A densa neblina que chegou rolando do mar parecia ter vida própria. Ela redemoinhou e se deslocou a cada passo que eu dei em direção ao meu carro, abrindo espaço ao redor do meu corpo enquanto eu caminhava. Ia ser uma manhã puxada. No geral, eu amava morar perto da costa. O ar salgado, os frutos do mar frescos, as belas vistas do oceano eram coisas das quais eu tentava nunca me esquecer de ser grato. Eu nem ligava para os turistas. Pra mim, o grande problema era o trajeto matinal. Especialmente em dias como hoje. Toda manhã eu precisava cruzar a Ponte Memorial que atravessa a Baía de Chesapeake, e eu odiava aquilo.
Com quase seis quilômetros e meio de extensão, a coisa era grande demais. Ficava alta demais acima da água e as suas grades de proteção eram baixas demais — cada rajada de vento me deixava arrepiado quando eu estava atravessando. Eu podia até amar a água, mas não tinha nenhuma vontade de mergulhar nela de uma altura de quarenta e cinco metros no ar. A neblina grossa da manhã só iria piorar lá em cima, sobre a água. Eu ia sofrer.
"É só ligar dizendo que tá doente", minha esposa tinha me dito, mas era humilhante demais. Um homem adulto com medo da neblina do oceano? Não, eu tinha que ser maior que isso, então enchi uma garrafa térmica enorme de café e saí pela porta.
O trajeto matinal estava pesado. No rádio, um dos meus programas favoritos estava tocando, com os apresentadores discutindo uma história de arrepiar sobre dois amigos que se perderam acampando. Eu adorava histórias de terror. Peguei alguns detalhes no começo, mas logo virou ruído de fundo. Minha cabeça estava focada demais na direção. Dei um gole de café pra firmar os sentidos.
Ao me aproximar da ponte, um aviso de tráfego amarelo-pálido projetava um brilho sinistro na rodovia antes do meu carro começar a subida.
Alerta de Neblina: Dirija com Cautela.
A densidade da neblina foi aumentando sobre a água e eu reduzi o carro a um passo de tartaruga, conseguindo ver apenas alguns metros à frente. Uma a uma, as luzes traseiras ao meu redor foram desaparecendo, engolidas pela neblina cada vez mais grossa, até que eu fiquei completamente sozinho na ponte. A travessia pareceu durar horas. Eu sentia o desconforto se arrastando por mim, os músculos das costas enrijecendo, a ansiedade os torcendo com tensão. Eu mal conseguia enxergar nada e minha própria imaginação virou minha pior inimiga, enchendo minha cabeça com os piores cenários. Os pilares de aço viraram monolitos gigantes de pavor, emergindo da escuridão cinzenta para pairar sobre mim, prontos para desabar a qualquer momento. Minhas mãos começaram a tremer no volante — eu não conseguia fazer isso, eu precisava parar — um movimento errado, um solavanco assustado acidental, e eu ia direto pela grade de proteção ridícula e ia mergulhar no escuro lá embaixo. Pisei no freio. Não sei quanto tempo fiquei parado ali, o conceito de tempo tinha se perdido pra mim naquele momento, mas nenhum carro passou. Fui desacelerando minha respiração, inspirando fundo e devagar, até que, finalmente, parte da ansiedade foi embora e eu recuperei a compostura.
Minha cabeça estava um pouco mais clara. Sentia que conseguia enxergar um pouco mais longe do que antes. Lá ao longe, vi um par de pisca-alertas piscando, cortando a escuridão com faróis de laranja intermitente. Acho que eu não era o único tendo dificuldade pra se locomover hoje. Coloquei o carro em marcha e avancei devagar, parando alguns metros atrás do veículo imóvel. Encostado no porta-malas, um homem vestido com roupa social casual me acenou antes de acender um cigarro. A neblina pareceu redemoinhar ao redor dele com o movimento.
"Dia de merda, hein?" Ele perguntou enquanto eu saía do carro. "Eu não conseguia ver dois palmos à minha frente. Resolvi parar e esperar um pouco. Quer um cigarro?"
"Não, tô bem, obrigado." Respondi, um pouco incomodado com a atitude casual do homem. Tinha alguma coisa nele que não parecia bem. À primeira vista ele parecia normal o suficiente — vestido com calça social bege e uma camisa polo preta, ele poderia facilmente ser um dos tantos funcionários do meu próprio trabalho. Mas era quase como se a pele dele estivesse esticada com força demais. Seus movimentos eram robóticos demais, o braço que acenou parecendo funcionar por dobradiças enquanto se movia.
"Só queria ter certeza de que o senhor estava bem." Continuei, mantendo distância. "Provavelmente não é seguro ficar aqui fora por muito tempo."
"Não, tá tranquilo," ele disse com um escárnio. "A pista tá morta hoje, aposto que somos só você e eu por quilômetros e quilômetros. Nunca dá pra saber num dia assim — uma sombra como essa vai te deixar sentindo que você é a única alma na face da terra de Deus. Tem certeza que não quer um cigarro? Aposto que ia te fazer bem. Me chamo Rick, por sinal." Ele sorriu e se empurrou para fora do para-choque traseiro, estendendo a mão.
Foi naquele breve movimento que eu vi. O gesto coincidiu perfeitamente com o piscar dos alertas e eu tive um vislumbre dos finos tentáculos se estendendo do braço de Rick em direção ao céu sombrio acima. O que diabos era aquilo? Deixei minha imaginação desandar de novo.
"Eu preciso chegar ao trabalho." Soltei abruptamente, recuando para o meu carro antes que o homem pudesse se aproximar mais.
De trás do meu volante, eu conseguia vê-los com mais clareza agora, enquanto ele estava parado no brilho dos meus faróis. Dezenas e dezenas de finos tentáculos subindo em direção ao céu a partir de cada parte do homem. Eles se contraíam, ficando tensos e depois relaxando, guiando os movimentos do homem enquanto ele se curvava à vontade de um marionetista invisível.
Ele sorriu e acenou enquanto eu me afastava, os fios etéreos finos puxando as bordas do seu rosto. Acelerei mais rápido do que jamais me atrevi naquela ponte. Os pilares de aço passaram por mim como um borrão enquanto eu cortava a neblina, as mãos cravadas no volante e o pé firme no acelerador. Era um acidente esperando pra acontecer, mas por sorte ninguém mais estava rastejando pela faixa à minha frente. Finalmente, senti meu carro começar a descer a rampa e fui relaxando. A neblina grossa ainda pairava no ar, mas pelo menos eu estava fora da ponte. Fiz mais respirações lentas e profundas, esvaziando a cabeça do ocorrido.
Enquanto eu dirigia, o clima estava pesado. No rádio, um dos meus programas favoritos estava tocando, com os apresentadores discutindo uma história assustadora sobre uma casa de bonecas mal-assombrada que consumia os espíritos dos seus donos. Eu adorava histórias de terror, mesmo num dia como hoje. Por algum motivo eu teria jurado que o episódio era sobre outra coisa, mas acho que minha cabeça estava focada demais na direção pra pegar o começo. Estendi a mão para dar um gole de café, mas a garrafa térmica estava vazia. Que merda — eu realmente queria estar alerta para esse próximo trecho.
Ao me aproximar da ponte, um aviso de tráfego amarelo-pálido projetava um brilho sinistro na rodovia antes do meu carro começar a subida.
Alerta de Neblina: Dirija com Cautela.
Respirei fundo e reduzi o carro a um passo de tartaruga. Exatamente como eu imaginava, a neblina havia começado a se intensificar sobre a água. Eu não conseguia ver nenhuma outra luz traseira na escuridão ao meu redor. Sentia minha imaginação começar a desandar, enchendo minha cabeça com os piores cenários. Os músculos das costas enrijeceram com o início da ansiedade. Espero chegar logo ao trabalho.


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