domingo, 15 de março de 2026

Meus Órgãos Estão com Coceira

Tinha chegado ao ponto de estar afetando minha qualidade de vida. Eu não sabia exatamente de onde vinha, mas de repente senti algo fundo dentro do meu torso.

Lembro que estava batendo o ponto no trabalho quando começou — um leve desconforto naquela época, um alívio comparado ao que estava por vir. Mantendo os olhos na estrada, fui balançando o torso de um lado pro outro tentando me aliviar, o que felizmente funcionou. Quando cheguei em casa, me senti mais exausto do que de costume e fui dormir cedo.

No dia seguinte, a coceira voltou, mais forte mas ainda suportável. Aquela sensação persistente ficou rondando minha cabeça, e nos momentos de folga no trabalho eu ficava me contorcendo, tentando me livrar daquele incômodo. Apesar de todos os meus esforços, ela continuava teimosa. Quando cheguei em casa naquela noite, tive dificuldade pra dormir — fechar os olhos parecia amplificar a sensação. Não me lembro quando finalmente desmaiei.

No terceiro dia, ficou tão ruim que senti calafrios descendo pelas minhas pernas. No momento em que acordei, me vi me contorcendo de forma descontrolada em posições esquisitas tentando acabar com a coceira. Cheguei até a tentar beliscar, agarrar a pele em punhados e esticá-la pra todo lado, me socando e me dando tapas. Estranhamente, juro que senti alguma coisa se mover, mas independente do que eu fizesse, simplesmente não passava.

Decidi que precisava ir ao médico ver o que era isso. Liguei pro trabalho dizendo que estava doente e liguei pro meu clínico geral, que concordou que era uma situação bem estranha. Depois de me fazer uma série de perguntas, durante as quais fiquei o tempo todo pulando no lugar, ela me disse pra agendar um ultrassom.

A consulta seria tarde da noite. Queria marcar o mais cedo possível e aquele era o horário mais próximo disponível. Vou aceitar o que tiver.

Tentando ao máximo ignorar aquilo e seguir com o meu dia, me preparei um café da manhã. Meu cérebro protestava, gritando por alívio, mas não tinha nada que eu pudesse fazer. Afinal, não ia pegar uma faca pra me abrir e coçar as entranhas, né.

Junto com esse pensamento, meu olhar foi direto pro armário onde ficavam as facas. Sacudi a cabeça pra mim mesmo. Eu não era doido a esse ponto. Só precisava aguentar mais algumas horas.

Depois de uma tarde agonizante de espera, finalmente chegou a hora de sair. Peguei as chaves e saí disparado pela porta, incapaz de ficar parado por mais tempo.

Quando cheguei ao hospital, fui recebido por um médico que me levou até um quarto onde troquei de roupa pra uma camisola, e depois entrei na sala de ultrassom.

O médico arregaçou minha camisola, colocou uma toalha cobrindo minha virilha, e encostou o aparelho gelado no meu corpo. Senti o gel se espalhando enquanto ela pressionava em direção à área que eu tinha indicado momentos antes.

Ela foi movendo o aparelho de um lado pro outro pela região, e de repente parou completamente.

— O que foi? — perguntei.

Levantei a cabeça pra olhar pra ela.

Seus olhos estavam arregalados, sobrancelhas franzidas. A expressão dela era uma mistura de medo e confusão — provavelmente a última coisa que eu queria ver nessa situação. Será que eu tinha alguma doença? Tinha algo errado com meu corpo?

Ela virou a tela do ultrassom na minha direção.

A princípio, não consegui identificar nada além de uma enorme mancha em movimento, mas olhando mais de perto, consegui ver as pernas.

Milhares, não — milhões delas.

Aranhas. Minúsculas aranhas bebês haviam tomado conta do meu fígado, rastejando velozmente umas por cima das outras, cobrindo meu fígado inteiro numa massa escura. Pra piorar tudo, bem no centro estava a maior de todas, espalmada sobre as aranhas bebês com um tamanho comparável ao de uma tarântula grande.

Eu não conseguia mais me controlar. Estava com uma coceira insuportável.

Comecei a me debater e a me contorcer na cama. Minha médica gritou alguma coisa e outros médicos vieram correndo. Implorei que fizessem alguma coisa, qualquer coisa.

Depois de me avaliarem e examinarem o ultrassom, me colocaram pra dormir.

Acordei numa cama de hospital. Ainda grogue da anestesia, olhei ao redor procurando por algum médico enquanto tentava recuperar as memórias.

É verdade. Tinham operado em mim enquanto eu dormia.

Eu não sentia mais a coceira. Nunca na minha vida fui tão grato por estar livre dela, pensando em como eu vinha subestimando as coisas simples do dia a dia.

Um médico entrou pra verificar meu estado antes de me contar o que tinha acontecido.

Ele disse que nunca tinha visto uma anomalia assim na vida dele. Eu ficaria surpreso se tivesse visto.

1.074 aranhas. Esse foi o número que retiraram de mim.

O número me deu arrepios na espinha.

O médico deve ter lido minha expressão perturbada e me assegurou que eu ia ficar bem. Agradeci pelo trabalho duro dele.

Recebi alta alguns dias depois.

Voltar à minha vida normal não foi tão fácil. Embora estivesse bem fisicamente, não me recuperei mentalmente. Como uma anomalia dessas poderia ser possível, e por que comigo?

Com o tempo, voltei ao trabalho e tentei esquecer a experiência, enterrando-a fundo num lugar onde jamais pensaria nela de novo.

Até hoje.

Faz só duas semanas desde que voltei pra casa, e quando acordei essa manhã, senti uma sensação familiar.

Uma leve coceira.

Acho que o medo que tentei tanto afastar está se tornando realidade.

Um medo de que,

talvez durante a operação…

houvesse uma pequena possibilidade.

A possibilidade de que tenham deixado uma passar.

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