Sem sentido. É tudo sem sentido. Vida, morte, não importa nada; não tem porra nenhuma lá fora e ninguém vai vir te salvar.
Eu… acho que tô me adiantando. Meu nome é Wayne, e tem uma corda no meu quintal que não leva a lugar nenhum.
Hoje é sábado, 6 de março. Enterrei minha mãe hoje de manhã; o câncer no fígado finalmente acabou com ela. Ela era uma lutadora, sempre foi. Não… não tá sendo fácil. Sei que isso não parece importante agora, mas prometo que é. Só continua ouvindo.
Foi um velório bonito. Recebi os pêsames de todas as tias e tios que não via desde o enterro do meu pai, e ouvi o mesmo mantra ensaiado das amigas da minha mãe, tentando me consolar. “Ela tá num lugar melhor agora”, todas diziam. “Ela tá no céu neste exato momento, rindo de nós aqui chorando por causa dela.”
Agora eu tenho mais medo do que nunca do lugar onde ela se meteu.
Naquela noite, voltando pra casa, a única coisa que me impediu de jogar o carro pra fora da estrada foi o pensamento de que minha mãe acordaria no céu e seria recebida pelo abraço quente do meu pai. Ele apertava ela forte, prometendo que nunca mais iria embora. Não posso dizer que esse pensamento me traz consolo algum agora.
Assim que entrei pela porta da frente da minha casinha simples, já tava fuçando dentro da geladeira atrás de uma solução alcoólica pra dor. No final, peguei um fardo de cerveja e decidi beber até apagar na varanda dos fundos. Minha casa não tem nada de especial: um quarto, um banheiro e uma cozinha do tamanho de uma van. O que falta em tamanho sobra na vista. A varanda dos fundos dá direto pra uma clareira pequena na borda de uma floresta atrás do bairro. Algumas das minhas coisas favoritas são fumar charuto olhando pras estrelas, tomar café vendo o sol nascer e, naquela noite, ficar bêbado sob a luz da lua.
Só que quando abri a porta de correr naquela noite, não encontrei a dança dos vagalumes nem o canto dos grilos. Em vez disso, dei de cara com uma corda pendurada. Olhei ao redor do quintal pra ter certeza de que não tinha ninguém estranho por perto, saí da varanda e me aproximei daquela merda. A corda era grossa, com cerca de 1,3 cm de diâmetro, cor marrom escura. Quando segui ela com os olhos pro céu, tomei um susto ao perceber que tava errado: a corda não estava amarrada em árvore nenhuma e simplesmente sumia no nada.
“Que porra é essa?”, murmurei pra mim mesmo, colocando o fardo de cerveja no chão.
Estendi os dois braços, segurei a corda com força e dei um puxão, achando que ela ia soltar e cair como algum erro que precisava ser consertado, virando história pra contar em volta da fogueira. Mas nada. Ela continuou firme, ancorada no nada, sem mexer um milímetro.
Dei um passo pra trás e olhei de novo pra cima. Ainda não sei explicar, mas só de ver aquela coisa eu já fiquei puto da vida. Ela não tinha o direito de estar ali. Era como um dedo do meio apontado pras leis do universo.
Arregacei as mangas e me aproximei com uma confiança arrogante de que ia consertar aquilo. Agarrei a corda e puxei com toda a força que eu tinha. Mesmo assim, ela não se mexeu. Berrei de raiva, enrolei a corda nas mãos e gritei: “Sua merda! Por que você não se MEXE logo!” Meus pés afundaram na terra e eu senti a corda ceder um pouquinho. Já foi o suficiente pra eu continuar puxando.
“Isso aí! Vai se foder—!” rosnei com os dentes travados antes da corda escapar das minhas mãos.
Caí de costas no chão e gritei de dor quando uma queimação insuportável tomou conta das palmas das minhas mãos. Antes que eu pudesse olhar pros ferimentos, a corda voltou pro lugar com tudo e um badalo ensurdecedor explodiu lá do céu. Tampei os ouvidos, perdi a audição por alguns segundos e depois só restou um zumbido agudo na cabeça.
Olhei desesperado ao redor, achando que uma bomba tinha explodido. Mas não tinha nada. Quando minha audição voltou, entendi o que era: a corda balançava devagar enquanto o som de um sino ecoava do alto.
“Que porra tá acontecendo!?”, gritei.
O sino foi diminuindo aos poucos até a corda parar de novo. Só então prestei atenção na dor queimando nas mãos. A pele da palma tinha sido arrancada nos lugares onde eu tinha segurado. Só de olhar já doía dez vezes mais. Comecei a voltar pra varanda pra fazer um curativo.
Mas no instante em que dei as costas pra corda, centenas de milhares de vozes gritaram ao mesmo tempo dentro da minha cabeça. Caí de joelhos apertando a cabeça, rangendo os dentes. Cada voz era diferente, mas todas transmitiam a mesma mensagem.
Elas falavam numa língua que eu nunca tinha ouvido, mas minha alma entendia perfeitamente.
“Quem é você?”, elas gritavam em pura agonia.
“Para, por favor para!”, eu berrei.
“Wayne?”
“Dói! Para, por favor, tá doendo!”
As vozes silenciaram. Abri os olhos e não tinha ninguém. Levantei girando como um doido, procurando de onde aquelas vozes tinham vindo, mas não havia alma viva.
“Você tocou o sino”, as vozes sussurraram novamente, baixinho.
Continuei olhando pra floresta. Conseguia ouvir elas em todo lugar, mas não via ninguém.
“Você pediu nossa presença. Chamou por nossa voz. Fez um sacrifício. Agora, o que você quer?” As vozes estavam ficando impacientes.
“Quem são vocês?!”, gritei, recuando devagar.
“Nós somos tudo. Nós não somos nada. Nós somos todos. Nós somos menos. Nós somos a morte. Nós somos a vida. Nós somos um anjo. Nós somos um demônio. Nós somos quem você chamou.”
“O que vocês querem?!”, berrei, cada vez mais apavorado.
“Você nos invocou. Fez o sacrifício. Queremos que faça sua pergunta.”
“Eu não entendo!”, gritei, o medo tomando conta.
“Quer que a gente te ajude a entender?”
Balancei a cabeça. O sino tocou forte lá em cima e eu gritei.
“Você nos invocou. Sofreu por nós. Então viemos trazer conhecimento em troca do seu sofrimento. Nós sabemos tudo. Nós somos tudo. Vamos revelar qualquer verdade que você pedir… por um pequeno preço”, a voz respondeu com satisfação.
“Por que eu deveria acreditar em vocês?”, perguntei.
Uma pergunta tinha ficado martelando na minha cabeça. Se aquela coisa pudesse responder, eu tinha que perguntar.
“É essa a verdade que você deseja conhecer?”, as vozes sussurraram, ainda mais perto.
“Sim”, respondi firme, me aproximando da corda de novo.
“Você está disposto a sofrer por essa verdade?”
Meu sangue gelou. Repeti a pergunta na cabeça e respondi: “Sim!”
“Estenda sua mão”, as vozes disseram, quase alegres.
Estendi o braço. Em vez de resposta, veio uma dor lancinante. Caí no chão gritando, me contorcendo. Minha mão tinha murchado, a pele rasgada nos nós dos dedos, osso à mostra, veias pretas. Não sangrou, mas doeu mais que qualquer coisa na vida.
“Que porra você fez comigo?!”, chorei.
A dor sumiu tão rápido quanto veio e o sino tocou novamente.
“Seu nome é Wayne, quarenta e três anos, sozinho. Seu pai morreu de infarto, sua mãe morreu de câncer, você...”
“Para. Eu acredito em vocês.” A ferida na mão continuava lá, mas parou de doer. “Onde estão meus pais? Eles estão no céu? Estão felizes?”
Houve silêncio. Depois as vozes voltaram: “Você está disposto a sofrer por essa verdade? O preço é muito maior pra esse segredo. Um preço que só pode ser pago uma vez.”
“Sim, eu estou disposto!”, gritei, a raiva crescendo.
O sino tocou mais uma vez.
“Me ajuda!” Uma voz familiar gritou de dentro do nada.
Era a voz da minha mãe, sozinha dessa vez.
“Mãe?!”, berrei, correndo até a corda.
“Me ajuda, por favor! Eu não quero mais ficar aqui, por favor me tira daqui! POR FAVOR!”, ela implorava chorando.
“Mamãe, onde você está?!”
“Me ajuda!”, uma voz masculina gritou.
“Pai? Pai, onde você tá? Por favor aparece!”
Eu chorava sem parar, me sentindo completamente inútil.
“Eles agora fazem parte de nós”, as milhares de vozes voltaram, abafando tudo. “Eles não estão felizes. Eles estão sofrendo.”
“Traga eles de volta! Para de machucar eles! Pega eu no lugar deles! POR FAVOR!”, implorei de joelhos.
“Você recebeu sua verdade. Agora nos dê seu sofrimento.”
“NÃO! TRAZ ELES DE VOLTA!”, gritei.
Peguei o fardo de cerveja e joguei com toda força na floresta.
“Nos dê...”, as vozes sussurraram antes de sumir.
As cervejas voltaram voando em alta velocidade, explodindo ao meu lado, abrindo um buraco no chão e me encharcando de cerveja.
“O SEU SOFRIMENTO!”, as vozes berraram com puro ódio.
Corri pra dentro de casa, bati a porta e tranquei tudo, fechando todas as cortinas.
Mesmo agora, enquanto digito isso escondido na cozinha, fico olhando pelas frestas das cortinas. Juro que vejo algo magro e pálido correndo entre as árvores, me provocando. Não tenho muito tempo. Ele quer a minha voz também. Quer que eu pague o preço.
A corda mudou. Agora está suspensa a quase dois metros do chão, terminando num laço de forca. Eu sei o que ele quer que eu faça. E não vai parar até conseguir.
Estou com um medo do caralho, completamente aterrorizado. Não quero morrer. Não quero me juntar àquela coisa!
Ainda escuto a voz da minha mãe implorando por ajuda.
O sino está tocando de novo. Chegou a hora. Antes de ir, só consigo pensar: será que essa verdade valeu a pena morrer por ela? Ou tem coisas que é melhor deixar mortas?


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