Lá pelos idos do final dos anos 1990, começo dos 2000, quando eu era uma criança pequena, vivi algo que até hoje não dá pra explicar direito como ou por que aconteceu. Perguntei pra gente próxima sobre isso e vasculhei um monte de posts na web atrás de alguém que tivesse passado por uma parada parecida.
Minha memória pode estar meio embaçada em alguns detalhes, mas é o começo de algo que me incomoda há décadas. Então... lá vai:
Eu era moleque ainda, morava numa casa pequena com a família e dividia o quarto com meu irmãozinho bebê; o quarto dos meus pais ficava a uns quinze passos da minha cama pra cama deles, só uma salinha adiante. A cozinha era o que você via logo de cara ao entrar no quarto deles, com as bancadas e armários marrons, a pia da cozinha e a janela que dava pros pinheiros do vizinho. Era um bairro tranquilo pra caramba, onde nunca rolava nada, mas a gente trancava as portas à noite mesmo assim.
Eu tinha problema pra dormir de noite quando era pivete, então ia pro quarto dos meus e me enfiava no espaço entre eles. Na real, era porque ficava muito quente no meu quarto e eu esperava umas horas até a cama esfriar pra voltar pro meu canto. Fiz isso um monte de noites, e essa noite começou igualzinha às outras. Entrei no quarto dos meus pais, me enfiei entre eles, dormindo de lado, de olho nas costas do meu pai enquanto ele roncava de frente pra porta que levava da cama deles pra cozinha. Passou um tempo, mas quando acordei, o lugar do meu pai na cama tava vazio, os lençóis e as cobertas jogados de qualquer jeito por cima; pensei que ele tinha saído pra fumar ou ido pro trampo se fosse cedinho, o motivo dele estar acordado não era o que me incomodava.
Enquanto eu ficava ali deitado, olhando pra cozinha, veio esse frio rastejante subindo pela garganta e pelo peito, aquele pavor que pinica os dentes. Vi uma espécie de estática física quase, tipo uma onda saindo do lado da porta pro quarto e subindo pelo lado da cama até onde eu tava, uma estática igualzinha à neve da tela de TV fora do ar. Ela passou por cima dos lençóis bagunçados e caiu na minha mão, virando um tijolinho fininho tipo controle remoto de TV. Lembro de virar a cabeça e olhar pro teto, pro ventilador de teto. As tampas de vidro do ventilador piscando pra mim, e o ventilador se transformando numa cara gritando que logo virou esses retângulos finos de estática se mexendo como um menu de seleção. Eu podia escolher qualquer sonho, fechar os olhos e cair nele; quando acordava, as telas ainda tavam lá, e eu podia continuar isso o quanto quisesse. Acordei de manhã coberto com uma coberta da ponta da cama dos meus pais, com a luz do sol entrando pelas cortinas da janela da cozinha e pelas persianas plásticas semi-fechadas da janela do quarto deles.
A partir daquele dia, essa estática me seguia no escuro, vagamente com formato de silhueta de gente presa num loop. Em toda casa que eu morei, essa figura de estática sempre vem correndo pra cima de mim e me encara de cima quando eu tento dormir, só pra reiniciar assim que eu pisco, voltando pro mesmo loop de figura correndo pela porta e descendo o corredor escuro. Nunca é a mesma silhueta, umas são baixas e outras altas, mas elas sempre fazem a mesma merda. Quando era moleque, eu pedia pra elas me deixarem em paz, ou me darem espaço pra dormir, e elas pareciam quase obedecer. Aquele mesmo frio me acompanhando toda vez que isso rolava.
Não sei se quando era criança eu tinha imaginação fértil demais ou se via TV demais; descartei paralisia do sono e sonhos lúcidos faz tempo, porque eu conseguia me mexer e tava bem alerta nessa parada. Mas isso ainda me persegue até hoje, e aquele evento esquisito, que nunca mais rolou depois dessa única vez, da onda de estática, foi o estopim pra toda essa roda viva das pessoas de estática. Comentei isso uma vez com um parente distante, já na adolescência, depois de anos lidando com isso sem explicação. Ele disse que podia ser coisa sobrenatural, tipo espíritos, já que eu morei em lugares com cemitérios e tal.
No começo achei besteira total, mas mudei de ideia quando peguei uma dessas coisas de estática e fiz perguntas pra ela no silêncio do meu quarto. Perguntei por que ela me atormentava, se era alguém que eu conhecia. Aquele frio que eu já tava acostumado virou forte durante essa conversa. Descobri que essa entidade de estática era meu avô, que morreu quando eu era bem pequeno. Achei estranho e fui dormir sem dar muita bola, até a manhã seguinte. Um pardalzinho marrom ficava tentando voar contra a janela onde minha mãe tava. Pardais são o pássaro que a gente associa pro meu avô em particular.


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