quinta-feira, 5 de março de 2026

Ficar bêbado no trabalho foi uma ideia realmente péssima

Nada é pior do que estar longe de casa em noites de inverno com neblina. Ou pelo menos era o que eu achava. Ser um universitário que largou o curso, beber demais e ainda ficar com dor de cabeça com certeza piorava toda a desgraça. Ah, e eu odiava aqueles chuviscos de monção de inverno. A cada passo que eu dava, minha roupa ficava mais nojenta porque a lama espirrava nas minhas calças. Rajadas de vento gelado cortavam os galhos acima da minha cabeça, me fazendo tremer de frio, junto com aquele barulho de chocalho que as árvores faziam.

Enquanto eu seguia a pé pro meu destino, fiquei lembrando do meu tempo curto na faculdade. Ainda me recordo da última aula que assisti. Era sobre a Gaiola de Faraday. Ah, Sr. Faraday. É impressionante como você conseguiu fazer tanta coisa com os recursos limitados que tinha. Cresceu na pobreza, trabalhou como encadernador de livros e aprendeu tudo só lendo os livros ao redor. Eu tinha esperança de conseguir fazer o mesmo. Mas, infelizmente, a faculdade era cara demais. Agora eu estava preso trabalhando como assistente do meu tio nas investigações particulares dele. Mesmo assim, isso era melhor do que ser garçom ou lavador de pratos. Tinha um pouco de dignidade nisso, embora às vezes eu me sentisse só um menino de recados.

E o recado que eu tinha que fazer naquele dia era coletar informações com os moradores dos Apartamentos Greenville, que ficavam em Providence. Providence era uma parte bem isolada da cidade que, ultimamente, tinha ficado famosa por uma série de desaparecimentos. Meu tio estava trabalhando num caso específico e precisava de algumas informações diretas dos locais.

Tenho que admitir: mesmo se você ignorasse as manchetes sobre Providence, o bairro tinha um ar estranho pra caralho. As casas eram muito espaçadas umas das outras, e só algumas tinham luz acesa. Estranhamente, a mesma coisa acontecia com os postes de rua. A maioria piscava, e alguns nem funcionavam. O bairro inteiro parecia congelado no tempo — indiferente a qualquer progresso material que a cidade tinha feito na última década.

Meu celular vibrou. Era uma ligação do meu tio.

“Você já chegou no prédio?”, ele perguntou.  

“Quase lá.”  

“Ótimo, anda logo. Você já devia ter terminado isso tudo até o meio-dia. Você sabe como as coisas podem ficar feias em bairros desse tipo.”  

“É, eu volto a tempo. Aliás, que tipo de gente eu vou encontrar nesse gueto? Casais falidos, viciados em crack? Ouvi falar que os drogados se enfurnam em lugares assim. E se você tá tão preocupado com esse lugar, me mandar pra cá como parte do meu trabalho me parece uma violação de ética profissional.”  

“Tá bom, meu erro. Só pega os depoimentos das pessoas em Greenville e vaza. Não fica criando caso. Ninguém vai te encher o saco enquanto você ficar na rua principal. Os viciados geralmente ficam longe dela.”  

“É, eu sei. Mas mesmo assim, tem alguma coisa nesse lugar que tá me dando arrepios.”  

“Pô, garoto, é inverno.”

Revirei os olhos pro comentário do meu tio e encerrei a ligação, dizendo que talvez eu estivesse exagerando. Guardei o celular no bolso porque a bateria já estava quase no fim e eu queria guardar o que restava pra alguma ligação de emergência caso essa sessão de perguntas desse merda.

Continuei andando pela rua detonada até que um prédio caindo aos pedaços apareceu na minha frente, com a sombra cobrindo metade da rua. As janelas batiam com força no vento, e entre as vidraças escuras, só a do quinto andar tinha luz acesa. A placa no portão aberto de par em par dizia “Greenville”. Entrei e vi que a recepção estava vazia. Gritei chamando o segurança, mas não veio resposta nenhuma. Andei devagar pro corredor, pensando no estado deplorável do prédio. Dentro tinha uma fileira de quartos com portas trancadas. No final do corredor ficava a porta enferrujada do elevador. Tinha uma marca de amassado pra fora. Parecia que alguma coisa tinha batido com força de dentro pra fora.

“Devem ter sido uns golpes bem fortes”, murmurei pra mim mesmo e me arrependi de ter bebido tanto, porque parte do meu cérebro começou a ver o formato do amassado como um rosto em agonia.

Afastando esses pensamentos loucos e sem fundamento, apertei o botão de SUBIR e a porta de metal abriu. O elevador era apertado pra caralho, nem cabia direito uma pessoa. Do lado oposto da porta tinha um espelho sujo e rachado que ia até o teto. “Parece que ninguém se preocupa mais em limpar aqui. Foda-se. Só preciso acabar logo com isso.” Apertei o botão do quinto andar pra ver quem morava lá. A luz do elevador piscava enquanto ele lutava pra subir com meu peso. Parou com um tranco, a grade abriu e eu respirei aliviado ao sair daquela porra de caixão de metal sufocante.

Surpreendentemente, os quartos desse andar não tinham trancas nas portas. Examinei o corredor procurando quartos com gente. Bati em todos, mas ninguém respondeu, até chegar na porta mais afastada do elevador. Assim que meu nó do dedo encostou, a porta abriu sozinha de par em par. Meu nariz foi invadido por um fedor podre que vinha de dentro do quarto. Cheirava a coisa morta e me obrigou a tirar o lenço do bolso pra cobrir o nariz. Quando entrei, um mal-estar tomou conta de mim e eu senti que estava invadindo território hostil. O quarto estava completamente escuro e eu tropeçava nos móveis tentando encontrar quem morava naquele buraco negro de podridão. Quando saí das teorias malucas que minha cabeça estava criando, percebi um rangido contínuo vindo do fundo do corredor. Fui andando devagar, com passos hesitantes e leves, respirando o mais devagar possível, já que eu já estava morrendo de medo.

Entrei num quarto novo onde o fedor horrível estava no auge. Vi que o rangido sinistro vinha de uma cadeira de balanço perto de uma janela de vidro meio aberta, com uma figura sombria sentada nela. Chamei com relutância, mas não tive resposta. A curiosidade venceu e decidi usar a lanterna do celular pra ver quem estava sentado do outro lado do quarto. Exatamente quando estiquei a mão pro celular, um raio caiu no chão lá fora. O clarão atravessou as vidraças e iluminou o quarto inteiro por um segundo. Meu coração parou naquele exato momento quando vi um rosto grotesco olhando direto pra mim. Era uma visão nojenta de carne podre toda retorcida num formato que mal lembrava um rosto. Dei um grito e juntei toda a força que eu tinha pra correr pra saída. Enquanto eu me debatia no corredor escuro, ouvi um rugido atrás de mim, forte como um trovão, que me deu um calafrio na espinha. “Será que aquela aberração me viu? Tá me perseguindo? Ou só chamou por mim?” Eu não sabia de porra nenhuma. Minha cabeça e meu coração estavam disparados. Meu único objetivo era sair vivo daquele prédio.

De alguma forma cheguei no elevador e fiquei apertando o botão de DESCER sem parar, ofegando. Assim que a porta abriu, eu pulei dentro daquela merda de caixão de metal. Fiquei apertando o botão do Térreo, mas não registrava. Nenhum outro botão funcionava também. No final, admitindo a derrota, apertei o botão do estacionamento subterrâneo e ele funcionou. A porta de metal finalmente fechou e a descida começou. Peguei o celular e liguei pro meu tio. Contei tudo de qualquer jeito, mas, estranhamente, não ouvi nada do lado dele. Nem um som. “Eu tô fodido?”

A porta do elevador abriu e eu caí pra fora, me vendo no meio do estacionamento abandonado. Mesmo longe daquela coisa, ainda achei melhor ficar o mais quieto possível. Enquanto eu andava na ponta dos pés em direção à escada, notei alguma coisa. Estava agachada nas quatro patas. Pálida. Careca. Pelada. Não parecia humana de jeito nenhum. Segurei o grito que quase escapou. Me movi com o máximo de cuidado e subi as escadas — por sorte eram de concreto, não de madeira, senão o barulho teria alertado a criatura. Quando cheguei na entrada do prédio, saí correndo em disparada e corri o mais rápido que consegui até meu peito começar a doer.

Meus pulmões queimavam. Minha visão embaçou. Caí no chão gelado da calçada. Tudo ficou preto. Quando finalmente abri os olhos, meu tio estava em pé em cima de mim. Ele me contou que, quando eu liguei, não ouviu nada do meu lado, mas sentiu que alguma coisa estava errada. Trouxe uma ambulância e a polícia junto. Eles me disseram que a aberração que eu vi no quinto andar era só o cadáver de uma velha que morava naquele quarto. Ela não tinha parentes conhecidos e, depois que morreu, ninguém soube. O corpo tinha ficado lá apodrecendo por semanas. Explicaram que o rugido que eu ouvi foi só o trovão que veio depois do raio que iluminou o quarto. E que encontraram outro cadáver no estacionamento subterrâneo que tinha sido roído por cães. A carne tinha sido mastigada fora das duas palmas das mãos.

O que eles não me contaram foi sobre a criatura no subsolo. Perguntei sobre ela e eles disseram que provavelmente era fruto da minha imaginação bêbada. Encontraram marcas de mãos no chão do estacionamento. Mas se aquelas marcas eram da vítima ou do agressor, não dava pra saber porque não tinha outras pra comparar.

Desisti do trabalho do meu tio. Preciso ficar longe de prédios abandonados, elevadores e subsolos. Já vejo eles nos meus sonhos. E vejo Ele também. Vejo ele virando pra mim, com um sorriso malicioso grudado num rosto deformado. Sibilando e rosnando, ele vem andando devagar na minha direção. Por sorte, eu acordo antes que qualquer coisa aconteça. Mas esses sonhos malditos estão durando cada vez mais, e algumas noites eu fico apavorado demais pra dormir.

Estou apavorado só de pensar no que um sonho prolongado pode guardar.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon