurando num hospital, seu mongoloide? Ainda por cima o pior lugar possível pra gente ter vindo. Como a gente sabe que não tem nenhum aqui dentro?” a garota falou.
“Eu fiquei vigiando esse lugar, não teve nenhum movimento nem nada aqui. Além disso, se a gente ficar doente, a gente precisa de remédio ou pode morrer. Então pensei: remédio primeiro, depois a gente pode ir pra um Walmart ou sei lá, não tô nem aí. Então cala a boca, para de falar comigo e fica de porra de vigia.” o cara falou firme.
Andei devagar na direção da luz que entrava no corredor. Conseguia ver sombras se mexendo no chão. Então me aproximei devagar, só tentando não cair de cara no chão.
Finalmente cheguei na porta, virei a esquina e vi um homem menor, com cabelo castanho, cachecol vermelho e boné. Ele estava revirando uma das gavetas. Ao lado dele tinha uma mulher de cabelo loiro, curto igual ou até mais curto que o do cara.
Agora o que aconteceu em seguida… não tenho orgulho nenhum. Nem sei direito por que fiz o que fiz. Mas vou explicar da melhor forma que consigo. Quando virei aquela esquina e vi eles…
Analisando cada parte do corpo deles, quanto mais eu olhava, mais raiva eu sentia. Nem sei de onde vinha aquela raiva. Senti meu peito subir mais rápido. Minha respiração acelerou e minhas mãos fecharam tão forte que as unhas quebraram nas palmas.
Eu vi vermelho. Um véu vermelho literal cobriu meus olhos e eu explodi pra frente com uma força nova que eu não tinha segundos antes. Agarrei a mulher e bati ela com toda a força contra a parede do lado.
Quando a cabeça dela bateu, ouvi um estalo alto e molhado e o corpo inteiro dela ficou mole. Soltei, virando minha raiva pro homem que agora estava recuando desesperado, procurando alguma coisa no bolso.
“Não. Não não não não.” ele falou implorando pra alguma coisa — não pra mim, eu acho.
Eu pulei pra frente. Eu e o cara brigamos um pouco. Agarrei o colarinho dele, empurrando todo o peso do meu corpo contra ele. Caímos no chão. Por cima dele, ele tinha as mãos no meu peito fazendo tudo que podia pra me tirar de cima.
Empurrei a mão dele que segurava minha camisola de hospital e agarrei o maxilar. Quando minha mão achou apoio, puxei. O primeiro puxão deslocou o maxilar do cara, fazendo ele gritar de dor. O segundo puxão forte arrancou o maxilar inteiro do homem. Ele começou a engasgar com o próprio sangue. Lágrimas escorriam pelo lado do rosto dele, convulsionando e olhando nos meus olhos com puro terror. Levantei ele e comecei a bater ele repetidamente no chão.
Ele já estava morto muito antes da minha surra acabar. Minha respiração desacelerou e meus pensamentos finalmente voltaram. Soltei ele. Um baque alto e molhado encheu o quarto quando a pilha de carne que antes era um homem caiu no chão.
“Por quê… por que eu fiz isso…” falei confuso e culpado.
Era como se alguma força desconhecida tivesse tomado conta de mim… Eu não quis, juro pela minha vida que não queria fazer isso. Depois disso, achei o celular dele… E é por isso que tô postando isso aqui… Nós não somos mais humanos.
Eu penso como humano e ajo como um quando tô sozinho, mas no segundo em que a gente vê outra pessoa… Se você me vir ou qualquer um como eu… Por favor, pelo amor de Deus, mata a gente na hora.


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