Eu estava com trinta e seis horas de jejum. Tinha terminado de me arrumar pra missa e fui até o quarto da minha colega de quarto Rowan, batendo forte na porta pra garantir que ela me ouvisse por cima dos cantos gregorianos que ela estava tocando. Ela abriu a porta, com o cabelo já coberto por um véu azul escuro. “Pronta?”, perguntou. Normalmente minhas colegas de quarto e eu íamos juntas pro culto da noite, mas a Rue não estava em lugar nenhum. Achando que ela ia nos encontrar lá, nós duas fomos andando.
Sentamos na ponta do nosso banco de sempre, enquanto outros alunos começavam a ocupar os lugares restantes. O sino tocou e nós nos levantamos. Redemoinhos de arco-íris opacos dançavam sob minhas pálpebras. Agarrei a madeira na minha frente, tentando fazer a tontura passar. Quando abri os olhos, vi de relance o que com certeza era o cabelo loiro-branco da Rue passando correndo por mim. Quando consegui virar a cabeça direito, vi a porta do banheiro se fechando devagar. Depois de trinta minutos e ela ainda não ter voltado, eu saí de fininho do banco enquanto as pessoas começavam a encher os cestos tecidos com dólares.
Dentro do banheiro, as luzes fluorescentes hostis me engoliram quando me aproximei da cabine que escondia um par de sapatilhas de balé de cetim. Soluços baixos ecoavam. “Rue?”, chamei. “Você tá bem?” Como resposta, ela escancarou a porta, me acertando bem na cara; minhas mãos foram direto pro ponto na testa onde eu sabia que um hematoma ia nascer. Antes que eu conseguisse formar um xingamento na cabeça, meus olhos caíram no teste de gravidez que ela estava me estendendo.
Positivo.
Levantei o olhar pro rosto molhado de lágrimas da Rue. “Caralho”, foi tudo que consegui dizer.
Antes que ela pudesse explicar a situação, a Rowan entrou no banheiro. Os olhos dela se arregalaram quando viram o teste na mão da Rue; um entendimento sombrio tomou conta dela.
Eu segurei firme os ombros da Rue e aproximei meu rosto do dela. “Você precisa explicar essa merda agora.”
Ela assentiu freneticamente. “Mês passado, meus pais viajaram pra uma reunião de negócios nas férias, então eles me mandaram ficar com o Wes. Ele disse que se eu obedecesse ele, ia falar bem de mim pros amigos dele em Dartmouth”, ela fungou.
O Padre Wesley comandava o culto de domingo; a pele do pescoço dele caía até os joelhos enquanto ele falava. Só de imaginar aquelas mãos roxas tocando nela...
Meus dedos traçaram o contorno da minha clavícula; as luzes ficaram ofuscantes enquanto eu tentava pensar no que fazer. As leis do Maine e da Igreja Católica não permitiam aborto legal. De todos os remédios que eu sabia como conseguir, nenhum era misoprostol. Mas eu tinha uma coisa que podia oferecer, algo que eu normalmente não recomendava pra quem não estava predestinado à grandeza.
Nós nos entreolhamos enquanto ignorávamos a palestra gaguejada da Rowan sobre pureza. “Chega”, eu interrompi, depois que a Rowan perguntou o que o futuro marido da Rue ia pensar. “Vai ficar tudo bem. Eu tô no controle dessa porra.” Eu esperava que tivesse soado convincente.
O sol já tinha se posto e todo mundo tinha ido embora. As estrelas espiavam pelas janelas, lançando seus julgamentos sobre nós. Rue e eu estávamos no altar no escuro, os dedos dela brincando com meu cabelo enquanto eu tirava um maço de cigarros. Entreguei um pra ela.
“Eu não fumo”, ela disse com aquele jeitinho coquete. Ela sempre ficava tão bonita de noite.
“Nem eu”, respondi, colocando um cigarro aceso na boca, tragando por um momento antes de soprar a fumaça pra cima, na cara de Deus. “De agora em diante, você faz exatamente o que eu mandar.”
“Quando foi que eu não fiz?”
Meses de corridas diárias de oito quilômetros e jejuns de vinte horas não estavam dando conta do inchaço duro na barriga da Rue. Toda manhã ela vomitava tantas vezes que fazia as meninas que sigo no Tumblr ficarem no chinelo. Linhas vermelhas nos peitos e na barriga dela protestavam contra o estiramento anormal da pele. Tornozelos inchados a carregavam enquanto íamos pra aula e pros cultos da noite. Era um milagre ninguém ter notado. Ela estava se transformando bem na nossa frente e eu não fazia ideia de como impedir.
As dores de cabeça de nicotina e os sermões constantes da Rowan sobre a santidade da vida também não ajudavam em nada. O altar na nossa sala de estar normalmente tinha santos rotativos. Desde aquela noite, todo dia a gente era recebido por Santa Gianna Beretta Molla, Madre Teresa e fotos ridículas de anjos da guarda chorando ao lado de berços vazios. Os olhos deles me seguiam enquanto eu fazia minha pesagem noturna.
Depois da aula, Rue e eu normalmente terminávamos o trabalho na biblioteca, mas um dia a Rowan decidiu nos arrastar pra uma das reuniões semanais dela do Estudantes pela Vida. Quando entramos na sala, grupos de freiras distribuíam panfletos de recursos pra gravidez. Estava muito claro. Tinha gente demais — mulheres demais. A esperança no futuro da nossa comunidade escorreu de mim enquanto eu olhava aquele mar de colegas fiéis e iludidos. O Padre Wesley estava no púlpito da frente, os olhos nos seguindo enquanto sentávamos na fila do meio.
“Boa tarde”, ele começou, com aquela voz rouca cortando minha pele. Era o primeiro dia da vigília deles dos Quarenta Dias pela Vida. Fileiras de velas ficavam atrás da figura curvada dele. “Vamos começar com nossa oração de intercessão: Obrigado, Senhor, por termos sido criados à tua imagem. Busca as mães que estão pensando em acabar com a vida de seus filhos. Tira elas da confusão e ilumina elas sobre o dom que é a criação da vida. Que o coração que bate no ventre dela seja sustentado. Bendito sois Vós, que crias e sustentas a vida. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”
As orações seguintes pareciam ruído branco. Rue segurava o terço com os dedos azulados. Eu conseguia ver a tensão no maxilar dela aumentando a cada palavra que ele dizia. Como ele ousava respirar perto dela? Como a Rowan ousou trazer a gente aqui?
A hora passou; alunos e funcionários começaram a sair da sala aos poucos. O Padre Wesley nos deu um sorriso nojento antes de se arrastar embora. Rowan olhou pra gente cheia de expectativa. “O que vocês acharam?”
A pergunta dela escureceu ainda mais as olheiras ao redor dos meus olhos. “Você tá de brincadeira, né?”, eu zombei.
“Eu sou muito séria quando o assunto é salvar a vida de crianças pré-nascidas.” O cabelo ruivo fino dela estava numa trança que descansava em cima da coluna protuberante. A cada vértebra que aparecia na pele, ela achava que ficava mais próxima Dele.
Abri a boca pra falar, mas fui interrompida.
“Talvez a Ro tenha razão”, suspirou Rue. “Talvez o que estamos fazendo seja errado.” Ela colocou a mão na barriga. “Talvez isso seja uma coisa boa, na verdade. Tipo, talvez signifique que eu tô destinada a algo maior.”
Senti uma pontada de traição no peito. “Você acha que ser mãe é uma conquista maior do que estudar em Dartmouth?”, eu ironizei, sentindo o pouco sangue que circulava no meu corpo ferver.
“Sonhos não são motivo válido pra esquartejar um ser humano”, Rowan retrucou com cara feia. Ela abriu o panfleto. Uma mulher de desenho animado abraçava a barriga grande, com um feto também de desenho dentro. O texto embaixo dizia: ‘Ame os Dois.’
Que porra de merda era essa.
“Eu não preciso ficar com ele. Posso dar o bebê pra adoção.”
Rowan assentiu com aprovação.
“Você pulou dois anos. Tá entre os cinco por cento melhores da turma. A Sarah-Beth foi suspensa só por ter cartas de tarô. Imagina o que ia acontecer se todo mundo descobrisse sobre você. Eu não vou deixar você destruir sua vida.” Os pés da minha cadeira rangeram quando eu levantei. Empurrando o cansaço e a raiva, saí pisando duro e caminhei até o primeiro lugar que achei: a loja de bebidas mais próxima.
Cigarros não estavam mais dando conta, e eu tinha quase certeza que a Rowan estava esmagando vitaminas pré-natais no shake de proteína da Rue. Embora eu tivesse vontade de jogar a Rue escada abaixo do nosso prédio, eu sabia que tinha um jeito melhor de resolver isso. Tinha que ter.
Agora um manto de neve cobria o campus. Já tinha se passado um mês de vodca cranberry sem açúcar. O preço extra por eu ser obviamente menor de idade, além das discussões que a Rue começava e a Rowan defendia, não eram nada agradáveis, mas eu não tinha escolha.
Estávamos todas na sala de estar quando aconteceu. Rue estava no sofá de short cinza; eu estava do lado dela atualizando meu blog quando ouvi ela gritar. Ela se levantou trêmula e rios de sangue escorreram pelas pernas dela. Pedaços e coágulos de matéria vermelha e roxa grudavam na pele.
“Tá tudo bem”, eu disse pra acalmá-la, abraçando ela enquanto ela se debatia nos meus braços. “Você vai ficar bem. É assim que tem que ser.” Eu a guiei até o banheiro pra ela expelir o resto do tecido em paz.
Quando voltei, Rowan estava chorando, apertando o terço com força na mão. “É pro bem dela”, eu disse balançando a cabeça, pegando umas toalhas pra limpar o sangue que manchava o piso de madeira. “É o que ela realmente queria.”
“Você não é Deus”, ela rebateu. “Não cabe a você decidir quem vive ou morre.”
Ela não podia estar mais errada.
Era tarde, horas depois do toque de recolher. O sol tinha se posto, mas os postes de luz iluminavam meu caminho até o lago. Eu precisava de no mínimo quinze mil passos, e não estava a fim de ficar andando de um lado pro outro no quarto ouvindo a Rue chorar através das paredes finas como papel. A neve estalava debaixo dos meus pés como ligamentos se partindo.
Quando finalmente cheguei na água prateada e parada, fiquei olhando meu reflexo por um tempo. Apesar das bochechas fundas e dos ossos do peito visíveis, eu não reconhecia o que via. Acendi um cigarro devagar e dei uma tragada lenta. Passos se aproximavam atrás de mim, mas eu não conseguia desviar o olhar do meu reflexo distorcido.
“Dorian!” Virei a cabeça rápido e vi a última pessoa que eu queria encontrar. O Padre Wesley descia a colina na minha direção. “Que surpresa agradável”, ele disse animado.
“Queria poder dizer o mesmo”, eu respondi com desprezo.
Ele riu. “Você sempre foi uma rebelde.” Tirou um maço de Newports. “Me empresta fogo?” Meu isqueiro cinza combinava com o tom dos olhos injetados dele. Ele deu uma tragada casual no cigarro, fechando os olhos enquanto soltava a fumaça. “Tentei parar no seminário. Tentei mais cinco vezes depois. Acho que essa é uma tentação que nunca vai me deixar.”
“Quando sois tentados, Ele também vos dará um escape.”
Ele murmurou. “Primeira aos Coríntios.” Deu outra tragada. “Todos nós cedemos à carne. O que importa é que nos arrependamos.”
Cerrei o maxilar. “E você se arrependeu?”
“Claro.”
“Então está tudo perdoado?”
“Essa é a beleza do nosso Deus. Ele é misericordioso. Ele estende Sua graça pra todo mundo que a aceitar.”
Balancei a cabeça e joguei o cigarro meio fumado na neve. “Como Deus pode perdoar o que você fez?”
“Do mesmo jeito que Ele te perdoa pelo que você fez com a Rue.”
O tempo parou. “Você... você sabia? Esse tempo todo?” Minha garganta começou a fechar.
“Não exatamente o tempo todo”, ele corrigiu. “Eu tive algumas suspeitas depois da nossa noite juntos. Depois a Rowan ficou estranhamente envolvida nas reuniões do clube. Eu via ela discutindo o assunto com a Irmã Grace nos corredores. Só quando ela veio confessar que tinha testemunhado o assassinato de uma criança que eu juntei as peças.”
“Qual foi a penitência dela?”
“Ela já se sentia culpada o suficiente. Eu não quis torturá-la. Aconselhei ela a deixar uma oferenda no nosso memorial pros não-nascidos.”
O interior da minha boca sangrou de tanto que mordi a língua. “Não foi assassinato”, eu rosnei.
“O coração do bebê começa a bater com seis semanas.”
O dela estava batendo há dezesseis anos. “Não foi assassinato.”
Foi um sacramento.
Ele jogou a pontinha acesa no chão, onde apagou quase instantaneamente. Suspirou, soltando uma nuvem de fumaça. “Eu rezo pra que o Senhor revele pra você a brutalidade do aborto.”
Uma onda de náusea me acertou. Meus olhos tremeram enquanto eu imaginava a brutalidade do que ele fez com ela.
“Aqui”, ele remexeu no bolso do casaco e me entregou um crucifixo prateado, “entrega isso pra Rue, por favor? Um presente pro momento difícil dela.”
Eu nem registrei o movimento do meu braço nem o arquejo que saiu da boca dele. Ele levou a mão pro buraco no pescoço onde o metal entrou. Eu não consegui parar. Os pés de Cristo entravam e saíam da jugular dele, um tossido grotesco escapando a cada estocada. As luzes amarelas dos postes piscaram e apagaram até a lâmpada e o vidro em volta estourarem. Sangue quente e fino cobriu minhas mãos enquanto ele caía no chão. Meu peito subia e descia; gotas de suor escorriam pelo meu rosto.
A caminhada de volta pro dormitório foi silenciosa. O vento gelado soprava flocos brancos que grudavam nas minhas roupas como o vermelho que me manchava.
Rowan estava rezando quando entrei no quarto. Os hematomas verdes nos joelhos dela não eram nada comparados ao peso do pecado dela. Ela olhou na minha direção, os olhos se arregalando e as pernas se levantando pra correr até mim. “Que porra você fez?”, ela exigiu. Pegou meu pulso e subiu a manga do meu suéter, uma coisa que ela fazia nos dias que eu ficava mais distante. Não era por preocupação. Pelo menos não com meu bem-estar. “Por que você tá coberta de sangue?” Os olhos azul-escuros dela estavam arregalados de raiva e frustração. Por trás disso, tinha outra coisa. Medo.
Eu puxei meu braço com força. “Você estava errada”, sussurrei.
Eu decido quem vive ou morre.
Ela me seguiu enquanto eu andava até o altar. Coloquei o crucifixo ao lado de uma foto do nosso suposto salvador. Observei as engrenagens girando na cabeça dela. Ela arquejou, as mãos magras se agarrando na parede pra se equilibrar. “Você não fez isso...”, ela disse quase implorando.
As luzes começaram a piscar. “Você estava errada”, eu disse.
Eu sou Deus.
“COMO VOCÊ FOI CAPAZ?”, ela gritou.
Eu me virei pra encarar ela. “Como eu não seria?”, retruquei. “Ninguém nessa porra dessa escola se importa com nada que realmente importa. Vocês fazem jejuns de trinta dias, vão pras reuniões e fingem que isso resolve alguma coisa enquanto sua amiga de verdade sofre. Meu Deus, você é tão egoísta pra caralho.”
“Eu sou egoísta?”, ela debochou. “A Rue não queria nada disso, mas você não deu a mínima pro que ela queria porque só se importa com o seu próprio orgulho.”
Ela ainda não tinha entendido. “Tinha que ser feito.”
Porque toda vez que eu olhava pra ela, via a língua preta e nojenta dele na pele dela, os dedos desabotoando a camisa dela. Via o rosto manchado de idade dele enquanto desenganchava o sutiã dela e forçava as coxas dela abertas. Quando eu olhava pra ela, eu parava de ver uma pessoa. Só via trauma.
Nossa atenção foi roubada pelo barulho de um baque pesado vindo do quarto da Rue. Corremos pra abrir a porta e fomos atingidas por um ar grosso com cheiro de metal. Rowan acendeu a luz do teto com uma careta.
Sangue cobria o chão, a cama e até partes das paredes.
Rue estava no chão, membros contorcidos, o rosto enfiado no carpete bege áspero. As pernas pálidas dela estavam pintadas de vermelho.
Um zumbido encheu meus ouvidos enquanto eu me ajoelhava pra sentir a pulsação dela.
Nada.
Pelo canto do olho, vi Rowan correr pra fora do quarto. Eu me levantei.
Eu sabia dos riscos; só presumi estupidamente que isso não ia acontecer.
Foi culpa minha. A pessoa que eu amava mais que tudo estava morta. E mesmo assim eu não sentia nada.
Paramédicos invadiram o quarto inutilmente. Eles cercaram ela como urubus bicando os restos de um cervo. Uma deles falou: “Ela deve ter ficado hemorrágica por horas”, disse triste.
Eu observei enquanto eles levavam ela embora num saco preto como se fosse lixo.
Pra essa escola, era só isso que ela era.
Era só isso que qualquer uma de nós era.
Rowan e eu sentamos na cama dela. Senti o tecido frio manchando minhas roupas. Fechei os olhos e desejei que a escuridão tomasse conta.
Eu costumava achar que era especial. Achava que tinha uma disciplina que ninguém mais tinha. Tinha seguidores pra provar. Tinha o peso pra provar. Percebi que, no fundo de tudo, nós não éramos nada. Não tinha nada de único no nosso peso, na nossa fé ou no cheiro de sangue que nos cobria. Era tudo tão perturbadoramente normal.


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