Depois que o homem bateu pela segunda vez e me entregou um fígado, eu soube que aquilo não era algo comum. Era algo além da minha compreensão — algo… sobrenatural.
Mas não é como se isso fosse ruim pra mim.
Eu já estava nesse ramo fazia um tempo. Eu trabalhava como cirurgião — um fornecedor para um esquema, uma rede complexa projetada pra maximizar a cooperação e eliminar ameaças internas. Um vacilo e você é expulso ou morto. Sempre tem alguém pronto pra te substituir.
Vamos chamar esse esquema de O Clube da Festa.
Havia fornecedores de confiança, mas eu não era um deles, embora eu seja considerado relativamente sênior. Porém, isso significava que eu podia viver com mais liberdade, sem tanta restrição e vigilância excessiva — eles eram rígidos com as operações, especialmente entre os figurões. Não tinham a menor intenção de deixar o negócio acabar tão cedo.
A vida era boa. Eu ganhava dinheiro e conseguia sustentar minha família trabalhando como “gerente de M&A numa empresa próxima”. Eu penso neles a cada segundo de cada dia. Eu consigo ver eles sorrindo, brincando juntos no tom quente da sala de estar. Minha esposa linda abraça com um braço a minha filha esperta, de 13 anos, e segura com o outro o meu filho precioso, de 2 anos. Eu consigo imaginar ela rindo enquanto minha filha faz uma careta, meio envergonhada e meio irritada, enquanto meu filho balbucia coisas sem sentido, procurando atenção com aqueles olhos brilhantes. Só de pensar nisso, eu sorrio.
Eu lembro da primeira vez que o homem bateu. Foi estranho. Eu não estava esperando ninguém às 8 da manhã. Minha esposa já tinha ido pro trabalho e minha filha pra escola, ficando só eu e meu filho, que dormia no berço, dentro de casa. A porta se abriu e revelou um homem de cabelo penteado pra trás e um sorriso simpático. Ele usava um terno completo, com gravata preta e sapatos sociais combinando. Eu notei a carretinha vermelha atrás dele, com a alça na mão.
— Olá, Sr. [CENSURADO]! Estou aqui para fornecer para o Clube da Festa. O que o senhor gostaria hoje? — ele disse, animado.
Como eu também era fornecedor, eu fiquei muito confuso. Não porque ele sabia meu nome, mas porque ele veio atrás de mim. Nesse tipo de trabalho não era incomum seu nome circular por aí. Por que não ligar pra alguém buscar os órgãos e mandar pra um corretor?
Eu não sabia por que ele tinha me procurado, mas decidi entrar na dele — talvez isso fosse útil. Só que antes eu precisava descobrir se ele era um trabalhador de verdade ou não.
— Quem é você? — eu perguntei.
O homem não respondeu. Só ficou ali, me encarando com aquele sorriso constante.
Eu tentei outras perguntas.
— Você é de onde?
— Quem te mandou aqui?
— Há quanto tempo você tá nesse ramo?
Ainda nada. Eu fiquei sem saída, mas lembrei que ele tinha me perguntado o que eu queria hoje. De brincadeira, eu pedi um rim.
Eu não esperava que ele levasse ao pé da letra.
O sorriso dele se abriu ainda mais, e ele ficou radiante.
— Certamente!
Ele se virou e enfiou a mão na carretinha, puxando um rim lá do fundo. Me deu arrepios o fato de eu não conseguir ver o fundo dela. A carretinha parecia descer, se esticar, pra dentro de um abismo escuro.
Ele estendeu o rim e eu o peguei a contragosto. Ainda escorregadio de sangue, quase escapou da minha mão. Parecia que tinha sido tirado de um corpo segundos atrás.
— Obrigado pelo pedido!
Eu só consegui encarar enquanto ele virava as costas. Eu vi ele sumir rua abaixo. Isso me deixou com mais perguntas do que respostas.
Mas qual seria o mal de tirar proveito da situação?
Eu coloquei o órgão numa pequena caixa térmica com gelo e levei até o carro. Nossa base de operação — um hospital que a maioria de vocês conhece — não ficava muito longe. Eu queria entregar isso ao corretor o mais rápido possível, enquanto o órgão ainda estivesse mais viável.
A babá chegou pouco depois e eu fui pro trabalho.
O intermediário, pra quem eu liguei no caminho, já estava me esperando quando eu cheguei.
Eu abri a caixa térmica pra ele e ele pegou o rim, deu uma olhada rápida e colocou numa caixa com líquido conservante. Ali dentro já tinha um monte de outros órgãos que ele provavelmente tinha coletado pelo caminho. Ele não me perguntou de onde veio, e eu fiquei aliviado — eu nem saberia explicar, mesmo se ele perguntasse. Eu agradeci por ele ter vindo e ele foi embora, com uma inclinada de chapéu.
Mesmo depois de bater o ponto, eu fiquei pensando no que eu faria se o homem da carretinha aparecesse de novo. Ele podia me dar qualquer órgão que eu pedisse? E se eu não atendesse a porta? E se eu não quisesse pedir nada?
O dinheiro era transferido de tempos em tempos. Eu não sei pra onde o intermediário leva os órgãos, nem quem os vende. Embora não aconteçam tantas vendas num mês, uma operação pode render milhares. Eu recebia uma parte boa, e isso era tudo o que eu precisava.
No dia seguinte, eu não fiquei tão surpreso quando abri a porta pra ele, no mesmo horário da manhã. Ele usava o mesmo terno, o mesmo sorriso, e segurava a mesma carretinha vermelha. Dessa vez eu pedi um fígado. Ele puxou um da carretinha e me entregou.
Tão fresco quanto o rim que eu tinha pedido no dia anterior.
Apesar de ser perturbador, eu estava empolgado. Eu podia fazer um ótimo uso daquela oportunidade.
— Obrigado pelo pedido! — ele disse, antes de ir embora.
De novo, eu mandei o intermediário vir buscar comigo. Eu dei o fígado pra ele, ele pegou, e eu fui trabalhar.
Nas duas semanas seguintes, eu comecei a testar os limites do que eu conseguia pedir, e eu tinha quase certeza de que não havia limite nenhum. Rim, fígado, coração — ele sempre enfiava a mão na carretinha e me dava o que eu queria. Se eu pedisse dez corações, ele me dava dez. Se eu não quisesse pedir nada, eu só dizia isso e ele ia embora. Além disso, ele não aparecia nos fins de semana, então eu não precisava me preocupar com minha esposa atendendo a porta.
A ideia de uma entidade sobrenatural tirar folga no fim de semana era surreal pra mim, mas eu não ia reclamar.
Em algum momento, eu e o intermediário criamos um cronograma não dito. Por causa dos órgãos de alta viabilidade que eu estava fornecendo, o dinheiro começou a entrar pesado.
Eu ia pro trabalho com mais energia do que antes. A segurança que o dinheiro trazia mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir.
Eu estava ficando convencido.
Você não pode se dar ao luxo de ficar convencido nesse tipo de trabalho. É um pedido de morte. E eu sabia disso, mas era bom demais ter uma fonte de mercadoria sem amarras.
A única vez que eu fiquei inseguro foi quando minha esposa ficou doente e ficou em casa por três dias. No terceiro dia, ela acordou bem cedo.
Eu temia a batida na porta. Tentei empurrar minha esposa de volta pra cama, mas ela recusou, dizendo que estava se sentindo cheia de energia.
Eu me posicionei perto da porta quando a batida veio.
— Eu atendo! — gritei pra cozinha.
— Ué, tem alguém aí? — ela respondeu.
E foi aí que eu descobri que ninguém mais conseguia ver ou ouvir esse misterioso homem da carretinha. Eu me senti aliviado.
Eu abri a porta só uma fresta e disse que hoje eu não queria pedir nada.
— Certamente! Obrigado pelo pedido! — ele disse, como todo dia.
Eu nem me dei ao trabalho de ver ele indo embora, fechei a porta antes mesmo de ele sair.
E ficou assim pelos três meses seguintes. Atender a porta às 8, dirigir pra encontrar o intermediário, bater o ponto no trabalho.
Três meses antes da festa.
Numa noite, eu quis comemorar meu sucesso e o meu “trabalho duro” de pedir órgãos e ainda assim bater ponto pra trabalhar por aparentemente motivo nenhum agora. Numa sexta-feira à noite, eu bebi mais do que o normal e apaguei.
Acordei às 10 da manhã no dia seguinte, em pânico por causa do trabalho. Eu dei um pulo e me joguei no banheiro, vesti qualquer roupa, até que minha esposa entrou e perguntou qual era a correria toda.
Ah. É sábado.
Eu sorri, sem graça, e eu soube que ela soube o que eu estava fazendo.
Ela balançou a cabeça e suspirou.
— Não bebe tanto da próxima vez.
Eu troquei pra roupas mais confortáveis e segui ela até a cozinha, onde as crianças comiam panquecas.
Minha esposa estava no fogão e de repente virou pra mim como se tivesse lembrado de alguma coisa.
— Ah, é! Quase esqueci de te falar. Eu peguei a correspondência ontem à noite e alguém te mandou alguma coisa. Deixa eu achar.
Ela foi até a gaveta do lado da porta da frente e puxou um único envelope marrom, entregando pra mim.
Quando eu olhei melhor, não tinha assinatura, não tinha nada — só o meu nome completo escrito na frente.
— Valeu — eu disse pra ela.
Eu tive a suspeita de que fosse do trabalho, então me afastei da minha família antes de abrir.
Dentro tinha um cartão com uma caligrafia caprichada escrita por dentro:
Convite
A Festa Anual da Colheita de Órgãos
Apenas para Membros Leais
— O Clube da Festa
[ENDEREÇO], 14/04/2023, 22h
Sem chance. Não tinha como eles terem me convidado pra algo tão especial. Quero dizer, eu nunca tinha ouvido falar disso, mas depois de tanto tempo, finalmente estavam me reconhecendo como um membro leal do negócio. Talvez eu pudesse ser promovido. Fazer parte do círculo interno.
Eu reli o bilhete várias vezes e joguei no lixo, com o coração disparado. Quando foi a última vez que eu fiquei tão animado? Depois de viver numa rotina monótona pelos últimos anos, finalmente alguma coisa estava acontecendo e o esforço estava valendo a pena.
Faltava mais ou menos uma semana e meia pra data.
Eu acalmei a batida acelerada do coração. Voltei pra cozinha e disse pra minha esposa que o envelope era do trabalho e que eu precisaria ir a uma reunião da empresa no dia 14, que ia durar até tarde da noite. Ela concordou e levou outra leva de panquecas pra mesa. Eu fiz carinho na cabeça dos meus filhos, bagunçando o cabelo deles, e me juntei a eles pra devorar a pilha.
Avançando pro dia 14. Eu esperei todos os dias na ansiedade, o tempo passando num estalo. Eu estava pronto pra sair. Eu fui em direção à porta, mas de repente pensei na minha maleta médica, com kit de sutura e outros materiais. Vai saber? Eu poderia precisar depois. Afinal, eu não sabia exatamente como uma festa dessas era organizada.
Eu peguei a maleta e fui pro carro, colocando o endereço no GPS. O lugar era bem longe. Umas duas horas de estrada. Liguei o motor e segui a navegação.
O caminho me levou pros arredores da cidade, pouco antes de chegar nas estradas desertas. Eu me aproximei de um prédio empresarial mal iluminado, com cinco andares, cheio de janelas de vidro. Parecia deslocado — moderno demais pro entorno. As luzes estavam acesas lá dentro. Eu estacionei no estacionamento atrás do prédio. Já tinha vários carros alinhados, e eu cheguei 10 minutos adiantado.
Peguei minha maleta no banco de trás e tranquei o carro. Quando virei pro prédio, notei outra pessoa em pé ali, à distância. Eu andei um pouco mais e fiquei agradavelmente surpreso ao ver um rosto familiar.
— Ei! — eu gritei pro intermediário, acenando.
Ele se virou confuso, mas sorriu quando me reconheceu.
— E aí! Veio deixar outra mercadoria? Como é que você me achou até aqui? — ele brincou.
Eu dei minha risada de trabalho. Perguntei se ele tinha recebido o convite e, claro, ele tinha recebido o mesmo envelope que eu.
A gente entrou no prédio e foi imediatamente recebido por uma recepcionista sentada numa mesa perto da entrada. Ela usava um vestido preto formal, o cabelo preso num coque alto e um colar prateado chamativo. Sentada diante de um único computador em cima de uma mesa comprida, a toalha vermelha contrastava muito com o interior branco do prédio. Havia um corredor reto à frente com salas envidraçadas, às vezes se abrindo pra um lado ou pro outro.
— Olá! Em que posso ajudar? — ela disse, sorrindo pra nós dois.
— Olá, nós estamos aqui pra participar da festa — disse o intermediário.
— Mostrem seus convites.
Por sorte eu lembrei de trazer o envelope comigo. Eu tirei do bolso de trás e mostrei pra ela, e o intermediário fez o mesmo.
— Certo. Agora me digam um fato interessante sobre vocês que ninguém mais saiba.
Eu e o intermediário nos encaramos, confusos. Não era exatamente surpresa o Clube da Festa saber tudo sobre a gente, mas ainda dava medo saber que eles me monitoravam sem eu saber. Bem… eu também pedi por isso, no fim das contas, quando entrei nesse negócio.
Eu e o intermediário nos revezamos sussurrando nossos segredos no ouvido dela. Eu contei sobre a cicatriz que eu tenho embaixo do lábio, de quando eu bati a cara no concreto depois de usar um ab roller. Vergonhoso, eu sei.
Quando terminamos, ela clicou duas vezes no computador, aparentemente satisfeita.
— Bem-vindos à Festa Anual da Colheita de Órgãos do Clube da Festa! Quando estiverem prontos, sigam em frente e virem à esquerda. Vocês vão encontrar os elevadores. Subam até o terceiro andar. Aproveitem! — ela exclamou com o mesmo sorriso firme, inabalável. De algum jeito, aquilo me lembrou o homem da carretinha, mas eu descartei como coincidência.
— As damas primeiro! — eu disse, chamando o intermediário pra ir na frente.
Seguindo logo atrás dele, eu olhei pra trás antes de virar a esquina. A mulher tinha sumido. Eu não ouvi passos, nem qualquer sinal de movimento. Talvez ela já tivesse saído.
Nós pegamos o elevador até o terceiro andar. Era um espaço completamente vazio, tirando umas colunas aqui e ali. Já tinha gente lá dentro, se juntando e conversando em grupos, se conhecendo. Eu estimei umas 80 pessoas.
Talvez aquilo fosse tipo outro saguão e eles ainda estivessem preparando o evento principal?
Pelos sussurros ao redor, parecia que era a primeira vez de todo mundo ali. Estranho.
Duas palmas altas calaram todo mundo. Eu olhei na direção do som.
— Bem-vindos à Festa Anual da Colheita de Órgãos!
Eu reconheci aquele sorriso antes de reconhecer qualquer outra coisa. Era o homem da carretinha, que vinha me abastecendo.
— Espero que todos estejam se divertindo muito. Dito isso, vamos começar essa festa! — ele comemorou.
Alguém gritou. Algumas pessoas se assustaram, dando um pulo.
Tinha gente bloqueando minha visão, então eu me esgueirei entre as pessoas pra ver melhor.
As pessoas estavam em volta de um rapaz jovem, com os olhos arregalados de terror, e as mãos apertando o próprio estômago. Através do moletom claro, eu via um vermelho escuro se espalhando e depois escorrendo pelas mãos dele.
Ele caiu no chão.
Eu corri até ele e levantei a camisa.
O estômago dele tinha sido aberto — um corte enorme, vertical, do meio do peito até a parte baixa do abdômen. O sangue jorrava, se acumulando ao redor do corpo mole dele.
— Rápido! Alguém liga pro 911! — eu gritei.
Mas já era tarde. Os órgãos dele escorregaram pra fora do corpo, flutuando em direção à carretinha como se alguém invisível estivesse carregando. Eles se guardavam lá dentro.
Aquela festa não era pra gente colher. A gente estava sendo colhido.
Outra pessoa atrás de mim gritou.
Dessa vez foi uma mulher mais velha. Ela segurava um telefone na orelha — tinha ligado pra polícia. O rosto dela se contorceu de dor e o sangue encharcou o cardigan dela, igual ao do rapaz. Ela também desabou no chão.
Ela apertou o telefone contra o rosto e gemeu as próximas palavras, pedindo ajuda e informando o endereço pro atendente do 911. Por fim, ela desmaiou, o telefone caindo quando ela perdeu o controle dos braços.
O caos tomou conta. As pessoas correram pros elevadores, tropeçando umas nas outras. Uma por uma, elas caíam no chão.
Era como uma contagem regressiva.
Só havia um tanto de tempo até chegar em mim.
Merda, merda, merda. O que eu faço?
Eu precisava sair dali.
Eu disparei em direção aos elevadores, desviando das pessoas que iam caindo. Eu vi o botão de descer aceso — alguém tinha conseguido apertar. O sangue rugia nos meus ouvidos, abafando os gritos.
As portas do elevador se abriram.
Quase lá…
A dor rasgou meu estômago.
Merda.
O sangue vazou pra dentro da roupa e eu caí de costas.
Eu entrei em pânico. Eu não quero morrer, eu não quero morrer, eu não que—
O kit de sutura. Eu quase tinha esquecido que eu segurava minha maleta médica com força de vida ou morte.
Não tinha outra escolha.
Eu puxei a camisa pra cima e escancarei a maleta, tateando atrás do kit de sutura. Enfiar a linha na agulha foi difícil com as mãos tremendo, mas por milagre eu consegui depois de algumas tentativas.
Eu comecei entre o peito e costurei pra baixo. Os pontos ficaram uma porcaria, mas eu só precisava de alguma coisa pra me manter inteiro. Eu estava perdendo muito sangue. Eu não tinha tempo.
Eu nem me dei ao trabalho de cortar a ponta do fio. Eu me forcei a ficar de pé, com a agulha pendurada no meu corpo. Eu dei os últimos 15 passos até o elevador e apertei o botão.
A porta abriu mais rápido do que eu esperava. Eu tropecei pra dentro e apertei o botão do primeiro andar, encostando na parede pra me sustentar.
Eu apertei o botão de fechar a porta, socando ele de novo e de novo, olhando pelas portas ainda abertas.
O homem da carretinha vinha correndo na minha direção. Eu sentia o ferimento ameaçando abrir de novo, a pele puxando contra os pontos. Eu me mantive “junto”, lutando contra a minha própria carne.
Ele estava mais perto. Eu não ia conseguir. Ele alcançaria as portas do elevador antes de elas fecharem.
De repente, ele caiu pro lado. Alguém se jogou nele.
— Não! — eu gritei.
Quem o interceptou e o homem da carretinha caíram no chão, bem na frente do elevador.
Antes das portas fecharem, o intermediário disse uma última palavra pra mim.
— Vive.
O elevador zumbiu, descendo até o térreo.
Eu repeti aquilo na minha cabeça.
Vive.
Eu precisava sair dali. Contar pra todo mundo a verdade sobre o que aconteceu com aquelas vítimas. Levar adiante a vontade delas.
As portas abriram e eu corri em direção à entrada. Meu tronco doía pra caralho, mas eu não deixei isso me parar. Eu virei e vi as portas de vidro bem na minha frente.
Eu consegui.
Uma faísca de esperança subiu quando eu empurrei a porta e abri.
No momento em que eu pisei lá fora, eu fui arremessado pra frente.
O prédio explodiu.
Meus ouvidos apitaram. Estilhaços de vidro voaram pra todo lado.
Eu perdi a consciência antes de bater no chão.
Murmúrios encheram meus ouvidos. Eu abri os olhos.
Eu estava numa cama de hospital, na UTI. Tinha várias coisas conectadas em mim e eu estava enfaixado por inteiro. Havia um tubo na minha garganta, me ajudando a respirar. Eu tentei me mexer, mas não tinha força. Uma enfermeira passou e percebeu que eu estava acordado. Ela checou meus sinais vitais, apontando uma luz pros meus olhos.
— Alô? Você consegue me ouvir? — ela perguntou. — Pisca uma vez pra sim, duas vezes pra não.
Mesmo com a voz abafada, eu pisquei uma vez.
— Ótimo. Você lembra o seu nome?
Eu pisquei uma vez de novo antes de pensar.
Eu lembrava? Eu procurei na minha cabeça. Ah, é… meu nome é **[CENSURADO]**.
Ela me orientou a descansar e disse que me explicaria o resto quando chegasse a hora.
Nas duas semanas seguintes, eu passei a maior parte do tempo na cama, me recuperando. Minha audição voltou e, eventualmente, eu consegui me sentar. O tubo de respiração foi removido e eu consegui comer sozinho. Minha família me visitou quase todos os dias, cheia de preocupação, sem fim.
Eu fiquei em coma por dois meses.
4 costelas quebradas. Ombro esquerdo quebrado. Múltiplas fraturas. Trauma craniano grave. Lesão cerebral traumática. Danos no tímpano. Danos na cavidade nasal. Pulmões rompidos e danos em órgãos internos. Mais do que alguns estilhaços de vidro no corpo. Queimaduras de segundo grau nas costas. Perda de sangue quase fatal.
Eu tenho uma sorte do caralho de estar vivo.
A enfermeira me disse que eu teria morrido sem os pontos.
Eu só lembrava fragmentos do que aconteceu naquela época — só a explosão e pedaços da festa. Conforme o tempo passava, essas memórias foram voltando devagar.
Eu passei os quatro meses seguintes estabilizando no hospital e depois fui pra reabilitação por mais dois.
Depois de pagar as contas do hospital com a minha nova fortuna, eu arrumei um novo emprego. Um emprego novo, legítimo, bem longe de onde eu trabalhava antes, e de onde eu moro agora. Eu queria ficar o mais longe possível do Clube da Festa e começar do zero. Eu e minha família nos mudamos depois de alguns meses de planejamento cuidadoso.
Eu estou realmente feliz agora, e estou bem. Pra todos que estão nesse ramo, levem isso como um aviso. Eu imploro: caiam fora e vivam uma vida honesta.


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