domingo, 15 de março de 2026

O Som Constante Que Eu Ouvia Toda Noite na Minha Fazenda

Eu moro perto de um observatório, o telescópio dá pra ver a quilômetros de distância, e mesmo morando a um quilômetro e meio da entrada ainda tenho que passar por uma revista de segurança. Desde que o lugar foi construído eu notei o fluxo constante de caminhões e transportes pesados passando em frente ao meu portão. Eu vivo numa fazenda antiga e cuido dela como meu pai e meu avô cuidavam, então minha vida nunca mudou muito.

Uns três anos depois da conclusão das obras do observatório, começamos a ouvir esse som agudo, um zumbido alto de madrugada. Incomodava o gado, mas durava só uns cinco minutos, então eu não dei muita bola. Começava às dez da noite e durava cinco minutos, depois silêncio. O que era realmente estranho é que depois que o som parava, o silêncio que vinha a seguir parecia pesado. Nada de grilos, nada de corujas. Na verdade, a noite inteira parecia congelada. Eu fazia minha ronda antes de ir dormir e via esse feixe de luz disparar do prédio principal como se fosse algum tipo de laser.

Convivi com aquilo por mais quatro anos e o zumbido virou barulho de fundo. O rádio perdia o sinal ou a televisão apagava do nada. Era uma esquisitice no começo, e quando perguntei a um dos guardas sobre isso, ele me olhou como se eu tivesse ficado louco. Numa noite o som não veio, e foi aí que eu descobri o porquê.

Eu estava arrumando a cozinha depois do jantar e planejando ir checar as vacas, faltava um minutinho pras dez. Minha esposa e meus filhos estavam na casa dos sogros pra um churrasco ou alguma festa assim, então eu estava completamente sozinho, do jeito que eu gostava. Saí e olhei as horas: eram dez e dois, e o zumbido não tinha vindo. Fui até um lugar aberto pra ver o prédio do observatório e não tinha nenhum feixe de luz disparando pra cima. Senti que alguma coisa estava errada, mas não me preocupei porque aquelas cabeças pensantes de lá sabiam o que estavam fazendo. Indo em direção ao estábulo, senti alguma coisa se mover nas árvores além da minha cerca, como se algo estivesse me seguindo. Não estava carregando minha espingarda nem a lanterna porque estava tão acostumado com o caminho que não precisava delas.

Parei pra olhar as árvores e não vi nada. Quando voltei a andar, veio um som como se mais de uma coisa estivesse caminhando nas sombras. Virei e corri de volta pra dentro de casa. Peguei a lanterna e a espingarda e voltei lá pra fora, foi então que ouvi um estrondo enorme vindo do meu portão e corri pra ver o que tinha acontecido. Lá estava um caminhão que tinha arrombado o meu portão, mas ficou preso porque o portão quebrado tinha ficado enroscado embaixo do veículo.

Berrei pro motorista perguntando se ele tinha perdido o rumo e o juízo, mas não obtive resposta. Fui andando até o caminhão gritando. O motorista tinha sumido e o para-brisa estava quebrado de dentro pra fora. Olhei de novo pra ver se conseguia entender o que tinha acontecido, mas o lugar estava vazio. Eu ia checar a parte de trás quando ouvi um rosnado grave vindo das sombras. Apontei a lanterna naquela direção e peguei uma sombra correndo. Tentei seguir, mas não consegui. Aquilo estava começando a me apavorar de verdade, então voltei pra casa. Ia ligar pro xerife e deixar ele resolver a situação.

Voltando pra casa ouvi o barulho de passos de algo correndo em direção ao portão e me virei pra ver, mas não tinha nada. Sem a menor vontade de virar jantar pra seja lá o que fosse aquela porra, corri e tranquei as portas da minha casa. Apaguei as luzes e tentei ligar pro xerife, mas a linha estava morta. Ouvi alguma coisa correr até a casa e parar. Fui devagar até a janela pra tentar ver o que era, mas não tinha nada lá. Meu coração estava disparado e eu conseguia sentir o sangue pulsando. Tentei me concentrar e entender o que poderia ser aquilo.

Fiquei parado na janela encarando a noite, esperando ver aquela coisa. Por um bom tempo, nada. Depois de uma hora ouvi os passos de novo, dessa vez estavam na varanda e eu levantei a espingarda apontando pra janela. Continuava sem nada. Me movi pra checar, e foi aí que ouvi o barulho de vidro quebrando no andar de cima, era do quarto das crianças. Corri até as escadas e apontei a espingarda pro topo. Nada se movia. Os passos se arrastavam devagar pelo quarto em direção à porta. Fiquei esperando e senti meu coração acelerar mais ainda, conseguia quase sentir o gosto dele na boca, o suor escorria pelo meu rosto e eu tinha que enxugá-lo dos olhos. Os passos foram se aproximando das escadas e meu dedo foi apertando o gatilho. Qualquer que fosse aquela coisa, eu não estava nem aí, queria que ela sumisse.

Vi uma sombra escura se mover no alto das escadas e esperei. Então vi algo se mexer e atirei. O trovão da espingarda e o clarão me cegaram por um segundo. Quando a fumaça dissipou, a janela atrás das escadas estava destruída e a parede toda cravejada de chumbo. Engatilhei a espingarda e apontei de novo. Nenhum som dessa vez. Só o barulho de vidros caindo e madeira rachando, nenhum passo. Do nada os passos recuaram de volta pro quarto e ouvi a coisa aterrissar no telhado e depois no chão. Virei e apontei pras janelas, varrendo uma por uma com a espingarda, depois pro portão. Eu estava apavorado pra caralho. Nada veio e a coisa talvez tivesse ido embora. Fui devagar até a janela onde eu estava antes e olhei lá fora.

Lá estava essa coisa comprida e preta parada perto da minha caminhonete, só parada lá. Não conseguia distinguir o que era. Cerrei os olhos e tentei focar o máximo que pude, mas não conseguia decifrar aquilo. Era uns dois metros e meio de altura, totalmente preta, sem nenhum movimento, só parada. Peguei a lanterna e apontei pra aquela coisa. Segundos antes de eu acender ela, a coisa disparou pra direita e sumiu. Tentei ver pra onde tinha ido, mas não encontrei nada. Apaguei a lanterna e fiquei esperando de novo. Nada. A noite estava silenciosa e pesada.

Os passos voltaram, mais altos dessa vez, perto de onde eu estava. Me afastei devagar seguindo os sons com a arma, aquilo estava me farejando. Parei logo antes das escadas e fiquei esperando. A sombra passou pela porta e parou antes da janela. Eu queria atirar tanto que conseguia sentir a tensão do gatilho no dedo. A coisa não se movia, só esperava.

Uma gota de suor caiu no meu olho e eu pisquei. A parede estourou pra dentro e atirei ao mesmo tempo. A coisa gritou e eu entrei em pânico tentando engatilhar a espingarda pra atirar de novo. Ela se jogou pra frente e antes que eu conseguisse atirar me acertou. Voei pra trás e caí nas escadas, a espingarda saiu das minhas mãos. Olhei pra cima e vi estrelas rodando. Tentei me levantar, mas tinha uma força avassaladora me mantendo no chão. Olhei pro meu peito pra ver o que era. Não tinha nada lá, nenhuma sombra, absolutamente nada, e ainda assim eu não conseguia me mover. A pressão foi aumentando e eu conseguia sentir minhas costelas estalar e minhas entranhas sendo esmagadas. Cada respiração era mais difícil que a anterior. Tentei me levantar, mas a força era grande demais. As escadas atrás de mim estavam me cortando a espinha e a dor era inimaginável.

Bem quando senti que ia perder a consciência, o zumbido familiar voltou e aquela coisa, seja lá o que fosse, gritou como se estivesse em agonia e a pressão sumiu num estalo. Fiquei lá deitado respirando fundo tentando me levantar. Os gritos saíram da casa e se perderam na noite. Não vi o que era e nem conseguia imaginar o que poderia ser. Tudo o que eu sabia era que aquele zumbido era como veneno pra aquela coisa.

Depois disso os militares apareceram na minha propriedade e me fizeram tantas perguntas que eu quase acreditei que tinha imaginado tudo aquilo, essa porra toda. Me mandaram assinar um monte de documentos dizendo que não podia falar sobre aquela noite e foram embora me deixando com um buraco gigante na parede. Seja lá o que aquela coisa era, eu não faço a menor ideia. Pouco tempo depois vendi a fazenda e me mudei pra outro lugar.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon