quarta-feira, 25 de março de 2026

Ultimamente, as coisas têm sumido

Antes de ir direto à história, talvez você precise de um pouco do meu contexto pra entender melhor. Eu sou o tipo de pessoa que esquece facilmente onde colocou alguma coisa — até mesmo quando ela está nas minhas próprias mãos. Normalmente, dependo dos outros como se fossem a minha memória, a ponto de me tornar facilmente influenciável. Já chegaram a me mandar uma foto do meu próprio celular, com um amigo dizendo que eu tinha esquecido ele. E lá estava eu, usando o celular pra ver a imagem do celular no aplicativo de mensagens… e, por algum motivo, aquilo funcionava. Mais de uma vez, inclusive. Eu dependo dos outros nesse nível.

Recentemente, meu colega de quarto se mudou depois de juntar dinheiro suficiente pra comprar o próprio lugar e se sustentar, e isso acabou me deixando ainda mais perdido com relação a onde eu colocava as coisas. Quando eu esquecia algo, parecia que ele tinha um senso quase sobrenatural de onde tudo estava e encontrava na hora. O nome dele era Connor, um nome tão genérico que eu até zoava ele por causa disso. Quase toda manhã, eu gritava o nome dele, perguntando onde estavam minhas coisas.

— Connor!
— Você sabe onde está meu celular?
— No seu bolso! — ele respondia.

Pois é… eu era ruim nesse nível. Foi uma mão bem ruim que a vida me deu nesse aspecto…

Fiquei triste quando ele foi embora. A gente criou um vínculo ao longo desse tempo, mas ele seguiu a vida dele. E, sinceramente, eu não culpo — quem iria querer morar numa casa que não é realmente sua? Pra mim, isso já soa como um inferno. Eu só precisava de um tempo pra me acostumar a ficar sozinho.

Pouco tempo depois, comecei a perceber o quanto eu era esquecido. Era como perder uma luz no escuro e ser obrigado a tatear no vazio tentando encontrar as coisas. Eu praticamente ficava cego sem alguém que tivesse o mínimo de noção de onde procurar. Eu achava coisas semanas depois de perder, esquecia coisas antes de sair pro trabalho… aquele pacote completo de caos.

Um dia, o controle remoto sumiu, e eu só pensei que ele tinha escorregado pra debaixo das almofadas. Tive a “brilhante” ideia de amarrar um pedaço de barbante verde nele, pra facilitar na hora de achar caso estivesse escondido. Só que… eu nunca mais vi o barbante verde. Eu tinha simplesmente perdido o controle de vez.

Fiquei meio atordoado, mas deixei pra procurar depois. Normalmente, eu acabava encontrando essas coisas pela casa sem querer. Só que, eventualmente, percebi que já tinha passado mais de um mês desde que o controle sumiu. Resolvi então usar meu tempo livre pra procurar. Não era algo que eu gostasse de fazer, mas era melhor do que deixar desaparecer pra sempre.

Fui olhar embaixo do sofá, mas, por algum motivo, a lanterna que eu sempre deixava na gaveta tinha sumido. Eu nem lembrava da última vez que tinha usado. Aquilo me deixou completamente confuso. Eu sempre guardava ela no mesmo lugar — por que não estava lá agora?

Mas logo vi outra lanterna, mais barata, que dava conta do recado. E olha… eu procurei em absolutamente todos os cantos da casa. Cada fresta, cada gaveta, cada mesa, cada maldito cantinho possível… e nada do controle. Cansado e frustrado, desisti e resolvi comprar outro. Era barato mesmo.

Quando fui abrir a caixinha do controle novo, fui procurar minha faca. E adivinha? Também tinha sumido. Era como se minhas coisas estivessem indo morar com o Connor porque sentiam falta dele.

A essa altura, eu já estava irritado. Então comecei a criar o hábito de guardar tudo sempre nos mesmos lugares, aqueles que eu tinha certeza que não esqueceria. Nada de deixar coisas em mesas ou lugares aleatórios — eu controlava tudo. E funcionou… por um tempo.

Até que aconteceu algo que eu nunca vou esquecer.

Depois de escovar os dentes, desci pra pegar as coisas de sempre. Mas tinha algo estranho na casa. Algo… errado. Foi aí que percebi: as luzes.

Eu sempre tive quatro luzes na cozinha, distribuídas de forma uniforme, como os pontos de um dado. Mas agora… só havia uma, no canto, iluminando tudo como se fosse normal.

— Que porra é essa…? — falei em voz alta.

Eu não esqueço luzes, esqueço? Eu tenho certeza de que eram quatro… não uma só. Parecia que minha mente estava me enganando.

Depois disso, notei que um pouco de comida tinha sumido da geladeira. No começo eram sobras. Depois, foi aumentando, noite após noite. Passou de sobras pra comidas recém-compradas, depois um galão inteiro de leite… e então, partes inteiras da minha geladeira simplesmente desapareceram.

Foi aí que comecei a suspeitar do Connor. Eu tinha quase certeza de que tinha deixado uma cópia das chaves com ele. Aquilo parecia o tipo de brincadeira absurda que ele faria.

Sempre que eu mencionava isso, ele negava. No começo achei que ele estava só fingindo. Mas então lembrei de algo que me gelou até os ossos.

As chaves dele… estavam na minha mesa.

Fui conferir. E estavam lá mesmo.

Foi nesse momento que o medo bateu de verdade. Aquilo não era um apartamento — era a minha casa. Alguém estava entrando lá… e roubando minhas coisas.

Um dia, enquanto fazia minha rotina da manhã, entrei na sala… e deixei tudo cair no chão.

Fiquei olhando, sem reação.

Meu sofá. A mesa. A televisão na parede.

Tudo… tinha sumido.

“Como isso é possível?”, pensei.

Minhas coisas simplesmente desaparecendo, e eu sem a menor ideia de onde estavam. Na hora, liguei pro trabalho avisando que não iria e chamei a polícia. Disse que tinham invadido minha casa e roubado meus móveis. Eu não podia contar tudo — iam achar que eu estava maluco.

Eles investigaram, mas não encontraram nada. Nenhuma pista, nenhum sinal de arrombamento, nenhuma forma de entrada ou saída. Sem pistas, encerraram o caso.

E eu fiquei ali, sozinho, pensando se aquilo era algum tipo de coisa paranormal. Porque não é possível simplesmente perder coisas dentro da própria casa — ainda mais móveis inteiros.

Comecei a achar que estava sonhando.

Até aquela noite.

Acordei assustado com o som de vidro quebrando lá embaixo. O quarto estava iluminado pela luz da lua entrando pela janela, o suficiente pra eu me situar.

Sentei na cama e fiquei olhando pra porta, esperando algum som, algum movimento.

Nada.

Só o silêncio… e o zumbido nos meus ouvidos, junto com o som distante dos grilos lá fora.

Sem pensar duas vezes, levantei devagar e peguei a lanterna na mesa de cabeceira. Fui até a porta na ponta dos pés e abri lentamente. Saí sem fazer barulho e fechei atrás de mim.

Desci as escadas, também em silêncio, e encontrei minha luminária estilhaçada no chão da sala.

Não parecia ter mais nada ali. Me aproximei pra ver melhor.

Foi quando ouvi um barulho rápido à minha direita.

Virei na hora.

Nada… só um quadro na parede.

Mas aquilo fez meu coração despencar.

Não pelo que estava pintado… mas porque eu não permito quadros na minha casa.

Me aproximei.

Era uma pintura simples: uma maçã sobre uma mesa com toalha quadriculada.

Limpei o vidro quebrado e voltei pro quarto. Quase não dormi, pensando no que poderia ter derrubado aquilo.

E então me veio um estalo.

Por que tinha um quadro ali?

Há quanto tempo ele estava lá?

Não podia ter sido o Connor — ele respeitava minhas regras.

Então… quem colocou aquilo?

“Vou tirar isso daí”, pensei.

Ia me deixar mais tranquilo. Talvez eu jogasse no sótão e até esquecesse depois.

Desci de novo.

O quadro estava preso por um prego. Tirei da parede…

E congelei.

Atrás dele… havia um buraco.

Um buraco profundo, cavado dentro da parede.

Era um cômodo.

Um maldito cômodo dentro da parede da minha casa.

E o pior… era o que tinha lá dentro.

Um tapete. Meu sofá desaparecido. Uma mesa com embalagens vazias. E o controle remoto.

O controle que eu perdi.

A televisão estava lá também, encostada na parede, ligada por fios puxados de fora.

Meu corpo inteiro gelou.

Alguém estava vivendo dentro da minha casa.

Comendo minha comida.

Roubando minhas coisas.

Montando um quarto secreto na porra da minha parede.

Foi quando ouvi uma porta bater atrás de mim.

Virei assustado.

Era a porta da frente.

Alguém tinha acabado de sair.

Corri até lá — não tinha ninguém.

Olhei pra fora e vi algo… uma sombra se afastando na noite.

Ela mancava… mas se movia numa velocidade absurda.

E o jeito que corria…

Meu Deus.

Aquilo não era normal.

Não balançava os braços. Não mantinha o corpo reto. Era como se só as pernas estivessem funcionando, impulsionando aquela coisa numa velocidade impossível.

Aquilo ficou gravado na minha cabeça.

Eu fiquei parado, pálido.

Nem ferrando que eu ia atrás daquilo. Aquela coisa corria quase tão rápido quanto um atleta olímpico.

Fechei a porta. Tranquei.

Subi correndo. Tranquei meu quarto também.

E fiquei ali.

Sem me mexer.

Sem pensar.

Até perceber que já tinha amanhecido fazia horas.

Como eu ia dormir depois daquilo?

Eu nunca estive sozinho.

E quem estava comigo… não era uma pessoa.

Era um monstro.

Vivendo dentro da minha parede.

E Deus sabe há quanto tempo.

A polícia nunca descobriu quem estava lá naquela noite. Tentei pedir ajuda de novo, mas, mais uma vez, não tinham nada com que trabalhar.

Instalei câmeras e sistemas de segurança pela casa inteira.

Porque percebi uma coisa naquela noite:

Se eu não tivesse encontrado aquilo…

Talvez não fossem só minhas coisas que iam desaparecer.

Poderia ter sido a minha vida.

E tem uma coisa que não sai da minha cabeça até hoje:

Aquilo não só vivia na minha casa.

Aquilo sabia que eu esquecia as coisas facilmente.

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon