quinta-feira, 5 de março de 2026

Eu perco mais uma parte de mim mesmo toda vez que acordo

A primeira coisa que encontrei foi o globo ocular.

Eu estava fazendo minha caminhada matinal de sempre pela floresta atrás da minha fazenda antiga quando vi aquilo. Brilhando num branco leitoso sob o sol, ele se destacava fácil no chão escuro da mata. Não consegui identificar de que animal era, mas era bem pequeno e quase não mostrava sinal de decomposição.

Na verdade, estava em uma condição absurdamente boa. Não estava esmagado, não tinha marcas de rasgo, nada do que você esperaria de uma luta. Parecia que tinha simplesmente rolado para fora do crânio de alguma pobre criatura poucos minutos antes.

Por mais estranho que fosse, achar animal morto não é exatamente raridade no mato. Continuei meu dia normalmente.

Só à noite percebi que minha gata não estava em lugar nenhum. E ela nem era de sair de casa. Eu nunca deixava ela sair.

Dormir ficou quase impossível aquela noite. Moro bem isolado no interior. Se ela tivesse fugido, não tinha controle de animais por perto pra resgatar. Talvez até fosse melhor assim. Mesmo assim, aquele globo ocular deixou um buraco no meu estômago.

Na manhã seguinte eu acordei grogue pra caramba. Precisei de café mais do que nunca. Levantei, me espreguicei e desci pra cozinha.

Foi só quando peguei a jarra de café com a mão direita que percebi: meu mindinho tinha sumido.

A jarra escorregou e se espatifou no chão, virando um monte de cacos afiados que refletiam a luz. Fiquei parado olhando pra minha mão, atordoado, contando os dedos várias vezes. Com certeza eu estava vendo coisa.

Não estava. Realmente restavam só quatro dedos na mão direita.

Virei a mão de todos os lados e parecia que nunca tinha existido dedo nenhum ali. Sem ferida, sem sangue, sem inchaço, sem vermelhidão, nem cicatriz. Nada.

Quando finalmente me controlei, peguei o telefone com dificuldade e liguei pro hospital mais próximo.

Uma mulher com voz de quem já estava exausta atendeu:  
— Obrigada por ligar pro Warrington Medical, em que posso ajudar?

— Oi. Preciso marcar uma consulta urgente pra um ferimento.

— Qual a natureza do ferimento?

— Meu dedo… ele sumiu.

— Sumiu… o dedo se soltou? Como aconteceu? — ela respondeu mais rápido, mudando pra um tom mais interessado.

— Eu… não sei direito. Meu mindinho simplesmente não estava mais lá quando acordei hoje de manhã.

Silêncio do outro lado.

— Também não tá sangrando… a ferida já tá completamente fechada.

Ela respirou fundo, quase falou alguma coisa e parou. Depois continuou:  
— Senhor, vou transferir você pro nosso setor de triagem. Só um instante.

Música jazz de elevador.

Depois de quase um minuto, outra mulher atendeu. Fez as mesmas perguntas e finalizou:

— Consigo marcar pra sexta-feira às duas da tarde. Serve pra você?

Sexta-feira? Cinco dias de espera?

Aceitei mesmo assim.  
— Tá bom… acho que serve. Obrigado — falei e desliguei rápido, voltando a encarar minha mão.

Depois de varrer o vidro, procurei meu dedo pelo quarto inteiro. Fiquei de quatro no chão de madeira empoeirado por mais de uma hora. Nada. Revirei os lençóis também. Zero. Não estava em lugar nenhum.

Acabei voltando pras tarefas idiotas de sempre pra tentar não pensar no que estava acontecendo. Uma delas era comprar comida.

Por causa de onde eu moro, o supermercado mais perto fica uns trinta minutos pela rodovia. Já tinha rodado uns quinze minutos quando, quase esquecendo do dedo que faltava, alguma coisa me trouxe de volta à realidade. Um vulto marrom passou rápido na beira da estrada vazia. Em qualquer outro dia eu ignoraria um animal atropelado, mas dessa vez foi diferente. Lembrei do olho na floresta. Da minha gata. Do meu dedo. Pisei fundo no freio e dei ré.

Não era minha gata.

O cervo estava de lado, cabeça e pescoço torcidos num ângulo doloroso pra caralho. A língua dele apontava pra fora como se estivesse gritando algo horrível. E era horrível mesmo.

Não tinha pernas nem patas. Só tronco e cabeça, moles, sem conseguir se mexer.

Não que fosse se mexer. A língua esticada e os olhos vidrados deixavam claro que estava morto. O buraco no meu estômago ficou ainda maior. Desci do carro pra olhar de perto.

Se não fossem esses detalhes, até poderia parecer vivo. A carne da língua estava rosada e fresca. Quase não tinha cheiro. E não tinha uma mosca sequer. A coisa devia ter morrido há pouquíssimo tempo.

Não havia nenhuma cicatriz ou abertura na parte de baixo do tronco, onde deveria ter pele e músculo rasgados. Era como se o cervo nunca tivesse tido membros. Eu quase teria acreditado nisso se não fosse pela minha própria mão de quatro dedos enfiada no bolso.

A cena me deixou enjoado e confuso. Voltei correndo pro carro e fiquei olhando pra minha mão de novo.

Apertei o volante com força e voltei pra casa.

Fui dormir naquela noite com fome e sem conseguir relaxar.

Quando acordei, parecia que tinha saído do sono mais profundo da minha vida. Olhei pro relógio.

13h.

Esfreguei os olhos sem acreditar e olhei de novo. Tinha dormido catorze horas seguidas.

Sentei na cama e bocejei. Meus lábios se fecharam pra dentro, sentindo falta da parede dura dos dentes e encostando só em carne macia e irregular. Minha respiração travou. Levantei a mão trêmula e apalpei dentro da boca.

Todos os dentes tinham sumido.

Engasguei e procurei desesperado pela cama. Nada. Nenhum dente em lugar nenhum. Só uma mancha enorme de baba ensopada no travesseiro.

Tentei xingar baixo e as palavras saíram emboladas, babadas, um monte de som mole e sem sentido. Corri pro banheiro e abri a boca no espelho. As gengivas vazias tinham pequenas depressões onde os dentes costumavam ficar.

Exatamente como meu dedo e o cervo, não havia nenhum sinal de trauma. Era como se eu sempre tivesse sido sem dentes. Meu estômago embrulhou. Minha boca se fechou num esgar mais fundo do que nunca.

Meu cachorro também não tinha se dado bem. Era um labrador preto grandão, sempre feliz, sempre abanando o rabo. Mas naquela manhã, quando o encontrei deitado lá embaixo, ele mal se mexia. Parecia dopado. Mas o que mais chamava atenção não era o cansaço.

O crânio dele afundava pra dentro em volta de duas órbitas grandes e vazias acima do focinho. O pelo curto e preto cobria perfeitamente o formato dos buracos.

Aquilo me fez chorar feito criança. Procurei pela casa inteira durante horas.

Não achei os olhos dele em lugar nenhum.

Ainda abalado, lembrei do globo ocular que tinha encontrado na floresta. Deviam estar lá fora.

Quando abri a porta da frente, ela só girou até a metade e bateu em alguma coisa que eu não conseguia ver. Ouvi um ganido grave e dolorido de animal. Reconheci o som de urso e fechei a porta na hora.

Fui até a janela ao lado pra olhar atrás da porta.

Apesar do ângulo ruim, dava pra ver uma massa marrom felpuda perto do chão. Resolvi investigar.

Era algo que eu nunca tinha visto na vida. Os nós no meu estômago viraram puro caos.

A cabeça gigante do urso-pardo estava de lado no piso de madeira da varanda, completamente separada do corpo. Dois tubos pálidos e carnudos saíam da base da cabeça por uns trinta centímetros e se conectavam a uma rede de órgãos internos perfeitamente arrumados e limpos. Dava pra ver dois pulmões rosados e cheios de veias se expandindo e contraindo. No meio deles, um coração vermelho e musculoso batendo rápido pra caralho.

Os olhos desesperados do urso se viraram pra mim e ele soltou um gemido grave e gutural. A cabeça rolava de um lado pro outro. Engasguei, cambaleei pra trás, corri pra dentro de casa e bati a porta com força.

A noite caiu mais rápido do que eu esperava. Eu tinha me trancado dentro de casa, sem sair do lado do meu cachorro. Quando ficou tarde, nem fui pra cama. Fiquei na sala com ele.

Logo quando meus olhos começaram a pesar, um flash de luz branca cegante invadiu a janela. Apertei os olhos e me virei.

Além do quintal, atrás das árvores, alguma coisa emitia uma quantidade absurda de luz. Levantei num pulo, corri até a porta, peguei uma faca na cozinha e saí pro ar frio da noite, tentando ignorar a cabeça do urso à minha direita.

Agora mais perto, consegui distinguir uma silhueta oval enorme, quase tão alta quanto os pinheiros. A luz saía em grandes círculos pela frente dela.

De repente o chão tremeu. Um chiado agudo e ensurdecedor veio na minha direção e um único feixe de luz me acertou direto no corpo, me cegando. Levantei a mão pra proteger os olhos enquanto meus pés formigavam.

Um som grave, parecido com tuba, me atingiu como uma onda. Me virei e corri de volta pra casa o mais rápido que consegui.

Tranquei a porta e subi as escadas em disparada. Parei congelado no topo da escada.

A luz que entrava pela janela do fim do corredor iluminava a silhueta de uma figura.

Era magra demais pra ser humano, com braços e pernas compridíssimos. Dava pra ver uma pele cinza-clara. A cabeça, que quase encostava no teto, parecia grande demais pro pescoço fino. Ela deu um passo na minha direção.

Meus pés me lançaram porta adentro do meu quarto. Fechei e tranquei a porta com as mãos dormentes.

Ouvi passos pesados passando pelo corredor e descendo as escadas.

Fiquei ali parado, sem mexer um músculo, apertando a faca e suando frio até o sol nascer.

Só juntei coragem pra abrir a porta quando meu relógio marcou 9h. Desci as escadas devagar, olhando pra todos os lados.

Meus olhos pararam numa longa mecha de pelo preto esticada no meio da sala. Me aproximei.

Era o rabo do meu cachorro. Cobri a boca com a mão e solucei, os sons saindo moles e fracos.

Não precisei de mais nada. Entrei no carro sem levar nada e dirigi sem parar até quase 18h.

Mesmo sem conhecer a cidade onde parei, senti um alívio enorme. Aluguei um quarto de motel e tentei me acalmar.

Eu tinha escapado daquela coisa.

Hoje de manhã acordei na cama do motel. Olhei pro relógio.

Meio-dia.

Tentei sentar, mas alguma coisa me impediu de fazer força. Caí de lado na cama. Confuso, joguei as cobertas pro lado.

As duas pernas tinham sumido.

Sem cicatrizes. Sem feridas abertas. Sem sangue. Nada.

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