“Tem certeza do que você tá fazendo?”
O cara de capuz suspirou.
“Tenho.”
“Usando essa música como tortura, você tá me entregando quem você é… Brandon.”
“Acho que não foi lá uma grande reviravolta”, disse Brandon, derrotado, tirando o capuz e a máscara. “Pelo menos você vai morrer com a sua música favorita virando a sua própria tortura enquanto morre de fome.”
Minha música favorita?
Brandon nunca gostou muito de mim. Eu só não fazia ideia do quanto. Ele era grandão; eu não. Ele era bonito; eu não. Ele foi rejeitado; eu não. Nós dois conhecemos a Pearl na mesma época. Ele se apaixonou perdidamente por ela no segundo que botou os olhos nela. Dá pra dizer que eu não. Ela era bonita, mas eu nunca fui do tipo que se apaixona pela primeira garota que fala comigo de boa. Brandon não era popular (eu era). Mas ele foi um bom amigo por um tempo.
Ah, mulheres. Nossa ruína. Mas vale a pena perder uma amizade por alguém que você ama de verdade. Agora, tentar matar alguém? Aí eu traço o limite.
2020 criou um novo tipo de serial killer. Não tinha mais escola pra fazer um assassino estilo Scream, então o Brandon improvisou. Acho que todo mundo tem um lado gênio; o dele era matar. Cada um com o seu, né. A primeira vítima foi a amiga da Pearl, a Vanessa. Ela era engraçada pra caralho. Na época da morte dela, eu já conhecia a Pearl há mais de dois anos e a gente já tinha desenvolvido sentimentos um pelo outro. A morte da Vanessa foi horrível. A Pearl me consolou mais do que eu consolei ela. Ela tava em paz com aquilo, sabendo que a Vanessa tinha seguido o caminho de Jesus e ia subir pra um plano superior de existência.
A Pearl tava se preparando pra ser missionária. Ela perdeu um ano de escola, então ia fazer 18 no ano seguinte. Depois da formatura, tipo o exército, ela ia ser despachada pra outro país — um na Europa. Não lembro mais qual era.
Eu lembro que adorava chamar ela de “minha mórmon bonitinha”. Ela odiava, mas entendia, porque era sempre por mensagem e escrever “minha garota bonitinha da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” dava um puta trabalho. Mensagem não precisa de tanto texto assim. Então ela me dava um tapa brincalhão toda vez que a gente escapava pra se encontrar. Ela não curtia muito essa parada de distanciamento social. Eu até curtia, mas eu amava ela, então a gente se encontrava sem ligar pra proteção. Não esse tipo de proteção — tô falando de máscara e tal. Ela me convenceu que ia dar tudo certo. E deu, mas foi arriscado pra caralho.
Quando a Vanessa morreu, ela me perguntou várias vezes como eu tava. “Tá tudo bem chorar. Eu sei que você não acredita que vai ver ela de novo numa vida após a morte, então pode chorar por ela. Ela era sua amiga também.” Ela falou tão carinhoso que alguma coisa dentro de mim se quebrou. Eu desabei em lágrimas e prometi que ia encontrar quem tinha feito aquilo. Ela, claro, era contra, mas não ficou insistindo na história de perdão.
“Deixa eu tirar uma foto. É pros momentos que você achar que a vida não vale a pena”, ela disse. “Isso vai te lembrar o quanto uma vida perdida pode ser importante.”
Eu não pensei muito na foto nem no quanto ela ia foder com a minha cabeça depois que eu fiquei sozinho por dias no porão de uma cabana no meio do nada, perigosamente perto de um pântano cheio de jacarés. Eu perdi a esperança depois de 20 horas. Afinal, o “Florida Man” que podia estar por perto tava bêbado demais, ocupado acariciando jacarés e vários outros bichos perigosos, então eu só apaguei depois de perder a voz tentando pedir ajuda. Achei que dormir ia diminuir o tempo que eu ia sofrer com aquela morte de merda que eu tinha nas mãos. Tava molhado, miserável, e a minha música favorita tava tocando bem alto. Foi aí que eu entendi o que minha música favorita significava. De onde o Brandon tirou essa habilidade poética? Filho da puta. Foi o que eu pensei na hora.
Não importa o quanto você se faz de indiferente na frente da pessoa que tá tentando te matar. Quando você fica sozinho, é foda manter aquela pose de “não tô nem aí”. Eu tava com medo pra caralho e puto da vida que o Brandon, logo ele, tinha matado a Vanessa, a Pearl e agora eu. Eu tava completamente indefeso.
O Brandon nunca agiu estranho perto de mim pra eu sacar que ele era o vilão, porque a gente nem se viu até ele me capturar. A gente tava há um mês na pandemia quando a Vanessa morreu. Não deixaram a gente ir pro funeral dela; decretaram como morte relacionada à COVID. Mais uma estatística. Eu não acreditei. A Pearl nunca questionou por que eu achava que ela tinha sido assassinada.
Ela tava perfeitamente saudável no dia anterior à morte.
Depois de 20 horas sem água nem comida, o corpo entra num estado de jejum extremo onde supostamente tira água das células de gordura. Isso quando você tá num lugar seguro. Mas suado e amarrado numa caldeira? Isso só me jogou mais rápido pro desidratação. Eu tava morrendo mais rápido do que deveria. Não ajudou nada que eu também tinha sido drogado com sabe-se lá o quê e apagado por umas seis horas. Eu nem fazia ideia que abstinência também era um problema. Acho que nos filmes eles esquecem isso; você não precisa ser viciado pra sofrer efeitos de abstinência de uma droga forte.
Foi nesse momento que eu entendi que o Brandon tinha pensado em como as mortes por COVID aconteciam — repentinas e meio difíceis de acreditar. Por isso tinha tanta teoria da conspiração maluca em volta. Tudo que ele fez foi dar uma overdose nela. Ele seguiu ela. Eu percebi que a Vanessa morreu por minha causa.
Outra realização veio ali. Eu queria tanto acreditar que era só o estado delirante que eu tava. Pearl…
Horas depois, eu já tinha desistido. Perdi a conta do tempo apesar do relógio na parede. E aí uma foto foi jogada com força suficiente por baixo da porta pra eu conseguir ver de perto. Era a foto que a Pearl tirou de mim quase seis meses antes — quatro meses depois da morte da Pearl. Eu podia ter incluído esse detalhe desde o começo, mas onde é que tá a graça nisso? Meu mundo se estraçalhou ainda mais. Aquela foto não era pra dar coragem. Era um lembrete.
Antes da Vanessa morrer, a gente se encontrava. Já fazia um tempo que a gente se encontrava. É, eu tava traindo a Pearl com a melhor amiga dela. E a Pearl sacou. O Brandon nem era o cérebro da parada. Era a Pearl.
A foto alimentou uma raiva que eu nem sabia que tinha dentro de mim. Provavelmente noradrenalina. Eu nem percebi que minha mão tava quebrada até cair de costas, livre dos canos da sala da caldeira. Eu corri pra fora. O Brandon obviamente ouviu eu caindo que nem saco de batata, então tava voltando pra sala da caldeira. Não tava escuro, mas ele não esperava que um maluco quase morto fosse dar um tackle nele naquele momento sem dor. A gente caiu no chão junto, mas com um movimento rápido eu levantei e continuei correndo. Não tinha tempo pra vingança. Eu tava puto, mas não burro. Até que o “burro” me acertou e me tirou do transe, como se tivessem jogado água gelada no meu momento mais quente. O choque. Foi demais.
Eu até podia ter sacado, mas ver a Pearl levantando do sofá correndo quando ouviu os passos foi o que me matou (não literalmente). Eu fiquei cheio de medo. Não tinha explicação praquilo. Depois eu soube que era por causa de trauma. Perder alguém e ver a pessoa viva, na sua frente… pode te matar. Literalmente.
“Você matou ela!” Foi só isso que eu consegui gritar pra sair daquele transe e fazer meu corpo responder.
A verdade é: eu tava apaixonado pela Vanessa. E ela tinha chegado bem perto de mim flertando de volta várias vezes. Um dia antes da escola fechar — uns oito meses antes —, a Vanessa agiu um pouco diferente. Eu sempre fui bem direto. “Você tem namorado, né?”
“Hum, você acha?”
Eu gostava de usar palavras inglesas menos comuns nos EUA. Pras garotas. Mas a Vanessa era mais amiga e interesse amoroso que a Pearl. Eu sei que não comecei a história com essa narrativa, mas eu vivi uma história tipo romance barato na adolescência, então tive que manter o mistério. Eu nunca desenvolvi sentimentos pela Pearl, mas pela felicidade da Vanessa eu faria qualquer coisa, mesmo que fosse só platônico.
“Então, tô errado?”, perguntei.
“Tá, mas a Pearl confessou que tá louca por você. Olha…” Ela tentou explicar, mas eu já sabia onde ela queria chegar.
“Acho que a maníaca religiosa obcecada com pureza nunca teve namorado e tá confundindo uma crush com amor.”
A Vanessa ficou brava por um segundo, mas sabia que aquilo tava ficando injusto.
“Eu não quero machucar ela”, respondeu. “E por favor não chama ela assim. Além do mais, a gente vai pra faculdade e ela não. Você não acha que é destino a gente ir pra mesma?”
“Você é uma manipuladora ruim”, eu disse sorrindo. “Só se eu puder partir o coraçãozinho dela antes dela ir embora.”
Por algum motivo, os olhos da Vanessa começaram a encher de lágrimas. Ela sabia que a Pearl ia achar que eu ia ser o marido dela se a gente durasse tempo suficiente pra ela ir na missão. Ela não tava ok com a amiga sofrendo por causa do timing ruim. Mas era ela. Uma garota boa. Uma cristã de verdade. Colocando os interesses da amiga na frente dos dela. Ela também era mórmon, só que não tão fanática (eu nunca chamei ela de mórmon. Sempre de cristã. Eu sabia que “mórmon” era usado como ofensa).
Na real ela tinha me contado sobre as bênçãos patriarcais e como o cara falou que ela precisava ir pra missão. Não sei se devo me orgulhar de ter convencido ela a não ir. Talvez isso tenha começado toda a cadeia de eventos. Foi culpa minha.
Claro, a Vanessa fingiu que tava nos juntando pra gente acabar no mesmo lugar e blá blá blá, a gente ficou junto. Eu não era a Vanessa. Eu nunca pensei no Brandon e na crush dele pela Pearl. Se eu tivesse lembrado, podia ter respondido: “Não posso; o Brandon tá apaixonado por você. Não posso magoar meu amigo.”
Idiota egoísta. Eu matei o possível amor da minha vida.
“Então você tá fora. Não acredito que você sacou. Você é mais esperto do que parece, mas mais burro do que deveria. Talvez se você não pensasse tanto com o seu pecado”, disse a Pearl com um ar de superioridade, segurando um livro. Ela tava lendo; o dedo ainda marcando a página. Provavelmente achando que ia voltar a ler. O Brandon veio correndo.
“Tá tudo bem, amor. Eu e o herege precisamos conversar.” O Brandon só deu um passo pra trás. Sem raiva.
“Precisa conversar?” Eu tava perdendo o efeito dos químicos de pânico e raiva no cérebro. Logo eu ia desabar. “Se você insiste, o certo é me dar água primeiro.”
“Água?”, disse a Pearl, ofendida. “Você merece vinagre aguado.” “Foi bom o suficiente pro Jesus”, eu sorri, tentando me manter inteiro.
“Como você ousa.” Ela ficou puta. Abraçou o livro.
“Por que você matou ela?” Como se eu não soubesse.
“Você tirou ela do caminho do Senhor. Eu não queria que ela descesse mais, então eu parei ela antes que…”
“Parou mesmo?”, interrompi. “Não foi porque você percebeu que alguém queria que ela ficasse? Ela era amada demais e amava alguém de volta demais pra dizer não pra sua missão. Você queria isso, né? Imagino que seus pais tavam super felizes de você ir embora. Você é estranha pra caralho, afinal.”
“Você é cheio de si.”
“E você vai pras trevas exteriores. Jesus não vai te perdoar. Seus esquemas. Assassinato e tentativa de assassinato. Você brinca com o Espírito San—” Ela gritou. Eu vi a cara real dela. Aquela era uma boa imagem pra morrer. Mas eu não morri.
“Eu salvei a alma dela!”
“Salvou? Você nunca vai saber o quanto ela falava bonito de você. Ela cometeu o erro de amar. Eu sou culpado pela morte dela. Então nós três… te encontramos no inferno ou onde quer que a Vanessa não esteja.”
Não sei onde ele escondeu aquilo o tempo todo, mas o Brandon confuso puxou um machado do nada e veio correndo pra cima de mim. Eu não queria me mexer. Mas aí todo mundo ouviu um barco e vozes. O Brandon parou. A Pearl ficou com medo e eu pulei pela janela. Única forma deles acreditarem que eu era a vítima antes da Pearl fazer o papel de donzela em perigo. Ela tinha a cara pra isso, afinal.
“Socorro.”
O Brandon tava perdido demais. Descobri que ele tava drogado, provavelmente pra anestesiar a culpa. Ele tava apaixonado e manipulado. De coração partido. Tudo por minha causa. Ele tentou me matar, mas o cara que não tava segurando uma píton morta atirou nele sem nem soltar a cerveja.
“Ela tá com ele. Ela matou a Vanessa.” Eu apaguei.
Do sonho que eu tive sobre ela, a única coisa que lembro é o sorriso gentil dela.
O Brandon testemunhou contra a Pearl e se declarou culpado. A Pearl foi pra prisão por tentativa de assassinato e foi excomungada. Eu passei um mês no hospital, mas a memória da Vanessa me deu força pra estar no julgamento e contar a história. Tenho certeza que dei um relato melhor dos fatos no tribunal. Eu falei da traição. Aceitei minha própria culpa, mas acontece que trair a namorada não é crime nem defesa possível. Foi o próprio juiz que disse isso, olhando pra Pearl enquanto falava.
Ela alegou insanidade temporária e extremismo religioso dos pais. A defesa dela era que ela acreditava que tava fazendo a obra de Deus. Mas todo o planejamento longo — a foto, os detalhes — foi pesado, mas não coisa de alguém só temporariamente insano. Usar a COVID como cobertura pra morte da Vanessa foi calculado demais, quase genial. Quase. No final, ela só pegou três anos e cumpriu metade. A família dela conseguiu que ela fosse julgada como menor, só porque ela não puxou o gatilho (por assim dizer). Felizmente ela foi mandada pra um hospital psiquiátrico. Ela fingiu a própria morte.
Pelo menos isso também significou que a família dela teve que pagar indenização.
Os pais dela disseram que me perdoavam. Eu mandei eles se foderem. Os da Vanessa não perdoaram. Eu pedi desculpas mesmo assim. A Vanessa me ensinou que eu tinha que pedir desculpas independente do que a outra pessoa ia obviamente falar. Perdão é um presente que você pode ou não receber. Não depende de mim. O que dependia de mim era o arrependimento.
“Eu vejo túmulos não como o lugar onde seus entes queridos descansam. Mas igual igreja, ajuda você a focar. Ajuda você a falar com eles com mais clareza. Você ainda pode se queimar se tocar nas brasas que uma pessoa deixou pra trás.”
Um fragmento de uma das muitas conversas que eu e a Vanessa tivemos.


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