Eu sabia, quando alugamos nossa casa, que precisava garantir que teria espaço suficiente pra um quarto de bebê. Por sorte, encontramos o lugar perfeito, que tinha dois quartos no andar de cima praticamente colados, separados só por um corredor minúsculo. O quarto do bebê nem tinha porta, então eu sabia que, se deixasse a porta do nosso quarto aberta, sempre conseguiria ouvir o choro do bebê mesmo se caísse no sono. Bem do outro lado do corredor, mas não perto demais pra ficar desconfortável.
No começo, achei que ter um espaço separado do bebê ia me deixar mais tranquila. Nós dois tínhamos nosso cantinho na casa e, por algum motivo, isso me fazia sentir segura.
No início estava tudo bem. O bebê estava contente e, por umas três semanas, meu marido, Kobe, conseguiu ficar em casa comigo depois do parto pra me ajudar com tudo enquanto eu me recuperava. Fiquei grata pela ajuda dele, mas ele teve que voltar logo pro trabalho. Ele planeja tirar uma licença paternidade mais longa daqui uns meses, mas o emprego dele é importante e precisam dele lá pelos próximos dois meses no mínimo. Ele é engenheiro e estão reformando o aeroporto de jatos local. “É difícil colocar uma coisa dessas em espera”, foi o que ele disse quando o assunto surgiu. Não o culpo. No começo eu até pensei que ia curtir o tempo sozinha com o bebê. Cara, como eu tava errada pra caralho.
Durante a segunda semana que o Kobe voltou pro trabalho, o bebê começou a ficar bem chorão e irritado comigo. Nosso médico disse que provavelmente era cólica, mas eu não conseguia parar de pensar que tinha alguma outra coisa errada. Fiquei acordada horas pesquisando maneiras de ajudar e possíveis causas pra falta de sono do bebê. E o choro. Meu Deus, o choro. Como um relógio, a cada duas horas exatas. Ele acorda berrando. Minhas pesquisas sempre me levavam pro que o médico falou: cólica. Eu só não conseguia tirar da cabeça que não parecia certo. Pode me chamar de louca, mas acho que era intuição de mãe. Na verdade, agora eu sei que era.
Eu sei o que todo mundo vai dizer: “Essa vadia definitivamente tá com algum problema pós-parto”. Só posso te contar os fatos. Não acredita se não quiser, mas eu preciso botar isso pra fora. Se tiver a menor chance de isso chegar pra alguém que passou por algo parecido com o que vou contar, então não dou a mínima se o mundo inteiro achar que eu sou pirada pra caralho. Se você estiver aí fora, por favor.
Acordar a cada duas horas com um bebê berrando me deixou num estado de zumbi. Quando consigo dormir um pouco, não parece descanso nenhum. Já tive até episódios de paralisia do sono, onde não consigo mexer o corpo mas a mente fica alerta esperando o choro começar. Só aconteceu algumas vezes, mas o que tem rolado é muito pior.
Toda vez que consigo pegar no sono, sou acordada por uma voz gutural dizendo “acorda acorda”. Toda vez que escuto isso, acordo em pânico total. Imediatamente seguido pelo som do bebê uivando. É tipo um despertador do caralho que toca logo antes do bebê chorar. A cada. Duas. Horas. Eu fico cochilando e acordando nessas duas horas e sempre sou despertada por aquela voz. Eu sei que pode ser só minha cabeça desabando. Li todos os livros de mãe de primeira viagem. Até li as coisas que eles não querem que você saiba. Tipo como muitas vezes você precisa de pontos na vagina depois do parto, quanto sangue você perde nos dias seguintes e como isso tudo torna ir ao banheiro uma expedição nojenta. Eu sei o que esperar do pós-parto. Isso parece diferente.
Eu não me reconheço mais. As olheiras enormes que sustentam meus olhos quando me olho no espelho convenceriam qualquer um de que tô ficando doida. Aqui estou eu ainda tentando te convencer que não sou louca, mesmo sabendo que quanto mais eu tento, menos sã pareço. Enfim, já falei o que precisava.
Mas vocês têm razão. Eu poderia simplesmente culpar a falta de sono. Psicose pós-parto. Tanto faz. Se não fosse pelo que eu vi às 6h da manhã hoje.
Meu marido sugeriu instalar o monitor do bebê pra me ajudar a ficar de olho no nosso filho enquanto tento dormir no outro quarto. Achei isso idiota no começo porque os quartos são bem próximos, mas foi um presente do chá de bebê, então não consegui pensar num bom argumento contra. Achei que não fosse precisar, mas conforme comecei a sofrer e dormir cada vez menos, comecei a ver a utilidade de ter a câmera do meu lado pra evitar algumas idas e vindas pro quarto do bebê. Amamentar em cima de tudo isso deixou meu corpo extremamente fraco. Até andar já tá ficando difícil.
Às 4h da manhã hoje eu fiz algo que nunca imaginei fazer. O bebê estava gritando de novo, então eu procurei desesperada no ChatGPT como fazer meu bebê dormir. Depois de dar pra IA todo o contexto da situação, ela teve a ideia brilhante de eu colocar um alarme um minuto antes da próxima marca de duas horas. Ela disse, e eu cito: “Talvez o bebê esteja sendo incomodado por algum problema sensorial. Faróis de carro vindo de fora. Uma corrente de ar frio. Uma textura ruim do cobertor. Algumas crianças são mais sensíveis que outras.” Como eu mesma tive problemas sensoriais quando criança, pensei: por que não, porra? Vou acordar só um segundinho antes e estudar o ambiente do bebê no monitor pra ver se tem algo que pode estar acordando ele. Improvável, mas eu não tinha absolutamente nada a perder e sonhava que tudo isso acabasse por causa de algo simples como a textura de um cobertor.
Eu realmente não achava que ia descobrir nada. O alarme tocou e eu acordei com os olhos borrados. Demorei alguns segundos pra focar antes de ver **aquilo** no monitor. Uma silhueta alta e preta inclinando a cabeça pra dentro do berço do meu bebê. Parecia ter forma humana, mas muito mais alta. O rosto dela se mexia. Não virava, mas mudava.
Eu congelei. Dez segundos, talvez vinte. O que me tirou do transe foi o som vindo do monitor. Ela abaixou a cabeça bem do lado do meu bebê e sussurrou “acorda acorda”.
O monitor deixou a voz com um som mecânico e rouco pra caralho. Eu agarrei o monitor e soltei um grito sofrido. Isso deve ter alertado a figura, porque assim que fiz barulho ela agarrou as grades do berço, se levantou devagar e olhou. Não pra porta. Nem pro berço. Mas diretamente pra câmera do monitor.
Eu ouvi o bebê uivar, larguei o monitor e corri pro quarto dele. A coisa tinha sumido. Não vi mais desde então, mas tô cagando de medo que ela volte. Por uma fração de segundo, quando ela olhou na minha direção, o rosto da figura pareceu se transformar na forma de algum animal. Um cachorro? Uma hiena? Um búfalo? Juro por Deus. Era como se a forma fosse fluida. Se mexendo. Mudando. Num segundo eu achei que vi uma pessoa com rosto comprido e no outro vi um búfalo com chifres.
Eu não sei o que vi, mas agora eu sei o que está fazendo aquele barulho horrível e não vou mais dormir. Tô morrendo de medo de ouvir de novo. De ela voltar. Quero ligar pro meu marido pra pedir pra ele voltar pra casa, mas não sei se consigo contar tudo sem ele querer me internar num hospital. Demorei demais pra escrever isso. Meu filho ainda tá chorando e eu só tenho 24 minutos antes das 8h. E se não parar? Quando isso vai parar? Por favor. Como eu faço pra fazer parar?
Se eu não atualizar nas próximas 2 horas, por favor liguem pro aeroporto de jatos e perguntem pelo Kobe. Perguntem se o nome da esposa dele é Felicia .


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