Quando eu era criança, eu passava muito tempo na casa dos meus avós.
Era tão segura, tão quentinha e, sinceramente, não tinha lugar no mundo onde eu preferisse estar. Eles me davam leite à noite, eu podia dormir na cama grande.
Mas conforme fui crescendo, passei a dormir no meu próprio quarto, e aquele quarto… Ele ainda me assombra até hoje.
Uma cama de solteiro no canto do quarto, encostada bem juntinho em armários que iam do chão até o teto e que te obrigavam a arrastar a cama se quisesse abrir algum. O armário do pé da cama era onde eu guardava minhas coisas boas: lanches, salgadinhos e meus brinquedos favoritos. A janela ficava bem na cabeceira da cama, com um espacinho certinho pra encaixar.
Mas tinha uma coisa em um daqueles armários, o terceiro a partir do final, bem onde minha cabeça ficava quando eu dormia. Eu nunca contei pra ninguém. Achava que estava errado pelo que eu sentia à noite.
De dia era liberdade total e hora de brincar. Eu podia passar o dia inteiro vendo TV ou andando no meu triciclo. Minha avó cozinhava as melhores refeições do mundo e, no meu tempo livre, eu montava meus kits Airfix. Meu avô passava a maior parte do ano fora do país trabalhando. Doía nele deixar a gente tanto tempo assim, mas o comércio naval de petróleo pagava as contas.
Ele sempre trazia todo tipo de lembrança de uma quantidade enorme de países. Areia numa garrafinha da Arábia Saudita, tartarugas de cristal, uma vez até trouxe óleo cru de um vazamento no México. Mas a coisa que ele nunca deixava de trazer eram estátuas de madeira de todos os tipos. Tínhamos bustos esculpidos, manchados de anos tomando sol. Havia estátuas de corpos sem braços nem pernas, sem cabeça, só os corpos, sem nenhuma maneira de se mexerem.
Como era o quarto de hóspedes, eles insistiam em guardar aquelas estátuas ali. Os poucos bustos que ficavam na minha prateleira de cima eu virava de costas antes de dormir. Não conseguia tirar da cabeça a sensação de que eles estavam me olhando. Assim, minha escuridão ficava segura.
…
Eu ia pra cama como sempre naquela noite, com um copo d’água e leite quente que subiam comigo, rotina padrão. Me deitei pra ler e os barulhos começaram. Um gemido grave e baixo, com clique, claque, clique. Quase como o sobe e desce de uma respiração. Apaguei a luz. Eu já estava acostumado com aqueles sons. Se eu apagar a luz, eles não me pegam, não tem como me verem no escuro. Isso significava que a escuridão tinha que ser minha amiga.
O sono me pegava mais rápido do que eu queria todas as vezes. Eu acordava encharcado de suor e paralisado, preso olhando fixo pro meu baú de brinquedos no canto mais distante. Toda. Maldita. Vez. Os barulhos continuavam e o leve brilho no canto, perto do pé da cama, dava a luz que eles precisavam pra se fortalecer. Ficavam cada vez mais altos, o baú de brinquedos parecia cada vez mais longe, mas eu continuava imóvel. Quente, fervendo até os ossos, mas sem conseguir nem levantar a cabeça.
Os rangidos e cliques ficavam mais altos, aquela respiração ralhada de morte me mantinha acordado. Eles estavam ali e eu conseguia senti-los atrás de mim. Estavam dentro dos armários, eu sabia, mas não conseguia olhar. Eles não me deixavam virar, não me deixavam nem fechar os olhos.
O brilho no canto ficava cada vez mais forte, pareciam passar horas com meus olhos grudados abertos. Injetados de sangue, vermelhos e rosados naquela luz escaldante. Eles me forçavam a olhar, mas não me mostravam suas formas verdadeiras. Então eu ficava ali, petrificado com a presença deles, até o cansaço tomar meu corpo à força e me jogar de novo na escuridão.
Às vezes, por algumas noites seguidas, ficava tranquilo. Eu acordava de manhã sem nenhuma memória, com a esperança de que nada tivesse acontecido à noite. Nunca tinha certeza, mas havia sinais.
Eu entrava no quarto durante o dia pra pegar algum lanche secreto. Parecia bobagem ter medo do armário de dia, nenhum barulho, ele estava sempre um pouquinho entreaberto — provavelmente roupa de cama, eu pensava. Mas as estátuas… elas nunca estavam *exatamente* do jeito que eu tinha deixado.
Uma noite, meus olhos abriram de repente. Eu mal conseguia respirar com o calor que estava no quarto. Meu edredom me prendia sem espaço pro ar, eu estava sufocando devagar. Meu suor infiltrava no colchão.
Todo pensamento sobre isso sumiu quando eu notei. Nessa noite eu estava de barriga pra cima, minha visão periférica estava turva, mas eu tinha visão em túnel… Eu conseguia ver a prateleira naquela noite, e o busto que eu tinha virado de costas poucas horas antes tinha tombado de lado e… Ela? Estava me olhando com olhos fundos e vazios, poços negros sem saída. Eles me puxavam pra dentro, mas meu corpo continuava como um cadáver, encharcado até os ossos.
Na lateral da minha visão, um movimento leve. Aquilo, os cliques, a respiração… era demais. Tentei gritar, tentei com todas as forças, mas o grito travou na garganta. Engasguei, entrei em espiral, tossindo e engasgando. A estátua caiu da prateleira e eu caí junto, desabando no chão numa pilha imóvel e quebrada. Soluçando, a escuridão finalmente me consumiu. Não tinha mais luz pra me acordar pros terrores daquele quarto.
Eles me encontraram ali de manhã, imóvel, mas respirando. Eu não conseguia explicar o que tinha acontecido comigo, mas eles me abraçaram forte.
Anos depois, eu perguntei pro meu avô sobre os barulhos. Lembrei de repente numa noite, durante o jantar em família. Ele riu e me contou que a caldeira antiga fazia todo tipo de som: batidas e gemidos enquanto os canos se expandiam. De repente tudo fez sentido. Eu me senti ridículo por ter medo de uma coisa tão boba. Ele continuou dizendo que a caldeira tinha sido removida em 1978. Eu ri e falei que não podia ser, eu nasci no começo dos anos 2000.
Ele sorriu e deu de ombros, devia estar me confundindo com o meu pai.


0 comentários:
Postar um comentário