domingo, 22 de março de 2026

A garota na beira da estrada

Eu sei que isso soa clichê, mas essa história não aconteceu comigo. Na verdade, eu nem me lembraria dela se não tivesse encontrado uns amigos uns dias atrás e A Estrada não tivesse entrado na conversa. A história nem é tão assustadora assim, mas saber que alguém que eu realmente conheço, alguém em quem eu confio, diz que isso realmente rolou me dá um arrepio. Até o pai dela confirma que aconteceu.

A Estrada é um trecho de cinco milhas entre duas cidadezinhas vizinhas da minha cidade natal. A primeira vez que ouvi falar dela, eu tava voltando pra casa pro Natal. Eu tinha vivido a 700 milhas da minha cidade natal pela maior parte da vida adulta, e na época, eu tava me esforçando pra reconectar com a família. A única pessoa com quem eu tinha falado na maior parte daquele tempo era meu irmão caçula.

Voltar pra casa pra passar o Natal com a família ia ser a primeira vez que eu pegava uma viagem de carro tão longa, então meu irmão caçula pegou um voo pra cidade onde eu morava, ficou uns dias comigo, e aí a gente dirigiu de volta juntos. A ideia era ir alternando na direção pra não precisar parar tanto pra descansar.

No plano inicial, era uma viagem de 12 horas, o que significava que, se a gente saísse às 5 da manhã, chegava lá às 5 da tarde. Mas teve um deslizamento de terra que ficava atrasando o ETA cada vez mais. Às 10 da noite, a gente ainda tava a duas cidadezinhas e 60 milhas de distância. Meu irmão tinha dirigido as últimas duas horas e tava cansado, então paramos num posto de gasolina, abastecemos, e eu assumi o volante.

Quando passamos pela primeira cidadezinha e rumamos pra segunda, ele disse: “Vai devagar aqui. As curvas são perigosas, e bichos podem pular na frente do carro do nada. Ah, e se você vir alguém na beira da estrada tentando te fazer parar, não para.”

“Por quê?” Foi uma pergunta idiota. Era tarde da noite, e parar pra pegar um caroneiro não era lá muito esperto, mas pareceu estranho ele precisar falar isso.

Aí ele disse, bem tranquilo: “Porque eles não são reais.”

Eu quase bati na frenagem de tão pego de surpresa. 

“O quê que você acabou de me dizer?”

“O quê?” ele respondeu, do mesmo jeito despreocupado. “Todo mundo sabe disso. Essa estrada é famosa por isso. Sabe, ver coisas que não tão lá e gente de preto. Como você não sabe disso? Eu achava que você curtia terror!”

“Eu curto terror do conforto da minha casa, tomando chá, de fone de ouvido; não desse jeito!” Ele sorriu, então eu falei: “Tá me zoando, né?”

Ele deu uma risadinha. “Tô rindo, mas não tô te zoando. Isso é uma parada real que rola. Eu já vi umas duas vezes.”

“Nah, tá me enrolando na carniça.”

“Tá bom, se você diz. Só… sabe como é, não para se vir qualquer coisa.”

Naquela noite, eu não vi porra nenhuma. A gente chegou em casa uns 45 minutos depois, e eu esqueci completamente disso por uns dois anos. Um ano depois daquela viagem, eu me mudei de volta pra casa. Meu pai tava com insuficiência renal, o que significava que ele precisava de muito cuidado, e eu não queria que algo acontecesse com ele enquanto eu tava a 700 milhas de distância. Três meses depois de voltar, eu conheci uma mulher incrível, e a gente começou a namorar. A família dela é de uma das cidadezinhas ligadas pela Estrada — a primeira que eu passei naquela viagem de carro, na verdade. Foi visitando um parente dela que eu ouvi a história pela primeira vez.

A prima da minha namorada tava comemorando o primeiro aniversário do filho dela. Tinha churrasco, cerveja e crianças correndo pra todo lado, então uns poucos de nós sentamos num canto afastado e começamos a bater papo sobre nada em particular. A conversa devagar foi mudando pra viagens de carro e estradas porque eu e minha namorada curtimos um pouco de aventura de moto, e a gente falou como é chato quando algo na estrada fode com todo o seu itinerário. Eu mencionei o que tinha rolado comigo com o deslizamento de terra, como ele me obrigou a pegar a Estrada às 10 da noite, e como meu irmão caçula me falou que todo mundo sabia que coisas sinistras aconteciam lá.

“Ah, por favor. Superstição!” disse o marido da prima.

“Não, não é! Se você viaja entre as cidadezinhas com frequência suficiente, você sabe que tem algo errado!” disse a prima da minha namorada.

“As pessoas são crédulas, cara — ele acrescentou.

“É real, amor. Eu sei **de primeira mão** — ela rebateu.

“Ah, claro, querida.”

“Não, de verdade. Eu lembro quando eu tinha uns 15 anos. E olha que isso rolou às 2 da tarde, com o sol rachando. Eu tava de férias. Eu tava só de carona enquanto meu pai trabalhava, e eu ia no banco da frente na picape dele. Ele tinha que fazer uma entrega, um sistema de som pra uma festa ou algo assim, e a gente teve que passar pela estrada. A gente tava se aproximando daquela curva grande, a uns dois milhas antes do posto de gasolina? Você sabe qual é? Quando a gente viu essa garota. Ela tinha 16 ou 17 anos e tava andando na beira da estrada. Ela tava de blusa azul e calça jeans cinza. Parecia cansada, então meu pai parou do lado dela e perguntou se ela precisava de ajuda. Ela disse que só precisava ligar pra mãe pra avisar onde tava. Meu pai ofereceu o celular dele. Ela ficou meio na defensiva no começo, mas ver uma garotinha com ele provavelmente a convenceu que ele não era um predador ou algo assim, então ela pediu se ele podia dar uma carona até o posto de gasolina, onde a mãe dela podia buscá-la.

Ela deu um gole na cerveja, limpou a garganta e continuou. “Enfim, meu pai deu o celular pra ela. Ela ligou, e eu ouvi tudo que a mãe dela tava dizendo: ‘A gente tava tão preocupada. Onde você tá? A gente tá indo te buscar’, né? Elas se despediram, ‘Te amo, mãe’, e ‘Te vejo já já’. Nos dois minutos que restavam pra gente chegar no posto, ela ficou quieta e parecia que ia dormir. Ela também tava suando pra caramba, tipo se tivesse sido mergulhada numa piscina e vestido a roupa de volta em seguida, o que era esquisito porque o dia tava bem fresco. Finalmente chegamos no posto, e meu pai ofereceu pra ficar com ela enquanto esperava os pais, mas ela disse que tava tudo bem e que agora ela tava segura. Ela agradeceu a gente, e a gente seguiu viagem. Fizemos umas entregas, e quando o sol começou a se pôr, voltamos pra casa.”

Nesse ponto, ela começou a respirar pesado, tipo lutando pra achar as palavras pra terminar a história. “Quando o jornal das 7 da noite começou, a gente ouviu. Uma garota de 17 anos que tava desaparecida foi encontrada pela mãe dela perto de um riacho atrás do posto de gasolina. Ela tava de blusa azul e calça jeans cinza. Era ela, eu soube antes mesmo de ver a foto na TV. Ela tava desaparecida há quase um dia e tinha sido morta e jogada naquele riacho naquela manhã. Isso significa que, na hora que meu pai e eu pegamos ela, ela já tava morta há cinco horas.”

A gente se entreolhou; uns de nós genuinamente arrepiados, outros fingindo que o ar não tinha ficado mais pesado de repente.

A prima da minha namorada terminou a história dizendo: “Eu não ligo se você acredita ou não. Isso aconteceu comigo e com meu pai. Vai perguntar pra ele se quiser, mas rolou. Eu tive que dormir com a luz acesa por semanas.”

Nem preciso dizer, eu perguntei pro pai dela. Ele confirmou. E ele acrescentou que, assim que aquela garota entrou na picape, ele se sentiu incrivelmente triste e com frio, e não conseguia entender o porquê.

Eles nunca pegaram quem machucou aquela garota.

Eu não pego muito aquela estrada. Não é que eu fique sempre pensando na história, eu mal me lembro dela agora. Mas tem algo primal em não querer chegar perto daquele trecho de cinco milhas. Acho que me acostumei a evitar por padrão; até de dia.

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