Desde que eu era uma garotinha, sou fascinada por biologia. Tem algo mágico naquelas células minúsculas se unindo pra dar origem a algo que transcende o que elas são individualmente. Algo com comportamentos e uma arquitetura extremamente complexos, capaz até de se explorar e explorar suas próprias partes. Então, é... seguro dizer que ninguém se surpreendeu quando decidi virar pesquisadora. Mais especificamente, eu me atraí pelos efeitos da radiação em organismos vivos, o que me levou a Chernobyl. Trabalho lá desde o começo dos anos 2010 e eu e minha equipe exploramos uma boa parte das áreas restritas.
Essa... história — embora, se você perguntasse pro Luca, ele provavelmente diria que eu devia chamar de pesadelo — começou em fevereiro do ano passado, quando um drone russo atingiu a estrutura do Novo Confinamento Seguro e abriu um buraco enorme nela. Tudo começou porque os níveis de radiação que a gente esperava não batiam com as leituras reais; não é como se eu estudasse física nuclear, mas você provavelmente consegue imaginar que, no meu ramo, contadores Geiger são uma das ferramentas mais básicas que existem. Foi bem estranho ver que o nível de radiação tinha caído tanto, quase uma ordem de magnitude inteira. Foi uma queda dramática pra caralho, mas as instituições não pareciam nem um pouco preocupadas por algum motivo; acho que a guerra fez com que isso não fosse prioridade. Pra mim, porém, era.
Então nossa equipe mandou um pequeno rover controlado remotamente pra investigar o interior da usina nuclear. O veículo carregava um contador Geiger, câmeras (gama espectroscópica, imagem térmica, normais…), unidade de amostragem de ar, LIDAR… O pacote completo. A gente nunca tinha conseguido acessar certas áreas da usina por causa dos níveis absurdamente altos de radiação, o suficiente pra destruir completamente qualquer coisa, biológica ou artificial, em questão de minutos, se não segundos. Dessa vez, no entanto, o contador Geiger do veículo contava uma história diferente. Dessa vez os níveis de radiação tinham caído pra algo entre 3 e 4 milisieverts por hora; ainda alto, mas dentro da faixa aceitável onde uma entrada com traje de proteção por duas ou três horas não excederia os limites anuais de exposição.
A equipe toda estava nervosa, não só por causa das leituras, mas também porque ninguém nunca tinha conseguido ver o que tinha lá embaixo. Eu e outros dois pesquisadores parados, com os olhos grudados nas telas. O veículo continuava avançando pelos corredores labirínticos do subsolo bem embaixo do reator. Alguns estavam alagados, outros desabados, mas tinha um corredor estreito grande o suficiente pra deixar o veículo passar. A gente estava explorando um lugar onde nenhuma pessoa viva tinha pisado desde o desastre nuclear.
“Olha, ali.” Disse o Johan apontando pra tela com as leituras da câmera gama espectroscópica. “Essas assinaturas de Césio-137 e Estrôncio-90 estão… estranhas.”
Elas estavam mesmo estranhas, porque as leituras mostravam que estavam completamente localizadas em vez de dispersas. Quatro décadas de fluxo de poeira, ar e água deveriam ter espalhado os contaminantes de forma quase uniforme, e mesmo assim… A gente esperava descobrir algum tipo de organismo “comedouro de radiação”, ou pelo menos essa era a hipótese inicial com que a equipe toda estava trabalhando. Tinha que ter algum motivo pra esses isótopos estarem todos concentrados numa área específica e, como biólogos, nosso melhor palpite era que tinha alguma coisa se alimentando deles. Fazia sentido, né?
“Está logo atrás daquela porta.” Disse o Luca, batendo na tela da câmera óptica. Tinha uma porta enferrujada que dava pra uma sala adjacente à piscina borbulhadora, que antigamente funcionava como sistema de supressão de pressão e reservatório de refrigerante de emergência. “Parece frágil o suficiente pra abrir se você empurrar com o veículo.”
Então eu fiz isso, e a porta não abriu — ela desabou pra dentro da sala como se mal estivesse se aguentando em pé.
As primeiras imagens foram confusas, pra dizer o mínimo: as câmeras ópticas e a iluminação do veículo ficaram obscurecidas por uma camada grossa de poeira flutuante depois do desabamento da porta. Mas definitivamente tinha alguma coisa errada naquela sala. A geometria parecia estranha, com umas massas esquisitas grudadas nas paredes. Tinha um tom avermelhado, quase carmesim. Era uma cor viva que contrastava com a monotonia da poeira, sujeira, ferrugem e concreto. A textura parecia viscosa, úmida mas não exatamente molhada. As leituras do LIDAR mostravam que aqueles crescimentos estavam ancorados nas paredes, com o concreto aparentemente dissolvido por baixo deles.
“Anastasia, você pode mudar pra câmera térmica, por favor?”
Quando eu mudei, a sala inteira se iluminou. Estava quente. Paredes, chão e teto, tudo pintado de vermelho. As leituras mostravam temperaturas entre 35 e 39 ºC e algum tipo de líquido fluindo constantemente por toda a sala e por dentro daquelas massas.
“Isso parece…”
“Um sistema circulatório”, eu disse. “E a temperatura… é bem característica, quase como se estivesse… vivo.”
Luca e Johan olharam pra mim, não assustados, mas quase empolgados. Definitivamente era de natureza biológica e as leituras gama espectroscópicas confirmavam que os isótopos de Césio e Estrôncio estavam mais densos dentro daquele… tecido? Eles estavam ainda mais concentrados nas estruturas mais distendidas. Vou ser honesta: tinha alguma coisa perturbadora nessa coisa toda, mas até então era tudo o que a gente esperava, né? Realmente parecia um organismo vivo que se alimentava de radiação ou, pelo menos, de isótopos radioativos.
“A gente devia começar a coletar amostras”, disse Luca tentando conter a empolgação.
“Eu diria que precisamos descobrir se é um organismo único ou algum tipo de colônia. Colete amostras de partes diferentes, tipo… Você consegue aproximar um pouco mais o veículo daquela parede?”
O Johan não parecia tão feliz com a descoberta quanto o Luca. Eu obedeci e empurrei devagar o joystick pra frente, fazendo o veículo avançar vários metros em direção à parede, ainda usando a imagem térmica. Depois mudei pra óptica; eu queria dar uma boa olhada naquela massa antes de coletar qualquer amostra.
“Isso aí é tipo… Isso é um caralho de intestino?” O Luca cobriu a boca. “Está inchado, será que é gás ou…?”
Eu mudei de novo pra câmera térmica e confirmei que a temperatura era homogênea em toda a massa, intestino ou o que quer que fosse. Se estivesse cheio de gás, a temperatura deveria ser menor porque gás tem baixa condutividade térmica. Mais do que isso, a massa estava quase meio grau mais quente que o tecido ao redor. Meus dois colegas chegaram à mesma conclusão sem precisar de palavras. Então o Johan colocou a mão no meu ombro e, com a voz trêmula, perguntou:
“Isso… está se mexendo?”
Tinha movimento dentro da massa. Dentro do pseudo-intestino. Não era movimento como o dos fluidos captados pela imagem térmica, fluindo livremente dentro da rede orgânica. Tinha alguma coisa sólida que não seguia a dinâmica dos fluidos do fluxo circulatório ao redor, mais rítmico que turbulento.
“A temperatura sugere uma taxa metabólica elevada”, eu disse, sem querer continuar. Eu tinha medo do que ia falar em seguida: “como a de um útero de mulher grávida”.
“Que porra você tá querendo dizer, Anastasia?”
Eu me virei e olhei direto nos olhos do Luca. Ele sabia exatamente o que eu estava dizendo; a empolgação dele tinha azedado pra alguma coisa mais sombria. Tinha um leve sinal de medo camuflado por trás de uma camada de incredulidade.
“Só… pega a amostra, vai?”
…
Eu guiei o veículo de volta pelo corredor estreito e pra fora da zona radioativa imediata, depois parei ele no ponto de descontaminação designado. O Johan vestiu o equipamento de proteção e borrifou o veículo com solução descontaminante, depois escaneou tudo com cuidado usando o contador Geiger. Qualquer leitura acima do fundo natural levaria a outra rodada completa de descontaminação, mas os níveis baixos de radiação trabalharam a nosso favor dessa vez.
Depois ele removeu os recipientes com o material orgânico ainda na zona de descontaminação. O Johan manipulou eles com cuidado, selando em várias camadas e recipientes, tipo uma boneca matryoshka. O último passo foi colocar tudo dentro de uma caixa de transporte forrada de chumbo etiquetada com fita de alerta de radiação. Quando ele foi pegar os recipientes com as amostras de ar, parou.
“Vocês estão vendo isso?” ele perguntou, apontando o contador Geiger pra unidade de amostragem de ar. “Parece sangue seco.”
“Sangue seco e sujeira.”
“Está obstruído. Os recipientes de ar parecem…” O Johan sacudiu o que estava na mão dele e fez um som como se tivesse líquido dentro. “Definitivamente tem alguma coisa líquida aí dentro.”
…
Nas três semanas seguintes nós fizemos várias análises diferentes tanto nas amostras de tecido quanto nos recipientes de ar:
Uma triagem radiológica pra avaliar os níveis de radiação e determinar qual contenção seria necessária pro trabalho de laboratório. Os resultados mostraram uma concentração extraordinariamente alta de Césio-137 e Estrôncio-90 nas amostras de tecido, o que significava que precisariam ser manipuladas em um ambiente de contenção específico.
Depois, uma vez que sabíamos como trabalhar com elas com segurança, um estudo histológico básico que… Bom, eu examinei elas no microscópio depois de preparar as lâminas e colorir. Nesse ponto, eu não sabia o que esperar. Já estava perturbada com o que tínhamos visto e teorizado, mas nada poderia ter me preparado pro que vi sob a lente: as células eram humanas. Eram inequivocamente humanas, a ponto de eu reconhecer na hora. Núcleo, citoplasma, organelas… tudo humano, mas com proteínas expressas e certas estruturas pesadamente mutadas. E o tipo de tecido ficou claro pra mim assim que entendi a natureza delas… Eram células do endométrio. Tínhamos coletado amostras de um útero. Um útero humano vivo.
A análise genética não foi melhor; se alguma coisa, foi ainda mais perturbadora. PCR e sequenciamento. O DNA estava pesadamente mutado, com genes suficientes intactos pra estabelecer a linhagem celular. Os resultados das mutações eram coerentes com aqueles encontrados em certos tipos de câncer agressivo. Os padrões de metilação mostravam o silenciamento sistemático das vias de reparo de DNA; genes que ajudariam a reparar danos por radiação tinham sido progressivamente desligados, impedindo a célula de combater as mutações e fazendo ela simplesmente acumulá-las. Era como se aquela coisa estivesse se construindo a partir da radiação.
As mutações resultaram em novos genes, que codificavam novas proteínas. E algumas delas funcionavam como enzimas novas, catalisando reações que células humanas normais não fazem. Tinha uma coerência profunda ali, não era só um tumor aleatório. Cânceres não têm esse nível de funcionalidade, eles só atrapalham o funcionamento correto daquilo que contaminam até um nível patológico. A gente tinha descoberto alguma coisa… transcendental.
“Bem, se eu não estava convencido antes, agora com certeza estou.” Disse o Johan, de braços cruzados. Ele não estava achando graça; o tom dele era mortalmente sério: “Aquela coisa está viva por direito próprio. Não é um… tumor.”
“Também não é uma pessoa…” começou o Luca, e aí a voz dele falhou um pouco: “Né?”
“Nenhuma das amostras continha nada parecido com tecido neural maduro”, eu respondi. “Só uterino.” Pausei por um segundo enquanto lembrava de uma coisa: “Embora várias amostras tivessem concentrações anômalas de células expressando versões modificadas de proteínas mecanorreceptoras. São… uh… as mesmas proteínas envolvidas na sensação de pressão e estiramento no tecido uterino normal.”
Silêncio.
“E as amostras de ar?”
O Johan levantou o tablet e desbloqueou. Tinha uma mensagem não aberta na caixa de entrada, assunto “Amostras de Ar #33-37 — Resultados dos Testes”. Ele tinha recebido ela mal tinha cinco minutos. Baixou o arquivo anexado do laboratório externo que analisou os recipientes e abriu.
Os recipientes continham material particulado em concentrações aproximadamente quarenta a cinquenta vezes maiores que os níveis de fundo nos corredores externos: a atmosfera da sala estava densa com materiais suspensos. A análise particulada identificou como um “biofilme?”, com ponto de interrogação incluso. Era composto de três componentes: poeira radioativa consistente com o perfil de isótopos conhecido do ambiente do subsolo, material de membrana lipídica fragmentada consistente com lisado de origem biológica, e estruturas intactas semelhantes a organelas. Mais especificamente, o que parecia ser algum tipo de “mitocôndrias modificadas” mais consistente com aerossolização ativa do que com dispersão mecânica por causa da concentração. O relatório também incluía um comentário apontando que as “mitocôndrias modificadas” ainda estavam metabolicamente ativas no momento da análise. Três semanas depois da coleta da amostra.
“Acho que a gente devia reportar isso”, murmurou o Luca, “não tô nem aí se algum outro grupo de pesquisa levar o crédito. Isso é demais… Tipo, que porra isso significa, Ana?”.
O Johan estava quase surtando, igual ao Luca, mas pelo menos tentava se controlar pra caralho:
“Respira, Luca. Isso é… empolgante. Né? Uma nova descoberta, alguma coisa que só a gente sabe que existe. A-algo pra estudar…”
“Nova? É feito de células humanas pra caralho, Johan. Está viva. Está lá há quatro décadas malditas. Talvez seja melhor se ninguém souber que existe. Não existe palavra pro que quer que AQUILO seja.” Ele apontou pro vídeo das câmeras ópticas do veículo que estava passando numa tela ao fundo.
“É um útero humano, sem corpo, de alguma forma. E não é só um, a sala inteira está coberta deles, eles estão comendo o concreto, a fundação da usina. É quase como se eles se alimentassem da radiação, tipo, tipo…”
“Foda-se isso.”
O Luca saiu da sala batendo o pé. Um dia depois, as amostras e todo o nosso equipamento tinham desaparecido. Os documentos, os vídeos, nosso artigo meio escrito, tudo. Sumiu. Nosso acesso às instalações foi revogado e fomos forçados a assinar um acordo de confidencialidade pelo governo ucraniano — que ninguém traduziu pra gente — e fomos deportados. A explicação oficial foi “visto de trabalho vencido”.
Faz quase um ano que não vejo o Luca nem o Johan. Tentei manter contato com o Johan, mas ele parou de me responder há uns meses. Não sei nada sobre o Luca e ele não atende o telefone.
Cadê a curiosidade deles? Por que não correr atrás disso?
Tem uma coisa que ainda me incomoda pra caralho quando penso naquilo… Estava grávida, não estava?


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