Como o título diz, eu sou desastrada. Eu perco coisas. Derrubo coisas sem querer, e na maioria das vezes, nem me dou o trabalho de guardar de volta. Ainda assim, eu arrumo a cama todo dia, e varro quando percebo que demorei demais sem fazer isso. Eu gosto de pensar que mantenho as coisas no controle, no mínimo.
Mas quando a bagunça acumula — na mesa de cabeceira, pela mesa toda —, fica mais difícil achar as coisas. E de alguma forma, isso sempre acontece justamente quando eu mais preciso delas. Já perdi a conta de quantas vezes jurei que algo tinha sumido de vez.
“Estava bem aqui. Na mesa. Eu juro.”
Minha mãe clicava a língua, mal me dando uma olhada, e seguia em frente. Eu também, ainda irritada, ainda convencida de que tinha procurado direito.
Aí, mais tarde, ela aparecia na porta do meu quarto com aquela mesma cara de quem sabe de tudo, apontando pro item perdido sentado ali direitinho à vista, como se nunca tivesse saído do lugar. Eu pegava da mão dela com um suspiro, envergonhada. Desastrada, descuidada e, aparentemente, cega.
Eu sei como isso soa. Eu perco merdas aleatórias, aí acho de novo. É só isso.
Mas ultimamente, não parece mais só isso.
Algumas semanas atrás, eu tava putassa porque, depois de quase trinta minutos procurando, ainda não achava meus fones de ouvido. Eu tenho um apego esquisito por eles. Não saio de casa sem. Parece dramático, mas me acostumei a ouvir música quando tô sozinha. Indo pro ponto de ônibus, no busão, em qualquer lugar. Me ajuda a me sentir estável, especialmente com minha ansiedade social.
Procurei em tudo. Debaixo da mesa, entre as almofadas do sofá, dentro da bolsa, até na cesta de roupa suja. Revirei a cama duas vezes, apertando o colchão como se eles pudessem ter afundado nele.
Nada.
Contei pra minha mãe antes de sair pro campus, pedi pra ela me avisar se visse.
Quando cheguei em casa aquela noite, ainda tavam sumidos. Eu tava cansada demais pra continuar procurando. Me deitei e apaguei quase na hora.
Acordei com minha mãe sacudindo de leve meu ombro, dizendo que o jantar tava pronto. Ainda meio dormindo, perguntei se ela tinha achado meus fones.
Ela bufou baixinho. “Não, não achei —” Parou e revirou os olhos quase sem perceber, “Claramente, você não procurou direito. Tá bem aí. Do teu lado.”
Eu franzi a testa, mas virei a cabeça mesmo assim.
Tavam no meu travesseiro. Enroladinhos direitinho, colocados bem do lado da minha cara.
Por um momento, só fiquei olhando pra eles. Não lembro de ter pego, só que eventualmente peguei. Assumi que ela tinha achado mais cedo e não mencionado.
Aí aconteceu de novo. E de novo.
Lembro que não contei pra minha mãe nas próximas vezes. Primeiro foi minha caneta azul favorita, de repente de volta na gaveta. Talvez eu não tivesse olhado direito, então fiz uma nota mental pra procurar mais a fundo da próxima. Depois foi meu livro de texto. É do tamanho de uma folha grande, grosso o suficiente pra fazer um baque surdo quando bate no chão. O tipo de coisa que você nota quando some.
Eu tinha lido na noite anterior, lembro disso claramente. Deixei aberto na mesa, com uma página dobrada na ponta porque tava com preguiça de pegar um marca-texto. Na manhã seguinte, não tava lá.
Procurei nos lugares de sempre, debaixo da mesa, do lado da cama, até na prateleira onde eu sabia que não tinha colocado. Só quando comecei a levantar as coisas e procurar de verdade é que a irritação veio. Me disse que era só descuido de novo.
Quando voltei pra casa e fui direto pro quarto, tava bem ali.
Fechado dessa vez. Colocado exatamente no centro da mesa, alinhadinho com as bordas. A página dobrada tinha sumido, alisada como se nunca tivesse sido amassada.
Tentei dar de ombros, talvez eu tivesse mexido sem pensar. Talvez minha mãe tivesse arrumado.
Comecei a prestar atenção em onde deixava as coisas. Coisas pequenas no começo. Como minha caneta tava inclinada um pouco pro lado esquerdo, uma moeda perto da borda da mesa, meu carregador enrolado frouxo em vez de bem amarrado.
E aí eu saía e voltava.
Às vezes, nada mudava. Mas outras, a caneta tava endireitada. Perfeitamente paralela à borda da mesa.
Tem vezes que até a moeda sumia. Ou pior, ainda tava lá, só num lugar um pouco diferente. Tipo, de repente na minha gaveta.
Isso era estranho porque eu conheço minha mãe. Ela ou deixa as coisas como estão ou reclama delas. Não ajusta por centímetros. Além do mais, ela não entra no meu quarto só pra arrumar. Eu tenho vinte e um anos, pelo amor de Deus.
Uma noite, decidi testar direito.
Antes de sair pro campus, tirei um dos meus brincos e coloquei bem no meio do travesseiro. Um ponto de prata. Não é algo que você perde de vista, ainda mais se vai deitar.
Lembro claramente que nem mencionei pra minha mãe.
Quando cheguei em casa, nem tirei os sapatos. Fui direto pro quarto e empurrei a porta.
Olhando pra cama, vi que meu brinco tinha sumido.
Só pra ter certeza, comecei a revistar a cama, depois o chão, depois a mesa. Mexi nas coisas mesmo sabendo que não ia achar.
Nada.
Aí ouvi uma voz, bem atrás de mim.
“Perdendo suas coisas de novo?”
Eu congelei.
Não tinha ouvido minha mãe se aproximar.
Virei, tentando manter a voz firme. “Você pegou meu brinco?”
Ela franziu a testa um pouco, parecendo confusa. “Que brinco?”
“Aquele na cama. Deixei lá essa manhã.”
Ela balançou a cabeça. “Por que eu entraria no teu quarto só pra pegar um brinco?”
Hesitei. “Então... você tem mexido nas minhas coisas ultimamente?”
Ela me deu aquela olhada e suspirou, a mesma de sempre quando eu começo a viajar na maionese.
“Não tenho tempo de ficar de olho nas tuas coisas, Megan”, disse ela, já indo embora.
Tudo parecia igual. A mesma bagunça, as mesmas gavetas meio abertas, as mesmas coisas espalhadas nos lugares que eu vivo me prometendo arrumar.
Quase parecia normal. Talvez eu esteja sendo dramática, mas tinha essa sensação persistente de que algo tava errado.
Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei pensando nisso. Todas as vezes que coisas sumiram, depois voltaram como se nada tivesse acontecido.
Não lembro de ter pegado no sono. Só que acordei e meu corpo tava pesado. Ouvi um som suave, tipo algo roçando de leve no travesseiro. Senti o espaço do meu lado na cama afundar um pouquinho.
Pensei por que minha mãe entrou no quarto sem dizer nada, parecia tão fora do personagem dela. Mais importante, por que ela tava sentada tão perto?
Fechei os olhos o mais forte que pude, depois tentei não respirar alto demais. Não sei por quê, mas parecia que eu tinha que fazer isso.
Alguns segundos se passaram, aí algo tocou meu cabelo.
Uma mecha perto da cara foi afastada, colocada pra trás do jeito que alguém faz sem pensar. O dedo que roçou a pele da minha cara era áspero, calejado. Não parecia nada familiar.
Fiquei parada, olhos fechados. Não sei quanto tempo durou. Podiam ser segundos. Podia ser mais.
Quando finalmente abri os olhos, esperando ver minha mãe, o quarto tava exatamente igual. Nada mexido, ninguém lá.
Tudo era um borrão, aí finalmente acordei de verdade com a luz da manhã entrando pela janela e, por um momento, pensei que talvez tivesse sido um sonho, e resolvi acreditar nisso.
Aí virei a cabeça e vi meu brinco ali, descansando no travesseiro do meu lado.
Se o que rolou aquela noite foi real ou não, não sei. Tentei não pensar mais depois. Era mais fácil me dizer que tava só cansada, que tinha estressado à toa e meu cérebro preencheu as lacunas. Então deixei pra lá, ou pelo menos tentei.
Voltei pra rotina. Leituras se acumulando, aulas, saindo com amigos mais do que devia. Me mantive ocupada o suficiente pra não ter tempo de ficar sozinha pensando nisso por muito tempo. Por um tempo, funcionou. Nada sumia, nada aparecia onde não devia. Meu quarto continuou da mesma bagunça de sempre. Parecia normal de novo, quase me fez esquecer por que eu tava tão incomodada em primeiro lugar. Finalmente dava pra respirar.
Mas, faz poucos dias, aconteceu de novo. Eu nem tava mais pensando em nada disso, o que piorou tudo de alguma forma.
Eu só tava procurando meus cigarros, um maço mentolado que sempre guardo enfiado atrás de uma fileira de livros na prateleira. Minha mãe odeia, então me acostumei a esconder. Sempre coloco de volta no mesmo lugar. Não esqueço. Mas naquele dia, não tava lá. Fiquei na frente da prateleira mais tempo do que precisava, deslizando os livros um por um, checando o espaço atrás como se talvez tivesse empurrado longe demais.
Revirei a mesa, a bolsa, até o chão. Nada. Senti aquele mesmo aperto no peito de novo, o que não sentia há semanas, e voltou tão rápido que me irritou. Me disse pra parar. Não ia surtar por uma bobagem de novo. Então larguei mão. Tinha planos mesmo, e era a única chance de fumar à vontade. Não queria estragar ficando presa na minha própria cabeça.
Saí de casa por volta das oito. Já tava escuro, e as luzes da rua não ajudavam muito. Algumas piscavam, outras mal iluminavam porra nenhuma. O resto só ficava lá, opacas e fracas. Puxei o casaco mais pra perto do corpo. O ar tava mais frio do que devia.
Fiquei pensando como seria bem melhor se tivesse meus cigarros comigo. Coloquei os fones e aumentei o volume, deixando a música preencher o espaço enquanto andava.
Foi aí que ouvi. Um farfalhar fraco dos arbustos na rua. Desacelerei, depois parei. O som parou também. Fiquei ali um momento, escutando, mas não tinha nada. Só a música, fraca agora num ouvido. Soltei o ar e continuei andando. Uns passos depois, voltou, mais suave dessa vez, tipo algo se mexendo nas folhas. Não virei a cabeça. Só andei mais rápido, tentando ignorar.
Aí, de lado, algo saiu.
Nem foi jogado de verdade, pareceu e soou como um arremesso cuidadoso por baixo, controlado o suficiente pra não ir longe. Ouvi antes de ver direito, um baque suave, de papel, quando bateu no asfalto. Caiu de uma aresta, tombou, depois fez esse som fraco de arrastar no chão áspero. Um rolamento curto e irregular veio depois, rolando desajeitado uma, talvez duas vezes, antes de perder o embalo.
Parou bem na frente do meu sapato.
Me peguei só olhando praquilo, parece que meu cérebro precisava de tempo pra processar o que eu tava vendo.
Era meu maço de cigarro, com uma amassadinha na ponta, o plástico ainda meio descascado do jeito que eu sempre deixo.
E por um momento, tive a sensação clara de que, se ficasse ali mais tempo, mais alguma coisa ia sair atrás.


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