segunda-feira, 2 de março de 2026

Você de Novo…

Sou psiquiatra, acostumado a ver de tudo no meu consultório. Quase tudo tem uma explicação, e eu sempre consigo encontrá-la. Mas o que eu vivi é algo que não dá pra explicar nem com medicina nem com psiquiatria. Tudo começou há alguns anos, quando atendi um paciente com transtorno de estresse pós-traumático clássico. Ele revivia um acidente que tinha sofrido anos antes, sem parar. Com o tempo fizemos progresso e ele passou a entender que aquelas memórias e sonhos não passavam disso — sonhos.

Houve um período em que parei de vê-lo. Ele parou de vir ao consultório, o que costuma acontecer quando o paciente melhora. É um lembrete de que eu ajudo mais do que cobro. Então, um dia, esse paciente voltou. Ele nunca tinha parado de ter aqueles sonhos recorrentes que o atormentavam todo santo dia sobre o acidente. Mesmo assim, tinha voltado só pra me contar o sonho mais uma vez. Irritante, mas é o meu trabalho.

Sentamos no meu consultório, um de frente pro outro em duas poltronas bem confortáveis que eu tenho há muito tempo. Não tenho secretária, então ele não precisou ser anunciado. Tinha um horário vago na minha agenda e, mesmo aparecendo sem marcar, eu tinha que atendê-lo. O pobre coitado estava diferente.

“Doutor”, começou meu paciente, “sonhei a mesma coisa de todas as noites. Estou saindo de casa como sempre, indo pro trabalho, andando um pouco distraído, olhando pras nuvens de um jeito quase hipnótico. No sonho eu não estou com pressa nenhuma, e então simplesmente sinto uma pancada do lado. Um carro me atropela e eu acordo morrendo de medo. Mas tem sido estranho ultimamente.”

“Por que você está se sentindo diferente?”, perguntei, com certa curiosidade.

“Tem sido diferente ultimamente porque…”, ele parou por um instante. “Eu notei que meu peito não aperta e eu não acordo suando. E sinceramente… nunca aconteceu nada disso desde que comecei a ter esse sonho toda noite. Com a terapia eu venho perdendo o medo e a ansiedade, mas não é verdade que eu acordo suado ou com o coração na boca.”

“Isso é uma boa notícia”, eu disse com entusiasmo genuíno. “O estresse pós-traumático traz muitos sintomas, e o fato de você estar superando eles é algo pra comemorar.”

Antes de responder, ele ficou alguns segundos em silêncio. Observei com um desconforto discreto a confusão que se formava na mente do meu paciente. É comum ver pacientes que debatem se sarar é bom ou ruim pras suas vidas — muitas vezes transformam os sintomas em parte da própria identidade. Mas esse homem tinha uma atitude diferente. Ele estava genuinamente preocupado por não estar sentindo o que deveria sentir. E então disse algo que me deixou gelado.

“Doutor”, falou ele com um drama sincero, inclinando-se para a frente na poltrona, praticamente se dobrando na minha direção, “eu nunca acordei suando ou agitado com o peito apertado.”

Levantei uma sobrancelha e me recostei um pouco. Ele viu meus olhos se abrirem um pouco mais que o normal e continuou: “Doutor, eu não tenho pulso. Não consigo ouvir minha própria respiração. Doutor… eu não estou vivo.”

Abri os olhos ainda mais e, com um meio sorriso, segurei ele pelos ombros e o fiz se recostar de novo na poltrona. Ele estava frio. Depois me levantei e fui até minha mesa, convidando-o a sentar de frente pra mim. Isso servia pra dois propósitos: estabelecer distância e encerrar a sessão.

“Eu entendo pelo que você passou”, falei com aquele tom sério e pesado que construí ao longo dos anos. “Os sonhos pressionam forte a nossa psique e tendem a distorcer nossa realidade quando são tão repetitivos. Quero que você se agarre à realidade, que veja a importância dos seus sintomas estarem diminuindo. Segure isso.”

Ele me encarou com a testa franzida e olhos apertados, quase suplicantes, e coçou a cabeça nervoso. Estava genuinamente assustado — não era a primeira vez que chegávamos a um sentimento assim. A síndrome de Cotard é muito rara de se desenvolver, e mais rara ainda depois de um transtorno de estresse pós-traumático. Simplesmente não é comum. De jeito nenhum.

O rosto dele mudou num instante, como se tivesse chegado a alguma conclusão, e ele se levantou. Apertou minha mão — senti algo estranho — e eu não tentei impedi-lo. Eu o veria em breve. Ofereci aumentar a dose da medicação, mas ele indicou que realmente estava melhorando, e desapareceu porta afora.

Naquela mesma noite, antes de dormir, olhei pra minha mão. Sou um homem de constituição magra, pálido, bem alto, então ver minha mão pálida nunca me surpreendeu. Já cheguei a pensar que poderia ter síndrome de Marfan ou algum distúrbio do tecido conjuntivo. Naquela noite meus dedos finos não foram o que chamaram minha atenção — foi meu pulso. Senti vontade de checar meu próprio pulso. Fechei a mão em punho e fechei os olhos. Esse paciente não ia criar raiz na minha cabeça. O louco não sou eu.

Nos dias seguintes tentei continuar com minha vida normal, indo trabalhar como se nada tivesse mudado. Mas eu sabia que, na verdade, tudo tinha mudado. Um dia me senti muito mais disposto — nem lembrei da vontade de fumar. Eu pegava um cigarro toda manhã há anos. Mas aquele dia foi diferente. Eu não tinha fumado. Também não tinha tomado café da manhã. E então caiu a ficha. Olhei pra minha mão trêmula — pálida, como se não tivesse uma gota de sangue por baixo da pele. Eu precisava fazer isso. Procurei meu pulso prendendo a respiração, dedos no lugar certo. Os segundos passaram e não senti nada. Mesmo assim eu ainda não estava respirando. Minutos se passaram e não senti nenhuma necessidade de ar. E então eu acordei.

Respirei fundo. Foi um alívio me sentir molhado de suor. Toquei as carótidas — dos dois lados elas pulsavam, anunciando vida. Eu estava vivo. Eram 3 da manhã. Fiquei mais algumas horas na cama, e quando bateu a vontade de urinar, levantei rápido demais. Minhas têmporas começaram a latejar, o peito não parava de apertar, tudo começou a girar. Alguns minutos depois me levantei do chão devagar. Tinha desmaiado — disse pra mim mesmo que não deveria ter levantado tão rápido. Estou ficando velho. Bebi água e fui direto pro espelho. Enquanto me segurava na pia e esfregava o rosto, me reconhecendo, notei algo atrás de mim. Alguém. Uma sombra alta passando rápido pelo corredor. No fundo da minha mente: é um espírito, é um demônio, ou pior — não é nada, e eu estou enlouquecendo. Decidi não seguir. Voltei pra cama e esperei o despertador.

Às 7 da manhã me vesti e fui trabalhar. Dessa vez me certifiquei de que não estava sonhando lendo minha agenda — se estivesse dormindo eu não conseguiria ler — então comecei meu dia normalmente. Mais uma vez havia um intervalo de duas horas na minha agenda, algo que acontece durante a semana mas incomum por tanto tempo assim. Eu normalmente deixo pequenos intervalos de dez ou vinte minutos no máximo. Nunca duas horas. Senti o coração na boca.

Conforme o tempo passava eu ficava mais ansioso, esperando que aquele paciente de algumas semanas atrás aparecesse. Eu precisava checar o pulso dele, sentir que ele respirava. Não dava pra continuar me sentindo como se estivesse enlouquecendo à toa. Então chegou a hora. Levantei da mesa e tentei me distrair na janela — na verdade eu estava vigiando quem entrava no prédio. Foi quando vi algo muito estranho. Multidões de pessoas atravessando a avenida, quase uma massa de corpos — mulheres, homens, crianças — sem um único veículo à vista. Não consegui entender o que estava acontecendo, então voltei a sentar e tentei me distrair com outra coisa. Me forcei a olhar minhas anotações. Minhas mãos pareciam pesadas, sem resposta. Comecei a notar mais luz vindo da avenida, e então alguém entrou pela porta. Sem fazer barulho nenhum.

Não era meu paciente antigo. Com certeza eu não conhecia essa pessoa. Uma mulher de idade incalculável, mais velha que eu, atravessou a sala sem se apresentar e começou a falar imediatamente. “Doutor, obrigada por me atender. Preciso da sua ajuda.” A palavra “atender” ecoou na minha cabeça, já que ela tinha entrado sozinha sem pedir.

“Sinto que tem algo errado”, continuou a senhora. “Meus filhos não falam comigo há muito tempo. Eles estão me abandonando — levaram todas as minhas coisas de casa, me deixaram só com a roupa do corpo e depois simplesmente me largaram sozinha. Não como nada há dias. Não durmo uma noite sequer. Não entendo por que fizeram isso comigo. Vim porque não consigo lembrar o nome deles, nem o meu próprio. Acho que me chamavam de María, ou Ana, ou Clementina — mas não lembro. Me dá algo pra memória, pra demência. Eu preciso.”

Tentei diagnosticá-la de verdade. A deterioração estava evidente. Olhei fixamente pra ela e ofereci água, corri pra colocar num copinho de papel, depois me aproximei e peguei sua mão, tentando ajudá-la a sentar. Ela estava fria. Parecia abatida, à beira das lágrimas. Comecei a reparar nos detalhes — o rosto esquelético, o corpo magro — e quanto mais eu olhava, mais alto ficava um pensamento: será que eu estava olhando pra um fantasma? Voltei a sentar e instintivamente procurei meu próprio pulso. Não senti nada. Peguei minhas anotações e consegui ver minha agenda. Estava lendo perfeitamente: a consulta marcada era “María ou Ana ou Clementina” — literalmente o que ela tinha acabado de me dizer. Eu diria que senti um arrepio, mas não senti absolutamente nada. Olhei direto nos olhos dela. Ela começou a chorar. Nenhuma lágrima caiu.

“Quando você nasceu?”, perguntei com cuidado. Ela me olhou e sufocou um soluço com as mãos. Não conseguia lembrar. Isso estava claro. Não quis perguntar mais nada. Coloquei minhas mãos viradas pra cima sobre a mesa, como se pedisse as dela. Segurei-as — por fora oferecendo suporte emocional, mas na verdade procurando o pulso. Não encontrei nada. Ela estava morta.

“Senhora… uh…” tentei dizer o nome dela, mas nem ela nem eu sabíamos. “Quero te ajudar. Vou falar com seus filhos. Me diga onde você mora.” Os olhos dela foram primeiro pra direita, procurando uma resposta, depois pra esquerda, tentando se explicar. Não conseguia lembrar. Continuou soluçando sem dizer mais nenhuma palavra, tentou falar, mas não conseguia produzir som. Parei de perguntar. Ela estava presa em algo sério. Se eu estivesse em meu juízo perfeito teria chamado uma ambulância imediatamente — uma mulher sem pulso, sem memória — não pedir ajuda seria negligência médica absoluta. Não tenho desculpa. Eu estava realmente desconectado da realidade. Estava perdendo a cabeça.

Enquanto eu estava perdido em pensamentos, não percebi o que realmente estava acontecendo. Quando olhei de volta pra ela, o que vi não fazia sentido. Vou tentar descrever da melhor forma possível: ela tinha se transformado numa espiral de sombras. Se eu olhasse pelo canto do olho ela ainda era a senhora idosa, mas olhar direto era perturbador — ela tinha uma frequência desconfortável de se ver. Como se algo a puxasse em direção à porta por onde tinha entrado, ela desapareceu. Um momento depois eu me levantei rápido e quando cheguei à porta ela já não estava mais lá. De repente senti todo o peso do meu corpo. Meu peito voltou a apertar e minhas têmporas doíam.

Enquanto estava inconsciente sonhei algo bem breve. Eu estava parado em frente ao espelho do banheiro, esfregando o rosto. Mais uma vez uma sombra nas minhas costas, atravessando o corredor. Dessa vez eu segui. Alguém estava em pé no final do corredor. Um homem alto, muito bem vestido — aquele tipo de elegância que se acumula ao longo de séculos. Terninho escuro, colete, gravata. Ele não precisou dizer o nome. Na verdade falou bem pouco, numa voz que ressoava nos ossos em vez de nos ouvidos. Disse algo sobre a mente, a alma, o ego. Algo sobre a memória que os mantém. Depois atravessou o corredor num instante. Eu não conseguia me mexer. Ele deixou um relógio de bolso dentro do meu paletó e desapareceu.

Acordei com uma dor de cabeça forte. Eu realmente tinha desmaiado e batido a cabeça. Mas me recompus direito, olhei o relógio na parede — não tinha se passado muito tempo desde a manhã — e um paciente razoavelmente normal chegaria em breve. Não havia nenhum registro da senhora idosa na minha agenda. Eu não conseguia lembrar o nome dela, se começava com M ou A. Nada nas minhas anotações sobre qualquer senhora. Na verdade nunca tinha existido um intervalo de duas horas na minha agenda. Considerei se tinha sido um sonho, olhei pela janela — nenhuma multidão. O sonho recente era uma memória vívida. Peguei o relógio. Ele estava lá. Frio, pesado contra a lapela como se fosse de chumbo. Abri: os ponteiros não marcavam as horas. Eles se moviam lentamente para trás, contando os minutos exatos que faltavam até o próximo paciente cruzar minha porta.

Estou escrevendo isso porque sei que tem mais deles por aí. Se você conhece alguém que parou de comer não por falta de fome, mas por ter esquecido; se tem um familiar que insiste que o pulso dele parou, ou que consegue ouvir o choro de um funeral que mais ninguém escuta — não leve pra um hospital comum. Eles não precisam de remédio. Precisam de um diagnóstico que permita que descansem. Minha agenda tem um horário vago hoje às três da tarde. Estarei esperando. Afinal, o ego é a última coisa a morrer — e eu sou o único que sabe como ajudá-los a se despedir.

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